Por volta da época em que o ChatGPT e o Copilot do GitHub levaram a inteligência artificial às massas, quatro colegas do MIT com formação em ciência da computação e finanças decidiram entrar nesse mercado. Eles só não sabiam exatamente como.
“Começou a partir de um lugar muito de ‘solução em busca de um problema’”, disse Michael Truell, cofundador e CEO da Cursor, empresa que eles criaram juntos, em uma participação em podcast em junho de 2025.
Quatro anos depois, a Cursor é uma das ferramentas de programação com IA mais populares do mercado — e a “solução” deles os transformou em bilionários.
A SpaceX concordou formalmente em comprar a Cursor na terça-feira (16), em um acordo integralmente em ações que avalia a empresa em US$ 60 bilhões. Cada um dos cofundadores detém cerca de 9% da Anysphere, sediada em São Francisco — nome formal da empresa —, participação avaliada em US$ 5,5 bilhões para cada um, segundo o Bloomberg Billionaires Index.
Quando o acordo for concluído — o que deve ocorrer no terceiro trimestre deste ano — eles receberão ações da SpaceX de valor equivalente.
Os quatro fundadores — todos na casa dos 20 e poucos anos — se juntam a uma lista crescente de bilionários criados pela Space Exploration Technologies Corp., de Elon Musk, desde sua abertura de capital na sexta-feira.
A história deles também simboliza a mudança no caminho para a riqueza de dez dígitos entre jovens fundadores: a euforia da IA e o aumento dos investimentos de capital de risco fazem com que novos bilionários surjam cada vez mais do setor de tecnologia, em vez das finanças.
Um porta-voz da Cursor não respondeu a um pedido de comentário.
Engenharia mecânica
Truell e seus futuros sócios — Sualeh Asif, Arvid Lunnemark e Aman Sanger — eram todos estudantes de graduação no Massachusetts Institute of Technology. Truell, natural de Nova York, estagiou no Google, enquanto Sanger, membro do time de squash do MIT, estagiou na Bridgewater Associates. Lunnemark, medalhista de ouro em olimpíada de matemática em seu país natal, a Suécia, trabalhou brevemente como trader quantitativo na Jane Street.
Os quatro fundaram a Cursor em 2022, inicialmente com foco na criação de um copiloto de IA para a indústria de engenharia mecânica. Isso apesar de nenhum deles ter formação formal em engenharia.
“Éramos bastante desconhecedores da área”, disse Truell em um podcast em maio de 2025. “Então havia um pouco daquele problema do ‘homem cego e o elefante’ desde o início.”
Após alguns meses, eles mudaram o foco para o desenvolvimento de um agente de codificação com IA mais alinhado ao histórico da equipe fundadora. Em 2023, o OpenAI Startup Fund apoiou a empresa iniciante em uma rodada seed que levantou US$ 8 milhões, segundo dados da Pitchbook.
No ano seguinte, a Anysphere levantou US$ 60 milhões em uma rodada Série A, avaliando a empresa em US$ 400 milhões. Entre os principais investidores estavam a Andreessen Horowitz, o Dorm Room Fund e o cofundador da Stripe, Patrick Collison.
Fotógrafa: Gabby Jones/Bloomberg
Em janeiro de 2025, a Cursor havia alcançado US$ 100 milhões em receita recorrente anual. Em dois meses, esse número dobrou, e a empresa chegou a um milhão de usuários diários.
Acordo com a SpaceX
Mesmo com grandes players como OpenAI e Anthropic lançando suas próprias ferramentas de programação com IA, a Cursor continuou expandindo sua base de usuários, especialmente entre clientes corporativos. A empresa afirma que seus produtos são usados por 64% das empresas da Fortune 500 e que suas ferramentas escrevem mais de 100 milhões de linhas de código por dia para clientes corporativos.
Em abril, a SpaceX anunciou que havia chegado a um acordo que lhe dava a opção de adquirir a Cursor por US$ 60 bilhões, mas decidiu adiar a aquisição formal até depois de seu IPO, para minimizar interrupções e evitar burocracia adicional.
O acordo representava um prêmio em relação à avaliação de US$ 50 bilhões que a Cursor vinha buscando recentemente em uma rodada de financiamento, segundo a Bloomberg. Também incluía uma taxa de rescisão de US$ 10 bilhões caso a compra não se concretizasse.
A gestão da SpaceX descreveu a aquisição como central para expandir suas capacidades em IA após a fusão, em fevereiro, com a startup de inteligência artificial de Musk, a xAI.
“Cursor tem seus próprios modelos, eu acho, e podemos aprender com eles”, disse Gwynne Shotwell, presidente da SpaceX, em entrevista à CNBC na sexta-feira. “Vamos colaborar de perto. Achamos que isso faz muito sentido.”
A ConectCar, empresa de pagamentos eletrônicos de pedágios e estacionamentos, fechou a compra da totalidade do iCarros, plataforma de classificados de veículos até então 100% do Itaú Unibanco, apurou o InvestNews.
Os valores não foram informados. O negócio ainda depende de aprovação do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) e do Banco Central. Embora seja formalmente uma aquisição, o ativo não deixa totalmente a órbita do banco. A ConectCar é controlada em partes iguais por pela Rede, do Itaú, e a Porto.
Na prática, a operação funciona como uma reorganização que abre metade do iCarros à sócia Porto. Com isso, a plataforma deixa de ser uma operação isolada de classificados automotivos do Itaú e passa a integrar a estratégia da ConectCar, que registrou receita líquida de serviços de R$ 221,46 milhões em 2025..
O objetivo da transação é que a ConectCar, que já atuava na fase de uso do veículo, com a tag de pedágio, passe a estar presente também no momento da compra do carro, funcionando como um marketplace automotivo.
A aquisição abrange apenas o segmento C2C do iCarros, que conecta vendedores pessoa física a compradores. A parte B2C, que atendia lojistas, concessionárias e montadoras, está sendo descontinuada pelo Itaú. O encerramento da operação PJ já havia sido comunicado aos funcionários no início deste mês, de acordo com o Sindicato dos Bancários de São Paulo.
A iCarros é um player relativamente pequeno no setor. A plataforma registra cerca de 6 milhões de visitantes mensais e responde por aproximadamente 140 mil anúncios ativos, o equivalente a 6% do mercado de classificados automotivos no Brasil, conforme estimativas de mercado. À frente aparecem OLX Autos, com 30%, e Webmotors, com 18%.
Os bancos e instituições financeiras têm até esta terça-feira (12) para transferir ao Fundo Garantidor de Operações (FGO) o dinheiro esquecido em contas bancárias. A medida está prevista nas regras do Novo Desenrola Brasil, conhecido como Desenrola 2.0.
A transferência dos valores foi regulamentada pela portaria normativa MF nº 1.243/2026, publicada pelo Ministério da Fazenda que criou a nova fase do programa de renegociação de dívidas.
Dados mais recentes do Banco Central mostram que ainda existem R$ 10,57 bilhões em valores a receber esquecidos em instituições financeiras. Desse total, R$ 8,13 bilhões pertencem a pessoas físicas e R$ 2,43 bilhões a pessoas jurídicas.
Segundo o governo federal, entre R$ 5 bilhões e R$ 8 bilhões em dinheiro esquecido podem ser direcionados ao programa de renegociação de dívidas.
O que muda com a transferência do dinheiro esquecido?
As instituições financeiras devem realizar a transferência dos valores ao FGO em até cinco dias úteis após a publicação da regulamentação. Como a norma foi publicada em 5 de maio, o prazo termina nesta terça-feira (12).
Após a transferência, o Ministério da Fazenda deverá publicar um edital com informações sobre os valores enviados por cada instituição financeira.
O sistema permitirá que titulares consultem:
Instituição responsável;
Agência;
Número da conta;
Montante transferido ao FGO.
Quem ainda tem dinheiro esquecido perde o direito ao valor?
A regulamentação prevê um prazo de 30 dias corridos para que titulares contestem a transferência dos recursos ao fundo garantidor e solicitem a devolução do dinheiro esquecido.
Atenção: o prazo só começará a contar apenas após a publicação do edital do Ministério da Fazenda com as informações das transferências realizadas pelas instituições financeiras.
Nesse período, o dono da conta com valores a receber poderá apresentar documentação para reivindicar os valores transferidos.
Caso haja solicitação dentro do prazo, o FGO deverá devolver os recursos às instituições financeiras em até 15 dias úteis para realização do ressarcimento ao cliente.
Os valores devolvidos ainda terão correção pelo IPCA-15 desde a data da transferência até o mês anterior ao pagamento.
Após o encerramento do prazo de contestação, os recursos não reclamados passam a integrar de forma definitiva o patrimônio do FGO.
Como consultar dinheiro esquecido em bancos?
A consulta do dinheiro esquecido pode ser feita pelo Sistema Valores a Receber (SVR), do Banco Central. Basta:
Informar CPF e data de nascimento, ou CNPJ e data de abertura da empresa;
Verificar se existem valores disponíveis para resgate;
Fazer login com conta Gov.br nível prata ou ouro;
Consultar a instituição financeira responsável pelo valor;
Informar uma chave Pix para recebimento, quando disponível;
Acompanhar a solicitação diretamente pelo sistema.
O Banco Central também orienta que o contribuinte confira se há valores vinculados a contas encerradas, tarifas cobradas indevidamente, consórcios, cooperativas e outras instituições financeiras.
Como o dinheiro esquecido será usado no Desenrola 2.0?
Os recursos vão compor o Fundo Garantidor de Operações (FGO), estrutura usada para dar garantia às renegociações do Desenrola 2.0. A portaria estabelece que:
10% do valor transferido ficará reservado para possíveis devoluções aos titulares;
Pelo menos R$ 5 bilhões serão destinados à cobertura de risco das operações renegociadas;
O fundo poderá ser usado para reduzir inadimplência e ampliar a oferta de crédito renegociado.
Quais dívidas poderão entrar no Desenrola 2.0?
O Desenrola 2.0 contempla principalmente:
Cartão de crédito;
Cheque especial;
Crédito pessoal;
Crédito rotativo;
Dívidas do Fies.
A regulamentação também definiu descontos mínimos obrigatórios para os bancos, dependendo do tipo da dívida e do tempo de atraso.
No caso de cartão de crédito rotativo e cheque especial, os descontos podem chegar a 90% para débitos com atraso entre 361 e 720 dias.
Já em crédito pessoal e cartão parcelado, os abatimentos podem atingir 80% nas faixas mais longas de inadimplência.
O Desenrola 2.0 também permitirá o uso do FGTS para quitar dívidas pessoais. Pelas regras divulgadas pelo governo:
Trabalhadores poderão usar até 20% do saldo do FGTS ou R$ 1 mil, o que for maior;
As dívidas precisam ter atraso entre 90 dias e dois anos;
O programa vale para pessoas com renda mensal de até cinco salários mínimos;
Os juros das renegociações terão teto de 1,99% ao mês;
Além das petroleiras e de outras empresas do setor de energia e combustíveis, existe uma outra ação menos óbvia – e relativamente mais protegida – para se investir na bolsa em meio aos conflitos no Oriente Médio e à volatilidade decorrente deles: a Vale.
