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Autismo, evidências e o acesso a políticas públicas (por Jorge Amaro)

Por:Sul 21
27 de Abril de 2026, 09:23

Jorge Amaro (*) 

O Brasil atravessa um momento histórico no reconhecimento do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Pela primeira vez, o país dispõe de um conjunto consistente de evidências capazes de revelar, com maior precisão, quem são, onde estão e em que condições vivem as pessoas autistas. O IBGE, ao incluir o autismo no Censo 2022, inaugura uma nova etapa na produção de dados públicos. No Rio Grande do Sul, a experiência da Carteira de Identificação da Pessoa com TEA (CIPTEA), coordenada pela FADERS, consolida um banco de dados com validação clínica, algo ainda raro no cenário nacional. Soma-se a isso o avanço recente do Mapa Autismo Brasil, que amplia a compreensão ao trazer um retrato das condições de vida, acesso a serviços e desigualdades enfrentadas por essa população.

Temos dados. Temos diagnósticos. Temos evidências. Mas ainda não temos, na mesma medida, políticas públicas que respondam a essa realidade.

Esse descompasso entre conhecimento e ação revela um dos principais desafios contemporâneos da gestão pública: transformar evidências em direitos concretos. O que os dados vêm mostrando, de forma cada vez mais nítida, é que o acesso ao diagnóstico, às terapias e aos benefícios sociais continua profundamente desigual. O Mapa Autismo Brasil evidencia que a maior parte dos diagnósticos e atendimentos ocorre fora do Sistema Único de Saúde, o que indica que o acesso ainda está condicionado à renda. Ao mesmo tempo, no Rio Grande do Sul, mais da metade das pessoas com TEA depende exclusivamente do SUS para seu acompanhamento, o que tensiona um sistema já sobrecarregado e evidencia a necessidade de ampliação e qualificação da rede pública.

Essa desigualdade se torna ainda mais evidente quando se observa o acesso a direitos como o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e o passe livre. Em tese, trata-se de instrumentos fundamentais de proteção social e inclusão. Na prática, porém, são atravessados por barreiras burocráticas, critérios restritivos e dificuldades de acesso que afastam justamente aqueles que mais precisam. O BPC, por exemplo, ainda opera sob uma lógica que não dialoga plenamente com a realidade do autismo, especialmente quando se trata de avaliar as limitações funcionais e o impacto da condição na vida cotidiana. Já o passe livre, essencial para garantir o acesso à saúde, à educação e aos serviços especializados, muitas vezes esbarra em exigências administrativas que transformam um direito em um percurso exaustivo.

O resultado é um cenário paradoxal: o Estado reconhece o autismo como deficiência, assegura direitos no plano legal, mas falha na sua materialização concreta. E essa falha não é pontual — ela é estrutural.

Os dados também revelam transformações importantes. Há um crescimento significativo no diagnóstico de adultos, o que indica que uma geração inteira passou décadas sem reconhecimento. Da mesma forma, o aumento do diagnóstico em mulheres aponta para a superação gradual de um histórico de invisibilização, marcado por vieses clínicos e sociais. Esses avanços são relevantes, mas também ampliam a responsabilidade do poder público. Não se trata mais apenas de garantir diagnóstico precoce na infância, mas de estruturar políticas que acompanhem as pessoas ao longo de todo o ciclo de vida.

Outro elemento que merece atenção é a desigualdade territorial. O acesso às políticas públicas varia significativamente entre regiões e municípios. Há localidades com forte articulação institucional e cobertura de serviços, enquanto outras permanecem com baixa identificação e acesso limitado. Essa realidade evidencia que, no Brasil, o direito ainda é mediado pelo território. Em outras palavras, o acesso à política pública depende, em grande medida, do lugar onde se vive.

Diante desse cenário, é preciso reconhecer que o problema não está na ausência de políticas, mas no modelo em que elas operam. A fragmentação entre saúde, educação e assistência social, a burocratização do acesso e a focalização excessivamente restritiva produzem um sistema que, embora bem-intencionado, não consegue responder à complexidade do autismo. Trata-se de uma condição que exige abordagem intersetorial, continuidade do cuidado e reconhecimento das singularidades de cada pessoa.

Transformar esse cenário exige mais do que ajustes pontuais. Exige uma mudança de paradigma. É necessário simplificar o acesso aos direitos, integrar bases de dados e políticas — utilizando, por exemplo, instrumentos como a CIPTEA como porta de entrada para outros serviços —, fortalecer o SUS e o Sistema Único de Assistência Social (SUAS), ampliar o acesso ao BPC e garantir a mobilidade como direito estruturante.

Mas, sobretudo, é preciso deslocar o olhar da política pública: sair de uma lógica de controle e restrição e avançar para uma lógica de garantia de direitos.

O Brasil já deu um passo importante ao tornar visível a população autista. No entanto, visibilidade não é inclusão. Dados não são direitos. Diagnóstico não é cidadania.

A verdadeira medida de uma política pública não está na sua formulação, mas na sua capacidade de transformar a vida das pessoas.

E é justamente aí que reside o nosso maior desafio: fazer com que o conhecimento produzido — cada número, cada dado, cada evidência — se converta, de fato, em dignidade, autonomia e participação social.

Porque, no fim, a questão que permanece é simples e incontornável: de que adianta conhecer a realidade, se não temos coragem política para transformá-la?

(*) Doutor em Políticas Públicas e Pós-Doutor em Desenvolvimento Rural

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As opiniões emitidas nos artigos publicados no espaço de opinião expressam a posição de seu autor e não necessariamente representam o pensamento editorial do Sul21

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2026 e o futuro do SUS: mais PPPs ou mais saúde pública? (Coluna da ASERGHC)

Por:Sul 21
25 de Abril de 2026, 08:46

ASERGHC (*)

A eleição de 2026 não vai decidir apenas nomes ou projetos de governo de forma abstrata. O que estará em disputa, de maneira concreta, é o modelo de saúde pública que o país pretende aprofundar nos próximos anos. Esse debate não começa agora. Desde a década de 1990, o Brasil convive com uma tensão permanente entre projetos distintos para a gestão dos serviços públicos: de um lado, a construção de um sistema universal, público e estatal, como previsto na Constituição de 1988. De outro, a incorporação de diretrizes que buscam transferir ao setor privado a execução de serviços, sob o argumento de maior eficiência e racionalidade administrativa.

É nesse cenário que se consolidam as chamadas Parcerias Público-Privadas (PPPs) na saúde. Apresentadas como solução para problemas históricos do Sistema Único de Saúde, elas são defendidas com base na ideia de que a gestão privada seria mais eficiente, capaz de reduzir custos e melhorar o atendimento à população. No entanto, quando esse discurso é confrontado com evidências concretas, a narrativa começa a perder sustentação.

Um estudo desenvolvido no âmbito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul comparou hospitais geridos por PPPs com unidades públicas de mesmo porte e perfil dentro do SUS, analisando indicadores centrais como tempo médio de permanência, taxa de mortalidade hospitalar e ocupação de leitos. O resultado é pouco compatível com a promessa que sustenta esse modelo: a gestão por PPP não apresentou desempenho superior em relação aos demais modelos existentes no sistema público. Em outras palavras, não há evidência de que a transferência da gestão para o setor privado produza melhores resultados.

Se a eficiência não se confirma nos indicadores de desempenho, resta avaliar o argumento econômico que também costuma justificar essas parcerias. Nesse ponto, o estudo é igualmente contundente ao demonstrar que os valores efetivamente pagos pelos governos às PPPs são superiores aos custos observados nos hospitais públicos comparados. Trata-se, portanto, de um modelo que mobiliza mais recursos públicos sem entregar, em contrapartida, melhora proporcional na qualidade ou nos resultados do atendimento. A ideia de que a privatização da gestão traria racionalidade ao gasto público não se sustenta diante dos dados disponíveis.

Esse descompasso entre discurso e evidência leva a uma questão mais profunda sobre o que orienta, de fato, a adoção desse tipo de modelo. A própria análise aponta que a escolha da forma de gestão hospitalar costuma ser influenciada muito mais por limites orçamentários, regras fiscais e diretrizes de ajuste do que pelos indicadores de saúde ou pelas necessidades concretas da população. Isso significa que não se trata apenas de uma decisão técnica, baseada em desempenho ou qualidade do serviço, mas de uma escolha política que reflete determinado projeto de Estado e de política pública.

Esse debate não é distante da realidade concreta dos trabalhadores da saúde. Ele já se materializa no cotidiano do Grupo Hospitalar Conceição, onde a pressão por operar com menos recursos, a falta de planejamento e a desorganização dos processos impactam diretamente as condições de trabalho e a qualidade do atendimento. Remanejamentos constantes, sobrecarga e improviso deixam de ser exceção e passam a fazer parte da rotina. Mais do que isso, o avanço das PPPs não aparece apenas como tendência geral, mas como projeto concreto em curso dentro do próprio grupo.

As PPPs se inserem em uma lógica mais ampla que busca reduzir a atuação direta do Estado na provisão de serviços, introduzir mecanismos de mercado na gestão pública e ampliar o espaço do setor privado em áreas historicamente estruturadas como direitos sociais. Esse movimento não é isolado nem recente e tem sido reiteradamente defendido por diferentes governos como alternativa de gestão, mesmo diante de resultados que não confirmam suas promessas centrais.

No caso do GHC, já está em andamento, no âmbito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a estruturação de um projeto de Parceria Público-Privada para um novo complexo hospitalar em Porto Alegre, que prevê a concentração de diferentes unidades da rede e a participação do setor privado na construção, operação e manutenção de serviços ligados à estrutura hospitalar. Vinculado ao Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) do Governo Federal, o projeto evidencia que a lógica das PPPs já chegou ao coração de uma das principais referências de saúde pública do país.

Além disso, experiências nacionais e internacionais apontam que esse tipo de parceria envolve riscos relevantes ao longo do tempo, como aumento de custos, necessidade de renegociação de contratos e transferência de riscos ao próprio setor público, enquanto o parceiro privado mantém a possibilidade de obtenção de ganhos elevados. Em contratos de longa duração, como é o caso das PPPs, a complexidade das operações e a dificuldade de previsão de cenários futuros tendem a favorecer esse tipo de desequilíbrio.

Ainda que frequentemente apresentada como modernização ou inovação, a proposta de PPP no GHC reforça a mesma lógica já observada em outras experiências: transferência de responsabilidades públicas para o setor privado sob o argumento de eficiência, mesmo quando as evidências disponíveis não demonstram melhora nos resultados assistenciais e indicam aumento de custos.

Diante desse cenário, o debate sobre o futuro da saúde pública no Brasil não pode ser reduzido a uma discussão genérica sobre eficiência. Trata-se de definir se o país pretende fortalecer a capacidade do Estado de planejar, gerir e executar diretamente as políticas de saúde ou se seguirá ampliando a transferência dessas funções ao setor privado, mesmo sem evidências consistentes de melhoria nos resultados.

É nesse contexto que a eleição de 2026 ganha centralidade. Estará em jogo a direção do Sistema Único de Saúde em um cenário marcado pelo avanço da extrema-direita e pelos riscos concretos que ela representa. Ao mesmo tempo, a disputa não se esgota nessa oposição: a defesa do SUS precisa se expressar em escolhas concretas. É nesse terreno que se definem os rumos do sistema, entre seu fortalecimento como política pública estatal e a continuidade de formas de gestão que ampliam a presença do setor privado, mesmo sob governos que se apresentam como seus defensores.

Os dados já estão disponíveis e indicam que as PPPs não entregam melhor desempenho e podem custar mais caro. Ao mesmo tempo, o avanço de projetos de PPP no GHC mostra que essa escolha já está sendo feita no presente. Ignorar essas evidências não é uma decisão técnica, mas política. Não se fortalece o SUS nem se constrói uma alternativa real à extrema-direita mantendo políticas que ampliam a precarização e a lógica de mercado na saúde.

(*) Associação dos Servidores do Grupo Hospitalar Conceição

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DMAE, um símbolo de luta e resistência contra a privatização (por CORES-DMAE)

Por:Sul 21
25 de Abril de 2026, 08:09

CORES-DMAE (*)

Encerraremos, neste mês de abril de 2026, a gestão trienal do Conselho de Representantes Sindicais (CORES) do Departamento Municipal de Água e Esgotos (DMAE). Ao final deste ciclo, entendemos ser nosso dever prestar contas à categoria, à cidade e à sociedade porto-alegrense acerca do trabalho desenvolvido, das lutas travadas e dos desafios que permanecem no horizonte. Este manifesto  representa, ao mesmo tempo, balanço, memória e compromisso com a continuidade da defesa do saneamento público. 

Acreditamos que o tempo, sempre ele, haverá de ser digno e justo com o grupo de servidoras e  servidores públicos que integrou o Conselho de Representantes Sindicais do DMAE desde a ascensão do  conservadorismo radical nas gestões municipais iniciadas depois das eleições de 2016, quando o ultraliberalismo passou a figurar como programa permanente de governo. Vivenciamos, sim, um  período histórico marcado pela intensificação de políticas voltadas à redução do papel do Estado, à  deslegitimação do serviço público e à conversão de direitos fundamentais em oportunidades de  negócio. 

Não obstante, desconhecemos na longa trajetória do sindicalismo brasileiro, e mesmo do sul global, notícia de coletivo com formações e experiências tão diversas capaz de produzir volume tão expressivo de conteúdo técnico, jurídico e político de enfrentamento ao projeto de privatização do DMAE. Produzimos inúmeras representações judiciais e extrajudiciais, notas técnicas, estudos, artigos de opinião e materiais informativos dirigidos à sociedade porto-alegrense. As camisetas azuis, com a frase  “Não à Privatização do DMAE!”, tornaram-se símbolo de resistência e passaram a ser incorporadas como uniforme de trabalho na Autarquia, especialmente entre colegas das áreas operacionais, tendo sido confeccionadas aproximadamente 10.000 (dez mil) peças a custo simbólico, iniciativa viabilizada com protagonismo do CORES-DMAE. Nosso esforço permanente extrapolou a defesa institucional do Departamento e buscou alertar a população acerca dos riscos da exploração privada da água,  evidenciando as vantagens sociais, sanitárias, ambientais e econômicas da gestão pública e estatal do saneamento. 

A propósito, cumpre salientarmos que o desejo de transformar a água dos porto-alegrenses em mercadoria foi gestado ainda nos primeiros dias do mandato do ex-prefeito Nelson Marchezan Jr. (2017/2020) e segue na ordem do dia das gestões do prefeito Sebastião Melo (2021/2024 e 2025/2028). Por iguais razões, observamos que o alinhamento estrutural com grupos econômicos do oligopólio privado do saneamento básico brasileiro, com a mídia hegemônica gaúcha e com setores do parlamento municipal, cuja moeda de troca para apoio a projetos estratégicos do Executivo reside na ocupação massiva de cargos comissionados, perpassa governos municipais. 

Nessa perspectiva, somam-se 9 (nove) anos de combate contínuo à privatização do DMAE. Para dimensionarmos esse período, recordamos que, em 2020, o governo federal então conduzido por Jair Bolsonaro, sob a liderança econômica do ministro Paulo Guedes, aprovou o chamado novo marco legal do saneamento básico, abrindo de forma explícita as portas do setor à exploração privada em larga escala. Nesse mesmo intervalo histórico, a Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan) e a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) foram privatizadas em poucos meses após decisões dos governadores estaduais, Eduardo Leite e Tarcísio de Freitas, mesmo contando com sindicatos historicamente fortes. Assim, a resistência construída em Porto Alegre revela caso  singular de acúmulo técnico, político e social na história recente do saneamento básico brasileiro.

À parte isso, identificamos a atuação crescente da mão invisível do “mercado” no interior das estruturas  decisórias municipais. Em processos de privatização, concessão ou parcerias público-privadas em curso na Prefeitura de Porto Alegre, constatamos presença recorrente de agentes comissionados operando,  por dentro, o mecanismo de transferência do patrimônio público construído por gerações ao setor  privado. Prática antirrepublicana, cada vez mais visível, pela circulação desses mesmos agentes entre o  setor público e futuras concessionárias, método conhecido como “porta giratória”, fragilizando a fronteira necessária entre interesse público e interesse privado. 

Mediante outro ponto de vista, entendemos que a defesa do saneamento básico público extrapola qualquer pauta corporativa e assume caráter social, sanitário, ambiental e civilizatório. Acima de tudo por envolver política pública diretamente relacionada à saúde coletiva, à redução das desigualdades, à  proteção ambiental e à garantia de dignidade humana. Por essa razão, cremos que as experiências  acumuladas precisam transcender nossas trajetórias institucionais. 

Portanto, o encerramento deste ciclo do CORES-DMAE simboliza o início de nova etapa de organização, vigilância e luta. O cenário permanece adverso, a pressão econômica é permanente e os interesses  envolvidos são poderosos. Assim, comprometidos com a defesa intransigente do saneamento básico público, buscaremos manter a mobilização social, ampliando o diálogo com a cidade, produzindo conhecimento técnico independente, acompanhando políticas públicas e denunciando qualquer  tentativa de mercantilização da água. Em síntese, reafirmamos com nitidez que a água não é mercadoria  e o saneamento básico não pode ser tratado como ativo financeiro. Pois, configura-se direito  fundamental, política de saúde pública, expressão de dignidade humana e instrumento de justiça social. Defender o DMAE público significa defender a própria cidade de Porto Alegre, seu presente e seu  futuro. 

Finalizemos, rememorando que nada está perdido. Temos acúmulo, memória, mobilização social e  consciência coletiva. A história segue em curso e a defesa do saneamento básico público e estatal continuará sendo escrita. 

(*) Conselho de Representantes Sindicais do DMAE (Gestão Trienal 2023/2026)

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Não vou deixar de ser quem eu sou só porque é difícil (por Marcia Barbosa)

Por:Sul 21
7 de Abril de 2026, 13:52

Marcia Barbosa (*)

Ser a única mulher na sala é um exercício de resistência e de decifração. A intimidação de mulheres que desejam crescer em espaços masculinos não é novidade. Poucas são as mulheres nas áreas de exatas e tecnológicas, e ainda menor é o percentual de mulheres no poder em qualquer área do conhecimento [1]. As que ousam adentrar esses espaços são pressionadas a manter uma postura definida por regras não escritas. Não devem ser coloridas demais, felizes demais e jamais brilhar demais. O castigo por ousar ascender na carreira é perder um pedacinho de si mesma.

Esta observação não é “mi mi mi”, é ciência.  Um estudo mostra que mulheres “perdem” a ambição em decorrência de estratégias da misoginia [2]. É o “macho palestrinha” (mansplaining), que, sem entender nada de um assunto, o explica para uma mulher especialista no tema. É o “macho rompante” (maninterrupting), que interrompe continuamente uma mulher em seu discurso, pois as ideias de um homem branco são tão relevantes que não podem esperar. E se alguma mulher reage com firmeza recebe a pecha de “histérica” (gaslighting). 

Nessa caminhada repleta de obstáculos desnecessários, muitas desistem ou escolhem outras trajetórias. Essas agressões deixam marcas. São como uma lesão antiga, que sempre dói em dias de chuva.

Como derrotar esse ecossistema misógino? Ao longo dos anos, como pesquisadora, gestora e professora, descobri uma tríade que considero o DNA de qualquer realização humana profunda: o Talento, o Trabalho e o Tesão.

O Talento é a visão do que precisa ser feito agora para criar um mundo mais sustentável e justo. É a capacidade intelectual de articular soluções onde outros veem apenas problemas, de recrutar as melhores mentes e de projetar a universidade para o futuro tecnológico e social que o Brasil exige.

O Trabalho é a coragem de executar. Sem o suor do trabalho, a visão é apenas uma alucinação.

Mas é o Tesão que move a humanidade em suas grandes descobertas. Foi essa energia que me manteve firme quando tentativas de silenciamento buscaram pautar a minha existência.

Não estou sozinha. São Marias, Joanas e Carmens, centenas de mulheres, docentes, alunas, técnicas e cidadãs, que se veem refletidas nesse enfrentamento. Os relatos que recebo são de uma semelhança estatisticamente assustadora: a interrupção de suas falas, o questionamento de sua autoridade e a tentativa constante de “domesticar” suas ambições e a crítica a seus corpos.

Ao ler cada depoimento, compreendo que minha postura como cientista e reitora não é apenas uma escolha pessoal; é um compromisso coletivo. Se eu recuar agora, se me tornar “mais palatável” para evitar o conflito, estarei validando o teto de vidro que tantas tentam romper. Esta solidariedade mostra que visão e coragem não são apenas atributos de liderança, mas ferramentas de sobrevivência política coletiva para as mulheres.

Após sobreviver a uma vida combatendo a misoginia, este não é o momento de buscar a facilidade da omissão. O “difícil” é o território onde a mudança de fato acontece. A universidade é o espaço para este debate. Sigo com a convicção de que liderar é, em última análise, manter-se fiel ao propósito, mesmo quando o entorno clama pela conformidade. Aos que esperam que eu mude para me ajustar às expectativas tradicionais, sinto dizer: meu compromisso com a construção de uma nova sociedade é maior do que qualquer conveniência do momento. Não vou deixar de ser quem eu sou só porque é difícil.

(*) Reitora da UFRGS

[1] https://rbpg.capes.gov.br/rbpg/article/view/2011

[2]https://www.yonetimkurulundakadin.org/assets/node_modules/source/pdf/bcg-dispelling.pdf

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Eleição no RS: Derrotar Zucco com um programa de esquerda! (por Fortalecer o PSOL-RS)

Por:Sul 21
24 de Março de 2026, 07:57

Fortalecer o PSOL-RS (*) 

Nós, do Fortalecer o PSOL-RS, vemos com muita preocupação a atual situação de nosso Estado. Já tivemos a melhor educação do país, a melhor qualidade de vida; já fomos um dos estados com maior número de universidades, com menor número de pessoas em situação de rua; tínhamos uma indústria forte, estatais pujantes e uma agricultura diversa apoiada na pequena produção, sem veneno.

O movimento do PT Nacional de apoio a Juliana Brizola do PDT na cabeça da chapa ao Governo do Estado pode representar uma conta de soma zero.

Na nossa avaliação, na batalha para retomar um futuro promissor para o nosso Estado, não basta derrotar o projeto nefasto de Zucco. O que mais importa numa eleição, para a esquerda de verdade, é o PROGRAMA, a proposta de saída para a situação em que nosso Estado se encontra. Qual partido ou frente apresentará esta saída à sociedade, com prioridade para atendimento das demandas da maioria da população, da classe trabalhadora, um projeto de desenvolvimento sustentável para o RS.

