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Ari Peixoto, outro ex-Globo, se revolta com PowerPoint ligando Master ao PT: “Preparem-se”

22 de Março de 2026, 08:14
Ari Peixoto nos tempos da Globo

O jornalista Ari Peixoto, que trabalhou na Globo por 34 anos, com passagens por Jornal Nacional e Fantástico e coberturas internacionais, deixou um comentário no post da colega Neide Duarte, que teve a emissora por 42 anos.

Neide criticou a exibição do PowerPoint grotesco pondo o PT no centro do caso Master de “Dia da Vergonha”.

Nas palavras de Ari:

Trabalhei nesta emissora por 34 anos e posso dizer, sem medo de errar, que alguns destes anos foram os melhores para mim, para ela e para o jornalismo…

Mas, aos poucos, tudo isso foi ficando pra trás, os melhores repórteres, repcines, editores e produtores foram saindo (ou foram saídos) e o que era pra ser uma emissora de televisão se tornou uma arma política, quase um partido autônomo, dirigido por gente ressentida pelas derrotas sucessivas para os candidatos da esquerda…

Me lembro bem do selo do túnel de esgoto por onde passava dinheiro, exposto todas as noites no JN. Uma lástima.

Mas preparem-se. Cenas como esta, aliadas à IA, serão muito comuns até outubro. O PowerPoint da Lava Jato vai parecer desenho de criança do jardim de infância.

O PowerPoint da Globo

Lava Jato 2.0

Na tarde de sexta-feira (20), a GloboNews exibiu um PowerPoint “explicativo” sobre o escândalo do Banco Master que causa espanto pela distorção dos fatos.

O diagrama canhestro, que tinha como figura central o banqueiro Daniel Vorcaro, tentou ligar o caso a figuras da esquerda e do governo, como Jaques Wagner, Guido Mantega e o “PT da Bahia”, ignorando completamente os nomes de figuras-chaves que têm conexões diretas com o escândalo, como Jair Bolsonaro (PL), Tarcísio de Freitas (Republicanos), Ibaneis Rocha (MDB), Roberto Campos Neto, Rueda e outros nomes do centrão.

O PowerPoint da GloboNews omitiu o PL, o maior envolvido no escândalo, e deixou de mencionar figuras como Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e outros aliados do governo que receberam recursos de Fabiano Zettel, operador financeiro de Vorcaro.

Já o nome de Ciro Nogueira (PP-PI), um dos senadores mais próximos de Vorcaro, foi colocado na apresentação de maneira discreta, sem mencionar seu partido e sua conhecida ligação com o banqueiro. Gabriel Galípolo, atual presidente do Banco Central, foi incluído como “próximo” de Vorcaro, enquanto Roberto Campos Neto, seu antecessor e aliado de Bolsonaro, foi completamente ignorado.

O PowerPoint verdadeiro deveria ter incluído a própria Globo e seu envolvimento no escândalo. Daniel Vorcaro, que patrocinou um evento da Globo em Nova York e foi o principal orador, chamou figuras do grupo de “amigos”, incluindo o organizador Fred Kachar.

Jornalões aplicam harmonização para que o filho fique diferente do pai. Por Moisés Mendes

17 de Março de 2026, 07:30
Jair Bolsonaro e Flávio Bolsonaro. Foto: Sérgio Lima/Poder360

Os jornalões estão limpando a barra de Flávio Bolsonaro, como admitiu até a ombudsman da Folha, e daqui a pouco irão tratá-lo de forma carinhosa. Mesmo que diminutivos geralmente sejam problemáticos para políticos, ele pode virar um Flavinho sem sobrenome.

Flávio precisa, na repaginada, de mudanças que suavizem seu perfil. Como sugeriu a colunista Raquel Landim, em fevereiro, na capa do Estadão: “E se Flávio Bolsonaro tivesse um Paulo Guedes de saias?”

Os Bolsonaros são a expressão da brutalização da política brasileira. É preciso torná-los mais femininos. Raquel imagina uma mulher mandando na Fazenda e oferece a ideia de graça para o filho ungido.

Vários colunistas liberais, entre os quais Joel Pinheiro da Fonseca, Demétrio Magnoli e Elio Gaspari, têm certeza de que o filho não é igual ao pai.

É preciso livrá-lo dos estigmas e apresentar, não a perna cabeluda, mas a coxa depilada do fascismo. A surpreendente exceção é Merval Pereira, que já prevê com a ascensão de Flávio uma nova tentativa de golpe.