O atual ambiente tende a promover pressões de custo sobre as companhias, com insumos encarecendo até que os conflitos geopolíticos se resolvam. Mas a Vale entra nesse contexto com instrumentos que ajudam a mitigar parte relevante desses efeitos.
Entre esses instrumentos estão contratos de frete de longo prazo e de proteção para os preços de combustível marítimo, além da baixa probabilidade de enfrentar escassez de diesel no Brasil.
Isso não significa que a empresa esteja imune ao choque inflacionário decorrente da alta da energia. O aumento do preço do petróleo já impacta o setor por meio de fretes mais caros e custos mais elevados de insumos. Mas essas estratégias contra a oscilação de preços a colocam em uma situação melhor, especialmente frente a pares do setor.
O efeito indireto da guerra: liquidez para os estrangeiros
A Vale sofreu um choque importante com a escalada dos conflitos no Irã porque, como uma das maiores empresas da bolsa, ela serve de veículo para os grandes alocadores, especialmente estrangeiros, se posicionarem estrategicamente no mercado brasileiro.
Ou seja: no pico da aversão ao risco, logo que a guerra estourou, em 27 de fevereiro, a fuga de ativos considerados mais arriscados atingiu a companhia. É o tipo de evento que não tem relação com os fundamentos da empresa, mas com uma abordagem comum e tática, com foco no curtíssimo prazo.
Nos últimos pregões, a ação da companhia já vem esboçando uma retomada. Conforme as perspectivas paras os conflitos no Oriente Médio melhorem, a empresa tem boas condições de retomar uma trajetória de alta, sobretudo se pautada pela sua situação financeira e operacional.
Fundamentos: o que faz a Vale ser um investimento viável?
Do lado das receitas, a empresa também tem uma boa história para convencer os investidores. Os preços do minério reagiram desde o início do conflito, refletindo o repasse inflacionário: ao encarecer os custos de energia e transporte, também fica mais caro produzir e entregar minério, e esse aumento é repassado para o preço final da commodity.
A isso se soma a demanda ainda resiliente pela matéria-prima. O minério de ferro tem girado em torno de US$ 110 por tonelada, acima das expectativas do mercado, conforme notam os analistas do BTG Pactual, em relatório enviado a clientes.
Mesmo diante de dados mais fracos divulgados pela China, participantes do mercado indicam que a produção de aço pode estar sendo subestimada. Se de fato há mais aço sendo produzido, cresce a procura por minério.
Além disso, os prêmios por qualidade seguem elevados – ou seja, minérios de maior teor de ferro continuam sendo vendidos com preço adicional, o que favorece a Vale.
A expectativa é de que a demanda global permaneça estável ao longo do tempo, com crescimento vindo de países como Índia e do Sudeste Asiático. Ao mesmo tempo, a entrada de nova oferta tende a ser compensada pelo esgotamento gradual de minas existentes, o que ajuda a sustentar o equilíbrio entre oferta e demanda.
Ou seja, o combo de preços mais altos e menor exposição a custos mais voláteis melhora a perspectiva de geração de caixa da companhia. A estratégia de frete, a menor dependência do petróleo e a manutenção da demanda desenham um cenário mais favorável.
Os analistas do BTG também destacam como a disciplina de capital é importante para a companhia agora. A Vale vem mantendo o foco na execução de projetos e no crescimento orgânico, com menos interesse para aquisições.
Com isso, a geração de caixa tende a se traduzir em retorno ao acionista, com a possibilidade de pagamento adicional de dividendos à medida que os resultados surpreenderem positivamente.
A Claro anunciou a compra do controle da Desktop, maior provedor de internet por fibra óptica do interior de São Paulo, por R$ 4 bilhões. O negócio ainda depende de aprovação do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) e da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), além de uma assembleia extraordinária de acionistas.
A operadora mexicana pagará R$ 20,82 por ação pela fatia de 73% da Desktop que estava nas mãos dos controladores — um prêmio de 45% sobre os R$ 14,40 do fechamento de sexta-feira (20). Os R$ 4 bilhões representam o valor total da empresa, incluindo suas dívidas. Descontado o endividamento de R$ 1,59 bilhão, o que a Claro efetivamente desembolsa pelos acionistas chega a R$ 2,4 bilhões.
Após o fechamento do acordo, a Claro terá obrigação de lançar uma OPA (Oferta Pública de Aquisição) para os demais acionistas, ao mesmo preço por ação.
A Desktop foi fundada em 1996 por Denio Alves Lindo, ex-funcionário da IBM que apostou na expansão da internet para o interior do país. Com a entrada do fundo HIG Capital em 2020, a empresa saiu de cerca de 100 mil para 1,2 milhão de clientes e foi a mercado em 2021, com ações precificadas a R$ 23,50 no IPO. Em 2025, faturou R$ 1,2 bilhão, crescimento de 8% sobre o ano anterior.
Como o InvestNews mostrou em janeiro, o setor de banda larga fixa entrou em fase de maturidade: o crescimento líquido de acessos caiu de mais de 5 milhões em 2021 para pouco mais de 330 mil nos onze primeiros meses de 2025. Vivo e Claro, que já têm escala relevante, conviviam com menor urgência por aquisições. A TIM, mais atrasada na fibra com apenas 831 mil clientes, ainda busca alternativas. O impasse de valuation — quanto vale, afinal, um cliente de internet de fibra — travou negociações por anos.
A compra da Desktop sugere que, ao menos para a Claro, a equação finalmente fechou. Com 2,56 milhões de clientes próprios em fibra até novembro de 2025, a operadora salta de posição no ranking nacional e passa a controlar uma base consolidada no interior paulista, onde a Desktop atende mais de 200 municípios. A integração, e o que ela entregará em crescimento líquido real, será o próximo teste.
A Oncoclínicas celebrou um termo de compromisso não vinculante com a Porto Seguro S.A. em 13 de março de 2026, estabelecendo os principais termos para a criação de uma nova sociedade, denominada NewCo.
A operação prevê a transferência de ativos de clínicas oncológicas pela Oncoclínicas e um aporte de R$ 500 milhões pela Porto Seguro, que deterá no mínimo 30% do capital social da nova empresa.
Segundo a rede hospitalar, a conclusão da operação está sujeita a várias condições, incluindo a finalização de negociações, due diligence pela Porto, e as aprovações regulatórias necessárias.
A NewCo também emitirá debêntures conversíveis em ações ordinárias, a serem subscritas pela Porto, com vencimento em 48 meses. A Oncoclínicas compromete-se a negociar exclusivamente com a Porto por 30 dias.
O Grupo Oncoclínicas é líder no setor de tratamento oncológico no Brasil, oferecendo serviços integrados como quimioterapia, radioterapia e diagnóstico. A empresa tem crescido por meio de aquisições e parcerias, consolidando sua presença em um segmento de alta demanda.
O mercado aguarda ainda uma negociação da Oncoclínicas com credores para o reperfilamento da sua dívida, que alcançou R$ 4 bilhões ao fim do terceiro trimestre, passando a representar 4,2 vezes o seu Ebitda.
Disclaimer: Este texto foi escrito por um agente de inteligência artificial a partir de informações oficiais e de bases de dados confiáveis selecionadas pelo InvestNews. O trabalho foi revisado pela equipe de jornalistas do IN antes de sua publicação.
As compras de ouro por bancos centrais globais perderam força no início do ano, pressionadas pela volatilidade nos preços do metal. Mas a escalada da guerra entre Irã e EUA no Oriente Médio ainda mantém a commodity em evidência como grande alternativa de acumulação de reservas ao longo de 2026.
O banco central da China, um importante referencial quando o assunto é a troca de reservas em dólar pelo metal, comprou mais ouro em fevereiro, estendendo sua sequência de compras para 16 meses.
O volume de ouro detido pelo Banco do Povo da China aumentou em 30 mil onças-troy (0,93 tonelada) no mês passado, chegando a 74,22 milhões de onças (2.308 toneladas), segundo dados divulgados no sábado (7). A compra estende a rodada mais recente de acumulação que começou em novembro de 2024.
O movimento do metal precioso nos últimos dias tem respondido a uma queda de braço entre forças distintas. As baixas mais recentes respondem ao fato de que os investidores costumam aproveitar situações de forte estresse não apenas para comprar o metal, mas para usá-lo como forma de fazer caixa, por meio da venda da commodity.
É basicamente levantar recursos para investir em títulos públicos considerados mais seguros para cada país. Esse movimento já vinha acontecendo conforme o ouro atingia recordes, momento em que embolsar o que já foi ganho é uma estratégia melhor.
Mas, em um segundo momento, depois de recuar recentemente, o ouro superou novamente a marca dos US$ 5 mil por onça, respondendo à volta da clássica procura por ativos mais diversificados e que funcionam como reserva de valor.
A redução de compras de ouro por bancos centrais no mundo consta em nota divulgada nesta semana pelo World Gold Council, entidade financiada por produtores do metal. As compras líquidas, lideradas por países da Ásia Central e do Leste Asiático, somaram cinco toneladas em janeiro, em comparação com a média de 27 toneladas nos 12 meses anteriores.
Mas a trajetória para 2026 tende a seguir positiva para o metal enquanto os conflitos durarem. “Os preços voláteis do ouro e a temporada de feriados podem ter levado alguns bancos centrais a fazer uma pausa”, escreveu Marissa Salim, analista do World Gold Council, em relatório. “Mas as tensões geopolíticas, que mostram poucos sinais de diminuir, provavelmente manterão a acumulação ao longo de 2026 e além.”
O ouro caminha para sua melhor semana em seis anos, com o rali impulsionado por riscos geopolíticos e ameaças renovadas à independência do Federal Reserve.
O metal precioso se estabilizou após disparar para um recorde acima de US$ 4.967 a onça nesta sexta-feira, e estava a caminho de um ganho semanal de mais de 7%, o desempenho mais forte desde março de 2020. A prata subiu para uma máxima histórica, pouco abaixo de US$ 100 a onça, enquanto a platina também atingiu um recorde. Um importante indicador da moeda americana também está no rumo para sua pior semana em sete meses, tornando os metais preciosos mais baratos para a maioria dos compradores.
“O ouro está passando por uma reavaliação sustentada à medida que fissuras aparecem na ordem baseada em regras do pós-Segunda Guerra Mundial”, disse Yuxuan Tang, chefe de estratégia macro para a Ásia do JPMorgan Private Bank. “Os investidores veem cada vez mais o ouro como uma proteção confiável contra esses riscos de mudança de regime difíceis de quantificar.”
Após registrar o melhor desempenho anual desde 1979, o ouro estendeu um rali vertiginoso, e ganhou mais 14% neste ano. Os ataques renovados do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao Federal Reserve, juntamente com a intervenção militar na Venezuela e as ameaças de anexação da Groenlândia, adicionaram ímpeto ao chamado trade de desvalorização, no qual os investidores recuam de títulos soberanos e moedas em favor de ativos de refúgio alternativos, como o ouro.
