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Entre o possível e o impossível:  violência, memória e ética em ‘Língua Interior’ (Coluna da Appoa)

Por:Sul 21
10 de Março de 2026, 10:28

Carolina Mousquer Lima (*) 

As possibilidades que encontramos de criar laços que trabalhem em favor da vida variam conforme o destino que cada país é capaz de dar aos seus traumas.

Aube é a personagem central de um livro escrito por Kamel Daoud. Vítima da guerra civil argelina, ela é também uma testemunha viva daquilo que ninguém quer ou pode lembrar. Quando ainda era uma criança, militantes islâmicos atacaram seu vilarejo e mataram toda sua família. Única sobrevivente do massacre, ela carrega uma cicatriz no pescoço e uma traqueostomia que dificulta a fala e torna sua voz quase inaudível.

O título, Língua interior, faz referência à língua fluida em que ela conversa com a filha que cresce em seu ventre. Mesmo sem exame para demonstrar, ela sabe que está grávida de uma menina. E é muito difícil para Aube, mulher solteira e não adepta ao islamismo, imaginar um lugar viável para a filha ao nascer. Também por isso, ela se prepara para abortar: O que você quer? Vir aqui e se tornar carne morta? Está ouvindo os homens lá fora, no café? O Deus deles os aconselha a lavar seus corpos depois de abraçar nossos corpos proibidos à luz do dia, porque nós somos a grande sujeira. (…) É isso que significa ser uma mulher aqui. Você quer mesmo isso?

Enquanto se prepara para essa despedida, Aube começa a descrever o mundo exterior e a contar a própria história para a sua pequena huri. Ela sente que finalmente pode conversar com alguém. E dirigir-se ao feto como sua filha, supondo ali um sujeito, é claro que complica um tanto as coisas. A ambivalência em relação à gestação vai aumentando. Abortar a filha talvez signifique silenciar a própria voz. 

A conversa entre mãe e filha vai destacando a porosidade delicada que existe entre a fala e a escrita. Nós lemos as palavras de Aube, mas, ao mesmo tempo, escutamos aquilo que se destaca do texto, a sua voz. Não estamos em um litoral de águas mansas. As 500 páginas contraem alguns poucos dias, de forma que a língua interior vai avançando com um ritmo intenso e vigoroso. Aube fala com a filha no presente, mas se desloca rapidamente entre o passado e o futuro, borrando os limites entre leitura e escrita, assim como os da cronologia. 

Há também a ligação inexorável da vida de Aube à vida do seu país. E isso está marcado pelo silenciamento. Não se pode falar sobre a guerra civil, sobre todos os massacres, mortos e desaparecidos. Mas, na sua língua interior, ela pode conversar. Então, enquanto ela fala de si para a filha, ela também fala do passado, do presente e das possibilidades ou impossibilidades de futuro da Argélia. Isso vai diluindo a separação que costumamos produzir defensivamente entre vida subjetiva e coletiva. As duas coisas são mais misturadas do que parecem. Vale lembrar Freud no texto sobre Psicologia das Massas e Análise do Eu: “A oposição entre psicologia individual e psicologia social ou das massas, que à primeira vista pode parecer muito significativa, perde boa parte de sua agudeza se a examinarmos mais detidamente”. 

Com tantas subversões do que supomos nítido, não é à toa que, ao longo da leitura, somos tomados por um sentimento de urgência. O apagamento da história coletiva que ela carrega na singularidade do seu corpo, nos coloca a todo momento na iminência do desaparecimento de Aube. Esse risco é amplificado pelo perigo permanente que enfrenta por ser mulher.

Assia Djebar, escritora franco-argelina ainda não traduzida para o português, publicou em 1995, no auge da guerra civil da Argélia, o livro Le Blanc de l’Algérie [O Branco da Argélia]. Escrita a partir do assassinato de amigos próximos, a obra fabula diálogos com os mortos em uma tentativa de dar voz aos desaparecidos. Sobre essa escrita, Djebar afirmava responder a “uma urgência de memória imediata”. 

