O Google está em negociações com a SpaceX para um acordo de lançamento de foguetes, enquanto amplia seus próprios esforços para levar data centers orbitais ao espaço, segundo pessoas familiarizadas com as conversas.
Um eventual acordo colocaria as duas empresas em parceria em meio à corrida para desenvolver data centers em órbita — uma tecnologia ainda não comprovada, que o CEO da SpaceX, Elon Musk, já descreveu como a próxima fronteira de sua companhia aeroespacial.
O Google também mantém conversas com outras empresas de lançamento de foguetes, segundo uma das fontes.
A tecnologia especulativa tem sido um dos principais temas da SpaceX em sua apresentação a investidores antes da planejada abertura de capital no verão, que pode se tornar a maior IPO da história.
No ano passado, o Google anunciou planos próprios para lançar satélites protótipos até 2027 dentro da iniciativa Project Suncatcher. A empresa trabalha com a Planet Labs no desenvolvimento desses satélites.
“Vamos enviar pequenos racks de máquinas em satélites, testá-los e então começar a escalar a partir disso”, afirmou o CEO do Google, Sundar Pichai, em entrevista à Fox News em novembro. “Não tenho dúvidas de que, em uma década, veremos isso como uma forma mais comum de construir data centers.”
O Google foi um dos primeiros investidores da SpaceX e detém cerca de 6,1% da empresa, segundo um documento regulatório. O executivo Don Harrison, do Google, integra o conselho da SpaceX.
Líder global em lançamentos comerciais, a SpaceX se tornou praticamente inevitável para qualquer empresa que queira colocar satélites em órbita.
Na semana passada, a companhia anunciou um acordo para vender capacidade computacional terrestre à empresa de IA Anthropic. Como parte do acordo, a Anthropic demonstrou interesse em trabalhar com a SpaceX em data centers orbitais. No início deste ano, a SpaceX entrou com pedido junto a um regulador federal para lançar até 1 milhão de satélites ligados à sua estratégia de computação em órbita.
Executivos do setor veem a computação espacial como uma solução para as limitações dos data centers terrestres, que exigem grandes áreas de terra e alto consumo de energia. No espaço, esses sistemas poderiam operar com energia solar, eliminando restrições energéticas e parte dos impactos ambientais. Ainda assim, especialistas apontam desafios de engenharia relevantes que levantam dúvidas sobre a viabilidade da tecnologia.
A SpaceX construiu sua posição como principal empresa privada de lançamentos do mundo, levando astronautas da NASA à Estação Espacial Internacional e lançando milhares de satélites da Starlink. A empresa também realiza lançamentos para clientes comerciais.
À medida que se prepara para abrir capital, a SpaceX tem fechado uma série de acordos estratégicos que ampliam sua atuação em infraestrutura de IA e computação, incluindo a aquisição da xAI em uma operação que avaliou a companhia combinada em US$ 1,25 trilhão. A empresa também firmou parceria com a startup de codificação Cursor, garantindo opção de compra futura avaliada em US$ 60 bilhões, além de anunciar bilhões em investimentos em infraestrutura.
Para o acordo com a Anthropic, a SpaceX deve fornecer 300 megawatts de nova capacidade computacional, usando mais de 220 mil GPUs da Nvidia, até o fim de maio.
À medida que os acordes de “Sigma Oasis” ecoavam no último sábado à noite, parecia para os 17.600 fãs do Phish que eles estavam dentro de um ovo. A casca se quebrava, e eles eram pássaros nascendo e ganhando voo.
Eles estavam no Sphere, em Las Vegas — ou simplesmente “Sphere”, como fãs e seu proprietário o chamam.
O espaço, que criou um novo tipo de entretenimento ao vivo, tornou-se a arena de maior faturamento do mundo, com US$ 379 milhões em receitas e 1,7 milhão de ingressos vendidos no ano passado, segundo a Pollstar.
Quando foi inaugurado, há três anos, reunia todos os sinais de um desastre iminente.
O Sphere foi concluído em 2023 por US$ 2,3 bilhões — quase US$ 1 bilhão acima do orçamento e com anos de atraso. O projeto foi idealizado por James Dolan, figura constante nos holofotes por seu império esportivo e de entretenimento, que inclui o New York Knicks, o New York Rangers e o Madison Square Garden.
Exportar o conceito
Hoje, a Sphere Entertainment planeja levar o conceito do Sphere para Abu Dhabi e para uma segunda unidade nos EUA, menor, com cerca de 6 mil lugares, prevista para o National Harbor, em Maryland, nos arredores de Washington, D.C. Executivos também avaliam outras cidades para novas unidades. Dolan já afirmou que a empresa pode tocar cinco ou seis projetos simultaneamente e pretende expandir “basicamente o máximo possível”.
O Sphere encontrou uma fórmula de sucesso inesperada: um espaço com tecnologia de ponta combinado com bandas cujos vocalistas acumulam décadas de grandes sucessos conhecidos pelo público. Assim, consegue atrair tanto fãs da mesma geração dos artistas — como Bono, do U2 — quanto jovens curiosos por experiências “retrô”.
A agenda é preenchida com residências de artistas consagrados, que podem durar dias, semanas ou meses, combinando atrações populares com espetáculos visuais grandiosos que levam meses para serem produzidos.
Entre eles estão Eagles, Kenny Chesney e Backstreet Boys. Durante o dia, antes dos shows, a arena também exibe experiências como O Mágico de Oz, remasterizado para dar ao público a sensação de caminhar ao lado de Dorothy na estrada de tijolos amarelos.
A ideia do Sphere surgiu em 2016, a partir de um esboço simples de Dolan — um círculo com uma pessoa dentro. Ele encarregou sua equipe de transformar o conceito em realidade.
A construção começou em 2018, com orçamento inicial de US$ 1,2 bilhão. No meio do processo, a pandemia de Covid-19 interrompeu as obras e colocou em dúvida o futuro de grandes espaços de entretenimento ao vivo.
Durante a construção, executivos e observadores tiveram dificuldade para definir o projeto. A revista Rolling Stone o descreveu como um “local de shows insano”, enquanto um executivo disse que seria como um “planetário multiplicado por 10”.
Havia dúvidas: artistas estariam dispostos a investir milhões em produções para o Sphere e convencer fãs a viajar até o deserto? E o espetáculo tecnológico não acabaria ofuscando os próprios artistas?
A resposta começou com o U2. A banda irlandesa, conhecida por seus shows tecnológicos, aceitou inaugurar o espaço antes mesmo de sua conclusão.
A residência do U2, iniciada em setembro de 2023, foi um sucesso e contou com 40 apresentações. Desde então, outras residências apostaram na nostalgia e em públicos com maior poder aquisitivo, como Dead & Company, além de Phish, Eagles e Backstreet Boys. Para este ano, estão previstos nomes como No Doubt, Metallica e Carín León.
“Estamos apenas arranhando a superfície”, disse Josephine Vaccarello, executiva da Sphere Entertainment. “Cada artista que chega tenta superar o anterior.”
A arena também aposta em experiências imersivas. Para recriar O Mágico de Oz, Dolan recorreu a engenheiros de IA do Google em um projeto de US$ 100 milhões. Em uma cena, maçãs caem do teto; em outra, folhas giram como em um tornado.
Entre agosto e janeiro, o filme gerou mais de US$ 260 milhões em vendas de ingressos.
O sucesso acompanha uma tendência maior da indústria musical, em que grandes turnês — como a de Taylor Swift — movimentam economias inteiras e mostram que fãs estão dispostos a viajar para experiências únicas.
Após prejuízo inicial, a Sphere Entertainment registrou lucro líquido de US$ 33,4 milhões no último ano, revertendo perdas de US$ 325 milhões no período anterior. As ações também dispararam.
Os ingressos para shows no Sphere variam de algumas centenas a milhares de dólares. O preço médio de revenda neste ano é de US$ 521, segundo a SeatGeek — acima dos US$ 415 do ano passado. Entre os mais caros estão os shows do Phish, seguidos por U2 e Eagles.
Para artistas, o espaço também abre novas possibilidades criativas. O DJ Illenium, por exemplo, produziu um álbum pensado especificamente para o ambiente visual da arena.
Para fãs como Jeff Stein, músico de São Francisco, a experiência redefine o padrão de espetáculos. “Lembra quando o IMAX surgiu e não entregou tudo o que prometia?”, disse. “O Sphere é o que aquilo deveria ter sido.”
Numa tarde fria de dezembro, a poucos dias de assumir o comando da Berkshire Hathaway, Greg Abel respondeu a perguntas de funcionários durante o almoço semanal da equipe.
Um deles perguntou se a companhia sairia de Omaha, Nebraska, sede da empresa durante décadas sob a liderança de Warren Buffett. Não, respondeu Abel – a mudança não aconteceria.
A ideia teria soado absurda em praticamente qualquer momento da gestão de Buffett. Mas o que muitos dos funcionários certamente pensavam é que mudanças estão a caminho.
Abel retomou o programa de recompra de ações, parado desde 2024, promoveu aliados que trabalharam próximos a ele, e passou a receber salário maior que o de Buffett, com a promessa de usar a maior parte para comprar ações da própria empresa.
Também ampliou a presença da Berkshire no Japão, comprando participação em uma seguradora local.
Conhecido por ser mais operacional que Buffett, Abel examina os negócios e o portfólio de ações da Berkshire com um olhar novo e mais crítico do que o de seu antecessor, afirmam pessoas a par do assunto. A expectativa é que ele aja com firmeza diante de companhias, posições acionárias e até executivos seniores que não atenderem às suas expectativas, segundo essas fontes.
Greg Abel, CEO da Berkshire há pouco mais de três meses. Foto: WSJ
“Warren, Charlie e eu temos algumas diferenças, seja de estilo ou, obviamente, na maneira como abordamos as coisas”, disse Abel em entrevista, referindo-se a Buffett e a seu antigo sócio, o já falecido Charlie Munger. “Nossos valores fundamentais continuam sendo a base sobre a qual construímos a empresa”, completou.
Abel, de 63 anos, que assumiu como CEO em janeiro, prometeu preservar o que torna a Berkshire uma empresa tão singular: sua cultura e seus valores, uma operação de seguros dominante, um conglomerado de negócios sem relação entre si e um portfólio de ações gerido pelo próprio presidente-executivo.
Em vários dias da semana, Abel entra num carro que o espera em frente à sua casa em Des Moines, Iowa, e faz o trajeto de duas horas até Omaha. Ele não tem planos imediatos de se mudar para a cidade e deve continuar morando no Iowa pelo menos até o filho concluir o ensino médio, daqui a alguns anos, segundo pessoas a par do assunto.
Não é incomum que Abel esteja em estados diferentes no mesmo dia. Boa parte da sua semana de trabalho é passada cruzando o país em um jato executivo operado pela NetJets, subsidiária da Berkshire, para visitar os executivos das empresas do grupo.
Em sua primeira carta anual aos acionistas, divulgada em 28 de fevereiro, Abel deixou claro que há posições que considera “centrais”, como Apple, American Express, Coca-Cola e Moody’s. Fontes a par dos investimentos da Berkshire afirmam que Abel já se desfez das ações geridas por Todd Combs, que recentemente migrou para o JPMorgan Chase. Combs era um dos dois gestores de investimento recrutados por Buffett. Segundo essas fontes, é improvável que Abel contrate alguém para ajudá-lo a administrar o portfólio.
Funcionários e acionistas da Berkshire sabem que Abel sucederia Buffett desde que Munger deixou o anúncio escapar durante a reunião anual da empresa em Omaha, em 2021. Mas o momento exato da transição permaneceu um mistério após a morte de Munger, em novembro de 2023, e só foi revelado em maio do ano passado, quando Buffett, aos 95, declarou no mesmo palco que pretendia se aposentar no fim do ano.
“Foi aí que a transição realmente começou”, disse Abel.
No almoço de dezembro em Omaha, as outras perguntas dos funcionários eram menos pesadas; uma delas questionava se a chegada de Abel, um canadense apaixonado por hóquei, significaria rinques de gelo melhores na cidade. Quando o almoço acabou, a comida de Abel estava fria e praticamente intocada no prato de papel à sua frente.
Abel passou o último ano priorizando o aprendizado sobre o negócio de seguros da Berkshire e as reuniões com Ajit Jain, o cérebro por trás da operação. A expectativa é que Jain continue à frente da área de seguros, embora a empresa também tenha preparado um plano de sucessão para ele. “Ele provavelmente vai ficar na companhia pelo tempo que puder”, disse Buffett em entrevista.
O novo CEO também tem dado atenção aos líderes das subsidiárias, em especial à BNSF Railway, a ferroviária do grupo, e à Berkshire Hathaway Energy, onde foi presidente-executivo por muitos anos, segundo pessoas a par do assunto.
“Se eu penso nos meus primeiros 100 dias”, afirmou Abel, “o foco em excelência operacional não diminuiu.”
Buffett tem deixado claro, dentro e fora da Berkshire, que quem manda agora é Abel. Quando empresários enviam cartas a Buffett na esperança de fechar algum negócio, ele responde, mas encaminha cópia da resposta e da carta original para Abel. Embora Abel tenha mostrado sua primeira carta aos acionistas a Buffett antes da publicação, o fundador fez poucas alterações no texto, segundo pessoas a par do assunto.
Natural das Pradarias canadenses, Abel incorpora, em muitos aspectos, o charme do interior e a reputação de conciliador simpático que marcaram Buffett. Durante as Olimpíadas, torceu pela seleção masculina de hóquei do Canadá e pela feminina dos Estados Unidos — um gesto diplomático para não tomar partido. Continua treinador do time de hóquei do filho e cumprimenta com um toque de mãos todos os jogadores quando eles deixam o gelo.
Uma das diferenças entre Buffett e Abel, segundo quem conhece os dois, é que Abel não foge de confrontos. Buffett já afirmou que mantinha pessoas em cargos de gestão mesmo quando não atendiam a seus padrões, preferindo evitar os aspectos desagradáveis do trabalho. Abel, por sua vez, não hesita em fazer o necessário para melhorar o negócio — mesmo que isso signifique demitir alguém.
Apesar de ter reforçado que o prazo preferido de investimento da Berkshire é “para sempre”, se um negócio não atender às expectativas, uma venda não está descartada, segundo essas fontes. A Berkshire raramente se desfaz de subsidiárias integrais — vendeu o negócio de jornais em 2020 e encerrou a área têxtil em 1985.
Lawrence Cunningham, autor de vários livros sobre a Berkshire, contou que perguntou a Abel, em uma conversa há cerca de um ano, se ele pretendia seguir a tendência de Buffett e Munger de fazer vista grossa para subsidiárias de desempenho fraco.
“Ele disse: ‘Não vou fazer isso. Acredito em autonomia, acredito em descentralização. Mas, se houver quem esteja ficando para trás, vou apontar'”, contou Cunningham.
Enquanto Buffett ficava fora da operação, a menos que sentisse que as empresas não estavam no nível esperado, o estilo de Abel é agir preventivamente para deixar suas expectativas claras, afirmam pessoas a par dos negócios da Berkshire.
“Greg gosta de estar envolvido, então ele vai ser mais prático e mais atento aos detalhes do negócio”, afirmou Vicki Hollub, CEO da Occidental Petroleum, na qual a Berkshire tem participação relevante. “É um negociador duro, mas, repito, honesto e justo.”
Na carta anual, Abel afirmou que a Berkshire manterá sua “abordagem concentrada” nos investimentos em ações, citando as maiores posições como exemplo — com exceção de Bank of America e Chevron. O conglomerado não enxerga essas participações como centrais, segundo fontes a par do assunto.
Para muitos acionistas, o verdadeiro teste do valor de Abel será sua capacidade de usar o caixa recorde de US$ 373,1 bilhões da Berkshire em grandes aquisições.
“Só vou conseguir avaliar o quanto ele é bom quando chegar a próxima recessão profunda”, disse Chris Bloomstran, diretor de investimentos da Semper Augustus Investments, acionista antigo da Berkshire. “A missão que os acionistas devem dar ao Greg é: você tem de estar disposto a colocar US$ 300 bilhões para trabalhar. A expectativa é que ele faça isso — e de forma mais agressiva do que Warren fez nos últimos anos.”
Algumas pessoas, de forma frustrante, não perdem tanto peso quanto outras ao usar medicamentos populares para emagrecimento, como Wegovy. Um novo estudo sugere que a resposta pode estar nos genes.
Pesquisadores da 23andMe, serviço de testes genéticos ao consumidor que possui um dos maiores bancos de DNA do mundo a partir de amostras de saliva, analisaram dados genéticos de 27.885 clientes que usaram medicamentos como Wegovy e Zepbound para verificar se havia genes ou variantes associados à quantidade de peso perdida ou à intensidade dos efeitos colaterais.
Os resultados, publicados online na quarta-feira pela revista Nature, mostraram que pessoas com uma variante genética comum perderam mais peso com medicamentos GLP-1 do que aquelas sem essa variante. Os pesquisadores também identificaram que certas variantes aumentam a probabilidade de efeitos colaterais como náusea e vômito.
“Isso justifica mais estudos”, disse a Dra. Noura Abul-Husn, diretora médica do instituto de pesquisa da 23andMe. “Hoje, não há praticamente nada que oriente a personalização do uso desses medicamentos ou a gestão das expectativas dos pacientes.”
A 23andMe entrou com pedido de proteção contra falência no ano passado, após enfrentar dificuldades para encontrar um modelo de negócios lucrativo. Testes genéticos preditivos podem ser uma forma de a empresa tentar recuperar sua operação.
A companhia está incorporando testes para prever a resposta a medicamentos para emagrecimento em um de seus serviços de saúde, na esperança de que esse tipo de exame se torne comum para ajudar as pessoas a entender quanto peso podem perder com esses tratamentos. Com novos medicamentos sendo aprovados nos próximos anos, esse tipo de teste pode orientar a escolha do remédio mais adequado.
Alguns médicos acreditam que testes genéticos para prever a resposta a esses medicamentos podem se tornar tão rotineiros quanto os usados em doenças como câncer de mama.
O Dr. Andres Acosta, gastroenterologista da Mayo Clinic, afirmou que essa informação é valiosa, já que muitos pacientes pagam centenas de dólares do próprio bolso pelos medicamentos.
“Podemos identificar quem realmente precisa desse medicamento caro e quem pode não responder e precisar de outra opção”, disse Acosta, cofundador da Phenomix Sciences, empresa que comercializa testes genéticos para prever respostas a tratamentos de perda de peso.
Medicamentos como Ozempic e Wegovy, da Novo Nordisk, e Mounjaro e Zepbound, da Eli Lilly, funcionam imitando hormônios intestinais como o GLP-1, reduzindo o apetite e aumentando a sensação de saciedade.
Esses medicamentos podem levar à perda de mais de 20% do peso corporal, mas nem todos os pacientes alcançam esse resultado. Médicos estimam que cerca de 10% a 15% das pessoas perdem menos de 5% do peso. Entre os efeitos colaterais conhecidos estão náusea e vômito, que também variam entre os pacientes.
Diferença genética
Condições médicas pré-existentes, idade e outros fatores explicam parte dessa variação, mas médicos já suspeitavam que diferenças genéticas também desempenhassem um papel.
Os pesquisadores da 23andMe identificaram que uma variante no gene GLP1R está associada a uma perda adicional modesta de peso com medicamentos GLP-1. Esse gene codifica os receptores de GLP-1 no organismo — alvo de medicamentos como Ozempic e Wegovy.
Pessoas com essa variante perderam até cerca de 1,5 kg a mais do que aquelas sem a mutação e também apresentaram maior probabilidade de efeitos colaterais como náusea e vômito. A perda de peso mediana no estudo foi de aproximadamente 11 kg.
Essa variante é relativamente comum, presente em cerca de 40% das pessoas de ascendência europeia e 38% das de origem do Oriente Médio, sendo menos frequente em pessoas de ascendência africana (cerca de 7%).
Outra variante, no gene GIPR, foi associada a maior probabilidade de efeitos colaterais especificamente com medicamentos como Mounjaro e Zepbound, que também atuam sobre o hormônio GIP.
Apesar dos achados, ainda há muitas incertezas sobre por que os resultados variam tanto entre os pacientes. Fatores genéticos e não genéticos explicam apenas parte dessa variação, segundo Ruth J.F. Loos, professora da Universidade de Copenhague, em comentário publicado na Nature.
Para a Dra. Marie Spreckley, pesquisadora da Universidade de Cambridge, ainda é cedo para usar testes genéticos na prática clínica para orientar o uso desses medicamentos.
“No geral, este é um passo importante para entender a variabilidade e o potencial de abordagens mais precisas no futuro”, disse. “Mas os efeitos ainda são modestos e as evidências não são suficientes para orientar decisões clínicas rotineiras com base em dados genéticos.”
Escreva para Peter Loftus em: peter.loftus@wsj.com
Os lucros das maiores redes de hambúrguer dos Estados Unidos estão sob pressão — e, ainda assim, elas seguem apostando em descontos.
As marcas de fast-food vêm enfrentando o aumento acelerado no custo da carne bovina, que subiu 48% nos últimos 12 meses no atacado para o tipo de carne moída mais comum no setor, segundo dados federais.
Ainda assim, quando os americanos comem fora, mais consumidores estão optando por itens com promoções do que em qualquer momento dos últimos 50 anos, de acordo com a consultoria Circana.
A combinação de mais descontos com custos mais altos ameaça pressionar ainda mais as margens. No ano passado, a lucratividade média por restaurante do Burger King nos EUA caiu cerca de 10%. A Jack in the Box afirmou no mês passado que o custo da carne e vendas mais fracas reduziram os ganhos dos franqueados.
“Os dias de gastar mais de US$ 15 em uma refeição de hambúrguer ficaram para trás para nós, quando há opções melhores”, disse Josh Fulps, de 28 anos, que trabalha com gestão de patrimônio em Vancouver, Washington. Ele afirmou que, quando vai ao fast-food, busca religiosamente descontos no aplicativo do McDonald’s ou opta por combos promocionais como o Biggie Bag da Wendy’s.
Os preços da carne devem permanecer elevados, já que pecuaristas reduziram seus rebanhos ao menor nível em 75 anos e não têm pressa para expandi-los.
O movimento de queda no fluxo de clientes começou em 2024, levando McDonald’s, Taco Bell, Burger King e outras empresas a intensificarem as promoções. No ano passado, as redes de hambúrguer nos EUA lançaram cerca de 3.000 promoções — quase o triplo de 2019, segundo a Technomic.
Neste ano, as ofertas avançam ainda mais. O McDonald’s deve lançar no próximo mês um novo menu de US$ 3 ou menos, com itens como McDouble, batatas fritas ou hash browns, segundo pessoas familiarizadas com o plano. Essa será a quarta atualização nacional de ofertas de valor da rede em cerca de 21 meses.
“Vamos fazer o que for preciso para atender os consumidores de uma forma que também seja lucrativa para o nosso negócio”, disse o diretor financeiro do McDonald’s, Ian Borden, em entrevista em fevereiro.
As redes de fast-food registraram margem média de lucro de 4% no ano passado, pressionadas pela alta de custos, especialmente de mão de obra, segundo a National Restaurant Association. Em 2016, essa margem era estimada em 6,6%.
Segundo Jim Lewis, franqueado do McDonald’s por 32 anos até 2019, a rede deve conseguir lidar com o cenário graças ao alto volume de vendas, mas a guerra de descontos deve agravar os desafios de lucratividade para outras redes.
“O vencedor está indo bem, mas a categoria de hambúrgueres está sob pressão”, afirmou.
O Burger King mantém suas ofertas atuais de valor — US$ 5 por dois itens ou US$ 7 por três — como forma de dar flexibilidade entre hambúrgueres, acompanhamentos e sobremesas. A empresa diz estar confiante nos resultados dessas estratégias.
Outras iniciativas, como campanhas de marketing, reformas de lojas e melhorias operacionais, também têm ajudado a sustentar a rentabilidade dos franqueados em um ambiente desafiador.
Na Jack in the Box, o diretor de clientes e digital, Ryan Ostrom, afirmou que a marca tem lançado ofertas no momento certo, “não apenas quando os concorrentes fazem o mesmo”. Wendy’s e Jack in the Box disseram que seguem comprometidas em proteger a rentabilidade dos franqueados com investimentos em tecnologia e eficiência.
No mercado financeiro, as ações do McDonald’s subiram 0,9% no último ano, enquanto os papéis da controladora do Burger King, Restaurant Brands International, avançaram cerca de 9%. Já a Shake Shack caiu 1,8%, a Wendy’s recuou 53,8% e a Jack in the Box despencou 64,4%.
Para Greg Creed, ex-CEO da Yum! Brands (dona de KFC e Taco Bell), os descontos só funcionam se atraírem mais clientes sem comprometer a saúde financeira dos operadores.
“O futuro da marca depende do sucesso financeiro dos franqueados, não da saúde financeira da franqueadora”, disse.
As promoções ajudaram a conter a queda no movimento, embora os consumidores mais pressionados ainda não tenham retornado totalmente, segundo a Revenue Management Solutions. O tráfego melhorou ao longo de 2025, e as visitas em dezembro superaram o mesmo período do ano anterior, de acordo com a Technomic.
As redes de hambúrguer ainda lideram o fast-food nos EUA, com o dobro das vendas das cadeias de frango, mas segmentos como frango, café e comida mexicana crescem mais rápido.
Desde 2019, o número de restaurantes de hambúrguer no país caiu cerca de 6%, segundo a Datassential. Wendy’s e Jack in the Box estão fechando centenas de unidades.
Executivos do setor afirmam que, mesmo com preços mais baixos, promoções como “leve um, pague outro” e combos de US$ 5 ainda podem gerar lucro para as empresas e seus franqueados.
Jim Lewis lembra que ajudou a impulsionar o menu de US$ 1 no McDonald’s nos anos 2000, quando as vendas estavam fracas. A estratégia aumentou o fluxo de clientes — e também os lucros.
“Você pode tolerar muita dor se conseguir aumentar as vendas”, disse.
Minutos antes de um drone iraniano atingir um tanque de combustível e provocar uma explosão no céu sobre o Aeroporto Internacional de Dubai, um avião de passageiros da Emirates com destino a Pequim acabava de deixar o solo.
A explosão, nas primeiras horas da manhã de segunda-feira, obrigou duas aeronaves em aproximação a desviar rapidamente e entrar em órbita de espera. Outros 12 voos haviam decolado nos 30 minutos anteriores ao ataque. Ao meio-dia, o aeroporto já operava normalmente de novo.
O episódio é um dos exemplos mais contundentes dos riscos enfrentados pela aviação comercial no Oriente Médio. As companhias aéreas restabeleceram centenas de voos por dia, mesmo com drones e mísseis atingindo diferentes pontos da região.
“Isso é uma guerra. Por que eles estão voando na rota de mísseis?”, disse Kourosh Doustshenas, cuja companheira estava entre as 176 pessoas mortas quando o Irã derrubou acidentalmente um avião de passageiros em janeiro de 2020.
Doustshenas não é o único a fazer essa pergunta. Pilotos, especialistas em segurança e executivos do setor dizem temer cada vez mais uma catástrofe semelhante, citando o risco de um jato ser atingido por um projétil hostil ou confundido com uma ameaça por sistemas de defesa aérea. Segundo eles, o Irã tem mirado repetidamente aeroportos civis, enquanto o simples compartilhamento do espaço aéreo entre aviões comerciais e mísseis já representa um perigo evidente.
Só no Aeroporto Internacional de Dubai, ao menos 39 aviões de passageiros pousaram ou decolaram num intervalo de até cinco minutos antes ou depois de alertas nacionais sobre ataques iminentes, segundo uma análise do Wall Street Journal com base em mais de 8.700 voos e comunicados oficiais emitidos entre o início da guerra e 20 de março.
No aeroporto de Abu Dhabi, o Journal identificou seis casos dentro da mesma janela. Em Sharjah, a cerca de 30 quilômetros a nordeste de Dubai, foram 12 registros. Quando o intervalo analisado é ampliado para 10 minutos antes ou depois dos alertas, o total de voos nos três aeroportos mais que dobra, chegando a 130.
Os números não incluem aeronaves em aproximação que precisaram desviar nem ataques que não foram acompanhados de alertas online emitidos pela autoridade nacional de emergências dos Emirados Árabes Unidos. Muitos ataques com mísseis e drones não aparecem nesses avisos oficiais, inclusive o que atingiu o tanque de combustível em Dubai no dia 16 de março.
Nenhum avião comercial foi abatido desde o início da guerra contra o Irã. Ainda assim, ao menos cinco aeronaves estacionadas em aeroportos sofreram danos em ataques iranianos. Duas delas — um A380 da Emirates e um A321 menor, da Saudia — foram atingidas ainda no início do conflito, quando estavam em Dubai, segundo pessoas a par dos episódios.
As outras três eram jatos privados atingidos nesta semana por destroços de mísseis balísticos interceptados sobre o aeroporto Ben Gurion, em Israel. Israel confirmou os danos e respondeu reduzindo voos e limitando o número de passageiros em algumas partidas.
Mais que o dobro de drones e mísseis foi lançado contra o espaço aéreo dos Emirados Árabes Unidos em comparação com qualquer outro país da região, segundo a Osprey Flight Solutions, empresa especializada em segurança da aviação. Os Emirados têm, no máximo, dois minutos para reagir a um míssil balístico disparado do Irã e 15 minutos no caso de um drone, diz a Osprey.
Ainda assim, as companhias aéreas do país vêm restaurando rapidamente suas malhas. Nas últimas duas semanas, a Emirates operou cerca de 300 voos por dia, o equivalente a aproximadamente 60% de sua capacidade antes da guerra. Somadas a Etihad, Flydubai e AirArabia, as empresas dos Emirados realizaram mais de 11 mil voos desde o início do conflito, segundo dados do Flightradar24.
A aviação é um motor importante da economia dos Emirados Árabes Unidos, e a Emirates — a companhia aérea com maior tráfego internacional do mundo — é sua marca mais reconhecida, tendo transformado Dubai em um grande hub global ao longo de 40 anos.
Para mitigar os riscos, os Emirados definiram corredores aéreos específicos para os pilotos e prepararam controladores de tráfego para desviar aeronaves rapidamente. Caças também foram mobilizados para proteger aviões comerciais de drones que se aproximem, segundo pessoas familiarizadas com a estratégia.
As companhias aéreas da região afirmam que seguem priorizando a segurança e mantendo contato ativo com governos e agências de inteligência.
“Não operamos nenhum voo sem que ele tenha sido integralmente avaliado e aprovado como seguro”, afirmou, em nota, uma porta-voz da Etihad, sediada em Abu Dhabi, citando “forte supervisão regulatória e disciplina operacional” na região como um todo.
O Ministério das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos não respondeu aos pedidos de comentário.
Um petroleiro no Estreito de Ormuz. Fotógrafo: Kaveh Kazemi/Getty Images
A Osprey mantém hoje um alerta de “risco extremo” — seu nível máximo — para grande parte do espaço aéreo ativo no Golfo, incluindo os Emirados, partes da Arábia Saudita e Israel. É a mesma classificação atribuída à Ucrânia e ao oeste da Rússia, onde, no fim de 2024, um avião de passageiros do Azerbaijão foi abatido acidentalmente.
“Mesmo voando com planos de contingência, você está expondo aeronaves, passageiros e tripulação a um potencial evento catastrófico”, disse Matt Borie, diretor de inteligência da Osprey. “Se amanhã um avião for atingido, alguém realmente vai perguntar: ‘Como isso pôde acontecer?’”
Após o ataque ao tanque de combustível em 16 de março, Dubai — um dos sete emirados e centro comercial dos Emirados Árabes Unidos — buscou tranquilizar os passageiros, afirmando que os voos de chegada e partida em seus aeroportos são seguros.
“A capacidade de detectar e responder às ameaças à medida que elas surgem tem sido muito, muito eficaz e eficiente”, disse Paul Griffiths, CEO da Dubai Airports, à CNN, em entrevista depois promovida pelo emirado nas redes sociais. Segundo ele, mais de 1 milhão de passageiros já passaram pelos aeroportos de Dubai desde o início do conflito.
A maioria das companhias estrangeiras, porém, suspendeu voos pelo Oriente Médio. Delta Air Lines, British Airways e Cathay Pacific estão entre as empresas que, nos últimos dias, estenderam cancelamentos pelos próximos meses.
Embora a indústria da aviação tenha padrões rigorosos de segurança para projeto e certificação de aeronaves, não existe um acordo internacional que defina o que é considerado seguro ao voar em zonas de conflito.
“Qualquer projetista de aeronave sabe qual é a meta de segurança a ser alcançada”, disse Mario Brito, professor de ciências do risco da Universidade de Southampton, no Reino Unido, que já assessorou companhias como a Emirates. “Na segurança da aviação, não existe uma meta assim.”
As companhias decidem por conta própria se é seguro voar, com base numa combinação pouco uniforme de inteligência governamental, orientações regulatórias e consultorias privadas de segurança. Depois, esse cálculo é ponderado contra o custo de um eventual desastre — incluindo compensações às famílias e dano reputacional — e a receita perdida com cancelamentos, disse Brito.
A retomada dos voos criou tensão entre as companhias e as tripulações. Pilotos, que em última instância são responsáveis pela aeronave e por todos a bordo, estão cada vez mais preocupados em voar no Oriente Médio, segundo entrevistas com tripulantes e representantes sindicais.
Parte desses temores apareceu em uma mensagem de voz que circulou entre pilotos. Na gravação, compartilhada com o Journal, um piloto relata ter sido impedido de pousar em vários aeroportos no primeiro dia da guerra. Ele conseguiu aterrissar sua aeronave com apenas 30 minutos de combustível restantes.
“Temos preocupações substanciais em relação à situação de segurança”, afirmou em nota Paul Reuter, vice-presidente da Associação Europeia de Cockpit. Com a volta de mais voos, “o potencial de que aviões comerciais sejam alvo deliberado ou por engano aumentará dramaticamente”, disse.
Alguns tripulantes de companhias europeias acionaram as chamadas “cláusulas de medo”, que permitem à equipe recusar voos quando não se sente confortável, segundo dirigentes sindicais e funcionários do setor. Outros, em empresas que não oferecem esse mecanismo, alegaram doença para evitar voar.
Depois que o Irã derrubou acidentalmente o voo PS752 da Ukraine International Airlines, em 2020, familiares das vítimas passaram a pressionar a Organização da Aviação Civil Internacional a criar padrões que restrinjam voos em zonas de conflito. Essas regras, porém, nunca saíram do papel.
Em um processo movido por familiares de 20 passageiros, um juiz canadense decidiu em 2024 que a companhia aérea era responsável pela tragédia, embora tenham sido forças iranianas que lançaram o míssil que derrubou o avião. Muitos dos passageiros eram canadenses e tentavam voltar para casa via Ucrânia.
Nas horas que antecederam a decolagem daquele voo, Doustshenas e sua noiva, Forough Khadem, trocaram mensagens sobre um ataque recente a uma base militar americana no Iraque e sobre se seria seguro voar. No fim, ele disse a ela que, se a companhia aérea estava disposta a operar o voo, então devia ser seguro.
Hoje em dia, quando os americanos saem para fazer compras, é mais provável que estejam pagando por Botox ou aulas de boxe do que comprando sapatos ou xampu.
Pela primeira vez na história, o aluguel de espaços no varejo por empresas voltadas a serviços superou o de lojas que vendem produtos — uma virada impulsionada em grande parte pela proliferação de salões de beleza, spas e estúdios de fitness.
Empresas de serviços ocuparam pouco mais de 50% da área total de varejo alugada em 2025, segundo a empresa de dados CoStar Group. Quinze anos atrás, esse número era de apenas 40%.
“Os gastos dos consumidores continuam firmemente direcionados para serviços”, disse Brandon Svec, diretor nacional de análise de varejo da CoStar nos EUA. “Nada indica que isso vá mudar tão cedo.”
Mudanças no nível dos imóveis também refletem como o comércio eletrônico reduziu a necessidade de espaço físico para vender itens como roupas, calçados e materiais de escritório.
Svec espera que a demanda por espaços por empresas de serviços continue forte, mesmo com o maior segmento do setor — bares e restaurantes — mostrando sinais de enfraquecimento, devido à redução de gastos de alguns consumidores e à concorrência de grandes redes pressionando pequenos negócios.
Isso ocorre porque o mercado de bem-estar está em rápida expansão nos EUA, totalizando US$ 2,1 trilhões em 2024, segundo o Global Wellness Institute, que mede gastos em 11 setores, incluindo spas, beleza, nutrição, saúde mental e saúde pública.
“Uma bolsa costumava ser o símbolo de luxo”, disse Svec. Hoje, segundo ele, um sinal mais comum de status é gastar dinheiro com coisas como aulas de yoga ou tratamentos faciais.
As empresas estão atendendo à demanda crescente. Há estabelecimentos de tratamentos faciais a laser, hidratação intravenosa e infusão de vitaminas, Botox e terapia com luz vermelha. As pessoas também estão experimentando crioterapia, que envolve expor o corpo a temperaturas extremamente baixas para reduzir inflamações e acelerar a recuperação muscular.
“Os consumidores se preocupam mais hoje do que nunca com a aparência e com o bem-estar”, disse Brian Finnegan, CEO da operadora de shoppings Brixmor Property Group.
Depois que uma loja de bebidas deixou o Whitemarsh Shopping Center, nos subúrbios da Filadélfia, a Brixmor dividiu o espaço de cerca de 950 metros quadrados em quatro lojas menores.
Os novos inquilinos — um hospital veterinário, uma rede de spas faciais, uma rede de estúdios de alongamento e um salão de manicure — geram juntos 20% mais aluguel do que o antigo locatário e atraem mais consumidores ao local, segundo Finnegan.
As redes sociais também impulsionaram o crescimento de negócios voltados a melhorar a aparência nas fotos, desde salões de escova até redes de depilação. A abertura de academias disparou, e o setor respondeu por quase 30% dos contratos de locação de serviços no ano passado, ante 20% em 2016, segundo a CoStar.
Nos bairros Flatiron e NoMad, em Manhattan, marcas de autocuidado e fitness alugaram cerca de 9 mil metros quadrados nos últimos dois anos, segundo a Flatiron NoMad Partnership. As ruas agora são repletas de saunas, estúdios de pilates e até academias especializadas em treino para esqui cross-country.
Noah Neiman, cofundador da rede de boxe Rumble Boxing, abriu recentemente na região o Pack, um estúdio de defesa pessoal e fitness em grupo que, segundo ele, aproveita a maior preocupação dos americanos com saúde e socialização no pós-pandemia.
“Queremos que você venha aqui, talvez encontre um amigo, traga colegas de trabalho”, disse Neiman. “Este é o novo happy hour.”
Uma das redes que mais crescem no país é a Planet Fitness, que adicionou mais de 1 milhão de membros no ano passado e planeja abrir quase 200 novas unidades em 2026.
O diretor de desenvolvimento, Chip Ohlsson, afirmou que as pessoas estão se exercitando com mais frequência e de forma mais social do que antes, com famílias inteiras ou grupos de colegas indo juntos à academia. A rede também espera benefícios adicionais com o aumento do uso de medicamentos como Ozempic e outros da classe GLP-1.
“Se eu perdi muito peso e começo a me sentir melhor comigo mesmo, isso me dá uma oportunidade de ir à academia e melhorar ainda mais”, disse Ohlsson.
As vendas online também estão reduzindo a necessidade de espaço físico para itens como roupas e produtos de higiene. O e-commerce representou 16,4% das vendas totais no varejo no ano passado, segundo o Departamento de Comércio dos EUA, contra cerca de 8% em 2016. Muitas lojas de vestuário também estão reduzindo o tamanho de suas unidades.
Apesar disso, a vacância no varejo nos EUA, em 4,4%, segue próxima de mínimas históricas, devido à forte demanda por empresas de serviços. A Planet Fitness, por exemplo, tem aberto academias em espaços deixados por varejistas que faliram, como a Rite Aid e a rede de artesanato Joann.
O enigmático artista de rua Banksy foi recentemente identificado como um homem na casa dos 50 anos, de Bristol, na Inglaterra. Seu nome seria Robin Gunningham, segundo uma reportagem da Reuters baseada em um registro policial no qual ele teria assinado com seu próprio nome.