“A busca por um refúgio seguro continua sendo o fator mais importante”, escreveram analistas do Commerzbank em nota nesta sexta-feira: “No curto prazo, entretanto, o rali pode dar uma pausa, já que a disputa pela Groenlândia parece ter sido resolvida por ora.”
O banco central da Polônia, o maior comprador de ouro do mundo, nesta semana aprovou planos para adquirir mais 150 toneladas, conforme se prepara para uma elevada instabilidade geopolítica. Enquanto isso, as participações da Índia em Treasuries dos EUA caíram para uma mínima de cinco anos, à medida que o ouro e outras alternativas conquistam uma fatia maior, refletindo uma guinada mais ampla de algumas das grandes economias para fora do maior mercado de títulos de dívida do mundo.
Escolha de Trump
Os investidores agora aguardam a escolha de Trump para o próximo presidente do Federal Reserve, depois que o presidente americano disse que havia concluído as entrevistas com os candidatos e ter reiterado que já tinha alguém em mente. Uma nomeação mais dovish reforçaria as expectativas de novos cortes na taxa de juros neste ano — o que normalmente favorece o ouro, sem rendimento — após três reduções consecutivas.
Os investidores também estão acompanhando de perto o resultado das negociações entre o presidente russo, Vladimir Putin, e os enviados dos EUA, Steve Witkoff e Jared Kushner, sobre uma proposta de plano de paz para encerrar a guerra na Ucrânia.
A prata, embalada pelo rali do ouro, mais que triplicou no último ano. O metal também foi impulsionado por um histórico aperto no mercado e por uma disparada nas compras de varejo que deixou bancos e refinarias correndo para atender à demanda sem precedentes.
A confusão em torno de uma atualização de política chinesa sobre licenças de exportação alimentou ainda mais a percepção de escassez, enquanto o mercado permanece excepcionalmente volátil, mesmo depois de os EUA terem deixado de impor tarifas amplas de importação sobre minerais críticos, incluindo prata e platina.
Estava tudo indo bem. O Ibovespa chegou a passar dos 165 mil pontos de manhã, impulsionado pelo otimismo de fora, após um dado de inflação bem comportado nos EUA. Mas o ruído eleitoral provou ser bem mais forte do que qualquer outra influência. E revelou um preview do que podemos esperar quando a corrida pela presidência estiver a todo vapor a partir do segundo semestre.
O gatilho para a queda de 4,25% do Ibovespa nesta sexta-feira veio da evidência de uma divisão na direita: a divulgação de que o ex-presidente Jair Bolsonaro indicou o filho, o senador Flávio Bolsonaro, como seu “candidato oficial”.
Os investidores de peso não escondem que seu nome preferido para a disputa eleitoral é o do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, com a agenda liberal que ele poderia trazer . “A escolha de Flávio elevou a incerteza sobre a articulação política da oposição e desencadeou um ajuste generalizado de preço”, afirmou o especialista em investimentos da Nomad, Bruno Shahini.
Ou seja, mesmo que Tarcísio ou outro nome da direita disputem o pleito, sabe-se que Bolsonaro tem um eleitorado cativo, e que consegue transferir votos para o filho. Isso pode tornar mais fácil o caminho da reeleição do presidente Lula – cenário que o mercado não gostaria de ver, dado o desapego do atual governo pelo controle dos gastos públicos.
E sem um controle efetivo dessa parte, a fiscal, um cenário de juros em níveis razoáveis se torna menos provável. Tanto que os contratos de juros futuros dispararam, com todos os vencimentos entre 2027 e 2033 acima dos 13%. Desnecessário lembrar que, com os juros nas alturas a perder de vista, não há renda variável que aguente. Daí o sell off desta sexta.
E com o cenário turbulento por aqui, parte dos investidores aumenta sua posição em dólar, para colocar o dinheiro em portos mais seguros. Daí a alta de2,31%, a R$ 5,432, maior patamar desde 16 de outubro.
Daqui para a frente podemos esperar mais episódios como o dessa sexta. “As eleições vão trazer grande volatilidade e ter impacto em câmbio, juros futuros, na bolsa e na percepção dos mercados para 2027”, diz o executivo-chefe de investimentos do UBS Wealth Management, Luciano Telo.
Esse encerramento de semana, vimos todos, é a prova empírica dessa afirmação.
Em Miami e em outros lugares, os muito ricos estão se movendo por esferas cada vez mais privadas, desembolsando grandes somas para evitar as indignidades da vida pública.
Quando os desenvolvedores Masoud e Stephanie Shojaee saíram para jantar recentemente, foram direto para a área exclusiva para membros do restaurante MILA, em Miami Beach, onde foram conduzidos a uma mesa que já os aguardava com seus coquetéis favoritos e hashis gravados com seus nomes.
Em uma viagem de negócios a Dubai no mês passado, os Shojaee desembarcaram de seu jato Bombardier Global e, na sequência, entraram em um Maybach à espera, que os levou rapidamente a um hotel luxuoso. Eles passaram por uma entrada privada que contorna o saguão e tomaram um elevador direto para a Royal Suite, onde um funcionário fez o check-in e apresentou o mordomo da suíte.
“Para mim, luxo hoje é definido por economia de tempo, eficiência e serviço”, disse Masoud Shojaee, CEO de 65 anos do Shoma Group, um incorporador residencial e comercial.
Os ultrarricos estão usando suas fortunas crescentes para deslizar por um universo rarefeito, livre dos inconvenientes da vida comum. Eles não enfrentam filas. Não precisam disputar espaço com multidões em aeroportos nem perder tempo no trânsito.
Em vez disso, um ecossistema de restaurantes, clubes, resorts e prestadores de serviços exclusivos oferece experiências personalizadas e impecáveis, sempre com rapidez máxima. Os espaços que frequentam são privados, cuidadosamente selecionados e povoados por pessoas semelhantes — e igualmente abastadas.
O poder aquisitivo dos muito ricos está disparando. O patrimônio líquido do 0,1% mais rico dos lares dos EUA chegou a US$ 23,3 trilhões no segundo trimestre deste ano, ante US$ 10,7 trilhões uma década antes, segundo o Federal Reserve Bank de St. Louis. O valor detido pelos 50% mais pobres subiu para US$ 4,2 trilhões, de US$ 900 bilhões no mesmo período.
A região de Miami oferece um vislumbre desse mundo. Há muito um destino para elites abastadas do Nordeste americano, da Europa e da América Latina, a cidade se tornou um imã ainda mais forte nos últimos anos, impulsionada pela migração da pandemia e pela ascensão da região como polo de tecnologia e finanças.
“Houve uma explosão de criadores de riqueza”, disse Patrick Dwyer, diretor-gerente da NewEdge Wealth, em Miami. “Agora eles têm dinheiro suficiente para viver exatamente como querem.”
Uma nova economia de serviços permite que evitem o contato com todo o resto, se assim desejarem. Na Bentley Residences — torre em construção em Sunny Isles Beach, ao norte de Miami — elevadores de carros levarão os residentes diretamente às suas casas, depositando os veículos em “garagens suspensas”. Assim, eles não precisam lidar com manobristas nem áreas de recepção.
As unidades, com preços a partir de US$ 6 milhões, contarão com piscina privativa na varanda. O restaurante do prédio, exclusivo para moradores, terá cabines em formato de “C”, arranjadas para evitar que os convidados se vejam.
“O luxo máximo é a privacidade”, disse Gil Dezer, presidente de 50 anos da Dezer Development, que patenteou o elevador de carros e o apelidou de “Dezervator”.
Ele fala com conhecimento de causa. Há alguns anos, viajou para Belize em seu jato Gulfstream e, depois, seguiu de helicóptero para um resort em uma ilha privativa com apenas sete vilas, cada uma separada das outras e equipada com piscina e píer próprios. Passou os dias relaxando e nadando, pedindo uísque ao mordomo quando desejava.
“É como se você tivesse o lugar só para você”, disse Dezer.
Em sua festa de 50 anos, no início deste ano, ele contratou artistas como Fat Joe e El Alfa para se apresentarem na praia em frente à sua casa — transformando um show normalmente público em um evento totalmente privado.
Quem pode paga até para reservar instalações inteiras para uso exclusivo. No Centner Wellness, centro holístico de alto padrão em Miami, clientes ricos às vezes alugam o espaço todo por vários dias, disse a fundadora Leila Centner.
Uma família de cerca de 10 pessoas fez isso há alguns meses, ao custo de US$ 150 mil. Cada integrante teve uma experiência personalizada, incluindo limpeza de sangue, rejuvenescimento celular e estimulação magnética transcraniana, com muita atenção e mimos ao longo da estadia.
Quando os ultrarricos decidem socializar, preferem círculos cuidadosamente selecionados, disse Gregory Pool, diretor da NewEdge Wealth.
O Faena Rose, clube social privado em Miami Beach focado em arte e cultura, seleciona seus membros por comitê e cobra US$ 15 mil de entrada e outros US$ 15 mil por ano. Eles têm acesso VIP ao beach club, ao spa e a outros serviços do hotel Faena Miami Beach, além da participação em cerca de 80 eventos culturais anuais exclusivos.
Há apresentações de dança da companhia Alvin Ailey e recitais da Metropolitan Opera.
“Esse nível de acesso é extremamente atraente”, disse Pablo De Ritis, presidente do Faena Rose.
Outra tendência são os clubes de jantar privados, que oferecem alta gastronomia, serviço personalizado e garantia de mesa a qualquer momento. O ZZ’s Club, em Miami — do qual Dezer é membro — tem restaurante japonês, sports bar e terraço de charutos. Um “concierge culinário” pode, com 48 horas de aviso, organizar qualquer tipo de refeição que o membro desejar, de um banquete de 12 pratos com caviar a uma recriação do jantar de lua de mel.
“Quanto mais personalizado, mais fluido e com menos pedidos você precisa fazer… é isso que define um grande serviço”, disse Jeff Zalaznick, cofundador do Major Food Group, dono do ZZ’s.
Masoud e Stephanie Shojaee frequentam o MILA MM, exclusivo para membros — onde podem aproveitar a companhia um do outro ou de amigos sem a distração de multidões — e outros espaços sociais selecionados. No mês passado, ela assistiu à primeira fila do desfile da Schiaparelli na Paris Fashion Week e conversou com a mulher ao lado, de uma das famílias mais ricas de Mônaco. Elas se deram bem e, uma semana depois, jantaram juntas com seus maridos em um restaurante de sushi em Paris.
“Nesses ambientes, as conversas, por algum motivo, parecem mais seguras e mais profundas”, disse Stephanie, 41 anos, presidente do Shoma Group e integrante do elenco do reality “The Real Housewives of Miami”. “Você convive com pessoas parecidas com você.”
A curadoria também se estende às compras do casal. Eles já não vão mais a shoppings sofisticados. Masoud recebe trimestralmente uma mala cheia de itens da NB44, marca de roupas exclusiva para membros, enquanto Stephanie regularmente recebe araras com novas coleções de Valentino e Dior, acompanhadas de uma costureira para ajustes.