Qualquer um desses liberais colaboracionistas pode acrescentar sugestões liberalizantes a Flávio, incluindo uma pessoa trans na Casa Civil, um carnavalesco na cultura e um negro de esquerda nos direitos humanos.

Podem contribuir para o que Alexandra Moraes, a ombudsman da Folha, denunciou no próprio jornal, no domingo, com o alerta de que o sobrenome Bolsonaro está desparecendo dos títulos das notícias.

Alexandra nos indica que a Folha pode estar na dianteira de um plano para que daqui a pouco Flávio seja o Flavinho. Mudam a roupa, vendem a imagem de moderado e chamam mulheres para perto. Porque a maioria do eleitorado feminino o rejeita.

Suavizar o perfil de Flávio é hoje tarefa muito mais entregue às corporações de mídia do que aos marqueteiros da extrema direita. Folha, Globo e Estadão se encarregam da harmonização. O novo bolsonarismo é humanizado por fora, porque por dentro é complicado.

Manchete de Raquel Landim no Estadão. Foto: Reprodução

Um sujeito com o carisma de um brócolis começa a se apresentar como negociador que conversa com todo mundo, como dançarino de palco, que se revelou performático em comício em Rondônia, e como figura de projeção internacional que já fez várias viagens curtas e longas.

Flávio Bolsonaro precisa ser assimilado como o sapo a ser engolido pelos jornalões e pela velha direita. Mas precisa fazer concessões que o tornem uma figura menos bruta e por isso também menos associada à imagem e semelhança do grande chefão preso.

A retirada do sobrenome tem, além de fazer a faxina, a pretensão de testar um nome que se basta sozinho. Flávio será tratado como um Fernando Henrique, que no fim virou FH ou FHC.

Não podemos duvidar que também ele vire uma sigla e que as próximas manchetes o tratem como FB, como tratavam ACM e um dia trataram JK. Flávio Bolsonaro é um homem em reconstrução, em que tudo que já usava só vale para o seu eleitorado raiz.

O resto da direita à la Valdemar Victor Frankstein Costa Neto merece uma criatura com bons modos à mesa, mesmo que sua estrutura, sua essência e sua alma continuem sendo tudo o que carrega do DNA do pai.

Gleisi desmente editorial da Folha e defende ações do governo Lula no combate à corrupção

15 de Março de 2026, 16:23
A ministra Gleisi Hoffmann. Foto: Divulgação

A ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, fez duras críticas a um editorial publicado neste domingo (15) pela Folha. No texto, o jornal aborda o que classifica como combate à corrupção no governo do presidente Lula.

Gleisi acusou a publicação de distorcer os fatos ao tratar das investigações envolvendo fraudes contra aposentados e irregularidades no caso Master. Afirmou que a Folha apresentou uma versão equivocada dos eventos.

A ministra destacou que as investigações, que ganharam visibilidade recentemente, não foram frutos de pressões políticas ou de reportagens do jornal, mas sim de ações coordenadas por instituições responsáveis pela fiscalização, como a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União (CGU). Ela também mencionou a participação do Banco Central em um dos casos investigados, enfatizando a atuação conjunta das instituições públicas.

“Editorial na capa da @folha corrompe a realidade ao tratar do combate à corrupção no governo do presidente @LulaOficial. Quem ‘rompeu o silêncio’ sobre o roubo dos aposentados e as fraudes no Master foi a ação conjunta da Polícia Federal com a CGU no primeiro caso, e o Banco Central, no segundo”, escreveu a ministra.

Ela também afirmou que o jornal ignora o papel essencial das instituições responsáveis pela apuração desses episódios. E reiterou que os escândalos investigados têm origem em períodos anteriores à atual gestão, ou seja, tudo começou durante o governo de Jair Bolsonaro.

Editorial na capa da @folha corrompe a realidade ao tratar do combate à corrupção no governo do presidente @LulaOficial. Quem “rompeu o silêncio” sobre o roubo dos aposentados e as fraudes no Master foi a ação conjunta da Polícia Federal com a CGU no primeiro caso, e o Banco…

— Gleisi Hoffmann (@gleisi) March 15, 2026

Gleisi argumentou que os problemas relacionados às fraudes contra aposentados e ao caso Master não foram identificados pelo jornal no momento em que ocorreram. “Ambos os escândalos, que nasceram e se desenvolveram durante o governo Bolsonaro, nunca foram percebidos pelo jornal antes da ação das autoridades responsáveis neste governo”, afirmou.