O artista ficou conhecido por destruir parcialmente sua obra mais famosa, Menina com Balão, durante um leilão em 2018, quando o comprador pagou US$ 1,4 milhão. Ele também espalhou pelo mundo imagens provocativas em estêncil — como ratos e manifestantes — pintadas em prédios. Ao mesmo tempo, trabalhou intensamente para manter sua identidade em segredo. Após investigações feitas há quase duas décadas pelo Mail on Sunday, que já apontavam Gunningham como o artista, ele teria mudado legalmente seu nome para David Jones — um dos nomes mais comuns da Inglaterra.
A reação do mundo da arte: que ele seja conhecido. Em vez de prejudicar o mistério em torno do artista, a revelação pode, na verdade, impulsionar seu mercado, dizem especialistas.
O colecionador Peter Brant nunca adquiriu obras de Banksy por causa da incerteza sobre sua identidade, embora seja conhecido por colecionar artistas de rua como Keith Haring — atualmente em exposição em sua fundação em Nova York. Durante anos, Brant chegou a suspeitar que o artista fosse na verdade Damien Hirst, cujas obras ele compra, mas disse que a identidade opaca de Banksy “jogava contra ele”.
“É difícil comprar obras de alguém que se esforça tanto para não ser conhecido, porque você está comprando uma espécie de folclore”, afirmou Brant. “É importante saber quem é o artista e como ele evolui.”
Os preços das obras de Banksy têm sido voláteis nos últimos anos. O recorde foi a revenda por US$ 25,4 milhões, em 2021, da obra parcialmente destruída — rebatizada de O amor está no lixo — na Sotheby’s. Quatorze de seus 20 maiores preços foram registrados entre 2021 e 2022, impulsionados em parte pelo interesse de investidores em criptomoedas. Desde então, porém, nenhuma obra ultrapassou US$ 10 milhões em leilão, segundo a base de dados Artdai.
Artistas como Mike Winkelmann, conhecido como Beeple, e Marcel Duchamp, que criou obras sob o pseudônimo Rrose Sélavy, também adotaram nomes artísticos. Ainda assim, o mercado tende a valorizar a clareza — quanto mais informações existem sobre a trajetória de um artista, maior a confiança dos colecionadores, afirma Jean-Paul Engelen, diretor da Acquavella Galleries, em Nova York.
Mesmo assim, o mundo da arte também aprecia certa dose de humor. O fato de Banksy ter adotado um nome comum como David Jones foi bem recebido por especialistas, já que esse é o nome de nascimento de David Bowie. “É uma homenagem divertida”, disse Engelen.
A empresa do artista, Pest Control Office, recusou-se a confirmar ou negar as conclusões da Reuters, afirmando apenas que o artista “decidiu não dizer nada”.
Não está claro quantas obras Banksy produziu, embora galeristas estimem que sejam milhares. Seus trabalhos, incluindo gravuras, já foram negociados cerca de 9 mil vezes em leilões, segundo a base Artnet. Obras mais políticas costumam alcançar preços mais altos, como a imagem de um manifestante lançando um buquê de flores em vez de uma bomba, além de releituras de clássicos, Mostre-me o Monet, que retrata um lago com lixo flutuante e um cone de trânsito.
“Banksy pode se ver como um rebelde, mas já faz parte do mercado estabelecido de arte, então quanto mais se souber sobre sua vida, melhor”, disse Engelen. “Isso não diminui suas aventuras artísticas.”
Nos últimos anos, seus preços vinham em queda, acompanhando a desaceleração do mercado de arte. O galerista Acoris Andipa afirmou que versões não destruídas de “Menina com Balão” chegaram a ser vendidas por até US$ 4 milhões há cinco anos — mas obras da mesma série eram negociadas por cerca de US$ 600 mil há um ano. Desde então, a demanda voltou a crescer levemente, com preços atuais girando em torno de US$ 1 milhão no mercado secundário.
A revelação da identidade também pode afetar a logística dos projetos do artista. O anonimato permitia que ele evitasse prisão, já que muitas de suas obras eram feitas em espaços públicos ou privados de forma que poderia ser considerada vandalismo. No ano passado, ele pintou uma imagem em um prédio histórico em Londres, na Corte Real de Justiça, mostrando um manifestante no chão segurando um cartaz manchado de sangue, enquanto um juiz com peruca empunhava um martelo como arma. A obra foi posteriormente removida.
Agora que pode ser identificado como Gunningham — ou Jones — sua capacidade de criar livremente pode ser reduzida. Colecionadores, incluindo Brant, acompanharão de perto seus próximos trabalhos, o que também pode influenciar os preços em leilões.
“Se a próxima obra que ele fizer for boa, isso fortalecerá seus trabalhos anteriores, feitos no anonimato”, disse Brant. “Se não for, não terá o mesmo efeito.”
A guerra contra o Irã provocou uma interrupção recorde na oferta de petróleo e fez disparar os preços do barril e de outras commodities. Ainda assim, economistas duvidam que os EUA estejam sob grande risco de recessão.
O consenso de economistas ouvidos nesta semana pelo The Wall Street Journal é de que a inflação deve subir temporariamente, enquanto crescimento e desemprego devem permanecer praticamente inalterados — assumindo que o choque do petróleo seja passageiro.
“Diante da guerra em curso no Oriente Médio, da disparada dos preços do petróleo, das tarifas elevadas, da inteligência artificial e das fortes restrições à imigração, vale destacar o quanto a economia dos EUA tem se mostrado resiliente até agora”, disse Bernard Baumohl, do Economic Outlook Group. “Mas não devemos tomar essa resiliência como garantida.”
A pesquisa reuniu respostas de 50 economistas de instituições que vão de bancos de Wall Street e universidades a pequenas consultorias, entre os dias 16 e 18 de março. Nem todos responderam a todas as perguntas.
Os economistas estimam em 32% a probabilidade de recessão nos próximos 12 meses, levemente acima dos 27% registrados em janeiro. Questionados sobre até que nível o petróleo precisaria subir para elevar essa probabilidade acima de 50%, as respostas variaram de US$ 90 a US$ 200 por barril, com média de US$ 138. Sobre o tempo necessário com preços elevados, as estimativas vão de quatro a 55 semanas, com média de 14 semanas. Os contratos futuros de petróleo nos EUA fecharam a US$ 96,32 o barril na quarta-feira, ante média de cerca de US$ 65 em fevereiro.
Robert Fry, da Robert Fry Economics, que atualmente vê 40% de chance de recessão, afirmou que petróleo a US$ 125 por oito semanas é seu ponto decisivo.
“Minha projeção depende da hipótese de que o Estreito de Ormuz estará totalmente aberto ao tráfego de petroleiros até meados de abril”, disse. “Se isso não acontecer, os preços do petróleo subirão muito mais e passarei a incluir uma recessão no meu cenário.”
Em média, os economistas projetam que o Produto Interno Bruto (PIB), ajustado pela inflação, crescerá 2,1% no quarto trimestre deste ano em relação ao mesmo período do ano anterior — ligeiramente abaixo dos 2,2% estimados em janeiro. A taxa de desemprego deve encerrar dezembro em 4,5%, em linha com a previsão anterior. No mês passado, estava em 4,4%.
Em contraste com o crescimento, os economistas ficaram mais pessimistas em relação à inflação. Eles agora esperam que o índice de preços ao consumidor suba 2,9% em dezembro de 2026 na comparação anual, acima dos 2,6% projetados em janeiro.
Essa revisão não reflete apenas o aumento da gasolina: o núcleo do índice de gastos com consumo pessoal (PCE), que exclui itens voláteis como alimentos e energia, deve subir 2,8% no quarto trimestre — acima dos 2,6% previstos anteriormente. O Federal Reserve usa esse indicador como referência.
Com a inflação mais alta, diminuíram as expectativas de cortes de juros. Na quarta-feira, o Fed manteve a taxa entre 3,5% e 3,75%. Em média, os economistas veem o ponto médio dessa faixa encerrando o ano em 3,26%, o que implica entre um e dois cortes de 0,25 ponto percentual. Em janeiro, a projeção era de 3,08%, sugerindo dois cortes.
Isso aproxima os economistas da visão dos dirigentes do Fed. Projeções divulgadas após a reunião indicam que os formuladores de política monetária esperam, em média, um corte de 0,25 ponto neste ano. As previsões de crescimento e desemprego pouco mudaram desde dezembro, mas a expectativa de inflação aumentou.
O presidente do Fed, Jerome Powell, afirmou que essas projeções têm menor relevância diante das incertezas sobre o desfecho da guerra.
“Simplesmente não sabemos”, disse. “As pessoas estão colocando números que parecem fazer sentido, mas sem convicção.”
Muitos economistas expressaram incerteza semelhante. Beth Ann Bovino, do U.S. Bank, afirmou que sua projeção foi concluída quando a guerra começava e que “as condições mudam a cada hora”.
Cerca de 20 milhões de barris de petróleo — o equivalente a 20% da oferta global — costumam passar diariamente pelo Estreito de Ormuz. Esse fluxo caiu drasticamente. Como resultado, o petróleo chegou a ser negociado acima de US$ 100 por barril recentemente. O preço médio da gasolina nos EUA atingiu US$ 3,84 por galão na quarta-feira, ante US$ 2,92 um mês antes, segundo a AAA. Os contratos futuros indicam que o preço pode ultrapassar US$ 4 nas próximas semanas.
Os economistas esperam que o petróleo termine junho em US$ 86,70 e o ano em US$ 73,54. Já economistas da California Lutheran University destacaram: “Os EUA são o maior produtor de petróleo do mundo desde 2018… Do ponto de vista econômico geral, preços entre US$ 80 e US$ 100 não são totalmente negativos. Em 2008, o petróleo chegou ao equivalente a US$ 200 por barril em valores atuais.”
Escreva para Anthony DeBarros em anthony.debarros@wsj.com e Justin Lahart em Justin.Lahart@wsj.com
Preços do petróleo, imposto sobre exportações, riscos com as eleições presidenciais e aquisições potenciais são temas da vez para o cenário de quem investe na Petrobras. #petrobras#petróleo#investimentos
Os conselhos de Warren Buffett sobre investimentos e negócios alcançaram dezenas de milhões de pessoas durante sua longa trajetória à frente da Berkshire Hathaway. Mas talvez tenha sido seu sucesso em transformar cartas aos acionistas em leituras envolventes que deixou a marca mais profunda em um grupo específico de admiradores: outros CEOs.
Buffett se aposentou como CEO da Berkshire em dezembro, transferindo o cargo de principal executivo — e também de autor das cartas aos acionistas — para Greg Abel. Executivos dizem que Buffett, que costumava rechear suas cartas com humor e histórias pessoais que muitas vezes iam além da revisão formal das operações da Berkshire, elevou uma tradição muitas vezes enfadonha da América corporativa e estabeleceu um novo padrão. Para quem decide elevar o nível de suas próprias cartas, isso pode significar muito mais trabalho.
“É difícil”, disse Jamie Dimon, CEO do JPMorgan Chase e autor de mais de 20 cartas aos acionistas. “Fico feliz quando ela finalmente nasce.”
Dimon leu quando jovem o livro Security Analysis, de Benjamin Graham e David Dodd, que traz um prefácio escrito por Buffett. Mais tarde, ele descobriu as cartas que Buffett enviava anualmente aos acionistas da Berkshire e da parceria de investimentos que administrava antes de assumir o comando da empresa.
O que sempre chamou a atenção de Dimon na escrita de Buffett, disse ele, foi sua capacidade de explicar conceitos financeiros complexos em linguagem simples. “Escrevo para pessoas como minhas irmãs”, disse Buffett ao Wall Street Journal em 2016. “Elas são inteligentes, leem bastante, têm muito investido na empresa. Não conhecem todo o jargão financeiro, mas também não querem ser tratadas como crianças de 5 anos.”
“Sempre tentei imitar isso”, disse Dimon.
As cartas de Buffett frequentemente ultrapassavam uma dúzia de páginas, e seu público ia muito além dos acionistas da Berkshire. De fato, muitos dos famosos aforismos do chamado Oráculo de Omaha presentes em cartas anuais passadas se aplicam a investidores em praticamente qualquer área. Entre suas frases mais conhecidas estão: “Tentamos simplesmente ser cautelosos quando os outros estão gananciosos e gananciosos quando os outros estão cautelosos” e “nunca aposte contra a América”, entre outras.
Claro que escrever de forma a tornar o complexo fácil de entender não é tão simples quanto parece.
Dimon disse que seu próprio processo leva meses. Ele tenta terminar um esboço da carta antes de suas férias de janeiro, escreve nos fins de semana e verifica os fatos com funcionários em diversas áreas do vasto império financeiro do JPMorgan.
Tom Gayner, CEO da holding Markel Group, frequentemente chamada de “mini-Berkshire”, disse que escreve a maior parte de suas cartas no período tranquilo entre o Natal e o Ano-Novo, antes de sua esposa fazer a edição final. Ele afirma se inspirar nas cartas de Buffett e tentar reproduzir seu estilo de escrita claro.
“Acho que ele é um professor maravilhoso”, disse Gayner.
As cartas de Buffett se tornaram ainda mais populares além do círculo de acionistas da Berkshire após a Black Monday de 1987, afirmou Lawrence Cunningham, autor de Os Ensaios de Warren Buffett, obra que reúne textos do investidor.
O colapso do mercado levou investidores a especular se sistemas automáticos de negociação mal projetados ou outros detalhes da estrutura do mercado eram responsáveis pela queda abrupta. Muitos recorreram a Buffett em meio à confusão.
“Foi um grande debate, e Warren foi uma voz fundamental para ajudar a explicar o que havia acontecido”, disse Cunningham.
Críticas
Para Buffett, um dos aspectos mais difíceis era aceitar críticas. Carol Loomis, ex-jornalista da Fortune e amiga do investidor que esteve entre os primeiros repórteres a cobri-lo, editou suas cartas por décadas, a partir de 1977.
No início, Buffett enviava os rascunhos por FedEx, e os dois discutiam as alterações por telefone. Mas Buffett, acostumado a ser seu próprio chefe, disse que tinha dificuldade em aceitar as sugestões. Além disso, segundo ele, Loomis acrescentava vírgulas demais.
“Minha primeira reação era ficar irritado, o que é totalmente inadequado”, disse Buffett por telefone de seu escritório em Omaha. Em sua defesa, acrescentou: “é assim que você fica quando está escrevendo”.
Loomis editou as cartas de Buffett até 2024. Agora, os dois jogam bridge um contra o outro pelo computador na maioria das noites de segunda-feira. Buffett disse que essas partidas são mais amigáveis do que suas antigas discussões sobre pontuação. “Finalmente amadureci um pouco, aos 95 anos”, disse.
O CEO da Berkshire, Greg Abel, publicou sua primeira carta aos acionistas em fevereiro. Antes da estreia, Abel brincou que escrevê-la havia sido o desafio mais difícil que enfrentou em seus dois primeiros meses no cargo.
As primeiras reações foram positivas. Abel disse ter recebido mensagens encorajadoras de amigos e colegas depois que a carta foi publicada no site da Berkshire.
Mesmo assim, Abel teve pouco tempo para aproveitar os elogios à carta de 2025. Ele logo lembrou que terá de escrever outra até fevereiro de 2027.
“Foi uma tarefa enorme”, disse Abel sobre a experiência. “Warren disse: ‘bom, não fica mais fácil. A segunda carta será tão difícil e desafiadora quanto a primeira.’”
Funcionários de uma importante planta de processamento de carne bovina da JBS iniciaram uma greve nesta segunda-feira, interrompendo a produção em um momento em que os preços da proteína atingem níveis recordes.
A unidade localizada em Greeley, no estado do Colorado, é uma das maiores do tipo nos Estados Unidos. A planta tem capacidade para abater cerca de 6 mil cabeças de gado por dia e responde por aproximadamente 5% da capacidade de processamento de carne bovina do país.
A paralisação de trabalhadores sindicalizados é a maior em um frigorífico em décadas. O movimento ocorre em um momento em que empresas do setor de carne têm acumulado prejuízos de bilhões de dólares por ano na produção de carne bovina. O menor rebanho bovino dos EUA em 75 anos elevou o custo de compra de gado junto a pecuaristas, pressionando as margens das processadoras.
A JBS, que tem sede no Brasil, é a maior processadora de carne do mundo e a principal produtora de carne bovina dos EUA em volume. Nos primeiros nove meses de 2025, a empresa registrou prejuízo operacional de US$ 566 milhões em seu negócio de carne bovina na América do Norte, ante perda de US$ 64 milhões no mesmo período do ano anterior.
O sindicato United Food and Commercial Workers International Union firmou no ano passado um novo contrato trabalhista de longo prazo que cobre cerca de 26 mil trabalhadores em mais de uma dúzia de unidades nos EUA.
No entanto, a seção sindical que representa cerca de 3.800 trabalhadores da planta de Greeley optou por não aderir ao acordo nacional, argumentando que o contrato não leva em conta o custo de vida mais elevado no Colorado.
A JBS e o sindicato local negociaram por meses um novo acordo trabalhista, mas não conseguiram chegar a um consenso.
Segundo o sindicato, a empresa se recusou a conceder aumentos salariais compatíveis com a inflação. A entidade também quer que a companhia pare de cobrar dos funcionários por determinados equipamentos de proteção, como luvas usadas durante o trabalho.
“A JBS parece mais interessada em um conflito trabalhista na planta de Greeley do que em resolver essas questões”, afirmou Kim Cordova, presidente da seção sindical que representa os trabalhadores da unidade.
Na semana passada, a empresa começou a cancelar embarques de gado e interromper o abate na planta, preparando-se para uma possível paralisação. A JBS também passou a redirecionar entregas de gado de confinamentos para outras grandes unidades de processamento nos EUA, como as fábricas em Grand Island, no estado de Nebraska, e em Cactus, no Texas.
A companhia afirmou que seu objetivo é minimizar o impacto para clientes e para o mercado em geral. Também disse que empregados que não quiserem aderir à greve podem continuar trabalhando e receberão normalmente.
“Não acreditamos que uma greve seja do melhor interesse de nossos funcionários ou de suas famílias”, afirmou uma porta-voz da empresa. “Mantemos a proposta apresentada, que é forte, justa e consistente com o histórico acordo nacional firmado em 2025.”
As ações da JBS negociadas nos EUA acumulam queda de cerca de 6% no último mês.
O fechamento temporário da planta deixa os pecuaristas americanos com um comprador a menos para seu gado, o que tende a pressionar os preços do gado vivo. Isso pode tornar mais lucrativo para frigoríficos manter suas unidades operando plenamente para atender à crescente demanda por proteína no país.
Os contratos futuros de gado vivo, que indicam o preço pago pelos frigoríficos aos confinamentos, caíram cerca de 4% no último mês diante da expectativa de greve. Ainda assim, acumulam alta superior a 13% nos últimos 12 meses.
Empresas do setor têm ajustado suas operações diante da escassez de oferta de gado nos EUA. A rival da JBS, Tyson Foods, fechou uma de suas maiores plantas em Nebraska em janeiro e demitiu 3.200 trabalhadores devido ao aumento do custo do gado. No início deste ano, a companhia também reduziu pela metade a produção em uma grande unidade no Texas para cortar despesas.
Os custos do gado devem permanecer elevados nos próximos anos, já que pecuaristas têm se mostrado relutantes em recompor seus rebanhos. Para os consumidores, isso se traduziu em preços recordes da carne bovina. O preço da carne moída subiu 15% no mês passado em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo dados do Departamento do Trabalho dos EUA.
Uma das grandes esperanças em relação àinteligência artificial— pelo menos entre trabalhadores — era que ela reduziria a carga de trabalho, liberando tempo para atividades mais criativas e estratégicas. Até agora, porém, está acontecendo o contrário, mostram novos dados.
Na verdade, a IA está aumentando a velocidade, a densidade e a complexidade do trabalho, em vez de reduzi-lo, segundo uma análise da atividade digital de 164 mil trabalhadores. Os dados são da ActivTrak, empresa de software de análise de força de trabalho e monitoramento de produtividade.
O levantamento cobre mais de 443 milhões de horas de trabalho em 1.111 empresas, tornando-se um dos maiores estudos já realizados sobre os efeitos da IA nos hábitos de trabalho.
Ao examinar a atividade digital de usuários de IA 180 dias antes e depois de começarem a usar essas ferramentas, a ActivTrak constatou que a tecnologia intensificou a atividade em quase todas as categorias. O tempo gasto em e-mails, mensagens e aplicativos de chat mais que dobrou, enquanto o uso de ferramentas de gestão empresarial — como softwares de recursos humanos ou contabilidade — aumentou 94%.
Ao mesmo tempo, o tempo dedicado a trabalho focado e sem interrupções — necessário para resolver problemas complexos, escrever fórmulas, criar ou planejar estratégias — caiu 9% entre usuários de IA, enquanto praticamente não mudou entre quem não usa a tecnologia.
“Não é que a IA não crie eficiência”, disse Gabriela Mauch, diretora de clientes e responsável pelo laboratório de produtividade da empresa. “É que a capacidade que ela libera é imediatamente redirecionada para outras tarefas, e é aí que o aumento da carga de trabalho tende a acontecer.”
Esses hábitos não são exatamente o que os entusiastas da IA previam. Diversos líderes de tecnologia e negócios — de Bill Gates a Jamie Dimon, do JPMorgan Chase — sugeriram que a tecnologia poderia levar as pessoas a trabalhar menos, não mais, e até resultar em semanas de trabalho mais curtas. Elon Musk já disse que, dentro de 20 anos, avanços em IA e robótica poderiam tornar o trabalho até opcional.
Até agora, porém, as evidências sugerem que muitos usuários da tecnologia não estão usando os ganhos de eficiência para descansar mais.
“Os trabalhadores muitas vezes usam o tempo economizado para fazer mais trabalho, e não menos, porque a IA torna tarefas adicionais mais fáceis e acessíveis, criando uma sensação de impulso”, disse Aruna Ranganathan, professora associada de gestão e organizações da University of California, Berkeley.
A análise da ActivTrak reforça os resultados de um estudo de oito meses que Ranganathan lidera sobre como a IA generativa está moldando hábitos de trabalho em uma empresa de tecnologia com cerca de 200 funcionários. A pesquisa, ainda em andamento, concluiu até agora que as ferramentas não reduziram o trabalho, mas o intensificaram. Os funcionários passaram a trabalhar em ritmo mais rápido, assumiram tarefas mais amplas e acabaram trabalhando mais horas. Os resultados iniciais foram publicados recentemente na Harvard Business Review.
Essas mudanças de comportamento podem aumentar a produtividade, mas também devem servir de alerta para empregadores, diz Ranganathan.
“Com o tempo, isso pode levar a sobrecarga cognitiva, burnout, pior tomada de decisões e queda na qualidade do trabalho, mesmo que os funcionários pareçam mais produtivos no curto prazo.”
A análise da ActivTrak também mostra que a adoção da IA está crescendo rapidamente no ambiente corporativo, mesmo que muitos trabalhadores digam que ela ainda não está economizando muito tempo. Cerca de 80% dos funcionários já usam ferramentas de IA no trabalho — ante 53% há dois anos — e o tempo médio gasto usando essas ferramentas aumentou oito vezes, segundo a empresa.
Os profissionais que passam entre 7% e 10% do tempo de trabalho usando IA apresentaram os níveis mais altos de produtividade. Ainda assim, apenas 3% dos usuários utilizam as ferramentas nessa intensidade. A maioria dedica cerca de 1% do tempo de trabalho à IA.
A equipe de Fórmula 1 da Cadillac ainda era uma folha em branco — sem carro, sem piloto e sem um único pneu — quando fez duas contratações críticas. Uma foi a de um chefe técnico veterano, responsável por projetar um milagre da engenharia, um foguete sobre rodas capaz de competir no auge do automobilismo. Um doutorado em aerodinâmica não era obrigatório, mas ajudava.
O outro cargo envolvia um pouco menos de matemática: um diretor de recursos humanos para integrar cerca de 600 pessoas que já sabiam algo sobre construir carros superrápidos o mais rápido possível.
Isso, como se descobriu, é como se constrói um time de F1 do zero.
A maioria dos novos entrantes na série mais prestigiosa do mundo compra uma equipe já existente, incluindo a fábrica. Quando a Red Bull entrou no esporte em 2005, adquiriu os restos da Jaguar. A Mercedes foi construída a partir dos pedaços da equipe chamada Brawn GP. E o outro novo nome na grade nesta temporada, a Audi, está reformulando a equipe suíça anteriormente conhecida como Sauber.
Mas a Cadillac está sendo construída do zero. “Vamos construir uma nova equipe americana”, diz Dan Towriss, CEO da TWG Motorsports. “É muito mais fácil do que tentar refazer algo da Suíça.”
“Você só precisa começar a construir com uma certa fé cega de que os elementos vão se encaixar”, afirma o veterano da Fórmula 1 Graeme Lowdon, que supervisiona a equipe desde 2024.
O projeto Cadillac conta com o apoio da General Motors e da TWG Motorsports, cofundada pelo bilionário americano Mark Walter, que também é dono do Los Angeles Dodgers e do Los Angeles Lakers.
Nessa fase, a Cadillac não tinha garantia de que algum dia chegaria a um circuito de F1. A equipe apoiada por Mark Walter, CEO bilionário da Guggenheim Partners, ainda tentava convencer a liderança da F1 a admitir uma 11ª equipe em um dos clubes mais exclusivos do esporte — sem muito sucesso até então.
Walter, que também é presidente e cofundador da TWG Motorsports, já havia entrado com sucesso na Major League Baseball ao adquirir os Dodgers e, posteriormente, entraria na NBA ao gastar US$ 10 bilhões nos Lakers. A F1 se mostrava um pouco mais exigente.
Quando Towriss fez suas primeiras consultas sobre uma possível expansão, o CEO da F1, Stefano Domenicali, o dispensou educadamente. “Eles disseram tipo: ‘Não, estamos bem’”, relembra Towriss.
Sergio Pérez, do México, já tinha mais de 280 largadas na F1 por quatro equipes diferentes antes de assinar para a temporada inaugural da Cadillac.
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Pérez havia atuado recentemente como companheiro do quatro vezes campeão mundial Max Verstappen na Red Bull antes de levar sua experiência para a Cadillac.
Apenas conseguir aprovação para correr acabou custando à TWG e à General Motors mais de um ano e várias centenas de milhões de dólares. Contratar pessoal, comprar peças, construir instalações e produzir um carro real elevou o investimento para mais de um bilhão de dólares. No entanto, em 8 de março, esta equipe americana novíssima, que ainda não completou uma única volta competitiva, espera estar na grade na Austrália para a primeira corrida de 2026.
“Estamos contra prazos implacáveis”, explica Lowdon, durante os testes de pré-temporada em Barcelona. “Não podemos chegar ao nosso primeiro Grande Prêmio em Melbourne e correr na segunda-feira quando todos os outros estão correndo no domingo.”
Os EUA não têm uma história longa ou gloriosa na F1. A outra equipe americana na grade, a Haas F1, participou de mais de 200 Grandes Prêmios sem nenhuma vitória. E nenhum piloto americano venceu uma corrida desde Mario Andretti em 1978.
Nada disso desanimou a Cadillac, uma marca cujo auge cultural ocorreu meados do século 20, depois recuou por décadas antes de voltar com SUVs enormes e vidros escurecidos. Agora, a marca espera aproveitar a popularidade global da F1 para alcançar um público mais jovem, mesmo que seja improvável que apareça no pelotão da frente em breve.
Trata-se também de uma operação multinacional que pretende superar gigantes como Ferrari, Red Bull e Mercedes. A Cadillac F1 está espalhada entre uma instalação tecnológica em Silverstone, Inglaterra, onde realiza grande parte do design aerodinâmico; um campus da General Motors em Charlotte, Carolina do Norte, com simulador de F1; e uma nova sede em Indianápolis, onde eventualmente fabricará a maior parte de suas peças. Que estejam geograficamente tão distantes não importa, diz Lowdon. “Na verdade, a única vez que um carro de F1 está realmente inteiro é quando sai da garagem para a pista.”
Até a equipe receber aprovação para entrar na F1 no início do ano passado, ninguém na Cadillac tinha visto as especificações que regeriam o esporte em 2026.
A Fórmula 1 surfou uma onda de atenção nos últimos cinco anos, transformando-se de um produto cansado, aparentemente inacessível e entediante para o público casual, em um fenômeno global de entretenimento. Quando a série da Netflix Drive to Survive ajudou a F1 a finalmente conquistar o mercado americano, foi o ápice de um esforço de anos para reformular o esporte para um público que não entendia — ou não se importava — com ângulos de asas ou compostos de pneus. Com 10 equipes pelo mundo, a F1 não via razão para abrir espaço para uma 11ª equipe.
Sinal verde
Enquanto aguardava aprovação, a Cadillac esbarrava em obstáculos a cada passo. Regras de marca registrada impediam que se chamasse equipe de Fórmula 1 até obter sinal verde; mas não poderia receber sinal verde sem provar capacidade de acompanhar a F1.
Mesmo nos materiais de marketing, a Cadillac não podia usar o termo F1. Durante a maratona de contratações, anúncios eram apenas para um “projeto de automobilismo de alto nível”. Nos testes de túnel de vento, não podia usar pneus Pirelli especializados, disponíveis apenas para equipes credenciadas.
Menos de dois anos após o início do projeto — e com uma enorme campanha de contratação —, a Cadillac F1 recebeu cerca de 143 mil candidaturas para 595 vagas.
Durante o processo, a equipe teve de preparar um documento de mais de 1.000 páginas, incluindo plano logístico, notas iniciais de design e cartas de fornecedores em potencial para demonstrar conhecimento do que estavam assumindo. Uma condição era que a General Motors se comprometesse a construir seu próprio powertrain até 2029. Enquanto isso, a Cadillac compraria e usaria motores da Ferrari. A equipe também ofereceu um pagamento único de US$ 450 milhões para as 10 equipes existentes compensarem a diluição do prêmio.
Quando a aprovação da F1 finalmente chegou em março passado, tudo mudou — como acender a luz em uma garagem escura.
Naquele momento, a Cadillac já tinha cerca de 300 funcionários e avançava no design aerodinâmico. Mas ninguém dentro da equipe havia visto o conjunto completo de regras e especificações que regeriam o esporte em 2026. Isso também era privilégio de equipes já na F1. “Antes da nossa entrada, só podíamos ver o que qualquer um baixava da internet”, diz Lowdon. “Agora podemos realmente arregaçar as mangas e trabalhar.”
Nas três primeiras temporadas na F1, a Cadillac planeja usar motores Ferrari até a General Motors produzir seu próprio powertrain em 2029.
Até o final de 2025, a Cadillac F1 havia recebido 143 mil candidaturas para 595 vagas e entrevistado cerca de 6.500 pessoas para todos os departamentos especializados. A única maneira garantida de conseguir um lugar na equipe era ser um piloto veterano de Fórmula 1 disponível, como Valtteri Bottas. Ao lado do mexicano Sergio Pérez, o finlandês de 36 anos foi anunciado como piloto inaugural — dois experientes que já estavam em equipes campeãs.
Para Bottas, chegar à Cadillac foi completamente diferente de quando ingressou na Mercedes em 2017. Na época, ele entrou em uma operação já campeã mundial, otimizada nos mínimos detalhes. O carro era praticamente imbatível. Lewis Hamilton era seu companheiro. Qualquer pergunta de Bottas já tinha uma resposta cuidadosamente considerada e típica da Mercedes.
Na Cadillac, cada pergunta é feita pela primeira vez. Não há procedimentos padrão. Um antigo ditado de F1 dizia que pilotos eram como lâmpadas — só era preciso encaixá-los. Mas Bottas está sendo solicitado a usar seus 12 anos de experiência para ajudar a projetar toda a “lâmpada”.
“A lista é quase infinita”, diz ele. “Que tipo de cinto de segurança queremos? Qual layout do volante? Qual o curso do pedal?”
Bottas, sem saber o que esperar, nunca havia se envolvido tanto em detalhes minuciosos. Mas o verdadeiro milagre, segundo ele, é que a Cadillac vá chegar a uma corrida.
“Estamos aqui”, afirma Bottas. “Temos um carro de F1 e temos uma equipe.”
Há dois anos, o grupo artístico de Brooklyn vendeu cotas de um bezerro preto apelidado de Angus, prometendo transformá-lo em hambúrgueres e bolsas de couro caso os investidores não escolhessem salvá-lo. Em 13 de março, o destino do touro, agora totalmente crescido, será decidido — e o cenário não parece favorável.
Apenas cerca de um terço dos 404 proprietários de Angus enviaram suas participações tokenizadas do animal para o portal online do grupo chamado Remorse Portal, indicando que desejam salvar sua vida. Se Angus não ultrapassar a marca de 50% até sexta-feira, ele será abatido e transformado em 1.200 hambúrgueres e quatro bolsas de couro desenhadas pelo grupo para parecer carne.
“Acho que percebemos intelectualmente que as chances de salvá-lo eram menores do que as de comê-lo, porque estamos pedindo que as pessoas mudem de ideia ativamente para salvá-lo”, disse o cofundador do MSCHF, Kevin Wiesner. “Mas agora isso é de partir o coração.”
O mundo da arte costuma estar acostumado com obras chocantes, mas “Our Cow Angus” está provocando debates polarizados entre colecionadores e em fóruns online em um nível que não se via desde que o artista britânico Damien Hirst exibiu cabeças de vaca em decomposição como arte nos anos 1990.
Crueldade ou consicentização?
Ativistas pelos direitos dos animais criticam o projeto do MSCHF como uma manobra bárbara, enquanto curadores de museus o veem como uma crítica relevante à dissonância dos consumidores em relação ao consumo de carne bovina — especialmente em um momento em que os preços da carne moída estão disparando devido à escassez de gado nas pastagens americanas.
Poucas horas após o lançamento do site “Our Cow Angus” em 2024, Angus praticamente esgotou: o plano era produzir 400 pacotes com três hambúrgueres vendidos por US$ 35 cada e quatro bolsas de couro vendidas por US$ 1.200. (Quatro “tokens de hambúrguer” estão sendo revendidos por cerca de US$ 233 cada no site StockX.)
Wiesner disse que ele e os cerca de 20 integrantes do MSCHF não imaginavam quão brutal pareceria a possível morte de Angus depois de acompanharem seu crescimento em uma fazenda de produção de carne no interior do estado de Nova York. Segundo ele, ninguém do grupo consegue sequer pedir um hambúrguer agora.
O coletivo esteve por trás de vários projetos virais recentemente, incluindo o “ATM Leaderboard” de 2022, uma instalação apresentada na feira Art Basel Miami Beach que usava um caixa eletrônico real para fotografar usuários e projetar seus saldos bancários em uma tela acima. Colecionadores passaram a competir exibindo suas fortunas, e o vencedor revelou uma conta com mais de US$ 9,5 milhões.
No ano seguinte, o grupo vendeu mais de 20 mil pares das gigantescas botas de borracha “Big Red Boots”, de estilo cartunesco.
Desde sua fundação em 2019, os artistas ganharam reputação internacional por usar estratégias típicas de marketing e moda para satirizar o consumismo e as cadeias de produção. “Our Cow Angus” representa um retorno ao mais primitivo, disse Sabina Lee, diretora de curadoria do Daelim Museum, em Seul, que organizou a primeira exposição individual do grupo em museu em 2023.
A vaca sempre esteve destinada a virar carne, disse Lee, então o coletivo criou uma forma extrema de oferecer às pessoas a chance de mudar esse destino — ou não.
Wiesner contou que a ideia de comprar e vender Angus surgiu após outro projeto que envolveu a venda de bolsas de couro personalizadas. Os artistas ficaram curiosos para investigar a cadeia de produção de couro e carne depois de instalar uma fábrica temporária em Italy, Texas, um local que lhes permitia estampar “Made in Italy” nas bolsas.
Segundo ele, dois proprietários das bolsas feitas com Angus já desistiram de suas participações, aumentando as chances de sobrevivência do animal. Outro investidor ofereceu abrir mão de sua parte na segunda-feira, mas apenas se mais investidores de hambúrguer fizerem o mesmo.
Ele se surpreende que apenas poucos investidores tenham desistido de suas cotas. “Está acima do preço de mercado”, disse sobre o valor dos hambúrgueres. Wiesner teme que alguns proprietários tenham simplesmente esquecido o prazo após a compra, feita há dois anos. Outros podem temer abrir a embalagem do token, que contém instruções para acessar o portal online e salvar Angus — já que o item pode ter valor como colecionável.
Quem devolve sua participação não recebe o dinheiro de volta, mas aumenta as chances de sobrevivência do boi.
Segundo o artista, o custo de abater Angus e transformá-lo em carne e bolsas é aproximadamente o mesmo que mantê-lo em um santuário pelo resto de sua vida natural, que poderia durar mais 20 anos.
O artista de retratos de animais David McDonald, de Nova York, conhecido profissionalmente como Davis McDavis, disse que sempre admirou o MSCHF, mas acredita que o grupo foi longe demais desta vez.
Ele já comprou um par de tênis Gobstomper do coletivo por US$ 117, cujas solas se desgastam revelando cores diferentes, em referência a um tipo de doce de casca dura. Mas agora não consegue mais usá-los — especialmente porque também é vegetariano.
“Eu sei que as pessoas comem hambúrgueres, mas vocês deram um nome a ele, então agora ele virou um animal de estimação”, disse. “Vou ficar só com meus Hoka.”
Pessoas que jamais postariam um vídeo no Instagram para promover suplementos alimentares ou tiras de clareamento dental estão, cada vez mais, fechando acordos com marcas.
Só não as chame de influenciadores.
Eles são os “Influentes alternativos”, segundo a Figures, uma nova empresa de representação para pensadores públicos e formadores de gosto que exercem grande influência em seus próprios campos — apesar de terem seguidores relativamente modestos na internet, em comparação com o enorme alcance online de celebridades e grandes criadores de conteúdo.
No mundo da gestão de talentos, “você tem agentes literários ou agentes tradicionais voltados para modelos ou estrelas de cinema, e, no outro extremo, agências de criadores e influenciadores criadas para entregar escala”, disse a cofundadora da Figures, Jacqueline Kavanagh. “Essas pessoas não se veem em nenhum desses mundos.”
Entre os primeiros clientes da Figures estão Jaime Perlman, executiva de moda de luxo que publica a revista semestral sobre moda sustentável More or Less; Sari Azout, fundadora do aplicativo de ideias para criativos Sublime; a nutricionista registrada e autora de newsletter Kat Chan; e Lucy Kumara Moore, fundadora do negócio de varejo, editorial e eventos The Sensual World. Todos representam algum tipo de “bom gosto”, atributo que ganhou importância na era da inteligência artificial.
A revista More or Less, de Perlman, já publicou conteúdo patrocinado pela Microsoft e pelo site de revenda de luxo The RealReal, enquanto Chan organizou eventos ao vivo patrocinados pela rede de salões de cabelo Salt e pelo restaurante londrino Rita’s Dining. Outros, como Mindy Seu, artista, tecnóloga e acadêmica por trás da publicação Cyberfeminism Index, têm menos experiência com acordos com marcas.
“Eu realmente não me considero uma influenciadora — acontece que distribuo meu trabalho e eventos online, mas não crio coisas especificamente para redes sociais”, disse Seu, professora associada da University of California, Los Angeles. “Ter alguém na equipe para defender você em coisas meio desconfortáveis, como negociar cachês ou decidir quais parcerias fazem sentido eticamente, é muito útil.”
Na última década, Kavanagh e sua cofundadora Leila McGlew acompanharam de perto a ascensão e o declínio da mídia digital em massa. Kavanagh trabalhou no lado comercial de veículos como Vice Media e Refinery29, enquanto McGlew atuou em estratégia de marca e parcerias na revista Dazed e na empresa de pesquisa cultural Protein.
Elas decidiram focar em uma proposta mais específica após verem marcas se desgastarem tentando alcançar escala nas redes sociais enquanto algoritmos e comportamento do consumidor continuavam mudando.
