Ferramentas avançadas de inteligência artificial (IA) podem ajudar a reduzir os custos de desenvolvimento de videogames pela metade e potencialmente liberar cerca de US$ 22 bilhões (R$ 110 bilhões, na cotação atual) em lucros anuais para fabricantes de jogos em todo o mundo, disseram analistas do Morgan Stanley.
A adoção de ferramentas de IA para automatizar tarefas como a criação de ambientes de jogos, a geração de diálogos e o teste de software poderia ajudar a encurtar os prazos de produção e reduzir os custos, ajudando a aumentar as margens ao longo do tempo, apontou a corretora.
No entanto, acrescentou, é improvável que os ganhos sejam distribuídos uniformemente pelo ecossistema de jogos.
A corretora de Wall Street estima que os gastos do consumidor global com videogames totalizarão US$ 275 bilhões este ano, com cerca de 20%, ou cerca de US$ 55 bilhões, a serem reinvestidos no desenvolvimento e nas operações de jogos.
Normalmente caro e trabalhoso, o desenvolvimento de jogos pode se tornar mais enxuto, pois a IA permite equipes menores e melhorias mais rápidas após o lançamento, acrescentou o Morgan Stanley.
A magnitude do desenvolvimento de jogos modernos é ilustrada pelo Grand Theft Auto VI, da Take-Two Interactive (T1TW34), um dos títulos mais esperados do setor, que está em desenvolvimento desde aproximadamente 2018 — cinco anos após o lançamento de GTA V.
“Vimos o valor se concentrando em plataformas e descobertas em escala, especialmente entre empresas com dados proprietários, propriedade intelectual e operações ao vivo”, afirmou a corretora. “Os maiores beneficiários podem ser aqueles que controlam a distribuição, os dados e o engajamento.”
O Morgan Stanley acrescentou que plataformas de jogos e operadoras, incluindo a Tencent, a Sony e a Roblox, poderiam ser as principais beneficiárias, enquanto grandes editoras como a Take-Two, a Electronic Arts e a Ubisoft, que possuem escala suficiente para implementar IA em vários títulos, também poderiam se beneficiar.
Por outro lado, empresas com franquias mais fracas, como a Playtika e a Netmarble , poderão enfrentar uma pressão maior, pois a IA reduz o custo de produção de jogos de médio porte, o que gera mais concorrência.
“Mecanismos de jogos como o Unity e o Unreal Engine enfrentam um resultado mais binário: adaptar-se ou sofrer interrupções”, disse a corretora.
Além da economia de custos, a IA poderia aumentar as receitas, mantendo os jogos atraentes por mais tempo, aumentando os gastos com conteúdo adicional, compras no jogo e assinaturas.
Em vez de depender principalmente de novos lançamentos, as editoras poderiam mudar o foco para atualizar as franquias existentes por meio de conteúdo orientado por IA, amortecendo o impacto financeiro, disse a corretora.
O índice de aprovação do presidente norte-americano, Donald Trump, caiu nos últimos dias para o seu ponto mais baixo desde que ele retornou à Casa Branca, atingido por um aumento nos preços dos combustíveis e pela desaprovação generalizada da guerra que ele lançou contra o Irã, segundo uma pesquisa Reuters/Ipsos.
A pesquisa de quatro dias, encerrada na segunda-feira (23), mostrou que 36% dos norte-americanos aprovam o desempenho de Trump no trabalho, abaixo dos 40% de uma pesquisa Reuters/Ipsos realizada na semana passada.
A opinião dos norte-americanos sobre Trump piorou significativamente em relação à sua administração sobre o custo de vida, já que os preços da gasolina subiram desde que os EUA e Israel lançaram ataques coordenados contra o Irã em 28 de fevereiro.
Apenas 25% dos entrevistados aprovavam a maneira como Trump tem lidado com o custo de vida, uma questão que esteve no centro de sua campanha para a eleição presidencial de 2024.