Nesse sentido, o PDT – que ainda integra o Governo Leite, carrega o passivo negativo de um projeto de desmonte do Estado. De privatização da Ceee, Corsan, Ceitec, pedágios; de entrega da Educação Pública para Institutos e Fundações Privados, como Unibanco, Lemann, Gerdau – antítese da tradição defendida por Leonel Brizola. De política “zero” de Reforma Agrária. Um projeto ambiental que não é sustentável e vai na contramão do necessário para barrar a aceleração do calor extremo e suas consequências para nossa população, como a trágica enchente de 2024.

O Fortalecer o PSOL-RS vem a público reafirmar nosso apoio à indicação do nome de Edegar Pretto, do PT, para governador do RS, na Frente que o PSOL integra, nesse momento. Edegar sintetiza a possibilidade de liderar a aplicação de um Programa de “Fortalecimento do Estado à serviço de nosso Povo e não da elite empresarial e do agro”: Educação e Saúde públicas e de qualidade, “desprivatização” da educação e saúde com respeito e dignidade de seus trabalhadores, com as Universidades Públicas, UERGS e IFs construindo junto a SEDUC um projeto que reverta o quadro atual; restatização da Ceee, Corsan, Ceitec – investimento em pesquisa e tecnologia estatais; fortalecimento da Emater e políticas de apoio à agricultura familiar – produtora de alimentos saudáveis para maioria da população; fim dos pedágios e Tarifa Zero no transporte público, dentre outros.

Um programa que se oponha frontalmente ao defendido pela candidatura da extrema-direita (Zucco, PL-PP) e da direita (governo Leite), representantes do retrocesso civilizatório em nosso Rio Grande.

Caso se concretize essa nova aliança, o PSOL-RS deve se reunir e lançar candidatura própria ao Governo do Estado, com um programa real, para enfrentar as crises climática, econômica e social.

(*) Berna Menezes – Secretária Geral Nacional do PSOL; Mário Azeredo – Editor da Revista Linha Vermelha/PSOL; Neiva Lazzarotto – Executiva Estadual do PSOL RS; Gianfrancesco Santos dos Santos – Dirigente da Juventude do PSOL; e Matheus Vicente – Pres. PSOL Sapucaia e membro do Diretório Estadual do PSOL RS

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O voo do colibri: inércia ou movimento? (Coluna da Appoa)

Por:Sul 21
24 de Março de 2026, 07:48

Silvia Ferreira (*) 

Como acompanhar o voo de um colibri, esse ser tão pequeno e que se movimenta com tanta intensidade para, paradoxalmente, manter-se parado? É a partir dessa imagem literária que o escritor Sandro Veronese nos conta a história de Marco Carrera, personagem protagonista de O Colibri, obra vencedora do prêmio Strega de 2020 e na qual é abordada de forma provocadora uma discussão bem atual, aquela que nos coloca ante o dilema de aderirmos ao forte empuxo social à produção, ao movimento, ou de optarmos pela potência que subjaz à capacidade de resistir a ele. 

Ao narrar a trajetória de Marco, personagem com uma história atravessada por inúmeros sofrimentos e que dedica toda uma vida “a manter a estabilidade da bolha” que o cerca, o autor nos leva por um caminho que inevitavelmente nos faz refletir acerca da questão da passividade e do deslocamento, produzindo em nós, leitores e leitoras, um desconforto e uma pergunta que nos acompanha por todo o percurso do protagonista: afinal, por que ele não age? Pergunta essa que é desdobrada no romance em dois fios narrativos que se entrelaçam: o pássaro, metáfora do paradoxo que a posição de Marco representa, e a corda, metonímia do nó que amarra sua vida desde a infância. 

O pássaro é o colibri, apelido que Marco ganhou da mãe em função da sua baixa estatura. A mãe vê nessa condição um valor de harmonia relacionado ao equilíbrio das formas naturais, à magnitude de ser pequeno. Por outro lado, tornar-se um colibri era a recompensa máxima destinada aos guerreiros astecas que se ofereciam para morrer em sacrifício.  

A corda é o objeto posto em jogo no combate que se estabelece entre Marco e sua irmã na primeira tentativa de suicídio dela; é o fio que liga imaginariamente as costas de sua filha Ádele, de quatro anos, à parede, mantendo-a em segurança; mas também é a corda que se rompe alguns anos mais tarde, causando a morte dessa mesma filha em uma escalada pelas montanhas; e, por último, é o tecido, a rede que permite a Marco cuidar sozinho da neta, filha da filha morta, quando o luto parecia intransponível.

O voo e a estabilidade. Foi ao auxílio de uma corda que Ulisses (como Àdele) recorreu quando precisou manter-se amarrado ao mastro de seu navio para não sucumbir ao canto das sereias. Mas Ulisses navegava, singrava os mares; Marco, não. Para ele, sua força, energia e coragem estão relacionadas ao poder de se manter parado. 

Em uma direção similar, o filósofo Byung-Chul Han, no livro Sociedade do cansaço apresenta uma teoria que faz uma correlação entre o surgimento de novas patologias e um ideal discursivo e social de aceleração e produção. Segundo ele, a partir do século XXI, a globalização, as vivências em rede e o neoliberalismo teriam produzido uma lógica do desempenho que exige cada vez mais esforços individuais dos cidadãos, resultando em enfermidades características desse excesso, tais como a síndrome de bornout e a depressão. Se, no século passado, período regido por uma sociedade disciplinar alicerçada no não, na negatividade, a defesa consistia em eliminar todo e qualquer elemento estrangeiro de forma a proteger-se de qualquer tipo de infecção – viral, bacteriológica ou ideológica –, atualmente a proteção consistiria em não se submeter ao imperativo da produtividade. Se, como sociedade, estamos cansados, deveríamos reduzir o ritmo de produção ou parar.

Antes do filósofo sul-coreano, nos anos 1900, no período de entreguerras, Georges Bataille já havia apontado os efeitos nocivos da aposta excessiva na produtividade, mas, adotando um entendimento diverso do negativo, propunha uma saída que não envolvia uma retração. Para esse autor, a negatividade não diz respeito apenas ao controle social, mas é elemento estruturante daquilo que nos torna humanos: de fato, foi negando a natureza animal que nos constituía que surgimos. E, avançando mais ainda no raciocínio de Bataille, se o negativo é a força motriz, ela deve ser gasta em gestos que não sirvam ao propósito de conservação, mas ao dispêndio. Para esse autor, o caminho que nos protege da servidão é aquele que mobiliza nossa capacidade de nos colocarmos em risco, e que incentiva a coragem de perder tudo aquilo que nos garantiria uma vida tranquila, para ganharmos uma outra vida mais intensamente vivida.

Autores e proposições diferentes: parar como forma de resistência ou avançar em outra direção? Entre Ulisses e Marco haveria duas coragens distintas em causa, uma de partir e outra de permanecer? Para Marco, é o amor pelo pai, pela mãe, pela irmã, pela filha e pela neta o laço que o faz abrir mão da mulher que esperou por toda uma vida, aquela que, segundo ele, seria o único desejo genuíno de sua existência. Mas seria isso mesmo? Ou seria o amor pela posição sacrificial de renunciar a si em prol do outro que o fez mover-se de forma a não avançar?

Ao final do livro, a pergunta insiste.

(*) Psicanalista, Doutora em Letras – Estudos Literários (UFSM) e membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre. E-mail: rfsilvia1@gmail.com 

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Ombudsman da Folha admite que outros ‘autores’ usam IA mas ‘não querem falar’

22 de Março de 2026, 09:38
Texto da Ombudsman da Folha sobre IA. Foto: Reprodução

Alexandra Moraes, a ombudsman da Folha de S.Paulo, publicou um texto crítico neste sábado (21) sobre o uso de inteligência artificial (IA) nas colunas de opinião do jornal, admitindo que muitos autores utilizam a tecnologia, mas preferem não revelar essa prática. De acordo com o levantamento, 8,9% das colunas publicadas entre setembro de 2025 e fevereiro de 2026 contêm conteúdo gerado por IA, sendo que 2,6% delas possuem mais de 80% do texto produzido por máquinas. A ombudsman questiona a transparência do jornal em relação ao uso de IA e critica a falta de uma postura mais aberta sobre o tema:

Com base no caso do mês passado sobre o uso de IA em coluna da Folha, fiz um levantamento para ver como anda o uso da inteligência artificial em colunas do jornal. Contei com ajuda da própria IA para extração e compilação dos dados. O Claude, da Anthropic, entrou com o código, e a ferramenta Pangram foi usada para fazer a avaliação.

Os dados foram coletados no último 22 de fevereiro, com 3.732 colunas de opinião publicadas desde 1º de setembro de 2025 até aquele dia. A ideia era dar uma olhada nos quase seis meses anteriores àquela polêmica da IA.

Em 332 colunas, ou 8,9%, havia texto de IA, segundo a ferramenta. Mas isso ia de pequenos trechos até a quase totalidade dos textos. Esta última era o foco. Em 98 artigos, o texto detectado como de IA ocupava mais de 80% do conteúdo. Eles eram 2,6% do total avaliado —apenas colunas opinativas, sem colunas de notas, reportagens, análises etc.

No topo, estava mesmo Natalia Beauty. De 25 artigos, 18 apareciam com mais de 80% de conteúdo gerado por IA. Cabe lembrar que a Folha considera que a colunista se saiu bem em seus argumentos e não vê problema no modus operandi, pelo contrário. […]

A taxa de erro é de menos de 0,5% se desconsiderado o modelo o1 Pro, da OpenAI, que a eleva a 2%, segundo um estudo sobre o Pangram conduzido por uma pesquisadora da Universidade de Maryland (e também conclui que humanos acostumados a usar a IA generativa são a melhor ferramenta de detecção). […]

O ideal seria revelar os nomes e fazer uma discussão aberta, mas a ausência é também um sintoma. Nenhum outro autor mostrou disposição de admitir o uso de IA como a colunista Natalia Beauty fez no mês passado. Talvez escaldados pela polêmica, foram do “ghosting” (parou de responder) à ameaça (“graves consequências e desdobramentos”). Menos pela ameaça e mais pela sensação iminente de tempestade em copo d’água, deixei os nomes para lá e me concentrei nos efeitos do levantamento. Até porque a questão central aqui é o jornal, não os autores em si. […]

O próprio jornal tem embarcado numa confusão que associa o questionamento ao ludismo. Não é disso que se trata —e até o ludita mais raivoso reconheceria que um breve banho de IA ajudaria a melhorar títulos, legendas e textos noticiosos que vão ao ar com erros de português e de acabamento.

Mas isso não deveria invalidar a cobrança por transparência diante do uso pesado no texto, ainda o principal produto do jornal.

A Folha afirma ter “entusiasmo crítico” com a IA. O comando do jornal já comparou a questão à troca das máquinas de escrever pelo computador e ao buscador do Google, com base na ideia de que ninguém cita termos que pesquisou para escrever um artigo. Pode ser, mas o buscador pré-IA não tinha o poder de entregar textos prontos. Quem fosse pego colando trechos catados no Google era tratado como plagiário. […]

A Folha afirma, em nota à ombudsman, que “é entusiasta do uso da inteligência artificial para melhorar a qualidade do serviço que presta ao leitor —como deixou claro em editorial recente— e acredita que, em um futuro não distante, a polêmica que essa tecnologia ainda provoca será vista como estéril, pura perda de tempo e energia”

A cidade sob ataque (por Jorge Barcellos)

Por:Sul 21
22 de Março de 2026, 08:21

Na Semana de Porto Alegre e na contramão das festividades, historiador revisa história da cidade para criticar o desenvolvimento recente nos governos neoliberais. O Sul21 publica aqui excertos selecionados pelo autor. 

Jorge Barcellos (*) 

Porto Alegre: das origens à predação neoliberal (Clube dos Autores, 2026) se destina a que público? Leitor acadêmico, militante, leitor “cult” de não ficção histórica? Minha melhor definição é o público interessado na cidade, que aprecie a combinação da pesquisa com ensaio histórico. Porque este texto é, na melhor das definições, uma bricolagem. Segundo o antropólogo Claude Lévi-Strauss, bricolagem é um conceito originário do francês que significa “trabalho feito com as mãos, com o que está disponível”. 

É assim aqui. Trabalhei por mais de 30 anos na Câmara Municipal de Porto Alegre e tive a oportunidade de exercer minhas funções em seu Memorial, o que me deu o privilégio de fazer palestras, mostras e exposições. Escrevi para revistas, jornais e plataformas de internet dezenas de ensaios, além de textos para exposições e dezenas de crônicas que, se tiveram o mérito de atender situações de minha agenda de trabalho em meus projetos educativos, nunca haviam sido reunidas em uma obra de sentido sobre Porto Alegre. Não que não tenha escrito livros: dos 26 que escrevi, todos são autopublicação. Eu também sou vítima desses processos de predação neoliberal: se como afirmei, somente os autores de mercado – porque vendem – merecem ter suas obras publicadas, eu sou um sobrevivente da predação. Sou servidor público aposentado, escritor independente: fazer desaparecer minhas críticas a esse sistema é a forma dele me predar. Meu trabalho intelectual ao longo desses anos, portanto, deveria estar legado ao desaparecimento, exceto porque não desisto. Agora fiz exatamente o que prega a bricolagem, reuni o que tinha disponível, exatamente como o antropólogo define o método da bricolagem em seu O Pensamento Selvagem (1962).

A tese da predação da cidade

Eu sou o bricoleur descrito pelo antropólogo, improvisando minhas soluções utilizando os materiais, ideias e textos que tenho à mão, reaproveitando o que escrevi nas exposições que criei, nas palestras que ministrei, nos artigos e ensaios que publiquei. Faço isso de forma criativa, ao contrário do engenheiro, que parte de planos e materiais específicos. Eu sou o bricoleur que age de modo inventivo e adaptativo, recombinando textos e análises que inicialmente não foram pensados para um livro sobre a história da cidade, mas que agora o são justamente para dar a eles um novo significado(…): é uma obra construída pela colagem de ideias e fragmentos de origens diferentes, não existe uma estrutura fixa pré-concebida na sua organização, ela é produto do jogo de textos diversamente produzidos que querem responder à questão que coloco: quais os sentidos da evolução da cidade de Porto Alegre? Aqui minha tese é de que a cidade foi da sua construção à predação, da sua invenção à destruição.

Eu persigo um argumento: a cidade foi construída no passado para ser destruída no presente recente.  Para isso uso de múltiplas perspectivas teóricas (histórica, artística, do planejamento urbano, social), misturo registros factuais e cronológicos com experiência de narrador pessoal dos fatos que observo. É uma montagem do que escrevi sobre a cidade, não é um manual sobre história da cidade; acredito na legitimidade de colar textos em escalas diversas porque não sou um engenheiro que projeto tudo de cima para baixo, mas um pesquisador que aprendeu a ser um artesão da escrita. Por isso minha memória nesse processo importa. 

Descobri nesse caminho que as características da identidade urbana de uma cidade envolvem uma combinação de elementos físicos, históricos, culturais e simbólicos que conferem a singularidade ao espaço urbano responsável pela sensação de pertencimento: por que em Porto Alegre nos sentimos… em casa? Porque criamos aqui um campo simbólico essencial, já que aqui vivemos o conjunto de nossos afetos, memórias, vivências e significados que as pessoas construíram entre si em um lugar: a nossa cidade só existe pela participação de seus cidadãos em uma cultura e história. Ela se manifesta no cotidiano, na interação social e no senso de pertencimento a um lugar construídos ao longo da história da cidade. Ele é evidenciado pela experiência de compartilhar uma história comum, vivenciar experiências no espaço de trabalho ou lazer, possuir uma sensação proveniente da arquitetura que forma a imagem simbólica e a experiência que temos do espaço de Porto Alegre. 

O papel das políticas neoliberais

Mas o contrário também é importante: porque, nos tempos atuais, nos sentimos cada vez mais distantes dessa sensação? A destruição de um campo simbólico também afeta afetos, sentimentos e memórias, que são produzidos porque os cidadãos são excluídos de participar de uma cultura, de uma história. Aqui o agente que promove essa exclusão tem nome: neoliberalismo. Ele é verificado pela necessidade do capital em impor sobre todos uma única experiência comum, de propor o consumo como única experiência que o cidadão pode experimentar na cidade de Porto Alegre. Essa perda de sentido de pertencimento à cidade eu coloco na conta das políticas neoliberais e em seus governantes. 

Por isso este livro traz ao leitor inúmeras informações e elementos para questionar sua visão de cidade. Mas ele o faz a partir da perspectiva dos espaços por onde passou seu autor. O leitor verá que muitas pessoas estão aqui envolvidas ou apontadas: são os escritos de um servidor público interessado em tratar os grandes temas da cidade em suas exposições; o cidadão de esquerda atento ao crescimento das políticas neoliberais em nossa cidade; o aposentado envolto com seus próprios problemas em Porto Alegre. Eu acredito que nós, porto-alegrenses, ainda somos capazes de elaborar nossa identidade em relação à nossa cidade, recusar ou aderir ao capitalismo, que, com seu processo de predação, já terminou por corroer as estruturas de identidade de seu cidadão ao seu lugar. Para isso revisitamos a história da cidade e suas manifestações na arquitetura, em narrativas literárias e fotográficas, consideradas aqui elementos fundamentais para a construção da identidade. Ela pode estar sempre em processo de mudança, mas o que fica ao final do cidadão comum que o faz se identificar com este lugar? 

Caminhos da definição da identidade perdida

Revisitamos também os espaços públicos que nos permitem ter experiências compartilhadas: o Mercado Público, o Parque Farroupilha, os espaços e organizações do futebol de várzea, os movimentos sociais associados a um lugar, como o Morro Santana. Vemos como movimentos sociais foram essenciais para a construção da identidade do porto-alegrense, através da história do movimento negro, o movimento ecologista e do movimento em torno do Orçamento Participativo. Esses são os que eu vi, mas há outros.

Aqui, o objetivo é sempre verificar os modos de relacionamento do indivíduo com um lugar. Por isso é fundamental o modo como eles se relacionam com os espaços que percorrem. A cidade é o lugar de uma viagem, e o seu imaginário possui inúmeros percursos. Desvendamos um desses percursos, no centro da cidade, estabelecemos suas referências e símbolos. Vemos a presença não apenas da agricultura, mas da estrutura de serviços urbanos que foi construída ao seu redor. 

Finalmente, nossa identidade é também definida pelos rumos econômicos que se assentam em nossa cidade; no passado, a cidade comercial e prestadora de serviços localizada em um porto; no presente, a cidade produto da devoração neoliberal. Se a cidade está perdendo seus lugares de encontro, de diálogo e trocas, ela está perdendo sua identidade; se a cidade está perdendo o seu ambiente histórico coletivo e servindo para interesses privados, ela está em desarmonia e, portanto, perdendo mais uma vez sua identidade, que deve ser diversa e polifônica. Se os elementos do patrimônio histórico, como prédios e edifícios emblemáticos, desaparecem, os lugares de memória (Pierre Nora) também desaparecem e, com eles, os vínculos identitários na cidade, agora moldada pela construção civil, se tornando    o inferno do igual. Pois mais importante do que a aparência de uma cidade igual às outras são os contrastes que fazem uma cidade ser o que é, dão-lhe seu “ethos”. 

Porque Porto Alegre pode morrer

O urbanismo moderno tende a corroer os modos de vida tradicionais, delineando espaços e ritmos de tempo para o lazer, moradia e trabalho. Se não construirmos narrativas e representações culturais de nós mesmos hoje, como eram no passado, novos traços simbólicos se apropriam da cidade. Uma cidade pode morrer, como diz Jane Jacobs em seu livro “Morte e Vida de Grandes Cidades”: pela monotonia de sua paisagem e de seu uso, que impedem a vida urbana, pela corrosão dos bairros históricos e pelo fim das antigas relações de vizinhança, que minam o sentimento de pertencimento; basta ver os processos de expulsão de nossas vilas e favelas. Mesmo quando o progresso avança, com sua civilização do automóvel, que retoma espaços públicos para o uso de carros, a falta de vitalidade nas ruas corrói a identidade da cidade. É preciso renovar a cidade, mas antes é preciso dar um sentido a essa renovação: a fomentação de condomínios individuais, a desagregação da vida em apartamentos, só cria espaços desumanizados e sem personalidade. Nos termos de Marshal Bergman, o paradoxo da modernização de Porto Alegre é que ela destrói justamente o lugar e ambiente onde as experiências podem florescer. 

Assim, o grande desafio é a manutenção do velho frente à emergência do novo. O pequeno comércio importa tanto quanto as grandes redes de supermercados e os shoppings centers, a cultura do mercado público com a preservação de seus velhos usuários. A cidade morre quando perde sua diversidade, quando se torna uma cidade igual às outras. Por que este livro é importante? Porque ele afirma que é preciso preservar a alma do porto-alegrense na cidade justamente porque é ela que está em disputa pelo capitalismo no século XXI. Podemos preservar a identidade da cidade quando o capitalismo, por todo o lugar, se transforma numa máquina excludente que faz a cidade se transformar numa fábrica de lucros? Não nos enganemos: as formas de desregulamentação urbana, ambiental e econômica são sempre formas que corroem a identidade para criar um mercado sem rosto e sem comunidade. Se a cidadania é marcada pela criação da identidade, o mercado é pela criação do consumidor. Olhamos para o passado não porque somos nostálgicos, mas porque queremos resgatar o princípio de dignidade humana em nossa capital.

Para dará conta desta tarefa, a obra é organizada em dois volumes. O leitor irá reclamar da extensão, é verdade. Eu poderia ter feito de cada grande capítulo outro livro, mas preferi manter o binômio construção/predação. A organização é simples: o primeiro volume trata da construção da cidade; o segundo volume, da sua predação. O primeiro volume tem como base as pesquisas para exposições que fiz; o segundo volume tem como base os ensaios que escrevi para plataformas em geral. O primeiro volume trata de uma cidade liberal como a da formulação clássica de John Locke, que se organiza para garantir os direitos naturais dos indivíduos como vida, liberdade e propriedade através das leis e por essa razão, a organização (mas também desorganização) política tem uma importância.  Nela, o indivíduo possui direitos anteriores ao Estado.