Viagens sempre foram parte importante da vida dos ricos — e agora eles priorizam privacidade, eficiência e personalização mais do que nunca, segundo especialistas do setor.
Lauren Beall, proprietária da Travel Couture, em Miami Beach, organiza viagens sob medida para ultrarricos. Ela já reservou ilhas privativas, levou chefs estrelados, instrutores de ioga e performers para atender clientes.
Uma das experiências mais cobiçadas é uma suíte acima da loja Christian Dior, em Paris, que pode ser alugada e inclui compras após o expediente e jantar privativo no restaurante Monsieur Dior. Um imóvel na Escócia reservado por Beall oferece chefs privados, cavalos para explorar a região e um helicóptero para visitar cidades próximas.
“Estamos vivendo uma era de acesso exclusivo — coisas às quais outras pessoas não têm acesso”, disse Beall. “E isso vem com um preço altíssimo.”
Acionistas do Eurasian Resources Group na produtora de minério de ferro Bamin (Bahia Mineração) analisam o interesse de três potenciais investidores na companhia. A informação é do presidente da empresa, Eduardo Ledsham.
Os interessados na Bamin poderiam adquirir uma participação ou a totalidade na mineradora de ferro, que tem projeto de expansão que demandaria cerca de US$ 6 bilhões em investimentos, segundo o executivo.
A expectativa é que um dos investidores seja escolhido para avançar nas negociações e que a definição sobre isso ocorra até o início de 2026, disse a jornalistas o executivo, após participar da abertura do congresso de mineração Exposibram.
Com a definição do novo investidor, Ledsham disse que a Bamin planeja propor ao Ministério dos Transportes que a ferrovia entre em operação em 2031, e não mais em 2027 conforme estava previsto.
A Bamin conta atualmente com a mina Pedra de Ferro, com capacidade de produção para até 2 milhões de toneladas por ano de alto teor (65% de Fe), o ativo está em manutenção desde janeiro.
Mas o projeto completo conta com a conclusão do Porto Sul, em Ilhéus (BA), e da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) para ampliar em grande escala a sua produção.
Ledsham disse que a conclusão do projeto ainda demanda investimentos de aproximadamente US$6 bilhões, considerando obras na mina, ferrovia e porto.
Segundo ele, não está ainda definido se o Eurasian Resources Group venderá a sua participação de 100% na Bamin ou se ficará com uma parte.
O executivo evitou dar detalhes sobre quais poderiam ser esses investidores interessados, pontuando apenas que o interesse seria no projeto integrado, de mina, ferrovia e porto.
A mineradora Vale afirmou anteriormente que analisava o projeto, destacando que isso dependeria de uma solução econômica. Ledsham também preferiu não comentar o assunto.
Questionado se teria interesse em adquirir a Bamin, o presidente da Vale respondeu que, “como companhia, está sempre olhando todos os projetos de desenvolvimento no Brasil, principalmente no minério de ferro”.
Pimenta também afirmou que vê o mercado de fusões e aquisições global atualmente como desafiador e que acredita que o potencial de criação de valor e crescimento da companhia está no desenvolvimento dos seus próprios corpos minerários.
O crescimento do crédito para as empresas da zona do euro desacelerou em setembro, mas as companhias permaneceram otimistas, mesmo que os lucros estejam se deteriorando e a inflação possa ficar mais elevada. É o que mostraram pesquisas separadas do Banco Central Europeu (BCE) nesta segunda-feira (27).
A economia da zona do euro mostrou-se resiliente este ano em meio à incerteza tarifária, mas o crescimento ainda é de apenas 1%, sugerindo que a diferença econômica em relação aos EUA continuará a aumentar.
“Cerca de 25% das empresas permaneceu otimista em relação aos acontecimentos no próximo trimestre – mais do que no trimestre anterior”, mostrou a Pesquisa sobre o Acesso das Empresas a Financiamento. “Ao mesmo tempo, as empresas continuaram a observar uma deterioração em seus lucros.”
A pesquisa também mostrou que as expectativas de inflação ficaram, de modo geral, estáveis, mas as empresas veem um crescimento de preços acima da meta de 2% do BCE para os próximos anos e até mesmo um risco de aceleração.
A inflação tem se mantido em torno da meta durante quase todo o ano e o próprio BCE a vê abaixo de 2% durante a maior parte dos próximos dois anos, antes de voltar a subir para a meta em 2027.
“A mediana das expectativas para a inflação anual um ano à frente permaneceram em 2,5%, enquanto as expectativas para três e cinco anos à frente permaneceram em 3,0%”, disse o BCE. “Para o horizonte de cinco anos, a maioria das empresas continua a indicar que os riscos para as perspectivas de inflação estão inclinados para o lado positivo.”
O crescimento do crédito às empresas, por sua vez, desacelerou em setembro, embora a taxa tenha permanecido perto de uma máxima de dois anos, e os empréstimos às famílias continuaram a expandir no ritmo mais forte desde o início de 2023, mostrou o relatório do BCE sobre a evolução monetária.
O ouro teve a maior queda em quatro anos, após semanas de alta.
O ouro em barra caiu 3,8%, após atingir um novo pico de US$ 4.381,52 a onça na segunda-feira (20).
A demanda por metais preciosos, como o ouro, esfriou um pouco, já que o presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente da China, Xi Jinping, devem se reunir em breve para resolver suas diferenças comerciais, e uma onda sazonal de compras na Índia chegou ao fim.
O fortalecimento do dólar encareceu boa parte dos metais preciosos.
“Os traders têm se preocupado cada vez mais com correção e consolidação”, disse Ole Hansen, estrategista de commodities do Saxo Bank AS. “É durante as correções que a verdadeira força do mercado é revelada, e desta vez não deve ser diferente, com uma oferta subjacente provavelmente mantendo qualquer recuo limitado.”
Com a paralisação do governo americano em curso, os traders de commodities também ficaram sem uma de suas ferramentas mais valiosas: o relatório semanal da Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (Commodity Futures Trading Commission), que indica como os fundos de hedge estão posicionados nos contratos futuros de ouro e prata nos EUA.
Sem os dados, os especuladores podem estar mais propensos a construir posições anormalmente grandes de uma forma ou de outra.
“A ausência de dados de posicionamento ocorre em um momento delicado, com um potencial acúmulo de exposição especulativa comprada em ambos os metais, tornando-os mais vulneráveis à correção”, disse Hansen.
A volatilidade dos metais preciosos aumentou nos últimos dias, com os traders buscando se proteger contra potenciais quedas de preços em outras partes de suas carteiras ou lucrar com a queda. Mais de 2 milhões de contratos de opções vinculados ao maior fundo negociado em bolsa lastreado em ouro do mundo foram negociados na quinta e sexta-feira da semana passada, superando um recorde anterior.
Queda da prata
A prata também despencou após uma alta de quase 80% neste ano — com ganhos impulsionados por alguns dos mesmos fatores macroeconômicos que sustentam o ouro, além de uma pressão histórica no mercado londrino.
Os preços de referência estão sendo negociados acima dos futuros de Nova York, o que levou os investidores a enviar o metal para a capital do Reino Unido para aliviar a pressão. Na terça-feira, a prata em cofres vinculados à Bolsa de Futuros de Xangai registrou a maior saída de prata em um único dia desde fevereiro, enquanto os estoques de Nova York também caíram.
O ouro caiu 3,4%, para US$ 4.208,73 a onça, às 14h21 em Londres. A prata caiu 5,1%, para US$ 49,78 a onça, após despencar até 6,2%.
Por meses, Vipin Raina vinha se preparando para uma disparada nas compras de clientes indianos carregando prata para homenagear a deusa hindu da riqueza.
Mas, quando aconteceu, ele ainda ficou atônito. No início da semana passada, sua empresa, a maior refinaria de metais preciosos da Índia, ficou sem estoque de prata pela primeira vez na sua história.
“A maioria das pessoas que trabalham com prata e moedas de prata está literalmente sem estoque porque não há prata”, disse Raina, chefe de negociação da MMTC-Pamp India Pvt. “Esse tipo de mercado maluco — em que as pessoas compram a esses níveis — eu não vi em 27 anos de carreira.”
Em poucos dias, a escassez era sentida não apenas na Índia, mas no mundo todo. Aos compradores de festivais na Índia somaram-se investidores internacionais e fundos hedge entrando em metais preciosos como aposta na fragilidade do dólar — ou simplesmente seguindo a irreprimível disparada do mercado.
Clientes compram joias de prata em uma loja em Mumbai, em 17 de outubro. Foto: Dhiraj Singh/Bloomberg
Ao fim da semana passada, a febre já havia se espalhado para o mercado de prata de Londres, onde se formam os preços globais e onde os maiores bancos do mundo compram e vendem em grandes volumes. Agora, faltava de metal disponível. Traders descrevem um mercado em colapso, em que até grandes bancos recuaram de fornecer cotações enquanto atendiam ligações repetidas de clientes gritando de frustração e exaustão.
Os preços continuaram escalando na semana seguinte e, na sexta-feira, atingiram máximas históricas acima de US$ 54 por onça, antes de despencarem subitamente até 6,7%. Para traders exaustos, a queda era apenas a indicação mais recente do estresse extremo sentido no mercado de prata — a pior crise desde que os irmãos Hunt tentaram dominar o mercado 45 anos atrás.
Este relato de como o mercado da prata “quebrou” baseia-se em conversas com mais de duas dezenas de traders, banqueiros, refinadores, investidores e outros participantes, muitos dos quais falaram sob condição de anonimato por não estarem autorizados a falar publicamente.
É a história de como uma tempestade perfeita de eventos coincidiu para drenar o colchão de estoques do mercado de prata — incluindo um boom plurianual de energia solar, uma corrida para enviar metal aos EUA para se antecipar a possíveis tarifas, uma onda de investimento em metais preciosos como parte da chamada “aposta na desvalorização” (debasement trade) e um súbito pico de demanda vindo da Índia.
Relação de 100 para 1 com o ouro
Quando traders e analistas tentam apontar a causa imediata da crise da prata em 2025, invariavelmente miram a Índia.
Durante a temporada do Diwali, centenas de milhões de devotos compram bilhões de rúpias em joias para celebrar a deusa Lakshmi. As refinarias da Ásia costumam atender a essa demanda, que tipicamente favorece o ouro. Mas, neste ano, muitos indianos recorreram a um metal precioso diferente: a prata.
A virada não foi aleatória. Por meses, influenciadores das redes sociais da Índia promoveram a ideia de que, após a alta recorde do ouro, a prata seria a próxima a disparar. O burburinho começou em abril, quando o banqueiro de investimentos e criador de conteúdo Sarthak Ahuja disse a seus quase 3 milhões de seguidores que a relação de preço de 100 para 1 entre prata e ouro fazia da prata a compra óbvia do ano.
Seu vídeo viralizou durante o Akshaya Tritiya, dia auspicioso para comprar ouro — atrás apenas do festival Dhanteras, em 18 de outubro.