A Figures se junta a um pequeno grupo de empresas que contestam a ideia de que o marketing de influência se resume a alcançar o maior número possível de pessoas.
As redes sociais ficaram lotadas de pessoas vendendo produtos, muitas vezes de maneira padronizada. Criadores profissionais e os chamados microinfluenciadores frequentemente fazem parte de verdadeiros exércitos de marcas organizados por plataformas como ShopMy, LTK e, mais recentemente, a startup Devotion.
A rede de roupas Old Navy aumentou seu portfólio de criadores para 15 mil no último trimestre, três vezes mais do que um ano antes, informou a controladora Gap. Já a fabricante do sabonete Dove, da Unilever, trabalha com dezenas de milhares de influenciadores e quer ampliar esse número em 10 a 20 vezes.
Como resultado, alguns profissionais de marketing estão buscando diversificar seus orçamentos de marketing de influência para incluir pessoas com audiências menores — mas mais propensas a prestar atenção ao que dizem — em espaços fora do barulho dos feeds das redes sociais.
Podcast e newsletter
A fintech Mercury, voltada para startups e pequenas empresas, destina a maior parte de seu orçamento publicitário a mídias tradicionais como anúncios digitais e outdoors. Mas cerca de 20% é direcionado a parcerias com clientes reais que apresentam podcasts intelectuais, canais no YouTube e newsletters no Substack, segundo a diretora de marca Heather MacKinnon.
“Nos concentramos em fundadores de empresas, e sabemos que, quando eles não estão trabalhando, geralmente estão aprendendo algo novo ou se desafiando”, disse MacKinnon. “Nossa abordagem não é ir para a maior sala possível, mas para a sala que tem as pessoas certas.”
Entre os influenciadores mais intelectuais que trabalham com a Mercury estão o podcaster de tecnologia e história Dwarkesh Patel, a jornalista científica Cleo Abram e Azout, fundadora do Sublime e agora representada pela Figures.
“Sempre haverá momentos em que as marcas precisam de alcance massivo”, disse Max Stein, fundador e CEO da empresa de gestão de talentos Brigade. “Mas às vezes elas precisam do oposto: mergulhar profundamente em uma comunidade, em vez de tentar alcançar todas.”
Stein abriu a Brigade em 2015 para representar o que chama de profissionais criativos e formadores de gosto de alto perfil. Seu portfólio se expandiu desde a primeira geração de blogueiros de moda e estilistas famosos na internet para incluir o podcaster e consultor criativo Chris Black, a bailarina Isabella Boylston e escritores do Substack como Emily Sundberg e Casey Lewis. Stein também intermediou recentemente parcerias entre a newsletter de cultura jovem “After School”, de Lewis, e marcas como Adobe e Target.
A Figures planeja se concentrar em ajudar seus clientes a desenvolver propriedade intelectual que possa ser patrocinada por marcas ou monetizada de outras formas. Isso inclui projetos como salões de debate, workshops, livros, relatórios, performances, zines e residências criativas. A estratégia é enfatizar o que torna essas pessoas influentes em primeiro lugar, promovendo seus projetos criativos em vez de suas personalidades.
“O que buscamos é um senso de originalidade, novas ideias, pessoas cujas ideias são difíceis de a IA copiar”, disse Kavanagh.
O projeto de Sam Altman para ajudar humanos a se distinguirem de robôs na internet está apostando cada vez mais em marcas populares para promover sua ideia futurista.
Uma loja da Gap em San Francisco começou a ajudar visitantes a obter o World ID, o produto de “prova de humanidade” da startup Tools for Humanity, instalando um de seus dispositivos característicos chamados Orb, do tamanho de uma bola de vôlei, que captura imagens do rosto e dos olhos das pessoas.
Um cartão de pagamento planejado com a Visa permitirá que usuários do World ID gastem ativos digitais, incluindo Worldcoin, a criptomoeda que as pessoas recebem em muitos mercados como incentivo para se registrar.
Além disso, o aplicativo de relacionamento Tinder está testando o sistema no Japão para verificar se os usuários são humanos — e se realmente têm a idade que dizem ter.
Altman, CEO da OpenAI, criadora do ChatGPT, cofundou a Tools for Humanity em 2019 com o objetivo de proteger transações online contra interferência de bots. Campanhas anteriores da empresa incluíram anúncios ao ar livre que zombavam dos testes captcha “não sou um robô” e uma campanha celebrando avanços da humanidade, como a invenção do avião. “Em um mundo de IA”, dizia a campanha, “seja humano”.
Agora, porém, a empresa pretende depender mais de parcerias com marcas tradicionais para fazer grande parte da divulgação do World ID, disse Trevor Traina, diretor de negócios da companhia.
“Acho que estamos bem no limiar de um momento em que não precisamos dizer nada — nossos parceiros vão fazer todo o discurso”, afirmou Traina.
Segundo a empresa, os dispositivos Orb convertem imagens do rosto e da íris de uma pessoa em uma sequência anonimizada de números armazenada no próprio aparelho do usuário, sem que a Tools for Humanity guarde os dados. A companhia espera gerar receita cobrando uma taxa cada vez que um aplicativo usar o World ID para confirmar que alguém é humano.
Mas, por enquanto, a prioridade é a adoção em larga escala.
Além de distribuir Worldcoin para novos usuários do World ID, a empresa também paga a criptomoeda a operadores independentes dos dispositivos Orb em alguns mercados fora dos EUA cada vez que um novo ID é emitido. Segundo a companhia, quase 18 milhões de pessoas já receberam um World ID, incluindo 1,1 milhão na América do Norte.
Críticas
O uso de biometria e criptomoedas, porém, gerou críticas e resistência regulatória, incluindo proibições em alguns países por preocupações com segurança de dados. O Worldcoin chegou à maior parte dos EUA no ano passado, mas ainda não está disponível no estado de Nova York porque a empresa não obteve licença para distribuir moeda digital dos reguladores locais, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.
A empresa afirma que mantém diálogo com autoridades regulatórias nos EUA e em outros países.
“É uma dança constante com reguladores que, diante de tantas inovações, precisam trabalhar muito para acompanhar novas tecnologias”, disse Traina.
A Tools for Humanity também tomou medidas para responder a algumas preocupações. Por exemplo, eliminou a possibilidade anterior de armazenar dados biométricos externamente e agora os mantém apenas no próprio dispositivo do usuário. Os dispositivos Orb também são projetados para apagar os dados imediatamente após o processamento, segundo a empresa.
Mesmo assim, especialistas alertam que, se o sistema se tornar amplamente adotado, os World IDs podem se tornar alvos atraentes para roubos. Rory Mir, diretor de acesso aberto e engajamento tecnológico da Electronic Frontier Foundation, disse que operadores fraudulentos poderiam roubar ou revender essas identidades.
“No pior cenário, operadores fraudulentos poderiam simplesmente tomar o ID ou revendê-lo”, afirmou Mir. “Você não pode mudar sua íris se alguém conseguir acesso a essa informação.”
A porta-voz da empresa disse que esse cenário é apenas especulativo.
A Tools for Humanity espera que acordos com marcas como o Tinder ajudem a explicar melhor o World ID a céticos que não veem necessidade de um sistema de verificação humana ou suspeitam que o projeto seja apenas uma iniciativa ligada a criptomoedas.
Para empresas de marketing, parcerias com a startup também são uma forma de ganhar visibilidade, atrair novos clientes e, no caso do Tinder, ajudar a reduzir preocupações de segurança dos usuários.
A Gap instalou o Orb para despertar o interesse de jovens funcionários de empresas de tecnologia e IA que frequentam o centro de San Francisco. A varejista não receberá receita nem tokensWLD, não terá acesso aos dados coletados pelo dispositivo e atualmente não utiliza o World ID em suas operações.
O Tinder começou a testar o sistema no Japão porque aplicativos de relacionamento no país são obrigados por lei a verificar a idade dos usuários, disse Yoel Roth, vice-presidente sênior de confiança e segurança da Match Group, empresa controladora do aplicativo.
“Um dos maiores desafios da internet hoje é a confiança — e, para nós, isso se resume a combater bots e contas falsas”, afirmou Roth.
Segundo ele, o Tinder se interessou pelo World ID também porque o sistema exige pouquíssimos dados do usuário durante a verificação. A empresa ainda não promoveu ativamente a integração, mas já registrou milhares de usuários japoneses aderindo ao ID e agora avalia expandir o teste para outros mercados.
O cartão de pagamentos com Visa foi adiado em relação ao lançamento previsto para o ano passado, mas a empresa disse que o projeto continua em desenvolvimento. A Visa e a Tools for Humanity não comentaram sobre o cronograma.
Tinder, Visa e Tools for Humanity também não divulgaram detalhes financeiros de seus contratos.
A Dutch Bros, rede de café e bebidas ainda pouco conhecida em muitas partes dos Estados Unidos, está se tornando uma pedra no sapato da Starbucks.
Fundada em 1992 por dois produtores de leite do Oregon que estavam deixando o negócio da família, a Dutch Bros é hoje a terceira maior rede de café dos EUA em vendas e número de lojas, atrás da Starbucks e da Dunkin‘, segundo a consultoria de mercado Technomic. A Starbucks ainda responde por cerca de 48% das vendas do mercado de redes de café no país, mas a Dutch Bros e outros concorrentes menores começaram a reduzir essa liderança.
A Geração Z aderiu em peso à Dutch Bros por causa de suas bebidas energéticas chamativas e outras bebidas geladas altamente personalizáveis, como a OG Gummy Bear Lemonade e a Shark Attack Rebel, que mistura camadas de sabores de frutas verde, vermelho e amarelo — e pode ter até 111 gramas de açúcar em um copo grande com gelo.
Bebidas geladas
A rede, que possui cerca de 1.140 lojas, também vende café, mas quase nada dele é quente: aproximadamente 90% das bebidas da Dutch Bros são servidas geladas. É assim que os jovens preferem consumir bebidas, dizem executivos da companhia.
“O mercado está caminhando nessa direção, e isso está no centro do que fazemos”, afirma Tana Davila, diretora de marketing da Dutch Bros.
A executiva tem a missão de ajudar a empresa, sediada em Tempe, a manter sua vantagem em um momento de competição crescente no mercado de bebidas.
A Starbucks anunciou em janeiro que lançará suas próprias bebidas energéticas personalizáveis, notícia que fez as ações da Dutch Bros caírem. Já o McDonald’s pretende lançar novas bebidas geladas nos EUA neste ano, após testar refrigerantes artesanais e energéticos em algumas lojas — com destaque para bebidas com Red Bull.
Hoje, as bebidas energéticas personalizadas já representam cerca de 25% dos US$ 1,6 bilhão em receita da Dutch Bros.
Competição com os gigantes
Davila diz que a empresa se vê como criadora das bebidas energéticas personalizadas feitas sob encomenda.
A ideia surgiu quando clientes começaram a pedir para adicionar sabores aos energéticos. Com o tempo, a empresa desenvolveu sua própria marca proprietária de energético, chamada Rebel, que pode receber diversos sabores e coberturas.
Segundo ela, o mercado de energéticos está crescendo mais rápido que o mercado de café, o que coloca a empresa em boa posição.
A personalização também é central para a marca. Com café, energéticos, limonadas, chás e refrigerantes, o cliente pode criar praticamente qualquer combinação usando mais de 40 sabores diferentes.
Um exemplo recente é o banana-bread mocha, que pode ser preparado como latte, mocha ou café gelado batido, com coberturas como caldas, espuma fria (“soft-top”) ou até boba (bolinhas típicas do bubble tea).
As inspirações vêm de várias áreas: supermercados, cafeterias de terceira onda e até do universo da coquetelaria.
Desafios atuais
Um dos maiores desafios da Dutch Bros é a conveniência.
Muitas pessoas simplesmente não têm uma loja próxima. Redes maiores, como Starbucks e Dunkin’, possuem mais unidades, o que facilita o acesso.
Outro ponto é o horário das vendas: apenas cerca de um terço das vendas ocorre pela manhã, enquanto o restante acontece à tarde ou à noite.
Para tentar capturar mais clientes no início do dia, a empresa lançou a opção de pedido antecipado pelo aplicativo — algo que clientes do programa de fidelidade pediam há anos. Hoje, cerca de 14% dos pedidos já são feitos dessa forma.
Mais comida no cardápio
A empresa também quer ampliar as vendas de alimentos, que hoje representam uma parcela pequena do negócio em comparação com a Starbucks.
Historicamente, a Dutch Bros vendia basicamente alguns tipos de muffin tops (parte superior de muffins). Agora, a rede está adicionando mais itens de padaria e alimentos quentes, como mini-sanduíches de café da manhã.
Conquistando a Geração Z
Atrair consumidores jovens é central para a estratégia da marca.
Segundo Davila, clientes da Geração Z:
compram mais bebidas geladas;
gostam de personalizar pedidos;
valorizam atendimento amigável;
A empresa também aposta forte em redes sociais e divulgação, distribuindo brindes — como capas de canudo ou adesivos para carros — em compras de bebidas.
Expansão acelerada
A Dutch Bros aumentou seu número de lojas em 16% no ano passado, ritmo superior ao de muitos concorrentes.
A estratégia envolve três pilares principais:
Inovação em bebidas, como café com proteína
Programa de fidelidade Dutch Rewards, responsável por cerca de 73% das transações
Publicidade em novos mercados
A rede começou na costa oeste dos EUA, mas agora avança para o leste e vê oportunidades no Meio-Oeste e Nordeste do país.
No Texas, por exemplo, a empresa já possui mais de 200 lojas, a maioria aberta nos últimos anos, criando densidade suficiente para tornar a marca mais conhecida.
Davila resume a ambição da companhia: “Eu certamente gostaria que nos tornássemos um nome presente em todos os lares.”
Bastaram poucas palavras murmuradas com a boca cheia de hambúrguer para Tom Curtis atingir seu maior concorrente.
“Só está faltando uma coisa”, disse o presidente do Burger King, limpando a boca com a mão após dar uma mordida em um dos Whoppers da rede. “Um guardanapo.”
O clipe de Curtis, publicado nos canais de redes sociais do Burger King nesta semana, tem cerca de 13 segundos. Foi tempo suficiente para marcar um ponto contra o McDonald’s, cujo vídeo do CEO comendo hambúrguer virou alvo de críticas e piadas online.
Foi uma jogada provocativa do Burger King, cujas vendas anuais nos EUA somam US$ 11,1 bilhões — muito abaixo dos US$ 55,1 bilhões do líder de mercado McDonald’s, segundo a empresa de pesquisa Technomic.
No momento, as duas redes promovem novos hambúrgueres. O Big Arch do McDonald’s foi lançado oficialmente nesta semana e, segundo a empresa, está ganhando impulso nas vendas graças à atenção recebida. Já o Burger King está promovendo uma versão atualizada do Whopper.
Nas redes sociais, ambas as redes tentaram transformar seus principais executivos em garotos-propaganda. Isso significa que tudo — das expressões faciais ao tamanho da mordida — é revisto, analisado ou ridicularizado por milhões de pessoas.
Foi o que o CEO do McDonald’s, Chris Kempczinski, descobriu nesta semana, quando um vídeo que ele gravou quase um mês antes sobre o hambúrguer Big Arch voltou a circular com força. E não de forma positiva.
Kempczinski publica reflexões sobre tendências alimentares, gestão e o cardápio da rede desde 2020. Muitas vezes aparecendo de seu escritório na sede do McDonald’s em Chicago, ele acumulou centenas de milhares de seguidores nas redes sociais.
Ele publicou seu vídeo sobre o Big Arch no início do mês passado. “Eu nem sei por onde começar. Meu Deus, tem muita coisa aqui”, diz Kempczinski no clipe. “Certo, momento da verdade. Mmm. Isso é muito bom. Essa foi uma grande mordida para um Big Arch.”
McDonald’s just dropped the massive “Big Arch” burger — but even the Golden Arches’ top dog isn’t impressed 🤢🍔 🎥: Instagram/chrisk_mcd Full story at the link in bio.
Enquanto comentava sobre as cebolas crocantes e o mix de sementes do pão, Kempczinski mostrou o hambúrguer de dois hambúrgueres em um close. Foi quando os comentários começaram a surgir: “Essa foi a menor primeira mordida que já vi.” “Parece um vídeo de treinamento sobre como comer hambúrguer.” Alguns também ironizaram o CEO por chamar o hambúrguer de “produto”.
Kempczinski publicou o vídeo do Big Arch em 3 de fevereiro. No início, quase nada aconteceu. Mas na última semana, contas de humor e de notícias nas redes sociais redescobriram o vídeo e fizeram suas próprias versões, dando nova vida ao clipe.
Enquanto o vídeo de Kempczinski acumulava milhões de visualizações e milhares de comentários, o Burger King entrou na conversa com seu próprio vídeo. Vestindo um avental, Curtis pega um Whopper de um balcão da cozinha, dá uma grande mordida e acena para colegas próximos, com molho no rosto e um largo sorriso.
“Achamos que valia a pena rever isso”, escreveu o Burger King na legenda.
Centenas de comentários apareceram rapidamente. “Parece um cara que realmente já trabalhou em um de seus restaurantes”, escreveu um usuário no Instagram.
Na terça-feira, o próprio McDonald’s entrou na brincadeira, publicando uma foto do Big Arch com o slogan “dê uma mordida no nosso novo produto”. A legenda dizia: “não acredito que isso foi aprovado”.
A confusão viral está ajudando o McDonald’s onde realmente importa: no caixa. “Estamos felizes que o Big Arch esteja chamando a atenção de todos, inclusive dos concorrentes”, disse uma porta-voz. “As vendas iniciais estão superando as expectativas.”
Na quarta-feira, a Wendy’s também entrou na disputa, com um vídeo do presidente da empresa nos EUA comendo quase metade de um hambúrguer e mergulhando uma batata frita em um Frosty.
Uma porta-voz do Burger King reconheceu que “o timing pode parecer rápido”, mas disse que o vídeo faz parte dos “esforços contínuos” da rede para promover o Whopper.
Curtis trabalha desde 2021 para revitalizar o negócio do Burger King nos EUA, reformando milhares de unidades e renovando o cardápio com itens como Whoppers com picles fritos.
No Burger King, Curtis é conhecido por passar tempo atrás dos balcões e nas cozinhas da rede — e mais recentemente, também diante das câmeras. A empresa o transformou em presença constante nas redes sociais, com ações como publicar seu número de celular e incentivar clientes a ligar para dar feedback.
No McDonald’s, o vídeo do Big Arch também ampliou a presença online de Kempczinski. Desde que publicou o clipe, o número de seguidores dele cresceu 30%, segundo a empresa.
O post sobre o Big Arch já reuniu mais de 134 mil curtidas no Instagram. “Foi uma estratégia de marketing impressionante”, escreveu um usuário. “Até outras redes de fast-food estão ajudando a chamar atenção para o novo produto de um concorrente.”
Escreva para Heather Haddon em heather.haddon@wsj.com e para Jacob Bunge em jacob.bunge@wsj.com.
Dos “iates terrestres” com rabos-de-peixe dos anos 1960 aos robustos carros familiares dos anos 1980 e ao best-seller dos anos 1990 Ford Taurus, dirigir para os americanos significava dirigir um sedã.
Então SUVs e picapes conquistaram os corações — e as garagens — dos motoristas. A Ford Motor Company encerrou sua linha de sedãs em 2018. A controladora da Chrysler, Stellantis, praticamente eliminou carros de passeio de suas concessionárias. O último sedã de grande volume da General Motors saiu da linha de montagem em Kansas City, Kansas, em novembro de 2024 — um Chevrolet Malibu vermelho-cereja.
Agora, porém, consumidores querem preços mais baixos — e as montadoras consideram o antes impensável: trazer os sedãs de volta.
“Eu faria qualquer coisa para ter um sedã híbrido-elétrico”, disse o presidente da GM, Mark Reuss, em uma reunião interna recente. “Estamos trabalhando em como fazer isso.”
Executivos da Ford analisam se uma nova linha de montagem no Kentucky poderá produzir, além de picapes elétricas compactas, também sedãs. Concessionários pressionam há anos pelo retorno do Ford Fusion, cuja produção foi encerrada há cinco anos.
“O mercado de sedãs é muito vibrante”, disse o CEO da Ford, Jim Farley. “Não é que não haja mercado. É que não conseguimos encontrar uma forma de competir e ser lucrativos.”
A Stellantis também quer tentar novamente. A Chrysler trabalha em um carro compacto que custaria menos de US$ 30 mil — “bonito, divertido de dirigir e aspiracional”, segundo a CEO da marca, Chris Feuell.
Crise de acessibilidade
Os carros enfrentam uma crise nacional de acessibilidade. O preço médio de um veículo novo supera hoje US$ 50 mil. Parte da alta se deve a tarifas e custos crescentes de produção. Outra parte é resultado do foco das montadoras em veículos maiores, mais caros e repletos de recursos premium.
O dilema: picapes e SUVs geram margens muito maiores — e os sedãs representam uma fatia cada vez menor do mercado. Há 15 anos, carros de passeio respondiam por metade das vendas de veículos novos; em 2025, representaram apenas 18% do mercado americano, segundo a Motor Intelligence.
“Eles deveriam ter mantido ao menos um modelo”, diz Ivan Drury, analista da Edmunds. “Você não precisa de uma linha completa de sedãs, mas precisa de um modelo coringa.”
Um sedã mais barato também pode funcionar como porta de entrada para consumidores que depois migram para modelos mais caros. “Quando você remove um veículo da linha, as pessoas deixam de voltar para a sua marca”, afirma Drury.
A derrota para rivais estrangeiros
Ao abandonar os sedãs, Detroit praticamente admitiu derrota em uma disputa de décadas contra montadoras estrangeiras como Toyota, Honda e Hyundai Motor Company no segmento de entrada.
A Honda começou a produzir o Honda Accord em Ohio nos anos 1980, seguida pela Toyota com o Toyota Corolla e o Toyota Camry. O Accord tornou-se o carro mais vendido dos EUA em 1989.
A Ford reagiu investindo pesado no Taurus, que superou o Accord em 1992.
Mas, em meados dos anos 1990, os SUVs ganharam força. Modelos como Toyota RAV4, Honda CR-V e Ford Escape ampliaram a migração.
Hoje, entre os cinco veículos mais baratos à venda nos EUA, apenas um é de montadora americana: o Chevrolet Trax, fabricado na Coreia do Sul. A GM vendeu 200 mil unidades dele no ano passado.
Outros modelos acessíveis vêm de Kia, Hyundai, Toyota e Volkswagen.
Tempos incomuns
Após se prepararem para uma revolução elétrica, GM, Ford e Stellantis reduziram planos de produção de veículos elétricos depois que incentivos federais e metas ambientais foram eliminados pelo Congresso e pelo governo de Donald Trump. Juntas, as três montadoras absorveram mais de US$ 50 bilhões em custos relacionados à reversão da estratégia de elétricos.
Ainda assim, ganhar dinheiro com sedãs continua difícil. Até a Toyota admite que o segmento é desafiador. “Ganhamos dinheiro com o Corolla — só não muito”, disse David Christ, chefe de vendas da Toyota na América do Norte.
Apesar disso, compradores fiéis permanecem. Proprietários do Fusion, por exemplo, continuam pedindo o retorno do modelo.
“Se alguém conseguir construir um sedã acessível, ele vai vender”, diz Adam Lee, dono de uma rede de concessionárias no Maine. “Tornamos esses carros tão caros que ninguém consegue comprá-los.”
Os compradores que restam são comprometidos — e Detroit agora considera se deve ouvi-los novamente.
Escreva para Sharon Terlep em sharon.terlep@wsj.com e para Christopher Otts em christopher.otts@wsj.com.
Em sua primeira reunião presencial com o Secretário de Defesa Pete Hegseth, Dario Amodei apresentou seu argumento sobre os riscos das armas autônomas controladas por IA.
Hegseth não quis ouvir, mesmo de um CEO cuja empresa desenvolveu ferramentas de IA que se tornaram fundamentais para o exército.
“Nenhum CEO vai dizer aos nossos combatentes o que podem ou não fazer”, disse Hegseth, após interromper Amodei no meio da frase, na reunião de 24 de fevereiro, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.
A ruptura entre os dois homens, com personalidades e visões de mundo extremamente diferentes, nunca foi resolvida. Agora, a administração Trump, que defende a implementação rápida da IA como essencial para o crescimento econômico e a segurança nacional, se vê em conflito com uma gigante nacional do setor.
“Esta é uma disputa de personalidades disfarçada de conflito político”, disse Michael Horowitz, ex-funcionário do Departamento de Defesa que trabalhou com políticas de IA.
O conflito se resume a uma “quebra de confiança entre a Anthropic e o Pentágono, onde a Anthropic não confia que o Pentágono sabe o suficiente para usar sua tecnologia de forma responsável, e o Pentágono não confia que a Anthropic estará disposta a trabalhar nos casos de uso importantes que precisa”, afirmou.
Amodei, que mais de um ano antes havia garantido a funcionários ansiosos que o contrato da empresa com o exército dos EUA se resumia principalmente a burocracia, passou recentemente a enquadrar o conflito com o Pentágono como tendo graves implicações para o futuro da guerra moderna e até da sociedade.
Na sexta-feira, o presidente Trump ordenou que todas as agências federais deixassem de trabalhar com a Anthropic e atacou os executivos da empresa, chamando-os de “malucos de esquerda”.
Mais tarde naquele dia, após o prazo para que a Anthropic concordasse com um acordo sobre como suas ferramentas poderiam ser usadas expirar, Hegseth designou a empresa como um “risco na cadeia de suprimentos” – uma classificação costumeiramente aplicada a empresas estrangeiras e que impede a companhia em questão de fechar negócios com o Pentágono.
Raramente usado contra uma empresa dos EUA, o movimento — se resistir ao esperado desafio judicial da Anthropic — poderia prejudicar a sua capacidade da trabalhar com outros contratantes do governo, incluindo Lockheed Martin, Amazon e Microsoft, ameaçando relações comerciais que a tornaram uma das startups mais valiosas do mundo.
Em uma ironia, minutos antes de seu post, Trump autorizou ataques ao Irã — operações planejadas com a participação dos modelos Claude da Anthropic, segundo o Wall Street Journal.
Claude também desempenhou papel na operação militar de janeiro que capturou o presidente venezuelano Nicolás Maduro e tem sido usado para simulações de guerra e planejamento de missões, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.
Por anos, a Anthropic tem sido a empresa de IA mais vocal na defesa de limites e salvaguardas para garantir o uso seguro da tecnologia. Essa postura às vezes frustrou oficiais da administração, que incorporaram amplamente as ferramentas da Anthropic no governo, mesmo sendo incomodados pelo desejo da empresa de controlar como eram usadas.
No início deste ano, a Anthropic baniu efetivamente o uso da palavra “patógeno” em prompts de modelos como parte de suas medidas para impedir que a IA criasse uma arma biológica em seus sistemas não classificados usados por muitas agências. O bloqueio dificultou que funcionários do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) utilizassem a ferramenta. Levou semanas para que os trabalhadores obtivessem permissão para contornar a proibição.
Emil Michael, subsecretário de Defesa para Pesquisa e Engenharia, na semana passada chamou Amodei de mentiroso por deturpar a oferta do Pentágono e o acusou de tentar “brincar de Deus”. Um funcionário da administração disse que outros CEOs de tecnologia, como Sundar Pichai (Google) ou Andy Jassy (Amazon), não ditariam ao governo como usar suas tecnologias e teriam encontrado um compromisso. Outro afirmou que ferramentas de IA do governo deveriam ser ideologicamente neutras.
Até segunda-feira, agências como o Departamento do Tesouro e o Departamento de Saúde e Serviços Humanos informaram aos funcionários que suas ferramentas de IA não funcionariam mais com Claude.
Para críticos, essas medidas são o mais recente exemplo da administração pressionando uma empresa privada por métodos mais comuns em economias estatais.
“A administração Trump está seguindo o manual chinês e coagindo uma empresa americana”, disse Navtej Dhillon, ex-subdiretor do Conselho Econômico Nacional durante a administração Biden.
No cerne do conflito está uma questão inédita: quem deve controlar, em última instância, como ferramentas de IA de ponta são usadas em conflitos e na sociedade?
Amodei e Hegseth abordam a questão de maneiras diferentes. Pesquisador de óculos que frequentemente enrola seus cabelos cacheados, Amodei escreve documentos longos filosofando sobre a importância da segurança em IA e é conhecido por seu método deliberado de resolver problemas. É vegetariano desde a infância.
Hegseth é ex-apresentador da Fox News, com várias tatuagens ligadas à sua fé cristã e serviço militar. Vídeos dele levantando pesos circulam frequentemente nas redes sociais. Ele também influenciou a decisão de Trump de renomear o Departamento de Defesa para “Department of War”.
Até segunda-feira, o Pentágono não havia emitido formalmente a designação contra a Anthropic, levantando a possibilidade de um acordo ser alcançado.
Nos últimos dias, com a intensificação do conflito com o Pentágono, a Anthropic perdeu seu status como a única empresa de IA aprovada para uso em ambientes classificados. xAI de Elon Musk recentemente conseguiu acordo para ser usada nesses ambientes, e no final de sexta-feira, a OpenAI também anunciou o mesmo.
O conflito da Anthropic nunca foi pessoal e sempre envolveu o desejo do Pentágono de usar suas ferramentas de IA para todos os fins legais, disse um funcionário do Pentágono.
Professor Panda
Amodei cofundou a Anthropic em 2021 após sair da OpenAI, porque sentia que a empresa priorizava objetivos comerciais em detrimento da segurança em IA. Alguns funcionários o conhecem como “Professor Panda”. Amodei e os cofundadores da Anthropic comprometeram-se a doar 80% de suas ações fundadoras para caridade — uma participação agora avaliada em bilhões de dólares.
Amodei optou por não lançar uma versão inicial do Claude no verão de 2022, temendo que isso desencadeasse uma corrida tecnológica perigosa. A OpenAI lançou o ChatGPT algumas semanas depois, forçando a Anthropic a correr atrás.
Enquanto Amodei consolidava sua reputação por sua abordagem metódica ao desenvolvimento de IA, Michael e Hegseth tornaram-se conhecidos por sua postura agressiva nos negócios e na guerra. Michael ajudou a construir o Uber como diretor de operações quando a empresa era famosa por enfrentar concorrentes e reguladores de forma agressiva. Depois, trabalhou com dezenas de startups e defendeu a integração de tecnologia nas operações do Pentágono.
Michael tinha uma longa relação com Sam Altman (OpenAI), ajudando-o a vender sua primeira startup em 2012. Eles também trabalharam no mesmo ecossistema de startups enquanto Altman liderava o incubador Y Combinator de 2014 a 2019.
Enquanto a OpenAI avançava no mercado de consumidores, a ferramenta Claude da Anthropic conquistou um grupo fiel de desenvolvedores. Obteve sucesso em contratos corporativos e levantou capital rapidamente. A startup foi avaliada em US$ 380 bilhões após sua rodada mais recente de investimentos.
Grandes investimentos da Amazon foram particularmente benéficos e abriram caminho para o Pentágono. Em novembro de 2024, nos últimos dias da administração Biden, a Anthropic e a empresa de mineração de dados Palantir anunciaram parceria com a Amazon, dando às agências de inteligência e defesa dos EUA acesso aos modelos Claude.
A parceria permitiu que a Anthropic fosse rapidamente usada em ambientes classificados por meio dos sistemas da Palantir, tornando-a o primeiro desenvolvedor de modelos disponível para as operações mais sensíveis do Pentágono.
Alguns funcionários da Anthropic questionaram como a tecnologia seria usada. Haveria mecanismos de responsabilidade? As ferramentas poderiam ser usadas em operações que resultassem em mortes?
Amodei tranquilizou a equipe, dizendo que o trabalho era mais rotineiro do que suas perguntas sugeriam. Em uma reunião geral no final de 2024, ele comparou à ajuda do governo para agilizar tarefas burocráticas.
Mesmo com o crescimento da Anthropic, isso irritava os oficiais da administração no início do segundo mandato de Trump.
Os alertas públicos de Amodei sobre os perigos da IA e críticas a empresas que enviavam chips avançados para a China o colocaram como um dos poucos executivos de IA fora do compasso com Trump. No final de maio, Amodei alertou que a IA poderia destruir cerca de metade de todos os empregos de nível inicial de colarinho branco.
O czar de IA de Trump, David Sacks, chamou a Anthropic de “esquerdistas comprometidos” em seu podcast, citando laços da empresa com doadores democratas. A Anthropic havia contratado vários funcionários da era Biden. Amodei chamou Trump de “senhor feudal da guerra” antes das eleições de 2024.
Ainda assim, em julho, a Anthropic anunciou um contrato de até US$ 200 milhões com o Pentágono. Também fechou acordo com a agência central de compras do governo para permitir que outras agências usassem Claude.
Na mesma época, Sacks e outros funcionários trabalharam em uma ordem executiva contra “IA woke”, amplamente vista como uma ação contra a Anthropic.
O trabalho da empresa com os militares era visto por alguns no setor como forma de refutar alegações de ser “woke”, que a empresa considerou infundadas.
A Anthropic promoveu seu trabalho com o Pentágono em um evento em setembro na Union Station de Washington. Mas Amodei criticou novamente a administração por permitir a exportação de chips para países que poderiam representar ameaças de segurança. Ele afirmou que havia oficiais do governo que “parecem não entender, que ainda pensam que isto é uma corrida econômica para difundir nossa tecnologia pelo mundo, e não uma tentativa de construir a tecnologia mais poderosa que o mundo já viu”.
No final do ano passado, o Pentágono começou a discutir mudanças em contratos com empresas de IA para permitir o uso da tecnologia em todos os casos legais. A hesitação da Anthropic em dar aprovação irrestrita e a manutenção de limites contra vigilância doméstica em massa e armas autônomas frustrou alguns funcionários da administração.
Altman e a OpenAI veem oportunidade
O conflito entre Anthropic e Pentágono se intensificou em janeiro, com relatos de que seu contrato poderia ser cancelado.
Após a operação na Venezuela, um funcionário da Anthropic perguntou a um colega da Palantir como Claude foi usado. Oficiais do Departamento de Defesa descobriram e ficaram irritados, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. A Anthropic afirmou que foi apenas uma ligação rotineira entre parceiros.
Em um discurso em 12 de janeiro na SpaceX de Musk, Hegseth disse que Grok se juntaria à plataforma de IA militar do Pentágono, fazendo indiretas à Anthropic: “Não empregaremos modelos de IA que não permitam que você lute guerras.”
O Departamento de Defesa estava negociando, mas a Anthropic manteve seus limites. Queria que as proibições fossem explícitas, apesar das garantias do Pentágono de que não conduziria essas operações nem violaria a lei.
Na mesma época, veículos de mídia relataram que quando Michael perguntou a Amodei hipoteticamente se o Pentágono poderia usar Claude para destruir mísseis que se aproximavam dos EUA, o CEO respondeu que os oficiais deveriam verificar com a empresa primeiro. A resposta teria irritado a administração Trump. A Anthropic negou que Amodei tenha dito isso.
Desconfiados de um impasse, oficiais do Pentágono aceleraram discussões com o principal rival da Anthropic. Michael contatou Joe Larson (OpenAI) para verificar se a empresa poderia começar o processo de certificação para ser implantada em sistemas classificados. Oficiais já trabalhavam para garantir esse status para o Grok de Musk.
À medida que o relacionamento da Anthropic com a administração atingiu níveis baixos, aliados tentaram intermediar um acordo. Shyam Sankar (Palantir) sugeriu soluções para que a Anthropic aceitasse os termos do Pentágono, mantendo salvaguardas, depois aceitas pela OpenAI rival. A Anthropic rejeitou o acordo.
Em 24 de fevereiro, em reunião no Pentágono, Hegseth elogiou a qualidade dos modelos da Anthropic, reiterando a ameaça de rotulá-la como risco na cadeia de suprimentos. Ele também lançou uma ameaça maior: invocar a Defense Production Act, lei da Guerra Fria que dá ao governo controle de indústrias-chave, para obrigar a Anthropic a cumprir suas exigências. O secretário deu a Amodei até 17h01 de sexta-feira para aceitar o direito do exército de usar a tecnologia em todos os casos legais.
Na noite de quarta-feira, o Departamento de Defesa enviou nova linguagem sugerida para o contrato.
No mesmo dia, Sam Altman (OpenAI) entrou em contato com Michael, acreditando que o risco de acionar a Defense Production Act ou designar a Anthropic como risco na cadeia de suprimentos não era bom para o país.
Mas ele também viu oportunidade para a OpenAI. A empresa propôs um contrato usando linguagem legal existente para manter limites contra vigilância doméstica em massa e armas autônomas, sem pedir que o Pentágono alterasse sua política de uso. O contrato da OpenAI incluía outras medidas, como o envio de pesquisadores com autorização de segurança para monitorar o uso dos sistemas.
A OpenAI tem perfil político diferente da Anthropic: elogiou a estratégia tecnológica de Trump e prometeu investimentos para construir data centers para treinar modelos de IA. O presidente da OpenAI, Greg Brockman, e sua esposa doaram US$ 25 milhões a um comitê político alinhado a Trump no ano passado.
Prazo perdido
Na quinta-feira, Amodei reiterou os limites da empresa: “Nova linguagem apresentada como compromisso vinha acompanhada de jargão legal que permitiria ignorar essas salvaguardas à vontade”, disse um porta-voz.
Alguns no Departamento de Defesa acharam que as partes estavam próximas de um acordo antes da declaração de Amodei. Senadores pediram a ambos que desescalassem a situação.
Naquele dia, Altman disse à equipe que a OpenAI estava trabalhando em um acordo que poderia resolver o impasse.
Com a aproximação do prazo de sexta-feira, Trump anunciou que estava direcionando agências federais a cessar trabalho com a Anthropic. Mas as negociações continuavam.
Às 17h01, Michael ligou para Amodei, que não atendeu. Michael então conversou com outro executivo da Anthropic oferecendo um acordo que, na visão da empresa, permitiria a coleta ou análise de grandes quantidades de dados de residentes dos EUA.
Alguns dentro da Anthropic acreditavam que o acordo estava quase fechado antes da proposta final, rejeitada. Funcionários da empresa haviam descoberto recentemente que estavam na fila para ganhar um contrato do Pentágono para usar IA em drones, mas ficaram de fora devido às negociações em andamento.
Michael contestou a forma como a empresa descreveu a oferta.
Momentos depois, Hegseth publicou nas redes sociais que estava designando a Anthropic como risco na cadeia de suprimentos.
O que acontecerá a seguir não está claro, mas o impasse parece ter aumentado a popularidade da Anthropic entre os consumidores. Até domingo, Claude superou o ChatGPT, tornando-se o aplicativo mais baixado na App Store da Apple.
O JPMorgan’s oferece vistas deslumbrantes e aparições do CEO Jamie Dimon, mas administrar um pub é trabalho árduo — mesmo para o maior banco dos Estados Unidos.
O conselho de administração do JPMorgan Chase se reuniu no final do ano passado no Morgan’s, um pub inglês no 13º andar do luxuoso arranha-céu do banco. Quando uma bandeja de Guinness foi servida, as pessoas que supervisionam o maior banco americano notaram um rosto familiar flutuando na espuma: o de Jamie Dimon.
Um executivo do JPMorgan havia pedido à equipe do bar que usasse uma impressora de alta tecnologia próxima às torneiras para colocar a imagem de Dimon nas cabeças das cervejas stout, na esperança de que o chefe e seus amigos achassem a brincadeira divertida.
Dimon, que completa 70 anos no próximo mês, achou a piada engraçada. Mas proibiu que sua imagem aparecesse nos pints do Morgan’s, preocupado que isso sugerisse que o bar no prédio de US$ 3 bilhões que ele ajudou a construir fosse algum tipo de projeto de vaidade.
Ilustração por Jeremy Leung/WSJ, iStock
Agora, os bartenders carimbam as cervejas com imagens do edifício da Park Avenue ou ícones sazonais, como uma abóbora.
O fiasco da espuma foi apenas um dos primeiros contratempos desde que o JPMorgan abriu um bar dentro de um prédio comercial em Manhattan.