A posição de Trump dentro do Partido Republicano continua majoritariamente forte. Apenas cerca de um em cada cinco republicanos disse desaprovar seu desempenho geral na Casa Branca, em comparação com cerca de um em cada sete na semana passada.
Mas a parcela de republicanos que desaprovam a maneira como ele lida com o custo de vida aumentou de 27%, na semana passada, para 34%.
O índice de aprovação de Trump era de 47% nos primeiros dias de seu mandato, e, desde o verão passado, vinha se mantendo em torno de 40%.
Preocupações com a guerra
A guerra contra o Irã pode estar mudando isso para um presidente que assumiu o cargo prometendo evitar “guerras estúpidas”.
A pesquisa revelou que 35% dos norte-americanos aprovam os ataques dos EUA ao Irã, abaixo dos 37% de uma pesquisa Reuters/Ipsos realizada na semana passada. Cerca de 61% desaprovaram os ataques, em comparação com 59% na semana passada.
As pesquisas anteriores Reuters/Ipsos foram realizadas logo após os primeiros ataques norte-americanos e israelenses, quando muitos norte-americanos ainda estavam se informando sobre a situação, e os entrevistados tinham a opção de dizer que não tinham certeza de suas opiniões.
Uma pesquisa Reuters/Ipsos de 28 de fevereiro a 1º de março revelou que 27% aprovavam os ataques, 43% desaprovavam e 29% não tinham certeza.
As pesquisas mais recentes não dão a opção de não ter certeza, embora 5% dos entrevistados da última pesquisa tenham se recusado a responder à pergunta sobre sua opinião a respeito da guerra.
Houve poucos sinais de que o declínio da popularidade de Trump também estivesse prejudicando seus aliados republicanos que buscam manter o controle do Congresso nas eleições de meio de mandato em novembro.
Cerca de 38% dos eleitores registrados na pesquisa Reuters/Ipsos disseram que os republicanos são os melhores administradores da economia dos EUA, em comparação com 34% que escolheram os democratas para essa questão.
A pesquisa, que foi realizada on-line e em todo o país, reuniu respostas de 1.272 adultos norte-americanos e tem uma margem de erro de 3 pontos percentuais.
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), decidiu conceder nesta terça-feira prisão domiciliar em caráter humanitário ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que vem cumprindo pena de 27 anos de prisão em regime fechado por tentativa de golpe de Estado e quatro outros crimes. Segundo o portal UOL, a autorização vale por 90 dias para uma nova reavaliação.
A decisão de Moraes ocorreu após parecer favorável à medida do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e em meio a forte pressão de familiares e aliados do ex-presidente, além de apelos nos bastidores de alguns ministros do STF, segundo fontes que acompanharam as tratativas nos últimos meses.
A ordem de Moraes ocorreu no momento em que o magistrado tem sido alvo de questionamentos após a revelação de que o escritório de advocacia da esposa dele teve um contrato com o Banco Master, instituição financeira liquidada e que teve seu dirigente máximo, Daniel Vorcaro, preso preventivamente. Vorcaro poderá firmar uma delação premiada com potencial de atingir autoridades dos Três Poderes.
Em seu parecer, Gonet apontou que o estado de saúde de Bolsonaro “demanda a atenção constante e atenta que o ambiente familiar, mas não o sistema prisional em vigor, está apto para propiciar”. Ele destacou que o ex-presidente deve passar por reavaliações periódicas.
A defesa de Bolsonaro havia feito um novo pedido de prisão domiciliar após ele ter sido internado no dia 13 de março no Hospital DF Star, em Brasília, para tratamento de pneumonia bacteriana decorrente de um episódio de broncoaspiração. A defesa, com base em relatório médico, alega que o ex-presidente corre risco de vida.
Por ordem de Moraes, Bolsonaro foi preso preventivamente em novembro na Superintendência da Polícia Federal em Brasília após tentar violar uma tornozeleira eletrônica enquanto estava em prisão domiciliar. Pouco depois essa prisão foi convertida em definitiva para que ele pudesse cumprir pena pela condenação por golpe de Estado.