O caráter predatório do capital

É o contrário da sociedade ultraneoliberal capitalista predatório em que está se transformando a capital, nos termos de David Harvey em Para entender o capital (Boitempo, 2016), Wendy Brown em Nas ruinas do neoliberalismo (Editora Politéia, 2021) Pierre Dardot & Christian Laval, A Nova Razão do Mundo (Editora Boitempo, 2016). O que eu vejo é a lógica do mercado e da valorização do capital colonizar todas as esferas da vida dos cidadãos de Porto Alegre, desregulando direitos, privatizando bens comuns e transformando pessoas, territórios e instituições em recursos a serem explorados, ainda que isso destrua as condições de reprodução social e ecológica. Não é exatamente o que vemos com os governos de Eduardo Leite e de Sebastião Melo, a reconfiguração de um Estado prómercado, garantidor de lucros, com flexibilização regulatória e criação de dispositivos de endividamento e controle mesmo às custas da cidadania e da democracia? Não é o que David Harvey, afirma em seu O Neoliberalismo: história e implicações (Loyola, 2008), que o projeto da classe dominante reorganiza o Estado e a cidade para restaurar e ampliar o poder das elites econômicas, via privatizações, desregulação, financeirização e “acumulação por despossessão”?

O que diferencia a “Cidade Construída”, tema do primeiro volume, do da “Cidade Predada”, tema do segundo volume? No primeiro volume, o fato de que ainda que seja uma cidade voltada para o mercado – e não é à toa que o próprio Mercado Público seja sua melhor imagem, ainda aqui – o poder serve para garantir direitos, pluralismo e certo espaço público na luta contra o arbítrio.  É o contrário da sociedade ultra neoliberal descrita no segundo volume, que radicaliza o elemento mercantil presente no primeiro e esvazia os seus freios: por essa razão, vemos um processo galopante de esvaziamento do papel que o Plano Diretor tinha na cidade, no uso dado a equipamentos públicos como Usina do Gasômetro. Aqui, tudo é tratado como ativo privatizável ou oportunidades de negócios.  

A contradição aparece porque, ao invés de realizar o objetivo da sociedade liberal, a da liberdade para todos, produz novas formas de expropriação e dominação: é a liberdade de poucos, exatamente como vemos assumir, no segundo volume, grandes empresas do capital imobiliário, da telefonia, do capital, sobre a cidade. 

A organização da obra: o livro 1

O primeiro volume é composto por quatro capítulos principais. O primeiro é intitulado “A Construção da Cidade”, onde repasso os pressupostos da criação e desenvolvimento de Porto Alegre a partir do século XVIII. Ele é composto por quatro seções: a primeira, que trata do contexto liberal de sua construção; o segundo do papel do planejamento urbano na organização de seu crescimento; o terceiro do papel da infraestrutura urbano (ruas, avenidas, serviços etc.) e o quarto a estética urbana propriamente dita.  

O segundo capítulo é intitulado “A Construção Social”, onde repasso fundamentos da sociedade porto-alegrense. Ele é composto por quatro seções. A primeira trata da construção da sociedade, estabelecendo as diferentes classes sociais e seu lugar na lógica social; o segundo trata da construção da representação política, destacando o papel dos vereadores, intendentes e prefeitos; o terceiro trata da construção da memória e o quarto, trata da sistematização do sistema ade museus na capital e o quarto, a construção da educação e cultura descreve instituições escolares e culturais da capital. 

O terceiro capítulo trata dos efeitos desta construção. Em “Efeitos da construção”, o principal argumento é defender que, ao contrário da cidade da segunda metade do século XX, a cidade do século XIX é uma cidade para as pessoas, diferente da posterior, uma cidade para o capital. A ele segue-se o quarto e último capítulo deste volume, dedicado a recuperar a lição da construção da cidade para os tempos atuais.   

A organização da obra: o livro 2

Enquanto o primeiro volume abrange o período que vai da fundação da cidade à aproximadamente os anos 1980, o segundo volume estende-se dessa data até o presente.  Por um lado, essa periodização tem relação com a inauguração de uma nova etapa no processo de metropolização, que inicia nos anos 1950. Por outro, enfatiza que a diferença está no fato de que, a partir dos anos 2.000, eu observo que a cidade e a sociedade ficam sob a mira do ataque neoliberal, um modo de ser que explora a cidade sem limites. Agora, o segundo volume é organizado em quatro capítulos principais que fazem um espelho ou mundo invertido do primeiro volume. São os seguintes os seus capítulos. 

O primeiro capítulo é intitulado “A Predação da Cidade’. Ele descreve a destruição dos fundamentos que foram a base da construção da capital pela implementação das medidas neoliberais. Ele é composto por quatro seções. A primeira define a predação da cidade neoliberal como um modo de apropriação dos recursos da cidade; o segundo mostra a predação do planejamento urbano, a corrosão dos sistema de proteção urbanística da cidade para atender ao interesse das grandes incorporadoras; o terceiro trata da predação da infraestrutura urbana, a deterioração de bens, equipamentos e serviços de manutenção da cidade; e o quarto, a predação da estética urbana, fim de uma cidade voltada para o detalhe e início de uma cidade voltada para o consumo de si mesma. 

O segundo capítulo é intitulado “A Predação da Sociedade”. Aqui, também as diversas faces do social enumerados no primeiro volume são objeto de corrosão e desmonte. A primeira seção trata da predação da sociedade, onde deixamos de ser uma sociedade que se vê como um todo, mas nos tornamos átomos e indivíduos egoístas; a segunda é a predação da política, que é a sua tomada por forças políticas neoliberais e pró-mercado; a terceira é a predação da memória, que analisa como o diverso  e tradicional é substituído pelo império do igual das políticas neoliberais, especialmente no campo do patrimônio histórico e a  quarta seção é dedicada à predação da educação e cultura, onde se mostra como também as políticas neoliberais destroem esta base  da sociedade. 

O capítulo terceiro é intitulado “Efeitos da Predação” e descreve os novos problemas urbanos que são produzidos pelas políticas neoliberais e pelo modelo de desenvolvimento globalizado em Porto Alegre. Seja no modo de vida dos grandes condomínios ou de novos lugares de consumo, como shoppings centers, é sempre da redução do cidadão à consumidor que se trata. 

O capítulo quarto é intitulado “Como ser antipredatório”, onde reúno as bases do que considero essencial para fazer frente as políticas neoliberais em nossa capital. O capítulo ironiza com o formato da autoajuda típica dos autores neoliberais e assume esta forma simplesmente porque planos de ação programáticos de enfrentamento político não são mais entendidos pelas massas. É preciso uma linguagem menos militante e mais próximo do cotidiano, ainda que nós mesmos não acreditemos nessa linguagem de mercado. 

Ele é organizado em três seções. A primeira propõe valorizar o papel das pessoas contra a predação: para construir uma cidade melhor precisamos desejar sermos pessoas melhores; a segunda propõe retornar ao ideal de comunidade, procurando nos pequenos grupos e associações um modelo de organização social capaz de enfrentar o capital; o terceiro, estabelece regras para ser antipredatório. Elas são também um modo particular de se relacionar com o entorno, que não pode deixar de colocar o humano no lugar da mercadoria. O estudo conclui com uma valorização do papel da nostalgia como sentimento básico para uma ação de preservação e recuperação da cidade.

***

Aprofundar a predação

A predação inclui ações de caça entre diferentes reinos, mas eu proponho um entendimento maior: é predação quando uma história, sociedade, memória e cultura são atacadas violentamente pelas práticas neoliberais. Saem os leões caçando zebras, aves de rapina caçando roedores, e entram os representantes do capital atacando as formas mais tradicionais de organização da cultura de uma cidade. Por que escolhi o termo predação? Porque ele vem predar, que significa também matar, destruir. A construção liberal, vista no primeiro volume, criou os sentidos de ser porto-alegrense; a predação neoliberal, tema do segundo volume, mata os sentidos de ser porto-alegrense. Aqui, diferente do momento da construção da cidade, tudo que é história vira esquecimento; tudo que é relação social se transforma em relação de consumo; tudo que é instituição de memória é desmantelado e tudo que é cultura adquire a lógica do capital. A lei do capital é: privatiza tudo!

A discussão sobre as políticas de privatização neoliberais começou com as análises críticas de seus efeitos nos espaços públicos. Elas remontam aos anos 90, quando a socióloga Sharon Zukin publica Whose Culture? Whose City? onde analisa os efeitos provocados na cultura urbana norte-americana pela gestão comercial e corporativa do Central Park e do Bryant Park. Zukin criticou os investimentos aplicados pela iniciativa privada na vida pública das cidades e o controle ao seu acesso e uso. Para a autora, parques são espaços públicos democráticos e as intervenções privadas afetam necessariamente seu paisagismo, seja pelo seu cercamento ou instalação de postos de venda tipo fast food, introduzindo uma visão consumível de civilidade em seu interior. Parques deixam de ser espaço de cidadania para transformarem-se em espaços de consumo, deixam de ser democráticos porque tais transformações afetam a sua representação simbólica, que passa a ser a da classe. Substitua “parques” por “planejamento urbano”, “políticas públicas”, “memória”, e você terá a ideia do que penso que o neoliberalismo está fazendo com nossa cidade.

Quando o governo é o predador

Por isso, entendo que iniciativas recentes do governo do Estado do Rio Grande do Sul e da Prefeitura de Porto Alegre possibilitam a erosão do espaço no que diz respeito ao comando e livre acesso público e abrem a possibilidade de redesenho social e estético de tais espaços. Nos Estados Unidos, a interferência do mercado na gestão de praças e parques resultou numa visão eclética de cultura pública, em que praças se transformaram numa espécie de Disney World estilizada, um misto de parque e shopping, planejada por financistas que nem ao menos moravam em Nova York. Além disso, a militarização crescente destes espaços públicos por câmeras filmadoras em excesso criava e mantinha distâncias sociais a partir de marcas nos espaços públicos. 

Olho para essas transformações apontadas para Nova York e não deixo de ver sua similitude com as transformações de Porto Alegre. Vejo a interferência do mercado nas políticas públicas municipais e, se a capital não se transforma numa Disneylândia, não posso negar que ela se transforma na Disneylândia dos capitalistas e empresários da construção civil. A cidade está sendo predada em todos os sentidos: social, urbano, político, memorialístico. Começar discutindo o futuro dos espaços públicos como faz a autora significa também a escolha entre caminhos autoritários e democráticos para seu uso. Para o uso das coisas e espaços da cidade eu proponho neste volume que a vida cívica democrática deve se sobrepor aos interesses da urbanização capitalista avançada, mas o que eu vejo é a despolitização conservadora redefinindo os sentidos públicos. Eu mostro aqui arranjos espaciais em favor do mercado que descaracterizam a função pública porque os redefinem como espaço de consumo e não de cidadania, lugar da liberdade: privatizar só contribui para a fragmentação do espaço urbano.      

Lutar pela defesa da cidade

Escrever um livro sobre Porto Alegre, olhando para a história da cidade, me faz voltar aos anos em que comecei minhas primeiras aulas sobre história no interior do projeto Educação para Cidadania da Câmara Municipal de Porto Alegre. Eu era um jovem servidor público e militante de esquerda e podia dizer que me sentia em casa: dava aulas em minha área de formação, criava projetos para pensar a cidade. Aqui, manda o texto acadêmico, a análise deve ser separada da história pessoal do autor. Impossível para eu fazer isso. A razão é que vivi os últimos vinte e cinco anos observado a predação de que trata este segundo volume. Por isso o estilo é diferente: o primeiro volume é produto de pesquisas para diversos projetos; o segundo volume é produto, na maioria dos textos, de meus ensaios para sites como Sul21 e minha coluna em Sler Rede Social. 

Essas questões são todas as que desenvolvi ao longo de minha escrita são de alguém que viveu em Porto Alegre, em seus momentos melhores e piores como o atual e, por isso, sinto saudade do passado. Por isso a questão formulada por Barbara Cassin em Nostalgia (Quina, 2024) me serve de mote para minhas reflexões finais sobre a identidade da cidade frente à predação neoliberal. É que, como diz a autora, olhando a cidade atual, mais cresce a sensação de que não estou em casa. Eu olho a cidade de hoje e pouco vejo da cidade do passado. Como foi que a paisagem de Porto Alegre se modificou tanto? Eu olho aquelas velhas imagens de Porto Alegre do século XIX com veneração e bate uma inveja das cidades europeias: nós já fomos também como elas. Ainda há notáveis prédios históricos, é verdade, mas o próprio centro deixou de ser o que ele foi no passado pelo avanço do capitalismo, cedendo de seus formosos prédios para a emergência de novos, bancos e comércio. Se a cidade naufragou no abismo dos interesses de mercado, por que ser autêntico, ser fiel às suas origens, é tão difícil para os porto-alegrenses? 

Olho a cidade e observo a paisagem ao meu redor. Ao longo de mais de quarenta anos de observação, sua fisionomia se transformou: eu vi nascer o Iguatemi, a transformação das áreas verdes junto ao que hoje é o Parque Germânia; vi o avanço imobiliário em direção à zona norte e à zona sul; via demolição de casarões no centro da cidade e os que ainda restavam nos bairros adjacentes, inclusive casas de notáveis escritores, simplesmente foram devorados pelo mercado, transformaram-se em bancos ou prédios de apartamentos. Muitos desses prédios foram ressignificados, mantidas apenas suas fachadas e com interiores totalmente modificados para atender às necessidades de consumo. Aposentado, depois de ver e escrever muito sobre ela, continuo pensando na cidade antiga, aquela dos grandes fotógrafos como os Irmãos Ferrari, a cidade dos cartões postais, aquela dos saudosos anos 20. Gostar de uma cidade deveria ser como um casamento, deveria ser possível só se desfazer dele com muito sacrifício. Você é um cidadão da cidade: você é um saudosista. Você defende a ideia de pertencimento a um lugar.

***

Elegi o tema da Nostalgia aqui para ser o tema de encerramento deste livro sobre o passado da capital que se transformaram em meu livro “Porto Alegre: da origem à predação neoliberal” é porque eu defendo isto, de que o futuro da cidade está no passado. Isso significa que defendo que a cidade preserve da sua paisagem aquilo que sempre teve de melhor, quando de sua belle época, quando sua arquitetura tinha vida, e os cidadãos, experiências de viver na cidade. Isso significa também que eu, como muitos, tenho um sentimento de nostalgia pela cidade do passado. É diferente do sentimento de nostalgia descrito por Cassin, em sua obra Nostalgia, pela Córsega, porque eu, ao contrário dela, não estou de volta a cidade do passado: eu estou sendo testemunha do desaparecimento da minha cidade, é ela que deixou de ser o que era, eu não vivo o que a cidade e seus cidadãos vivem hoje, a correria dos dias, a superexploração dos aplicativos, a generalização do uso de solo pelos grandes empreendedores. Defendo uma cidade do passado no presente por um ideal adquirido nos anos 80 que visava a transformação da sociedade: “Como posso sentir tanta falta – por estar longe há muito tempo, sempre tempo demais – desse lugar?” (Cassin, p. 15).

Você é porto-alegrense, mesmo que a própria cidade não seja idêntica ao que era quando você era criança. É uma espécie de desenraizamento às avessas, pois não é você que se desenraizou, saiu, mas sim a cidade que se transformou. Ser apegado a uma cidade que não é mais o que era, que é outra coisa, é estranho. Como Cassin, que sonha com a nostalgia porque é apegada a Córsega, eu sonho com a nostalgia porque sou apegado a cidade de Porto Alegre dos cartões postais. Eu tenho em minha biblioteca uma coleção da Taschen sobre cidades e países em imagens do século XIX e vejo a imensa semelhança com Porto Alegre. “A nostalgia não é simplesmente a saudade da casa e o retorno para a casa. Esse sentimento doce que nos invade é, como a origem, uma ficção escolhida que não cessa de dar os indícios para que a tomemos como ela é: uma ficção adorável, humana, um fato de cultura” (p.13).

(*) Doutor em Educação. Porto Alegre: Das origens à predação neoliberal volumes I e II estão disponíveis na página do Clube dos Autores

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Sou conservador (por Delmar Bertuol) 

Por:Sul 21
21 de Março de 2026, 08:37

Delmar Bertuol (*) 

Descobri dia desses, fazendo uma autorreflexão: sou conservador. Cheguei nos quarenta, casei, emprego estável, comprei casa pela Caixa, tenho um sedã um-ponto-seis e só tomo Brahma. Tenho a cartilha completa. Religioso, heterossexual, pai de família, não usuário de drogas ilícitas, usuário de drogas lícitas e, por fim, reclamante dos impostos. Só me falta financiar um Toyota Corolla.

Mas não sou um conservador de nascença. Fui me transformando. Eu juro que não era assim. Na faculdade, tive que experimentar maconha. Oito vezes. É pré-requisito pro diploma. Porém, uma vez formado, nunca mais fumei. 

E sobre universidade, ainda, afirmam que as federais são um antro de orgia e sacanagem. Me esforcei pra passar no vestibular (aprendi no cursinho, inclusive, que não poderia ter começado esta frase com pronome oblíquo). No auge dos meus vinte, eu queria era essas tal festas despudoradas. Decepção. Minha experiência foi a pior possível. Descobri que qual suruba o quê. Os estudantes da universidade precisam é estudar muito. Únicas noites em claro que tive com as colegas foi pra estudar Teoria da História e Filosofia Grega. Quanto mais sei, mais sei que não comi ninguém.   

Drogas lícitas eu uso pelo menos desde os dezoito. Nada demais. Além de café sem açúcar, umas duas ou quinze cervejinhas no final de semana. Ou um charuto com uísque à cowboy para planejar uma revolução. No outro dia, que arma que nada, só me minucio de Paracetamol 750 pra dor de cabeça. E, pra ser ainda mais contraditório, tomo uma garrafa imperialista de Coca-Cola. 

Heterossexual eu acho que sempre fui. Já recebi convites em contrário, mas consegui resistir.

Da religião eu andava distante. Até da religiosidade eu me afastei, por causa do ceticismo. Mas minha mulher só casava se fosse na Igreja. Então, fui à missa, fiz curso de noivos, li a Bíblia, ajoelhei ante ao Padre e comunguei. É bom. Se todos os que se dizem cristãos realmente seguissem as ideias de Jesus, a sociedade seria bem melhor.

Eu não vou colar no carro o adesivo da Câmara de Dirigentes Lojistas: “chega de tanto imposto!”. Tenho consciência da importância dos recursos públicos. Mas o Lula poderia ter feito diferente essa isenção pra quem ganha até cinco mil, de forma a beneficiar também quem ganha um pouco mais do que isso, meu caso. Seria, no meu entender, mais justo e lógico que ele atualizasse as alíquotas até o patamar que dispensaria quem ganha os cinco mil do IR. Só que não. As regras de isenção e abono foi uma confusão que acho que nem os contabilistas vão saber fazer as declarações direito. Enfim, pelo menos um baita benefício para quem ganha menos.

Minha reflexão, contudo, é que se pode ser conservador e mesmo assim não enveredar pra extrema-direita. Não precisa, num ato até irresponsável para com a nossa democracia, votar nalgum Bolsonaro para poder frequentar o culto ao lado da esposa. Nem consta que a esquerda liberou as drogas. Uma vez falaram num tal kit gay, mas foi só pra ganhar as eleições. Já se percebe que os governos petistas, ou da ideologia que os valha, respeitam todas as orientações sexuais sem interferir na escolha de cada um. 

Enfim, a esquerda não vai destruir a paz da vida classe mediana. Pelo contrário, até amantes se pode continuar tendo. Quer dizer, o certo é não ter, mas o governo não vai investigar isso.

A ideologia social-democrata, base da esquerda no Brasil (e não caiam no patético de dizer que “o petê quer o comunismo”) tem como missão aumentar o poder de consumo da população como um todo. Ou seja, é mais fácil comprar uma camionete 4×4 que dá a sensação de pau maior aos homens num governo pretensamente de esquerda do que num de extrema-direita, que não só dificultará esse virtual aumento peniano, com também vai querer saber o que se faz com ele.

(*) Professor 

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O processo eleitoral na UFSC (por Michel Goulart da Silva)

Por:Sul 21
21 de Março de 2026, 08:16

Michel Goulart da Silva (*) 

Neste ano, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) passa por um novo processo eleitoral para a escolha de seu reitor. Esse processo sempre coloca em questão o formato das eleições e, em especial, os limites e contradições que permeiam a autonomia universitária. Entende-se autonomia como liberdade de autogoverno. Embora prevista na legislação, por meio da Constituição de 1988, o que vigora são mecanismos externos às instituições, que procuram homogeneizar processos e rotinas, sem levar em conta as especificidades de cada instituição, e centralizar as decisões estratégicas nas mãos de governos. 

Essa autonomia no papel não se dá ao acaso, sendo, em parte, produto da transição da ditadura. Cabe lembrar que a chamada “transição democrática” foi controlada pelos próprios governantes da ditadura, contando com a conivência da oposição institucional, num pacto que visava manter ao máximo a estabilidade política e econômica. Esse processo se deu tendo como pano de fundo mobilizações dos trabalhadores e da juventude e colocando no horizonte a defesa de uma efetiva transformação na sociedade brasileira, inclusive das universidades.

O golpe de 1964 interrompeu um lento e gradual processo de democratização da educação superior, que, nas décadas anteriores, estava marcada pelo elitismo e pelo atendimento a interesses privados. O embate em torno à construção da universidade, em oposição a meras escolas de cursos superiores, passava pela disputa da autonomia nessas instituições, que, de forma livre, poderiam se autogovernar política, pedagógica e administrativamente, tendo o apoio material, mas não a intervenção em seu cotidiano, do Estado. Na ditadura, esse debate pouco avançou, na medida em que o novo regime não apenas destruiu o embrião de projeto de universidade então criado como aprofundou o caráter privatista e antidemocrático por meio da reforma de 1968.

Depois do término formal da ditadura, constituiu-se um novo regime político, conhecido como Nova República. Esse novo regime, por meio de suas instituições e legislação, incorporou de forma parcial elementos das reivindicações das mobilizações dos trabalhadores, mas manteve como fundamento a defesa da segurança e da estabilidade capitalista. No caso das eleições para reitores, passou-se de uma lista de seis nomes para uma lista tríplice em que o governo não tem obrigação de nomear o mais votado pela comunidade universitária. O conselho superior, marcado pela disparidade entre as diversas categorias da universidade, precisa obrigatoriamente referendar esse processo, mesmo que tome ações contra o que foi votado pela comunidade na consulta realizada. 