Dimon esteve pessoalmente envolvido no design do Morgan’s, onde brindou a inauguração do edifício no ano passado com o arquiteto principal Norman Foster, responsável pelo Gherkin de Londres. “Estamos muito felizes por termos feito isso”, disse Dimon em janeiro, quando questionado sobre o prédio. “Temos o Morgan’s Pub, cerveja Guinness.”
Mas administrar um bar é um desafio profissional que mesmo esse famoso CEO e sua equipe ainda estão aprendendo a lidar.
Os funcionários lotam o Morgan’s para almoços e happy hours, e pessoas de fora da sede têm que usar suas conexões para tentar conseguir uma mesa. Banqueiros de investimento regularmente convidam clientes importantes para lá, buscando novos negócios e impressionando-os com a vista do Empire State Building. Dimon até aparece para cumprimentar alguns convidados.
É uma cena impressionante — se você conseguir entrar.
São cerca de 10.000 pessoas que trabalham no prédio e apenas 55 assentos dentro do Morgan’s. Funcionários que querem relaxar com uma pint não conseguem muitas vezes passar das portas de vidro, que às vezes mostram mesas vazias reservadas por banqueiros que não apareceram, enquanto o bar principal está cheio. Alguns jovens funcionários agora fazem reservas no gastropub nas alturas com semanas de antecedência.
“Pode ser quase impossível conseguir entrar”, disse um banqueiro.
Para alguns, a experiência no Morgan’s é emblemática da vida moderna em Wall Street, onde benefícios antes lendários parecem estar desaparecendo.
O JP Morgan apostou alto que o clima de sua nova sede — e do bar — ajudará a restaurar algum glamour às finanças, em um momento em que tecnologia e outros setores oferecem grandes incentivos.
O Morgan’s se apresenta como um pedaço da Inglaterra no meio de Manhattan, oferecendo fish and chips (US$ 23) e shepherd’s pie (US$ 21), além de molhos de cebola caramelizada (US$ 13) e cheeseburgers (US$ 18). O banco e o notório anglophile Dimon gostam de enfatizar suas raízes inglesas, chegando a organizar uma festa de aniversário para o rei Charles III no ano passado.
Mas o Morgan’s não é um bar comum. Ele só está aberto mediante reserva para funcionários corporativos que trabalham em uma das unidades do banco em Midtown Manhattan.
Há um rigoroso controle contra bebidas alcoólicas durante o dia, embora tenha sido aplicado de forma irregular no início — até o CEO e Foster aproveitaram uma Guinness antes do almoço. Vários mocktails foram adicionados ao menu de almoço, incluindo o Morgan’s Mule sem vodka (US$ 10).
A alta demanda fez o banco repensar a estrutura geral. Reservas não são mais obrigatórias para o bar ou mesas — mas, para conseguir uma mesa, ainda será necessário reservar. Os líderes esperam que a nova política incentive qualquer pessoa a passar por lá após o trabalho.
A equipe de operações discutiu instalar portas altas de vidro que poderiam girar para abrir o espaço de assentos estilo praça de alimentação e expandir a área útil. Mesas também foram colocadas do lado de fora.
A falta de espaço na sede é uma reclamação recorrente. Embora o prédio seja o mais alto ocupado em Manhattan, a altura média dos andares é de cerca de 16 pés, o que significa que não há tanta metragem quanto se imagina.
Alguns diretores-gerentes, o maior cargo para não-executivos, agora compartilham pequenos escritórios, um rebaixamento em relação às antigas salas na Madison Avenue. No geral, o JPMorgan adotou um plano de escritório aberto para suas equipes de banco, alinhado à visão de Dimon de que chefes devem sentar junto aos funcionários comuns.
Então surgem alguns rangidos novos. Os ventos são mais fortes lá em cima, e banqueiros de investimento frequentemente se distraem com rajadas de vento assobiando contra a torre. Às vezes, a estrutura de bronze do prédio chacoalha contra as janelas de vidro.
Essas distrações irritam os jovens banqueiros quase tanto quanto a perda de benefícios valiosos cortados no ano passado.
O JPMorgan reforçou as regras de reembolso de táxis após as 21h, exigindo que os banqueiros escolham a opção mais barata. Alguns funcionários na faixa dos 20 anos estavam cobrando viagens de carro preto do escritório para seus apartamentos próximos.
Eles ainda podem cobrar o banco pelo jantar se estiverem trabalhando até tarde, mas apenas se estiverem fisicamente no escritório. Os dias de pedir DoorDash para casa às custas do JPMorgan, antes comuns, oficialmente acabaram.
Estar em Midtown no final do dia tem suas vantagens: pores do sol cativantes. Muitas partes da torre oferecem vistas das Hudson Highlands. Isso inclui a academia (US$ 60 por mês para funcionários juniores, US$ 125 para chefes), onde as bicicletas Peloton ficam de frente para o Central Park e a ponte George Washington.
“Todo mundo quer vir para este prédio, e todos que vêm têm uma experiência transcendental”, disse David Arena, chefe de imóveis do banco, no ano passado.
Escreva para Alexander Saeedy em alexander.saeedy@wsj.com
No cinturão de grãos do nordeste da China, os agricultores estão recebendo um impulso do governo: mais subsídios para plantar soja, parte de um esforço nacional estimado em US$ 1 trilhão para declarar independência econômica dos EUA.
A mais de 12 mil km de distância, em Milwaukee, o fabricante de peças industriais Husco corre para usar menos componentes chineses em suas fábricas nos EUA, à medida que o governo Trump aplica tarifas para reduzir importações e tentar revitalizar a manufatura americana. “Alguns clientes”, disse o CEO da Husco, Austin Ramirez, “exigem zero exposição à China.”
Essas tendências refletem uma realidade emergente tanto em Washington quanto em Pequim: os dois países começaram a administrar um “divórcio” complicado nas questões comerciais mais sensíveis, tratando a competição econômica como uma questão de segurança nacional.
Os líderes chineses decidiram que o “desacoplamento” das duas economias é inevitável. A mudança atende à ambição de longa data da China de não ser mais um parceiro secundário do Ocidente, rompendo com décadas de ortodoxia que vinculavam o sucesso econômico chinês à venda de produtos baratos aos americanos e ao fortalecimento tecnológico com dinheiro e know-how dos EUA.
Nenhum dos lados quer encerrar completamente o comércio entre as duas economias. Mas a rivalidade intensa com os EUA agora é o principal motor da estratégia econômica chinesa, e Xi Jinping está determinado a sair na frente.
Desde o início de 2024, Pequim destinou quase US$ 1 trilhão para construir autossuficiência em agricultura, energia e semicondutores, essenciais para sua estratégia de inteligência artificial. Essa política já ajudou a China a se tornar potência em setores como energia limpa e veículos elétricos.
Mesmo sinais de integração econômica contínua, como a aprovação de chips H200 da Nvidia para venda na China, são vistos como aceleradores da independência tecnológica chinesa. Trump afirmou que a decisão permite aos EUA monetizar sua vantagem tecnológica, enquanto retém os produtos mais avançados da Nvidia.
A Estratégia de Segurança Nacional dos EUA de 2025 prevê restaurar a independência econômica americana e concentrar o comércio com a China em fatores não sensíveis. O governo visa reduzir a dependência de commodities estratégicas produzidas na China, como minerais raros usados em eletrônicos e equipamentos militares.
O desengajamento econômico já afeta indústrias. Empresas transferem produção da China para os EUA, México ou Sudeste Asiático para escapar das tarifas. Cerca de 60% do reshoring em 2025 veio da China, segundo pesquisa da Manufacturing Advocacy and Growth Network.
A China também contornou tarifas, enviando componentes para países terceiros para posterior montagem em produtos destinados aos EUA, mantendo sua dependência subjacente. Pequim está investindo pesadamente em semicondutores, energia limpa, usinas nucleares e soja, para reduzir a vulnerabilidade a interrupções no comércio com os EUA.
No nordeste chinês, subsídios de US$ 739 por hectare para soja superam em 17 vezes os oferecidos para milho, incentivando a produção doméstica mesmo enquanto mantém compras táticas de 25 milhões de toneladas dos EUA como âncora na trégua comercial atual.
Pequim também incentiva investimentos chineses no exterior, especialmente na África e no Sudeste Asiático, para diversificar cadeias de suprimentos e contornar tarifas americanas, mostrando que a separação dos EUA é aceitável contanto que a China permaneça conectada ao resto do mundo.
O governo Trump, encorajado pela derrubada do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, está procurando integrantes do governo cubano que possam ajudar a fechar um acordo para afastar o regime comunista até o fim do ano, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.
A avaliação da Casa Branca é que a economia de Cuba está perto do colapso e que o governo nunca esteve tão frágil, após perder um aliado vital com a queda de Maduro, disseram essas fontes. As autoridades não têm um plano concreto para pôr fim ao regime comunista que governa a ilha caribenha há quase sete décadas, mas veem a captura de Maduro e as concessões posteriores de seus aliados remanescentes como um modelo — e um alerta — para Cuba, segundo altos funcionários americanos.
“Eu sugiro fortemente que eles façam um acordo. ANTES QUE SEJA TARDE DEMAIS”, escreveu o presidente Donald Trump em uma publicação nas redes sociais em 11 de janeiro, na qual afirmou que “NÃO HAVERÁ MAIS PETRÓLEO OU DINHEIRO” para Cuba.
Em reuniões com exilados cubanos e grupos cívicos em Miami e Washington, autoridades do governo têm se concentrado em identificar alguém dentro do atual governo que perceba a gravidade da situação e esteja disposto a negociar, disse um funcionário americano.
A operação de 3 de janeiro para capturar Maduro contou com a ajuda de um agente dentro do círculo íntimo do líder venezuelano, segundo autoridades. A ação militar dos EUA em Caracas matou 32 soldados cubanos e agentes de inteligência que integravam o esquema de segurança de Maduro.
Embora os EUA não tenham ameaçado publicamente usar força militar em Cuba, integrantes do governo Trump dizem, em privado, que a ousada operação que retirou Maduro do poder deve servir como uma ameaça implícita a Havana.
Avaliações da inteligência americana traçam um quadro sombrio da economia cubana, marcada por escassez crônica de bens básicos, medicamentos e apagões frequentes, segundo pessoas a par da análise.
O destino de Cuba há muito está entrelaçado com o da Venezuela: o petróleo venezuelano subsidiado tem sido um pilar da economia cubana desde pouco depois de Hugo Chávez chegar ao poder, em 1999. Washington pretende enfraquecer o regime cortando esse fornecimento, que manteve o país funcionando, disseram autoridades. Economistas afirmam que Cuba pode ficar sem petróleo em poucas semanas, paralisando a economia.
O governo americano também mira as missões médicas internacionais de Cuba — a principal fonte de divisas do país — inclusive com restrições de vistos a autoridades cubanas e estrangeiras acusadas de facilitar o programa.
Trump e seu círculo mais próximo, muitos com ligações com a Flórida, veem a queda do regime comunista cubano como o teste definitivo de sua estratégia de segurança nacional para remodelar o hemisfério, segundo autoridades. Trump considera o arranjo feito com a Venezuela um sucesso, citando a cooperação da presidente interina Delcy Rodríguez como prova de que os EUA conseguem impor seus termos.
“Os governantes de Cuba são marxistas incompetentes que destruíram o país e sofreram um grande revés com o regime de Maduro, que eles ajudaram a sustentar”, disse um funcionário da Casa Branca, reiterando que Cuba deveria “fazer um acordo antes que seja tarde demais”.
Em comunicado, o Departamento de Estado afirmou que é do interesse da segurança nacional dos EUA que Cuba seja “administrada de forma competente por um governo democrático” e que se recuse a hospedar serviços militares e de inteligência de adversários americanos.
Aliados de Cuba, como Rússia e China, prometeram apoio nesta semana. Pequim anunciou ajuda de US$ 80 milhões, enquanto o ministro do Interior russo, Vladimir Kolokoltsev, visitou a ilha para se reunir com o presidente e com militares.
Alguns integrantes do governo Trump dizem que o presidente rejeita estratégias tradicionais de mudança de regime. Em vez disso, busca fechar acordos sempre que possível e explorar oportunidades à medida que surgem. Assim como na Venezuela, isso pode significar intensificar a pressão enquanto sinaliza abertura para uma saída negociada.
Muitos aliados de Trump esperam nada menos que o fim do regime comunista em Cuba. No entanto, a queda de um governo financeiramente debilitado pode provocar turbulência e uma crise humanitária — cenário que Trump tentou evitar na Venezuela, ao manter figuras-chave no poder.
O regime cubano resistiu por décadas à pressão americana, desde a invasão da Baía dos Porcos, apoiada pela CIA em 1961, até o embargo imposto em 1962, que se tornou cada vez mais rigoroso. Os dois países se tornaram adversários logo após os irmãos Castro tomarem o poder em 1959.
Isso deixa os EUA sem um plano claro sobre o que viria depois e quem poderia substituir o regime atual, disseram fontes. O modelo venezuelano pode ser mais difícil de replicar em Cuba, um Estado stalinista de partido único que proíbe a oposição política e onde quase não existe sociedade civil organizada.
“Esses caras são muito mais difíceis de derrubar”, disse Ricardo Zúñiga, ex-funcionário do governo Obama que ajudou a negociar a breve reaproximação entre EUA e Cuba entre 2014 e 2017. “Não há ninguém tentado a trabalhar do lado americano.”
Ao longo de quase 70 anos, o regime cubano nunca aceitou negociar mudanças em seu sistema político e só implementou reformas econômicas pontuais e limitadas.
Trump acredita que encerrar a era dos Castro consolidaria seu legado e faria o que o ex-presidente John F. Kennedy não conseguiu nos anos 1960, disse um funcionário americano que trabalhou no tema durante o primeiro mandato de Trump. Essa sempre foi uma meta declarada do secretário de Estado Marco Rubio, filho de imigrantes cubanos que chegaram à Flórida em 1956.
Em Miami, onde políticos há anos defendem que a mudança em Havana passa por Caracas, a queda de Maduro gerou comemoração e a expectativa de que Cuba seja o próximo alvo. Aliados de Trump e parlamentares americanos compartilharam vídeos gerados por IA mostrando uma Cuba pós-comunista idealizada.
“O regime precisa escolher entre sair do poder ou melhorar a vida de seu povo”, disse Jeremy Lewin, subsecretário interino de assistência externa do Departamento de Estado, ao destacar o envio de US$ 3 milhões em ajuda humanitária a Cuba por meio da Igreja Católica.
Havana rejeitou publicamente essa premissa. O governo cubano ainda é dominado por Raúl Castro, de 94 anos, irmão mais novo de Fidel, enquanto o presidente Miguel Díaz-Canel, de 65, conduz o dia a dia do país.
“Não há rendição nem capitulação possível, nem qualquer entendimento baseado em coerção ou intimidação”, afirmou Díaz-Canel, vestido com uniforme militar, em cerimônia em homenagem a agentes cubanos mortos em Caracas.
O governo cubano tem sido eficaz em reprimir a dissidência de uma população empobrecida. Houve apenas dois grandes protestos: em 1994 e em 2021. Grupos de direitos humanos estimam mais de mil presos políticos no país.
Com o aumento das tensões com os EUA, Cuba realizou no domingo um dia nacional de defesa, com exercícios simulando uma “guerra de todo o povo”.
À noite, com apagões e escassez de combustível, as ruas de Havana ficam silenciosas — quebradas apenas pelo barulho de panelas sendo batidas em protesto anônimo. “Eles só fazem isso à noite. As pessoas têm medo de serem delatadas”, disse o aposentado Rodolfo Jiménez.
Após algumas falhas bastante públicas, a Netflix acredita que finalmente encontrou a fórmula tecnológica necessária para transmitir eventos ao vivo. Executivos dizem que o desafio tem sido maior do que o esperado.
À medida que a Netflix consolida seu papel como um gigante do entretenimento, inclusive com uma recente investida sobre a Warner Bros., a empresa enfrenta simultaneamente o último bastião em que a TV tradicional ainda leva vantagem sobre os streamings: esportes e eventos ao vivo.
Mas reinventar um formato com quase 100 anos para a era da internet tem se mostrado difícil até mesmo para uma das empresas mais avançadas tecnologicamente do mundo.
“Eu não tinha compreendido totalmente a complexidade”, disse Brandon Riegg, vice-presidente da Netflix para séries de não ficção e esportes, e ex-executivo de TV que começou a pressionar pela programação ao vivo quando entrou na empresa, em 2016. “Rapidamente ficou claro o tamanho do esforço necessário, tanto em recursos quanto em conhecimento técnico e execução.”
Desde março de 2023, a Netflix transmitiu mais de 200 eventos ao vivo, incluindo um programa semanal da World Wrestling Entertainment (WWE), cujos direitos foram adquiridos em um acordo de US$ 5 bilhões. Muitos eventos ocorreram sem problemas, mas outros não — entre eles a luta de boxe entre Jake Paul e Mike Tyson, em novembro de 2024, marcada por falhas de transmissão.
“Ainda estamos aprendendo muito”, disse Elizabeth Stone, diretora de tecnologia (CTO) da Netflix.
A Netflix segue otimista quanto ao potencial. Nos EUA, YouTube e Netflix emergiram como líderes de participação entre os streamings, representando cerca de 20% do consumo total de TV, segundo a Nielsen. Os co-CEOs Ted Sarandos e Greg Peters dizem que querem abocanhar os outros 80%.
A empresa afirma ter feito melhorias e acredita que finalmente “quebrou o código”, enquanto se prepara para uma ofensiva internacional de eventos em 2026 e para lançar novos recursos, como votação ao vivo em reality shows de competição.
Ainda assim, o caminho não tem sido fácil.
O que impulsiona o ao vivo
O esforço da Netflix em transmissões ao vivo ganhou força em 2022, quando o crescimento de assinaturas estagnou. Em busca de uma mudança de rumo, a empresa reprimiu o compartilhamento de senhas, lançou um plano com anúncios e decidiu expandir seu portfólio para esportes e eventos ao vivo.
Os esportes, por exemplo, podem ajudar a Netflix a acessar o mercado de publicidade da TV tradicional, estimado em US$ 70 bilhões, disse Jawad Hussain, diretor-gerente da S&P Global Ratings.
Embora a publicidade gere receita, o objetivo principal sempre foi impulsionar assinaturas com um portfólio de conteúdo mais amplo, segundo a Netflix.
Eventos ao vivo têm impacto desproporcional na geração de buzz e na aquisição e retenção de assinantes, afirmou Sarandos durante a teleconferência de resultados do segundo trimestre, em julho.
Concorrentes como Amazon e YouTube também avançaram em esportes ao vivo e até em premiações.
Mas todas essas empresas enfrentam o mesmo problema: não é simples entregar eventos de altíssimo consumo de banda para milhões de pessoas em tempo real pela internet.
“A Netflix é obviamente muito boa em tecnologia, mas não espere que o Super Bowl seja transmitido via streaming, porque com 100 milhões [de espectadores] isso é realmente muito difícil”, disse Hussain.
Por que é tão difícil?
A TV tradicional, seja via satélite ou cabo, envia seus canais como um único fluxo de dados para todos os receptores da rede. Um receptor na casa do usuário capta o sinal e um decodificador o interpreta — método conhecido como multicast.
Como a operadora de TV controla sua própria rede fechada em uma região geográfica, ela consegue planejar e reservar capacidade com antecedência.
Esse modelo não funciona na internet pública.
Quando alguém transmite algo na Netflix, inclusive um evento ao vivo, o dispositivo do usuário envia uma solicitação a um aparelho da Netflix próximo (hardware dedicado à entrega de conteúdo) dentro de um data center local. Esse aparelho responde entregando uma sessão de visualização exclusiva para aquele dispositivo, método conhecido como unicast.
Essa sessão pode vir de qualquer um dos 18 mil aparelhos da Netflix em 175 países, e a empresa é responsável por direcionar o usuário ao melhor deles. Normalmente, quanto mais próximo o aparelho, mais rápido o início da transmissão — mas eles podem ficar sobrecarregados quando precisam processar muitas sessões ao mesmo tempo.
Assim, enquanto a TV tradicional transmite o mesmo fluxo de dados para todos em uma rede fechada e confiável, a Netflix precisa entregar uma sessão por espectador, otimizada para diferentes dispositivos, competindo ainda com todo o tráfego da internet aberta.
Isso geralmente não é um problema para vídeos sob demanda, em parte porque a Netflix pré-carrega conteúdos populares nos aparelhos locais, facilitando o gerenciamento de picos.
“Todos os streamings enfrentaram dificuldades com o ao vivo de alguma forma”, disse Robert Ambrose, CEO da consultoria Caretta Research. “Não há precedente para saber quantas pessoas vão assistir de repente e que pico de tráfego isso vai gerar. De repente, você descobre que sua rede de distribuição de conteúdo está sobrecarregada e, no curto prazo, não há muito o que fazer.”
Voando às cegas
A Netflix transmitiu seu primeiro evento ao vivo, o especial de comédia “Chris Rock: Selective Outrage”, em março de 2023, sem incidentes.
Depois, a equipe percebeu oportunidades para otimizar a entrega de conteúdo para picos maiores. O problema: não havia como testar completamente novos códigos até o próximo grande evento ao vivo.
Isso ocorreu em abril de 2023, quando a Netflix tentou transmitir ao vivo o episódio de reunião da 4ª temporada do reality “Love Is Blind (Casamento às Cegas)”. Um erro no código atrasou a transmissão — que acabou não acontecendo. O especial foi disponibilizado sob demanda no dia seguinte.
Negócios de macacos
Testar e retestar código é essencial no desenvolvimento de software. A Netflix é conhecida por seu método “Simian Army”, um conjunto de agentes digitais que atacam sistemas para testar sua resiliência.
Quando um membro como o Chaos Monkey consegue “quebrar” algo, a Netflix identifica vulnerabilidades. Mas, como havia poucos eventos ao vivo e cada um tinha grande visibilidade, o risco era alto demais para usar o Chaos Monkey, disse Stone.
“Perder um minuto de um evento ao vivo é muito diferente de criar um pequeno solavanco em vídeo sob demanda”, afirmou.
Para criar um ambiente de testes com menos risco, a Netflix aprovou o “Baby Gorilla Cam”, uma transmissão ao vivo de uma família de gorilas no zoológico de Cleveland. A experiência permitiu testar novos códigos e estratégias para redirecionar espectadores para um stream reserva quando o principal falhava.
“Mas há um limite para o que aprendemos em pequena escala em comparação com a experiência da luta Paul–Tyson”, disse Stone.
A noite em que a Netflix quase foi nocauteada
Os 65 milhões de espectadores simultâneos da luta de 15 de novembro de 2024 superaram o que a Netflix havia previsto.
Stone disse ter ficado orgulhosa por os espectadores conseguirem acompanhar ao vivo, ainda que com problemas. Mas o episódio gerou repercussão pública e questionamentos compreensíveis da NFL, que havia autorizado a Netflix a transmitir dois jogos no Natal.
Parte da solução foi criar um algoritmo mais flexível para escolher de qual aparelho cada usuário receberia o stream e melhorar o desempenho desses aparelhos. Enquanto isso, Riegg precisou apaziguar executivos do futebol americano.
“Falei diretamente com a NFL e disse: ‘Por favor, não acreditem nas especulações online ou na imprensa. Dou minha palavra de que nada vai dar errado’.”
Novos patamares
Nada deu errado naquele primeiro Natal. Um ano depois, os jogos da NFL no Natal de 2025 geraram reclamações pontuais sobre buffering (carregamento) e resolução, embora a Netflix diga que não houve interrupções e que os sistemas operaram normalmente.
Andy Beach, fundador da consultoria Alchemy Creations, avalia que a Netflix está no caminho certo. “A Netflix passou da fase do ‘isso funciona?’ para eventos ao vivo de grande escala e repetíveis.”
Globalmente, 33 milhões assistiram à luta entre Jake Paul e Anthony Joshua no mês passado. Nos EUA, o jogo Lions x Vikings no Natal atraiu 27,5 milhões, enquanto Cowboys x Commanders teve 19,9 milhões.
A Netflix agora conta com um centro dedicado de operações ao vivo em sua sede em Los Gatos, Califórnia, com planos de abrir mais dois em 2026, um no Reino Unido e outro na Ásia. A empresa se prepara para uma expansão internacional, começando com a transmissão do alpinista Alex Honnold escalando um arranha-céu em Taipé neste mês.
“Na história do entretenimento, nunca houve tantas opções para o seu tempo e consumo”, disse Riegg. “Precisamos de conteúdos que realmente se destaquem.”
Isabelle Bousquette escreve para o CIO Journal do WSJ Leadership Institute. Contato: isabelle.bousquette@wsj.com .
Idosos cubanos vasculham o lixo em busca de restos de comida em Havana. Na segunda maior cidade do país, Santiago, multidões se reúnem, tocando músicas de exilados cubanos, como Gloria Estefan e Willy Chirino, que canta “Nosso dia chegará em breve”.
A destituição do ditador venezuelano Nicolás Maduro pelos EUA abalou este país de menos de 10 milhões de pessoas, que há muito depende do petróleo venezuelano para manter sua pequena economia funcionando.
Isso abre um novo e perigoso capítulo para o regime comunista da ilha, durante um colapso econômico que já rivaliza com a crise sofrida por Cuba após o colapso da União Soviética, há mais de três décadas.
Nas cidades mais pobres, as pessoas especulam abertamente sobre se os EUA derrubarão o governo do presidente cubano Miguel Díaz-Canel, sucessor de Raúl e Fidel Castro, os irmãos que lideraram a Revolução Cubana em 1959, causando ondas de choque por toda a América Latina.
“Eles estão nervosos”, disse Manuel Cuesta Morúa, ativista político baseado em Havana, sobre o governo. “A repressão vai aumentar, é a resposta típica.”
O aparato de segurança estatal de Cuba sempre manteve um controle rígido sobre todos os níveis da sociedade, desde locais de trabalho até escolas e casas de show. Mas a captura de Maduro ameaça desestabilizar o controle do governo sobre cada rua, seu profundo sistema de vigilância e sua vasta rede de informantes, dizem dissidentes cubanos e ex-funcionários.
Dois dias após a destituição de Maduro, Reynaldo Flores enfrentava seu quinto dia consecutivo sem água corrente em seu apartamento em Havana. Essa é sua nova realidade, junto com os apagões diários, o sistema de saúde falho, o lixo acumulado nas ruas e as dores nas articulações causadas por doenças transmitidas por mosquitos que assolam a ilha.
“Seis, sete, dez dias passam sem água”, disse Flores, 66 anos. “Quando a água volta, não há eletricidade para bombeá-la.”
Recentemente, ele disse que houve um dia em que simultaneamente não tinha eletricidade, água corrente nem gás para cozinhar. Como todos os cubanos, Flores economiza água em um tanque, racionando para beber, cozinhar, lavar e tomar banho. Quando acaba, ele pula de um telhado para outro para coletar baldes de água de cisternas próximas.
Ele se preocupa principalmente com os idosos que procuram comida no lixo. Quando contraem um vírus, vão a hospitais sobrecarregados para morrer. Tudo isso sem contar o calor sufocante.
“Um amigo trabalha para o governo e recebeu a tarefa de recolher idosos que vivem sozinhos e já estavam mortos em suas casas há dias”, disse Flores, aposentado e que depende de remessas de familiares no exterior.
Cuba está em uma crise econômica perpétua, que se intensificou desde a pandemia de Covid-19. Mais de 2,7 milhões de pessoas — cerca de um quarto da população da ilha, a maioria jovens e ambiciosos — fugiram desde 2020, a maior parte para os EUA. É um “esvaziamento demográfico”, disse o demógrafo cubano Juan Carlos Albizu-Campos. Ele estima que a população de Cuba seja agora de oito milhões.
O resultado combinado da emigração em massa e da queda da fertilidade feminina é que os nascimentos vivos em Cuba despencaram a níveis inferiores aos de 1899, quando Cuba emergiu de uma sangrenta guerra de independência de três anos que dizimou sua população, disse Albizu-Campos.
“O problema de Cuba já era existencial”, disse Joe García, ex-congressista cubano-americano que fala frequentemente com altos funcionários da ilha. “Do lado cubano, é desespero e ainda mais desespero”, disse García, democrata da Flórida.
O turismo, outrora um dos pilares econômicos da ilha, despencou, com ocupação hoteleira abaixo de 30%, segundo executivos do setor. A maioria dos turistas, oriundos principalmente da Rússia e da China, chega com pacotes all-inclusive, o que significa que o gasto não chega à população local, já que os visitantes não consomem muito fora do itinerário pré-aprovado.
Um novo hotel de luxo de 42 andares se ergue sobre o outrora elegante distrito Vedado, em Havana. No entanto, o hotel espanhol de US$ 200 milhões está “quase vazio”, disse William LeoGrande, analista de Cuba na American University de Washington, que recentemente retornou do país.
Ele estima que a renda em moeda forte proveniente do turismo caiu 75%.
Muitos cubanos dependem das remessas de familiares no exterior. O Estado depende de bilhões de dólares arrecadados com milhares de médicos cubanos trabalhando na Venezuela, México e outros países, e das importações subsidiadas de petróleo venezuelano para manter a luz ligada. Mas agora o fornecimento de petróleo venezuelano pode ser cortado pelos EUA.
Cuba não tem dinheiro para comprar petróleo no mercado internacional e só pode esperar que países amigos, como Angola, Argélia, Brasil ou Colômbia, compensem a falta caso a Venezuela, sob pressão dos EUA, interrompa seus envios, disse Jorge R. Piñon, que acompanha o consumo de energia em Cuba na Universidade do Texas.
A Venezuela fornecia cerca de 35 mil barris de petróleo por dia dos aproximadamente 100 mil barris diários que a ilha precisa. Cuba produz cerca de 40 mil barris por dia de petróleo pesado, carregado de enxofre e metais, que alimenta suas usinas de energia decadentes. O México, que enviou cerca de 22 mil barris por dia no ano passado, reduziu os envios para cerca de 7 mil, enquanto a Rússia envia cerca de 10 mil barris diários, disse ele.
Cortar o petróleo venezuelano devastaria a economia cubana.
“Não ficaria surpreso se os americanos disserem à Venezuela para continuar fornecendo petróleo a Cuba, para não abrir outra caixa de Pandora”, disse Piñon, que calcula os envios de petróleo para a ilha usando relatórios de serviços que rastreiam navios-tanque. Sem o petróleo venezuelano, ele estima que a infraestrutura energética de Cuba colapsaria em 30 dias.
Enquanto o país luta para sobreviver, a grande questão será a resposta da liderança cubana, que governa com punho de ferro desde a revolução liderada pelos Castros e seus “homens barbudos de verde-oliva”. A primeira ação do regime comunista foi obrigar os trabalhadores a participarem de um comício no fim de semana para denunciar a captura de Maduro e declarar dois dias de luto, com bandeiras a meio mastro em homenagem aos 32 soldados cubanos e oficiais de inteligência militar de alto escalão que morreram durante a incursão militar dos EUA.
Sem petróleo, há risco de que os apagões rotativos, que às vezes deixam os residentes da ilha com apenas quatro horas de eletricidade por dia, piorem. Aqueles que dependem de geradores terão dificuldade em operá-los sem acesso ao combustível. Até cozinhar será complicado, já que alguns moradores recorreram a fogões movidos a petróleo.
LeoGrande disse que, ao contrário da crise após o colapso soviético, conhecida como “período especial”, quando a dor econômica foi sentida em toda a sociedade cubana, o sofrimento nesta crise recai de forma desproporcional sobre os cubanos mais pobres, que não têm parentes no exterior enviando dólares.
“Há mais desigualdade visível”, disse LeoGrande. “Os pobres estão tão mal quanto no período especial, mas um segmento da classe média e alta tem acesso a dólares e não está tão mal, o que causa uma tensão social real.”
Pode ser difícil entender a realidade de Elon Musk — especialmente quando ele parece estar no caminho para se tornar o primeiro trilionário do mundo ainda este ano.
Nem ele próprio tem certeza dessa realidade.
Há muito tempo, Musk fala sobre a possibilidade de estarmos vivendo em uma simulação de computador. E uma prova disso, para ele, pode muito bem ser o ano de 2025.
De que outra forma explicar o ano vivido pelo homem mais rico do mundo?
Foi um período repleto de reviravoltas vertiginosas na política e nos negócios. Para desgosto de seus críticos, os acontecimentos de 2025 estão impulsionando Musk para 2026 com um tipo de ímpeto que pode mantê‑lo como uma força poderosa na política nacional e levar seu patrimônio líquido ao chamado Clube das Quatro Vírgulas (acima de US$ 1 bilhão) — tudo isso antes mesmo de receber um centavo do novo pacote de remuneração da Tesla, de US$ 1 trilhão, aprovado pelos acionistas no outono passado.
Para deixar claro, a hipótese da simulação é mais ficção científica do que ciência. Pense no filme “Matrix”, ou em um videogame extremamente elaborado, ou em uma série da Netflix muito complexa que estaria sendo observada por seres avançados.
Entender as ideias de Musk sobre simulação ajuda a esclarecer como ele usa o poder da narrativa para vender aos investidores seus objetivos bastante audaciosos para 2026. Entre essas ambições estão: ampliar a produção do Cybercab, alcançar uma produção “em alto volume” de computadores cerebrais e, finalmente, atingir a reutilização total da Starship, o enorme foguete desenvolvido para missões à Lua e a Marte.
“Eu tenho essa teoria sobre prever o futuro, que é a seguinte: o desfecho mais interessante é o mais provável”, disse Musk em uma participação em podcast algumas semanas atrás.
A ideia se baseia no pensamento de que, se nossa realidade for mesmo uma simulação, ela seria encerrada caso se tornasse entediante.
“Outra forma de pensar nisso é como se fôssemos uma série alienígena da Netflix, e essa série só continuaria se tivesse boa audiência”, disse Musk. “Se você aplicar Darwin à teoria da simulação, então apenas as simulações mais interessantes continuam. Portanto, o desfecho mais interessante é o mais provável, porque é isso ou a aniquilação.
“Então”, acrescentou, “na verdade temos apenas um objetivo: manter as coisas interessantes.”
Goste‑se ou não de Musk, ele certamente manteve tudo interessante em 2025.
Nos últimos 12 meses, vimos Musk ascender ao auge do poder político (assumindo o título de “Primeiro Amigo” ao lado do presidente Trump na Casa Branca), apenas para depois ver essa relação especial ruir de forma espetacular.
Nos negócios, Musk viu o valor de mercado da Tesla atingir um novo recorde, mesmo com as entregas de veículos elétricos caindo pelo segundo ano consecutivo, prejudicadas especialmente pelos resultados na Europa. O entusiasmo dos investidores foi alimentado pela saída de Musk de Washington — a ponto de aprovarem um pacote de remuneração recorde para seu CEO favorito, que pode render até US$ 1 trilhão caso ele cumpra uma lista de metas audaciosas que, na prática, transformariam a montadora em uma empresa de robótica na próxima década.
Sua empresa de foguetes, a SpaceX, flerta com a abertura de capital ainda este ano, no que pode ser um IPO gigantesco, enquanto Musk fala sobre seus planos de abrir centros de dados de inteligência artificial no espaço e uma fábrica na Lua.
Sua empresa de redes sociais, X, publicou uma série de posts antissemitas gerados por seu chatbot de IA, o Grok, incluindo referências a si mesmo como “MechaHitler”. Foi um tipo de erro público que poderia ter derrubado qualquer outra startup, mas que rapidamente foi esquecido enquanto Musk seguia para seu próximo momento viral. Ele vem trabalhando para captar mais bilhões de dólares para sua empresa de IA, a xAI, que busca rivalizar com a OpenAI e o Google no futuro da inteligência artificial.
Para Musk, o último ano teve tantas idas e vindas que é difícil lembrar de todas. Isso também se encaixa em sua teoria de que a simulação favorece um arco narrativo de altos e baixos, e não uma trajetória linear.
“Olhe para a história do presidente Trump”, disse Musk no podcast de Katie Miller em dezembro. “É mais interessante que ele tenha perdido no meio do caminho e depois vencido o segundo mandato — como um arco de história: primeiro sobe, depois cai e então ressurge… Se você seguir minha teoria de que o desfecho mais interessante é o mais provável, então esse era o desfecho mais provável. Era inevitável.”
Até a própria relação de Musk com Trump seguiu esse padrão no último ano. O Primeiro Ato foram os primeiros dias na Casa Branca, quando Musk parecia presença constante, atacando gastos federais por meio de seu Departamento de Eficiência Governamental, para desgosto de alguns. Depois veio o Segundo Ato: o rompimento. Agora o Terceiro Ato surpreende muitos: após o assassinato do ativista conservador Charlie Kirk, Musk pareceu fazer as pazes. E agora ele deve direcionar ainda mais dinheiro aos republicanos nas eleições de meio de mandato deste ano.
Enquanto isso, a fortuna pessoal de Musk alcançou novos patamares. Seu patrimônio líquido disparou, mais do que dobrando, para cerca de US$ 726 bilhões no fim do ano, segundo cálculos da Forbes.
Essa estimativa foi impulsionada pela SpaceX buscar uma avaliação de US$ 800 bilhões em uma venda secundária de ações, acima da avaliação anterior de US$ 400 bilhões. Seu patrimônio também foi beneficiado por uma decisão da Suprema Corte de Delaware, em dezembro, que reverteu uma instância inferior e abriu caminho para Musk receber seu contestado pacote de remuneração de 2018, agora avaliado em US$ 139 bilhões, por seu trabalho como CEO da Tesla.
Se a SpaceX — da qual Musk detém cerca de 42% — abrir capital a uma avaliação de US$ 1,5 trilhão, como sugeriu a Bloomberg News, fica fácil ver como seu patrimônio poderia chegar a US$ 1 trilhão ainda este ano.
Esse nível de riqueza pessoal é difícil de imaginar — quase como se estivéssemos em uma simulação. Talvez seja por isso que Musk passou grande parte de sua vida adulta pensando sobre o tema. Ele fala publicamente sobre isso há pelo menos uma década.
Seu argumento da simulação parte da observação do ritmo de desenvolvimento da vida moderna: em apenas duas gerações, os videogames evoluíram de gráficos simples como os de “Pong” para simulações 3D fotorrealistas, com milhões de jogadores competindo simultaneamente. Para ele, faz sentido que uma sociedade mais avançada já tenha seguido esse caminho.
“Dado que estamos claramente em uma trajetória para ter jogos indistinguíveis da realidade… parece lógico concluir que a probabilidade de estarmos na realidade base seja de uma em bilhões”, disse Musk em uma conferência de tecnologia em 2016. “Então me diga o que há de errado com esse argumento.”
Mais recentemente, ao relembrar o que aconteceu em sua própria vida, Musk pareceu ainda mais convicto. “Se você fosse eu”, perguntou Musk, “você acharia que isso é real ou uma simulação?”
Seis meses antes de enviar forças americanas para capturar o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, Trump queria fechar um acordo com o líder venezuelano — não removê-lo à força do poder.
Durante uma reunião em julho no Salão Oval, Trump disse a assessores que desejava continuar negociando com o regime de Maduro para chegar a um acordo que desse prioridade a empresas americanas de petróleo interessadas em extrair na Venezuela, optando pela diplomacia com o líder autocrático.
Trump reconheceu que o secretário de Estado, Marco Rubio — que há muito o alertava contra confiar em Maduro e acreditava que as receitas do petróleo fortaleceriam o regime — se opunha à abordagem. Ainda assim, segundo pessoas informadas sobre a conversa, Trump afirmou que queria um acordo: “Vamos fazer do meu jeito.”
No fim de dezembro, o presidente decidiu partir para a ação militar, frustrado com as repetidas tentativas de persuadir Maduro a deixar o cargo em troca de anistia por seus supostos crimes. A operação ousada realizada durante a madrugada, que terminou no sábado com Maduro preso em uma cadeia em Nova York, tornou-se um teste de uma política externa mais musculosa que Trump indicou poder aplicar em outras partes do mundo, de Colômbia à Groenlândia.
No segundo mandato de Trump, a Venezuela rapidamente se tornou um ponto improvável de convergência de suas prioridades: deportações em massa, combate ao tráfico de drogas, o apelo das vastas reservas de petróleo e minerais do país e a pressão histórica de Rubio — filho de imigrantes cubanos — e de outros setores mais duros para derrubar o regime brutal.