Em 2005 a Argélia publicou a Carta para Paz e Reconciliação Nacional. O documento concedeu perdão legal aos militantes islâmicos e anistia a todos os militares. Além disso, tornou punível com prisão o uso da guerra civil, cujo nome oficial é tragédia nacional, para criticar ou prejudicar a imagem das forças de segurança ou do Estado. Para além da política explícita de esquecimento forçado, nota-se a substituição da palavra guerra por tragédia. Por uma tragédia, não há responsáveis. É preciso também  registrar que essa tentativa de criar uma unidade nacional forçada é legado de uma colonização francesa que se utilizou de todos os modos violentos para destruir a cultura argelina e romper todos os laços sociais.

Diante de uma nova cena de violência misógina, Aube decide retornar ao lugar do massacre que a deixou sem família e sem voz. Não se trata de uma vontade, mas de algo que se impõe. No caminho tortuoso de volta ao território, ela encontra outras pessoas que também compartilham histórias vividas no horror da guerra. O encontro com outras testemunhas do horror, entre outros acontecimentos, tem efeito de reposicionar Aube diante da cena traumática. Só então ela é capaz de reinterpretar um gesto da irmã, acontecido durante o massacre, como um desejo de que ela seguisse viva, permitindo-lhe, enfim, superar a vergonha de ter sobrevivido.

Da Ficção à violação

Ainda sob o efeito de uma leitura tão forte e que permite abrir tantas conversas sobre trauma, violência de estado, escritas de urgência e as violências brutais contra as mulheres, me deparo com a notícia de que o autor está sendo acusado de utilizar, sem consentimento, detalhes da intimidade de uma mulher para construir toda a história.

Outras informações pioram o quadro. Saada Arbane era paciente da esposa do autor, que é psiquiatra. Mas não só paciente. As duas tornaram-se grandes amigas, inclusive com os filhos frequentando a casa uma da outra. Ela conta que antes da publicação, o autor pediu sua permissão para escrever sua história e ela recusou categoricamente. 

Antes da denúncia, o livro recebeu um grande prêmio literário na França. Kamel Daoud é um famoso autor argelino, traduzido para 35 línguas. Quando jovem, militou no movimento islâmico. Aos 18 anos, abandonou a doutrina. Iniciou a carreira profissional como jornalista, cobrindo os massacres da guerra civil. Em muitos artigos e entrevistas, gerou polêmica por suas críticas contundentes ao extremismo religioso, ao patriarcado e à condição das mulheres no mundo árabe-muçulmano, chegando a ser, algumas vezes, acusado de islamofobia.

As acusações foram judicializadas. Na Argélia, tanto Saada Arbane quanto a Organização Nacional das Vítimas do Terrorismo apresentaram queixas contra o autor e a psiquiatra, que culminaram em dois mandados de captura internacional. Na França, Kamel Daoud responde a um processo civil por “violação de privacidade”.

Nas entrevistas, quando questionado sobre as mais de trinta correspondências entre a vida da personagem e da denunciante, o autor costuma remeter aos fatos históricos, às violências perpetradas pelo estado da Argélia e à inexistência de registros de memória sobre mais de duzentas mil mortes. 

As denúncias indicam que Língua interior reproduz a marca da própria violência que busca denunciar. Aparentemente, Kamel Daoud, no afã de registrar e colocar em evidência as violências sofridas pelas mulheres argelinas, tornou-se o segundo algoz de Saada Arbane. 

Ao responder ao extremismo com paixão, corre-se o risco de repetir justamente a violência que se tenta combater. Afinal, ainda que a trajetória de uma mulher reflita a história silenciada de um país, ninguém tem o direito de expô-la sem o seu consentimento. Quebrar o silêncio sobre as violências sofridas pode ser um caminho para atravessar o sofrimento e pode, também, proteger outras mulheres, mas esse ato precisa ser, acima de tudo, uma escolha soberana e livre de julgamentos. 

O que impõe uma dúvida ética sobre o ato de escrever. É provável que, ciente da gravidade das denúncias, eu não tivesse comprado nem lido a obra. Mas, diante das acusações conhecidas apenas a posteriori da leitura, o que fazer? Seria possível falar sobre o livro de forma a ampliar a força da denúncia? Seria possível fazê-lo sem reiterar a violência da exposição? O possível não passa de uma tentativa, sujeita sempre à falha e ao fracasso. Já o impossível, insiste. Nesse caso, insistiu como a impossibilidade de não escrever sobre o livro. 