“Nunca foi assim antes. A demanda por prata desta vez foi gigantesca”, disse Amit Mittal, gerente-geral da M.D. Overseas Bullion, negociante de ouro e prata em Nova Délhi.
Os prêmios da prata na Índia em relação aos preços globais — normalmente de alguns centavos por onça — começaram a subir acima de US$ 0,50 e depois acima de US$ 1, à medida que a oferta rareava.
E, justamente quando a demanda indiana disparava, a China — uma fonte-chave de oferta — fechou por um feriado de uma semana. Assim, os negociantes de ouro recorreram a Londres.
Produtos de prata em uma joalheria em Mumbai. Foto: Dhiraj Singh/Bloomberg
Logo descobriram que os cofres de metais preciosos da cidade estavam em grande parte esgotados. Embora os cofres que sustentam o mercado global em Londres guardem mais de US$ 36 bilhões em prata, a maior parte pertencia a investidores em ETFs.
A demanda por ETFs de prata disparou nos últimos meses, em meio a preocupações com a estabilidade do dólar, numa onda de investimento que ficou conhecida como “debasement trade”. Desde o início de 2025, investidores em ETFs aspiraram mais de 100 milhões de onças de prata, segundo dados compilados pela Bloomberg — deixando um estoque minguante disponível para atender o súbito boom de demanda indiana.
Cerca de duas semanas atrás, o JPMorgan Chase & Co. — o maior negociador de metais preciosos e fornecedor importante de ouro e prata para o mercado indiano — disse a ao menos um cliente que não tinha mais prata disponível para entregar à Índia no mês de outubro e que a oferta mais próxima seria em novembro. Um porta-voz do JPMorgan preferiu não comentar.
À medida que a febre de compras ganhava ritmo na Índia, Satish Dondapati mantinha um olhar atento sobre os estoques. Gestor da Kotak Asset Management, ele administra vários ETFs de metais preciosos, que precisam de prata física para lastrear as cotas quando entram novos investidores.
Dondapati observou, surpreso, os grandes negociantes que dominam o mercado indiano ficarem sem prata em seus cofres, enquanto os prêmios locais continuavam subindo acima das cotações internacionais.
A situação ficou tão grave que a Kotak decidiu suspender novas subscrições do seu fundo de prata. Fundos semelhantes administrados pela UTI Asset Management Co. e pelo State Bank of India fizeram o mesmo.
“Analistas e negociantes estavam emitindo chamadas otimistas sobre a prata na mídia indiana de um jeito que não se via há 14 anos”, disse ele. “O fator FOMO funcionou.”
Em outras partes do país, negociantes nos bazares de ouro mais movimentados de Mumbai passaram a cobrar preços bem acima dos referenciais internacionais, enquanto disputas de lances estouravam entre compradores ricos que se importavam mais com a disponibilidade do que com o preço.
Os prêmios dispararam acima de US$ 5 por onça, muito além do spread normal de alguns centavos. “Estou nesta empresa há 28 anos e nunca vi esse tipo de prêmio”, disse Mittal, da M.D. Overseas.
A relutância do JPMorgan em enviar mais prata para a Índia indicava que a pressão na oferta era global.
Em 9 de outubro, com o festival Dhanteras a apenas uma semana, o mercado de prata de Londres seria tomado pelo maior squeeze (falta de metal para entrega imediata) que qualquer um dos vários traders ouvidos pela Bloomberg havia visto em suas carreiras.
Pânico em Londres
Traders descreveram um pânico crescente à medida que a liquidez secava. O custo de tomar prata emprestada overnight disparou para taxas anualizadas de até 200%, segundo a consultoria Metals Focus. À medida que os grandes bancos que dominam o mercado londrino recuavam, os spreads de compra e venda ficaram tão amplos que quase inviabilizaram as negociações.
Um alto executivo bancário descreveu como os ânimos se exaltaram quando clientes que haviam tomado prata emprestada — geralmente empresas da cadeia física de suprimento, como refinadores e distribuidores — ligavam repetidamente para pedir o custo mais recente de rolagem do empréstimo. Quando seu banco já não conseguia oferecer um preço para rolar os empréstimos dos clientes, alguns começaram a gritar ao telefone, disse ele.
Em outro sinal da desorganização do mercado, um trader disse que os grandes bancos ofereciam cotações tão discrepantes que ele conseguiu comprar de um banco ao preço de venda dele e, simultaneamente, vender para outro ao preço de compra — lucrando na hora —, um sinal raro de disfunção em um mercado tão grande e competitivo.
“Há pouco ou quase nenhuma liquidez realmente disponível para leasing em Londres”, disse Robin Kolvenbach, co-CEO da refinadora suíça de metais preciosos Argor-Heraeus. “Basicamente paramos toda entrada de prata que não esteja contratualmente comprometida.”
Energia solar
Nos últimos cinco anos, a demanda por prata superou a oferta vinda de minas e de metal reciclado — em grande parte graças ao boom da indústria solar, que usa prata em células fotovoltaicas. Desde 2021, a demanda superou a oferta em um total de 678 milhões de onças, segundo o Silver Institute, com a demanda fotovoltaica mais que dobrando no período. Isso se compara a estoques totais em Londres de cerca de 1,1 bilhão de onças no início de 2021.
A tensão no mercado de prata vinha se acumulando desde o começo do ano, quando temores de que a prata fosse atingida pelas tarifas recíprocas do presidente Donald Trump levaram traders a tentar se antecipar a possíveis cobranças enviando mais de 200 milhões de onças de metal para armazéns em Nova York.
Além das retiradas por causa de tarifas, mais de 100 milhões de onças de prata fluíram para ETFs globais no ano até setembro, numa onda de demanda por metais preciosos que turbina uma alta que ajudou o ouro a superar US$ 4 mil por onça pela primeira vez na história.
Juntos, os dois movimentos drenaram as reservas de Londres, deixando perigosamente pouco metal disponível para sustentar as cerca de 250 milhões de onças que trocam de mãos no mercado londrino todos os dias. Com base em estimativas da Metals Focus, no início de outubro o estoque livre (não detido por ETFs) no mercado londrino havia caído para menos de 150 milhões de onças, menos do que o suficiente para sustentar um dia de negócios.
Por Sybilla Gross, Preeti Soni, Jack Ryan, Yvonne Yue Li e Jack Farchy
O ouro não para de subir – e a Aura Minerals, mineradora canadense, também não. Desde a estreia na bolsa de Nova York, em julho deste ano, os papéis da empresa deslancharam e já sobem 49%; no Brasil, o recibo lastreado na ação (BDR), 52%. Enquanto isso, nesse mesmo período, o metal amarelo avançou 28%. Ou seja: a empresa está sob o efeito de um “combo” de fatores positivos, que vai além da valorização do ouro – e deve continuar atraindo a atenção dos investidores.
A ação da Aura é hoje um bom instrumento para o investidor tirar proveito da valorização do ouro. Mas é também um caminho de diversificação: o papel tende a ter um bom desempenho em períodos que podem ser negativos para a maioria das empresas e, portanto, pode servir de contrapeso para a carteira.
Momento dourado
Dos nove analistas que fazem o acompanhamento regular das ações da Aura, todos têm recomendação de compra para a empresa, fruto da confiança de que os resultados financeiros vão continuar fortes.
Uma das razões para esse otimismo, claro, tem a ver com o cenário favorável para o ouro. Com o ambiente geopolítico tenso e o enfraquecimento do dólar no mundo, a commodity vem ocupando o posto de “ativo de segurança”, o que explica a valorização recente. Ao que tudo indica, essa dinâmica deve prosseguir. E a Aura Minerals é uma das companhias que se beneficiam desse quadro.
Uma prévia desse desempenho já se viu na mais recente divulgação de dados operacionais da companhia: no terceiro trimestre deste ano, a Aura teve recorde de produção, com 74,2 mil onças equivalentes de ouro (GEO, em inglês). É um aumento de 16% em relação ao segundo trimestre e de 9% frente o terceiro trimestre de 2024. Números alinhados à meta da companhia de atingir uma produção entre 266 mil a 300 mil onças em 2025.
Os analistas do Itaú BBA classificaram a performance operacional como “levemente positiva”. E destacaram o retorno acima do esperado das minas de Apoena (MT) e Minosa (Honduras) e com aceleração da exploração na mina de Borborema (RN). A produção até setembro deste ano já equivale a 70% da projeção da companhia.
O ponto é que existe entre investidores a percepção de que a mineradora está bem preparada para tirar proveito desse cenário forte para a commodity. E o resultado da companhia já traz essa visão. No segundo trimestre, a mineradora reverteu o prejuízo que havia contabilizado em igual período do ano anterior e mostrou um lucro de US$ 8,1 milhões. A receita líquida, US$ 190,4 milhões, e o lucro operacional ajustado, de US$ 106 milhões, foram recordes.
“Com preços fortes do ouro e performance operacional estável, amparados por um controle forte de custos, esperamos que a Aura entregue resultados fortes no terceiro trimestre”, atestam os analistas do BTG Pactual, em relatório. A recomendação do banco para o papel negociado em NY é de compra.
O horizonte positivo para a mineradora vem também como resultado de projetos que devem acelerar os volumes produzidos. Em 2 de junho, Aura anunciou a compra da mina Serra Grande, em Goiás, por US$ 76 milhões. É uma planta que produziu perto de 80 mil onças em 2024. A nova mina e o aumento da extração em Borborema devem ter impacto total na produção da Aura em 2026, mas as expectativas devem já direcionar o interesse dos investidores ao longo dos próximos meses.
Canadá x Brasil
A Aura Minerals ainda não tem o tamanho de gigantes do setor, caso das canadenses Barrick e Agnico Eagle e da americana Newmont, mas nasce como uma importante produtora de ouro e cobre com operações nas Américas a partir da também canadense Canadian Baldwin Holdings, fundada em 1946.
Em 2006 teve o nome alterado para Aura Gold para focar exploração aurífera no Brasil e, mais tarde, foi reorganizada como Aura Minerals, após concluir em 2018 a fusão com a Rio Novo Gold (BVI). A chegada efetiva ao Brasil veio do redirecionamento estratégico de 2006, com a aquisição do complexo EPP (Ernesto/Pau-a-Pique), conjunto de minas de ouro no Mato Grosso, anunciada em 2015 e concluída em 2016, quando o novo controle acionário foi estabelecido.
O atual CEO da empresa, Rodrigo Barbosa, ocupa o cargo desde 2017. Hoje, a companhia opera com minas em Honduras e no México, além das plantas em Apoena (MT), Almas (TO) e Borborema (RN) e dos projetos de exploração em Carajás (PA) e na Colômbia.
Fundamentos para o ouro
No mercado internacional, o ouro fechou a semana com o maior ganho acumulado desde o colapso do Lehaman Brothers em setembro de 2008. Os contratos para dezembro da matéria-prima, o mais negociado no mercado, avançaram 6,75% em cinco dias. No ano, o ouro sobe 62%.