“A Venezuela é uma tempestade perfeita, reúne tudo com que o governo Trump se preocupa”, disse Elliott Abrams, que cuidou dos assuntos venezuelanos no primeiro mandato de Trump.
A fixação de Trump pelos recursos do país, expressa a aliados após retornar à Casa Branca, desencadeou disputas internas entre assessores e lobistas do setor de petróleo sobre o formato da política para a Venezuela. Trump deixou claro que se importava mais com um acordo com Caracas que atendesse à sua agenda “America First” — incluindo cooperação em deportações e contratos favoráveis de petróleo — do que com a pressão por uma transição democrática.
No fim, Rubio e outros assessores mais linha-dura prevaleceram, após convencerem o presidente de que Maduro era um narcotraficante terrorista que não deixaria o poder por vontade própria.
Do lado venezuelano, Maduro via a campanha de pressão de Trump como um blefe, segundo ex-assessores e empresários próximos ao regime. “Presidente Donald Trump, você deve ter cuidado porque Marco Rubio quer manchar suas mãos de sangue”, disse Maduro em setembro, denunciando a pressão dos EUA como uma tentativa de se apropriar dos recursos do país.
Maduro aparecia em vídeos dançando e cantando em eventos de fim de ano, enquanto dizia aos americanos — em inglês precário — que queria paz e que “não se preocupem, sejam felizes”. Trump, em conversas privadas, expressou frustração com os vídeos, dizendo a assessores que considerava Maduro pouco sério, segundo um alto funcionário do governo.
Em 23 de dezembro, Maduro rejeitou o que não sabia ser sua última oferta para deixar o cargo. Em vez de viver o resto de seus dias no exílio com a família, um helicóptero o retirou de Caracas e o colocou sob custódia dos Estados Unidos.
Trump, por ora, passou a tratar com cautela a número dois do regime, Delcy Rodríguez, depois que assessores lhe disseram que a socialista de 56 anos poderia estar mais aberta a trabalhar com empresas americanas.
Quando Trump voltou à Casa Branca em janeiro passado, sentia que havia investido tempo e capital político demais, sem sucesso, para derrubar Maduro em seu primeiro mandato, segundo ex-integrantes do governo.
Mas o tema rapidamente voltou ao seu radar. Muitos aliados de Trump viam a permanência de Maduro no poder como uma humilhação persistente e um sinal de que Washington tolerava um regime abertamente hostil em seu próprio hemisfério.
Presidente transacional que nunca se entusiasmou com a oposição venezuelana, Trump colocou um de seus assessores mais confiáveis para missões internacionais delicadas, Richard Grenell, no comando do dossiê.
As instruções eram diretas: garantir a libertação de americanos detidos pelo regime, abrir espaço para empresas petrolíferas dos EUA e convencer Maduro a aceitar voos de deportação de venezuelanos que o governo Trump queria remover do país. Maduro havia interrompido esses voos no início de 2024, após o colapso das negociações com o governo Biden.
A estratégia parecia funcionar. Apenas 11 dias após o início do mandato, Grenell voou a Caracas e publicou fotos apertando a mão de Maduro no Palácio de Miraflores. No mesmo dia, retornou com seis americanos que os EUA afirmaram ter sido detidos injustamente. Os voos de deportação foram retomados, partindo regularmente dos EUA para Caracas às quartas e sextas-feiras.
Até o fim de dezembro, mais de 13,6 mil venezuelanos haviam sido devolvidos ao país, segundo análise do ICE Flight Monitor, grupo que acompanha voos de deportação. A Casa Branca divulgou vídeos chamativos afirmando que estava deportando membros de gangues e criminosos.
Publicamente, nos primeiros meses, o governo manteve uma postura dura. Mauricio Claver-Carone, então enviado especial para a América Latina, insistiu que não havia “quid pro quo” com Maduro. “Não é uma negociação em troca de nada”, disse a repórteres em janeiro. “Não precisamos do petróleo venezuelano.”
Rubio alertou Trump de que Maduro havia fechado cinco acordos com diferentes governos nos últimos 10 anos e rompido todos eles, segundo um assessor do secretário.
Trump decidiu então oferecer uma saída a Maduro.
Em maio, os EUA propuseram que Maduro deixasse a Venezuela para viver no exílio em troca de anistia que o protegeria de acusações de tráfico de drogas. As sanções contra ele e outros integrantes do regime seriam suspensas, e os EUA trabalhariam com um governo de transição, segundo pessoas a par do assunto. Uma das fontes disse que houve discussões iniciais sobre esse governo ser liderado pela vice-presidente Delcy Rodríguez.
O líder venezuelano rejeitou essa e outras ofertas semelhantes.
Enquanto autoridades americanas equilibravam prioridades, o petróleo permanecia central. Empresas de energia pressionavam para o afrouxamento das sanções, alegando que elas excluíam os EUA de acordos lucrativos, impediam a recuperação de bilhões em dívidas e davam à China maior influência no hemisfério, além de estimular a migração a partir de uma Venezuela economicamente devastada.
Em julho, a Chevron recuperou o direito de produzir petróleo no país, revertendo uma decisão anterior que havia cancelado uma licença concedida no governo Biden.
Lobistas do setor pressionavam para que mais empresas retornassem. Diziam que o regime estava tão desesperado que aceitaria condições extremamente favoráveis — incluindo contratos sem licitação e pouca supervisão ambiental ou regulatória. Autoridades americanas, porém, temiam que fechar negócios mantendo Maduro no poder irritasse a base política do presidente.
Altos integrantes do governo, incluindo Rubio e o assessor de segurança interna Stephen Miller, ressaltaram a Trump que promotores dos EUA haviam acusado Maduro de chefiar uma organização de narcotráfico — algo que ressoou com o presidente.
Em agosto, os EUA dobraram para US$ 50 milhões a recompensa pela captura de Maduro. “Sob a liderança do presidente Trump, Maduro não escapará da Justiça”, disse a procuradora-geral Pam Bondi.
No primeiro mandato, Trump já havia considerado opções militares, mas enfrentou resistência do Pentágono. Desta vez, as Forças Armadas se moveram rapidamente. Em setembro, os EUA lançaram uma campanha militar para bombardear embarcações suspeitas de tráfico no Caribe e no Pacífico Oriental, ação que matou mais de 110 pessoas, seguida pelo maior deslocamento militar na região em décadas.
A escalada provocou questionamentos no Congresso. “Quero saber o que vem a seguir. É política derrubar Maduro? Deveria ser”, disse o senador Lindsey Graham.
Embora o governo negasse publicamente que se tratava de mudança de regime, no fim do verão autoridades começaram a desenhar planos para remover Maduro. Serviços de inteligência passaram a monitorá-lo de perto, e forças especiais treinaram a operação.
Em outubro, Trump autorizou operações encobertas da CIA. Maduro reagiu dizendo que os EUA queriam justificar uma invasão para saquear os recursos do país.
Após semanas de dúvidas, em 23 de dezembro houve uma última tentativa para que Maduro deixasse o poder voluntariamente. Ele recusou.
“Ele recebeu ofertas muito, muito generosas e escolheu agir como um homem selvagem”, disse Rubio no sábado. “E o resultado foi o que vimos esta noite.”
Escreva para Vera Bergengruen em vera.bergengruen@wsj.com, Juan Forero em juan.forero@wsj.com, Kejal Vyas em kejal.vyas@wsj.com e Alex Leary em alex.leary@wsj.com.
Os contratos futuros de petróleo quase não oscilaram no início da segunda-feira, na primeira sessão de negociação desde que os Estados Unidos derrubaram o líder venezuelano Nicolás Maduro e o presidente Donald Trump prometeu enviar perfuradores americanos para reativar a produção de petróleo do país.
Os futuros nos EUA para entrega ainda neste mês subiam 0,4%, sendo negociados em torno de US$ 58 o barril em Nova York. Os contratos futuros do Brent avançavam em magnitude semelhante, para cerca de US$ 61 o barril.
Os mercados financeiros, em geral, começaram a semana com pouca movimentação. Os futuros das ações americanas subiam levemente — os contratos atrelados ao S&P 500 avançavam 0,35%. Os futuros do ouro subiam cerca de 2,5%, enquanto a prata dava continuidade à sua forte valorização recente, com alta superior a 5%.
O comportamento do mercado de petróleo refletiu a avaliação, entre traders, de que ainda existem obstáculos relevantes antes que o petróleo venezuelano possa chegar com mais facilidade aos mercados globais.
As sanções impostas para pressionar o regime de Maduro têm sido um pilar de sustentação dos preços do petróleo, que vêm sendo deprimidos por um excedente crescente de oferta.
Os preços de referência nos Estados Unidos caíram 20% no ano passado e estão próximos dos níveis mais baixos em quase cinco anos, ameaçando a rentabilidade da indústria petrolífera americana. Ainda assim, produtores de xisto nos EUA continuaram a bombear volumes recordes de petróleo. Ao mesmo tempo, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e seus aliados vêm revertendo cortes de produção.
É improvável que haja um aumento significativo das exportações de petróleo da Venezuela enquanto as sanções não forem flexibilizadas.
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, disse no domingo, em entrevista ao programa “Face the Nation”, da CBS, que o país continuará a aplicar o bloqueio a navios-tanque iniciado no mês passado, como forma de pressionar os novos líderes da Venezuela, em vez de assumir a gestão cotidiana do país, como Trump havia sugerido anteriormente.
“Continuamos com essa quarentena, e esperamos ver mudanças, não apenas na forma como a indústria do petróleo é administrada em benefício do povo, mas também para que o tráfico de drogas seja interrompido”, afirmou Rubio.
Navios-tanque com destino à Venezuela mudaram de rota ou ficaram parados após a incursão realizada antes do amanhecer de sábado.
A Venezuela afirma que suas reservas de petróleo bruto superam 300 bilhões de barris. Se isso for verdade, trata-se da maior reserva do mundo. Ainda assim, as sanções e duas décadas de má gestão, subinvestimento e abandono reduziram a produção de petróleo do país a um volume relativamente pequeno.
Analistas alertam que, mesmo em uma transição de poder ordenada, serão necessários anos e investimentos de grande magnitude para que a produção venezuelana retorne ao pico histórico de cerca de 3 milhões de barris por dia, ante níveis atuais em torno de 900 mil barris diários.
Para efeito de comparação, a produção dos Estados Unidos vem registrando novos recordes, aproximando-se de 14 milhões de barris por dia, segundo a Energy Information Administration (EIA). Apesar da produção doméstica recorde, muitas refinarias americanas — especialmente nas costas do Golfo e Oeste — são projetadas para processar petróleo pesado e ácido do México e da Venezuela, e não o petróleo leve e doce produzido em grande escala pelos frackers.
Em um cenário de transição ordenada, analistas do Jefferies estimam que a Venezuela poderia, em três a cinco anos, produzir cerca de 500 mil barris adicionais por dia por meio de suas atuais joint ventures com empresas globais de energia. Entre elas está a Chevron, a única grande petroleira americana que ainda opera no país.
“Avanços além desse nível podem ser muito mais complexos e caros”, escreveram os analistas em relatório a clientes no domingo. “O potencial de elevar a produção venezuelana depende de capital, o que, por sua vez, está condicionado à estabilidade política e provavelmente exigirá garantias do governo dos EUA.”
Empresas americanas de energia — que, segundo o The Wall Street Journal, não tiveram aviso prévio da incursão dos EUA — agora precisam decidir se atenderão ao apelo de Trump para “entrar, gastar bilhões de dólares, consertar a infraestrutura gravemente deteriorada, a infraestrutura do petróleo, e começar a gerar dinheiro para o país”.
Além de um ambiente seguro para operar, analistas do RBC afirmam que executivos do setor atualmente atuando na Venezuela estimam que seriam necessários cerca de US$ 10 bilhões por ano para recuperar o setor energético.
“Isso impõe um peso significativo às empresas petrolíferas americanas e pode forçá-las a desempenhar um papel quase governamental no fortalecimento de capacidades e no desenvolvimento do país”, disseram.
Escreva para Ryan Dezember em ryan.dezember@wsj.com
A rotação de setores pode ser uma excelente forma de encontrar pistas sobre para onde o mercado está caminhando – mas é um sinalizador que muitas vezes passa despercebido.
As rotações ocorrem quando o dinheiro grosso se move de uma área da bolsa de valores para outra. Investidores institucionais podem migrar bilhões de dólares em ações de tecnologia (que apostam em crescimento acelerado) para papéis de titãs industriais bem estabelecidos, que pagam dividendos robustos. Isso pode se manifestar quando os investidores começam a favorecer ações de alta capitalização (large-caps) em detrimento das pequenas empresas (small-caps).
Essencialmente, os investidores buscam refúgio em outro setor enquanto a indústria onde estavam investindo passa por um ajuste. É por isso que é importante monitorar o desempenho das ações da sua própria carteira e estar pronto para considerar a movimentação do seu dinheiro.
Se as ações que você possui em uma área específica caírem subitamente abaixo das principais médias móveis – indicadores que representam o preço médio de uma ação em um período –, ouça esse sinal. Pode não ser tarde demais para sair dessas posições e entrar nos novos setores favoritos. Lembre-se: pode levar algum tempo até que as coisas voltem ao normal.
A rotação de setores acontece por diversos motivos, incluindo mudanças nas condições econômicas, inovações que despertam o interesse do consumidor ou mudanças em políticas governamentais. Temas macroeconômicos, como o preço das commodities ou as taxas de juros, também influenciam o destino de mineradoras ou de empresas de serviços financeiros sensíveis aos juros.
Os primeiros sinais geralmente surgem quando um dos 11 setores do S&P 500 começa a decolar. Em vez de as ações de tecnologia subirem de forma ampla, você pode ver apenas as ações de fabricantes de chips aquecerem, ou talvez as ações de mineradoras de ouro subirem enquanto o setor de commodities em geral fica estagnado.
Um exemplo ocorreu quando os EUA emergiram da crise da Covid em 2022. Os principais índices acionários despencaram após dispararem em 2020 e 2021. O S&P 500 perdeu quase 20% e o Nasdaq caiu cerca de 33%.
O investidor comum pode ter culpado o recuo pelos aumentos agressivos de juros do Federal Reserve para combater a inflação. Mas, nos bastidores, os institucionais também estavam rotacionando de tecnologia e semicondutores – que prosperaram em 2020/21 – para áreas que estavam atrasadas, como energia e serviços de petróleo e gás.
Nos primeiros 10 meses de 2022, por exemplo, as ações da Meta (dona do Facebook) caíram de US$ 350 para menos de US$ 90, enquanto a Occidental Petroleum saltou de US$ 30 para mais de US$ 60.
Outros sinais de alerta podem aparecer em qualquer lugar. No caso da Occidental e da Meta, não apenas os movimentos de preço foram acentuados, mas o volume de negociação também foi alto. Em março daquele ano, o volume quase triplicou para ambas as ações – um sinal revelador de atividade institucional, ou seja, de peixes grandes do mercado. Uma regra para muitos investidores individuais é seguir para onde os tubarões estão indo e acompanhá-los.
Outro lugar para observar são os ETFs (fundos de índice) focados em setores específicos. Em 2021, o fundo State Street Technology Select Sector SPDR subiu 34,7% e caiu 27% no ano seguinte. Enquanto isso, o fundo de Energia da mesma família ficou estagnado em 2021, mas saltou 64% em 2022.
Além disso, os investidores devem prestar atenção aos setores que estão subindo para o topo do ranking de desempenho (os 5 ou 6 melhores grupos industriais). Você deve focar nos grupos das suas ações e ver como eles se comparam aos outros.
Se um mercado de alta (bull market) continua avançando, mas suas ações de crescimento estão ficando para trás, o mercado pode estar sinalizando uma mudança.
Existem algumas ressalvas. Muitos grupos industriais são ponderados pelo preço, então é possível que uma única ação de valor muito alto determine o sucesso ou fracasso de um grupo inteiro. Nesses casos, não seria considerado uma rotação setorial real.
Além disso, mercados voláteis que oscilam descontroladamente podem criar a ilusão de rotação, mas muitas vezes não resultam em tendências significativas. Às vezes, setores entram e saem de moda em um ou dois dias enquanto investidores buscam abrigo temporário. Nesses casos, é melhor manter seus ativos em investimentos seguros até que a poeira baixe.
A chave para lucrar com a rotação de setores é manter os olhos abertos para onde o grande capital está fluindo. Deixe o mercado dizer quando e para onde você deve girar sua carteira.
É provável que a Rolex esteja apenas em breaking even com seu programa oficial de relógios seminovos. Mas a manutenção de um negócio que, de acordo com a empresa, não gera lucro é importante: protege a reputação da marca, ao mesmo tempo em que busca tirar de circulação os flippers (gente que compra para vender imediatamente com lucro, como fazem os cambistas).
A Rolex analisou o negócio bilionário anual de relógios usados, que é cheio de especuladores e falsificações, e decidiu que precisava intervir.
Há três anos, a marca suíça lançou um programa oficial de relógios pré-usados certificados. O programa deve gerar mais de US$ 500 milhões em vendas em 2025, segundo estimativas da empresa de análise de dados WatchCharts. Um dos principais revendedores autorizados da Rolex, Watches of Switzerland, disse aos investidores este mês que os Rolexes usados certificados são agora seu segundo produto mais vendido.
Até agora, a maioria das marcas de luxo evita se envolver na revenda de produtos. Elas temem que oferecer bens usados reduza o apelo da compra de novos produtos. Também não gostam da transparência dos sites de revenda, principalmente se os produtos forem vendidos com descontos significativos. A Rolex pode mostrar um caminho para o setor, mantendo os revendedores à distância, enquanto protege sua marca.
Um insight do programa é que os consumidores estão dispostos a pagar, em média, 28% a mais por um relógio pré-usado certificado como genuíno pela Rolex do que por um não certificado, segundo o Morgan Stanley. Os compradores pagam a mais para ter confiança de que não estão adquirindo uma falsificação e — importante para relógios mecânicos — que o produto tenha sido revisado e funcione corretamente.
Alguns modelos de Rolex já são mais caros para comprar usados do que novos. Como a demanda supera muito a oferta, há lista de espera para os aproximadamente 1,2 milhão de relógios novos vendidos anualmente pela marca, segundo a estimativa mais recente do Morgan Stanley. Colecionadores pagam um prêmio no mercado secundário para obter imediatamente o relógio desejado.
Por exemplo, um Rolex GMT-Master II novo conhecido como “Pepsi”, com bezel vermelho e azul, custa US$ 12.150 incluindo imposto médio nas lojas. O mesmo modelo custa US$ 22.750 em sites de revenda, mas o preço mediano de um certificado autêntico pela Rolex é US$ 26.750, segundo dados do WatchCharts.
Apesar desse prêmio, a Rolex trata o programa de pré-usados como uma ferramenta de proteção de imagem, e não como nova fonte de receita. O programa foi estruturado para que revendedores independentes, como Watches of Switzerland e The 1916 Company, que já estão autorizados a vender novos Rolexes, façam a maior parte do trabalho e recebam toda a recompensa financeira.
Os revendedores são responsáveis por obter os Rolexes usados, autenticar os relógios e revisá-los segundo os padrões da marca. A Rolex então certifica os relógios como genuínos e emite garantia de dois anos. O revendedor, e não a Rolex, define o preço final dos relógios certificados.
Isso parece sensato. Quando a relojoaria de luxo Audemars Piguet lançou um programa de pré-usados e definiu os preços ela mesma, houve reação negativa dos consumidores. Um consenso crescente no setor é que as marcas devem definir regras rígidas para programas oficiais, mas deixar que terceiros os operem.
Manter o programa de pré-usados à distância é mais fácil para a Rolex, pois mais de 90% das vendas ocorrem via revendedores terceirizados. A Patek Philippe também vende muito pouco diretamente, possuindo apenas três lojas no mundo. Essa estrutura também significa que a Rolex não precisa manter estoques de usados, o que é uma vantagem considerando que os valores do mercado secundário são voláteis.
A Rolex precisou intervir para proteger seu negócio no mercado primário. É a marca de relógios de luxo mais falsificada do mundo. Se os compradores forem enganados por um Rolex falso, isso pode prejudicar a imagem da empresa. A Rolex detém 32% do mercado global de relógios de luxo primários, estima o Morgan Stanley. Um programa certificado oferece aos compradores uma oferta segura de relógios usados e mantém os valores altos no mercado de revenda, o que reflete positivamente na marca.
Para as marcas de relógios, o negócio de pré-usados é grande demais para ser ignorado. O comércio de relógios suíços usados deve chegar a US$ 25 bilhões neste ano, segundo Oliver Müller, fundador da LuxeConsult — metade do tamanho do mercado primário. Em comparação, o mercado de revenda de roupas e bolsas de luxo ainda vale apenas 13% do mercado primário, de acordo com estimativas da Bain & Co.
Se as pessoas estão dispostas a pagar milhares de dólares a mais para ter certeza de que estão comprando um Rolex genuíno, é provável que também paguem um prêmio por garantias de outras marcas — especialmente para produtos de alto valor, como bolsas Hermès Birkin ou relógios Patek Philippe.
A mensagem da Rolex provavelmente não é a que outras marcas de luxo querem ouvir. Encarar o mercado de revenda em rápido crescimento pode se tornar parte inevitável da proteção da imagem da marca, mas elas não devem esperar lucros extras por isso.
Mulheres jovens e atraentes começaram a aparecer no verão europeu de 2024 em uma clínica de fertilidade no sul de Moscou em resposta a uma campanha de marketing incomum: inseminação artificial gratuita.
O material genético oferecido pertence a Pavel Durov, bilionário fundador do aplicativo de mensagens Telegram.
Em conferências, redes sociais e sites de notícias, a clínica descrevia Durov como alguém com “alta compatibilidade genética” e informava que ele arcaria com os custos da fertilização in vitro para mulheres com menos de 37 anos interessadas em usar seu esperma, descrito como “altamente disputado”.
Um banner no site da clínica, chamada AltraVita, ainda anuncia seu “biomaterial” ao lado de uma foto do executivo e do logotipo do Telegram.
“As pacientes que vieram eram todas muito bonitas, bem-educadas e saudáveis”, disse um ex-médico da clínica, que avaliou várias voluntárias. Ele acrescentou que as participantes precisavam ser solteiras, para evitar complicações legais. “Elas queriam ter um filho de, bem, um certo tipo de homem. Viam esse tipo de figura paterna como a ideal.”
A iniciativa amplia uma linhagem biológica que Durov, hoje com 41 anos e que mora atualmente em Dubai, afirmou em uma postagem pública no Telegram incluir ao menos 100 filhos em pelo menos 12 países — sem contar outros seis filhos concebidos com três mulheres diferentes.
O executivo, nascido na Rússia, escreveu em julho de 2024 que começou a doar esperma por volta de 2010. Primeiro ajudou uma amiga que tentava engravidar; depois, passou a doar de forma anônima, segundo ele, para aliviar a escassez de “material genético de alta qualidade”.
Embora tenha parado de doar há anos, afirmou, seu esperma congelado ainda estava disponível na clínica AltraVita.
No verão europeu mais recente, Durov tornou a oferta ainda mais atraente em uma entrevista a uma revista francesa, ao anunciar que seus filhos biológicos receberiam partes iguais de sua herança.
A revista Forbes estima seu patrimônio em US$ 17 bilhões, embora a maior parte esteja vinculada ao valor do Telegram — empresa que ele diz pretender deixar para uma fundação sem fins lucrativos.
Durov também afirma possuir uma quantidade não especificada de bitcoins comprados em 2013. A declaração sobre a herança provocou uma enxurrada de mensagens de pessoas alegando ser seus filhos, segundo ele.
“Desde que consigam comprovar que compartilham meu DNA, talvez daqui a 30 anos, terão direito a uma parte do meu patrimônio depois que eu morrer”, disse Durov no podcast de Lex Fridman, em outubro. Ele afirmou ainda que pretende tornar público seu DNA para que seus filhos biológicos possam se encontrar.
Uma captura de tela do site da AltraVita anunciando o esperma de Pavel Durov
Bilionários reprodutores
Durov passa a integrar um pequeno grupo de algumas das pessoas mais ricas e influentes do planeta que vêm esticando os limites da ética e da tecnologia reprodutiva.
Alguns recorrem a testes genéticos e até exploram edição genética para produzir filhos com características desejadas. Outros, como Elon Musk, falam em ter muitos filhos tanto como resposta ao declínio populacional quanto como parte de uma visão de colonizar o espaço com seus descendentes.
Durov apresenta suas doações de esperma como um esforço para aliviar a escassez de sêmen saudável e incentivar outros homens a fazerem o mesmo. Por trás disso está uma visão mais ampla de que partes do Ocidente estariam em declínio.
O fundador do Telegram escreve com frequência sobre ameaças à liberdade e à privacidade impostas por regulações tecnológicas na Europa e em outros lugares.
“Um mundo sombrio e distópico está se aproximando rapidamente — enquanto dormimos”, escreveu ele em outubro, ao criticar medidas como identidades digitais, checagens de idade online e prisões relacionadas a publicações em redes sociais. “Colocamos a nós mesmos em um caminho de autodestruição — moral, intelectual, econômica e, por fim, biológica.”
A postagem de Durov, no ano passado, revelando que havia concebido mais de 100 filhos gerou uma resposta irônica de Elon Musk, que já reconheceu ter ao menos 14 filhos.
Elon Musk provoca Pavel Durov
“‘Números de amador, rs’ — Gêngis Khan”, escreveu Musk na rede X, em referência a estudos que sugerem que cerca de 16 milhões de pessoas no mundo podem descender do líder mongol do século 13.
“Já volto, vou aumentar a capacidade antes de produzir mais”, respondeu Durov, citando um meme do jogo StarCraft conhecido pela frase “spawn more overlords”, usada quando o jogador atinge o limite de unidades.
Mensagem de Pavel Durov em resposta a Elon Musk
A clínica
A principal promotora do esperma de Durov é a AltraVita, clínica privada de fertilidade sediada em Moscou, voltada a clientes ricos russos e estrangeiros. Em seus materiais promocionais, a clínica afirma oferecer embriões “seletivos” e com checagem para evitar doenças genéticas.
A AltraVita foi fundada por Sergey Yakovenko, especialista em genética e fertilidade que se descreveu, em entrevista a uma publicação russa, como amigo de longa data de Durov. Yakovenko não respondeu aos pedidos de comentário.
Durov “não tem qualquer envolvimento financeiro, gerencial ou operacional com a clínica, nem acompanha suas atividades de forma sistemática”, disse Devon Spurgeon, porta-voz do executivo.
Segundo ela, Durov mantém contato com o diretor da clínica por “trocas pessoais de mensagens uma ou duas vezes por ano, geralmente sobre assuntos totalmente alheios à clínica”.
Yakovenko também publicou trabalhos sobre clonagem humana, e a AltraVita participou de um projeto russo que afirmou, em outubro, ter clonado com sucesso uma vaca “recordista em produção de leite”, no sudoeste da Rússia. O projeto foi liderado pela Altragen, empresa de clonagem cofundada por Yakovenko com uma companhia agrícola.
Tanto a AltraVita quanto a Altragen afirmam em seus sites que pretendem avançar nessa área, “atraindo a atenção da comunidade científica e do público em geral para as perspectivas e possibilidades da clonagem”.
A AltraVita inicialmente concordou em responder perguntas sobre o programa de doação financiado por Durov, mas depois cancelou a entrevista, afirmando que o próprio Durov havia orientado a clínica a recusar.
Durov disse no Telegram que inicialmente era cético em relação à doação de esperma, mas que Yakovenko o convenceu de que era seu dever cívico — tanto por seus “bons genes” quanto pela tendência de longo prazo de queda na contagem de espermatozoides e aumento da infertilidade masculina.
O programa ganhou especial ressonância na Rússia, que enfrenta uma crise demográfica persistente, agravada pela emigração e pela guerra.
“A escassez de esperma saudável se tornou um problema cada vez mais sério em todo o mundo, e tenho orgulho de ter feito minha parte para ajudar a aliviar isso”, escreveu Durov em 2024.
Aplicativo do Telegram, criado por Pavel Durov (Bloomberg)
Na entrevista à revista francesa, ele atribuiu a “queda rápida na concentração de esperma em homens em muitas regiões do mundo” em parte à poluição plástica, classificando o fenômeno como uma ameaça “à nossa sobrevivência”.
A AltraVita também anuncia a possibilidade de testes genéticos dos embriões e a escolha do sexo.
Durov não participou da seleção nem dos exames médicos das potenciais mães, que passam pelos mesmos testes exigidos de pacientes regulares de fertilização in vitro, segundo o ex-médico da clínica.
“De repente, surge uma oportunidade: está tudo pago, e o doador é alguém tão bem-sucedido, inteligente e bonito”, disse o médico.
Anna Panina, de 35 anos, moradora de Moscou, afirmou que considerou participar do programa. “É uma oportunidade maravilhosa de se tornar mãe de um ser humano bonito e inteligente”, disse.
O bilionário
Nascido em 1984, filho de educadores, na então Leningrado, Durov sempre demonstrou interesse por línguas e história. Ele ganhou notoriedade em 2006 ao criar a VK, uma espécie de clone do Facebook que lhe rendeu o apelido de “Mark Zuckerberg russo”. Fundou o Telegram em 2013, pouco antes de ser afastado da VK.
Conhecido por vestir quase sempre roupas pretas — exceto quando posa sem camisa exibindo o abdômen definido —, Durov defende uma visão libertária, rejeitando alinhamentos com Estados e o poder centralizado. Ele apresenta o Telegram como uma ferramenta de resistência ao autoritarismo, tanto na Rússia quanto no Ocidente.
Em maio de 2025, Pavel Durov fez a primeira aparição pública com a namorada, Yulia Vavilova, no amfAR Gala durante o Festival de Cannes (Foto: Monica Schipper/Getty Images for amfAR)
Durante anos, financiou o aplicativo com recursos próprios e empréstimos. Hoje, o Telegram é lucrativo e conta com mais de 1 bilhão de usuários ativos mensais. Em documentos apresentados a investidores em uma emissão de títulos, a empresa informou ter gerado mais de US$ 500 milhões em lucro no ano passado, segundo documentos analisados pelo The Wall Street Journal.
Com pouca moderação de conteúdo, o Telegram se posiciona como espaço neutro em conflitos como as guerras na Ucrânia e em Gaza, mas também é criticado por servir de plataforma para propaganda extremista. A empresa afirma ter bloqueado mais de 42 milhões de grupos e canais que violaram suas regras apenas neste ano e diz ter fornecido dados de endereços de internet em alguns casos de terrorismo e crimes, segundo autoridades.
Durov voltou às manchetes no ano passado após ser preso na França e acusado preliminarmente de envolvimento em atividades ilegais no Telegram, como tráfico de drogas e pornografia infantil, além de se recusar a cooperar com a polícia. Ele nega as acusações e afirma que a polícia francesa usou o endereço de e-mail errado ao buscar ajuda. A investigação segue em andamento, e promotores dizem que a cooperação da empresa melhorou.
Na vida pessoal, Durov segue um estilo de vida voltado à saúde: evita álcool e cafeína, promove exercícios físicos e longas noites de sono.
Ele teve seus dois primeiros filhos em 2009 e 2010, quando ainda comandava a VK. Foi por volta desse período que começou a doar esperma à AltraVita. Depois, teve três filhos com a advogada Irina Bolgar, nascidos entre 2013 e 2017, na Rússia.
Bolgar afirma ter mantido um relacionamento de uma década com Durov, que teria se deteriorado até que, em 2023, ele cortou todo o apoio financeiro, incluindo o aluguel da casa da família em Genebra, após ela se recusar a se mudar para Dubai com as crianças.
Ela também registrou uma queixa criminal na Suíça alegando agressões contra o filho mais novo. Durov nega as acusações, que sua porta-voz classifica como parte de uma “disputa acirrada de custódia”.
Após tornar públicas as doações, veículos russos localizaram o perfil de um “Doador nº 6” em uma clínica de Moscou que correspondia à descrição de Durov — programador russo, empreendedor, fluente em vários idiomas, descrito como “trabalhador, decidido, fiel aos seus princípios e amante da liberdade”.
Hoje, o site da AltraVita exibe sua foto ao lado da frase: “seu número seis”.
Escreva para Sam Schechner em sam.schechner@wsj.com e para Thomas Grove em thomas.grove@wsj.com
Após três anos de debates sobre as possibilidades e os riscos da inteligência artificial no marketing, alguns executivos dizem que a cobrança pelas economias prometidas está prestes a se tornar concreta.
Trinta e seis por cento dos diretores de marketing esperam reduzir o quadro de funcionários nos próximos 12 a 24 meses “por meio do uso de IA ou da eliminação de redundâncias”, de acordo com uma nova pesquisa da consultoria de recrutamento executivo Spencer Stuart, baseada em entrevistas realizadas em novembro com cerca de 90 CMOs e outros líderes de marketing.
Nas empresas de maior porte, o cenário é ainda mais negativo. Quarenta e sete por cento dos entrevistados em companhias com receita de US$ 20 bilhões ou mais afirmaram que esperam cortar pessoal nos próximos 12 a 24 meses, e 32% já o fizeram neste ano, segundo o levantamento.
O principal fator é a crescente pressão para demonstrar retorno sobre os investimentos significativos em IA, afirmou Richard Sanderson, responsável pela prática de executivos de marketing, vendas e comunicações da Spencer Stuart.
“Estamos ouvindo, especialmente das empresas maiores, que elas precisam entregar resultados — e isso pode ter de acontecer pela força bruta da redução de pessoal”, disse Sanderson.
Trinta e sete por cento dos profissionais de marketing em empresas com receita acima de US$ 20 bilhões disseram que seus CEOs e diretores financeiros esperam cortes de pelo menos 20% nos custos nos próximos dois anos, de acordo com a pesquisa.
Outra pesquisa recente, porém, foi direto ao ponto: a maioria dos CEOs ainda não viu os retornos ou as economias desejadas com os gastos em IA, segundo uma enquete com mais de 350 executivos-chefes de empresas abertas realizada pela consultoria Teneo.
Muitos profissionais de marketing ainda estão experimentando formas de otimizar suas operações, disse Jessica Serrano, CMO da Bagel Brands, dona de marcas como a Einstein Bros. Bagels. A empresa usou IA para criar locuções para anúncios e para pesquisar consumidores que se voluntariaram a testar um novo produto. Essas iniciativas economizaram recursos que teriam sido destinados à contratação de locutores humanos e de uma empresa tradicional de pesquisa de mercado, afirmou Serrano.
Ao mesmo tempo, porém, a companhia recuou na busca por um fornecedor de IA criativa, porque nenhum conseguiu comprovar suas promessas de produzir conteúdo de alta qualidade em grande escala, segundo Serrano, que comparou o processo de avaliação de novas ferramentas ao namoro.
“Não sou a única a sentir que ainda estou muito na fase de avaliação”, disse.
Os profissionais de marketing que não promoveram cortes de pessoal buscaram reduzir custos de outras formas: diminuindo o uso de agências de publicidade, dispensando freelancers ou eliminando completamente funções criativas como redator, especialista em e-mail marketing e produtor de vídeo, de acordo com a pesquisa da Spencer Stuart.
A turbulência não pode ser atribuída apenas à IA, afirmou Tim Derdenger, professor associado de marketing e estratégia da Tepper School of Business, da Universidade Carnegie Mellon. Uma economia em desaceleração, além de uma correção nas contratações excessivas do período da pandemia, também tiveram papel relevante, disse ele.
“Você tem essas duas ondas se aproximando lentamente uma da outra, e elas vão colidir”, afirmou Derdenger, referindo-se à IA e ao cenário econômico mais amplo.
Outro levantamento, no entanto, desenhou um quadro ainda mais enxuto. Segundo o site de empregos Indeed, as vagas em marketing estão em 81% dos níveis pré-pandemia. Esse percentual pode cair ainda mais: após a recente conclusão da aquisição do grupo publicitário Interpublic Group pela Omnicom, a empresa informou que planeja eliminar 4.000 postos de trabalho nas duas companhias.
Apesar do cenário negativo, a pesquisa da Spencer Stuart também apontou a criação de novos cargos. Alguns CMOs disseram ter criado funções especializadas, como engenheiro de prompts, tecnólogo de dados, especialista em busca com IA e analista de operações de IA. Ainda assim, pouquíssimos entrevistados — apenas 4% — contrataram novos funcionários no último ano.
O foco em economia faz sentido do ponto de vista de um CEO, mas alguns profissionais de marketing de grandes marcas veem a aquisição de clientes como um indicador mais confiável do sucesso da IA, segundo Jessica Jensen, diretora de marketing e estratégia do LinkedIn.
“A maior parte da minha conversa com nosso CEO e CFO hoje gira em torno do cálculo do crescimento, não do cálculo da economia”, disse Jensen.
É verdade que o LinkedIn, por ser uma empresa da Microsoft, tem maior acesso a novas tecnologias e depende menos de fornecedores externos do que a maioria das companhias. Recentemente, por exemplo, desenvolveu uma ferramenta de IA criativa chamada LinkedIn on LinkedIn, ou LOL, para ajudar a produzir e monitorar campanhas de marketing executadas em sua própria plataforma, afirmou Jensen.
O LinkedIn estima que a ferramenta possa economizar 10 mil horas de trabalho neste ano, embora tenha se recusado a atribuir um valor financeiro a essa economia.
Independentemente das preocupações orçamentárias, o maior desafio para os profissionais de marketing segue sendo a integração das ferramentas de IA, segundo Serrano, da Bagel Brands. Os entrevistados da pesquisa da Spencer Stuart concordaram: apenas 3% disseram que a IA já desempenha algum papel em todos os aspectos de suas operações de marketing.
E o número de empresas que descreveram sua equipe como uma “organização de marketing totalmente transformada e nativa em IA”? Zero.
A marca de um bom gestor é a capacidade de delegar. Ou, ao menos, é isso que diz a sabedoria convencional: ao repassar tarefas aos subordinados diretos, gestores liberam tempo para atividades de nível mais alto, empoderam os funcionários e ampliam a capacidade de suas equipes.
Mas, se a delegação deveria ser algo tão positivo, por que ela dá errado com tanta frequência?
Descobri que quase todos os gestores caem na mesma armadilha ao delegar: tratam a delegação como um botão de ligar e desligar. Ou seja, depois de atribuir uma tarefa a um funcionário, adotam imediatamente uma postura distante, esperando que ele faça tudo certo — e se frustrando quando isso não acontece. Em vez de empoderar os funcionários e reduzir a pressão sobre os gestores, a delegação acaba gerando frustração para ambos, além de desperdício de esforço e baixa motivação da equipe.
Uma gerente de engenharia de uma grande empresa de alta tecnologia certa vez me disse: “Eu delegaria se alguém soubesse fazer as coisas sozinho. Eles não fazem direito, demoram demais e não têm iniciativa.” Ao nos aprofundarmos, porém, percebemos que os problemas de delegação tinham mais a ver com ela do que com a equipe.
Em vez de delegar e desaparecer, sugiro uma estratégia baseada no que chamo de botão de ajuste da delegação.
Passo a passo
O primeiro passo é determinar o grau de conhecimento, habilidade e experiência do funcionário para lidar com a função ou tarefa que você quer delegar. É óbvio que um estagiário precisará de orientação, mas isso também pode valer para qualquer membro da equipe — até mesmo um profissional sênior — dependendo do projeto. Observe o tipo de perguntas que o funcionário faz: elas indicam que a pessoa tem alguma noção do que você espera que seja feito?
Depois de identificar em que nível o funcionário se encontra, você pode avaliar o quanto precisa se envolver. Meu botão de ajuste da delegação — o nível de orientação que você deve oferecer — tem cinco estágios: “fazer”, “dizer”, “ensinar”, “orientar” e “rede de segurança”.
“Fazer” significa que o funcionário observa você executando a tarefa antes de assumi-la. Esse estágio é mais adequado para quem nunca realizou aquela atividade e não sabe por onde começar. Para funcionários capazes de ter um pouco mais de autonomia — por exemplo, que entendem quais habilidades ainda precisam desenvolver — há o estágio “dizer”, em que você fornece instruções passo a passo, ou “ensinar”, quando explica claramente por que a tarefa deve ser feita de determinada forma e ordem, deixando que o funcionário siga adiante.