Curioso registrar um dos caminhos que me levaram até Língua Interior: o estudo de uma autora argelina, que já mencionei aqui, Assia Djebar. Com mais de 15 livros publicados e uma vida de luta pela independência da Argélia e de denúncias sobre as violências da guerra civil, ela não está traduzida para o português. Quem nós traduzimos? Quem nós premiamos? Quem nós lemos? Sobre ela escrevi um capítulo chamado A escrita como acolhimento intransigente da estrangeiridade, para o livro Do Litoral ao Literário: Ensaios de Psicanálise e Literatura, que será lançado este ano. Trata-se de um livro que reúne textos de 58 mulheres. Uma possibilidade interessante, considerando o quanto a Psicanálise e a Literatura ainda são lugares, assim como tantos outros, hegemonicamente masculinos.

De todos esses cruzamentos, decorre o desejo de que cada um talvez possa se perguntar na sua língua interior: como um homem pode verdadeiramente e respeitosamente agir em favor da vida e da ampliação dos acessos e direitos das mulheres?

(*) Carolina Mousquer Lima é psicanalista, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA) 

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As opiniões emitidas nos artigos publicados no espaço de opinião expressam a posição de seu autor e não necessariamente representam o pensamento editorial do Sul21

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Sonho compartilhado: Justo e Café Mal Assombrado se preparam para assumir Viaduto da Borges

7 de Março de 2026, 09:31

Ao lado dos arcos do Viaduto Otávio Rocha, separada da via por tapumes, a equipe do Café Mal Assombrado subia a Avenida Borges de Medeiros numa noite de dezembro passado. Eles voltavam de um jantar no Centro Histórico de Porto Alegre que comemorava o terceiro ano completo de funcionamento da casa, aberta em outubro de 2022, um mês antes do início das obras no viaduto. O caminho não é inédito, já que o tour “Porto Alegre Mal Assombrada”, promovido desde 2019 pelo artista e pesquisador André Hernandes, um dos sócio proprietários do café, passa por ali. Mas, dessa vez, ao invés das lendas urbanas e histórias macabras de crimes ocorridos na Porto Alegre do século XIX, Hernandes contava à equipe os seus sonhos: “meu sonho é ver isso aqui funcionando e a gente poder viver isso até altas horas da noite”.

Hernandes não era o único que sonhava com a ocupação do viaduto. Pouco antes da virada do ano, no dia 29 daquele mês, Adelino Bilhalva, um dos sócios do Justo, bar que ocupa a passarela verão do Otávio Rocha desde 2017, fez um telefonema para o pessoal do Café Mal Assombrado. Convidou-os para uma aposta arriscada. A Prefeitura de Porto Alegre buscava um permissionário para fazer a gestão dos 32 espaços existentes no sopé do viaduto, na Av. Borges de Medeiros, e Adelino acreditava que empreendimentos do centro deveriam formar uma parceria para apresentar uma proposta. Dentre os convidados, o Café Mal Assombrado foi o único que topou.

“A gente sempre acreditou muito no Centro Histórico, que algum dia ele seria revitalizado e que não fosse um local só de passagem”, comenta Marcello Lima, também sócio do Justo. O paraense de 39 anos veio a Porto Alegre há mais de uma década e confessa o amor pelo centro. “É o lugar mais bonito da cidade, então quando a gente soube dessa licitação, fez todo sentido para a gente. Foi uma confluência de fatores que fizeram a gente entrar nessa”.

Poucos meses antes, Marcello não falava do viaduto com tanto ânimo, no entanto. O prolongamento das obras, que tinham como prazo inicial para sua conclusão maio de 2024 – justamente o mês das enchentes – também simbolizou a extensão de uma luta constante pela sobrevivência do empreendimento. A cidade mal superara as restrições de público impostas pela pandemia de covid-19 quando os acessos às passarelas foram dificultados. Por cerca de meio ano, entre janeiro e julho de 2024, a entrada superior da escadaria verão, pela Rua Duque de Caxias, ficou interditada.