Nas universidades, o desdobramento do processo de transição “lenta, gradual e segura” foi marcado por um pacto entre os diversos segmentos que garantiu à comunidade acadêmica a liberdade para escolher seus reitores e aos gestores a possibilidade de tomar decisões operacionais sem a intervenção direta do governo. Produto desse acordo foi a possibilidade de realização de “consultas informais” ou mesmo a prerrogativa sobre a gestão de pessoas concedida aos reitores pelo MEC. Contudo, pouco disso foi formalizado em leis, sendo produto de decretos ou orientações normativas, sempre permanecendo, portanto, o risco de qualquer setor da comunidade interna ou mesmo do governo de romper o pacto.

Esse pacto começou a se desfazer no contexto das mobilizações de 2013. Nesse processo, as instituições que vinham sustentando a Nova República se viram em crise, colocando para as diferentes forças políticas e econômicas a necessidade de constituir uma nova forma de dominação. Dentro das universidades, a partir deste momento, observa-se a articulação de setores reacionários que passam a questionar o conteúdo do pacto da transição da ditadura. Na UFSC, esse setor reacionário apareceu principalmente na crítica à paridade na consulta informal, chegando a aparelhar o sindicato de docentes para defender sua pauta antidemocrática. 

O centro da defesa desses setores é de que a legislação vigente define que haja um maior peso para o corpo docente nas escolhas de reitores. Os servidores técnico-administrativos e os estudantes são secundarizados nas propostas defendidas por esses setores reacionários. Essa situação mostra a fragilidade das instituições da Nova República, afinal de fato a legislação vigente pode ser usada para embasar o discurso reacionário e não garante a permanência das medidas mais democráticas. Essa situação coloca a necessidade de um permanente embate para que cada eleição tenha o máximo de representatividade possível dos diversos setores que compõem a universidade.

Em crise, o pacto da transição vem sendo atacado pelos setores reacionários, que ganharam força dentro das instituições nos últimos anos. Na UFSC, na última eleição, isso se manifestou em processos judiciais e na tentativa de incluir na lista tríplice nomes que não passaram pela consulta à comunidade. Naquele processo, apesar da intervenção externa de setores reacionários, foi a força da comunidade interna, respeitando suas decisões democráticas, que garantiu a posse do reitor legitimamente eleito.

Contudo, os limites impostos ao processo eleitoral não são os únicos enfrentados pelas universidades. Qualquer candidatura eleita sempre estará com as ações limitadas pelos aspectos estruturais que determinam as universidades. Os reitores empossados são sempre, no máximo, gestores de crises materiais e orçamentárias. No caso da UFSC, ainda que Irineu, atual reitor e candidato à reeleição, expresse parte do programa defendido nas mobilizações de docentes, técnico-administrativos e estudantes, sua gestão não conseguiu ultrapassar os limites do que é possível dentro da lógica do Estado burguês. Essa lógica passa pela convivência com a privatização da universidade e pelos limites orçamentários impostos pelos diferentes governos. Não é possível fazer milagres em meio a cortes, contingenciamentos e bloqueios e a ameaças permanentes de forças externas e mesmo estranhas à universidade.

Esses limites impostos pelo Estado impedem que as instituições construam um projeto próprio que atenda aos interesses tanto de sua comunidade interna como de setores da sociedade externos à universidade. Não importa as convicções políticas de um reitor ou de sua equipe, se progressistas ou conservadores, pois sempre enfrentam os entraves das políticas impostas pelo capital e pelo Estado. Em função disso, o debate eleitoral sempre se mostra superficial e limitado, no qual os candidatos conseguem, no melhor dos casos, propor formas de melhor administrar a situação de crise estrutural que permeia a vida acadêmica.

O processo de ingerência externas, tanto por parte do governo como de outros órgãos, como o Poder Judiciário, expressam interesses estranhos às instituições. Cabe à comunidade definir suas regras internas e pensar sua forma de gestão que entende como sendo a mais adequada. Nesse sentido, ao se encarar mais um processo eleitoral na UFSC, é preciso não apenas discutir as medidas de gestão imediata da crise, mas utilizar esse espaço para debater o embrião de um projeto de universidade. O debate entre as candidaturas, como sempre, deve ser superficial e até mesmo despolitizado, com promessas vazias de transformação. Cabe a docentes, a técnicos e a discentes pensar a universidade que se quer e, a partir disso, construir os caminhos que possam levar a conquistar uma nova instituição. 

(*) Doutor em história pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e técnico-administrativo no Instituto Federal Catarinense (IFC). Autor do livro “Golpe e ditadura em Santa Catarina”

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A vergonhosa situação do saneamento em Porto Alegre (por Joel Henrique Ellwanger) 

Por:Sul 21
20 de Março de 2026, 10:57

Joel Henrique Ellwanger (*) 

Porto Alegre vive uma grande contradição. Enquanto seus gestores tentam promover a cidade como um polo moderno e tecnológico, um problema básico ainda não foi resolvido: o saneamento. Essa contradição está ancorada em uma visão neoliberal que acredita que novas tecnologias, empreendedores, startups e “empresas parceiras” resolverão todos os problemas da cidade, desafogando o poder público de suas responsabilidades. Porém, a vulnerabilidade da cidade a enchentes e sua vergonhosa porcentagem de esgoto tratado mostram que a Porto Alegre tecnológica se afoga em seu próprio esgoto.

O novo Ranking do Saneamento, elaborado pelo Instituto Trata Brasil e divulgado em março de 2026, mostrou que Porto Alegre trata apenas 60% de seu esgoto, sendo, junto com João Pessoa, a cidade que mais caiu posições no ranking nacional. Ocupava a 49ª posição no Ranking de 2025, passando para a 63ª posição em 2026. Conforme o Instituto, “Porto Alegre (RS) apresentou uma das maiores quedas no Ranking de 2026, com recuo de 14 posições, resultado principalmente da redução no atendimento de esgoto e do aumento nos indicadores de perdas”. E esse problema não é novo, muito menos resultado da grande enchente de 2024. Conforme dados compilados em um estudo publicado por mim e colegas da UFRGS em 2024 na revista científica Sustainability, Porto Alegre perde posições no Ranking de Saneamento do Instituto Trata Brasil desde 2017.

Infelizmente, o deficiente saneamento de Porto Alegre deve ser motivo de vergonha. Sistemas de coleta de esgoto são conhecidos desde civilizações antigas, como na Roma Antiga (Cloaca Maxima), o que demonstra que se trata de uma tecnologia bastante madura e vastamente conhecida. Apesar de a cidade ter estações com capacidade para tratar até 80% de seu esgoto, a coleta atual atende apenas 72% da população, e o índice de esgoto efetivamente tratado é de somente 60%, conforme já citado anteriormente. As altas taxas de saneamento de cidades como Curitiba, que consistentemente figura entre as melhores colocadas no ranking nacional, atestam que é possível criar uma malha de coleta de esgoto, mesmo em sistemas urbanos populosos e complexos.

Já em Porto Alegre, grande parte dos resíduos não tratados são direcionados ao Arroio Dilúvio, que os conduz até o Guaíba, o mesmo manancial de onde a cidade capta a água para distribuir em suas próprias torneiras. Apesar dessa água passar por tratamentos básicos e ser considerada potável, é no mínimo desconfortável saber que bebemos água do mesmo corpo d’água onde despejamos nosso esgoto. Sem mencionar que as tecnologias tradicionais de tratamento de água não são suficientes para remover poluentes emergentes, como resíduos de medicamentos e microplásticos. E mesmo que tivéssemos garantia de que a potabilidade da água é impecável, antes de ser tratada, a água poluída despejada no Dilúvio e no Guaíba prejudica a fauna e a flora, que têm seus habitats cada vez mais degradados pela atividade humana.

Enquanto isso, surgem com frequência na mídia local maquetes e simulações virtuais do Dilúvio e suas margens repaginadas através de parcerias “público-privadas”, com prédios e projetos paisagísticos ultramodernos. Porém, faltam explicações de como e quando o esgoto deixará de ser despejado nesse arroio, tão maltratado. A falta de saneamento não é um impeditivo para a busca de um ambiente urbano aberto à ciência e à tecnologia. Porém, não podemos ser ingênuos: Porto Alegre só será verdadeiramente moderna e desenvolvida quando resolver seu problema de saneamento.

(*) Biólogo, doutor em ciências e pesquisador em nível de pós-doutorado do Departamento de Genética da UFRGS. 

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Ratinho critica “patrulhamento” ao seu ataque transfóbico contra Erika Hilton: “Lacração”

16 de Março de 2026, 23:47
Ratinho no programa desta segunda-feira (16) falando e olhando para a câmera
Ratinho no programa desta segunda-feira (16) – Reprodução/SBT

O apresentador Ratinho, de 70 anos, comentou nesta semana a repercussão de uma fala sobre a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), de 33 anos. Durante a edição desta segunda-feira (16)  do “Programa do Ratinho”, exibido pelo SBT, ele afirmou que sua declaração anterior se tratou de uma “opinião” e mencionou o volume de comentários favoráveis recebidos após o episódio.

No programa, o apresentador disse que recebeu mensagens de apoio nas redes sociais. “Quero agradecer a todos que me apoiaram. Eu nem tive como acompanhar todas as mensagens, porque são milhares de mensagens — quase todas unânimes nos comentários favoráveis. Muita gente, mas muita gente mesmo, concordou comigo”, declarou.

Ratinho também afirmou que não pretende alterar seu posicionamento. “Quem gosta de mim vai continuar gostando. Quem não gosta, vai continuar não gostando. Eu não vou mudar o meu jeito de ser para agradar a quem quer que seja. Fica o recado. Vamos continuar o nosso programa e vamos continuar com a nossa opinião. Eu não vou mudar!”, disse o apresentador, ao comentar as reações ao caso.

“E olha, eu não sou garoto de internet”, prosseguiu o apresentador. “Quando eu comecei na televisão e no rádio, não tinha internet. Tenho o meu jeito direto e reto de falar as coisas e, nos tempos atuais, quem fala a verdade pode ser vítima de patrulhamento e lacração que no meu tempo não tinha”.

A impunidade produz isso. Ratinho diz que não vai mudar, diz que “quem fala a verdade” está sujeito a “patrulhamento” e reduz tudo à “lacração” de internet. Espero que a Justiça o lembre que o país tem leis. E que quem comete crime sempre discorda delas… pic.twitter.com/ptocyiAMik

— Muka 🎙️ (@falamuka) March 17, 2026

A polêmica envolvendo Ratinho e Erika Hilton teve início após uma declaração feita durante o “Programa do Ratinho” da última quarta-feira (11). O apresentador criticou a eleição da parlamentar para a função de presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados.

“Não achei muito justo, não. Com tanta mulher, por que vai dar para uma mulher trans? A Erika Hilton. Ela não é mulher, ela é trans”, disse ele.

Erika Hilton acionou o Ministério Público Federal (MPF), que pediu que o famoso e o SBT sejam condenados ao pagamento de R$ 10 milhões em danos coletivos Ela também processou o veterano por transfobia.

Da linha de frente do SUS a Brasília: a luta da Enfermagem por valorização (Coluna da ASERGHC)

16 de Março de 2026, 14:17

ASERGHC (*)

Nesta semana, trabalhadoras e trabalhadores da Enfermagem de todo o país se reúnem em Brasília para a Marcha Nacional pela Valorização da Enfermagem. O ato leva profissionais, estudantes e entidades representativas à Esplanada dos Ministérios para defender duas pautas centrais da categoria: o reajuste do piso salarial e a aprovação da PEC 19, que prevê a correção inflacionária do piso e sua vinculação a uma jornada de 30 horas semanais.

A mobilização ocorre em um momento em que a Enfermagem enfrenta um paradoxo. A categoria conquistou, após anos de mobilização, o reconhecimento de um piso salarial nacional. No entanto, sem mecanismos de correção inflacionária, esse avanço corre o risco de perder efetividade ao longo do tempo.

Estima-se que, em apenas três anos, o piso da Enfermagem já tenha perdido mais de 20% do seu poder de compra. Na prática, isso significa que uma conquista histórica da categoria pode se tornar insuficiente para garantir a valorização real desses profissionais.

É nesse contexto que surge a importância da PEC 19, proposta que busca assegurar a atualização do piso conforme a inflação e vincular seu cálculo a uma jornada de 30 horas semanais. A pauta não é nova. A redução da jornada é uma reivindicação histórica da Enfermagem, ligada não apenas à valorização profissional, mas também às próprias condições de trabalho em um setor marcado por jornadas intensas e grande desgaste físico e emocional.

Em hospitais e unidades de saúde de todo o país, são essas profissionais que permanecem na linha de frente do cuidado. São elas que acompanham pacientes durante longos plantões, realizam procedimentos essenciais, monitoram sinais vitais, acolhem familiares e garantem a continuidade do atendimento.

Instituições de saúde dependem profundamente desse trabalho. No Grupo Hospitalar Conceição, a Enfermagem constitui uma parte fundamental da estrutura que sustenta o atendimento hospitalar. Enfermeiras, técnicas e auxiliares estão presentes em praticamente todas as etapas do cuidado prestado à população.

Hoje, a jornada predominante da Enfermagem em muitos serviços de saúde é de 36 horas semanais. A defesa da jornada de 30 horas, portanto, está diretamente relacionada ao debate sobre condições de trabalho, qualidade do atendimento e valorização de uma categoria que desempenha papel central no funcionamento do Sistema Único de Saúde.

Esse debate também envolve questões cada vez mais presentes no cotidiano dos serviços de saúde, como o dimensionamento adequado das equipes e situações de assédio moral no ambiente de trabalho. Quando profissionais atuam em equipes reduzidas ou sob pressão constante, não apenas as condições de trabalho se deterioram, como também se cria um ambiente propício para conflitos, sobrecarga e adoecimento das trabalhadoras.

É por isso que mobilizações como a marcha em Brasília ganham importância. Elas lembram que as condições de trabalho na saúde não são apenas uma questão corporativa, mas um tema que impacta diretamente a qualidade do atendimento oferecido à população.

A presença de trabalhadoras ligadas à ASERGHC na mobilização também reforça esse entendimento. A participação em um movimento nacional demonstra que as lutas locais estão conectadas a debates mais amplos sobre o futuro do trabalho na saúde pública.

A Enfermagem brasileira reúne cerca de três milhões de profissionais. É a maior força de trabalho da área da saúde e também uma categoria majoritariamente feminina. Ainda assim, a valorização dessas trabalhadoras e trabalhadores continua sendo um desafio permanente.

Discutir o piso salarial, a jornada de trabalho e as condições de exercício da profissão — incluindo o dimensionamento adequado das equipes e o enfrentamento ao assédio no ambiente de trabalho — é discutir, em última instância, o próprio funcionamento do sistema de saúde.

Porque, na prática, o SUS não funciona apenas por meio de estruturas administrativas ou decisões de gestão. Ele funciona todos os dias graças ao trabalho concreto de profissionais que sustentam o atendimento à população. E entre esses profissionais, a Enfermagem ocupa um lugar central.

Valorizar essa categoria significa reconhecer quem está diariamente na linha de frente do cuidado. E significa também compreender que fortalecer o SUS passa, necessariamente, por garantir condições dignas de trabalho para aquelas que tornam o sistema público de saúde possível.

(*) Associação dos Servidores do Grupo Hospitalar Conceição

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O simulacro do discurso antissistema (por Gerson Almeida)

Por:Sul 21
15 de Março de 2026, 08:41

Gerson Almeida (*) 

“Se acham que vão me calar, estão muito enganados. Eu vou continuar incomodando o sistema de… Balneário Camboriú.” Com esta frase, o vereador Jair Renan Bolsonaro (PL/SC) finalizou seu discurso. Nele, rebateu as críticas contra a sua atuação parlamentar e manifestou apoio à decisão do seu irmão, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), de abandonar o mandato e montar residência nos Estados Unidos, de onde ele conspira junto ao governo americano contra seu próprio país. O uso inusitado do termo “sistema” para definir as disputas paroquiais de um município é revelador do esforço da extrema-direita em caracterizar todos os seus adversários como “elite” ou “sistema”, termos que usa indistintamente. O objetivo disso é apropriar-se da retórica antissistema, com o objetivo de ocupar, no imaginário social, o lugar de liderança dos interesses do “povo” contra as “elites” e catalisar todo o tipo de descontentamento e frustração social.

Para sustentar essa retórica, é preciso que a compreensão de “sistema” seja removida de qualquer posição das classes sociais na estrutura econômica da sociedade, do controle dos meios de produção e das transações financeiras; assim como deixe de designar a “elite” como os “melhores”. Ao esvaziar o entendimento de “sistema” e “elite” de qualquer vínculo com a estrutura da sociedade, o discurso da extrema-direita deliberadamente transporta essas categorias para uma nebulosa “guerra cultural”, na qual a discussão dos costumes e da moral passa a ganhar centralidade para alcançar o objetivo de unificar distintos interesses e setores sociais sob o mesmo guarda-chuva. Segundo o Brasil Paralelo, centro de produção de conteúdo da extrema-direita, as causas que unificaram as diferentes insatisfações com a situação do país são: lutar contra a corrupção, contra o comunismo e a defesa das pautas morais favoráveis à família. A falta de precisão sobre o que significa cada uma dessas causas é um artifício que Ernesto Laclau definiu como “um significante que não possui um significado fixo porque está a serviço de representar uma totalidade ausente” (Emancipação e Diferença, 2011), que viabiliza a construção de um discurso amplamente flexível, no qual os próprios adversários passam a ser igualmente imprecisos e mudam de acordo com as conveniências políticas de cada momento: professores, o STF, as urnas eletrônicas, a burocracia estatal, o globalismo, o Balneário Camboriú, etc.

Os alvos permanentes são apenas a esquerda (notadamente o PT), as causas progressistas e o “politicamente correto”, que obstinadamente são apontados como a representação do “sistema”. Ao desviar a noção de “sistema” das questões que estruturam a sociedade, o discurso da direita propositadamente limita o seu alcance às questões culturais, morais e de costumes.

Quem controla e estrutura o sistema

Apesar de vender a ilusão de liderar um levante contra o “sistema” e as elites que o defendem, a direita age como a guarda pretoriana de todo tipo de interesse do capitalismo e atua para proteger e reproduzir a hegemonia do capital financeiro e a sua lógica de acumulação sem limites. No atual estágio do capitalismo, os grupos financeiros capturaram o Estado e lutam para transformar direitos sociais, patrimônio público e meio ambiente em ativos para os rentistas. Para Ladislau Dowbor, há uma mudança profunda no conteúdo dos processos produtivos e, apesar de “continuarmos a produzir trigo e arroz, aço e automóveis”, o “elemento básico de formação do valor, o fator principal de produção, é constituído por um conjunto de atividades intangíveis” que estão deslocando o “eixo central de definição do modo de produção, a forma de extração do excedente e de exploração das populações”, que passa a ser a “rentabilidade dos papéis” (O Capitalismo se desloca, 2020). Esse deslocamento do capitalismo acelerou a extração da riqueza e a sua apropriação nas mãos de não mais do que 1% da população. É esta lógica que explica a pressa de Temer — que assumiu a presidência da República após o golpe em Dilma (2016)— em viabilizar a mais profunda mudança feita na Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) e ampliar a precarização das condições de trabalho, eufemisticamente chamada de flexibilização para reduzir o “custo Brasil”. O domínio da extração de riqueza por meio do sistema financeiro não substitui as formas anteriores, como o arrocho dos salários e a diminuição do acesso aos bens e serviços públicos de qualidade, mas as suplantou como a principal forma de acumulação e concentração de riqueza.

Portanto, o sistema é o regime de acumulação, no qual o poder financeiro subordina a produção de riqueza e molda o trabalho, o consumo e o modo de vida da sociedade para atender aos interesses daqueles que detêm e concentram capital; o que Harvey chama de “acumulação por espoliação” (privatizações e transferência de renda para o topo).  O que torna o discurso da direita um simulacro feito para esconder a sua função de escolta política do poder econômico, confirmando que “não há rebeldia real em um movimento que é aplaudido pelo mercado financeiro a cada nova medida de austeridade” (David Harvey, O Novo Imperialismo, 2004). 

A rebeldia consentida

Basta acompanhar o cotidiano da vida pública para perceber que a direita autodefinida como “antissistema” atua em favor dos interesses do grande capital ao defender a autonomia absoluta do Banco Central, a desregulação radical do mercado financeiro, a precarização do trabalho; ou quando atua para impedir a taxação das grandes fortunas, a mudança na escala de trabalho 6×1 e qualquer tipo de ação contra as desigualdades. Em todas as disputas concretas no debate político real, invariavelmente a direita toma partido dos interesses do “povo do mercado”, conforme definiu Wolfgang Streeck (Tempo Comprado, 2018). Ao lutar contra qualquer medida que possa alterar a relação de forças em disputa na sociedade, seu discurso pode ser barulhento, mas é estéril.  

A blindagem à corrupção estrutural

Há um esforço hercúleo dos setores hegemônicos para tratar os sucessivos atos de corrupção como desvio individual (“uma maçã podre”) e não como uma característica sistêmica do próprio capitalismo financeiro. A crítica tende a ficar restrita à “moralidade individual” do empresário, do agente público ou de lacunas no sistema de controle, evitando qualquer discussão sobre a própria lógica da financeirização, que permite ao capital financeiro operar de forma fraudulenta — eufemisticamente tratada como “engenharia financeira criativa”. Isso é possível graças a uma devotada rede de apoio (parlamentares, agentes públicos, imprensa, especialistas etc.) que age para manter a corrupção financeira invisível aos olhos da sociedade e longe do alcance do Estado. O escândalo do Banco Master nos permite observar isso de forma pedagógica.

A Operação Carbono Oculto já havia revelado o uso de fintechs e fundos de investimentos para lavagem de dinheiro (R$ 46 bilhões) para o crime organizado e escancarado a infiltração do PCC na Faria Lima, a meca do sistema financeiro nacional. Essa promiscuidade foi possível pelo uso de mecanismos que permitem a movimentação financeira sem identificar individualmente sua origem, o que dificulta o rastreamento pelo Banco Central. Ficou claro que, se há dinheiro precisando ganhar respeitabilidade, a estrutura do mercado financeiro está à disposição para lavá-lo. É para isso que as brechas nos mecanismos de controle são meticulosamente preservadas.