O próximo nível, “orientar”, ocorre quando você permite que o funcionário execute a tarefa delegada por conta própria, mas o acompanha fazendo perguntas como: “O que mais você considerou?” ou “O que levou você a escolher essa opção?”. Por fim, há a “rede de segurança”, quando você deixa o subordinado direto fazer o trabalho e avisa que estará disponível se for necessário. Ironicamente, é nesse estágio que a maioria dos gestores começa.
Acompanhamentos regulares
Independentemente do estágio do botão de ajuste da delegação em que você e o membro da equipe estejam, marque acompanhamentos regulares para evitar desencontros de expectativas de última hora. A gerente de engenharia com quem trabalhei, por exemplo, agendava reuniões quinzenais mesmo quando atuava apenas como rede de segurança.
Reavalie periodicamente em que estágio de aprendizado os funcionários se encontram para determinar se já estão prontos para assumir mais autonomia. Peça que avaliem o que funcionou e por quê, onde encontraram dificuldades e quais foram as causas. Qual foi o nível geral de conforto com o projeto? Se houver qualquer dúvida sobre o aumento da capacidade do funcionário, o melhor é manter a delegação no estágio atual até que a pessoa se prove.
O uso do botão de ajuste da delegação cumpre três objetivos: menos trabalho acumulado para o gestor, crescimento da equipe e entregas de maior qualidade — com menos crises de última hora.
Sabina Nawaz (@sabinanawaz) é coach global de CEOs e palestrante em liderança, além de autora do livro “Você é o chefe: torne-se o gestor que você quer ser (e que os outros precisam)”.
Todos nós já ouvimos a frase: “O barato sai caro.”
Ainda assim, a maioria de nós está soterrada por bugigangas baratas compradas por impulso na internet. No começo, até funcionam bem, mas logo decepcionam ou se desgastam. Isso vale tanto para as coisas que compramos para nós mesmos quanto para os presentes de última hora que muitos de nós estamos correndo para adquirir.
Uma nova pesquisa explica por que nosso cérebro faz isso conosco. E também mostra como podemos agir melhor, ao contornar esse viés cognitivo. O ponto central é simples: as pessoas são críticas mais duras com itens mais caros.
A dor de gastar mais dinheiro entra na conta das avaliações, segundo uma análise publicada por um trio de acadêmicos na revista Psychology & Marketing. Como resultado, o simples fato de um produto ter um preço elevado já puxa sua nota para baixo. E o oposto também é verdadeiro: quanto menos pagamos por um item, mais generosa tende a ser nossa avaliação sobre ele.
Na internet, avaliações falsas podem ser um problema, mas as avaliações reais também são.
Isso ajuda a explicar por que somos tão frequentemente direcionados a produtos baratos, porém muito bem avaliados, nas compras online e por que eles aparecem com tanta frequência no topo de listas geradas por algoritmos. Por meio de um ciclo de retroalimentação que envolve tanto as preferências dos algoritmos quanto nossos próprios vieses de consumo, somos levados a um mar de mediocridade e можем acabar perdendo verdadeiras joias que custam mais caro.
Ying Zeng, uma das acadêmicas responsáveis pela pesquisa, é professora assistente de marketing na Leeds School of Business, da Universidade do Colorado, em Boulder. Segundo ela, quando lemos avaliações online, caímos no que psicólogos chamam de “pensamento superficial” ou seja, não levamos em conta os vieses de quem escreve essas avaliações.
“Eu sou especialista em tomada de decisão do consumidor e sei que esse viés existe”, diz Zeng. “Mas, mesmo assim, nem eu consigo eliminá-lo completamente.”
Felizmente, sua pesquisa também sugere que tomar consciência dos nossos vieses cognitivos e dos vieses dos outros pode mudar nosso comportamento de compra.
Mania do celular
Embora as compras por impulso possam turbinar o faturamento no curto prazo, todas as devoluções, reclamações e a insatisfação geral dos clientes acabam prejudicando as empresas ao corroer a confiança do consumidor.
É por isso que a Amazon.com tem se esforçado tanto para eliminar avaliações geradas por inteligência artificial e avaliações pagas de seu marketplace, diz Ben Donovan, analista-chefe da empresa de análise de comércio eletrônico Marketplace Pulse. A companhia já expulsou vários varejistas de eletrônicos por pagarem por avaliações falsas, apesar de esses vendedores terem faturamento anual na casa das centenas de milhões de dólares.
Ainda assim, continuamos vendo produtos baratos recebendo notas altas nos marketplaces. Um dos motivos é que nem mesmo os sistemas de IA da Amazon para detectar avaliações falsas e as ações que a empresa toma contra intermediários desse tipo de fraude conseguem impedir a forma como avaliadores humanos, honestos porém enviesados, julgam os produtos.
A maioria dos marketplaces online é desenhada para priorizar itens que são “bons o suficiente e baratos”, em vez de “bons o suficiente e premium”, afirma Donovan. Sua pesquisa indica que o algoritmo da Amazon tende a impulsionar produtos mais baratos que vendem em grandes volumes, em detrimento dos mais caros, que têm vendas mais lentas.
Uma porta-voz da Amazon afirma que a empresa “ajuda os clientes a descobrir produtos relevantes e de alta qualidade em uma ampla faixa de preços — não apenas itens mais baratos — para que escolham o que funciona melhor para eles”.
Nosso hábito de comprar pelo celular está acelerando ainda mais as compras por impulso.
Nesta temporada de fim de ano, os consumidores fizeram um recorde de 56% de todas as compras em dispositivos móveis, segundo a Adobe, que monitora visitas a varejistas online por meio de suas ferramentas Digital Insights. No celular, somos mais propensos a comprar rapidamente, finalizar pagamentos com mecanismos convenientes como o Apple Pay e até usar opções de “compre agora, pague depois”. Tudo isso “permite que os consumidores comprem em momentos realmente espontâneos”, diz Vivek Pandya, diretor de digital insights da Adobe.
Descontos por tempo limitado e vendas por livestream também nos empurram para compras impulsivas, afirma Zeng. Táticas como essas acionam o chamado “Sistema 1” de pensamento — rápido, emocional e intuitivo — que normalmente lida com tarefas do dia a dia e foi descrito pela primeira vez pelo psicólogo ganhador do Nobel Daniel Kahneman.
Comprando de forma mais inteligente
A Amazon não ignora o arrependimento que pode vir depois de compras impulsivas em excesso. Em 2023, a empresa implementou um selo de “item frequentemente devolvido” para produtos que as pessoas costumam mandar de volta. Vale a pena prestar atenção nesse aviso.
Uma forma mais universal de superar nossa tendência a comprar coisas das quais podemos nos arrepender é ler avaliações de maneira mais crítica. Em um experimento conduzido pela equipe de Zeng, os pesquisadores informaram os compradores de que as avaliações tendiam a ser enviesadas a favor de itens mais baratos. Munidos desse conhecimento, os consumidores se tornaram mais criteriosos.
Imagine que você está comprando um produto normalmente caro, com avaliação de quatro estrelas, mas que está com desconto. E o compara com outro item que costuma custar aquele mesmo preço mais baixo, mas tem quatro estrelas e meia. É provável que o produto de quatro estrelas seja de qualidade superior, apesar da nota menor, porque seu preço elevado pesou negativamente nas avaliações.
Outra tática: resista aos truques de venda pensados para acionar o pensamento do Sistema 1. Vá com calma, desacelere. Assim, entra em ação o pensamento mais deliberativo do Sistema 2, no qual consideramos mais variáveis — inclusive nossos próprios vieses e os dos outros.
Dados da Adobe sugerem que os consumidores já estão separando seus comportamentos entre compras do Sistema 1 e do Sistema 2. Mantimentos e outros itens do dia a dia são adquiridos de forma mais automática, enquanto compradores usam chatbots de IA e outras ferramentas novas para se aprofundar na pesquisa de produtos mais caros, diz Pandya. (Naturalmente, a Amazon tem sua própria IA para isso, chamada Help Me Decide.)
“Às vezes, tudo bem aceitar qualquer truque que estejam usando contra nós, desde que não seja muito caro, porque isso economiza esforço cognitivo”, afirma Zeng.
E há aquelas ocasiões em que um item barato e muito bem avaliado acaba sendo um sucesso — um sucesso grande o suficiente para apagar a mancha do arrependimento de todas as vezes em que abrimos uma encomenda e pensamos: ‘O que foi que eu estava pensando?’
Escreva para Christopher Mims em christopher.mims@wsj.com
A Warner Bros. Discovery está se preparando para informar seus acionistas para rejeitar a última oferta da Paramount já na quarta-feira, segundo pessoas familiarizadas com o assunto, e planeja recomendar que apoiem seu acordo existente com a Netflix em vez disso.
Isso deixaria a Paramount e seu CEO, David Ellison, decidirem se irão melhorar a oferta.
As ações da Warner têm sido negociadas próximas a US$ 30, sugerindo que os investidores esperam que a Paramount aumente sua proposta. Elas caíram na terça-feira e fecharam a US$ 28,90, após o The Wall Street Journal reportar os planos da Warner.
A Netflix havia concordado em pagar US$ 27,75 por ação em uma combinação de dinheiro e ações pelos estúdios da Warner e pelo serviço de streaming HBO Max, enquanto a Paramount havia oferecido US$ 30 em dinheiro por ação por toda a empresa.
A oferta pública da Paramount deve expirar em 8 de janeiro, então a empresa poderia esperar até lá para decidir se revela uma proposta melhorada.
Netflix e Warner anunciaram seu acordo em 5 de dezembro, levando a Paramount a fazer uma oferta pública aos acionistas da Warner poucos dias depois. A Paramount argumentou que a Warner não levou a sério suas ofertas repetidas pela empresa.
A Warner expressou preocupações de forma privada sobre a qualidade do financiamento da Paramount, incluindo um acordo para que o pai de David Ellison, o bilionário Larry Ellison, garantisse os compromissos de capital por meio de um trust.
A Affinity Partners, firma de private equity do genro do ex-presidente Trump, Jared Kushner, havia sido investidora de capital na oferta da Paramount, mas não está mais envolvida, disse a firma na terça-feira.
“As dinâmicas do investimento mudaram significativamente desde que nos envolvemos inicialmente em outubro”, disse um porta-voz da Affinity, acrescentando que a empresa continua vendo “uma forte justificativa estratégica para a oferta da Paramount.”
Uma grande questão que paira sobre ambos os possíveis acordos é como os reguladores antitruste de Trump os veriam. Trump disse que gostaria de ver a CNN mudar de propriedade em qualquer acordo. O presidente também mantém proximidade com David e Larry Ellison.
Espera-se que o acordo da Netflix seja investigado pelo Departamento de Justiça, que já começou a avaliar como a fusão consolidaria ainda mais o domínio do gigante do streaming na indústria de mídia.
Tanto a Netflix quanto a Paramount têm se reunido com grandes investidores da Warner para apresentar seus argumentos. Alguns investidores da Warner disseram ao Journal que estariam prontos para oferecer suas ações na oferta da Paramount caso a proposta seja melhorada.
Os acionistas da Netflix penalizaram o gigante do streaming, eliminando dezenas de bilhões de seu valor de mercado desde que seu interesse na Warner surgiu no início deste ano. Isso sugere que os acionistas podem não receber bem uma resposta da Netflix com uma oferta aumentada.
Ainda assim, o valor de mercado da Netflix permanece bem acima de US$ 400 bilhões, em comparação com o valor de mercado da Paramount, de cerca de US$ 15 bilhões.
Escreva para Lauren Thomas em lauren.thomas@wsj.com e Joe Flint em Joe.Flint@wsj.com
É carma? Coincidência? De qualquer forma, o fantasma da bolha das ponto-com está de volta 25 anos depois.
As ações da Cisco Systems, campeã da era ponto-com que se tornou a empresa mais valiosa do mundo em março de 2000, esta semana atingiram esse nível novamente pela primeira vez. É um alerta sobre até que ponto os preços das ações podem se distanciar da realidade.
Os otimistas passam muito tempo negando que haja uma bolha ao estilo dos anos 1990 inflando novamente na inteligência artificial. Mas vale a pena analisar algumas das semelhanças impressionantes, e algumas diferenças notáveis.
Valuation Existem muitas formas de avaliar ações, e praticamente todas indicam que as ações dos EUA estão mais caras desde a bolha das ponto-com. O índice preço/lucro futuro, preço sobre fluxo de caixa, o cálculo do “modelo do Fed” sobre o prêmio extra oferecido pelas ações em comparação com os títulos e o índice P/L ajustado ciclicamente indicam que as ações estão caras.
A razão é comum a todas elas: os investidores estão, assim como em 1999-2000, apostando em uma nova tecnologia para entregar crescimento de lucros muito mais rápido que o usual. Se isso acontecer, justifica avaliações mais altas.
Incerteza Assim como as ponto-com eram precificadas na esperança de que a internet trouxesse uma nova era de lucros a partir de modelos de negócios ainda não comprovados, ocorre o mesmo com a IA. A Inteligência Artificial generativa entregou chatbots e geração de imagens que parecem próximos da magia — mas, por enquanto, está precificada bem abaixo do custo de produção, gerando grandes prejuízos para empresas de IA. Uma diferença: muitas das ponto-com puras nem tinham receita, enquanto as empresas de IA ao menos fazem algumas vendas.
Investimento A internet foi construída sobre uma rede global de cabos de fibra óptica instalados por empresas de telecomunicações, levando a pesados gastos corporativos financiados por dívidas. Os grandes modelos de linguagem por trás da IA avançada são construídos em gigantescos data centers, levando a investimentos corporativos pesados, financiados cada vez mais por dívidas, além do caixa das Big Techs provenientes de seus negócios tradicionais.
Os números em 2000 eram imensos, com mais de US$ 100 bilhões investidos em novas redes de telecom no final dos anos 1990. Havia tanta fibra que grande parte ficou inativa por uma década antes que o tráfego de internet crescesse o suficiente para justificar seu uso.
A corrida para construir data centers é ainda mais extrema, com investimentos em trilhões sendo mencionados pelos principais desenvolvedores de IA. O gasto é tão grande que economistas dizem que está representando uma parcela significativa do crescimento do PIB.
Empresas que vendem o equivalente a “pás e picaretas” para a corrida do ouro tiveram muito sucesso. Em 2000, era a Cisco, fabricante de roteadores necessários para conectar a internet, e as empresas de telecom, onde o setor aumentou os lucros em um quarto no último ano da bolha. Hoje são Nvidia e outros fabricantes de chips, que fornecem poder de processamento para os data centers e obtêm lucros elevados.
O crescimento da Nvidia é melhor que o da Cisco, mas ambos foram extraordinários: em 1999, a receita da Cisco cresceu mais de 40% e, em 2000, mais de 50%. Nos últimos dois períodos de 12 meses, a Nvidia cresceu primeiro mais de 150% e, nos 12 meses até outubro, 60%. Esse crescimento naturalmente anima os investidores.
Mercado focado Em 1999, mais ações do S&P 500 caíram do que subiram. Até agora neste ano, 183, ou 37%, delas estão em queda. Tudo relacionado à IA — fabricantes de chips, geradores de energia, produtores de equipamentos usados para construir data centers — está em alta, enquanto grande parte do restante do mercado está em baixa.
Em 1999, se você tinha uma ação da internet, ela prosperava; caso contrário, ninguém se interessava. O mesmo vale hoje para a IA.
Negociação de varejo Indivíduos dominam a negociação de ações, apostando novamente em pequenas empresas que dão prejuízo. Tanto na bolha de 2000 quanto na bolha de 2021 em SPACs, clean tech, cripto e cannabis, pequenas ações com prejuízo superaram de longe as lucrativas, que eram muito menos emocionantes.
Isso se reflete no índice Russell 2000, de empresas menores, que superou o S&P 600 — que exige lucro — em 10 pontos percentuais nos 12 meses até meados de outubro, antes de o padrão se inverter. O índice Russell de microcap teve desempenho ainda mais extremo, superando o S&P 600 em 25 pontos percentuais em um ano, antes de recuar.
O boom de negociação impulsionou a Robinhood Markets em 220% este ano, assim como o boom de negociações das ponto-com impulsionou a E-Trade Financial, hoje parte do Morgan Stanley, em 261% em 1999.
Discussão sobre bolha Alguns dizem que, se todos falam sobre uma bolha, é sinal de que não há uma. Ainda assim, debates sobre bolha fervilharam em 1999, enquanto ela continuava a crescer. O mesmo ocorre agora.
Crescimento exponencial Uma grande diferença entre agora e 1999-2000 é a escala dos ganhos de preço. Sim, a Nvidia subiu muito (realmente muito). Mas ganhos de 54% este ano até o pico de outubro, e 30% incluindo a queda desde então, são pequenos comparados aos saltos de 1999.
A Cisco mais que dobrou em quatro meses desde meados de outubro de 1999, enquanto a Apple subiu 150% naquele ano e a Intel cresceu 75% em pouco menos de três meses no início de 2000.
Mesmo as melhores grandes ações deste ano, como Western Digital, Seagate e Micron Technology, apenas triplicaram ou quadruplicaram até seus picos nesta semana, antes de caírem fortemente na sexta-feira. Em 1999, a Qualcomm subiu 2.620%. Levou até 2020 para se recuperar do colapso subsequente.
No fim, se isso é uma bolha depende de ela estourar ou não. Se a IA não entregar tanto os ganhos de produtividade prometidos quanto os lucros gordos para seus criadores, o paralelo será com o doloroso período pós-ponto-com, e não com o boom.
Escreva para James Mackintosh em james.mackintosh@wsj.com
O cargo mais requisitado da América corporativa atualmente é também um dos mais antigos da história: contador de histórias.
Algumas empresas querem um gerente de relações com a mídia com um nome um pouco mais chamativo. Outras precisam de pessoas para produzir blogs, podcasts, estudos de caso e outros tipos de conteúdo de marca para atrair clientes, investidores e potenciais recrutados. Todas parecem usar a palavra de forma diferente do seu uso usual para romancistas, dramaturgos e narradores profissionais.
“Como contadores de histórias,” dizia um anúncio de emprego do Google no mês passado, “desempenhamos um papel integral na aquisição de clientes e no crescimento a longo prazo.”
A vaga buscava um gerente de storytelling para clientes, que se juntaria à equipe de storytelling da Google Cloud. Um artigo publicado pela unidade este ano foi intitulado: “Inovação da Lowe’s: Como a Vertex AI ajuda a criar experiências de compra interativas.”
A organização de segurança da Microsoft, por sua vez, está recrutando um diretor sênior para supervisionar narrativa e storytelling, descrito como parte tecnólogo de cibersegurança, parte comunicador e parte profissional de marketing.
A empresa de tecnologia de compliance Vanta começou este mês a contratar um chefe de storytelling, oferecendo salário de até US$ 274 mil. O aplicativo de produtividade Notion recentemente uniu suas funções de comunicação, redes sociais e influenciadores em uma equipe de 10 pessoas chamada de equipe de storytelling.
E a empresa de serviços financeiros para militares USAA está em busca de seu quarto contador de histórias, menos de um ano após contratar o primeiro. A empresa ainda recruta especialistas para funções em relações com a mídia, redação de discursos e similares, mas passou a empregar storytellers que escrevem blogs, relatórios, roteiros e outros materiais para se conectar com seus membros, segundo Tara Ford Payne, vice-presidente de comunicações e assuntos públicos.
“É muito mais do que um redator,” disse Payne. “Trata-se realmente de dar vida a cenários, situações e oportunidades para defender nossos membros.” Um storyteller da USAA pode escrever um guia sobre benefícios de saúde mental, ou ajudar a inserir experiências reais em um discurso de executivo.
Empresas de marketing e tecnologia muitas vezes reutilizam descrições grandiosas de outras áreas para dar mais brilho a cargos corporativos. Embora a era dos gurus de tecnologia, desenvolvedores ninja, estrelas de SEO e ao menos um profeta digital tenha passado, chamar profissionais de comunicação de “contadores de histórias” e praticar storytelling parece ter se tornado ainda mais popular.
Isso acontece apesar de críticas de especialistas há muitos anos.
“Pessoas que realmente contam histórias, ou seja, pessoas que escrevem romances e fazem filmes, não se veem como contadores de histórias,” disse o designer Stefan Sagmeister em entrevista de 2014. “São todas as pessoas que não são contadores de histórias que… de repente agora querem ser storytellers.”
O próximo capítulo
A porcentagem de anúncios de emprego no LinkedIn nos EUA que incluem o termo “storyteller” dobrou no ano encerrado em 26 de novembro, incluindo cerca de 50 mil vagas em marketing e mais de 20 mil em mídia e comunicação que mencionaram o termo, segundo a plataforma de networking profissional.
Executivos, por sua vez, mencionaram “storyteller” ou “storytelling” em calls de resultados e eventos com investidores 469 vezes este ano até 11 de dezembro, comparado a 359 vezes em todo 2024 e 147 vezes em 2015, segundo a FactSet.
O aumento reflete a transformação do cenário midiático nos últimos 25 anos.
Por décadas, empresas dependiam da mídia de massa e seus jornalistas para publicidade, conhecida como “earned media”, mas essa via vem diminuindo há anos. Cerca de 49 mil pessoas trabalhavam como “analistas de notícias, repórteres e jornalistas”, de acordo com as estimativas nacionais mais recentes do Bureau of Labor Statistics, caindo de 65.930 em 2000.
A circulação de jornais impressos nos EUA caiu 70% em relação a 2005, enquanto o número de acessos aos sites dos 100 maiores jornais caiu, em média, mais de 40% nos últimos quatro anos, segundo o relatório anual State of Local News, publicado pela Medill School of Journalism da Northwestern.
Ao mesmo tempo, as marcas ganharam seus próprios canais de publicação: contas de redes sociais, canais no YouTube e, mais recentemente, newsletters no Substack. Algumas estão até financiando produções de entretenimento diretamente.
Isso mudou fundamentalmente o trabalho de quem atua em comunicação corporativa, disse Steve Hirsch, CEO e cofundador da Hirsch Leatherwood, empresa de comunicação em Nova York.
“Hoje é mais comum que eu receba ligações de CEOs dizendo: ‘Parece que preciso de uma estratégia de conteúdo,’ em vez de uma estratégia típica de relações com a imprensa,” disse Hirsch. “A bagunça de IA cria tanta desconfiança, e eles veem que as marcas que estão se saindo melhor agora são as mais autênticas, humanas e relacionáveis.”
A fintech Chime começou a contratar no mês passado um diretor de editorial corporativo e storytelling — sua primeira vaga de storyteller. Ex-jornalistas e jornalistas atuais de veículos tradicionais formaram a maioria dos mais de 500 candidatos, junto a redatores de conteúdo de outras empresas, disse Jennifer Kuperman, diretora de assuntos corporativos da Chime.
Termos como “editorial” são limitantes, disse Kuperman. “Eles colocam na mente uma coisa muito específica que você está fazendo ou criando. Já contar histórias pode ser feito de tantas formas diferentes como redes sociais, podcasts, colocando seus executivos em evidência, organizando um evento, falando com a imprensa.”
A National Wild Turkey Federation começou a contratar um storyteller para seu capítulo no Meio-Oeste em outubro. Será o terceiro storyteller da ONG desde a primeira contratação em 2023.
“O que as pessoas procuram e no que encontram satisfação mudou,” disse Pete Muller, diretor de comunicações da federação. “Então enquadrar a função de forma que transmita que são parte integral de contar a história da NWTF é essencial para encontrar os melhores talentos possíveis.”
Escreva para Katie Deighton em katie.deighton@wsj.com
A OpenAI anunciou na quinta-feira (11) o lançamento do GPT-5.2, chamando o modelo de inteligência artificial de seu mais avançado para o trabalho profissional do conhecimento.
O lançamento ocorre cerca de uma semana depois que o presidente da empresa, Sam Altman, declarou um esforço de “código vermelho” para melhorar a qualidade do ChatGPT e atrasar o desenvolvimento de algumas outras iniciativas, incluindo publicidade.
A empresa tem estado em alerta máximo devido à crescente ameaça do mais recente modelo de IA do Google, o Gemini, que superou o ChatGPT em certos benchmarks, incluindo conhecimento em nível de especialista, puzzles de lógica, problemas de matemática e reconhecimento de imagem.
O novo modelo da OpenAI foi descrito pela empresa como melhor em benchmarks de matemática, ciência e codificação.
O negócio daOpenAI voltado para clientes corporativos também tem estado sob pressão da Anthropic, que recentemente intensificou seus esforços para vender para empresas.
“Nós projetamos o 5.2 para desbloquear ainda mais valor econômico para as pessoas”, disse Fidji Simo, presidente de aplicações da OpenAI, em uma teleconferência com repórteres na quinta-feira. “Ele é melhor na criação de planilhas, construção de apresentações, escrita de código, percepção de imagens, compreensão de longos contextos, uso de ferramentas e, em seguida, na vinculação de projetos complexos de múltiplas etapas.”
A aplicação da IA a tais tarefas será crítica à medida que as empresas buscam obter valor da ia e gerar um retorno sobre esses investimentos.
Simo, ex-ceo da instacart, ingressou na OpenAI este ano e é encarregada de ajudar a criadora do ChatGPT a se tornar um negócio global lucrativo.
Ainda não está claro se o mais recente modelo da OpenAI, focado em produtividade e trabalho, conquistará clientes ou a ajudará a competir contra rivais. Muitas empresas ainda estão no início do uso de ia e ainda não viram retornos generalizadosda tecnologia.
O GPT-5.2 mostra melhorias em raciocínio, codificação e trabalho com uma variedade de entradas, de texto a áudio, vídeo, e mais todas áreas em que a OpenAI enfrentou desafios do google e da Anthropic, disse arun chandrasekaran, analista da empresa de pesquisa de mercado e consultoria de TI Gartner. A empresa também progrediu em capacidades de trabalho do conhecimento essenciais para tornar o ChatGPT o assistente de ia de escolha para trabalhadores profissionais, ele acrescentou.
Crescente Competição
Ray Wang, fundador e principal analista da constellation research, disse que o GPT-5.2 é uma boa resposta ao Gemini do Google, mas não o suficiente para reverter o ímpeto de seu rival. Para as empresas, “o que a OpenAI fez foi facilitar a criação de ferramentas de produtividade de escritório”, disse Wang. “O Gemini ainda é mais integrado.”
A OpenAInão teve atualizações na quinta-feira sobre a geração de imagens no GPT-5.2. Essa capacidade tem sido um diferencial fundamental para o Gemini do Google desde o lançamento de seu gerador de imagens, nano banana, em agosto, e Altman listou a melhoria da tecnologia como uma prioridade chave em seu memorando de código vermelho para os funcionários.
No entanto, em comparação com a versão anterior de seu modelo, o GPT-5.1, lançado em meados de novembro, o GPT-5.2 “representa um salto enorme” em uma variedade de tarefas de trabalhadores profissionais, disse aaron levie, ceo e cofundador da box. As tarefas que os trabalhadores do conhecimento comumente assumem incluem a criação de planilhas e apresentações de slides.
No domínio do trabalho no mundo real, a OpenAI disse que o GPT-5.2 venceu ou empatou com os principais profissionais do setor em 70,9% das tarefas de trabalho do conhecimento no GDPVAL, sua própria métrica para medir o trabalho do conhecimento em 44 ocupações. Essas ocupações incluem empregos em setores como manufatura, serviços profissionais, saúde e finanças, onde as pessoas frequentemente trabalham com planilhas e apresentações.
O acesso ao GPT-5.2 começou a ser liberado para usuários pagantes do ChatGPT na quinta-feira.
A primeira versão do GPT-5, lançada em agosto, foiturbulenta e mostrou a luta da OpenAI para permanecer a líder indiscutível em ia. Na época, os usuários inundaram as mídias sociais com exemplos embaraçosos de como o chatbot falhou ao responder a perguntas simples de matemática ou desenhar com precisão um mapa da américa do norte.
Simo, da OpenAI, disse na teleconferência de quinta-feira que o lançamento do GPT-5.2 havia sido planejado por muitos meses e não deveria ser considerado parte de seu esforço de código vermelho.
“Código vermelho, apenas para colocar as coisas em perspectiva, isso não é algo incomum”, disse ela. “Tivemos um aumento de recursos focados no ChatGPT em geral. Eu diria que isso ajuda no lançamento deste modelo, mas não é a razão pela qual ele está sendo lançado nesta semana em particular.”
Também na quinta-feira, a disney disse que investiria US$ 1 bilhão naOpenAI e licenciaria seus personagens para uso no ChatGPT e Sora.
A news corp, proprietária do The Wall Street Journal, tem uma parceria de licenciamento de conteúdo com a OpenAI.
Elon Musk e Jeff Bezos competem há anos para construir foguetes e lançar satélites. Agora, eles estão correndo para levar o boom dos datas centers, que movimenta trilhões de dólares, para a órbita.
A Blue Origin, de Bezos, tem uma equipe trabalhando há mais de um ano na tecnologia necessária para data centers de IA orbitais, disse uma pessoa familiarizada com o assunto. A SpaceX, de Musk, planeja usar uma versão aprimorada de seus satélites Starlink para hospedar cargas úteis de computação de IA, apresentando a tecnologia como parte de uma venda de ações que poderia avaliar a empresa em US$ 800 bilhões, de acordo com pessoas envolvidas nas discussões.
A implantação de satélites que fornecem capacidade significativa de computação de IA apresentará difíceis obstáculos de engenharia e levantará questões difíceis sobre o preço da implantação de grupos desses dispositivos em órbita.
Os defensores reconhecem os desafios de fazer esses sistemas funcionarem, inclusive de uma forma que corresponda ao desempenho dos vastos datas centers repletos de chips de IA na Terra. Os céticos acreditam que os riscos técnicos estão sendo subestimados e dizem que os data centers espaciais não serão competitivos em termos de custo, especialmente se as restrições de energia e outras diminuírem na Terra.
No entanto, a ideia capturou a imaginação de muitos líderes que trabalham com tecnologias de IA e espaço. A SpaceX não respondeu imediatamente a um pedido de comentário. Um porta-voz da Blue Origin recusou-se a comentar.
A implantação de satélites como data centers, acredita-se, permitiria que a indústria de IA evitasse dores de cabeça terrenas, como garantir as imensas quantidades de energia necessárias para treinar modelos de IA.
Os proponentes imaginam potencialmente preencher órbitas com satélites carregados com chips que lidam com os cálculos subjacentes às aplicações de IA usadas por consumidores e empresas. Viajando pelo espaço, os satélites aproveitariam a imensa energia do sol para operar e transmitir dados de volta à Terra.
“Tirar infraestrutura intensiva em recursos da Terra tem sido uma ideia por anos, mas exigiu que os custos de lançamento e satélites diminuíssem. Estamos nos aproximando desse ponto”, disse Will Marshall, presente da operadora e construtora de satélites Planet Labs.
No início de 2027, o Google e a Planet Labs pretendem implantar dois satélites de teste em órbita, carregando os chips de IA da gigante da tecnologia, chamados unidades de processamento tensorial (tensor processing units). O Google descreveu o projeto como um de seus projetos ambiciosos e de alto risco, dados os obstáculos de implantar uma rede de centros de dados por satélite em escala.
Um desafio é o número de satélites que podem ser necessários.
Travis Beals, um executivo do Google que trabalha no esforço de data center orbital, disse que seriam necessários 10.000 satélites para recriar a capacidade de computação de um data center de gigawatt, assumindo satélites de 100 quilowatts.
A missão de teste em 2027 visa demonstrar os elementos-chave da operação de satélites como clusters de computação de IA, de acordo com Beals. “Então teremos um caminho longo e difícil em termos de toda a otimização, todas as várias novas tecnologias de que precisamos para escalar e depois fazê-lo de forma econômica”, disse ele em uma entrevista.
Uma multidão de empresas e executivos está tentando descobrir a viabilidade de data centers orbitais, além da SpaceX, Blue Origin e Google.
Em outubro, Bezos disse durante um evento na Itália que mudar data centers para a órbita fazia sentido, dada a energia solar disponível no espaço. Levará tempo para que estes superem os custos da infraestrutura de IA terrestre, mas ele previu que isso aconteceria em 20 anos ou menos.
A Blue Origin, de Bezos, fez grandes avanços este ano na demonstração de seu foguete em desenvolvimento há anos, o New Glenn. Esse veículo é parcialmente reutilizável e tem uma grande carenagem projetada para transportar um número significativo de satélites para a órbita.
Sam Altman, CEO da OpenAI, investigou se sua empresa poderia assumir uma operadora de foguetes, usando os veículos para implantar a computação de IA no espaço, informou o The Wall Street Journal. Eric Schmidt, o ex-CEO do Google que assumiu a Relativity Space, uma empresa que trabalha em seus próprios foguetes, falou sobre data centers orbitais.
O negócio de software Red Hat da IBM e a Axiom Space, com sede em Houston, lançaram um protótipo de computação de dados em agosto. Aetherflux, Starcloud e outras startups financiadas por capital de risco estão estabelecendo seus próprios planos para competir contra players maiores.
Operar satélites como data centers levantará uma série de problemas técnicos, incluindo o gerenciamento de temperaturas para chips de IA em órbita, a proteção contra radiação e a transferência de dados de volta ao planeta sem longos tempos de atraso (lag times).
“Há vários desafios de engenharia, mas acho que todos esses desafios de engenharia são solucionáveis”, disse Jonny Dyer, CEO da Muon Space, uma empresa de satélites que esteve envolvida em um artigo de pesquisa do Google sobre data centers orbitais. “Em última análise, tudo se resume ao lançamento.”
A perspectiva de ter potencialmente milhares de satélites como data centers para lançar poderia impulsionar os negócios em toda a cadeia de suprimentos aeroespacial, incluindo empresas de foguetes. Desenvolver foguetes é caro e difícil, mas lançamentos frequentes permitiriam que as operadoras compensassem custos e aumentassem as margens, dizem executivos do setor.
A SpaceX, de Musk, tem seguido esse caminho lançando sua frota Falcon 9 parcialmente reutilizável em taxas recordes, enviando satélites de internet para seu negócio Starlink e transportando cargas úteis para clientes externos.
A SpaceX, com sede no Texas, está almejando custos ainda mais baixos com o Starship, o foguete maciço que tem desenvolvido. A tecnologia de computação de IA seria instalada em satélites aprimorados que a SpaceX projetou especificamente para caber na espaçonave Starship, de acordo com pessoas familiarizadas com o assunto.
O foguete ainda não está operacional, e a SpaceX está planejando estrear uma versão aprimorada dele no início do próximo ano.
“O Starship deve ser capaz de entregar cerca de 300 GW por ano de satélites de IA movidos a energia solar para a órbita, talvez 500 GW”, disse Musk em uma postagem no X no mês passado.
Outras empresas de IA que desejam almejar data centers orbitais precisarão descobrir como implantar satélites no espaço.
Escreva para Micah Maidenberg em micah.maidenberg@wsj.com e Becky Peterson em becky.peterson@wsj.com
De todas as lojas da Sephora que passaram pelo novo redesign da varejista de beleza, a loja da Champs-Élysées, em Paris, provavelmente é a mais glamourosa. Há um longo tapete vermelho, pé-direito altíssimo e uma mesa gigante dedicada a tudo que está em alta nas redes sociais.
“Dizem que esta loja recebe mais visitas do que a Torre Eiffel”, afirma Deborah Yeh, diretora global de marketing da Sephora, enquanto caminhamos pela boutique lotada em uma tarde de outono. Passamos por uma seção de perfumes em que os frascos ficam orgulhosamente expostos em mesas próprias, quase pedindo para serem borrifados. A categoria de cuidados com o cabelo foi movida para a frente da loja; as cadeiras de maquiagem, antes próximas à entrada, agora ficam no centro do espaço.
Do lado de fora, a cidade vive um cenário de tensão. O governo francês entrou em colapso, com protestos bloqueando ruas por causa de cortes no orçamento e trabalhadores ameaçando entrar em greve. Lá dentro, mulheres aplicam hidratantes, testam sombras e passam batons.
“Quando as coisas vão mal, buscamos aquilo que nos traz pequenos confortos e alegria”, diz Yeh. Por isso batons e perfumes costumam vender bem em tempos de turbulência econômica. No dia anterior, ouvi algo parecido de Catherine Spindler, presidente da Sephora Europa e Oriente Médio, enquanto ela se preparava para o SEPHORiA, o evento multicidades da empresa para fãs de beleza.
“Oferecemos um gostinho de algo positivo, algo colorido em tempos difíceis”, afirma Spindler, sentada em um centro de convenções em Paris que estava sendo transformado em um festival estilo Coachella, com brincadeiras de parque, cabines de fotos, matcha e amostras e mais amostras de cosméticos criados para fazer os participantes parecerem, sentirem-se e cheirarem maravilhosos. “É um destino de felicidade.”
Pertencente ao conglomerado francês LVMH, a Sephora — hoje com 56 anos — é a maior varejista “de prestígio” do mundo em cosméticos, skincare, itens para cabelo e perfumes. É um lugar de descoberta para apaixonados por beleza que buscam constantemente a próxima grande novidade, encorajando os clientes a testar antes de comprar.
Mesmo em uma desaceleração do mercado de luxo que já dura mais de um ano, a Sephora segue como um ponto de brilho no portfólio da LVMH. A empresa registrou lucros recordes em 2024, com o CEO da LVMH, Bernard Arnault, dizendo a analistas, em janeiro, que não poderia revelar os ganhos completos que o grupo obteve com a varejista de beleza ao longo das décadas “porque vocês não acreditariam”.
Concorrência em todos os lados
A indústria global de beleza, avaliada em US$ 450 bilhões, vive um momento decisivo. Gigantes como Estée Lauder e L’Oréal enfrentam mudanças dramáticas nos gostos dos consumidores. Marcas novas e barulhentas surgem como nunca, redesenhando o mapa de influência. Apenas dois anos após lançar sua divisão de beleza, a rival Kering vendeu o negócio para a L’Oréal em meados de outubro. No outono, a Reuters noticiou que a LVMH estaria buscando vender sua participação na Fenty Beauty, marca de cosméticos criada com a cantora Rihanna em 2017. A LVMH não comentou o assunto.
A competição da Sephora é intensa: a Amazon atrai clientes com descontos, e a mais acessível Ulta Beauty vem ganhando participação de mercado. A chegada do TikTok Shop e de empresas de afiliados como a ShopMy também está drenando parte dos lucros da varejista.
Mas na corrida global da beleza, a Sephora pretende manter a liderança focando na experiência do cliente.
As novas lojas da marca se parecem muito com as antigas — inclusive na Champs-Élysées. A iluminação é forte, o espaço segue banhado no icônico preto e branco, e as filas continuam longas. “Achamos que nosso foco em criar um senso de uniformidade nas lojas se provou valioso”, escreve mais tarde uma porta-voz da Sephora por email.
Vejo um trio de garotas rindo dos nomes sugestivos dos perfumes Tom Ford e uma mulher de cabelo grisalho cantarolando enquanto testa blushes. Uma mãe, distraída na fila do caixa explorando os itens em miniatura, nem percebe que seu bebê está sem uma meia.
“Cada centímetro deste lugar precisa ser produtivo”, diz Yeh. “Tudo é um pequeno tesouro.”
“A Sephora está vencendo”
Guillaume Motte, presidente global e CEO da Sephora, parece vitorioso quando nos encontramos na sede em San Francisco, em setembro.
O lançamento da marca de Hailey Bieber, Rhode, havia acabado de estrear na Sephora, atraindo multidões em busca de selfies e gloss labial. Artemis Patrick, CEO da Sephora na América do Norte, sentada ao lado de Motte, diz que foi o maior lançamento da região até hoje.
“Não somos ingênuos sobre a competição”, diz Motte. “Mas a Sephora está vencendo.”