Durante todo esse período, o ex-presidente — que fez 71 anos no sábado — teve intercorrências de saúde que o levaram ao hospital. Ele está internado desde o dia 13 de março no hospital DF Star, em Brasília
Nesta segunda-feira (23), Bolsonaro deixou a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e segue em tratamento de uma pneumonia bacteriana sem previsão de alta hospitalar, disse boletim médico divulgado nesta terça-feira.
“Devido a melhora clínica, paciente recebeu alta da unidade de terapia intensiva no dia de ontem. No momento segue com antibioticoterapia endovenosa, suporte clínico e fisioterapia respiratória e motora. Não há previsão de alta hospitalar”, informa o boletim.
A transmissora ISA Energia (ISAE4)disse na noite de quinta-feira (29) que concluiu a assinatura do contrato de compra e venda de ações com a Axia Energia (AXIA3) para descruzamento das participações societárias na IE Madeira e na IE Garanhuns, conforme fato relevante.
A companhia disse que irá comprar participações acionárias detidas por Axia Energia e Axia Nordeste na IE Madeira que totalizam 49% da subsidiária e vender a participação acionária de 51% que detém na IE Garanhuns para a Axia Nordeste.
No âmbito do descruzamento de participações, a ISA pagará cerca de R$ 1,174 bilhão.
Após a conclusão da operação, a ISA passará a consolidar 100% da participação na IE Madeira.
A IE Madeira é uma transmissora composta por 2 subestações e 2.385km de linhas de transmissão em corrente contínua ao longo dos estados de Rondônia, Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e São Paulo, com prazo de concessão até fevereiro de 2039.
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) deve definir ainda nesta semana os preços de referência que vão orientar a política de subvenção do governo para produtores e importadores de diesel, disse nesta segunda-feira (16) o diretor-geral da autarquia, Artur Watt.
A expectativa é de que o tema seja aprovado em reuniões extraordinárias da diretoria da ANP, acrescentou.
Segundo Watt, esse preço de referência servirá como parâmetro para o mercado, uma vez que a Medida Provisória que trata do assunto tem efeitos retroativos à data de sua publicação.
“A subvenção já está em vigor. Fixamos o preço, e ele retroage. Divulgar esse valor ajuda o mercado a entender que, para se beneficiar da subvenção, é necessário manter o preço dentro do limite estabelecido”, afirmou Watt durante evento na sede da Firjan.
O programa prevê um subsídio de R$ 0,32 por litro para as empresas que aderirem.
A subvenção, juntamente com a redução dos tributos PIS/Cofins, foi anunciada pelo governo para conter o impacto da alta do petróleo Brent, causada pela guerra entre EUA e Israel contra o Irã.
A ANP poderá revisar o preço de referência sempre que considerar necessário para atender aos “interesses do consumidor”.
“O próprio anúncio da MP já sinaliza ao mercado que os preços devem seguir um patamar reduzido, compatível com a subvenção”, completou Watt.
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), articulou com colegas da Segunda Turma a formação de uma rápida maioria no colegiado para manter a prisão preventiva de Daniel Vorcaro, do Banco Master, decretada por ele na semana passada no curso de uma nova fase da operação Compliance Zero, disseram fontes ouvidas pela Reuters nesta sexta-feira (13).
O movimento liderado por Mendonça contou com o respaldo de ministros de dentro e de fora da turma e foi uma espécie de contraponto à intensa pressão dos últimos dias que magistrados vinham sofrendo de alguns políticos pela libertação de Vorcaro mediante o temor de que o banqueiro pudesse fazer uma delação premiada, conforme duas fontes.
Emissários do banqueiro chegaram a procurar integrantes do Congresso, do Supremo e da Polícia Federal levando sinais de que Vorcaro estaria disposto a colaborar com as investigações, revelando nomes e situações que poderiam implicar diversas autoridades, de acordo com as fontes.
Esses recados acenderam o alerta no mundo político — especialmente entre lideranças do Centrão — que poderiam ser vítimas da delação de Vorcaro em um ano eleitoral. A articulação buscou uma revogação da preventiva ou, ao menos, que ele fosse enviado para a prisão domiciliar, acrescentaram.