Segundo a ministra, as investigações seguem os procedimentos legais estabelecidos, sempre com a supervisão do Poder Judiciário, como determina a lei. Gleisi ressaltou que as apurações estão sendo conduzidas sem qualquer interferência política, conforme a orientação do presidente Lula. “Importante frisar também que as investigações policiais ocorrem sob a supervisão do Judiciário, como a lei exige, sem qualquer interferência política por parte do governo, uma postura sempre orientada pelo presidente Lula”, disse.

Ela também abordou o papel da imprensa no sistema democrático, destacando a importância da liberdade de atuação dos veículos de comunicação. No entanto, criticou a Folha de S.Paulo por, em sua visão, interpretar de forma equivocada o cenário político. “A imprensa cumpre seu papel na democracia, que foi ameaçada pelo governo anterior, não por este, caso a Folha tenha se esquecido da história recente do país”, completou a ministra.

Governo Trump ameaça censurar emissoras dos EUA por cobertura da guerra no Irã

15 de Março de 2026, 15:29
Prédio da Comissão Federal de Comunicação (FCC), em Washington. Foto: Divulgação

O presidente da Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC), Brendan Carr, tomou uma posição firme contra as emissoras de televisão dos EUA, ameaçando revogar suas licenças devido ao que ele considera um viés nas coberturas da guerra no Irã. A declaração dele, feita no sábado (14), veio no contexto de um confronto crescente entre os Estados Unidos e o Irã.

Ele acusou as emissoras de “divulgarem boatos e distorções de notícias”, orientando-as a “corrigir o rumo antes da renovação de suas licenças”. Ele afirmou: “As emissoras devem operar em prol do interesse público e perderão suas licenças se não o fizerem.”

O presidente da FCC, que tem se mostrado cada vez mais crítico da mídia desde que assumiu o cargo durante o governo Trump, defendeu que as redes de comunicação devem se alinhar com os interesses do governo e não veicular notícias que possam minar o esforço militar dos EUA.

Ele também compartilhou uma postagem do presidente Donald Trump no Truth Social, na qual o republicano criticava a cobertura da mídia sobre o ataque a cinco aviões de reabastecimento americanos na Arábia Saudita.

Trump considerou a manchete do ‘The Wall Street Journal’ sobre o incidente “intencionalmente enganosa”, acusando a mídia de querer que os EUA perdessem a guerra. A publicação do jornal não respondeu prontamente a solicitações de comentário sobre a crítica dele.

Em um tom semelhante ao de Carr, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, também expressou insatisfação com a cobertura da guerra pelo canal ‘CNN’ durante uma coletiva de imprensa na sexta-feira (13).

Hegseth fez referência ao bilionário David Ellison, dono da Paramount Skydance, que busca adquirir a Warner Bros. Discovery por US$ 111 bilhões. Se concretizado, esse negócio colocaria a CNN sob o controle dele, que é conhecido por suas afinidades com a ala conservadora da mídia e também por ter uma relação amigável com Trump.

O comportamento dele, que lidera a FCC desde 2017, vem gerando controvérsias. Especialistas em regulamentação da mídia alertam que a revogação de licenças é um processo complexo e custoso, e que a lei federal proíbe explicitamente o uso de regulamentações para censurar a imprensa.

O presidente da Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC), Brendan Carr. Foto: Divulgação

No entanto, Carr tem levantado frequentemente a possibilidade de restringir as licenças das emissoras que, em sua visão, não atendem ao interesse público ou que transmitem informações que ele considera prejudiciais aos objetivos do governo. Parlamentares democratas e defensores da liberdade de expressão reagiram com críticas severas à postura dele.

A senadora Elizabeth Warren (Massachusetts) qualificou a ameaça do presidente do FCC como “típica de um manual autoritário”, enquanto o senador Mark Kelly (Arizona) enfatizou que “quando nossa nação está em guerra, é crucial que a imprensa seja livre para noticiar sem interferência do governo”.

Para eles, a ação dele configura uma violação direta da Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que garante a liberdade de imprensa. A Fundação para os Direitos Individuais e a Expressão, uma organização que defende os direitos da imprensa, classificou a postura dele como “chocante e perigosa”.

Em comunicado, a entidade afirmou que o presidente da FCC tem se mostrado disposto a intimidar e ameaçar a imprensa livre de maneira descarada, algo que consideram uma ameaça à democracia.