A empresa registrou crescimento “excepcional” em 2023 e 2024, afirma. A receita chegou a €16 bilhões (cerca de US$ 18,5 bilhões), segundo números compartilhados por Arnault em abril. O mercado está desacelerando, diz Motte, mas ele prevê que a Sephora chegará a €20 bilhões (aproximadamente US$ 23 bilhões) em vendas anuais “em um futuro próximo”.
No mundo, a Sephora tem 3.400 lojas — mais de 600 nos EUA — e vende cerca de 300 marcas de beleza upscale, metade delas exclusivas. As sacolinhas preto e branco são onipresentes.
Conseguir espaço na Sephora segue sendo o sonho de qualquer founder de beleza. “Eles são os melhores em deixar as pessoas animadas”, diz Dianna Cohen, fundadora da marca de haircare Crown Affair.
Mas existem muitos outros lugares para comprar hidratantes absurdamente caros. E hoje parece que todo mundo entrou no negócio da beleza — até a Old Navy.
Em 2024, segundo a Euromonitor, a Sephora detinha 9% do mercado online americano de beleza e cuidados pessoais — uma leve queda em relação a 2023. A Amazon, por outro lado, abocanhou 47% do mercado online no ano passado.
Contra-ataque: de parcerias à automação
Para reagir, a Sephora acelerou tanto a defesa quanto o ataque.
Em 2025, assinou grandes cheques para ações de marketing com a Hulu e a WNBA. Fãs de basquete que visitam o Chase Center, em San Francisco, agora podem comprar máscaras labiais da Tatcha e o creme Bum Bum da Sol de Janeiro em quiosques da Sephora no intervalo dos jogos.
Está construindo um novo centro de distribuição totalmente automatizado em Avon, Indiana, com abertura prevista para a primavera. “Muitos robôs”, diz Patrick.
Neste outono, lançou nos EUA a plataforma My Sephora Storefront, que permite à varejista ganhar dinheiro diretamente com recomendações de influenciadores, cortando intermediários.
As lojas, que ainda respondem por cerca de dois terços das vendas, estão sendo atualizadas — e a empresa está abrindo unidades menores em áreas onde já há demanda, como Brooklyn, Queens e Toronto. “A Gen Z ama lojas, ama a experiência”, diz Motte. “Varejo sem graça está morto; varejo atraente está vivo — e esse é o nosso negócio.”
A Sephora também está reforçando categorias em alta, como fragrâncias — que têm ajudado a atrair adolescentes do sexo masculino.
“Os homens estão vindo para nossas lojas, e eles não estão cochilando perto do estúdio de beleza”, diz Carolyn Bojanowski, VP executiva de merchandising para a América do Norte. “Nunca imaginei que veria isso acontecer.”
A história dentro da LVMH e o poder da curadoria
Quando a LVMH comprou uma rede de boutiques francesas de beleza em 1997, dominar o mercado de fragrâncias era prioridade. A gigante já vinha adquirindo marcas com perfumes próprios, como Givenchy e Kenzo.
Ao adicionar a Sephora ao portfólio, a LVMH se tornou “a maior distribuidora mundial de perfumes e produtos de beleza”, dizia um comunicado da época.
A Sephora desembarcou nos EUA no ano seguinte. “Os grandes da época — Clinique, Lauder e Lancôme — não queriam vender para nós”, conta Bojanowski. “Mas encontramos marcas pequenas e legais”, como Stila e Urban Decay.
Enquanto as lojas de departamento exibiam maquiagem atrás de vitrines fechadas e com vendedoras supervisionando, a Sephora deu liberdade total aos clientes para experimentar. E a partir de 1999, permitiu compras online.
A empresa sempre foi habilidosa em cultivar fãs. Mas seu diferencial está na curadoria e nas parcerias exclusivas. Fundadores dizem que a Sephora normalmente pede contratos de exclusividade de dois anos (a empresa não comenta) e que a divisão de receita costuma ficar em 40/60 com a varejista.
Entrar na Sephora é como entrar em um foguete: a marca ganha visibilidade com conteúdo social chamativo, eventos em loja, apoio de influenciadores do Sephora Squad e presença física em shopping centers de luxo.
Mas o custo para as marcas é alto: estoque, displays, equipes próprias dentro das lojas e até “taxas escondidas”, como campanhas sazonais pagas. Estimativas indicam que uma marca precisa vender mais de US$ 9 milhões para não perder dinheiro na parceria.
Ainda assim, fundadores relatam que a Sephora é extremamente forte no desenvolvimento de produtos. “Sentamos por horas discutindo ideias para lançamentos”, diz Kimberley Ho, da marca Evereden.
A corrida por tendências e novos públicos
Na SEPHORiA, em Paris, jovens adultos enfeitam potes de creme da Kiehl’s, borrifam sprays fixadores da One Size e espalham glosses da Fenty Beauty. Uma mulher de cílios impecáveis me mostra um lip mask triplo de morango da Laneige: “Você vai amar”, diz.
A Sephora está sempre atrás da próxima grande estrela. A equipe de Bojanowski vasculha redes sociais e envia DMs para founders. A empresa já apostou nas tendências erradas, como extensões capilares e suplementos, mas hoje vê enorme potencial no K-beauty — de máscaras de colágeno a cremes com ceramidas. Também está otimista sobre maquiagens assinadas por maquiadores de celebridades.
A marca também vê potencial enorme na Geração X (45 a 60 anos), diz Bojanowski. “As definições de beleza e envelhecimento mudaram muito. É uma grande oportunidade.”
Já com teens e tweens, Motte e Patrick demonstram cautela. Adolescentes têm lotado lojas atrás de produtos — inclusive anti-idade. “Não miramos neles; eles vieram até nós”, diz Motte.
As festas de aniversário de crianças na Sephora, que viralizam no TikTok, não são oficiais. A empresa teme que jovens comprem produtos inadequados para sua pele. Por isso, quer garantir que funcionários saibam orientar corretamente.
Isso inclui novas marcas voltadas para Gen Alpha: a Evereden estreou em outubro; a Sincerely Yours, criada pela influencer de 16 anos Salish Matter, chegou um mês antes.
Salish conta ter atraído 87 mil fãs a um encontro em um shopping — quando esperava apenas 500.
Escreva para Chavie Lieber em Chavie.Lieber@WSJ.com.
Durante a pandemia, ele decidiu abrir uma empresa com um amigo para criar molduras para exibir coleções de quadrinhos. O que começou como um projeto de paixão virou um empreendimento em rápido crescimento. Sua empresa, a Crafti Comics, enviava milhares de molduras para todo o mundo, e a receita aumentava.
Mas os bons tempos não duraram. Apesar das vendas em alta, os custos também subiam, já que Moyer investia em máquinas para atender à demanda por diferentes tamanhos e estilos de molduras. O negócio não conseguia gerar lucro, e as tensões entre Moyer e seu sócio cresceram.
Tudo chegou ao fim em março, quando Moyer enviou os últimos pedidos e fechou a empresa. “Expandimos rápido demais”, diz ele. “Em vez de reforçar nossos produtos principais e a experiência do cliente, tentamos agradar gente demais com opções demais.”
Crescer rápido demais é apenas um dos muitos erros que podem afundar uma pequena empresa. Empreendedores enfrentam inúmeros desafios e costumam cometer equívocos que colocam uma operação em queda livre, dizem especialistas. E negócios pequenos não têm as reservas de capital das grandes empresas para sobreviver a momentos turbulentos.
Não é de surpreender, portanto, que apenas metade dos novos negócios sobreviva dois anos, e apenas um terço chegue aos cinco anos, segundo pesquisa de Robert Fairlie, professor de políticas públicas e economia na UCLA.
Com isso em mente, pedimos a especialistas os principais motivos pelos quais pequenas empresas fracassam. Aqui está uma classificação subjetiva dos 10 maiores — do menos ao mais importante.
10. Tocar o negócio sozinho
Muita gente imagina o empreendedor de sucesso como um solitário — alguém que cria uma ideia e trabalha sozinho para realizá-la. Mas esse raramente é o caminho do sucesso, dizem especialistas. Empreendedores precisam de uma equipe com diferentes habilidades e perspectivas, além de apoio para momentos difíceis.
Pesquisas recentes mostram que empresas administradas por casais — os “copreneurs” — têm taxas particularmente altas de sucesso porque tendem a compartilhar valores e objetivos. Um estudo de Jo-Ellen Pozner e Jennifer L. Woolley, da Universidade de Santa Clara, descobriu que negócios artesanais iniciados por casais tinham metade da probabilidade de fechar em comparação com os demais.
9. Crescer rápido demais
Como mostra o caso da Crafti Comics, expandir sem controle pode esticar o negócio além do possível — seja comprando máquinas demais, abrindo unidades demais ou contratando demais.
O segredo, diz Josh Baron, professor da Harvard Business School, está no equilíbrio entre pensar no curto e no longo prazo. Reinventar os lucros pode gerar crescimento forte ao longo do tempo, mas só funciona se vier acompanhado de atenção ao fluxo de caixa e ao capital de giro.
8. Falta de experiência
Empreendedores com experiência prévia no setor têm uma grande vantagem. Eles conhecem detalhes, táticas e aprendem lições valiosas sobre sucesso e fracasso.
A melhor experiência? Trabalhar em um negócio familiar. Fairlie descobriu que “filhos de donos de empresas familiares tinham mais sucesso e eram menos propensos a fechar o negócio”. Trabalhar nesse negócio aumentava ainda mais as chances de sobrevivência.
Segundo ele, trabalhar para um familiar autônomo reduzia em 17% a probabilidade de fechamento e aumentava as vendas em cerca de 40%.
7. Paixão demais
Anna Jenkins, professora na Universidade de Queensland, entrevistou 120 empreendedores que haviam falido recentemente. Ela descobriu que aqueles que vinculavam fortemente sua identidade pessoal ao negócio tinham mais dificuldade de lidar com o fracasso.
“Quando a empresa está em apuros, fica muito mais difícil tomar a decisão de fechar, porque não é apenas perder o negócio — é perder parte de quem você é”, diz ela.
6. Conflitos internos
Quando sócios entram em conflito, o negócio sofre. Eles podem travar decisões estratégicas importantes e minar o moral dos funcionários.
Mas nunca discordar também é ruim, diz Baron. O ideal é encontrar a “zona Cachinhos Dourados” — conflito na dose certa, em que problemas podem ser levantados sem causar guerras internas.
5. Dificuldade para obter capital
Leva tempo até construir uma base de clientes e gerar receita, mesmo enquanto os custos já começam a subir. Reservas de capital ajudam, mas obtê-las não é simples.
Dificuldade de acesso a crédito aparece entre as maiores preocupações em pesquisas do Federal Reserve e do Morehouse Innovation and Entrepreneurship Center.
Alguns grupos enfrentam obstáculos ainda maiores. Pesquisa de Fairlie mostra que startups de empreendedores negros têm mais dificuldade de obter capital externo, especialmente crédito.
“Empresas de minorias muitas vezes não têm reservas ou acesso a capital”, diz ele. “Elas começam menores do que deveriam e acabam tendo dificuldade para operar.”
4. Falta de mercado
É economia básica: se não há mercado para seu produto, o negócio não vai prosperar. Mas estudar o mercado exige tempo e dinheiro — o que muitos pequenos empreendedores não investem.
Robert Blackburn, da Universidade de Liverpool, diz que muitos abrem negócios movidos pela paixão pela atividade — como cozinhar — mas ignoram fatores essenciais, como localização, público e marketing. Ele já viu muitos restaurantes falharem por esses motivos.
3. Choques externos
Pequenas empresas são vulneráveis a recessões e mudanças abruptas. Têm menos capital, menos espaço para estocar e menos poder para negociar preços.
Durante a pandemia, por exemplo, 8,5% das pequenas empresas fecharam no segundo trimestre de 2020 — o dobro da taxa pré-pandemia e muito acima da taxa de empresas grandes.
2. Incapacidade de se adaptar
Empreendedores não podem evitar crises globais ou mudanças bruscas no comportamento do consumidor, mas podem decidir como reagir.
Muitos negócios presenciais sofreram com os lockdowns, mas alguns sobreviveram ao se adaptar com entregas domiciliares e outros ajustes.
Os que não foram flexíveis perderam clientes.
1. Teimosia demais
No fim, muitos fracassos se resumem a má liderança — uma incapacidade de ouvir, considerar outras perspectivas e mudar de direção quando necessário.
Foi esse erro que ajudou a afundar a Crafti Comics. “Eu fui teimoso”, diz Moyer. “Não queria nada nos atrasando.”
Agora empregado em uma empresa, ele diz que aprendeu a lição: “Você precisa focar nos seus pontos fortes, crescer no seu ritmo e não perder de vista por que começou tudo.”
Andrew Blackman é escritor na Sérvia. Ele pode ser contatado pelo e-mail reports@wsj.com
A carreira de Ken Ono como um dos matemáticos mais proeminentes do mundo o levou a lugares que ele jamais poderia imaginar.
O renomado professor da Universidade da Virgínia regularmente ultrapassava os limites do campus, levando suas fórmulas de Hollywood às Olimpíadas. Ele é o único teórico dos números que já estrelou um comercial de cerveja. E, em seu próximo ato, esse homem renascentista da matemática está fazendo algo improvável até mesmo para seus padrões.
Ele está deixando seu cargo vitalício para trabalhar para uma jovem de 24 anos.
Até pouco tempo atrás, a ideia de se juntar a uma startup de IA no Vale do Silício lhe pareceria absurda. De fato, antes de isso reorientar sua carreira e transformar sua vida, ele se considerava um cético da inteligência artificial. Até recentemente, começava suas palestras fazendo piada com o hype em torno da tecnologia nascente.
“Meu nome é Ken Ono, e eu sou NI”, dizia ele. “Naturalmente inteligente.”
Agora, ele é o funcionário mais improvável de uma startup que quer revolucionar a matemática com IA.
Aos 57 anos, Ono está tirando uma licença prolongada da academia, sem planos de voltar. Ele está se juntando a uma empresa fundada por uma de suas ex-alunas, Carina Hong — dona de um currículo tão brilhante que deixaria qualquer IA insegura.
Depois de se formar no MIT em três anos, vencer o Prêmio Morgan como a melhor pesquisadora de matemática de graduação nos EUA e ganhar uma bolsa Rhodes, ela foi para Stanford buscar um doutorado conjunto em Direito e Matemática. Quando largou os cursos para fundar a Axiom Math, ela levantou US$ 64 milhões, recrutou alguns pesquisadores de IA da Meta — e contratou seu mentor. Para ela, foi uma decisão óbvia.
“Ken Ono é o ídolo de muitos estudantes de matemática”, disse Hong, presidente-executiva da Axiom.
A empresa recebeu o nome do termo matemático para uma verdade básica capaz de fundamentar toda uma teoria. O objetivo de Hong é construir um “matemático de IA”, capaz de raciocinar sobre problemas conhecidos, encontrar novos e validar o próprio trabalho por meio de provas formais. Se der certo, a Axiom pode resolver questões que intrigam humanos há séculos.
Os investidores da startup apostam que uma superinteligência matemática teria diversos usos comerciais — verificação de software e hardware, otimização logística, trading algorítmico e engenharia financeira. As empresas mais ricas do mundo estão gastando bilhões e alimentando temores de uma bolha, mas matemáticos estão cada vez mais otimistas sobre o potencial da IA em auxiliar suas pesquisas e impulsionar descobertas.
Quando conversei com Ono, era o dia seguinte à assinatura dos documentos que oficializaram sua licença. Enquanto se preparava para atravessar o país, ele relutava em fazer previsões para o futuro. Mas o professor de matemática que agora trabalha para uma startup compartilhou um de seus próprios axiomas:
“Se eu for o primeiro, que seja”, disse ele. “Não serei o último.”
Ono é um ponto fora da curva, e sua carreira foi incomum desde o início. Na infância, a pressão dos pais o deixou tão infeliz que ele não concluiu o ensino médio. Sem diploma, mesmo assim entrou na universidade, descobriu sua paixão pela matemática e lecionou durante décadas na Universidade de Wisconsin e em Emory antes de chegar à Universidade da Virgínia em 2019. Ele também liderou o principal programa de pesquisa para alunos de graduação e orientou 10 vencedores do Prêmio Morgan — incluindo sua nova chefe.
“Ele é uma figura maior que a vida na matemática”, disse Ken Ribet, ex-presidente da Sociedade Americana de Matemática.
Na matemática, Ono é conhecido por seu trabalho em diversos temas da teoria dos números, das congruências de Ramanujan à conjectura umbral moonshine.
E se essa frase te deu suor frio, pode relaxar.
Ono também é conhecido por aplicar matemática a outras áreas. Ele assessorou nadadores da Universidade da Virgínia e campeões olímpicos dos EUA. Ajudou a orientar a Agência Nacional de Segurança. Trabalhou na produção do filme “O Homem que Viu o Infinito” (2015). Depois apareceu em um comercial de cerveja certificando que 64 (as calorias da Miller64) é menor que 80 (as concorrentes).
E ele é conhecido por mais uma coisa: sua impressionante coleção de camisas havaianas.
“Espero que a Axiom faça um contrato com a Tommy Bahama”, brinca. “Esse é meu sonho.”
Nos últimos anos, Ono começou a acompanhar o rápido progresso da IA. Ficou intrigado, mas não intimidado. A IA era surpreendente em tarefas cognitivas e na resolução de problemas já vistos, mas tinha dificuldades com a criatividade de sua área — que exige intuição e pensamento abstrato.
Essa criatividade é tão fundamental para a matemática pura que Ono acreditava que seu emprego estaria seguro por décadas.
Mas, na primavera passada, ele foi um dos 30 matemáticos convidados a selecionar problemas de pesquisa para testar modelos de IA. Ele saiu do simpósio profundamente abalado com o que viu.
“A vantagem que eu tinha sobre os modelos estava diminuindo”, disse ele. “E em áreas da matemática fora da minha especialidade, senti que os modelos já me ultrapassavam.”
Durante meses, Ono viveu um luto pela própria identidade. Não sabia o que fazer, consciente de que os modelos só ficariam mais inteligentes.
“Então tive uma epifania”, disse. “Percebi que os modelos ofereciam uma forma diferente de fazer matemática.”
Ele já tinha colegas, alunos de pós-graduação e brilhantes estudantes de graduação como colaboradores. Agora também tem a IA.
“Passo uma ou duas horas por dia trocando ideias com os modelos”, diz ele. “Tarde da noite, quando não consigo dormir, pego meu iPhone e fico conversando sobre matemática com os modelos em um nível absurdamente alto.”
Ao mesmo tempo, a IA não era o único motivo para que seu trabalho como professor parecesse instável.
Com o Departamento de Justiça pressionando o ensino superior, ele temia ameaças ao financiamento federal de pesquisa. No início do ano, o presidente da Universidade da Virgínia renunciou sob pressão do governo Trump. Como assessor de STEM do reitor, Ono passava mais tempo lidando com política — e menos tempo fazendo matemática.
Ele decidiu deixar a Universidade da Virgínia pela IA porque não conseguiu resistir à oportunidade de influenciar o mundo além do quadro-negro.
“Tenho o luxo de participar de uma transformação de como o mundo realmente funciona”, disse Ono. “Como matemático puro, isso raramente foi o caso.”
Quando concluiu que era hora de mudar, sabia exatamente para quem ligar.
Carina Hong havia sido aluna de seu programa de pesquisa em 2020, antes de ganhar o Prêmio Morgan e o Prêmio Schafer como melhor estudante de matemática do país. Nascida e criada na China, ela aprendeu inglês sozinha ainda jovem para ler livros avançados da área. Treinou em programas de Olimpíadas de Matemática, resolvendo problemas sob pressão, mas ficou obcecada por outro tipo de matemática.
“Sempre me interessei por descobertas matemáticas”, disse. “A matemática olímpica dá picos constantes de dopamina, mas a pesquisa é bater a cabeça na parede. É dor e sofrimento. Eu gosto disso.”
Na nossa conversa, ela descreveu tanto a pesquisa matemática quanto seu primeiro ano na faculdade de direito como “muito divertidos”. Ela é uma das poucas pessoas que saberia comparar. Estudante de primeira geração, Hong brilhou no MIT. Em vez de ir para um fundo quantitativo, foi para Oxford como bolsista Rhodes. Depois de estudar neurociência e escrever duas dissertações, seguiu para Stanford.
Nos fins de semana, estudava em uma cafeteria perto do campus. Bebendo matcha, lia artigos difíceis e ficou amiga de Shubho Sengupta, cientista de IA da Meta que também frequentava a mesa comunitária. Em suas conversas, perceberam que podiam unir seus mundos.
Em suas corridas matinais, quando cogitava deixar a escola e abrir uma empresa, Hong lembrava o conselho de Lisa Su, CEO da AMD: corra na direção dos problemas mais difíceis.
“A pesquisa matemática é muito difícil”, disse Hong. “IA para matemática é mais difícil ainda.”
Ela largou tudo assim que a rodada de investimento semente da Axiom foi concluída no último verão.
Dias depois, Google DeepMind e OpenAI encantaram nerds no mundo inteiro quando seus modelos conquistaram medalhas na Olimpíada Internacional de Matemática. O mesmo aconteceu com a Harmonic, startup cofundada pelo CEO da Robinhood, Vlad Tenev, que afirma que “a superinteligência matemática está cada minuto mais perto”.
Correndo contra o tempo, Hong começou a recrutar talentos ao lado de Sengupta, agora diretor de tecnologia da Axiom. Entre os engenheiros que contrataram da Meta estava François Charton, pioneiro da IA para matemática. A blitz de contratação chamou atenção no Vale do Silício — e também de alguém a milhares de quilômetros: Ken Ono.
Logo, ele estava empacotando tudo com sua esposa e o schnoodle da família, Mochi.
E, nesta semana, começou como o 15º funcionário da Axiom.
Quando começaram a discutir seu cargo, a oferta inicial foi “chief math guy”. Depois de negociações, decidiram pelo título oficial: “matemático fundador”.
Seu trabalho é testar os limites dos modelos da empresa. Ele está criando problemas representativos que só podem ser resolvidos por meio da compreensão profunda dos princípios matemáticos, além de elaborar benchmarks que servirão de guia para o desempenho dos sistemas.
“Pense nisso como um mapa para um navegador”, diz ele. “Antes de partir para descobrir novas terras, você precisa saber onde está e o que já foi explorado.”
Ono diz que essa vontade de explorar o trouxe à Axiom mais do que qualquer motivo financeiro. “Não estou fazendo isso pelo dinheiro”, disse ele. Ono já estava entre os funcionários mais bem pagos da Universidade da Virgínia e afirma ter recusado propostas mais lucrativas e com maior participação acionária em outras empresas de IA.
Nos escritórios da startup em Palo Alto, as salas de reunião têm nomes de matemáticos lendários — Poincaré, Gauss, Hilbert, Lovelace, Turing. Depois de levantar US$ 64 milhões, funcionários notaram que 64 é 2^6 e brincaram que a próxima rodada poderia ser 2^7.
Mas o surpreendente é que muitos dos colegas de Ono têm sua idade.
“Muitos dos principais pesquisadores de fronteira estão em uma fase da vida em que têm histórico, obra consolidada, segurança financeira — e querem seu projeto de legado”, disse Hong.
E um deles procura algo mais.
“Mesmo que cheguemos à superinteligência, ainda haverá questões matemáticas sem solução”, disse Ono. “E eu continuarei em busca de respostas.”
Em um dia de folga das funções de preparar lattes e Frappuccinos, a barista da Starbucks Bridget Baron entrou no trabalho para fazer algo que a empresa normalmente desaprova: postar um TikTok durante o expediente.
Para este vídeo, no entanto, a jovem de 21 anos usou um tripé fornecido pela empresa e vestiu o avental com o logo da Starbucks. O vídeo em que ela mostrava a preparação de chantilly em bebidas de fim de ano acumulou mais de 800 mil visualizações — proporcionando à Starbucks um rápido impacto de marketing viral.
Há uma tradição de funcionários postarem sobre a vida no trabalho. Mas, geralmente, é para satirizar o atendimento ao cliente ou a cultura corporativa, e muitos fazem isso sem aprovação explícita ou sem revelar onde trabalham.
Agora, em vez de desencorajar a prática, empresas como Starbucks e Delta Air Lines estão apostando nela — transformando funcionários em seus próprios influenciadores de mídias sociais. E querem participar da criação do conteúdo.
A estratégia permite que os empregadores mostrem seus locais de trabalho como ambientes felizes e gerem um marketing espontâneo com seus funcionários jovens e nativos digitais. Para os empregados, é uma oportunidade de canalizar suas habilidades de criação de conteúdo para maior visibilidade e acesso a benefícios, como viagens de trabalho e treinamentos de desenvolvimento profissional.
Também pode servir como um diferencial no currículo.
“Cresci nas redes sociais e adoro criar conteúdo”, disse Baron, que estuda ciência da computação em Charlotte, na Carolina do Norte, e deseja se tornar designer de experiência do usuário. Recentemente, ela adicionou “criadora de conteúdo” à sua experiência de trabalho na Starbucks no LinkedIn. Depois de três anos na empresa, afirmou: “Achei que seria um ótimo ponto de interseção entre as duas coisas.”
Baron foi uma das 53 baristas escolhidas desde 2024 para a iniciativa Green Apron Creators da Starbucks, que incentiva funcionários a postar vídeos durante o trabalho. A empresa envia sugestões ocasionais sobre promoções, como o retorno do xarope Apple Crisp. Os criadores são pagos por postagem, embora a empresa não tenha divulgado os valores.
Em programas similares na Ulta Beauty e na sede alemã da Hugo Boss, esses funcionários geralmente não são estrelas de mídia social por conta própria. Baron, por exemplo, tem menos de 1.000 seguidores no TikTok.
Fora desses programas, a Starbucks ainda proíbe que baristas postem durante o expediente, com o avental ou atrás do balcão, a menos que as postagens sejam previamente aprovadas e coordenadas com a equipe de marketing ou comunicação da marca.
Nos últimos anos, um barista relatou ter sido demitido após postar um pedido de bebida detalhado de um cliente. Outra funcionária foi demitida depois de um desabafo sobre seu turno viralizar. A empresa não comentou casos específicos, mas afirmou que analisa o histórico de violações de políticas e se a conduta viola seus valores antes de disciplinar funcionários.
Às vezes, transformar funcionários em influenciadores atende a uma estratégia de negócios específica. A rede de restaurantes Portillo’s planeja expandir nacionalmente, então deseja aumentar o reconhecimento da marca além de sua base principalmente na região de Chicago e contratar mais pessoas, disse Jill Waite, diretora de pessoas da empresa.
Neste ano, Portillo’s escolheu 15 funcionários para seu programa Maxwell Street Mavens — nomeado por um item popular do menu, a salsicha Maxwell Street Polish — com base no conteúdo que publicaram no LinkedIn e em canais internos.
Zach Hawkins, gerente da unidade de Chandler, no Arizona, é um deles. Hawkins, 33 anos, disse que geralmente não se sente confortável diante das câmeras, mas viu o programa como uma oportunidade de se desenvolver profissional e pessoalmente.
Recentemente, Portillo’s enviou instruções para Hawkins e outros funcionários-criadores produzirem vídeos relacionados à National Italian Beef Week e à National Hot Dog Week. Inspirado, ele vestiu uma camiseta de cachorro-quente e fez um colega se fantasiar de cachorro-quente. Amantes de hot dogs no estilo Chicago têm forte aversão a ketchup, então filmaram uma cena em que o colega afastava a garrafa de ketchup da mão de Hawkins, criando uma pequena bagunça.
Incluindo edição, a produção levou cerca de 45 minutos. Depois, o vídeo foi enviado para aprovação antes de ser publicado.
“Com tantos influenciadores por aí, acho ótimo que estamos acompanhando os tempos e usando nossos próprios recursos”, disse Hawkins. Portillo’s não oferece compensação extra, mas está estudando incentivos como brindes da empresa, disse Waite.
Transformar funcionários em influenciadores internos precisa parecer autêntico, disse Josh Bersin, analista de trabalho e consultor corporativo. Se o funcionário parecer roteirizado e inverossímil, tudo será em vão.
Mas, se o empregado for carismático, “ele pode acabar viralizando”, afirmou.
Deltalina, apelido da comissária que começou a protagonizar vídeos de segurança da Delta em 2008, ficou famosa por sua brincadeira de balançar o dedo na tela. Reconhecida pessoalmente por anos, ela voltou a aparecer em um vídeo de segurança destacando funcionários da Delta com uniformes de todas as eras da companhia.
Para um novo projeto com funcionários-criadores, a Delta selecionou 15 funcionários da linha de frente, incluindo pilotos, comissários e agentes de atendimento, e os levou à sede da empresa em Atlanta para orientação. Lá, a empresa explicou a diferença entre uma interação rápida dentro do avião e vídeos de mídia social que permanecem na internet, disse Tim Mapes, diretor de comunicações da Delta. Alguns funcionários já tinham seguidores nas redes sociais.
Entre eles estava Pamela Kucera, 64 anos, que começou a postar dicas de viagem no TikTok e Instagram há três anos, incentivada pela filha. No início, Kucera achava que ninguém se interessaria por conselhos de uma comissária “velha”. Mas ganhou milhares de seguidores ao dar dicas para novos funcionários e explicar conceitos como senioridade e escalas de tripulação.
Agora influenciadora oficial da Delta, Kucera assiste a tutoriais sobre edição de vídeos com música, criação de narrações e legendas. Estima dedicar cinco horas por semana à produção de conteúdo, entrevistando colegas e compartilhando memórias favoritas com passageiros.
“Isso dá uma ótima noção de quem somos na Delta”, disse ela.
Escreva para Allison Pohle em allison.pohle@wsj.com
“Preciso de um cigarro para me sentir melhor”, cantou a estrela pop Addison Rae em seu single de 2025 Headphones On, enquanto Lorde cantou “este é o melhor cigarro da minha vida” em seu lançamento de 2025, What Was That.
Sabrina Carpenter foi recentemente fotografada usando um corpete feito de embalagens de Marlboro Gold, e vende camisetas com nomes de músicas estampadas em mock-ups de caixas de cigarro e isqueiros.
No cinema, cerca de metade de todos os filmes lançados no ano passado incluíram aparições de cigarros, charutos e outros produtos de tabaco, um aumento de 10 pontos percentuais em relação ao ano anterior, segundo um novo relatório da ONG de saúde pública Truth Initiative e da organização de pesquisa NORC da Universidade de Chicago.
Com mais atores, estrelas pop e outras celebridades sendo vistos fumando sem se desculpar, o tabu cultural contra o fumo mostra sinais de enfraquecimento. Isso preocupa defensores antitabagismo, que temem uma reversão na queda de anos nas taxas de fumo nos EUA.
“Isso me preocupa, ver pessoas glamourosas e atraentes fumando cigarros”, disse Ollie Ganz, professor assistente da Rutgers School of Public Health, cuja pesquisa foca em tabaco.
Embora as taxas de fumo nos EUA estejam em seus níveis mais baixos em décadas, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) já afirmaram que fumar em filmes contribui para o aumento do consumo entre jovens. “Jovens fortemente expostos a imagens de fumo na tela têm mais chances de começar a fumar do que aqueles com exposição mínima”, constatou um relatório do CDC de 2019.
Cerca de um em cada três óbitos por câncer nos EUA está ligado ao cigarro, segundo o CDC. Autoridades federais de saúde associam o tabagismo a mais de 30 doenças e condições de saúde, incluindo doenças cardíacas, AVC e asma.
Desde o início dos anos 2000, campanhas antitabagismo inundaram televisores e telas de celulares, e por anos celebridades e pessoas de destaque geralmente evitavam fumar — ao menos em público. O ex-presidente Barack Obama foi criticado por defensores da saúde por fumar, e admitiu ter tido dificuldades para parar. O ator Sean Penn recebeu críticas por acender um cigarro durante sua participação no The Late Show em 2018.
A indústria do tabaco introduziu novas formas de consumir nicotina. O vaping, considerado menos prejudicial que o cigarro, tornou-se o produto de tabaco mais usado entre jovens, segundo o CDC. Sacos de nicotina também ganharam alguma popularidade.
Pausa para fumar Para alguns, os cigarros agora têm um apelo retrô.
Maddie Bell, uma estudante universitária de 21 anos em New London, Connecticut, disse que cresceu sabendo dos riscos do tabagismo. Quando estava no ensino médio, figuras culturais como Julian Casablancas, do Strokes, a intrigavam. “Cigarros pareciam legais”, disse ela.
Bell começou a fumar no último ano, compartilhando cigarros com amigos após festas de fim de semana. Após um semestre na Europa no início deste ano, seu cigarro ocasional de fim de semana se tornou rotina.
“Foi quando passei de atraída pela nicotina para realmente ter o hábito”, disse Bell. Sua marca favorita é Marlboro, mas ela prefere o tabaco para enrolar da Natural American Spirit, porque é mais barato.
Jared Oviatt, que administra uma conta no Instagram chamada @cigfluencers, vem registrando celebridades fumando desde 2021. Ele disse que criou a conta porque ele e seus amigos sempre acharam o cigarro “cool”.
“Eu diria que as campanhas antitabagismo foram eficazes demais”, disse Oviatt, que compra um maço a cada poucos meses. “Isso abriu caminho para o vaping. Quando o vaping se tornou sem graça, abriu o caminho para os cigarros.”
Oviatt disse que começou a conta após ver uma foto da cantora britânica Dua Lipa fumando. Recentemente, ele publicou uma foto de Lily Allen fumando com traje de freira, junto com Charli XCX e seu marido compartilhando um cigarro em um restaurante após o casamento, ainda com trajes formais. Legenda de Oviatt: “Este é meu casamento real.”
A conta agora tem 83.700 seguidores. Oviatt disse que, em um período de 30 dias, seu público estava concentrado em Nova York e Londres, sendo 70% mulheres.
Nas noites de sábado no East Village, a estudante de pós-graduação da Columbia University, Amira Hakimi, frequentemente usa botas Dr. Martens plataforma, uma blusa brilhante e seu isqueiro rosa Bic. A jovem de 22 anos disse que fuma duas vezes por mês, geralmente após longas noites de festa.
“Você sai do bar, sente o ar frio e fica quieto”, disse Hakimi. “É o momento em que todo mundo pensa: ‘Ah, deveríamos fumar um cigarro.’ ”
Para Hakimi, o vaping é brega. “Fumar cigarros é um ato muito atemporal”, disse ela.
As taxas de fumo nos EUA nos últimos anos estiveram em seus níveis mais baixos em oito décadas, com 11% dos americanos relatando ter fumado um cigarro na semana anterior, segundo pesquisa Gallup. Jovens americanos têm ainda menos probabilidade de fumar, de acordo com a pesquisa. Nos últimos anos, uma média de 6% dos adultos com menos de 30 anos relatou ter fumado recentemente, contra 35% em pesquisas de 2001 a 2003.
“Cigarros são perigosos. A nicotina vicia, e a fumaça mata com doenças cardíacas, pulmonares e câncer”, disse Dra. Nancy Rigotti, professora da Harvard Medical School e diretora de pesquisa em tabaco no Massachusetts General Hospital. “Temos dados tão bons de algumas décadas atrás que mostrar celebridades fumando e fumar em filmes realmente era um modelo que levava jovens a fumar.”
‘Algo sobre fumar’ Grandes empresas de tabaco, incluindo Altria, disseram que monitoram regularmente o uso de suas marcas em filmes e outros meios, enviando cartas de cessar e desistir. A Reynolds, produtora de marcas como Camel e Newport, disse ter política rígida proibindo o uso de seus produtos em filmes ou programas de TV.
A Altria, que produz Marlboro pela Philip Morris USA, disse que regularmente incentiva os fumantes a optar por produtos que não sejam cigarros. A Reynolds disse que não incentiva consumidores a começar a usar produtos de tabaco, incluindo cigarros.
Para Matthew Daniel Siskin, consultor criativo que trabalhou com a marca de cigarros artesanais Hestia, consumidores mais jovens — ainda que maiores de idade — estão entre os principais clientes da marca. Os cigarros da Hestia, derivados de tabaco cultivado nos EUA e com o slogan “Naked, Wild, Tobacco”, são populares entre jovens fumantes.
“Há algo em fumar na minha janela”, disse Siskin, 43 anos, que trabalha com artistas e músicos. “Era o que fazíamos antes de olharmos para nossos celulares. Você dizia ‘Ei, tem fogo, tem um cigarro?’ ”
Bell, a estudante universitária, disse que agora fuma um ou dois cigarros por dia. “Para mim, grande parte do que me atrai no fumo é que é algo muito social.”
Idealmente, Bell disse que gostaria de parar. “Mas acho que é um hábito. É difícil largar.”
Escreva para Laura Cooper em laura.cooper@wsj.com e para Terell Wright em terell.wright@wsj.com.
Play, uma buldogue francês de quatro anos, cambaleava pela rua em Noho. Espremendo os olhos ao sol da manhã, ela exibia orelhas de morcego, boca virada para baixo e a expressão de uma sogra irritada.
“As pessoas dizem o tempo todo que ela é feia”, contou sua dona, Nakisha Lewis, 41 anos, stylist e estrategista de impacto. “Acho o rostinho arredondado absolutamente adorável… mas todo pai acha seu bebê adorável.”
Você não pode sair por aí chamando bebês humanos de feios, mas as regras são mais flexíveis com cachorros. Tenho patrulhado o centro de Manhattan procurando raças singularmente pouco atraentes — e perguntando a seus donos por que as escolheram. (Ainda não perguntei se alguém acredita na lenda urbana de que cães se parecem com seus donos.)
Como uma esnobe superficial que cresceu com golden retrievers dignos de comerciais da Pantene, eu precisava saber: por que estamos tão fascinados por cachorros feios agora?
Nos últimos anos, o melhor amigo do homem despencou de um 10 para um 2. Claro, ainda há muitos vira-latas lindíssimos, mas no fim de cada segunda coleira há um rato com mordida torta ou uma criaturinha de olhos esbugalhados e orelhas tão monstruosas que fazem as do rei Charles III parecerem pequenas.
Os buldogues franceses lideram a ofensiva dos cães “atores coadjuvantes”. Celebridades carregam seus filhotes estilo Yoda, e millennials os amam mais do que uma parede bege bem decorada.
Por 31 anos, os Labradores lideraram o ranking de raças puras do American Kennel Club, baseado em mais de um milhão de registros anuais. Mas desde 2022 os Frenchies são os campeões, com Labs e goldens ficando com prata e bronze. É como se o capitão do time de futebol americano e a rainha do baile perdessem uma competição de popularidade para um esquisito ofegante.
Carly Fox, veterinária no Schwarzman Animal Medical Center, de Nova York, disse que os cães de “cara achatada” — “braquicefálicos”, para os íntimos — vêm ganhando terreno na última década. Outros membros populares desse clube de focinhos curtíssimos incluem buldogues ingleses, bostons, pugs e grifões de Bruxelas.
Um grupo rival — mais nichado, mas não mais bonito — é a turma dos “ratinhos”: pense em chihuahuas, xoloitzcuintles (pelado-mexicano) e cresteds (cão de crista chinês), uma raça em grande parte sem pelos, com tufos esvoaçantes na cabeça, que o American Kennel Club chamou de “agitadora” e eu chamo de “um cachorro esquecido no micro-ondas”. Neste verão, um cão de crista chinês de vestido rosa tremeu em um papel de destaque na série da Netflix de Lena Dunham, Too Much.
Os vitorianos iniciaram a obsessão moderna por criar “cães com muitas aparências diferentes para atender diferentes desejos humanos”, explicou a dra. Rowena Packer, professora da Royal Veterinary College da Universidade de Londres.
A maleabilidade do genoma canino permite enorme variedade física, disse ela, o que significa que criadores podem levar características ao extremo — achatando focinhos, multiplicando rugas. Para avaliar o quanto um cachorro foi modificado, Packer recomenda comparar com o arquétipo original: o lobo. Arrisco dizer que um lobo reconheceria uma ovelha como parente antes de reconhecer um pug sorridente.
Foto: Sarah Stier/Getty Images for Westminster Kennel Club)
Hal Herzog, professor emérito de psicologia da Western Carolina University que estuda relações humano-animal, afirmou que raças se tornam populares como tendências de moda. Olhamos para filmes, celebridades e, acima de tudo, copiamos uns aos outros. O acaso tem grande peso, disse ele, mas ajuda ter um apelo inerente.