Quem quisesse tomar uma cerveja ou participar de uma das rodas de conversa promovidas no espaço precisava subir pelo acesso da esquina da Jerônimo Coelho com a Borges de Medeiros.

Além disso, durante todo o período de obras, transitar pelas escadarias poderia ser um verdadeiro desafio: com a substituição do revestimento em cirex, a instalação de corrimões e a troca dos azulejos hidráulicos do piso em duas oportunidades – a primeira instalação apresentou problemas, com peças mal colocadas e rachadas – o caminho era dificultado por tapumes pretos e por degraus sem calçamento. Junto das promoções de pizza frequentes para tentar fomentar os ganhos da casa, que teve de solicitar um empréstimo para não fechar as portas com a redução drástica de público, as redes do Justo divulgavam vídeos que indicavam como chegar no bar através do canteiro de obras. Nas postagens, as críticas aos atrasos e à falta de diálogo com a Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura (Smoi), responsável pela fiscalização do projeto da Concrejato, empresa de engenharia de São Paulo contratada para a execução das obras, não eram poupadas.

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Depois da realização do pregão eletrônico que sagrou o consórcio vitorioso, no último 22 de janeiro, a comunicação com a Prefeitura melhorou, garante Marcello. “A Prefeitura tem ajudado muito, tem sido muito parceira, até porque é um interesse muito grande deles fazer com que isso aqui aconteça”. O edital, lançado em 22 de dezembro do ano passado, integra o projeto Centro+, plano de revitalização do Centro Histórico. Proposto pela primeira gestão do prefeito Sebastião Melo, em 2021, este era um dos sete programas prioritários no Plano Plurianual de 2022-2025. Desde o início, o projeto deixava clara a estratégia visada pelo executivo municipal: o das parcerias com o setor privado.

Anteriormente, as 32 salas debaixo do viaduto eram equipamentos públicos e os permissionários e ocupantes pagavam à Prefeitura pelo uso comercial dos espaços. Com a falta de fiscalização acerca das permissões, no entanto, somou-se uma dívida entre os comerciantes calculada em cerca de R$ 1,8 milhão em setembro de 2019. Junto a isso, a sublocação das salas para terceiros e a desocupação dificultavam a devida cobrança. Quando os últimos permissionários públicos foram desalojados para o início da revitalização, em dezembro de 2022, apenas três não estavam inadimplentes.

No decreto Nº 21.740, que realocou os antigos comerciantes a outros equipamentos municipais, assinado em novembro de 2022, não havia qualquer disposição a respeito do retorno dos lojistas ao viaduto. A Associação Representativa e Cultural dos Comerciantes do Viaduto Otávio Rocha (Arccov) tentou, durante as reuniões com a Prefeitura que precederam as realocações, garantir o direito de retorno daqueles que estavam com as contas em dia com o poder público, mas não obteve sucesso. Hoje, o novo edital nada apresenta sobre a situação permissional anterior, e tanto o Justo quanto o Café Mal Assombrado afirmam que a Prefeitura garantiu total autonomia para que o consórcio selecione os ocupantes.

Trecho em que os novos corrimões foram retirados. Foto: Bettina Gehm/Sul21

 

Ladrilhos da escadaria empilhados. Foto: Bettina Gehm/Sul21

“Muito provavelmente a gente vai trabalhar com uma imobiliária”, diz Marcello a respeito da gestão das 29 salas comerciais e três depósitos leiloados. “Toda a responsabilidade de contrato e pesquisa dessas pessoas, desses CNPJs que vão entrar, vai ser responsabilidade dessa imobiliária. Toda essa parte burocrática que envolve o aluguel de uma sala comercial”. A decisão de trabalhar com uma imobiliária não é condição do edital, assim como não demove do consórcio a seleção do perfil dos sublocatários. Martina Mombelli, sócia-proprietária do Café Mal Assombrado, indica que a escolha será realizada através de um formulário digital. “É um formulário para pessoas interessadas em colocar um negócio lá. Tem todas as perguntas: se é matriz, se é filial, qual o Instagram, qual a empresa, de onde vem, qual o projeto”, comenta.