Carr tem mostrado uma abordagem agressiva em relação à mídia nos últimos anos. O programa ‘Jimmy Kimmel Live!’ foi retirado temporariamente do ar após ele questionar alguns comentários do apresentador da ABC, e o ‘The View’, talk show político da emissora, foi alvo de críticas, com a FCC sugerindo investigações sobre seu conteúdo.

Em 2023, Stephen Colbert também criticou Carr, apontando que a CBS havia impedido a exibição de uma entrevista com um candidato democrata devido a novas regras da FCC sobre igualdade de tempo de antena para candidatos políticos.

A retórica do governo Trump contra a imprensa está ocorrendo em um momento delicado para a guerra no Irã, com pesquisas mostrando que o apoio popular à intervenção militar dos EUA está em queda. Além disso, o governo enfrenta dificuldades em impedir que o Irã bloqueie rotas petrolíferas essenciais, em meio à alta dos preços globais do petróleo.

VÍDEO – “Grave”: médico detalha estado de saúde de Bolsonaro

13 de Março de 2026, 15:25
O médico cardiologista Brasil Caiado durante coletiva nesta sexta (13). Foto: Luis Nova/Metrópoles

O médico cardiologista Brasil Caiado afirmou que o estado de saúde do ex-presidente Jair Bolsonaro é grave após diagnóstico de pneumonia. A declaração foi dada durante coletiva em frente ao Hospital DF Star, em Brasília, onde o ex-presidente permanece internado na unidade de terapia intensiva depois de passar mal na Papudinha.

Segundo o médico, exames indicaram que a infecção pulmonar atual é mais extensa do que em episódios anteriores. “O estado dele é grave. O quadro é grave porque, na verdade, começou nesta madrugada. E tem um exame específico, que se chama procalcitonina, que sobe nas infecções agudas. E ela sobe só em infecções mais graves, e a dele aumentou de forma drástica”, explicou.

O cardiologista disse que a pneumonia em pacientes com idade mais avançada exige maior atenção, por causa do risco de complicações. De acordo com ele, “cada infecção tem uma característica peculiar, mas nós sabemos que a pneumonia em pacientes acima de 70 anos sempre é grave, porque evolui para septicemia”.

Bolsonaro foi submetido a tomografia logo após dar entrada no hospital, e o exame confirmou broncopneumonia bilateral, mais intensa no pulmão esquerdo. O médico afirmou que “esta pneumonia é maior, mais acentuada em relação às outras todas que ele já teve. Isso requer um cuidado especial agora”.

O histórico recente também preocupa a equipe médica, segundo Caiado. Exames feitos meses atrás já mostravam resquícios de infecção anterior. “Na avaliação que nós fizemos em dezembro, ainda tinha um resquício da pneumonia de agosto. Isso mostra que o organismo fica com essa recorrência de pequenas broncoaspirações”, afirmou.

O médico explicou que a diferença no quadro atual é a extensão da inflamação detectada nos dois pulmões. “Quando nós verificamos uma parte grande do pulmão esquerdo e também do pulmão direito, em comparação aos outros exames, nós verificamos um quadro mais acentuado, sim”, disse, destacando que a situação exige vigilância constante.

Segundo ele, o tratamento agora está totalmente focado no controle da infecção. “Depois desta internação, o foco total é na infecção. Proteção total para o paciente. O foco agora é não deixar que a infecção progrida. É um risco. Nós não sabemos como evoluirá. Então é monitoramento o tempo todo, ajuste de medicamento o tempo todo”, completou.

A imprensa como ideologia (por Luiz Marques)

Por:Sul 21
11 de Março de 2026, 10:53

Luiz Marques (*)

1.

Que entendimento de democracia desenvolve a mídia corporativa? Resposta: a de que a democracia é um sistema político onde se desenrola um permanente confronto de opiniões. A definição não faz distinção entre os pontos de vista, o que abre a janela às fake news magnificadas por robôs para manipular os receptores das mensagens. O objetivo é orientar a opção dos consumidores e a tendência dos eleitores para formatar o gosto dos brasileiros.

A “democracia de opinião” dita a performance dos meios de comunicação. Não vale para as relações entre os patrões e os empregados (colaboradores, sic) no interior das empresas, onde o pensamento único senhoril fixa o regramento para aumentar os lucros de modo sensacionalista. Aqui, os veículos de massas têm em comum com a extrema direita a apologia da liberdade de expressão como um valor, em abstrato. Na caixa de Pandora que destampa a dor e o sofrimento, ao revés da esperança no fundo, encontra-se a coleção das fraudulentas emendas impositivas.