Foi o que aconteceu quando uma instrução normativa da Receita Federal passou a obrigar os bancos digitais e fintechs a enviarem informações a respeito de operações acima de R$ 5 mil no Pix. Não demorou para que o deputado Nicolas Ferreira (PL/MG) colocasse em movimento uma poderosa máquina de propaganda para denunciar que o governo queria fiscalizar e tributar todas as operações pelo sistema de pagamento. Era uma mentira, mas o importante é que o objetivo de deixar essas operações fora do alcance da fiscalização foi alcançado. A ação do deputado foi amplamente homenageada. Exemplos deste tipo são muitos, como a ação do senador Ciro Nogueira (PP/PI), ex-ministro de Bolsonaro, em tentar aumentar em quatro vezes a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para beneficiar a continuidade das operações do Banco Master, em sintonia com a decisão do governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB/DF), de comprar ativos podres para dar sobrevida à pirâmide financeira do Banco. A guarda pretoriana dos muito ricos contou igualmente com o luxuoso auxílio do presidente do Banco Central, Campos Neto, que sabia da insolvência do Banco Master desde o início de 2024, mas permitiu que a instituição continuasse captando recursos. 

Quando o governo enviou uma proposta para a segurança pública ao Congresso, com o objetivo de corrigir as brechas que impedem a ação do estado contra o crime sistêmico do andar de cima, mais uma vez a rede de apoio foi acionada e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, destacou o seu secretário de segurança, Guilherme Derrite, para coordenar a ação da direita.  O resultado foi impedir que houvesse o perdimento dos bens – a apreensão imediata de patrimônio e recursos – do crime organizado e a supressão de dispositivos de combate aos crimes de corrupção como o desvio dinheiro público. 

A cereja do bolo foi excluir as empresas de bets do pagamento de tributos que seriam utilizados no combate ao crime organizado. Aliás, esses e outros atores já haviam atuado para que as sucessivas falcatruas das Lojas Americanas, que acarretaram prejuízo de R$ 50 bilhões, ficassem restritas a “erros de gestão” e não afetassem os seus proprietários, incensados ícones do capitalismo nacional.  

As suas ideias não correspondem aos fatos

Não é surpresa, portanto, que os debates sobre as falcatruas reveladas pela investigação do Banco Master estejam sendo focados nas instituições responsáveis pela investigação e nas possíveis relações de ministros do STF e/ou de seus familiares com alguma das empresas de Vorcaro (que, evidentemente, devem ser escrutinadas), e não nas relações orgânicas que permitiram a um pequeno banco crescer rapidamente durante o governo de Bolsonaro e de Campos Neto. Não é controverso que Fabiano Zettel, sócio e cunhado de Vorcaro, foi um dos maiores doadores individuais das campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, e que seus aviões e estrutura serviam para dinamizar a campanha de importantes próceres da direita.

Um provérbio antigo e popular em várias culturas ao longo dos séculos, ensina que “atos dizem mais do que palavras”. As ações mostram que a rebeldia da direita contra a corrupção é funcional ao sistema e teatralizada para manipular a indignação e manter ligada a máquina de gerar desigualdades e destruir as políticas de proteção social. Para que o indivíduo permaneça à mercê do capital financeiro e de sua obsessão destrutiva.

O que chama a atenção é a dificuldade que a esquerda tem tido em assumir o seu lugar de verdadeira força disruptiva e debater de peito aberto as razões pelas quais defende que serviços essenciais, por exemplo, não devem ser operados apenas pela lógica do mercado, por serem imprescindíveis ao bem-estar de todos. É só enfrentando esse debate que poderemos esclarecer que não é o “povo do mercado” que construirá uma sociedade justa, segura, desenvolvida econômica, social, cultural e ambientalmente. Prova disso é a reação contrária da guarda pretoriana da Faria Lima espalhada pelo país. A realidade construída pelo neoliberalismo mostra que o discurso da direita se afasta cada vez mais da verdade, dos fatos. Nossa tarefa é convencer a opinião pública de que, como disse Michiko Kakutani, em A Morte da Verdade: todo mundo tem o direito de ter suas próprias opiniões, mas não seus próprios fatos.

(*) Mestre em Sociologia, foi vereador, secretário de meio-ambiente de Porto Alegre e Secretário Nacional de Articulação Social do governo Lula 2.

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A esquerda e as eleições de 2026 (por Michel Goulart da Silva)

Por:Sul 21
14 de Março de 2026, 08:34

Michel Goulart da Silva (*) 

O tema das eleições vem ocupando parte importante dos debates políticos nacionais recentes. Embora os temas relacionados à corrupção ou à guerra tenham grande destaque, as eleições têm sido algo bastante destacado, na medida em que impacta de forma direta a vida das pessoas. Nesse contexto, a esquerda se vê em um dilema: apoiar ou não apoiar no primeiro turno a eleição de Lula.

Um aspecto a ser considerado passa pelo combate ao bolsonarismo. Embora enfraquecido, o provável candidato principal da direita deve ser um herdeiro político e biológico do antigo presidente, seu filho Flávio. Sua candidatura, para garantir o apoio de todo tipo de político fisiológicos, deve ter um perfil mais próximo ao Centrão, talvez secundarizando as pautas ideológicas do bolsonarismo, ainda que mantendo o discurso de combate à esquerda e às organizações dos trabalhadores. Nesse cenário, para a esquerda, coloca-se a tarefa de combater a extrema-direita, ainda que a direita esteja paulatinamente se voltando para setores conservadores com um perfil mais tradicional.

Outro aspecto passa pelo balanço que se faz sobre o governo Lula. Por um lado, o governo fez medida de interesses dos trabalhadores, como a questão do imposto de renda ou a recomposição do orçamento dos serviços públicos. Por outro lado, o governo seguiu nas privatizações, manteve uma relação amistosa com o imperialismo e, diante do tarifaço de Trump, teve como resposta ajudar os setores empresariais. Esses elementos colocam o governo diante de uma situação contraditória, em que não avançou em pautas necessárias para os trabalhadores, mas, ao mesmo tempo, fez algumas medidas que mitigaram sua situação de pobreza e exploração.

Um terceiro aspecto passa pela questão da unidade da esquerda. Não se faz referência aqui ao bloco entre PT, PSOL e PCdoB, que compõem o governo de união nacional com a burguesia e devem seguir em seu pacto de defesa da institucionalidade burguesa. Os três partidos de extrema-esquerda que possuem legenda – PSTU, PCB e UP – vem anunciando a possibilidade de lançar candidaturas próprias, mas, também, em especial organizações sem legenda, tem defendido a possibilidade de unificação desses setores em uma única candidatura. Uma eventual candidatura unificada desses setores poderia ser, em teoria, um polo de aglutinação, à esquerda do governo Lula, e uma possibilidade de articulação orgânica dos trabalhadores.

Portanto, para a esquerda, se colocam dois caminhos. Um primeiro, que passa pelo apoio à reeleição de Lula. Essa perspectiva se justifica principalmente por sua candidatura se constituir novamente em uma ferramenta para derrotar o bolsonarismo nas urnas e impedir o retorno de um governo centrado na destruição de direitos dos trabalhadores, como o foram Temer e Bolsonaro. Contudo, ao mesmo tempo, essa perspectiva se mostra limitada na medida em que o mandato de Lula não esteve voltado para o avanço de direitos dos trabalhadores, se limitando a um governo burguês que, no melhor dos cenários, recompôs a escassez que existia antes da destruição bolsonarista.

Um segundo caminho passa pela possibilidade de apoio a uma candidatura da extrema-esquerda. Por certo que essa candidatura defenderia um programa centrado nos interesses dos trabalhadores e poderia ser uma ferramenta no processo de organização da classe trabalhadora no sentido da transformação da sociedade. Contudo, essa candidatura não teria diálogo com amplos setores da classe, se limitando a angariar votos no setor que de antemão têm referência nesses partidos. Ademais, mesmo que se unissem diversas organizações em torno a uma candidatura, essa seria uma unidade de ocasião, sem uma perspectiva de organização estratégica, se mostrando mais como um aglomerado de brigas por picuinhas e disputas retóricas que nem mesmo a base desses grupos entende.

Portanto, a questão não pode ser respondida de forma simples, como uma mera opção de voto. O debate estratégico precede o eleitoral, colocando a necessidade de se apontar para um projeto construído coletivamente pela classe trabalhadora. O democrático-popular, dominante como estratégia na década de 1980, faliu diante da subida do PT ao governo central, em 2003. Outra perspectiva estratégica está em aberto, não tendo, até agora, conseguido superar os limites da democracia burguesa.

Os trabalhadores, por meio de suas organizações, devem construir uma alternativa que se expresse para além das eleições. O voto em uma candidatura ou outra se mostra apenas como a expressão tática da estratégia que os trabalhadores eventualmente coloquem em seu horizonte. Da forma como se faz o debate atual, com a ausência de um projeto estratégico construído de forma coletiva, defender o voto em Lula ou em uma candidatura da extrema-esquerda mostra apenas o oportunismo de setores que fingem levar a sério os interesses dos trabalhadores.

(*) Doutor em história pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e técnico-administrativo no Instituto Federal Catarinense (IFC). Autor do livro “Golpe e ditadura em Santa Catarina”

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Tirem as crianças da sala (por Andréa Sommer) 

Por:Sul 21
13 de Março de 2026, 09:47

Andréa Sommer (*)

Quem hoje tem 35, 40 anos talvez se lembre de uma frase que, em algumas casas, era comum: “Tirem as crianças da sala”.

Era assim quando começava uma cena de beijo mais demorado na novela, uma briga mais intensa no filme ou qualquer momento considerado impróprio para os olhos infantis. As crianças eram mandadas para o quarto, o pátio, a cozinha ou qualquer outro canto da casa, numa tentativa de preservação e proteção.

Pais e mães, dentro das limitações e do que sabiam sobre o mundo, tentavam manter longe dos olhos dos filhos aquilo que parecia ser “cedo demais para ser visto”. Não existiam conversas sobre educação emocional, nem especialistas ocupando os programas matinais para dar “dicas” sobre como criar os filhos. Existia apenas o cuidado possível.

Mas o tempo passou e aquelas crianças cresceram. Hoje, é inevitável fazer duas perguntas: o que aconteceu com muitos daqueles meninos que foram retirados da sala para não verem a violência? Por que parte deles cresceu e passou a reproduzi-la?

No Rio Grande do Sul, os dados sobre feminicídio revelam um padrão que desmonta a ideia do “inimigo desconhecido”. A maioria dos crimes é cometida por homens que mantinham relação direta com a vítima, companheiros ou ex-companheiros. Em cerca de 94% dos casos, o autor é alguém que fazia parte da vida da mulher. Ou seja, a violência raramente vem de fora.

Os números também mostram que os agressores têm, na maioria das vezes, entre 25 e 49 anos, faixa etária que concentra mais de 60% dos casos no Estado. Não são adolescentes descontrolados nem idosos isolados da sociedade. São homens adultos, muitas vezes inseridos em rotinas comuns de trabalho, família e convivência social.

Em suma, alguns dos homens que hoje aparecem nas estatísticas como agressores foram justamente aqueles meninos que, décadas atrás, ouviram alguém dizer: “Tirem as crianças da sala”. Eles foram protegidos de uma cena de novela, mas talvez não tenham sido ensinados a lidar com a frustração, com a rejeição, com limites ou com a autonomia das mulheres.

Talvez tenham crescido ouvindo que homem não chora, que homem manda e que não pode ser contrariado dentro de casa, pela esposa. Quando a realidade desafia essas ideias, quando um relacionamento termina, quando uma mulher decide ir embora, encerrar a relação ou quando a autonomia feminina se impõe, muitos transformam a frustração em violência.

Isso não significa culpar pais e mães; isso seria leviano, injusto e simplista. A maioria das famílias fez o melhor que pôde com o que tinha, com valores herdados, informação limitada e uma sociedade que, durante muito tempo, naturalizou comportamentos agressivos masculinos.

Mas os dados estão aí e mostram que a violência contra mulheres não nasce do nada, ela cresce em ambientes onde o respeito nunca foi plenamente ensinado. Talvez seja hora de revisitar a velha frase, não para tirar as crianças da sala, mas para lembrar que proteger uma criança nunca foi apenas impedir que ela veja uma cena na televisão. Sempre foi, na verdade, ensinar que nenhuma mulher deve ser tratada como propriedade, alvo ou inimiga.

Porque quando esse aprendizado falha, o que cresce não é apenas um adulto. É um agressor.

(*) Jornalista/Cientista Política

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A imprensa como ideologia (por Luiz Marques)

Por:Sul 21
11 de Março de 2026, 10:53

Luiz Marques (*)

1.

Que entendimento de democracia desenvolve a mídia corporativa? Resposta: a de que a democracia é um sistema político onde se desenrola um permanente confronto de opiniões. A definição não faz distinção entre os pontos de vista, o que abre a janela às fake news magnificadas por robôs para manipular os receptores das mensagens. O objetivo é orientar a opção dos consumidores e a tendência dos eleitores para formatar o gosto dos brasileiros.

A “democracia de opinião” dita a performance dos meios de comunicação. Não vale para as relações entre os patrões e os empregados (colaboradores, sic) no interior das empresas, onde o pensamento único senhoril fixa o regramento para aumentar os lucros de modo sensacionalista. Aqui, os veículos de massas têm em comum com a extrema direita a apologia da liberdade de expressão como um valor, em abstrato. Na caixa de Pandora que destampa a dor e o sofrimento, ao revés da esperança no fundo, encontra-se a coleção das fraudulentas emendas impositivas.

A pasteurização de consciências no entretenimento medíocre da TV global inclui a venda de carnês para meter a mão na renda dos pauperizados. Os domingos servem de inspiração ao assalto dos aposentados no INSS e para as falcatruas do Banco Master, no desgoverno Bolsonaro. O recado tem os olhos azuis: as coisas só mudam graças a algum golpe. Uma lavagem cerebral estimula as pregações de cinismo para gozar privilégios. Apaga-se o trabalho dos sindicatos, entidades comunitárias e organizações contrárias às medidas neoliberais. A solidariedade é enterrada a sete palmos. 

O elogio da opinião, per se, revalida o supremacismo colonialista de raça e o supremacismo patriarcal de gênero, como se a roda da história tivesse parado e o tempo estivesse congelado na tradição de mando e obediência. Contudo, a revolução cultural de Maio de 1968 continua a reconfigurar a moral e os costumes das gerações. Cazuza tinha razão: “A tua piscina tá cheia de ratos / tuas ideias não correspondem aos fatos / É, o tempo não para”. Eis o principal ensinamento emancipacionista a ser tirado do sessentismo.

A democracia vai além da troca de opiniões e da mitificação do papel dos noticiários. Implica o próprio conteúdo da linguagem escrita e falada. Para Claude Lefort, em A invenção democrática, “a democracia é um processo cumulativo de valores civilizacionais”, regido pelo princípio inalienável do “direito a ter direitos”. Tal é o parâmetro para uma sociabilidade humana. 

O direito a ter direitos esbarra na ilusão meritocrática que abstrai as condições de nascimento e o acesso precário das periferias à educação e à cultura. A meritocracia é o triunfo dos vencedores; ignora os motivos que condicionam os perdedores na guerra hobbesiana de todos contra todos. Assim, transforma os primeiros em campeões da arrogância; e os demais em criaturas invisíveis.

O termo meritocracy nas origens não é sinal de justiça, tem um sentido distópico. A apropriação pelas elites avaliza simbólica e moralmente as pretensas virtudes do capitalismo. A prestidigitação mascara a corrida competitiva com pobres, negros, mulheres, indígenas e grupos LGBTQIA+ sempre no pelotão detrás. Hélas.

A Teologia da Prosperidade recrudesce a crença nos eleitos de deus para explicar as desigualdades. A imprensa como ideologia acoberta os mecanismos da exclusão que sequestra os direitos, com a alegação da falta de “mérito”. Sem o discurso calvinista a verdade viria à tona rápido e a farsa se evidenciaria para todos.

2.

O que é política, na percepção da mídia corporativa? Resposta: as atividades da representação no Legislativo e no Executivo dos municípios, estados e União, que tomam as decisões na República. O modelo baseado em representantes é consolidado ao longo do século XX. Significa que a política tem um locus especial para ser exercida. Prevalece a cosmovisão institucionalista do ofício.

Fernando Henrique Cardoso esgrime a versão hegemônica na greve dos petroleiros no início de 1995, em que uma categoria de 40 mil trabalhadores mantém o paredismo por 32 dias. Contra a agenda de privatizações e os cortes de direitos, postula um monopólio estatal do petróleo e um cumprimento de acordos salariais anteriores, enfrentando as demissões e as intervenções judiciais que acusam de abusivas as demandas grevistas. O Estado neoliberal começa então a mostrar as garras afiadas, e o ex-presidente determina a ocupação das refinarias pelo exército. 

Os líderes do movimento extrapolam as funções ao levantar a bandeira “Não à privatização da Petrobrás”, reclama FHC. Se querem fazer política, candidatem-se ao Parlamento. O exercício da política transcorre no Congresso Nacional. Só empoderada no voto das urnas as posições antiprivatistas dispõem da sagrada legitimidade para disputar a volatilidade da opinião pública. 

O sociólogo pede que esqueçam o que escreveu, parecendo desconhecer que a pressão das ruas têm um caráter político, direcionam o poder público. Rosa Luxemburgo se opõe ao fechamento da Duma na URSS pelos bolcheviques, lembrando que, ao mobilizar o povo, a esquerda consegue aprovar temas polêmicos em plenários conservadores e mesmo reacionários.

O fato de os atores coletivos não figurarem nas manchetes, exceto nas ocasiões em que vidraças são quebradas por black blocs vestidos de preto com máscaras para se proteger da vigilância policial, não quer dizer que não se constituam em sujeitos da política. A participação cidadã confere uma racionalidade aos equipamentos urbanos para superar as desigualdades, inclusive no plano institucional. Tipo as cotas de reparação que alavancam a mobilidade social para compensar 350 anos de escravização.

O liberalismo detesta os heróis oriundos de coletivos com um viés anarquista ou anticapitalista. Prefere os mocinhos empenhados em corrigir o regime, em vez de substituí-lo por sonhos nunca testados na prática. A noção criada por Henry David Thoreau – “desobediência civil” – celebra o indivíduo soberano contra as leis reputadas injustas do Estado, e não as manifestações pluralistas orquestradas pelas associações ou pelos partidos progressistas. 

Até na denúncia de atrocidades os aparelhos midiáticos falseiam o real. Ao criticar as contribuições obrigatórias, atacam um suporte material das ações sindicais enfraquecidas nas crises econômicas. Ao citar o número absurdo de agremiações partidárias, reiteram a antipolítica pró-mercado. Ao estampar o genocídio na Faixa de Gaza e os bombardeios no Líbano e no Irã, escondem a total responsabilidade de Israel e Estados Unidos pelos conflitos. 

O lawfare (law/direito, warfare/guerra) torna o direito uma arma de destruição de reputações (pessoas, instituições), por intermédio de uma exposição aos moldes de uma operação militar. O instrumento popularizado na Lava Jato é a negação do direito e dos direitos – a terra de Marlboro. A presunção de inocência cai. Não há o contraditório, nem o direito moderno de ampla defesa.

Como observa Achille Mbembe na aula magna da USP em 2024, publicada com o título Democracia como uma comunidade de vida, o método democrático não se resume a uma tecnologia de governo. Qual a vida, é nossa última utopia. “O futuro da humanidade não está apenas firmemente atrelado à Terra. Ele também pode estar firmemente atrelado à democracia. Precisamos parar de nos comportar como se pudéssemos ir para outro lugar”. Jeff Bezos, Elon Musk e seus pares bilionários estão enganados.

O nó górdio concerne à recusa da imprensa realmente existente em preservar o planeta e a democracia, enquanto as big techs e as finanças envernizam um novo miliciano corrupto de sobrenome infame. Mostra que os donos do poder não têm compromisso efetivo com o amanhã, mas com a necropolítica: a acumulação do egoísmo e a promoção da infelicidade. Vade retro satana.

(*) Docente de Ciência Política na UFRGS; ex-Secretário de Estado da Cultura no Rio Grande do Sul

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Mapeamento de áreas de risco com potencial de desastres no Vale do Taquari e em Porto Alegre (por Maércio de Almeida Flores Cruz) 

Por:Sul 21
10 de Março de 2026, 10:59

Maércio de Almeida Flores Cruz (*)

A exposição do promotor de justiça Cláudio Ari Pinheiro de Mello colocou os “pingos nos is” para os vereadores de Porto Alegre, principalmente quanto às questões de inconstitucionalidade da proposta do governo que, na forma como está, contrariando o art. 42-A do Estatuto da Cidade, inevitavelmente irá provocar judicialização.

Isso eriçou a base do governo, que ainda não entendeu nada de Plano Diretor e muito menos de direito urbanístico. Dois vereadores da base do governo praticamente agrediram verbalmente o convidado. Um deles foi quem coordenou o Fórum de Entidades da sociedade civil que analisou preliminarmente as propostas do governo — Plano Diretor Urbano Sustentável (PDUS) e Lei de Uso e Ocupação do Solo (LUOS) —, fórum o qual propôs e aprovou mais de 100 emendas no seu âmbito. Ao fim e ao cabo, esse vereador demonstrou que não aprendeu nada sobre o Plano Diretor, mesmo convivendo por um mês com os debates sobre o assunto!

Mas o que de mais importante ficou da participação do promotor foi o cenário que apresentou ao explicar a atuação do Centro de Apoio Operacional de Defesa da Ordem Urbanística e Questões Fundiárias do Ministério Público (CAOURB) em diversos municípios do Vale do Taquari que sofreram os efeitos das cheias de 2023 e 2024 e que começaram o mapeamento de áreas de risco para prevenção de desastres. Esse projeto revisa os planos diretores de sete cidades do Vale do Taquari impactadas pelo evento climático extremo.

O projeto, coordenado pelo urbanista Marcelo Heck, contempla os municípios de Arroio do Meio, Colinas, Cruzeiro do Sul, Encantado, Estrela, Muçum e Roca Sales e é financiado pelo governo do Estado. Não é tudo na prevenção de desastres de origem climática, mas certamente é uma evolução.