O metal vem marcando recorde após de recorde, acima de US$ 4.300 por onça, com os investidores na corrida por ativos de proteção para fugir dos impactos das tensões geopolíticas e comerciais, sobretudo com o vaivém nos atritos entre EUA e China. Um dólar mais fraco também ajuda a commodity, barateando o ouro para quem compra em outras moedas e ampliando a demanda global.
Os cortes de juros nos EUA também reduzem o custo de carregar um ativo que não paga cupom. Em outras palavras: o ouro não paga juros e nem dividendos; por isso, quem tem o metal como investimento “deixa de ganhar” o que receberia em aplicações seguras, como títulos do Tesouro dos EUA. Se o juro cai, melhor para o metal.
Um outro efeito que leva o ouro a perseguir novas marcas históricas são as compras pelos bancos centrais no mundo: depois de um pico histórico em 2024, as compras permanecem elevadas, com acréscimo líquido de 19 toneladas só em agosto, segundo dados compilados pelo World Gold Council a partir de relatórios ao FMI. O Banco Popular da China, por exemplo, reportou aumento de reservas por 11 meses seguidos até setembro.
Para a frente, há razões para a alta continuar, ainda que com volatilidade. Casas como HSBC e UBS apontam que o recuo dos juros reais e a provável continuidade da fraqueza do dólar mantêm o suporte ao ouro, enquanto a XP cita uma “visão construtiva” sobre os preços tanto pela continuidade das compras por bancos centrais, quanto pela “tendência contínua de desdolarização”.
Incentivo à liquidez
A Aura já era negociada em NY antes de realizar a oferta de ações (IPO, em inglês) que levantou US$ 200 milhões para o caixa, mas os papéis estavam no mercado chamado “over-the-counter” (OTC), um ambiente fora de bolsa em que empresas, sobretudo estrangeiras, podem ter seus papéis negociados sem fazer listagem tradicional. Para entrar no segmento, são precisos padrões rígidos de divulgação de informações e governança, mas a liquidez e a cobertura dos analistas são reduzidas.
Com o IPO na Nasdaq, a empresa ganhou visibilidade e aumentou a sua base de investidores. Quem apostou na empresa desde então recebeu outras boas notícias, como o pagamento de dividendos de US$ 0,33 por ação (US$ 0,11 por BDR). Para “destravar” mais valor aos papéis, a companhia também anunciou neste mês um programa de incentivo para converter BDRs (AURA33) em ações (AUGO) com isenção de taxas do banco depositário por 32 dias — medida que tende a reduzir eventuais desalinhamentos de preço entre Brasil e EUA.
Se considerado na conta o desempenho no acumulado apenas deste ano das ações da Aura, antes da migração para a bolsa de NY, o avanço é ainda mais estrondoso: AUGO subiu 230%, enquanto AURA33 teve ganho de 187%; o ouro avançou 62,5%. A diferença entre o desempenho no exterior e no mercado brasileiro tem a ver com a desvalorização do dólar frente ao real.
Há duas semanas, Mike Hewlett encontrou ouro. Quer dizer, mais ou menos.
O soldador californiano tem muitos hobbies, incluindo snowboard, esqui e motocross. Mas com os preços do ouro atingindo recordes, ele adotou um novo compromisso na agenda: procurar ouro.
Enquanto caminhava por uma floresta na região do Monte Shasta com um detector de metais, examinando pedras e terra, sua máquina começou a apitar. Hewlett havia detectado metal enterrado em cascalho — ao desenterrá-lo, encontrou um pedaço de ouro com cerca de metade do tamanho da unha do seu mindinho.
“Eu estava pulando para todos os lados, como se fosse um desenho animado”, disse o homem de 50 anos. A pepita, que ele pesou mais tarde, não foi exatamente transformadora. “Valia US$ 175”, disse ele. “Mas, por outro lado, estava ali, à espera de ser pega.”
Em todo o país, uma corrida do ouro moderna está em andamento. Pessoas nas redes sociais brandem panelas e pepitas salpicadas de ouro enquanto exibem seus equipamentos, que vão de picaretas antigas a caixas separadoras de ouro. Outros trocam dicas e examinam mapas, determinados a descobrir quais áreas ainda podem esconder riquezas metálicas.
O sonho de encontrar uma mina-mãe pode ser improvável, mas com os preços do ouro chegando a US$ 4.000 a onça, é tentador.
“Durante todo o caminho, fico pensando que vou tirar essa maldita pepita de US$ 100.000”, disse Hewlett.
A Mina de Ouro Big Thunder, na Dakota do Sul, tem sido inundada com pedidos de consultoria, disse a coproprietária Sandi McLain.
O museu de mineração de ouro, que contém uma coleção de artefatos que datam da Corrida do Ouro de Black Hills de 1874, oferece aulas de garimpo e a oportunidade de prospectar em suas terras: quem acha, fica com ele.
As aulas já estão esgotadas. As vendas de seus baldes de 5 galões de “terra paga” — que custam US$ 55 cada e contêm terra local — aumentaram 50% em relação ao ano passado.
“As pessoas levam para casa e sentam na garagem com uma cuba do Walmart para garimpar”, disse McLain. Em seus 33 anos como proprietária do museu, ela nunca viu tanta febre.
Como nas corridas do ouro de antigamente, o caminho mais seguro para ganhar dinheiro geralmente vem da venda de equipamentos de mineração. Em uma versão mais moderna, há também o ouro nas mídias sociais: as maiores contas do YouTube dedicadas à prospecção ostentam mais de meio milhão de seguidores.
Em Sacramento, Cody Blanchard procurava ouro há vários anos no norte da Califórnia antes de abrir seu próprio negócio vendendo equipamentos e oferecendo passeios de prospecção no ano passado. Ele encontrou pessoalmente cerca de 170 gramas. Mas o negócio — um bico para o trabalhador do saneamento — provou ser mais lucrativo.
Em alguns dias, Blanchard dá uma passada rápida em um parque local com um detector de metais na esperança de encontrar joias de ouro perdidas. Mas, quando tem mais tempo, prefere mergulhar com snorkel em leitos de rios, onde escava o leito rochoso.
Ele disse que a emoção da primeira descoberta de ouro na natureza é imbatível e faz com que as pessoas voltem sempre. “É como um vício em heroína”, disse ele.
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Muito além do ouro
Às vezes, os caçadores de ouro tropeçam em outras descobertas. Certa vez, quando Blanchard estava garimpando com amigos, eles encontraram botões antigos de uma calça jeans Levi’s que datava de meados do século XIX. Ainda havia um pouco de jeans preso.
Dois anos atrás, enquanto Chris Spangler acampava com a família no Deserto de Mojave e escavava ouro à noite, um de seus filhos olhou para cima e percebeu que estavam cercados por centenas de tarântulas. Aparentemente, elas foram atraídas pelas vibrações de seus equipamentos, incluindo uma lavadora a seco e um gerador.
“Foi meio bizarro, mas, ao mesmo tempo, algo que você nunca experimentaria de outra forma”, disse Spangler, um administrador de saúde de 39 anos da Marinha dos EUA, agora baseado em Sydney. Ele tem registrado a jornada de caça ao ouro de sua família nas redes sociais, onde tem um total de 430.000 seguidores. Sua presença nas redes sociais rendeu à família cerca de US$ 30.000, superando qualquer ouro que tenham encontrado.
Parker Schnabel tem um programa sobre extração de ouro – Foto: Divulgação
“Em muitos países, a mineração de ouro em pequena escala é um modo de vida”, disse Parker Schnabel, um minerador de ouro do Alasca que estrela a longa série “Gold Rush” da Discovery.
Em contraste, nos EUA, ele observa, regulamentações ambientais mais rígidas podem dificultar a extração de grandes quantidades. “Mas a alta dos preços do ouro está ajudando a mudar esse cálculo”, disse ele, especialmente considerando a dificuldade financeira que muitos americanos enfrentam.
“Essa é uma das coisas mais legais sobre a mineração de ouro e a razão pela qual existe um programa de TV sobre o assunto”, disse Schnabel. “Você pode ter muita sorte e encontrar quantias de dinheiro que podem mudar sua vida se encontrar o lugar certo.”
A febre do ouro traz um sintoma sério: competição. A alta dos preços atraiu mais pessoas para o evento anual de mineração Goldzilla, em um acampamento no Alabama, perto da fronteira com a Geórgia, onde tudo o que é encontrado é dividido entre a multidão. “Quanto mais pessoas participam, menos ouro você vai levar para casa”, disse Cannady. O dono do acampamento usa equipamentos de lavagem de ouro que ele mesmo construiu.
Mesmo assim, o mecânico, de 46 anos, disse que a experiência é divertida de qualquer maneira. Ele planeja participar novamente e quer transformar o ouro que coletou em anéis para sua esposa e filha.
Todos os anos, ônibus lotados de alunos do quarto ano se reúnem no Parque Histórico Estadual Marshall Gold Discovery, em Coloma, Califórnia, para aprender sobre a Corrida do Ouro no estado e experimentar a arte da garimpagem, usando água em um cocho que os funcionários do parque semeiam com flocos de ouro. Em um fim de semana, o local sediou uma encenação de uma cidade de tendas da década de 1850, com atores fantasiados.
Embora o preço do ouro tenha disparado, disse a assistente sênior do parque, Cynthia Flewelling, eles continuarão com a atividade, que custa US$ 10 por pessoa e inclui uma aula de 15 minutos e meia hora para garimpar flocos, que os participantes podem ficar com eles.
As famílias indianas estão testemunhando um aumento da riqueza com suas 35.000 toneladas de ouro — que pesam mais de 6.000 elefantes. Motivo? A valorização recorde do ouro.
A enorme reserva de ouro acumulada ao longo de gerações, estimada em quase US$ 3,8 trilhões, está criando um “efeito positivo de riqueza no balanço patrimonial das famílias, dada a tendência de alta dos preços do ouro”, escreveram os economistas Upasana Chachra e Bani Gambhir, do Morgan Stanley, em um relatório.
Ouro dos indianos
Para os indianos, o ouro está presente na vida cultural, religiosa e social.
As famílias acumulam ouro não apenas como forma de poupança a longo prazo ou segurança financeira em emergências, mas também como símbolo de prosperidade em rituais religiosos.
O metal é frequentemente presenteado em casamentos e festivais, fortalecendo os laços familiares e transmitindo riqueza de uma geração para a outra.
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A estimativa mais recente é muito superior à de um relatório do World Gold Council de julho de 2023, que estimava a coleção total de ouro das famílias indianas em cerca de 25.000 toneladas. O país do sul da Ásia é o segundo maior consumidor mundial de ouro.
O forte aumento na estimativa de riqueza em ouro ocorre em um momento em que os preços subiram mais de 50% este ano, atingindo uma máxima recorde acima de US$ 4.000 a onça, colocando-o no caminho para seu maior ganho desde 1979.
A alta está sendo impulsionada pelas compras do banco central, tensões geopolíticas e cortes nas taxas de juros pelo Federal Reserve dos EUA.
Na Índia, os preços locais tendem a acompanhar os movimentos globais, já que o país mais populoso do mundo importa a maior parte de suas necessidades de metal amarelo.