A pasteurização de consciências no entretenimento medíocre da TV global inclui a venda de carnês para meter a mão na renda dos pauperizados. Os domingos servem de inspiração ao assalto dos aposentados no INSS e para as falcatruas do Banco Master, no desgoverno Bolsonaro. O recado tem os olhos azuis: as coisas só mudam graças a algum golpe. Uma lavagem cerebral estimula as pregações de cinismo para gozar privilégios. Apaga-se o trabalho dos sindicatos, entidades comunitárias e organizações contrárias às medidas neoliberais. A solidariedade é enterrada a sete palmos. 

O elogio da opinião, per se, revalida o supremacismo colonialista de raça e o supremacismo patriarcal de gênero, como se a roda da história tivesse parado e o tempo estivesse congelado na tradição de mando e obediência. Contudo, a revolução cultural de Maio de 1968 continua a reconfigurar a moral e os costumes das gerações. Cazuza tinha razão: “A tua piscina tá cheia de ratos / tuas ideias não correspondem aos fatos / É, o tempo não para”. Eis o principal ensinamento emancipacionista a ser tirado do sessentismo.

A democracia vai além da troca de opiniões e da mitificação do papel dos noticiários. Implica o próprio conteúdo da linguagem escrita e falada. Para Claude Lefort, em A invenção democrática, “a democracia é um processo cumulativo de valores civilizacionais”, regido pelo princípio inalienável do “direito a ter direitos”. Tal é o parâmetro para uma sociabilidade humana. 

O direito a ter direitos esbarra na ilusão meritocrática que abstrai as condições de nascimento e o acesso precário das periferias à educação e à cultura. A meritocracia é o triunfo dos vencedores; ignora os motivos que condicionam os perdedores na guerra hobbesiana de todos contra todos. Assim, transforma os primeiros em campeões da arrogância; e os demais em criaturas invisíveis.

O termo meritocracy nas origens não é sinal de justiça, tem um sentido distópico. A apropriação pelas elites avaliza simbólica e moralmente as pretensas virtudes do capitalismo. A prestidigitação mascara a corrida competitiva com pobres, negros, mulheres, indígenas e grupos LGBTQIA+ sempre no pelotão detrás. Hélas.

A Teologia da Prosperidade recrudesce a crença nos eleitos de deus para explicar as desigualdades. A imprensa como ideologia acoberta os mecanismos da exclusão que sequestra os direitos, com a alegação da falta de “mérito”. Sem o discurso calvinista a verdade viria à tona rápido e a farsa se evidenciaria para todos.

2.

O que é política, na percepção da mídia corporativa? Resposta: as atividades da representação no Legislativo e no Executivo dos municípios, estados e União, que tomam as decisões na República. O modelo baseado em representantes é consolidado ao longo do século XX. Significa que a política tem um locus especial para ser exercida. Prevalece a cosmovisão institucionalista do ofício.

Fernando Henrique Cardoso esgrime a versão hegemônica na greve dos petroleiros no início de 1995, em que uma categoria de 40 mil trabalhadores mantém o paredismo por 32 dias. Contra a agenda de privatizações e os cortes de direitos, postula um monopólio estatal do petróleo e um cumprimento de acordos salariais anteriores, enfrentando as demissões e as intervenções judiciais que acusam de abusivas as demandas grevistas. O Estado neoliberal começa então a mostrar as garras afiadas, e o ex-presidente determina a ocupação das refinarias pelo exército. 

Os líderes do movimento extrapolam as funções ao levantar a bandeira “Não à privatização da Petrobrás”, reclama FHC. Se querem fazer política, candidatem-se ao Parlamento. O exercício da política transcorre no Congresso Nacional. Só empoderada no voto das urnas as posições antiprivatistas dispõem da sagrada legitimidade para disputar a volatilidade da opinião pública. 

O sociólogo pede que esqueçam o que escreveu, parecendo desconhecer que a pressão das ruas têm um caráter político, direcionam o poder público. Rosa Luxemburgo se opõe ao fechamento da Duma na URSS pelos bolcheviques, lembrando que, ao mobilizar o povo, a esquerda consegue aprovar temas polêmicos em plenários conservadores e mesmo reacionários.