Estranhamente, na contramão da história, Porto Alegre, que atualmente está em processo de revisão do seu Plano Diretor, não quis incorporar na proposta do PDUS e da LUOS a exigência de mapear as áreas de risco com potencial para desastres de origem climática. Poderia e deveria, mas não o fez!

No entanto, a questão primordial que precede e condiciona todos os desastres ditos de procedência das mudanças climáticas é a ocupação indiscriminada das áreas de risco, sejam áreas de risco hidrológico ou áreas de risco geotécnico. A restrição à ocupação é tarefa indelegável das prefeituras municipais, embora a unidade de planejamento territorial sejam as bacias hidrográficas. Na prática, verifica-se que a maioria das prefeituras não cumpre com essa tarefa, principalmente as grandes cidades, como Porto Alegre. 

Note-se que não estou falando da remoção das áreas de risco, que é uma tarefa bem mais complexa e demandaria enormes recursos, inclusive da esfera federal, e que seria para um segundo movimento e em um segundo momento. Portanto, o que se tem que cobrar, no mínimo, é não permitir novas ocupações nas áreas de risco. E, repetindo, a responsabilidade no estancamento desse processo é do município!

(*) Engenheiro civil, conselheiro Associação dos Técnicos de Nível Superior do Município de Porto Alegre (Astec) gestão 2025-2026

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Entre o possível e o impossível:  violência, memória e ética em ‘Língua Interior’ (Coluna da Appoa)

Por:Sul 21
10 de Março de 2026, 10:28

Carolina Mousquer Lima (*) 

As possibilidades que encontramos de criar laços que trabalhem em favor da vida variam conforme o destino que cada país é capaz de dar aos seus traumas.

Aube é a personagem central de um livro escrito por Kamel Daoud. Vítima da guerra civil argelina, ela é também uma testemunha viva daquilo que ninguém quer ou pode lembrar. Quando ainda era uma criança, militantes islâmicos atacaram seu vilarejo e mataram toda sua família. Única sobrevivente do massacre, ela carrega uma cicatriz no pescoço e uma traqueostomia que dificulta a fala e torna sua voz quase inaudível.

O título, Língua interior, faz referência à língua fluida em que ela conversa com a filha que cresce em seu ventre. Mesmo sem exame para demonstrar, ela sabe que está grávida de uma menina. E é muito difícil para Aube, mulher solteira e não adepta ao islamismo, imaginar um lugar viável para a filha ao nascer. Também por isso, ela se prepara para abortar: O que você quer? Vir aqui e se tornar carne morta? Está ouvindo os homens lá fora, no café? O Deus deles os aconselha a lavar seus corpos depois de abraçar nossos corpos proibidos à luz do dia, porque nós somos a grande sujeira. (…) É isso que significa ser uma mulher aqui. Você quer mesmo isso?

Enquanto se prepara para essa despedida, Aube começa a descrever o mundo exterior e a contar a própria história para a sua pequena huri. Ela sente que finalmente pode conversar com alguém. E dirigir-se ao feto como sua filha, supondo ali um sujeito, é claro que complica um tanto as coisas. A ambivalência em relação à gestação vai aumentando. Abortar a filha talvez signifique silenciar a própria voz. 

A conversa entre mãe e filha vai destacando a porosidade delicada que existe entre a fala e a escrita. Nós lemos as palavras de Aube, mas, ao mesmo tempo, escutamos aquilo que se destaca do texto, a sua voz. Não estamos em um litoral de águas mansas. As 500 páginas contraem alguns poucos dias, de forma que a língua interior vai avançando com um ritmo intenso e vigoroso. Aube fala com a filha no presente, mas se desloca rapidamente entre o passado e o futuro, borrando os limites entre leitura e escrita, assim como os da cronologia. 

Há também a ligação inexorável da vida de Aube à vida do seu país. E isso está marcado pelo silenciamento. Não se pode falar sobre a guerra civil, sobre todos os massacres, mortos e desaparecidos. Mas, na sua língua interior, ela pode conversar. Então, enquanto ela fala de si para a filha, ela também fala do passado, do presente e das possibilidades ou impossibilidades de futuro da Argélia. Isso vai diluindo a separação que costumamos produzir defensivamente entre vida subjetiva e coletiva. As duas coisas são mais misturadas do que parecem. Vale lembrar Freud no texto sobre Psicologia das Massas e Análise do Eu: “A oposição entre psicologia individual e psicologia social ou das massas, que à primeira vista pode parecer muito significativa, perde boa parte de sua agudeza se a examinarmos mais detidamente”. 

Com tantas subversões do que supomos nítido, não é à toa que, ao longo da leitura, somos tomados por um sentimento de urgência. O apagamento da história coletiva que ela carrega na singularidade do seu corpo, nos coloca a todo momento na iminência do desaparecimento de Aube. Esse risco é amplificado pelo perigo permanente que enfrenta por ser mulher.

Assia Djebar, escritora franco-argelina ainda não traduzida para o português, publicou em 1995, no auge da guerra civil da Argélia, o livro Le Blanc de l’Algérie [O Branco da Argélia]. Escrita a partir do assassinato de amigos próximos, a obra fabula diálogos com os mortos em uma tentativa de dar voz aos desaparecidos. Sobre essa escrita, Djebar afirmava responder a “uma urgência de memória imediata”. 

Em 2005 a Argélia publicou a Carta para Paz e Reconciliação Nacional. O documento concedeu perdão legal aos militantes islâmicos e anistia a todos os militares. Além disso, tornou punível com prisão o uso da guerra civil, cujo nome oficial é tragédia nacional, para criticar ou prejudicar a imagem das forças de segurança ou do Estado. Para além da política explícita de esquecimento forçado, nota-se a substituição da palavra guerra por tragédia. Por uma tragédia, não há responsáveis. É preciso também  registrar que essa tentativa de criar uma unidade nacional forçada é legado de uma colonização francesa que se utilizou de todos os modos violentos para destruir a cultura argelina e romper todos os laços sociais.

Diante de uma nova cena de violência misógina, Aube decide retornar ao lugar do massacre que a deixou sem família e sem voz. Não se trata de uma vontade, mas de algo que se impõe. No caminho tortuoso de volta ao território, ela encontra outras pessoas que também compartilham histórias vividas no horror da guerra. O encontro com outras testemunhas do horror, entre outros acontecimentos, tem efeito de reposicionar Aube diante da cena traumática. Só então ela é capaz de reinterpretar um gesto da irmã, acontecido durante o massacre, como um desejo de que ela seguisse viva, permitindo-lhe, enfim, superar a vergonha de ter sobrevivido.

Da Ficção à violação

Ainda sob o efeito de uma leitura tão forte e que permite abrir tantas conversas sobre trauma, violência de estado, escritas de urgência e as violências brutais contra as mulheres, me deparo com a notícia de que o autor está sendo acusado de utilizar, sem consentimento, detalhes da intimidade de uma mulher para construir toda a história.

Outras informações pioram o quadro. Saada Arbane era paciente da esposa do autor, que é psiquiatra. Mas não só paciente. As duas tornaram-se grandes amigas, inclusive com os filhos frequentando a casa uma da outra. Ela conta que antes da publicação, o autor pediu sua permissão para escrever sua história e ela recusou categoricamente. 

Antes da denúncia, o livro recebeu um grande prêmio literário na França. Kamel Daoud é um famoso autor argelino, traduzido para 35 línguas. Quando jovem, militou no movimento islâmico. Aos 18 anos, abandonou a doutrina. Iniciou a carreira profissional como jornalista, cobrindo os massacres da guerra civil. Em muitos artigos e entrevistas, gerou polêmica por suas críticas contundentes ao extremismo religioso, ao patriarcado e à condição das mulheres no mundo árabe-muçulmano, chegando a ser, algumas vezes, acusado de islamofobia.

As acusações foram judicializadas. Na Argélia, tanto Saada Arbane quanto a Organização Nacional das Vítimas do Terrorismo apresentaram queixas contra o autor e a psiquiatra, que culminaram em dois mandados de captura internacional. Na França, Kamel Daoud responde a um processo civil por “violação de privacidade”.

Nas entrevistas, quando questionado sobre as mais de trinta correspondências entre a vida da personagem e da denunciante, o autor costuma remeter aos fatos históricos, às violências perpetradas pelo estado da Argélia e à inexistência de registros de memória sobre mais de duzentas mil mortes. 

As denúncias indicam que Língua interior reproduz a marca da própria violência que busca denunciar. Aparentemente, Kamel Daoud, no afã de registrar e colocar em evidência as violências sofridas pelas mulheres argelinas, tornou-se o segundo algoz de Saada Arbane. 

Ao responder ao extremismo com paixão, corre-se o risco de repetir justamente a violência que se tenta combater. Afinal, ainda que a trajetória de uma mulher reflita a história silenciada de um país, ninguém tem o direito de expô-la sem o seu consentimento. Quebrar o silêncio sobre as violências sofridas pode ser um caminho para atravessar o sofrimento e pode, também, proteger outras mulheres, mas esse ato precisa ser, acima de tudo, uma escolha soberana e livre de julgamentos. 

O que impõe uma dúvida ética sobre o ato de escrever. É provável que, ciente da gravidade das denúncias, eu não tivesse comprado nem lido a obra. Mas, diante das acusações conhecidas apenas a posteriori da leitura, o que fazer? Seria possível falar sobre o livro de forma a ampliar a força da denúncia? Seria possível fazê-lo sem reiterar a violência da exposição? O possível não passa de uma tentativa, sujeita sempre à falha e ao fracasso. Já o impossível, insiste. Nesse caso, insistiu como a impossibilidade de não escrever sobre o livro. 

Curioso registrar um dos caminhos que me levaram até Língua Interior: o estudo de uma autora argelina, que já mencionei aqui, Assia Djebar. Com mais de 15 livros publicados e uma vida de luta pela independência da Argélia e de denúncias sobre as violências da guerra civil, ela não está traduzida para o português. Quem nós traduzimos? Quem nós premiamos? Quem nós lemos? Sobre ela escrevi um capítulo chamado A escrita como acolhimento intransigente da estrangeiridade, para o livro Do Litoral ao Literário: Ensaios de Psicanálise e Literatura, que será lançado este ano. Trata-se de um livro que reúne textos de 58 mulheres. Uma possibilidade interessante, considerando o quanto a Psicanálise e a Literatura ainda são lugares, assim como tantos outros, hegemonicamente masculinos.

De todos esses cruzamentos, decorre o desejo de que cada um talvez possa se perguntar na sua língua interior: como um homem pode verdadeiramente e respeitosamente agir em favor da vida e da ampliação dos acessos e direitos das mulheres?

(*) Carolina Mousquer Lima é psicanalista, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA) 

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Mulheres na educação: o impacto das professoras na formação humana (por Natalia Souza da Silva) 

Por:Sul 21
8 de Março de 2026, 08:31

Natalia Souza da Silva (*) 

A presença feminina na educação é parte fundamental da história da escola. Desde a primeira infância, são, em sua maioria, mulheres que acolhem, ensinam, organizam e constroem experiências de aprendizagem. Essa presença constante não é apenas um dado da realidade escolar, mas um elemento formador que influencia profundamente a maneira como crianças compreendem o mundo, as relações e os papéis sociais.

Nos anos iniciais da vida escolar, a professora costuma ser uma das primeiras referências profissionais fora do núcleo familiar. É ela quem apresenta as letras, os números, as descobertas científicas e também quem media conflitos, incentiva a autonomia e ensina a conviver. Essa convivência diária contribui para a formação de valores e para a construção de imagens sobre cuidado, liderança e competência.

Além disso, é importante refletir sobre o preconceito social ainda presente em relação à profissão docente, especialmente na Educação Infantil e nos Anos Iniciais. Muitas vezes, o trabalho da professora é reduzido à dimensão do cuidado, como se estivesse naturalmente associado à maternidade ou a uma suposta “vocação feminina”. Essa visão simplifica e desvaloriza a complexidade da atuação pedagógica, ignorando que educar vai muito além de acolher e zelar. Embora o cuidado seja parte constitutiva da prática educativa, ele não define nem limita o fazer docente.

Na minha prática como professora, percebo o quanto a desigualdade de gênero se manifesta desde muito cedo, de forma quase silenciosa. Ela aparece nas falas das crianças, nas brincadeiras que escolhem, nas cores que dizem “ser de menina” ou “ser de menino”, nos brinquedos que acreditam poder ou não utilizar. Percebo, no cotidiano da sala, que muitas meninas acabam assumindo o papel do cuidado e da organização nas brincadeiras de “casinha”, enquanto os meninos, com frequência, se sentem mais legitimados a ocupar os espaços de construção, comando e liderança nas propostas lúdicas. Essas situações evidenciam como os estereótipos atravessam a infância e vão moldando percepções sobre o que cada um pode ser ou fazer. Nesse contexto, fica ainda mais notória a importância da professora: ampliar possibilidades, oferecer diferentes experiências e ajudar cada criança a se reconhecer para além de rótulos e limitações impostas socialmente.

A representatividade feminina no espaço escolar é essencial para a desconstrução de estereótipos de gênero. Quando meninas crescem vendo mulheres ensinando, coordenando projetos, tomando decisões e ocupando lugares de protagonismo intelectual, ampliam suas próprias possibilidades de atuação no mundo. Quando meninos aprendem desde cedo com mulheres em posições de autoridade e conhecimento, desenvolvem uma percepção mais igualitária das relações, reconhecendo capacidades para além de rótulos e preconceitos. A escola, portanto, torna-se um ambiente privilegiado para romper naturalizações históricas que limitaram o papel das mulheres na sociedade. A atuação das professoras demonstra, na prática, que competência, liderança e produção de conhecimento não têm gênero. Ao mesmo tempo, revela que cuidado, escuta e sensibilidade são dimensões humanas e profissionais, e não atributos restritos a um sexo.

Refletir sobre mulheres na educação é reconhecer que a formação das novas gerações passa, diariamente, pelas mãos e pelas vozes dessas profissionais. É compreender que cada aula, cada conversa e cada intervenção pedagógica contribuem para formar cidadãos mais conscientes, respeitosos e críticos. Valorizar as professoras é valorizar a base da sociedade, pois é na escola que muitas das primeiras noções de justiça, equidade e respeito são construídas.

Assim, fortalecer a presença e a voz das mulheres na educação significa fortalecer a construção de um futuro mais democrático. Ao ocuparem seus espaços com competência e compromisso, as professoras não apenas ensinam conteúdos: elas ampliam horizontes, transformam perspectivas e ajudam a escrever histórias.

(*) Pedagoga, formada pela UFRGS, com especialização em Inclusão e em Neurociências no contexto escolar; professor do Colégio Marista Ipanema

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8 de Março no RS: não faltam homenagens, falta proteção (por Fabiane Machado) 

Por:Sul 21
8 de Março de 2026, 08:11

Fabiane Konowaluk Santos Machado (*) 

No Rio Grande do Sul, o 8 de Março corre o risco de virar mais uma liturgia vazia: discurso oficial, campanha publicitária, solenidade, flores e nenhuma coragem política para enfrentar o essencial. Porque, enquanto o poder público fala em valorização das mulheres, elas seguem morrendo. Em 2025, o Estado registrou 80 feminicídios. Em janeiro de 2026, foram 11 mulheres assassinadas, contra 9 no mesmo mês do ano anterior. Não há marketing institucional que consiga encobrir esse fracasso.

O feminicídio não explode do nada. Ele é o último capítulo de uma longa trajetória de ameaças, controle, humilhação, agressões e medo. Quando a morte chega, o Estado já chegou tarde. E o dado mais escandaloso talvez seja justamente esse: segundo o próprio governo gaúcho, quase 75% das vítimas de feminicídio de 2025 não tinham registrado ocorrência policial, e 95% não possuíam medida protetiva ativa no momento do crime. Isso não pode ser lido como falha individual das vítimas. Isso precisa ser lido como aquilo que realmente é: sinal brutal da desproteção.

Mulheres não deixam de denunciar porque desconhecem a violência que sofrem. Muitas deixam de denunciar porque têm medo de morrer, dependem economicamente do agressor, não confiam na resposta institucional ou sabem, pela experiência concreta, que a rede de proteção é desigual, burocrática e insuficiente. Quando a política pública não oferece segurança material, acolhimento contínuo e resposta rápida, denunciar pode parecer menos uma saída e mais um risco adicional. Essa é a parte que o discurso oficial quase sempre apaga.

É sintomático que o Rio Grande do Sul só tenha anunciado a criação de uma Secretaria da Mulher em junho de 2025, com aprovação legislativa apenas em agosto. A existência da pasta é positiva, mas seu surgimento tardio também revela o óbvio: durante anos, a pauta foi tratada sem a centralidade política que exigia. Se agora o governo afirma que a nova secretaria servirá para “integrar ações”, “garantir mais efetividade” e “ampliar a rede de proteção”, está confessando, ainda que indiretamente, que isso não vinha acontecendo de forma suficiente.

O problema é que a mulher ameaçada não pode esperar o tempo lento da máquina pública. Não pode aguardar desenho administrativo, anúncio de programa, ajuste de estrutura e disputa de narrativa. Quem vive sob violência precisa de proteção agora: abrigo, renda, acompanhamento psicossocial, acesso à Justiça, atendimento territorializado e uma rede que funcione para além da propaganda.

Por isso, no RS, o 8 de Março deveria ser menos um ritual de homenagem e mais um ato de acusação. Não contra as mulheres que não conseguiram denunciar. Não contra as vítimas. Mas contra a persistência de um Estado que reage depois da tragédia e ainda chama isso de política pública. Se as mulheres seguem morrendo, então não há o que comemorar. Há muito que denunciar, mas igualmente proteger.

(*) Psicóloga 

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As opiniões emitidas nos artigos publicados no espaço de opinião expressam a posição de seu autor e não necessariamente representam o pensamento editorial do Sul21

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Pesquisas eleitorais (por Althen Teixeira Filho)

Por:Sul 21
7 de Março de 2026, 08:48

Althen Teixeira Filho (*)

Um país governado por bancos, sempre terá dívidas.
A saúde governada por grandes farmacêuticas, nunca curará doenças.
Um Estado governado pela corrupção, nunca conhecerá a justiça.
Uma nação governada pela mídia financiada, nunca saberá a verdade.
(Desconheço o perspicaz autor)

Pesquisas eleitorais desenvolvidas com interesses de poder jamais serão isentas
(Reflexão do autor)

 

O mundo está, como nunca esteve, sob evidente e poderosa governança midiática que influencia, como nunca influenciou, nossas opiniões e condutas. Repetimos literalmente o que “comentaristas” noticiam, como também assumimos convictos as opiniões de outrem, mesmo as esdrúxulas, sem ao menos sabermos a verdade no seu todo. 

É uma toada encabrestada por alguns meios de comunicação, os quais sempre estabelecem e compelem como o Executivo deve executar ou como o Judiciário deve judiciar.

Enquanto isso, no Legislativo surgem os que pregam “religião” com palavras de ódio, exaltam a “fé” com mentiras, falam de “amor” pregando penas de morte, desfrutam do ócio com ótimos salários, juram “nacionalismo”, mas traem o Brasil, tudo para naufragarem sob ondas de ignorâncias, descalabros e idiotices, pagando a merecida pecha de ser um Legislativo golpista e o mais desqualificado e da história.

Tudo vale para manter o status quo e defender os interesses dos poderosos, que lhes pagam campanhas e mordomias.

Nos mais jovens, os meios digitais literalmente destroem convívios, realidade e cognições, enquanto adolescentes há muito embotados deixam de aprender e usufruir os reais benefícios da internet. Uns “patinam” nos vícios de joguinhos, vários em filminhos alienantes e inúmeros em opiniões de “influenciadores” imbecis. Mesmo estudantes universitários jogam no lixo oportunidades de aprendizagem e experiências ao se deixarem guiar pela “emburrecedora” e inadequadamente denominada “inteligência artificial” (IA). 

O irônico é o que o “combustível” que move esta máquina cibernética de alienação e desinformação vem dos devidos usuários, encharcados da dopamina que seus próprios sistemas nervosos produzem.

Perigosamente, é assim que já enfrentamos o importantíssimo processo eleitoral que se agiganta, cada vez mais soterrados e coagidos por pesquisas eleitorais que buscam influenciar (determinar) desde a intenção de votos, até quem devem ser os candidatos. 

Estas “pesquisas de intencionalidades” de voto (obviamente imprecisas) servem de tema para que vários comentaristas políticos expressem suas opiniões (obviamente imprecisas) e, disfarçadamente, justifiquem as razões (obviamente imprecisas) dos candidatos mostrarem esta ou aquela tendência (obviamente imprecisas). É um jogo de interesses, jogado de forma tão desonesta, acintosa, tendenciosa e aberta que a maioria participa sem sequer perceber que está sendo aliciado a votar nesse ou naquele larápio fantasiado de “candidato”.

Nesta toada, até as notícias de “esquerda” alardeiam enquetes que são encomendadas, financiadas, produzidas e reproduzidas por grandes conglomerados. Se por um lado são desenvolvidas para privilegiarem seus candidatos prediletos, por outro a mesma imprensa não aceita críticas ou sequer que se lancem dúvidas sobre as presumíveis veracidades dos resultados publicados.

Mas lembremo-nos do ditado: “Quem paga a banda, escolhe a música”!

Então, como atuar de forma ética e moralmente correta nesse processo já consolidado de pesquisas eleitorais? 

Para tal, sugere-se que “o nosso lado” faça seus próprios levantamentos, pensados e coordenados pelos “nossos” meios de comunicação, os quais são aqui entendidos como confiáveis e que estão bem mais próximos da vivência, dos sentimentos, das vontades e das necessidades da população em geral. Essas pesquisas expressariam de forma bem mais fidedigna os anseios da sociedade em geral, dos trabalhadores, dos cidadãos urbanos (inclusive periferias) e rurais (inclusive agricultura familiar, quilombolas, assentados e indígenas).

Por que não?

Este levantamento seria uma forma de transmitir confiança e uma visão mais ampla e fidedigna da “arena eleitoral” como um todo. Teríamos mais segurança e, psicologicamente importante, um número expressivo de pessoas descartariam um sentimento de frustração, de raiva e de tensão frente ao que surge de “pesquisas” absolutamente tendenciosas. 