O Banco da Reserva da Índia (RBI) ajudou a sustentar o sentimento do mercado, comprando cerca de 75 toneladas de ouro desde 2024 e elevando seu estoque total para 880 toneladas — cerca de 14% das reservas cambiais da Índia.
O efeito riqueza relacionado ao ouro no país está ganhando um impulso extra, em meio a cortes no ciclo de taxas de juros pelo RBI e à redução dos impostos sobre o consumo pelo governo, afirma a nota.
Empresas e fortunas vão e vêm, mas o ouro sempre está conosco. Às vezes, é um ativo especulativo, um porto seguro ou uma jogada de diversificação, mas certamente vale a pena ficar de olho quando o preço do ouro sobe para US$ 4.000 a onça pela primeira vez, como aconteceu nesta semana.
O ouro é um refúgio tradicional em tempos de incerteza econômica ou inflação, e você pode ver isso acontecendo agora.
O governo dos EUA está fechado em meio a um impasse partidário, e crescem os temores de que o presidente Trump ceda em uma expansão permanente dos subsídios à saúde, que custariam US$ 450 bilhões (dinheiro que o governo não tem).
O Federal Reserve pode abandonar sua batalha contra a inflação antes que ela seja vencida.
Mais adiante, a França está ingovernável, e outras partes da Europa quase. A economia da China está vacilante, e ninguém sabe se o provável novo primeiro-ministro do Japão tem um plano para reanimar o que costumava ser uma vibrante potência industrial.
As cadeias de suprimentos globais estão no limbo em meio a diversas guerras comerciais e tarifárias.
Os riscos geopolíticos estão aumentando.
Investidores com muito dinheiro em caixa buscam segurança, ao mesmo tempo em que querem maximizar os retornos.
Apesar dos cortes de juros de curto prazo do Fed, as taxas dos títulos de longo prazo permanecem altas — possivelmente um sinal de que os mercados estão cautelosos com os riscos de inflação ou com as perspectivas incertas de crescimento econômico, ou ambos.
Mas há um crescimento em outros mercados de crédito, especialmente para formas exóticas de dívida, como títulos lastreados em financiamentos automotivos subprime.
As ações estão em avaliações recordes, graças à mania da inteligência artificial e às expectativas de maiores lucros corporativos após a recente lei tributária.
É difícil saber o quanto disso constitui uma bolha, enquanto os mercados fazem seu trabalho de canalizar capital para novas tecnologias promissoras, mas arriscadas, como a IA.
Seria útil se os investidores pudessem ponderar esses riscos em um cenário de estabilidade monetária, mas tanto o presidente Trump quanto o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, parecem ter ideias diferentes.
Por mais que discordem um do outro em palavras, na prática ambos parecem dispostos a tolerar uma inflação acima da meta declarada pelo Fed de 2%. Então, por que não comprar ouro?
Uma maneira útil de entender isso é que o valor do dólar caiu para 1/4000 de uma onça de ouro. Quaisquer que sejam as razões específicas para uma determinada variação de preço, essa queda no poder de compra não é consistente com a vitória na guerra contra a inflação que os eleitores elegeram Trump para travar.
Não interprete isso como uma previsão de pânico ou crise.
A inflação ainda pode cair, e a IA pode muito bem cumprir a promessa que os investidores acreditam ver. Em vez disso, o preço do ouro é um conselho ao Sr. Trump e ao Fed: os investidores buscam garantias sobre a inflação, o dólar e uma política econômica menos maníaca.
No sábado, o Japão ganhou uma nova primeira-ministra. Na terça-feira, o ouro ultrapassou US$ 4.000 pela primeira vez. Não foi coincidência.
Sanae Takaichi, líder do Partido Liberal Democrata do Japão, é uma figura conservadora em termos fiscais e monetários. Takaichi quer mais estímulos econômicos e que o Banco do Japão ajude, não aumentando os juros. A notícia de sua escolha derrubou o iene e elevou os rendimentos das ações e títulos japoneses.
A notícia também contribuiu para a corrida épica do ouro neste ano, com um salto adicional de 2,6% na segunda (6) e terça-feira (7).
Sanae Takaichi, primeira-ministra do Japão – Foto: Getty Images
Acontece que os EUA não são o único país onde dívidas públicas e políticas populistas ameaçam o valor de moedas fiduciárias como o dólar.
No mês passado, Nigel Farage, líder do partido populista Reform UK, agora à frente nas pesquisas no Reino Unido, criticou o Banco da Inglaterra por vender títulos, porque as perdas resultantes e a pressão ascendente sobre as taxas de juros estavam custando caro aos contribuintes.
O Banco Central Europeu, criado com quase total independência dos políticos, parece seguro por enquanto. Mas a pressão sobre ele também pode aumentar. A França acaba de perder seu quarto primeiro-ministro em pouco mais de um ano, em meio a um impasse sobre o controle de sua dívida. Tanto na França quanto na Alemanha, populistas que no passado defendiam o abandono do euro lideram as pesquisas.
A alta do ouro ocorreu em várias etapas. A primeira começou depois que os países ocidentais congelaram as reservas cambiais da Rússia após sua invasão em larga escala da Ucrânia em 2022. Bancos centrais e governos estrangeiros, em busca de algo que os adversários não pudessem tomar, começaram a investir em ouro.
A segunda acoonteceu em abril, com a guerra comercial do presidente Trump, que minou a confiança nos EUA como estabilizadores do sistema econômico global e o lugar preeminente do dólar nesse sistema.
A terceira veio no final de agosto, quando o Federal Reserve (Fed) sinalizou que cortaria as taxas de juros para neutralizar a fraqueza do mercado de trabalho, apesar da inflação estar acima da meta de 2%.
Dias depois, Trump, que vinha defendendo taxas de juros mais baixas durante todo o ano, buscou aumentar seu controle sobre a política monetária demitindo a governadora do Fed, Lisa Cook, por supostas declarações falsas sobre hipotecas. Ela contestou as alegações e mantém seu cargo por enquanto.
É impossível saber se o ouro está corretamente precificado a US$ 4.000 a onça.
Ken Griffin, CEO da gestora de fundos Citadel, citando a forte queda do dólar neste ano, disse no início desta semana: “Soberanos, bancos centrais e investidores individuais em todo o mundo agora dizem: ‘Agora vejo o ouro como um ativo de porto seguro, da mesma forma que o dólar costumava ser visto.'”
Ainda assim, como observou Robin Brooks, da Brookings Institution, o dólar tem se mantido estável desde agosto, sugerindo que a recente alta do ouro está relacionada à erosão da confiança em todas as moedas fiduciárias.
Embora as circunstâncias sejam diferentes em cada país, o que o Japão, os EUA e a Europa Ocidental têm em comum é a dívida.
Uma fórmula simples mostra a sustentabilidade dessa dívida.
Quando a taxa de juros média da dívida está abaixo do crescimento nominal (ou seja, sem ajuste pela inflação) do PIB, a dívida tende a cair como parcela do PIB. Quando a taxa de juros é mais alta, essa proporção tende a aumentar.
De 2008 a 2022, as dívidas nas economias desenvolvidas dispararam em resposta, primeiro à crise financeira global e, depois, à pandemia de Covid-19. Mas, como as taxas de juros estavam muito abaixo do crescimento nominal do PIB, essas dívidas eram fáceis de sustentar.
Não mais. Com o retorno da inflação, as taxas de juros estão retornando aos padrões históricos.
Em um novo relatório, o Morgan Stanley observou que, nos mercados desenvolvidos, o crescimento nominal desacelerou, o custo da dívida aumentou e os déficits se deterioraram — um triplo golpe para a sustentabilidade da dívida.
O relatório prevê que, até 2030, o custo médio do serviço da dívida será igual às taxas de crescimento. Evitar um aumento explosivo da dívida exigiria um superávit orçamentário considerável, excluindo juros — ou seja, cortes drásticos de gastos ou aumentos de impostos. Isso está se mostrando politicamente intragável.
Trump herdou um déficit orçamentário anual de cerca de 6% do PIB e uma dívida (a soma de todos os déficits ao longo do tempo) próxima de 100% do PIB, e pouco fez para mudar sua trajetória.
A receita proveniente de tarifas compensa os cortes de impostos previstos no projeto de lei fiscal dos republicanos, assinado em julho, mas pode desaparecer se a Suprema Corte decidir que algumas tarifas foram impostas ilegalmente. Enquanto isso, o governo está paralisado devido às exigências democratas de que certos subsídios à saúde sejam estendidos, às quais Trump e os republicanos parecem abertos.
Trump acredita que existe uma maneira mais fácil de reduzir os déficits: fazer com que o Fed reduza as taxas de juros e, assim, barateie o serviço da dívida. Quando os bancos centrais mudam sua prioridade da inflação para ajudar o Tesouro, isso se chama dominância fiscal e geralmente leva à inflação.
Seth Carpenter, economista-chefe global do Morgan Stanley, disse que, embora ninguém possa ter certeza de como será o Fed após a saída do atual presidente, Jerome Powell, “Trump pode fazer algumas escolhas e deixou claro o que quer”. O Fed, disse ele, pode estar migrando para uma política monetária mais branda ao longo do tempo, o que implica um dólar mais baixo, uma inflação esperada mais alta e um ouro mais caro do que o normal.
O domínio fiscal também paira no Japão. Takaichi, a nova primeira-ministra, é uma defensora da estratégia das “três flechas” do ex-primeiro-ministro Shinzo Abe para a recuperação econômica: reformas estruturais para impulsionar a competitividade e estímulos fiscais e monetários.
No ano passado, ela disse que era “estúpido” o Banco do Japão aumentar as taxas de juros. Desde então, ela suavizou um pouco o tom, reiterando que o governo deve “determinar a direção da política econômica e monetária”.
Os mercados concluíram que o governador do Banco do Japão, Kazuo Ueda, será mais lento no aumento das taxas de juros.
O problema é que, assim como nos EUA, a inflação no Japão está notavelmente mais alta do que antes da pandemia. Acatar as exigências do governo corre o risco de levar a inflação a subir ainda mais.
Os rendimentos dos títulos japoneses de 10 anos ainda estão bastante baixos, em torno de 1,6%. Mas Brooks, da Brookings Institution, observou que os rendimentos de 30 anos subiram acentuadamente, especialmente desde a escolha de Takaichi, e isso implica que os rendimentos de 10 anos ficarão acima de 4% em 20 anos. O mesmo padrão é visível em outros países, disse ele. “O mercado está dizendo: ‘Vocês vão inflar a dívida, não agora, mas no longo prazo’”, disse Brooks.
A Colômbia lançou oficialmente na segunda-feira (7) o Bre-B, seu sistema de pagamentos instantâneos inspirado no Pix do Brasil. Mais de 32 milhões de pessoas já se registraram para usar a novidade, o que representa 76% da população adulta do país.
O sistema foi desenvolvido pelo Banco de la República (equivalente ao Banco Central do Brasil) em parceria com o setor privado. Há até participação brasileira no projeto: a fintech Ebanx, com sede em Curitiba (PR), foi convidada a integrar o Comitê Interdisciplinar de Pagamentos Interoperáveis, que assessorou as autoridades colombianas na construção do Bre-B.