O fato de os atores coletivos não figurarem nas manchetes, exceto nas ocasiões em que vidraças são quebradas por black blocs vestidos de preto com máscaras para se proteger da vigilância policial, não quer dizer que não se constituam em sujeitos da política. A participação cidadã confere uma racionalidade aos equipamentos urbanos para superar as desigualdades, inclusive no plano institucional. Tipo as cotas de reparação que alavancam a mobilidade social para compensar 350 anos de escravização.

O liberalismo detesta os heróis oriundos de coletivos com um viés anarquista ou anticapitalista. Prefere os mocinhos empenhados em corrigir o regime, em vez de substituí-lo por sonhos nunca testados na prática. A noção criada por Henry David Thoreau – “desobediência civil” – celebra o indivíduo soberano contra as leis reputadas injustas do Estado, e não as manifestações pluralistas orquestradas pelas associações ou pelos partidos progressistas. 

Até na denúncia de atrocidades os aparelhos midiáticos falseiam o real. Ao criticar as contribuições obrigatórias, atacam um suporte material das ações sindicais enfraquecidas nas crises econômicas. Ao citar o número absurdo de agremiações partidárias, reiteram a antipolítica pró-mercado. Ao estampar o genocídio na Faixa de Gaza e os bombardeios no Líbano e no Irã, escondem a total responsabilidade de Israel e Estados Unidos pelos conflitos. 

O lawfare (law/direito, warfare/guerra) torna o direito uma arma de destruição de reputações (pessoas, instituições), por intermédio de uma exposição aos moldes de uma operação militar. O instrumento popularizado na Lava Jato é a negação do direito e dos direitos – a terra de Marlboro. A presunção de inocência cai. Não há o contraditório, nem o direito moderno de ampla defesa.

Como observa Achille Mbembe na aula magna da USP em 2024, publicada com o título Democracia como uma comunidade de vida, o método democrático não se resume a uma tecnologia de governo. Qual a vida, é nossa última utopia. “O futuro da humanidade não está apenas firmemente atrelado à Terra. Ele também pode estar firmemente atrelado à democracia. Precisamos parar de nos comportar como se pudéssemos ir para outro lugar”. Jeff Bezos, Elon Musk e seus pares bilionários estão enganados.

O nó górdio concerne à recusa da imprensa realmente existente em preservar o planeta e a democracia, enquanto as big techs e as finanças envernizam um novo miliciano corrupto de sobrenome infame. Mostra que os donos do poder não têm compromisso efetivo com o amanhã, mas com a necropolítica: a acumulação do egoísmo e a promoção da infelicidade. Vade retro satana.

(*) Docente de Ciência Política na UFRGS; ex-Secretário de Estado da Cultura no Rio Grande do Sul

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As opiniões emitidas nos artigos publicados no espaço de opinião expressam a posição de seu autor e não necessariamente representam o pensamento editorial do Sul21

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Até um lavajatista pode virar herói contra o mafioso. Por Moisés Mendes

4 de Março de 2026, 22:13
Daniel Vorcaro olhando sério para a câmera
O banqueiro Daniel Vorcaro – Reprodução

Em seus melhores momentos, principalmente quando do enfrentamento da ditadura, nos anos 70, o jornalismo brasileiro produziu combatentes que viraram lendas. Quase todos da grande imprensa, alguns da chamada imprensa alternativa.

O jornalismo dos anos 70 e 80 consagrou nomes, nas mais variadas áreas, como Raimundo Pereira, Audálio Dantas, Mino Carta, Marisa Raja Gabaglia, Alberto Dines, Ricardo Kotscho, Rose Nogueira, Rosa Freire d’Aguiar, Fernando Morais, José Hamilton Ribeiro, Luiz Nassif, Tereza Cruvinel.

Há dezenas de outros, muitos em atividade. Não citarei nenhum gaúcho ou gaúcha (e são exemplares), para que não digam que estou agauchando a lista. E aí, diante de todos esses nomes, nos deparamos agora com o profissional que ganha manchete como o jornalista do momento, o colunista Lauro Jardim, do Globo.

Jardim virou capa por ter sido incluído numa lista criminosa do banqueiro Daniel Vorcaro como um dos alvos a serem alcançados. Que simulassem um assalto e quebrassem os dentes de Jardim, ordenou o mafioso.

E, se era e ainda é ‘inimigo’ de um gângster, Jardim passou a ser visto como o cara que enfrenta bandidos. O lavajatista Lauro Jardim, o colunista que ajudou a propagar boa parte dos ataques a Alexandre de Moraes, com notinhas de intrigas, agora é herói.