Procurada, a defesa de Vorcaro disse que são “inverídicas” notícias relacionadas à iniciativas de tratativas de delação dele. “Essa informação jamais partiu de qualquer dos advogados envolvidos no caso e sua divulgação tem o único objetivo de prejudicar o exercício da defesa nesse momento sensível”, afirmou.
Nos últimos dias chegou a circular na imprensa uma suposta contabilização de doisvotosfavoráveis ao banqueiro em votação na Segunda Turma sobre a prisão de Vorcaro, dos ministros Nunes Marques e Gilmar Mendes. Na prática, com a suspeição declarada pelo ministro Dias Toffoli por foro íntimo, um empate na votação iria beneficiar Vorcaro.
Mendonça já vinha articulando reservadamente apoio dos colegas da Turma, segundo uma fonte. Ele já tinha conversado e recebido sinais de que Luiz Fux e Nunes Marques iriam acompanhar logo seu voto no julgamento virtual, iniciado às 11h desta sexta-feira, o que de fato ocorreu.
O julgamento virtual sobre a prisão de Vorcaro vai até a próxima sexta-feira, dia 20, e Gilmar Mendes deu indicações de que não vai votar nesta sexta, segundo uma fonte do Supremo.
A pessoas próximas, Mendonça negou que seu voto para manter a prisão preventiva tinha por objetivo promover uma delação de Vorcaro, de acordo com uma fonte. O voto dele, de 53 páginas, fez um contraponto de cada um dos argumentos da defesa para relaxar a detenção do banqueiro.
Entre os elementos, o ministro do STF citou o fato de o pai do banqueiro ter recebido R$2,2 bilhões após o banqueiro ter ido para prisão domiciliar, assim como o pagamento mensal de R$1 milhão a um grupo de aliados para ameaçar e intimidar pessoas — inclusive jornalistas.
Vorcaro foi preso preventivamente no início de março em uma nova fase da Operação Compliance Zero, que investiga crimes como gestão fraudulenta de instituição financeira, manipulação de mercado, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Ele já havia sido preso inicialmente em novembro do ano passado.
Insatisfeita com o atual acordo de acionistas e o poder de decisão limitado na Braskem, a Petrobras considera ser “possível” até assumir a operação da petroquímica na qual é uma das sócias, disse a presidente da estatal, Magda Chambriard, nesta sexta-feira (5).
Em evento na sede da Firjan, a federação das indústrias do Rio de Janeiro, Magda disse que “esse é um assunto em discussão, que não está fechado, então qualquer coisa que eu diga a esse respeito não seria mais do que especulação.”
A executiva afirmou ainda que existem “sinergias” entre a atividade de uma petroquímica com a de uma petroleira, no caso, a própria Petrobras.
Ela disse esperar para este ano um novo acordo de acionistas na Braskem, junto ao sócio Novonor (ex-Odebrecht). Afirmou ainda que as discussões têm evoluído.
Paralelamente, sabe-se que a Novonor tem negociações avançadas para a venda de uma parte significativa de sua fatia na petroquímica para a IG4 Capital, com o objetivo de saldar suas dívidas bilionárias.
A Petrobras precisa avalizar a operação e aprovar o novo acordo de acionistas com eventuais novos sócios. Bancos credores esperam que o acordo entre Novonor e IG4 seja assinado na semana que vem. Magda disse que há evolução nas tratativas, mas que não pode dizer que está fechado. “Temos ainda algumas questões societárias a serem ajustadas”, concluiu.
A Petrobras está se preparando para reiniciar a produção defertilizantes nas fábricas do Nordeste, o que deve acontecer até janeiro, afirmou nesta quinta-feira (4) o diretor-executivo de processos industriais e produtos da estatal, William França.
Em outubro, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, havia dito que a companhia reiniciaria a operação no início de 2026, mas não deu um prazo mais específico.