Não é possível vermos tantos bandidos, criminosos, golpistas, vigaristas de “rachadinhas”, larápios, imbecis, entre muitos outros mentirosos, sempre surgindo com pontuações em pesquisas eleitorais. É importante nos contrapormos à imprensa financiada, ao sistema bancário, às “Faria Lima”, às grandes indústrias, às propagandas enganosas do agrocolonialismo, assim como aos falsos e riquíssimos “pastores”.

Mesmo frente às críticas de “esquerdismo” e “comunismo” que advirão, lembremo-nos que as atuais pesquisas escancaram o viés do “centrão”, da direita, da ultradireita e dos poderes instituídos já citados logo acima, indo alcançar, inclusive, o crime organizado.

Por incrível que pareça, não nos esqueçamos que milicianos já festejaram a eleição de deputados, senador, e até de um presidente da República que lhes admirava, enaltecia, defendia e empregava seus familiares, inclusive entregando-lhes medalhas dentro da prisão.

Fica o entendimento de que temos uma tarefa possível e importante a ser feita, sempre buscando o despertar de uma consciência coletiva, de uma ação civilizada e real, baseada no entendimento do gravíssimo momento político (mundial) que vivemos.

Mesmo com o Brasil de hoje tendo recuperado diversos valores organizacionais destruídos em passado recente, se os fanáticos voltarem a administrar nossa nação, enfrentaremos novo processo de desestruturação civilizatória, cultural, social e evolutiva. 

Será algo como ação do Talibã, o qual, por conta de sua incivilidade, sequestros, abuso de meninas, fanatismo e selvageria, matou indiscriminadamente e dinamitou patrimônios culturais no Afeganistão. Ou será algo como Trump, o qual, por conta de sua incivilidade, sequestros, “envolvimento” com meninas, fanatismo e selvageria, brinca de guerra jogando mísseis que matam crianças indiscriminadamente pelo mundo.

Existem pessoas que só sabem mentir, falsear, destruir e matar, mas jamais construir!

(*) Professor Titular do Instituto de Biologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL)

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O governo federal sucumbe ao lobby nuclear? (por Heitor Scalambrini Costa)

Por:Sul 21
7 de Março de 2026, 08:09

Heitor Scalambrini Costa (*) 

“O segredo da vitória consiste em continuar lutando, mesmo quando a batalha parece impossível”
(De autoria popular ou anônima)

A situação do setor nuclear brasileiro é confirmada pelos seus dirigentes como crítica e alarmante no início de 2026, com a Eletrobrás Termonuclear S.A. (Eletronuclear) enfrentando sérios riscos de insolvência técnica, dependência crônica de aportes da União e possíveis paralisações de projetos.

O epicentro do problema alardeado se origina em administrações irresponsáveis, tenebrosas, para dizer o mínimo. Auditoria (processo: TC 014.889/2018-8) realizada pelo Tribunal de Conta da União (TCU) fiscalizou o contrato de execução das obras civis da usina Angra 3, celebrado entre a Eletronuclear e a empresa Construtora Andrade Gutierrez S.A. Foram apontadas várias irregularidades graves, como superfaturamento, gestão fraudulenta e pagamentos indevidos no contrato de retomada das obras civis do empreendimento.

Para descredibilizar mais ainda o setor nuclear, seus responsáveis em passado recente, estiveram envolvidos em questões nada republicanas, além de fazerem parte da casta de servidores públicos que recebem supersalários. Afirmam que o endividamento é devido a paralisação das obras da usina Angra 3 (início da construção em 1984), que acumula gastos anuais estimados em R$ 1 bilhão, sendo 80% de dívidas com bancos, e o restante gastos no armazenamento, manutenção, segurança dos equipamentos da usina já adquiridos.

Declarações recentes divulgadas a favor da usina Angra 3 integram uma estratégia que tenta influenciar a percepção e aceitação pública de uma tecnologia cara, suja e perigosa, que o Brasil não precisa. Incensam a necessidade e importância desta tecnologia para garantir a segurança energética do país. E, assim, justificar a decisão a ser tomada pelos membros do Conselho Nacional de Política Energética (quem define a política energética do país).  O cenário “dramático” está montado, com ameaças de até afetar a operação de Angra 1 e Angra 2, e assim colocar o setor em uma posição de alto risco financeiro e operacional. Tal situação tem sido utilizada para pressionar o governo federal na direção de aprovar a continuidade de Angra 3.

A decisão sobre a usina no atual governo tem sido protelada por ainda existir um “pingo de juízo”, bom senso e racionalidade em setores do próprio governo federal. Os titulares do Ministério da Fazenda e do Ministério de Meio Ambiente e Mudança do Clima ainda resistem a insanidade de nuclearizar o país. Diante do cenário que se desenrola a dezenas de anos, é inacreditável como Angra 3 não foi ainda cancelada, em particular pelos enormes prejuízos causados ao erário público.

Em uma das reuniões passadas, o CNPE encomendou um estudo ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES, com o título “Estudos técnicos-econômicos para retomada de Angra 3”, cujo propósito é subsidiar a decisão a ser tomada pelos seus membros. Lamentavelmente, inexplicavelmente a íntegra do estudo atualizado não foi tornado público. Todavia, informações fragmentadas, trechos das conclusões, foram divulgadas, apontando que concluir a obra é mais vantajoso economicamente do que definitivamente desativá-la. A verificar!!!

Questiona-se a falta de transparência nesta e em tantas outras situações que envolveram deliberações no setor de energia. Informações que deveriam estar disponíveis a sociedade são omitidas, sonegadas, diante de decisões tomadas de grande importância para o presente e o futuro do país.

A pressão para uma definição favorável a retomada desta obra tem o próprio ministro de Minas e Energia (presidente do CNPE) como um dos mais entusiastas da ideia de disseminar reatores nucleares em todo território nacional, inclusive na Amazônia, além de ser favorável ao uso da energia atômica para fins bélicos. Conta com aliados poderosos no Congresso Nacional, nas forças armadas e junto a lobistas do conhecido “negócios do nuclear”.

É impossível defender Angra 3 e os 14.000 MW nucleares como propõe o Plano Nacional de Energia PNE – 2055. As razões principais são os altos custos da eletricidade nuclear, que chega a ser 4 a 6 vezes mais cara que a produzida por fontes renováveis de energia. Outra questão considerada técnica e ética diz respeito a inexistência de armazenamento seguro e definitivo para os elementos químicos altamente radioativos produzidos no interior do reator nuclear, problema que será herdado pelas gerações futuras. Mesmo com baixa probabilidade de ocorrência, os riscos de acidentes com vazamento de material radioativo existem, e quando acontecem são desastrosos para a vida, como atestam os desastres em Chernobyl e Fukushima. E, sem dúvida, a proposta inconcebível, mas que está na mira de setores da sociedade brasileira o uso militar, com a construção de armas nucleares de destruição em massa.

Com a saída próxima do governo dos ministros Fernando Haddad e Marina Silva, começam a ser veiculadas notas nos meios de comunicação corporativos que a decisão de continuar as obras da usina já foi tomada, aguardando apenas a saída dos ministros. Talvez uma forma encontrada de resguardar suas bibliografias diante da decisão infame, escandalosa de implantar novas usinas nucleares no território nacional. Não é somente Angra 3, mas abriria a porteira para que uma dezena de usinas nucleares sejam instaladas nos próximos anos.

Caso o CNPE aprove a retomada de Angra 3, o país perderá uma grande oportunidade de se desvencilhar da nucleoeletricidade e de suas negativas consequências sociais, econômicas, ambientais e geopolíticas. Não somente interromper de vez a desvairada proposta de retomar o projeto de Angra 3, mas também desativar Angra 1 e Angra 2, e deixar o urânio no seu devido lugar, debaixo da terra.

“Em memória do prof. Célio Bermann: gratidão e lembranças”

(*) Professor associado aposentado da Universidade Federal de Pernambuco, graduado em Física pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP/SP), mestrado em Ciências e Tecnologias Nucleares na Universidade Federal de Pernambuco (DEN/UFPE) e doutorado em Energética, na Universidade de Marselha/Aix – Centro de Estudos de Cadarache/Comissariado de Energia Atômica (CEA)-França.

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O quarto tenor da quase-estagnação brasileira (por Henrique Morrone)

Por:Sul 21
5 de Março de 2026, 09:05

Henrique Morrone (*) 

Depois dos três tenores, restou um silêncio estranho — longo demais para ser aplauso. O palco permanecia montado após o espetáculo. A plateia, ainda inflamada, seguia inquieta, à espera de algo inesperado. A quase-estagnação passou a ser cantada como maturidade econômica. E o espetáculo seguiu.

Mas havia um quarto tenor.

Não entrou pela frente do palco. Não vestia fraque nem buscava aplauso direto. Instalou-se nos bastidores, reorganizando a acústica da sala. Sua voz não elevava a produção, apenas ampliava o eco. Ainda assim, ocupava cada vez mais espaço na partitura nacional.

Enquanto os três primeiros discutiam custos, gastos, expectativas e lucros, algo mudava discretamente na contabilidade do sistema. Cresciam ocupações que giram sobre si mesmas: intermediações sucessivas, rendas financeiras recicladas, serviços que administram serviços, estruturas dedicadas menos a produzir do que a precificar, controlar, arbitrar e extrair fluxos já existentes. A economia parecia movimentada — planilhas trêmulas, indicadores pirimpilando — mas algo fundamental permanecia estanque.

Produzia-se movimento. Não valor.
Talvez o país não percebesse: trabalhava, mas não avançava.

Era esse o quarto tenor: o das atividades de não-produção, expandindo-se silenciosamente.

Em edifícios corporativos iluminados até tarde, equipes inteiras revisam relatórios destinados a revisar relatórios anteriores. Telas exibem gráficos em permanente atualização, reuniões sucedem reuniões, contratos circulam entre departamentos que pouco se conectam com a produção material. Tudo funciona. Nada avança.

Não faltava trabalho. Faltava transformação.

O fenômeno confunde atividade com criação. Um prédio comercial cheio sugere dinamismo; contratos circulando sugerem prosperidade; aplicativos multiplicados sugerem inovação. Parte crescente dessa engrenagem apenas redistribui valor dentro do próprio sistema.

É uma economia ocupada consigo mesma.

Como uma engrenagem em falso, o volume aumenta enquanto a melodia esmaece. O PIB registra passos ilusórios, sustentados por atividades que pouco ampliam a base produtiva. Crescimentos espasmódicos surgem como solos virtuosos — logo dissolvidos pela ausência de um coro capaz de sustentá-los.

O quarto tenor entoa uma ária alternativa. A expansão, ainda que rastejante, passa a apoiar-se nessas atividades — comércio, finanças, administração pública, entre outras. Juros elevados tornam rentável esperar. Capturar valor existente torna-se mais seguro do que criá-lo. Produzir vira exceção; administrar o já existente, regra.

Não se trata de moralizar setores nem romantizar fábricas perdidas. Toda economia moderna necessita de serviços complexos e coordenação institucional. O problema surge quando essas atividades deixam de sustentar a produção e passam a orbitá-la como fim em si mesmas.

Trabalha-se mais para deslocar menos.

A quase-estagnação brasileira talvez não seja apenas crescimento fraco, mas uma mudança silenciosa em sua composição. A energia econômica não desapareceu; foi redirecionada. O país não parou — passou a girar em falso.

E, como em toda ópera longa demais, o público começa a confundir repetição com enredo. Ajustes são anunciados como clímax. Pequenas acelerações parecem redenção. A crítica passa a soar como impaciência.

Enquanto isso, o quarto tenor segue cantando.

Sua voz é suave, técnica, aparentemente inevitável. Não provoca ruptura. Apenas prolonga o ato — uma música estável o suficiente para evitar o colapso, fraca demais para inaugurar o próximo movimento.

E então a ópera continua — não porque avance, mas porque o público persiste em ouvi-la.

(*) Economista e professor da UFRGS.

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As opiniões emitidas nos artigos publicados no espaço de opinião expressam a posição de seu autor e não necessariamente representam o pensamento editorial do Sul21.

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O colapso climático chegou: contra fatos não há argumentos (por Heitor Scalambrini Costa) 

Por:Sul 21
4 de Março de 2026, 13:39

Heitor Scalambrini Costa (*) 

“Tudo é político, inclusive seu silêncio conivente e fantasiado de neutralidade”
Antonio Gramsci

No balanço energético do planeta Terra, uma parte importante da energia vinda do Sol, que chega na superfície terrestre, é reenviada para o espaço na forma de calor (radiação infravermelha). Uma fração considerável da energia calorífica é absorvida pela atmosfera, impedindo sua saída para o espaço. Este fenômeno físico é chamado efeito estufa, que garantiu por milênios uma temperatura média do planeta em nível estável e adequado para as condições de vida. A atmosfera, que tem um papel fundamental neste processo, é constituída de uma fina camada de ar com vários gases, predominando o nitrogênio (79%), o oxigênio (21%), o dióxido de carbono (CO2), vapor de água, entre outros que bloqueiam o calor, chamados de gases de efeito estufa (GEE’s).

A partir da Revolução Industrial (RI), meados do século 18 e 19, o uso intensivo dos combustíveis fósseis se tornou realidade, inicialmente com o carvão mineral, depois petróleo e gás natural nos nossos dias. O aumento da concentração do gás carbônico (CO2), principal GEE emitido pela queima dos combustíveis fósseis, tem afetado o clima planetário, provocando aquecimento, com o aumento da temperatura média global.

A tentativa de vários países em conter suas emissões teve início em 1992, quando a ONU organizou a ECO92, no Rio de Janeiro. O evento marcou a adoção da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (em inglês, UNFCCC). Na ocasião, foi criado o Secretariado de Mudanças Climáticas da ONU.

Através desta convenção, as nações concordaram em “estabilizar as concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera para evitar interferências perigosas da atividade humana no sistema climático”. Até agora, 197 países assinaram o documento. Desde 1994, quando o tratado entrou em vigor, todos os anos a ONU reúne os países do planeta nas cúpulas climáticas globais, ou “COPs”, a “Conferência das Partes”.

Estas conferências anuais do clima começaram em 1995, com a primeira COP realizada em Berlim, Alemanha. Desde então, elas acontecem anualmente para avaliar o progresso das medidas tomadas pelos países para enfrentar as mudanças climáticas. O objetivo principal é alinhar os esforços com os objetivos da Convenção, a mitigação de emissões de gases de efeito estufa e a adaptação aos impactos do aquecimento global.

Nos últimos anos, as COPs têm se tornado um “campo de batalha”, uma disputa entre os países produtores de petróleo, representantes de grandes empresas petrolíferas, de quem tem negócios com combustíveis fósseis; e os que defendem que chegou a hora de traçar um novo rumo para a humanidade, abandonando os combustíveis responsáveis pelo aquecimento global, e implantando mudanças estruturais nas formas de consumo e produção da sociedade. A batalha tem se mostrado desigual, pois a força dos fósseis se baseia no poder do dinheiro, o que tem adiado o inadiável.

Outras propostas adotadas para reduzir as emissões têm sido impulsionadas como soluções de mercado e mecanismos financeiros, como o protocolo de Kyoto (COP 3, 1997), primeiro tratado vinculante focava nos países desenvolvidos, estabelecendo uma redução média de 5,2% das emissões entre 2008-2012, com base nos níveis de 1990.

O Acordo de Paris (COP 21, 2015) substituiu o Protocolo de Kyoto, agora abrangendo quase todos os países do mundo (195 signatários). Seu objetivo é limitar o aumento da temperatura média global “bem abaixo de 2°C” e envidar esforços para limitá-la a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais (1850-1900). As metas de cada país são voluntárias e revisadas a cada 5 anos. O que aconteceu em 2024 foi que o mundo terminou acima da meta de 1,5°C, o que mostrou a insuficiência das ambições de cada país, expostas nas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC, em inglês). O fato é que as promessas atuais de redução das emissões indicam um cenário de aquecimento de 2,9°C, até o fim do século.

Para proteger as florestas, principal sumidouro do CO2, mecanismos de proteção foram criados, como o Mercado de Carbono Florestal, o Programa de Redução de Emissões Provenientes do Desmatamento e Degradação Florestal (REDD+), o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), a criação de Fundos de Investimento Específicos. Na COP 30, por proposta brasileira, foi criado o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (em inglês, TFF).

Infelizmente estas medidas não impedem que 10,9 milhões de hectares de florestas ainda continuem sendo desmatadas anualmente, conforme assegura a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), no seu mais recente Relatório de Recursos Florestais Mundiais 2025, publicado a cada cinco anos.

Mesmo com iniciativas propostas nas COPs para conter as emissões, ano após ano recordes são superados, com o consequente aumento na temperatura global. Seu efeito afeta a sociedade, os ecossistemas, e as economias. Já são constatadas alterações no ciclo das chuvas, das correntes marítimas e dos padrões de vento; impactos na biodiversidade com a extinção de espécies, desequilíbrios ecológicos; o aumento de doenças respiratórios, surtos de doenças relacionadas ao clima, aparecimento de novos vírus; ondas letais de calor, com maior risco de incêndios florestais, estresse térmico em humano/animais, e aumento da mortalidade; elevação do nível do mar com o derretimento inundando áreas costeiras, e aumento da vulnerabilidade de cidades e ilhas; entre outros efeitos dramáticos que comprometem a vida no Planeta.

2.

O Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês), grupo de cientistas ligados a ONU, concluiu em seus estudos, divulgados em relatórios, que o modelo de vida atual, baseado em padrões insustentáveis de produção e consumo, tem levado ao aumento da intensidade e da frequência de eventos climáticos extremos em todos os continentes, provocados pelo aquecimento global.

São as atividades humanas as principais responsáveis pelo aumento das emissões, dentre elas: a queima de combustíveis fósseis como principal fonte energética da humanidade, as mudanças no uso da terra e o desmatamento (no Brasil é a maior fonte de emissão, representando 40% do total), a agricultura (uso intensivo de fertilizantes nitrogenados, fontes significativas de metano e óxido nitroso, ambos GEE) e pecuária (processo digestivo dos animais que emite o metano), além de processos industriais.

O consenso científico é claro e unânime, a emergência climática é inegável, mesmo que alguns poucos negacionistas da ciência ainda tenham espaço na mídia, e tenham poder, caso do extremista de direita o atual presidente norte americano, e que no Brasil tem seu fiel seguidor, o ex-presidente e atual presidiário, e seus seguidores fanatizados.

Para exemplificar o que a ciência e os cientistas têm alertado sobre os efeitos das mudanças climáticas globalmente, com reflexos locais, a seguir algumas das recentes catástrofes climáticas ocorridas nas últimas semanas, associadas ao aquecimento global:

  • Em dezembro de 2024 e janeiro de 2025, chuvas intensas com fortes ventanias ocorridas na gigantesca cidade de São Paulo e municípios do entorno, produziram quedas de energia elétrica, afetando mais de 4 milhões de residências. Em fevereiro de 2026 chuvas extremas na Zona da Mata mineira provocaram uma tragédia, com aproximadamente 60 mortes e mais de 15 desaparecidos. A maior parte das vítimas foi de Juiz de Fora, a principal cidade atingida pelas inundações e deslizamentos de terra.
  • Tempestade de neve histórica nos EUA deixou pelo menos 30 mortos, 500 mil pessoas sem energia elétrica, e 200 milhões de pessoas sob alerta. Forte nevasca, e fortes ventos provocaram grandes apagões com linhas de energia derrubadas em todo o sul do país, além de recordes de frio no sul e leste do Hemisfério Norte. Uma forte tempestade de inverno provocou uma nevasca histórica em Toronto, na província de Ontário, no Canadá. O evento estabeleceu novos recordes de neve, paralisou o transporte e causou grandes transtornos em toda a região metropolitana.
  • Várias regiões da Austrália estão sofrendo com ondas de calor que alcançaram o pico de 50oC no início de janeiro. Foi a mais severa onda de calor desde o verão de 2019-2020, conhecida como “Black Summer”, que deixou um saldo de mais de 400 mortes direta ou indiretamente relacionadas à maior onda de incêndios florestais da história recente da Oceania, consumindo mais de 24 milhões de hectares pelas chamas e 3.000 edificações. Estima-se que 3 bilhões de animais tenham sido dizimados. Em 2026, os termômetros superaram 40°C em Melbourne e em Sydney. Em Victoria, o calor precedeu incêndios florestais que devastaram 400.000 hectares, e destruíram 900 edificações.
  • Em 12 de janeiro de 2025, considerada a pior inundação da história, chuvas torrenciais em Moçambique, na África, atingiram várias regiões do país, deixando cidades inteiras alagadas, com pelo menos 700 mil pessoas desabrigadas e em torno de 125 mortas. As Nações Unidas estimaram que, entre o fim de 2025 e o início de 2026, as piores inundações da história ocorreram, com chuvas torrenciais, abrangendo cerca de 3.000 km² do território moçambicano (de um total de 801.000 km²).
  • Países da Península Ibérica tiveram no início de fevereiro, regiões castigadas pelas chuvas torrenciais provocadas por ciclone. Populações de Portugal, Espanha e sul da Itália foram atingidas por inundações e milhares de pessoas tiveram que abandonar suas casas.
  • No Japão, a pior tempestade de neve dos últimos 40 anos causou sérios transtornos, e mesmo perdas de vidas humanas (ao menos 50 pessoas) no norte do arquipélago; e mais de 100 ficaram gravemente feridas.
  • O Chile e a Argentina têm enfrentado temperaturas extremas e ondas de calor desde o início do ano. Em duas regiões do sul do Chile, foi decretado estado de calamidade pública devido a incêndios florestais que deixaram ao menos 19 mortes e forçaram a evacuação de mais de 50 mil pessoas, e consumiu pelo menos 8,5 mil hectares. Grande parte do país estava sob alerta de calor extremo, atingindo 38oC. Na Argentina, a região da Patagônia sofreu incêndios florestais devastadores provocados por raios gerados na tempestade.
  • Em vários continentes, médicos têm relatado o aumento de casos de deterioração da saúde mental das populações que sofreram com catástrofes climáticas. Outro aspecto relacionado à saúde humana é o aparecimento de novos vírus e o ressurgimento de doenças infecciosas diretamente ligados às mudanças climáticas.

As catástrofes já são uma realidade, manifestando-se em incêndios, inundações, deslizamentos de terra, ondas de calor, tempestades e secas sem precedentes. Estudos com cenários de aquecimento extremo da ordem de 30C, apontam que a mortalidade humana pode chegar a 2 bilhões, ou mesmo a espantosa cifra de 4 bilhões de óbitos.