Print de ameaça contra Lauro Jardim
Print de ameaça contra Lauro Jardim – Reprodução

Jardim sempre usou sua coluna no Globo para exaltar Sergio Morro e a Lava-Jato, e depois, quando dos preparativos para o julgamento dos golpistas, para tentar criar fissuras dentro do Supremo.

Foram suas algumas das notas mais venenosas sobre o desconforto de ministros com os ‘exageros’ de Moraes. E esse é o cara que temos hoje como herói da livre imprensa e como exemplo de bravura, por ter produzido notinhas que irritaram as máfias do Master.

É uma situação que reflete o cenário geral do país, com bancos envolvidos com o PCC, juízes tarados ou vendendo sentenças e com a degradação do jornalismo das corporações.

Jardim trabalha numa das organizações que escondem informações sobre o fascismo (leiam o que dizem Luiz Nassif e Mario Vitor Santos). O jornal que o emprega colocou nos cantinhos a nota produzida pelo próprio Globo sobre o uso do jatinho de Vorcaro por Nikolas Ferreira. E se engaja ao esforço da grande mídia para que Flávio Bolsonaro tenha roupa nova.

Há muita gente do jornalismo de combate que poderia ser apresentada como exemplo de afronta ao poder econômico e político da direita e da extrema direita acumpliciadas com Vorcaro, as fintechs, os grileiros e os milicianos.

Numa hora dessas, quando o fascismo mostra as unhas de novo e as empresas de mídia fortalecem o protagonismo político, o herói não precisava ser Lauro Jardim, mas pelo menos não é Malu Gaspar.

O percurso da polarização (por Luiz Marques)

Por:Sul 21
4 de Março de 2026, 10:22

Luiz Marques (*)

1.

A história das ideias acompanha todos movimentos políticos e sociais. É assim que o fascismo da década de 1920 na Itália e o nazismo dos anos 1930 na Alemanha geram a noção que abrange a esfera pública e privada: Estado totalitário. O conceito alerta para a crise do liberalismo, de modo a apreender as mudanças.

Na sequência, o tático pacto de não agressão (1939-1941) da Alemanha nazista com a URSS estende o termo “totalitarismo” ao comunismo soviético, nas narrativas jornalística e acadêmica. Une os sistemas avessos à democracia, enquanto o dito “pluralismo” celebra com ufanismo o american way of life no pós-guerra. 

À medida que a luta pela liberdade opõe o capitalismo ao bloco submisso às diretrizes de Moscou, o nazifascismo é secundarizado pelas elites ocidentais. Baterias disparam fogo então contra as governanças que, na teoria ou na prática, ainda se reivindicam do marxismo. Cuba resiste a um bloqueio econômico criminoso. 

Para Russell Jacoby, em O fim da utopia: política e cultura na era da apatia, a pinça ideológica se deve aos propagandistas da ideia serem pensadores de extraordinário prestígio e força. A condição de foragidos dos polos em conflito mantém acesa a dialética entre a bipolaridade geopolítica e a identidade conceitual, de fundo. 

– Em 1944, Friedrich Hayek lança o libelo O caminho para a servidão. O futuro Prêmio Nobel de Economia vê o comunismo e o nazifascismo como “variantes do totalitarismo”. Preocupa-se com a disseminação do ideário socialista na nova pátria (nascido austríaco, torna-se cidadão britânico). O Estado previdenciário, para ele, é o prenúncio de um colapso da liberdade individual. 

– No ano seguinte, Karl Popper publica A sociedade aberta e seus inimigos, com raras alusões ao nazifascismo. Mira “o espectro que ronda a Europa: o comunismo”. Jacob Talmon, em As origens da democracia totalitária, vaticina a “colisão frontal” da democracia liberal e a democracia iliberal. Remete às Revoluções Francesa e Russa, acusando jacobinos e bolcheviques de um “messianismo político”. Sobre o genocídio na II Guerra, silêncio obsequioso.

– Hannah Arendt criminaliza os regimes soviético e nazifascista de abrigarem “ideologias totalizantes”. Isaiah Berlin identifica dois tipos de liberdade; negativa (liberdade de) e positiva (liberdade para). A negativa “deixa o indivíduo livre de controle”. A positiva “implica uma coerção e expõe o núcleo de credos nacionalistas de nossa época”. Narciso só gosta do que vê refletido no espelho.