A Petrobras voltou a investir em fertilizantes após uma demanda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que busca deixar o setor agrícola menos dependente de importações do insumo.
A Fafen Sergipe tem capacidade instalada para 1,8 mil toneladas de ureia por dia, enquanto a Fafen Bahia pode produzir 1,3 mil toneladas/dia.
As Fafens chegaram a ser arrendadas pela Unigel, mas voltaram ao controle da Petrobras neste ano, após ficarem hibernadas desde 2023 por dificuldades financeiras.
Uma outra unidade parada desde o governo anterior, a Ansa, no Paraná, deve ter a partida iniciada em março de 2026, de acordo com o executivo. A fábrica paranaense tem capacidade de 1,9 mil toneladas diárias.
O plano inicial da Petrobras é atender em 2026 cerca de 20% do mercado brasileiro de fertilizante nitrogenado, produto que o Brasil importa em grande escala.
Mas, segundo o diretor, os planos da companhia vão além.
Até o fim da década, o país deve produzir cerca de 40% da demanda interna de ureia, hoje quase totalmente importada.
A Petrobras também prevê iniciar em 2029 a produção de fertilizantes em Três Lagoas (MS), fábrica cuja construção foi paralisada por anos, ampliando a capacidade nacional e reduzindo importações.
“O Brasil consome cerca de 8 milhões de toneladas de ureia por ano. Vamos chegar a menos de 4 milhões de toneladas importadas com Três Lagoas operando, com as Fafens e Ansa. Vamos atender 40% ou mais do mercado”, disse França.
Uma das últimas usinas a carvão do Brasil voltou a operar nos últimos meses, após um poderoso grupo empresarial investir milhões para manter suas turbinas funcionando na cidade mineradora de Candiota, na porção sul do Rio Grande do Sul.
A Âmbar, dona da usina e controlada pelos irmãos bilionários Wesley e Joesley Batista, aposta que mesmo o Brasil, onde fontes renováveis e baratas produzem mais de 80% da energia elétrica, não deixará de queimar carvão tão cedo, apesar de o combustível ser um dos principais responsáveis pelo aquecimento global.
Como anfitrião da cúpula climática das Nações Unidas, a COP30, neste mês, o Brasil está incentivando os países a abandonarem os combustíveis fósseis. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentou, durante a cúpula de líderes na cidade amazônica de Belém esta semana, que a guerra na Ucrânia tenha levado à reabertura de minas de carvão.
Ainda assim, Candiota e outras cinco usinas a carvão continuam produzindo 3% da eletricidade do Brasil, ilustrando como a pressão de grupos de interesse e a falta de um plano de transição podem manter o uso do carvão mesmo em um país com forte presença de energia renovável.
“O Brasil tem absolutamente o potencial, com todos os recursos solares, além das hidrelétricas e do vento, para descomissionar essas usinas a carvão”, disse Christine Shearer, que monitora o setor de carvão no think tank Global Energy Monitor.
“A força do lobby do carvão, especialmente nos Estados mineradores, é o motivo pelo qual essas usinas ainda existem.”
O contrato regulado da usina de Candiota para fornecer energia expirou no ano passado, levando ao fechamento de empresas locais e à saída de muitos moradores da cidade.
Mas a usina voltou a operar vendendo energia no mercado de curto prazo, ajudando a estabilizar o fornecimento elétrico durante os horários de ponta e quando a geração solar e eólica diminui.
O Congresso e o governo federal também ofereceram uma tábua de salvação às usinas a carvão. No mês passado, parlamentares aprovaram uma medida provisória com um dispositivo que garante contratos até 2040 para usinas movidas a carvão nacional, como a de Candiota. Lula ainda pode vetar a medida.
Carvão habilitado para leilão
O governo brasileiro também habilitou o carvão para participar de um leilão de capacidade programado para março de 2026, que tem por objetivo reforçar a segurança energética ao contratar usinas, principalmente termelétricas, que possam ser ativadas rapidamente quando as fontes eólica e solar não estiverem gerando.