A responsabilização deve recair com maior peso nos maiores emissores, maiores responsáveis. Praticamente 75% de todas as emissões de GEE’s são de 10 países e corporações, somado às emissões dos super ricos responsáveis pela maior parte das emissões de gases de efeito estufa (GEE). Segundo a Stockholm Environment Institute (SEI) e a OXFAM, uma extrema “desigualdade de carbono” ocorre entre os moradores do planeta, e os mais pobres sofrem as piores consequências das mudanças climáticas.

É necessário refletir e (re)agir diante da frase aludida a Giordano Bruno (teólogo, filósofo, escritor, matemático, poeta, teórico de cosmología, ocultista hermético e frade dominicano italiano), “ingenuidade é pedir a quem tem poder mudar o poder”. A inércia, a omissão, o boicote, a ineficaz ação dos governantes e das grandes corporações, é que tem obstaculizado medidas concretas para o enfrentamento do aquecimento global, como por ex. definir o mapa do caminho para além dos combustíveis fósseis, o que impõe planejamento, metas claras e financiamento.

(*) Físico, graduado pela Universidade Estadual de Campinas-UNICAMP, com mestrado em Ciências e Tecnologia Nuclear na UFPE, e doutorado em Energética na Universidade de Marselha/Centro de Estudos de Cadarache-Comissariado de Energia Atômica-França.

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‘Ela me deve desculpas’: o machismo cínico da base do governo Leite (por Sandra Bittencourt)

Por:Sul 21
4 de Março de 2026, 11:05

Sandra Bittencourt (*) 

O que acontece quando uma mulher é capaz de desestabilizar a paisagem performativamente machista em espaços de poder? Ela é calada, acusada de desequilíbrio, convidada a se comportar melhor. Março de 2026.Sim, 2026! Assembleia Legislativa de um Estado recordista em feminicídios e em descumprimento de medidas protetivas (nos escassos dois meses do novo ano foram registrados 18 assassinatos de mulheres no Rio Grande do Sul, uma mulher morta a cada quatro dias). Uma parlamentar ativa e militante da causa tem a palavra cortada. Nesse cenário, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do parlamento gaúcho analisava 18 projetos de lei sobre a defesa das mulheres. O pano de fundo era o de descontentamento das bancadas da direita e extrema-direita, que não dispõem de trabalho relevante e nem de discurso de defesa das mulheres, além do descontentamento do próprio governo consciente das falhas e da autoria do desmonte das políticas públicas nessa área. Ou seja, sabiam que era preciso fazer algo, mas estavam temerosos de deixar brilhar as deputadas de esquerda que têm trabalho e discurso coerente no debate à violência de gênero. Era preciso performar preocupação pública e, ao mesmo tempo, impedir falas e verdades incômodas na equação política da sociedade gaúcha que vê disparar a barbárie e não encontra respostas suficientes das autoridades. 

Como define Debord (1994) na obra A sociedade do Espetáculo, toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. O presidente da CCJ, Frederico Antunes, havia preparado o seu. Não contava, contudo, com a indignação de uma parlamentar. A divergência se instalou. A deputada Luciana Genro, do PSOL, acusou má vontade de Antunes ao pedir vistas para análise da sua proposta para combater a violência contra mulheres nos estádios de futebol (importante, não?). Logo adiante, o deputado pediu vistas a outro projeto, de autoria da Nadine Anflor (PSDB). Luciana pediu a palavra, mas foi interrompida pelo presidente, supostamente porque não deveria avançar sobre o mérito. Ocorre que a deputada estava com a palavra e não cabe a ele definir o que ela pode ou não falar no seu tempo concedido. Luciana reagiu com firmeza e indignação, apontando o óbvio: ele não poderia interrompê-la. A reação do deputado? Cortou o microfone. Luciana foi silenciada. A cobertura dada ao fato? “Discussão entre deputados”. Não foi o que aconteceu. Mas o mais surpreendente foi a posição do parlamentar depois do ocorrido. Em entrevista aos veículos que cobriam a reunião, foi taxativo: “ela me deve desculpas”! Ou seja, culpou a vítima pela violência política de gênero que ele praticou. Interromper uma parlamentar, autoridade no tema, cortar o microfone e agir com truculência, apenas denuncia o machismo empedernido de Antunes e o cinismo como estratégia política, já que o sentido da atuação não pareceu ser de verdadeira preocupação com a situação de ameaça a vida das mulheres, mas de buscar diminuir a atuação das parlamentares militantes da causa e evitar dividendos políticos em ano eleitoral, nem que isso custe computar mais mulheres mortas e órfãos traumatizados. 

Por que calar Luciana nesse tema? Que ameaça ela representa? Luciana Genro tem um trabalho sólido na área de segurança pública e na defesa de direitos, especialmente das mulheres. Ela é autora do PL 134/2023, que cria o Selo Tolerância Zero com Assédio, a ser concedido a estabelecimentos que implementem medidas de proteção a mulheres em situação de risco ou violência sexual. Também é de sua autoria o  PL 137/2023 que Institui a política estadual de combate ao racismo, à LGBTfobia e à violência contra as mulheres nos estádios e nas arenas esportivas do Estado do Rio Grande do Sul – Política Estádio de Respeito. Tem ainda o PL 436/2025, que estabelece percentual mínimo dos recursos destinados à publicidade institucional para campanhas de prevenção e combate à violência contra a mulher. Por fim, a deputada propõe o PL 378/2025  que cria o benefício de um salário-mínimo mensal temporário para mulheres vítimas de violência doméstica.

Incômodo para um governo que ajudou a destruir o acúmulo e a estrutura da Secretaria das Mulheres, que não aplica o percentual de 5% dos recursos federais destinados ao Sistema Único de Segurança Pública e tampouco cumpre a determinação de manter delegacias para mulheres funcionando 24 horas, além de não garantir a disponibilidade das tornozeleiras de monitoramento eletrônico, dispositivo comprovadamente eficaz na prevenção dos assassinatos. Aliás, o próprio governador Eduardo Leite, em entrevista ao vivo na televisão e em conversa direta com a deputada Bruna Rodrigues, vem repetindo que o problema é nacional, ou seja, tirou o corpo fora. Questionado sobre essa falta de ação do seu governo, achou por bem dizer que mais delegacias não resolvem, algo óbvio, mas de sua responsabilidade prover. Ao invés disso, declarou que as mulheres precisam ter coragem de denunciar. Vejam bem, ele invocando coragem para violência de gênero, ele que nunca empunhou verdadeiramente a bandeira óbvia neste país assassino da comunidade LGBT. 

Por fim, quem é Frederico Antunes? É um parlamentar experiente, líder do governo, no seu sétimo mandato consecutivo na Assembleia Gaúcha pelo Partido Progressista, que concentra atuação voltado para a Fronteira-Oeste. Foi a voz de uma conterrânea dele na fronteira que, ao meu ver, definiu tão bem seu perfil. Em 2017, na votação para extinção das fundações públicas (até hoje um desastre para o Estado) que teve destacado empenho de Antunes, as galerias estavam lotadas de servidores e sindicalistas. Uma colega sindicalista também da região da fronteira desatava a gritar cada vez que o deputado tinha a palavra um apelido clássico lá da fronteira, que prefiro não reproduzir. Mas, quem é daquela região, como eu, sabe das terríveis desigualdades, da baixíssima mobilidade social e do caráter de quem não tendo nascido em berço latifundiário, precisa fazer para alcançar um posto na elite: defender os interesses deles, como se seus fossem. Por isso o apelido. Quem quiser saber, me chama no privado. 

(*) Sandra Bitencourt, jornalista, Drª em Comunicação pela UFRGS, conselheira do Observatório da Comunicação Pública da UFRGS

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O percurso da polarização (por Luiz Marques)

Por:Sul 21
4 de Março de 2026, 10:22

Luiz Marques (*)

1.

A história das ideias acompanha todos movimentos políticos e sociais. É assim que o fascismo da década de 1920 na Itália e o nazismo dos anos 1930 na Alemanha geram a noção que abrange a esfera pública e privada: Estado totalitário. O conceito alerta para a crise do liberalismo, de modo a apreender as mudanças.

Na sequência, o tático pacto de não agressão (1939-1941) da Alemanha nazista com a URSS estende o termo “totalitarismo” ao comunismo soviético, nas narrativas jornalística e acadêmica. Une os sistemas avessos à democracia, enquanto o dito “pluralismo” celebra com ufanismo o american way of life no pós-guerra. 

À medida que a luta pela liberdade opõe o capitalismo ao bloco submisso às diretrizes de Moscou, o nazifascismo é secundarizado pelas elites ocidentais. Baterias disparam fogo então contra as governanças que, na teoria ou na prática, ainda se reivindicam do marxismo. Cuba resiste a um bloqueio econômico criminoso. 

Para Russell Jacoby, em O fim da utopia: política e cultura na era da apatia, a pinça ideológica se deve aos propagandistas da ideia serem pensadores de extraordinário prestígio e força. A condição de foragidos dos polos em conflito mantém acesa a dialética entre a bipolaridade geopolítica e a identidade conceitual, de fundo. 

– Em 1944, Friedrich Hayek lança o libelo O caminho para a servidão. O futuro Prêmio Nobel de Economia vê o comunismo e o nazifascismo como “variantes do totalitarismo”. Preocupa-se com a disseminação do ideário socialista na nova pátria (nascido austríaco, torna-se cidadão britânico). O Estado previdenciário, para ele, é o prenúncio de um colapso da liberdade individual. 

– No ano seguinte, Karl Popper publica A sociedade aberta e seus inimigos, com raras alusões ao nazifascismo. Mira “o espectro que ronda a Europa: o comunismo”. Jacob Talmon, em As origens da democracia totalitária, vaticina a “colisão frontal” da democracia liberal e a democracia iliberal. Remete às Revoluções Francesa e Russa, acusando jacobinos e bolcheviques de um “messianismo político”. Sobre o genocídio na II Guerra, silêncio obsequioso.

– Hannah Arendt criminaliza os regimes soviético e nazifascista de abrigarem “ideologias totalizantes”. Isaiah Berlin identifica dois tipos de liberdade; negativa (liberdade de) e positiva (liberdade para). A negativa “deixa o indivíduo livre de controle”. A positiva “implica uma coerção e expõe o núcleo de credos nacionalistas de nossa época”. Narciso só gosta do que vê refletido no espelho.

Hoje os refrões salientam a dicotomia para elogiar o misto de democracia e de oligarquia da ilusória terceira via, que carrega nas tintas para depreciar a alternativa “sectária, messiânica e utópica” representada pelo presidente Lula; e para desqualificar o Partido dos Trabalhadores. Vide a seleta reunida por José Giusti Tavares, em Totalitarismo tardio: o caso do PT; com a foto de Lenin na famosa Estação Finlândia, de Petrogrado, na capa estilizada (sic). 

2.

Os intelectuais são reconhecidos como um grupo social em fins do século XIX. A carta de Émile Zola, “J’accuse!”, que clama por verdade e justiça no caso Dreyfus, simboliza uma certidão de nascimento da intelligentsia e o berço do engajamento em causas contemporâneas. Sua palavra passa a influir nos acontecimentos políticos, sempre para nomear o que é o bem e o que é o mal.

Ocorre que seu zelo pela verdade e a justiça é sequestrado pelo deus-mercado, no neoliberalismo. A frase de Fernando Henrique Cardoso (“Esqueçam o que escrevi”) é uma apostasia. A crítica ao Estado prefacia o empreendedorismo. A antirreligiosidade tropeça no conservadorismo teocrático. O planejamento cede às mentiras. Os fins justificam os meios no eclipse da ética e da consciência.

A certeza que resta ao centro político se confunde agora com as distopias. O lema “razão, tolerância, humanidade” dá lugar a um “conformismo, oportunismo, egoísmo”. Vulgarmente falando, não há persona mais materialista do que a convertida à globalização do empirismo. A tolerância e o respeito à soberania popular e nacional se dissolvem na demagogia que despolitiza a política.

A Folha de S. Paulo, diante da pressão sindical endossada pelo governo federal sobre a escala 6 x 1, reacende os argumentos de fachada com ideias remanescentes do período colonial-escravista. Concorda com a demanda trabalhista, mas daqui a cem anos. Falta no tabuleiro brasileiro moderno o abolicionista de priscas eras. Os apóstatas amarram a bandeira da liberdade a reboque das finanças e das big techs. Os penduricalhos são os juros cobrados por castas. 

Treinados nas caixas registradoras da mais-valia, os jornalistas (influencers) comportam-se como capitães-do-mato do capital. Como se lê em um manifesto do surrealismo, o medo de ser feliz “reduz a imaginação a um estado de escravidão”. Significa “trair em si mesmo todo senso de justiça”. Afinal, “só a imaginação é capaz de proporcionar um vislumbre do que pode vir a ser”.

Entre o utopismo e o burocratismo, a imprensa prefere burocratas acovardados em postos de mando no aparelho estatal. Ignora “o livro dos mortos do século XX”, o qual calcula que no lapso temporal cem milhões de pessoas tiveram ceifadas suas vidas.

No cenário de violência figuram as guerras mundiais, a guerra sino-japonesa, guerra civil russa, guerra civil espanhola, Estado soviético e extermínio de judeus. Sem contar as baixas no Camboja, Vietnã, Argélia, Líbia, Bósnia, Ruanda, Afeganistão, Iraque, Palestina e os tantos assassinatos na América Latina. 

As determinações administrativas incentivam a “banalização do mal” com personagens medíocres, sem uma índole demoníaca, até receber a ordem para matar inocentes. Esses obedientes autômatos suspendem o pensamento para, a posteriori, sentar à mesa com a família, orar e dormir sem nenhum remorso; feito Eichmann.

A apologia do pluralismo e da diversidade sem o desejo de ir além do presente não contempla o direito à liberdade e à felicidade. A amputação da utopia por medo do totalitarismo não é um gesto de prudência, senão uma capitulação racionalizada por quem – teórica e politicamente – não ousa olhar para o futuro com esperança e coragem. Em paralelo, a extrema direita oferece apenas o ódio.

Para Chantal Mouffé, em Por um populismo de esquerda, a crise da hegemonia neoliberal coloca frente a frente o populisme de droite, que mina estruturas republicanas para implantar o regime de exceção; e o populisme de gauche que interpela a vontade coletiva com discurso democrático para mobilizar afetos políticos em torno da igualdade e justiça social. O primeiro é autoritário e golpista. O segundo garante a democracia e suas instituições, com um governo ao lado do povo trabalhador. A escolha é nossa.

No percurso da polarização, o centrismo midiático é a rendição à barbárie. Muito pior do que nos decênios vinte e trinta, dado o armamento nuclear estocado nos porões da insensatez. Capisce

(*) Docente de Ciência Política na UFRGS; ex-Secretário de Estado da Cultura no Rio Grande do Sul

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Ao alcance das mãos (por Fábio Canatta) 

Por:Sul 21
22 de Fevereiro de 2026, 08:28

Fábio Canatta (*)

Acompanhar o crescimento dos meus filhos é a experiência mais incrível — e mais desafiadora — que já vivi.

Ultimamente, porém, essa alegria anda de mãos dadas com um sentimento estranho. É como se o fim estivesse ali, dobrando a esquina, pronto para me tirar aquilo que hoje parece eterno.

Andar de mãos dadas.

Hoje eles voltaram às aulas. Ernesto foi para o sexto ano. Cecília, para o segundo. Entramos na escola de mãos dadas, como sempre. Mas bastou cruzar o portão para a ansiedade acelerar os passos. Os amigos, as histórias das férias, o reencontro — tudo chamava mais alto.

Cecília, com seus sete anos, falava sem respirar, animada, inteira naquele momento. Eu observava de perto, fingindo naturalidade. De vez em quando ela corria até mim, eufórica, para contar algo ou perguntar qualquer detalhe sobre a aula que ainda nem tinha começado.

Por quanto tempo ela ainda vai me querer ali, ao alcance do braço?

Por quanto tempo meu olhar não será motivo de constrangimento?

Ernesto tem dez. Faz onze em março. Ele ainda caminha pendurado em mim. Não basta a mão: ele agarra o antebraço inteiro, procura um espaço entre meu braço e minha cintura, encosta o corpo como quem ancora o próprio mundo. Faz isso na rua, no shopping, na frente dos amigos, até na escolinha de futebol. Enquanto outros meninos já ensaiam distância, ele me puxa para perto, sem cerimônia.

Eu amo isso já com saudade.

Quando caminho com meus filhos por aí, sinto que nada pode nos acontecer. As mãozinhas dentro da minha mão são um pacto silencioso: estamos juntos, somos fortes, o mundo é uma aventura. Nos bastamos.

Mas por quanto tempo?

Talvez seja egoísmo enxergar o crescimento deles como perda. Crescer é o que eu sempre quis para eles. Independência é vitória. Autonomia é sinal de que fizemos certo.

Eu tento acreditar nisso.

Ainda assim, a ideia de vê-los atravessando a vida sozinhos — sem procurar meus dedos no escuro, sem escorar o peso do corpo no meu braço — tem algo de despedida antecipada.

Um dia, eles atravessarão o portão sem olhar para trás. E eu estarei ali, parado, talvez com a mão ainda suspensa no ar — não mais para segurá-los, mas para aplaudir a coragem de irem.

É claro, se eu tiver coragem.

(*) Jornalista, pai do Ernesto e da Cecília

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O colapso do transporte público em Porto Alegre: projeto de cidade ou de mercado? (por Wellignton Porto)

Por:Sul 21
22 de Fevereiro de 2026, 08:21

Wellignton Porto (*) 

Passou o Carnaval e temos um recado claro da Prefeitura de Porto Alegre: estudar e acessar a cidade vai custar mais caro. O prefeito Sebastião Melo aumentou a tarifa de ônibus para R$ 5,30, justamente às vésperas do retorno às aulas em todas as redes de ensino, impactando diretamente milhares de estudantes que dependem do transporte público para permanecer na universidade.

O colapso do transporte público em Porto Alegre não é um episódio isolado, mas a expressão de um modelo que vem sendo construído ao longo dos anos. Ela é a expressão de um modelo político e econômico que vem sendo consolidado ao longo de anos e que hoje encontra sua forma mais explícita nas decisões da gestão do prefeito Sebastião Melo. Essa crise tem endereço certo: ela aparece no ônibus cheio, sucateado, no atraso constante, na falta de linhas, na falta de descontos e na escolha forçada entre pagar a passagem ou garantir outras necessidades básicas.

A grande questão é: qual cidade estamos construindo? Uma cidade que trata a mobilidade como mercadoria ou uma cidade que reconhece o acesso à cidade como direito fundamental?

Atualmente, o transporte público de Porto Alegre opera com base em um modelo que recai pesadamente sobre a tarifa paga pelos usuários. Mesmo com subsídios públicos crescentes, aporte de recursos que cresce ano após ano no orçamento municipal, o sistema não melhora de forma estrutural. Por quê? Porque o modelo em si é instável: receita tarifária cai, tarifa sobe; tarifa sobe, passageiro diminui; passageiro diminui, tarifa sobe de novo. É um ciclo que se retroalimenta e que coloca a população em desvantagem.

Se a Prefeitura destina tantos recursos, por que o transporte não é tratado como política pública prioritária, com metas claras de universalização, qualidade e integração social?

A Companhia Carris Porto Alegrense, consolidada como empresa pública estratégica na mobilidade de Porto Alegre desde sua estatização no governo de Leonel Brizola, foi concedida à iniciativa privada sob a justificativa de modernização e eficiência. Mas eficiência para quem? A experiência internacional e nacional mostra que a simples transferência da operação para a gestão privada não resolve o problema estrutural: 

  • a dependência da tarifa como principal fonte de receita persiste;
  • subsídios públicos continuam necessários;
  • não há garantia de expansão territorial ou de integração metropolitana;
  • a lógica do lucro coloca limites à oferta de serviços em áreas de menor rentabilidade justamente onde jovens e trabalhadores moram.

Ao abrir mão de uma operadora pública forte, o município perde capacidade de planejamento estratégico, algo essencial para políticas de longo prazo, como a implementação pioneira de modelos de tarifa zero.

A extinção dos cobradores foi vendida como economia ou modernização. Mas a conta real é outra: perdas de postos de trabalho, precarização das condições de operação, aumento da sobrecarga sobre motoristas e nenhuma resolução do desequilíbrio tarifário. A crise do transporte não está nos salários dos trabalhadores, está na estrutura de financiamento e na forma como o Estado vem se retirando progressivamente da definição estratégica do sistema.

Porto Alegre não é uma ilha. Nossa mobilidade depende de uma região metropolitana que agrega dezenas de municípios, onde grande parte da população estudantil e trabalhadora reside. Mas não existe uma autoridade metropolitana de mobilidade efetiva com poder deliberativo, orçamento próprio e integração tarifária real.

O resultado? Moradores de cidades vizinhas pagam mais para se deslocar ao centro, sofrem múltiplas tarifas, enfrentam longos tempos de viagem e ainda recebem um serviço fragmentado. Isso amplia desigualdades e penaliza, em particular, os estudantes que se deslocam diariamente.

A gestão municipal fala em responsabilidade fiscal, mas parece confundir eficiência com contenção de gastos. Eficiência no transporte público deve significar: redução do tempo de deslocamento, ampliação do acesso territorial, universalização progressiva dos serviços, justiça tarifária e sustentabilidade ambiental.

Enquanto Porto Alegre hesita, muitas cidades avançam no debate da tarifa zero, algumas já implementando políticas de transporte público gratuito financiadas pelo orçamento público, tributos progressivos e fundos de mobilidade. Experiências no Brasil e no mundo demonstram que a tarifa zero não é “ideal utópico”, é política pública realizável quando há decisão política e reorganização do financiamento:

O transporte público não é uma questão secundária. Ele interfere diretamente na permanência na universidade, no acesso à cultura, no direito à cidade. Não podemos aceitar que decisões sobre tarifas, concessões e modelos de financiamento sejam tomadas sem transparência ou debate público. Não podemos permitir que o transporte continue sendo tratado como conta a ser fechada, em vez de ser garantido.

Porto Alegre precisa decidir que cidade quer ser: uma que trata mobilidade como balanço contábil ou uma que reconhece a circulação como direito fundamental?  A resposta a essa pergunta definirá o futuro da cidade e para nós a resposta não é técnica, e sim, política, social e histórica.

(*) Estudante da UFRGS e militante do Afronte/PSOL

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