Hoje os refrões salientam a dicotomia para elogiar o misto de democracia e de oligarquia da ilusória terceira via, que carrega nas tintas para depreciar a alternativa “sectária, messiânica e utópica” representada pelo presidente Lula; e para desqualificar o Partido dos Trabalhadores. Vide a seleta reunida por José Giusti Tavares, em Totalitarismo tardio: o caso do PT; com a foto de Lenin na famosa Estação Finlândia, de Petrogrado, na capa estilizada (sic). 

2.

Os intelectuais são reconhecidos como um grupo social em fins do século XIX. A carta de Émile Zola, “J’accuse!”, que clama por verdade e justiça no caso Dreyfus, simboliza uma certidão de nascimento da intelligentsia e o berço do engajamento em causas contemporâneas. Sua palavra passa a influir nos acontecimentos políticos, sempre para nomear o que é o bem e o que é o mal.

Ocorre que seu zelo pela verdade e a justiça é sequestrado pelo deus-mercado, no neoliberalismo. A frase de Fernando Henrique Cardoso (“Esqueçam o que escrevi”) é uma apostasia. A crítica ao Estado prefacia o empreendedorismo. A antirreligiosidade tropeça no conservadorismo teocrático. O planejamento cede às mentiras. Os fins justificam os meios no eclipse da ética e da consciência.

A certeza que resta ao centro político se confunde agora com as distopias. O lema “razão, tolerância, humanidade” dá lugar a um “conformismo, oportunismo, egoísmo”. Vulgarmente falando, não há persona mais materialista do que a convertida à globalização do empirismo. A tolerância e o respeito à soberania popular e nacional se dissolvem na demagogia que despolitiza a política.

A Folha de S. Paulo, diante da pressão sindical endossada pelo governo federal sobre a escala 6 x 1, reacende os argumentos de fachada com ideias remanescentes do período colonial-escravista. Concorda com a demanda trabalhista, mas daqui a cem anos. Falta no tabuleiro brasileiro moderno o abolicionista de priscas eras. Os apóstatas amarram a bandeira da liberdade a reboque das finanças e das big techs. Os penduricalhos são os juros cobrados por castas. 

Treinados nas caixas registradoras da mais-valia, os jornalistas (influencers) comportam-se como capitães-do-mato do capital. Como se lê em um manifesto do surrealismo, o medo de ser feliz “reduz a imaginação a um estado de escravidão”. Significa “trair em si mesmo todo senso de justiça”. Afinal, “só a imaginação é capaz de proporcionar um vislumbre do que pode vir a ser”.

Entre o utopismo e o burocratismo, a imprensa prefere burocratas acovardados em postos de mando no aparelho estatal. Ignora “o livro dos mortos do século XX”, o qual calcula que no lapso temporal cem milhões de pessoas tiveram ceifadas suas vidas.

No cenário de violência figuram as guerras mundiais, a guerra sino-japonesa, guerra civil russa, guerra civil espanhola, Estado soviético e extermínio de judeus. Sem contar as baixas no Camboja, Vietnã, Argélia, Líbia, Bósnia, Ruanda, Afeganistão, Iraque, Palestina e os tantos assassinatos na América Latina. 

As determinações administrativas incentivam a “banalização do mal” com personagens medíocres, sem uma índole demoníaca, até receber a ordem para matar inocentes. Esses obedientes autômatos suspendem o pensamento para, a posteriori, sentar à mesa com a família, orar e dormir sem nenhum remorso; feito Eichmann.

A apologia do pluralismo e da diversidade sem o desejo de ir além do presente não contempla o direito à liberdade e à felicidade. A amputação da utopia por medo do totalitarismo não é um gesto de prudência, senão uma capitulação racionalizada por quem – teórica e politicamente – não ousa olhar para o futuro com esperança e coragem. Em paralelo, a extrema direita oferece apenas o ódio.

Para Chantal Mouffé, em Por um populismo de esquerda, a crise da hegemonia neoliberal coloca frente a frente o populisme de droite, que mina estruturas republicanas para implantar o regime de exceção; e o populisme de gauche que interpela a vontade coletiva com discurso democrático para mobilizar afetos políticos em torno da igualdade e justiça social. O primeiro é autoritário e golpista. O segundo garante a democracia e suas instituições, com um governo ao lado do povo trabalhador. A escolha é nossa.

No percurso da polarização, o centrismo midiático é a rendição à barbárie. Muito pior do que nos decênios vinte e trinta, dado o armamento nuclear estocado nos porões da insensatez. Capisce

(*) Docente de Ciência Política na UFRGS; ex-Secretário de Estado da Cultura no Rio Grande do Sul

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