O Ministério de Minas e Energia afirmou que a contratação dessas térmicas tornará o sistema elétrico mais confiável, permitindo a adição de mais oferta renovável na matriz.
A inclusão do carvão surpreendeu especialistas, que afirmam que as usinas a carvão não têm partida rápida e, portanto, não oferecem a flexibilidade necessária.
Críticos atribuem à falta de planejamento de longo prazo a permanência da queima de carvão, enquanto grandes quantidades de energia limpa acabam sendo desperdiçadas devido à demanda insuficiente e à ausência de linhas de transmissão.
Eles afirmam que isso torna o governo vulnerável à pressão de grupos ligados ao carvão e ao gás natural, apesar dos custos financeiros e ambientais mais elevados.
Os irmãos Batista compraram a usina de Candiota sem um novo contrato de longo prazo à vista porque “vislumbraram possibilidade de serem bem-sucedidos nos seus instrumentos de pressão”, disse Luiz Eduardo Barata, presidente da Frente Nacional dos Consumidores de Energia, uma entidade que critica o apoio ao carvão.
O grupo ambientalista Arayara, outro crítico da Âmbar, está tentando suspender na Justiça a licença ambiental da usina.
Em nota, a Âmbar afirmou que o carvão que abastece sua usina de Candiota é “seguro e amplamente disponível para o sistema elétrico, sendo ideal para garantir a segurança do abastecimento”.
A empresa negou depender de influência política para conseguir um novo contrato para a Candiota ou para outras usinas de seu portfólio. A Âmbar acusou os críticos de representarem os interesses de grandes consumidores de energia em detrimento dos menores, “independentemente das necessidades do sistema elétrico, do meio ambiente e da população brasileira”.
Carvão ainda move economias municipais
Os esforços da Âmbar para manter o carvão vivo colocam o Brasil em uma lista de países como Índia e África do Sul, onde grupos de interesse poderosos têm dificultado os esforços para eliminar o carvão do sistema energético global, um combustível ainda considerado essencial para economias locais em regiões como Candiota.
Fechar a usina permanentemente afetaria não apenas o empreendimento da Âmbar, mas também as minas locais que a abastecem e fábricas de cimento que reaproveitam as cinzas do carvão, resultando na perda de cerca de 10 mil empregos na região.
José Adolfo de Carvalho Junior, que administra uma das minas de carvão da cidade de Candiota, disse que o custo de encerrar a única indústria que oferece empregos de qualidade na região não vale a pena.
“Desligar isso aqui vai resolver o problema do CO2 no planeta? Não, é literalmente uma gota de água no oceano”, afirmou.
O futuro incerto da usina deixa os moradores apreensivos quanto à sua subsistência, disse Graça dos Santos, que foi demitida da planta após o fim do contrato com o governo.
O prazo para o fechamento da usina “precisa ser estendido para que aconteça uma transição energética justa”, disse ela. “Não é justo deixar uma população toda sem trabalho.”
Mas o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não tem um plano de transição para Candiota e não avançou significativamente nos planos para as demais usinas a carvão remanescentes.
Sem plano de transição
A região de Candiota também produz carne bovina, vinho e azeites, indústrias que poderiam absorver trabalhadores do carvão com algum investimento, segundo João Camargo, fundador de uma cooperativa de produtores de sementes.
“Eles não criaram nenhuma condição para a transição”, afirmou.
No sindicato local dos mineiros de carvão, o líder Hermelindo Ferreira aponta para mapas que mostram as regiões que perderiam atividade industrial – e os empregos associados – se a usina fosse fechada.
Ainda assim, ele admite que a confiança no futuro do carvão está diminuindo em Candiota. Alguns trabalhadores já se mudaram para cidades vizinhas em busca de melhores oportunidades.
Mesmo lutando para salvar empregos, Ferreira disse que está incentivando os colegas a aprender novas habilidades. Ele mesmo já obteve certificação para fazer manutenção em torres que medem a velocidade do vento, na esperança de que a indústria eólica invista na região.
“Não se coloca todos os ovos na mesma cesta”, disse ele.