“O maior desafio do banco central era garantir uma operação padronizada e universal em diferentes sistemas”, disse Eduardo de Abreu, VP de Produto da Ebanx, em comunicado à imprensa.
Como funciona o Pix colombiano?
O Bre-B segue o mesmo modelo do “irmão brasileiro” no quesito transação. A pessoa usa chaves – chamadas de “llaves” em espanhol – para enviar dinheiro de uma conta para outra. Essas chaves podem ser número de celular, e-mail, documento ou um código alfanumérico. Uma mesma conta pode ter várias chaves diferentes. Até agora, já foram emitidas mais de 80 milhões de llaves no sistema colombiano, segundo o Ebanx.
Como fazer uma transferência?
O processo é muito parecido com o Pix brasileiro. Dentro do aplicativo do banco, fintech ou carteira digital, basta digitar a chave Bre-B da pessoa ou comércio que vai receber o valor. O recebedor precisa ter uma chave cadastrada. Também é possível fazer pagamentos usando QR codes.
Quais são os limites de valor?
Aqui há uma diferença em relação ao Brasil. Enquanto no Pix o limite depende da instituição financeira, na Colômbia o Banco de la República definiu um teto máximo de 1.000 UVB (Unidades de Valor Básico) por transação, o equivalente a cerca de R$ 15 mil (cotação de setembro de 2025). Cada banco ou fintech poderá, no entanto, estabelecer valores menores ou adotar medidas extras de segurança.
Funciona 24 horas por dia?
Sim. Assim como no Brasil e também no mercado de criptomoedas, o Bre-B permite realizar transferências e pagamentos 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano.
Por enquanto, sim. As transferências são gratuitas para pessoas físicas, mas apenas nos três primeiros anos de funcionamento. A partir do quarto ano, haverá uma tarifa simbólica: 3,23 pesos por parte da transação, totalizando 6,46 pesos (menos de um centavo). A comparação é favorável: alguns dos maiores bancos da Colômbia chegam a cobrar 7.980 pesos (cerca de R$ 11) por transferências entre instituições diferentes.
O dinheiro cai na hora?
Sim. Além de transferências entre pessoas, o Bre-B também pode ser usado em pagamentos no varejo. Assim como no Pix, o valor cai em tempo real, no momento da confirmação do pagamento.
O dinheiro em espécie ainda é o principal método de pagamento na América Latina e na Colômbia. No país vizinho do Brasil, entre 8 e 10 transações são feitas em dinheiro, disse Ana María Prieto, que supervisionou a criação do Bre-B.
O lançamento da nova plataforma no país, no entanto, quer mudar o cenário, assim como ocorreu no Brasil. Pesquisa divulgada ano passado pelo Banco Central mostrou que o Pix é usado por 76,4% dos brasileiros. O dinheiro em espécie aparece em terceiro lugar, utilizado por 69,1% da população.
A economia digital da Colômbia cresce a uma taxa média de dois dígitos nos últimos seis anos e a expectativa é que ultrapasse US$ 52 bilhões em 2025, ocupando o terceiro lugar na América Latina, atrás apenas Brasil e do México, segundo dados da Payments and Commerce Market Intelligence (PCMI) obtidos pela fintech Ebanx.
As ações da Desktop chegaram a subir mais de 10% nesta terça-feira (7), após rumores de que a a Claro estaria em conversas avançadas para adquirir a companhia. A operadora, de acordo com o Brazil Journal, já estaria conduzindo diligência na empresa, embora ainda não tenha feito uma proposta firme.
Os papéis da empresa fecharam com alta 9,71%, a R$ 11,30 — vale destacar que é um papel de com pouca liquidez, o que ajuda a explicar altas e baixas mais significativas nesses tipos de evento.
Após o pregão a Desktop confirmou que existem conversas preliminares com a Claro, mas que “até o momento, não houve acordo sobre preço, estrutura e demais condições”.
A transação envolveria 100% do capital e poderia levar ao fechamento de capital da Desktop, controlada pela gestora H.I.G. Capital, que detém cerca de 53% das ações. No ano passado, a Vivo chegou a negociar a aquisição da companhia, mas as partes não chegaram a um acordo sobre o preço.
O rumor surge em meio a uma nova fase de consolidação entre os provedores regionais de fibra, conhecidos como ISPs, que ainda respondem por cerca de 65% da internet de fibra óptica no país, como mostrou recentemente o InvestNews.
Consolidação das ISPs
Após anos de fragmentação e aquisições pulverizadas, o setor entrou em um ciclo de combinações de maior porte, com fundos de private equity buscando saída e operadoras maiores testando o apetite por expansão.
Em meados de 2023, por exemplo, a Vero, controlada pela Vinci Partners, se fundiu com a Americanet, da Warburg Pincus, criando a quinta maior operadora de banda larga do Brasil, com mais de 1,3 milhão de clientes e receita líquida de R$ 1,58 bilhão.
Paralelamente, grupos como a Alloha Fibra (Giga+), que nos últimos anos lideraram o movimento de consolidação, agora estariam de olho em alternativas de saída para seus investidores, como a eB Capital.
Esse rearranjo abriu caminho para que as grandes teles — Claro, Vivo e TIM — finalmente avançassem sobre o segmento, inaugurando uma nova etapa da disputa pela banda larga no país.
Até o fim de 2027, o Brasil será um mercado de energia plenamente livre. Isso significa que todos os consumidores, das grandes fábricas aos moradores de microapartamentos, poderão escolher quem fornece a energia consumida e até a fonte que a gerou, como um parque eólico ou uma hidrelétrica.
Essa transformação regulatória, aprovada pelo Congresso na forma da MP 1.300, abre espaço para uma revolução na maneira como a energia elétrica é comprada, vendida e precificada, um potencial que a plataforma N5X quer muito capturar: a ambição é ser uma “bolsa de energia”, à semelhança das bolsas de valores tradicionais.
“Olhando para a abertura do mercado livre de energia, a questão não é se o Brasil precisa de uma bolsa, a questão é quem vai ser essa bolsa”, disse Dri Barbosa ao InvestNews. A CEO da N5X compara o momento atual do mercado de energia às mudanças regulatórias que aconteceram a partir de 2012 no mercado de meios de pagamento – quando Cade e Banco Central forçaram a abertura de um setor até então concentrado em duas empresas.
Naquela ocasião, Dri Barbosa viu uma oportunidade para alcançar os pequenos comerciantes, até então à margem da indústria das maquininhas. Fundou a Payleven, posteriormente fundida à SumUP. Dri vendeu a parte dela no negócio e treinou o olhar para encontrar oportunidades em outros mercados. Nos anos seguintes ainda “daria exit” em mais duas startups até aceitar o cargo de CEO da N5X, em 2023.
Dri Barbosa, CEO da N5X Foto: Divulgação
A N5X é financiada pelo L4, fundo de investimentos da B3, e pelo EEX Group, maior rede de bolsas de energia do mundo, controlada pela bolsa alemã, a Deutsche Börse – cada uma com 50% da N5X.
Mas o que significa, na prática, ser uma bolsa de energia?
Em mercados mais maduros, como Alemanha e Estados Unidos, as bolsas de energia funcionam como uma engrenagem central do setor: elas reúnem todas as negociações em um único ambiente padronizado, com mais transparência e regras comuns a todos.
Em vez de cada empresa negociar diretamente com outra — com prazos e condições diferentes, como acontece hoje no Brasil —, todos os contratos passam por uma contraparte central, ou seja, uma entidade que se coloca entre comprador e vendedor e garante o cumprimento do contrato, atuando como fiadora das transações: mesmo que uma das partes atrase ou quebre, a liquidação é garantida. Para participar desse mercado, as partes precisam depositar garantias que cubram suas posições.
Ao mesmo tempo, essas bolsas registram os preços praticados, definem prazos, administram garantias e servem de referência para o mercado, funcionando como uma infraestrutura essencial para que a energia elétrica seja tratada como uma commodity — algo negociado em larga escala, com liquidez, previsibilidade e segurança.
Hoje, a CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica) é a entidade que administra o mercado de energia no Brasil. Sua função principal é contabilizar e liquidar todas as operações, especialmente no mercado de curto prazo — conhecido como mercado spot — que serve para ajustar as diferenças entre a energia contratada e a efetivamente consumida ou gerada.
Além disso, é na CCEE que se registram os contratos do mercado livre de energia, onde consumidores, geradores e comercializadores (intermediárias que vivem do spread entre compra e venda) negociam de forma bilateral. A Câmara também é responsável por operacionalizar os leilões de energia regulada, organizados pelo governo para contratar geração de longo prazo e garantir o suprimento do sistema.
O problema é que os contratos do mercado livre, ainda não padronizados, podem trazer riscos financeiros para os agentes. Desde 2018, houve ao menos dez episódios de inadimplência ou descumprimento contratual por parte de comercializadoras ou consumidores, criando insegurança e risco de efeito dominó.
A N5X surge com uma proposta diferente. Em vez de atuar apenas nos ajustes de curto prazo ou na execução dos leilões regulados, como faz a CCEE, ela pretende estruturar contratos padronizados de energia e derivativos, negociados de forma voluntária entre empresas. A ideia é dar previsibilidade de preços e proteção contra a volatilidade. Se o mercado spot é o espaço para “resolver o presente” e os leilões são o instrumento de planejamento de longo prazo definido pelo governo, a N5X quer se consolidar como a plataforma privada para organizar o “mercado do futuro”.
Nas palavras da CEO, a N5X busca ser “uma plataforma de negociação e registro de derivativos padronizados”. Hoje, já oferece uma tela de negociação em que os agentes podem inserir ordens de compra e venda com limites de crédito. Em operação desde junho de 2024, a plataforma já movimentou R$ 1 bilhão, o equivalente a 4,53 TWh de energia — suficiente para abastecer Curitiba por um ano. Empresas como Casa dos Ventos, Eletrobras e Minerva já utilizam a Tela N5X.
Agora, a meta é virar uma bolsa de energia completa, incorporando a função de câmara de compensação de energia até a abertura total do mercado livre, em 2027. A expectativa, explica Dri Barbosa, é que a N5X atraia não só empresas do setor elétrico, mas também investidores institucionais, inclusive estrangeiros.
“Muito investidor lá de fora entende que energia é um ativo que faz sentido ser negociado no ambiente de bolsa e já negocia em mercados como o europeu e o americano”, pontua. “O Brasil é o sexto maior mercado consumidor de energia do mundo e tem potencial para atrair esses investidores, mas precisa ter a contraparte central.”
2027, como se sabe, é logo ali. O desafio da N5X é se tornar a câmara de compensação que formalize o aperto de mãos entre o setor elétrico e o mercado financeiro. Se isso acontecer, a abertura do mercado de energia pode repetir o que aconteceu com os meios de pagamento há pouco mais de uma década: uma mudança regulatória que abriu espaço para novos agentes e redesenhou um setor inteiro.