Além da seleção e gestão dos permissionários, compete ao consórcio repassar à Prefeitura uma outorga de R$ 33,9 mil mensais, com isenção de 270 dias a partir da assinatura do contrato, ainda não efetuada. A contar da mesma data, 85% da ocupação dos espaços deve ser garantida dentro de 90 dias. Ademais, o consórcio fica responsável pela limpeza das áreas de consumo e dos banheiros; pela segurança interna, realizada por parceiro privado; e pela realização de, ao menos, quatro eventos culturais ao ano. “A nossa vontade é de fazer muito mais”, conta a dona do Café Mal Assombrado, que promove uma extensa agenda cultural no Teatro dos Vampiros – segundo andar do casarão em que fica localizado o café, na Rua Fernando Machado. O consórcio indica que tais eventos devem ser realizados na própria Av. Borges de Medeiros, com o fechamento parcial do trânsito em eventuais finais de semana.

Apesar da possibilidade de explorar o caráter cultural do viaduto – a Prefeitura aponta no termo de referência que precedeu o pregão a possibilidade de instalação de galerias de arte, exposições, museus, comércio de artesanato e sebos e livrarias – Marcello menciona que o Município tem demonstrado especial interesse em fazer do viaduto um corredor gastronômico. “A maioria das lojas vão ser bares, restaurantes, cafés, mas a gente também tem a ideia de trazer outras coisas, como livraria, floricultura, mercearia, espaços culturais”, comenta.

As negociações para a ocupação do viaduto vêm na esteira da ampliação do programa Centro+, hoje denominado Centro+4D em razão da inclusão do Quarto Distrito no mesmo balaio de investimentos públicos. O esforço para a revitalização passou a contar, a partir de novembro de 2025, com o financiamento estrangeiro da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD) em parceria com o Banco Mundial, totalizando 162 milhões de euros. A missão francesa realizou um estudo técnico do potencial turístico da capital gaúcha e seguirá atuando até meados de 2027 para elaborar projetos-piloto de expansão do turismo local. “Tenho certeza que aquele lugar vai atrair ainda mais turistas, mas que também a população, os moradores de Porto Alegre, consigam aproveitar a sua cidade”, diz Martina.

Em 22 de janeiro, data do pregão eletrônico, os empreendedores por detrás do Justo e do Café Mal Assombrado estavam ansiosos. Entraram na sala de leilão virtual logo que foi aberta, às 10h, e logo se depararam com uma aposta que chegava perto do teto combinado entre as duas partes. Fizeram outra aposta, ainda abaixo do limite estipulado, com a adição de um valor simbólico, totalizando R$ 79,1 mil. Durante os próximos dez minutos, janela em que outra aposta poderia ser realizada antes que fosse consagrado o vencedor, todos ficaram atônitos. “A gente pensou, ‘bom, se ultrapassar nosso limite não é pra gente’. Porque também tu tem que arriscar, tem que dar um passo grande, sempre sou a favor de tu correr alguns riscos. Mas eles têm que ser responsáveis, né?”, relembra Martina.

No entanto, antes mesmo de encerrar-se o tempo, Martina recebeu uma ligação da mãe, que não sabia da participação do Café Mal Assombrado no leilão. À beira de um desmaio, exclamou: “O que vocês fizeram? Vocês são loucos!”. A notícia já circulava na imprensa, e o consórcio já era considerado vencedor. “No mesmo dia, à tarde, a gente já tava dando entrevista, sem nem acreditar no que tava acontecendo. Foi bem maluco”, comenta Martina. Mais tarde naquele dia, a equipe do Café Mal Assombrado subiu novamente a Borges de Medeiros, agora até o alto do Viaduto Otávio Rocha, no Justo, para comemorar a realização do sonho proclamado um mês antes por Hernandes.

O sonho de reocupar o Centro Histórico é coletivo, partilhado por novos e antigos comerciantes, gestores públicos e enviados franceses. A aposta do município parece ser a de que os variados interesses se alinhem nas mesas redondas dos novos bares e restaurantes debaixo dos históricos arcos do Viaduto Otávio Rocha, erguidos há quase cem anos. Para isso, aguardam a retirada dos tapumes, erguidos há 40 meses.

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