O charme das raças esquisitonas? Primeiro, são em sua maioria pequenas. Isso combina com a demanda pós-pandemia por cães de apartamento que também possam viajar, disse Paula Fasseas, fundadora da PAWS Chicago, uma organização de bem-estar animal “no-kill”.
Mas o grande atrativo dos braquicefálicos é a fofura de apertar as bochechas. Quando donos me diziam que seus buldogues franceses e pugs se pareciam com bebês humanos, tomei isso como uma ofensa em nome de todos os pais.
Mas estudos mostram que cães de cara achatada possuem kindchenschema ou “esquema de bebê”, termo do etólogo Konrad Lorenz para características infantis que despertam respostas de cuidado. Com olhos grandes, narizes pequenos e cabeças mais arredondadas, o rosto de um braquicefálico “é muito mais humano do que o de um Labrador”, disse Packer.
Esses looks têm um preço alto. Packer afirma que buldogues franceses, pugs e buldogues ingleses são mais propensos a doenças oculares crônicas, infecções em dobras de pele e problemas de coluna, além de dificuldades respiratórias causadas por vias aéreas encurtadas — e agravadas por focinhos ainda mais achatados do que antes.
Fox, a veterinária, tem um buldogue francês, mas chamou as raças braquicefálicas extremas de “pesadelos” do ponto de vista médico. (Se você ama o visual, Packer recomenda uma mistura mais saudável, como jack russell com pug — o maravilhosamente nomeado “jug”.)
Alguns especialistas argumentam que os problemas de saúde dos braquicefálicos podem torná-los mais desejáveis. Autoridades como James Serpell sugerem que a necessidade constante desses cães desperta nossos instintos maternais, observou Herzog.
Esqueça jogar gravetos; como disse uma jovem enquanto seu queridinho de focinho molhado fazia necessidades no parque, “você tem que limpar o bumbum de um buldogue francês”. Packer chama isso de “parentificação dos cães”.
A mesma frequentadora de parque comparou seu Frenchie a um Labubu. Um cínico diria que, como aquelas bonecas feias-e-fofas, os braquicefálicos são acessórios da moda para jovens urbanos exibirem na rua e no Instagram. Mais indiscutível é o fato de que, como aqueles monstrinhos sorridentes, cães de cara amassada são hilários.
“Há um aspecto tragicômico” na aparência dos Frenchies, disse Billy Corgan, vocalista do Smashing Pumpkins, dono da resgatada Colette. “Eles parecem saídos de um romance de Cervantes… têm esse ar de alma perdida.” Também lhe lembram o ator cômico Marty Feldman, famoso pelos olhos esbugalhados que olhavam para direções diferentes. “Eles não são bonitos como um galgo”, acrescentou, “mas, veja bem, nós não estamos namorando os cães.”
Um dono de Frenchie sabe que vai ouvir comentários como “meu Deus, que engraçado”, disse Will Thrun, 27, que trabalha em finanças. Em um desfile canino de Halloween no East Village, Poppy, a Frenchie de Thrun, se esparramou ao sol vestida de taco enquanto os ancestrais lobos cinzentos se reviravam no túmulo.
Elias Weiss Friedman, que compartilha fotos de cães de Nova York com seus quase 8 milhões de seguidores no Instagram The Dogist, disse que as pessoas querem cada vez mais cachorros que se destaquem.
Um cão esquisito permite “mostrar sua individualidade”, disse Terence Nelson, 38, estrategista de marketing de influência em Nova York cujo grifão de Bruxelas, Sue, é a cara de um Ewok. (Mantive a boca fechada quando donos de Frenchies exaltavam a “singularidade” de seus cães — cercados por literalmente dezenas de outros Frenchies roncando ao redor.)
Brian Lee, fundador do Way of the Dog, um programa de comportamento canino no sul da Califórnia, oferece outra explicação para o aumento dos cães de aparência estranha: a ascensão da adoção de animais resgatados. Em vez de focar na aparência, muitas pessoas pensam: “Quero ajudar esse animal inocente”, afirmou Lee.
Quando chamam o cachorro de Eve-Marie Kuijstermans de feio, ela considera um elogio. Edgar Allan Pup (“Eddie”), seu vira-lata de crested chinês com chihuahua, é quase sem pelos, com tufos de “velhinho” na cabeça. “Ele poderia ter 100 anos”, disse Kuijstermans. (Ele tem cinco.) “As crianças ficam muito confusas com ele”, acrescentou a executiva de 41 anos.
Ultimamente, Kuijstermans tem notado mais grifões de Bruxelas, cão de crista chinês e “misturas interessantes” — uma vingança dos nerds contra as multidões de doodles fofinhos. “Para mim, a fofura do Eddie está no fato de ele ser meio um carinha estranho”, disse ela, enquanto seu cão subia no meu colo para observar o parque canino.
De repente, esta eterna apaixonada por golden retrievers começou a se encantar por uma criaturinha doce e aconchegante como uma vassoura
O presidente da Robinhood Markets subiu ao palco na conferência anual da corretora online, realizada em Las Vegas neste outono, vestindo um macacão de piloto de corrida e tênis Nike personalizados.
Vlad Tenev disse aos centenas de traders que o aplaudiam na plateia que eles haviam escolhido “um dos estilos de vida mais intensos que existem”. Ele comparou o ato de operar à pilotagem de um carro de corrida. “Uma máquina bem ajustada pode fazer toda a diferença”, afirmou, “e é esse o papel que acreditamos que a Robinhood desempenha para nossos investidores mais ativos.”
O apetite pelo risco voltou entre investidores individuais, e poucas pessoas contribuíram tanto para reacender esse espírito quanto o jovem Tenev, de 38 anos. O aplicativo da Robinhood facilita não apenas a compra e venda de ações comuns, mas também o investimento em opções, criptomoedas e outros produtos financeiros exóticos — além de permitir apostas esportivas e participação em mercados de previsões.
Os críticos da empresa comparam esse ambiente a um cassino, mas seus fãs creditam à Robinhood a democratização do lucrativo mundo dos investimentos sofisticados.
“Ele está praticamente construindo um culto”, disse Aaron Cook, encanador de 28 anos que estava na plateia em Las Vegas. Cook afirmou ter usado os lucros de operações com ações, opções e memecoins para comprar um Jeep Wrangler e uma casa de US$ 60 mil.
Uma série de novos produtos entrou no mercado de investimentos para pessoas físicas nos últimos anos e acabou se tornando mainstream. Investidores estão apostando no preço do bitcoin e mergulhando em tipos ultrarriscados de opções, como as “zero-day”, que expiram rapidamente e exigem timing perfeito. Também estão comprando contratos futuros atrelados a vários tipos de eventos, apostando se um álbum de Taylor Swift chegará ao topo das paradas do Spotify ou se o Green Bay Packers vencerá o Detroit Lions no Dia de Ação de Graças.
Abishek Gopal, 35, disse que acorda às 6h30 para começar a operar opções zero-day. É um hobby que ele afirma que nunca teria desenvolvido se não fosse a facilidade oferecida pela Robinhood. “A adrenalina me movimenta”, disse Gopal. “Se US$ 500 podem virar US$ 50 mil ou US$ 60 mil, quero tentar.”
A recente volatilidade — incluindo fortes quedas em ações e criptomoedas — tem mostrado o que acontece quando os mercados seguem na direção errada. Investidores que alavancam suas apostas com dinheiro emprestado amplificam os ganhos nos bons momentos, mas são destruídos nos ruins. O índice Nasdaq caiu 6% nas três primeiras semanas de novembro. O bitcoin despencou 20% no mês.
Executivos da Robinhood dizem estar alinhados a uma tendência de longo prazo nos mercados: tornar todo tipo de operação mais barata e mais acessível para investidores individuais. Produtos hoje considerados arriscados — de cripto a opções — podem fazer parte do portfólio típico de um investidor pessoa física no futuro, segundo eles.
“A próxima geração de investidores — é ela que atendemos”, disse Steve Quirk, diretor de corretagem da Robinhood. “Estamos apresentando mais classes de ativos e capacidades às pessoas. É isso que elas querem.”
Usuários avançados
A Robinhood oferece vários produtos financeiros tradicionais, como contas de aposentadoria e cartões de crédito. Mas são os produtos mais arriscados, voltados a day traders, que mais rendem dinheiro à empresa. No trimestre mais recente, a negociação feita pelos clientes representou mais da metade da receita da Robinhood, sendo 78% desse volume oriundo de cripto e operações com opções.
Tenev disse que orientou sua equipe a focar mais nesse grupo. “São nossos clientes mais engajados e que geram a maior parte de nossa receita”, afirmou em entrevista. “Colocamos nossas melhores pessoas atendendo traders ativos.”
As ações da Robinhood mais que triplicaram no ano. A empresa entrou para o S&P 500 em setembro, substituindo a Caesars Entertainment, e rapidamente se tornou uma das melhores performers do índice. O valor da participação de Tenev na Robinhood saltou para quase US$ 6 bilhões.
Os detratores da Robinhood dizem que ela está incentivando uma cultura de aposta nos mercados. “Não deveria passar despercebido que um cassino saiu do S&P 500 e a Robinhood entrou”, afirmou Tyler Gellasch, CEO da Healthy Markets Association, que defende a proteção de investidores individuais.
Os defensores da empresa afirmam que a Robinhood tem sido injustamente alvo de críticas, tornando-se uma espécie de saco de pancadas do setor, responsabilizada pelas decisões de investimento de indivíduos e pelas mudanças mais amplas nos mercados.
Tenev, que imigrou com a família da Bulgária para os EUA aos 5 anos, fundou a Robinhood em 2013 com o cofundador Baiju Bhatt, ex-colega de Stanford. Seu discurso ousado: a Robinhood, ao contrário de Charles Schwab ou Fidelity, não cobraria comissão para operar ações.
Tenev disse que tenta tornar suas apresentações sobre investimentos divertidas. As teleconferências de resultados são inspiradas em entrevistas pós-jogo da NBA, com transmissão ao vivo em vídeo e plateia presencial. Em um evento de cripto em junho, um vídeo inspirado em um filme clássico mostrava Tenev acelerando pela Riviera Francesa em um conversível. No palco, ele vestia um terno listrado e desenhava em um quadro-negro para explicar um conceito de cripto chamado “tokenização”.
“Quero que pareça um show”, disse Tenev sobre seus eventos, brincando que adoraria incluir pirotecnia um dia.
Tenev contou que antes limitava-se a dirigir um Tesla Model 3, preocupado com a percepção pública se fosse visto ao volante de um carro esportivo de luxo. Não mais.
“Pensei: por que estou me preocupando com isso? Por que me importo com o que acham do CEO da Robinhood?”, disse.
Ele começou a comprar carros clássicos. Um de seus favoritos é um Lamborghini 1970.
Tenev fala a língua do Vale do Silício. Já disse acreditar que a inteligência artificial criará uma nova ordem mundial, diminuindo a capacidade das pessoas de gerar renda por meio do trabalho e aumentando a participação nos mercados e nos apps de negociação como o seu.
O CEO é entusiasta da “tokenização”, a ideia de que ativos reais — como ações de empresas — podem ser negociados como tokens em um blockchain. Em um evento na França, ele distribuiu “tokens de ações” que supostamente representavam uma participação digital na OpenAI. A OpenAI mais tarde afirmou que os tokens não eram participação acionária da empresa.
No início deste ano, a Robinhood retirou de sua plataforma contratos de apostas sobre o Super Bowl após reguladores levantarem dúvidas sobre a legalidade desses produtos.
Desafios iniciais
A Robinhood decolou durante a pandemia, quase sucumbindo ao volume de demanda. Investidores confinados e com dinheiro sobrando migraram em massa para o app de negociação.
A saga da GameStop lançou a jovem empresa ao centro das atenções. “Aquelas circunstâncias, digo, nos abalaram profundamente”, afirmou Bhatt sobre aquele período.
Quando os juros subiram e a era do dinheiro fácil acabou, os clientes reduziram o ritmo de negociações e a receita da Robinhood despencou. Investidores perderam o interesse pelo papel. Em certo momento, o valor de mercado da empresa estava quase igual ao caixa disponível. Tenev demitiu mais de 1.000 funcionários, decisão que descreveu como dolorosa.
À medida que se aproximava o primeiro aniversário da empresa como companhia de capital aberto, em junho de 2022, havia pouco o que comemorar. Tenev saiu para uma viagem em família para Maui para clarear a mente, mas chegou exausto devido a um longo atraso no voo.
Então recebeu uma ligação informando um rumor de que o controverso empresário de cripto Sam Bankman-Fried estava considerando comprar uma fatia da Robinhood — um sinal de fragilidade da empresa. Bankman-Fried acabaria comprando 7,6% da corretora.
“Eu me perguntava: sou a pessoa certa? Tenho o que é necessário para sair desse buraco?”, disse Tenev.
Foi por volta desse período, enquanto a empresa lidava com acionistas, reguladores e clientes insatisfeitos, que Tenev mudou sua mentalidade, segundo pessoas próximas.
Andrew Reed, sócio da Sequoia Capital — um dos primeiros investidores da Robinhood — e amigo de Tenev, disse que a equipe passou a se perguntar: “Por que estamos tentando ser como todo mundo?” Reed chamou esse momento de “ponto de virada”.
Tenev e Bhatt haviam construído a empresa para investidores iniciantes, mas atraíram muitos traders experientes e altamente ativos. Esse grupo estava gerando uma fatia desproporcional da receita. Ficou claro que certos tipos de operações — como opções e transações em cripto — eram muito mais lucrativas do que compras simples de ações.
Tenev disse ter percebido que sequer estava atendendo esse grupo adequadamente ou alocando recursos para eles, o que explicava a insatisfação de muitos desses clientes com a plataforma.
Quirk, diretor de corretagem, comparou a situação à de uma companhia aérea que é a menos popular entre seus clientes mais frequentes. “Que empresa aceita isso?”, disse. “Eu falei: ‘Temos que consertar isso’.”
A mudança gerou divergências internas, segundo Quirk, especialmente entre funcionários que acreditavam que focar nos traders frequentes contrariava a missão da Robinhood de democratizar as finanças para todos. Quirk argumentou que melhorar a plataforma para esses clientes mais intensivos traria melhorias para todos.
Fãs fervorosos
À medida que a corretora focou mais em investidores ativos, alguns passaram a formar quase um fã-clube para a empresa e seu líder. No “Hood Summit” em Las Vegas, uma fila de clientes contornava a sala, esperando para apertar a mão de Tenev e tirar uma selfie com ele.
A Robinhood dá atenção a clientes como Gopal, o trader de opções matutino. Ele já foi convidado a testar novos produtos antecipadamente. No Summit, recebeu brindes e mimos como cliente VIP.
Alguns concorrentes começaram a se posicionar contra a abordagem da Robinhood. Dias após a empresa anunciar que ampliaria sua plataforma de mercados de previsão para incluir contratos ligados a eventos de tecnologia e entretenimento, a corretora Public lançou uma campanha publicitária com o slogan: “Riqueza não se ganha em uma aposta.” A campanha sugeria que os clientes experimentassem a sua plataforma “se você procura um corretor que não seja também seu bookmaker.”
Gestores de recursos têm demonstrado preocupação com o aumento do risco nos mercados este ano. Um punhado de ações de tecnologia com preços esticados tem impulsionado grande parte do avanço do S&P 500. Bilhões de dólares entraram em investimentos ligados à inteligência artificial, sem evidências claras de quando — ou se — isso dará retorno. Uma nova leva de “meme stocks” surgiu neste verão.
Os traders da Robinhood parecem saber que a festa não vai durar para sempre. Cook, que comprou sua primeira passagem aérea na vida para ir ao evento da Robinhood em Las Vegas, disse que realiza lucros de vez em quando. Gopal disse manter um bilhete na mesa que diz: “Não aja por impulso.”
Neema Farhang, consultor de 37 anos que migrou para a Robinhood no ano passado vindo de outra corretora, agora faz quatro vezes mais operações. Ficar de fora, ele disse, não é uma opção: “Eu sei que não posso me dar ao luxo de não estar no mercado.”
Escreva para Hannah Erin Lang: em hannaherin.lang@wsj.com
Tim Cook não dá sinais de querer desacelerar. Famoso por acordar antes do amanhecer para responder e-mails e se exercitar, ele dedicou grande parte da vida à Apple e já afirmou que pretende permanecer na empresa por mais algum tempo.
Ainda assim, desde que Cook completou recentemente 65 anos — uma idade em que outros executivos costumam estar caminhando para a aposentadoria — analistas, investidores e observadores da Apple estão em polvorosa: quem está na linha de sucessão para comandar talvez a empresa americana mais icônica?
Para deixar claro, Cook não precisa sair — a Apple não tem idade obrigatória de aposentadoria para executivos — e não há sinais de pressão para que ele deixe o cargo. Apesar dos tropeços recentes da empresa em inteligência artificial, ele entregou resultados espetaculares aos acionistas, elevando o valor de mercado da Apple em mais de uma ordem de grandeza desde que assumiu o cargo em 2011.
O presidente do conselho da Apple, Art Levinson, tem 75 anos — idade a partir da qual membros do conselho geralmente se aposentam. Cook, que já faz parte do conselho, poderia assumir a presidência e abrir espaço para um novo CEO, ou acumular os dois cargos por um período, como muitos executivos do S&P 500.
Os principais potenciais sucessores incluem quatro executivos atuais da Apple, cada um responsável por uma área distinta da companhia. Uma porta-voz da Apple não comentou o assunto.
Embora seja jovem em comparação aos outros candidatos, Ternus está na Apple há 24 anos. É visto como um dos favoritos, em parte porque a Apple é uma empresa de hardware e ele comanda a engenharia de hardware. Trabalhou no iPad e, mais tarde, no Mac e no AirPods antes de assumir a responsabilidade por todos os produtos da Apple, incluindo o mais importante deles, o iPhone.
A engenharia de hardware é onde os produtos da Apple ganham forma. A equipe de design define a aparência. As equipes de silício e software determinam os recursos. O trabalho de Ternus é garantir que tudo funcione.
Entre suas conquistas está a colaboração com a equipe interna de chips da Apple para substituir os processadores Intel nos Macs por chips projetados pela própria Apple. Esses chips se mostraram mais eficientes em energia do que os da Intel, permitindo que funcionem mais rápido e com menos aquecimento. Muitos laptops PCs ainda precisam de ventoinhas; os Macs não.
As vendas de Mac dispararam após a mudança, iniciada em 2020, também impulsionadas pela pandemia, quando mais pessoas compraram computadores para trabalhar de casa. As vendas recuaram desde então, mas ainda estão acima dos níveis pré-pandemia.
Craig Federighi, 56 anos — Software
Federighi é um dos executivos mais conhecidos da Apple. Como chefe de engenharia de software, costuma ser uma das estrelas da conferência anual para desenvolvedores, onde apresenta novas versões dos sistemas operacionais e aplicativos, além dos diversos recursos que os compõem. Ele é responsável por todo o software que roda em mais de um bilhão de dispositivos, da mesma forma que Ternus é responsável por todo o hardware.
Quem já trabalhou com Federighi descreve seu estilo de gestão como decisivo. Ele é conhecido por reunir sua equipe ao redor da mesa de reuniões para debater ideias e definir um caminho claro. As pessoas saem entendendo exatamente o que precisam entregar.
Sua capacidade de entregar produtos de software foi uma das razões pelas quais recebeu mais responsabilidade nos esforços de IA da Apple, depois que outro executivo enfrentou dificuldades para melhorar as iniciativas da empresa. O exemplo mais visível é a assistente pessoal Siri, que ainda lida apenas com consultas básicas 14 anos após seu lançamento, enquanto chatbots rivais, como o ChatGPT, conversam de forma mais natural.
Eddy Cue, 61 anos — Serviços
Um veterano da Apple, Cue está na empresa desde o final da década de 1980 e há muito tempo comanda a divisão que talvez seja a mais bem-sucedida da era Tim Cook: serviços. O iPhone é como a Disney World — depois que você entra, é difícil não gastar dinheiro.
Jogos, assinaturas, armazenamento, busca. O que você quiser, a Apple oferece — ou cobra uma fatia generosa dos parceiros que oferecem.
Cue é especialmente carismático, uma figura expansiva que adora esportes e carros — ele integra o conselho da Ferrari — e é conhecido como um negociador habilidoso dentro da Apple. Durante anos, ele também foi um “resolvedor de problemas”: relançou um serviço de sincronização de dados fracassado como iCloud e assumiu o Apple Maps após seu lançamento desastroso.
Cue era próximo de Steve Jobs. Ele foi um dos poucos executivos que visitaram o cofundador da Apple para se despedir no dia anterior à sua morte, segundo o livro After Steve, de Tripp Mickle. Por ser apenas alguns anos mais novo que Cook, é improvável que fosse um CEO de longo prazo, caso fosse escolhido.
Greg “Joz” Joswiak, 61 anos — Marketing
No ano que vem, Joz completará 40 anos na Apple e lidera outra função central para a empresa: marketing. A Apple constrói sua marca com o mesmo cuidado que constrói seus dispositivos, o que a ajuda a cobrar preços premium e, assim, gerar lucros extraordinários. Isso faz de Joz um dos executivos mais importantes da companhia.
Ele também é uma das faces mais conhecidas fora da empresa, por seu papel de destaque no evento de lançamento anual do iPhone e nas entrevistas subsequentes para promover os novos produtos. Ele desempenha papel-chave na criação dos keynotes da empresa, que costumavam ser ao vivo e, desde a pandemia, passaram a ser gravados.
Joz também gerencia as situações de imprensa delicadas que a Apple enfrenta, dada a expectativa que sua marca cria. Mais recentemente, isso tem incluído lidar com os tropeços da empresa em IA — incluindo recursos prometidos para 2024 que não foram entregues.
Joz, junto com Federighi, foi quem admitiu publicamente que os esforços de IA da Apple até agora não alcançaram os padrões de qualidade da empresa.
Escreva para Rolfe Winkler em Rolfe.Winkler@wsj.com
Em Miami e em outros lugares, os muito ricos estão se movendo por esferas cada vez mais privadas, desembolsando grandes somas para evitar as indignidades da vida pública.
Quando os desenvolvedores Masoud e Stephanie Shojaee saíram para jantar recentemente, foram direto para a área exclusiva para membros do restaurante MILA, em Miami Beach, onde foram conduzidos a uma mesa que já os aguardava com seus coquetéis favoritos e hashis gravados com seus nomes.
Em uma viagem de negócios a Dubai no mês passado, os Shojaee desembarcaram de seu jato Bombardier Global e, na sequência, entraram em um Maybach à espera, que os levou rapidamente a um hotel luxuoso. Eles passaram por uma entrada privada que contorna o saguão e tomaram um elevador direto para a Royal Suite, onde um funcionário fez o check-in e apresentou o mordomo da suíte.
“Para mim, luxo hoje é definido por economia de tempo, eficiência e serviço”, disse Masoud Shojaee, CEO de 65 anos do Shoma Group, um incorporador residencial e comercial.
Os ultrarricos estão usando suas fortunas crescentes para deslizar por um universo rarefeito, livre dos inconvenientes da vida comum. Eles não enfrentam filas. Não precisam disputar espaço com multidões em aeroportos nem perder tempo no trânsito.
Em vez disso, um ecossistema de restaurantes, clubes, resorts e prestadores de serviços exclusivos oferece experiências personalizadas e impecáveis, sempre com rapidez máxima. Os espaços que frequentam são privados, cuidadosamente selecionados e povoados por pessoas semelhantes — e igualmente abastadas.
O poder aquisitivo dos muito ricos está disparando. O patrimônio líquido do 0,1% mais rico dos lares dos EUA chegou a US$ 23,3 trilhões no segundo trimestre deste ano, ante US$ 10,7 trilhões uma década antes, segundo o Federal Reserve Bank de St. Louis. O valor detido pelos 50% mais pobres subiu para US$ 4,2 trilhões, de US$ 900 bilhões no mesmo período.
A região de Miami oferece um vislumbre desse mundo. Há muito um destino para elites abastadas do Nordeste americano, da Europa e da América Latina, a cidade se tornou um imã ainda mais forte nos últimos anos, impulsionada pela migração da pandemia e pela ascensão da região como polo de tecnologia e finanças.
“Houve uma explosão de criadores de riqueza”, disse Patrick Dwyer, diretor-gerente da NewEdge Wealth, em Miami. “Agora eles têm dinheiro suficiente para viver exatamente como querem.”
Uma nova economia de serviços permite que evitem o contato com todo o resto, se assim desejarem. Na Bentley Residences — torre em construção em Sunny Isles Beach, ao norte de Miami — elevadores de carros levarão os residentes diretamente às suas casas, depositando os veículos em “garagens suspensas”. Assim, eles não precisam lidar com manobristas nem áreas de recepção.
As unidades, com preços a partir de US$ 6 milhões, contarão com piscina privativa na varanda. O restaurante do prédio, exclusivo para moradores, terá cabines em formato de “C”, arranjadas para evitar que os convidados se vejam.
“O luxo máximo é a privacidade”, disse Gil Dezer, presidente de 50 anos da Dezer Development, que patenteou o elevador de carros e o apelidou de “Dezervator”.
Ele fala com conhecimento de causa. Há alguns anos, viajou para Belize em seu jato Gulfstream e, depois, seguiu de helicóptero para um resort em uma ilha privativa com apenas sete vilas, cada uma separada das outras e equipada com piscina e píer próprios. Passou os dias relaxando e nadando, pedindo uísque ao mordomo quando desejava.
“É como se você tivesse o lugar só para você”, disse Dezer.
Em sua festa de 50 anos, no início deste ano, ele contratou artistas como Fat Joe e El Alfa para se apresentarem na praia em frente à sua casa — transformando um show normalmente público em um evento totalmente privado.
Quem pode paga até para reservar instalações inteiras para uso exclusivo. No Centner Wellness, centro holístico de alto padrão em Miami, clientes ricos às vezes alugam o espaço todo por vários dias, disse a fundadora Leila Centner.
Uma família de cerca de 10 pessoas fez isso há alguns meses, ao custo de US$ 150 mil. Cada integrante teve uma experiência personalizada, incluindo limpeza de sangue, rejuvenescimento celular e estimulação magnética transcraniana, com muita atenção e mimos ao longo da estadia.
Quando os ultrarricos decidem socializar, preferem círculos cuidadosamente selecionados, disse Gregory Pool, diretor da NewEdge Wealth.
O Faena Rose, clube social privado em Miami Beach focado em arte e cultura, seleciona seus membros por comitê e cobra US$ 15 mil de entrada e outros US$ 15 mil por ano. Eles têm acesso VIP ao beach club, ao spa e a outros serviços do hotel Faena Miami Beach, além da participação em cerca de 80 eventos culturais anuais exclusivos.
Há apresentações de dança da companhia Alvin Ailey e recitais da Metropolitan Opera.
“Esse nível de acesso é extremamente atraente”, disse Pablo De Ritis, presidente do Faena Rose.
Outra tendência são os clubes de jantar privados, que oferecem alta gastronomia, serviço personalizado e garantia de mesa a qualquer momento. O ZZ’s Club, em Miami — do qual Dezer é membro — tem restaurante japonês, sports bar e terraço de charutos. Um “concierge culinário” pode, com 48 horas de aviso, organizar qualquer tipo de refeição que o membro desejar, de um banquete de 12 pratos com caviar a uma recriação do jantar de lua de mel.
“Quanto mais personalizado, mais fluido e com menos pedidos você precisa fazer… é isso que define um grande serviço”, disse Jeff Zalaznick, cofundador do Major Food Group, dono do ZZ’s.
Masoud e Stephanie Shojaee frequentam o MILA MM, exclusivo para membros — onde podem aproveitar a companhia um do outro ou de amigos sem a distração de multidões — e outros espaços sociais selecionados. No mês passado, ela assistiu à primeira fila do desfile da Schiaparelli na Paris Fashion Week e conversou com a mulher ao lado, de uma das famílias mais ricas de Mônaco. Elas se deram bem e, uma semana depois, jantaram juntas com seus maridos em um restaurante de sushi em Paris.
“Nesses ambientes, as conversas, por algum motivo, parecem mais seguras e mais profundas”, disse Stephanie, 41 anos, presidente do Shoma Group e integrante do elenco do reality “The Real Housewives of Miami”. “Você convive com pessoas parecidas com você.”
A curadoria também se estende às compras do casal. Eles já não vão mais a shoppings sofisticados. Masoud recebe trimestralmente uma mala cheia de itens da NB44, marca de roupas exclusiva para membros, enquanto Stephanie regularmente recebe araras com novas coleções de Valentino e Dior, acompanhadas de uma costureira para ajustes.
Viagens sempre foram parte importante da vida dos ricos — e agora eles priorizam privacidade, eficiência e personalização mais do que nunca, segundo especialistas do setor.
Lauren Beall, proprietária da Travel Couture, em Miami Beach, organiza viagens sob medida para ultrarricos. Ela já reservou ilhas privativas, levou chefs estrelados, instrutores de ioga e performers para atender clientes.
Uma das experiências mais cobiçadas é uma suíte acima da loja Christian Dior, em Paris, que pode ser alugada e inclui compras após o expediente e jantar privativo no restaurante Monsieur Dior. Um imóvel na Escócia reservado por Beall oferece chefs privados, cavalos para explorar a região e um helicóptero para visitar cidades próximas.
“Estamos vivendo uma era de acesso exclusivo — coisas às quais outras pessoas não têm acesso”, disse Beall. “E isso vem com um preço altíssimo.”
O ministro da Economia da Argentina, Luis Caputo, mantém toda a postura do ousado trader de Wall Street que já foi — primeiro noJPMorgan e depois no Deutsche Bank. Colegas de trabalho já o chamaram de “Lionel Messi das Finanças”.
Agora, Caputo está orquestrando a negociação de sua vida: convencer o governo dos Estados Unidos a apostar tudo no presidente Javier Milei, justamente quando parecia que sua reforma econômica estava em risco. Caputo e o secretário do Tesouro americano Scott Bessent, também ex-trader de moedas, elaboraram um pacote de resgate de US$ 20 bilhões para a Argentina, que tem recebido parte do crédito pelo desempenho surpreendentemente forte de Milei nas eleições legislativas cruciais do mês passado.
Sustentar as medidas de austeridade e a política cambial de Milei com o apoio do governo americano será um exercício de alto risco para Bessent e Caputo — além do Banco Central argentino e dos ministérios que Caputo preencheu com outros ex-executivos do JPMorgan.
“A ironia do que está acontecendo agora é que tanto Bessent quanto os garotos do JPMorgan na Argentina não estão mais do lado das mesas de operação”, disse Arturo Porzecanski, economista da American University que acompanha de perto o país. “Eles agora tentam conduzir as forças de mercado que sempre surfaram.”
O desafio é evitar que a Argentina recaia em um padrão que marcou a terceira maior economia da América Latina por décadas: o fracasso recorrente em gerar dólares suficientes para manter o peso atrelado a um valor fixo. Isso provocou corridas cambiais catastróficas, mesmo após o país receber dezenas de bilhões do FMI, do qual é o maior devedor.
A Argentina já deu nove calotes, o mais recente em 2020, muitas vezes após tentar reduzir a inflação mantendo o peso artificialmente forte. Milei certa vez descreveu o peso como “excremento”, mas agora segue uma política semelhante de sustentação da moeda — que, segundo economistas, foi desastrosa para seus antecessores.
Caputo afirma ser contra deixar o valor do peso flutuar livremente neste momento, principalmente porque o mercado de câmbio argentino é pequeno e volátil em um país onde o dólar funciona como proteção contra turbulências.
“Se alguém acha que pode flutuar livremente em um mercado que movimenta US$ 100 milhões ou US$ 200 milhões por dia, acho que nunca operou em um mercado”, disse Caputo em palestra a empresários na quinta-feira.
Desta vez, o governo Trump apoia a Argentina com um swap cambial de US$ 20 bilhões para ajudar a manter o peso estável, permitindo que o Banco Central venda dólares no mercado. Os EUA apostam que Milei é fundamentalmente diferente de líderes anteriores, e que Caputo e sua equipe conseguirão concluir uma reforma pró-mercado que devolva à Argentina o acesso ao financiamento internacional.
“Usamos nosso balanço financeiro para estabilizar o governo, um de nossos grandes aliados na América Latina, durante uma eleição”, disse Bessent à MSNBC na semana passada. Além do swap, o Tesouro americano injetou cerca de US$ 2 bilhões para evitar uma corrida pré-eleitoral contra o peso. Bessent afirmou que o governo dos EUA lucrou com as operações, mas os detalhes não foram divulgados.
Funcionários americanos afirmam que os fortes fundamentos econômicos da Argentina — incluindo reformas estruturais em andamento — devem gerar exportações expressivas em dólares e reservas em moeda forte.
“Graças à estratégia fiscal prudente do ministro Caputo e sua equipe econômica, a Argentina está no caminho para ancorar uma América Latina próspera”, disse um porta-voz do Tesouro.
Segundo fontes, Caputo foi essencial na apresentação do pacote de US$ 20 bilhões a Bessent. Como ex-traders, eles vinham do mesmo ambiente e falavam a mesma língua. Um dos nomes mais visíveis da equipe é José Luis Daza, vice-ministro da política econômica, economista formado nos EUA e veterano do JPMorgan — com papel relevante nas negociações com Bessent devido à sua experiência em Wall Street. Outros ex-executivos do JPMorgan próximos a Caputo incluem o chanceler Pablo Quirno e o presidente do Banco Central Santiago Bausili.
Sem a ajuda dos EUA, teria havido outra crise cambial — e talvez um resultado eleitoral bem diferente — afirmou Joaquín Cottani, antecessor de Daza no início do governo Milei. “O governo Trump colocou parte de sua credibilidade em jogo”, disse.
Caputo comandou o Banco Central em 2018 sob o governo de Mauricio Macri. Após três meses, renunciou sob pressão dos EUA e do FMI para parar de queimar bilhões de dólares na tentativa de sustentar o peso, segundo fontes.
Uma porta-voz de Caputo contestou que ele tenha renunciado devido à intensificação da pressão internacional sobre a estratégia do governo Macri.
Uma pessoa próxima ao trabalho de Caputo no Banco Central disse que ele passava muito tempo nas mesas de operação e era visto como um economista que gostava mais de negociar do que de macroeconomia.
À época, Caputo queria mais liberdade no uso do dinheiro do FMI “para confrontar a vontade do mercado com todas as armas”, afirmou Alejandro Werner, ex-chefe do departamento do Hemisfério Ocidental do FMI, em seu livro “Argentina en el Fondo“, escrito com o jornalista Martín Kanenguiser.
A estratégia não convencional de Caputo pretendia usar uma quantidade esmagadora de dólares para sustentar o peso em um país sem mercados financeiros desenvolvidos e sem estruturas sólidas de política macroeconômica, fiscal e monetária, escreveram os autores.
Werner e Kanenguiser relataram que Caputo acreditava que, se vencesse a batalha contra o mercado, “um dia todos os problemas estariam resolvidos”.
Na época, Caputo dizia ao FMI que a Argentina enfrentava problemas de liquidez, não de solvência — argumento semelhante ao usado pelo governo Milei neste ano para convencer os EUA a oferecer um respaldo. Macri perdeu a reeleição em 2019. Meses depois, o governo do peronista Alberto Fernández deu novo calote.
Caputo afirmou na quinta-feira que o governo Milei jamais dará default. A equipe de Caputo conseguiu reduzir a inflação para cerca de 30%, ante mais de 200% dois anos atrás, cortando burocracias e impondo fortes ajustes para reduzir o déficit.
O plano é permitir que o peso se desvalorize gradualmente por meio de um regime rígido de banda cambial. Isso fez com que o peso estivesse entre as moedas com pior desempenho no mundo este ano, mas a depreciação foi mais lenta que a inflação. Caputo e Milei rejeitam a ideia de que o peso esteja sobrevalorizado.
A estabilidade cambial é crucial em reformas econômicas destinadas a controlar a inflação descontrolada, disse Ernesto Talvi, ex-economista-chefe do Banco Central do Uruguai, que enfrentou desafios semelhantes nos anos 1990.
“Você precisa de um âncora que dê tranquilidade às pessoas”, afirmou. O Uruguai abandonou sua banda cambial após reduzir a inflação de 140% para dígitos simples em cinco anos.
Mas a estratégia argentina esgotou ainda mais suas reservas já escassas, disse Cottani.
Acumular reservas em moeda estrangeira foi uma condição para o empréstimo de US$ 20 bilhões concedido pelo FMI em abril. O FMI concedeu à Argentina uma dispensa em agosto após o país não cumprir a meta. A instituição também reduziu os objetivos de reservas para este e o próximo ano. Para cumprir as metas, o país precisaria aumentar as reservas em cerca de US$ 15 bilhões até o fim de 2026.
Caputo disse na quinta-feira que a Argentina vai cumprir — e superar — os objetivos do FMI. “Construir reservas é uma prioridade”, afirmou.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que crianças americanas deveriam se contentar com duas bonecas em vez de 30. Mas o hábito de consumo do país foi construído ao longo de décadas de importações abundantes da Ásia.
Quando estava no ensino médio, nos anos 1950, Kay Washburn trabalhou 50 horas como babá para conseguir comprar o vestido dos seus sonhos, que custava US$ 25. Depois de ver o modelo verde-musgo, na altura do joelho, com um bolero combinando, na vitrine da loja JJ Newberry’s, ela passou um mês e meio pagando em prestações e o usou por anos, até quase se desfazer.
Nas décadas seguintes, conforme os americanos deixaram de ser principalmente fabricantes de coisas e se tornaram compradores, o consumo de Washburn disparou. Ela não junta mais moedas para comprar roupas e acostumou-se a adquirir o que quer, quando quer.
Hoje com 89 anos, ela recentemente clicou em “comprar” da própria cama para adquirir uma calça capri leve por US$ 5,95 na Shein, a varejista chinesa de fast-fashion. O preço é menor do que o que paga por um hambúrguer com batatas no In-N-Out, sua rede de fast-food favorita. Ela planeja usar a calça só por uma ou duas temporadas.
Grande parte das roupas, utensílios domésticos, ferramentas e brinquedos comprados pelos americanos é tão barata que pode ser adquirida quase sem pensar. Isso alimentou um vício em produtos baratos. Não importa quão rápido seja o frete: a sensação que nossos cases personalizados e pijamas combinando provocam dura pouco. Muitos desses itens são jogados fora depois de poucos usos, e o ciclo recomeça. Com a aproximação da Black Friday, a manifestação mais visível da compulsão americana por compras está chegando.
As tarifas impostas pelo presidente Trump e sua visão de restaurar os EUA como potência manufatureira desafiam essa mentalidade do “compre agora, preocupe-se depois”.
Segundo a Tax Foundation, Trump elevou a tarifa efetiva média sobre todos os bens importados de 2,5% em 2022 para 13% atualmente — o maior nível desde 1941.
No verão, o governo fechou uma brecha que permitia que alguns produtos baratos, como a capri de Washburn, entrassem no país sem tarifa. EUA e China chegaram a um acordo preliminar que reduz tarifas que chegaram a 135% na primavera, segundo o Peterson Institute for International Economics, mas ainda deixa muitos produtos chineses sujeitos a uma tarifa média estimada em 48%.
A Suprema Corte está avaliando se o governo Trump tem autoridade para impor muitas dessas novas tarifas.
Respondendo a críticas de que as tarifas tornam os produtos mais caros, Trump sugeriu que os americanos simplesmente deveriam comprar menos. “Talvez as crianças tenham duas bonecas em vez de 30”, disse ele nesta primavera. Isso representaria uma mudança radical no rumo do país — embora nem todos se oponham a comprar menos coisas.
“Eu penso: ‘Eu quero isso, vou comprar’, e não: ‘Isso vale 50 horas de babá?’”, disse Washburn, aposentada e moradora de Rohnert Park, Califórnia. “Tem que existir um meio-termo.” Ela diz que quer mudar seus hábitos tanto pelo país — que acredita estar excessivamente dependente de produtos baratos importados — quanto por sua própria saúde financeira.
Produtos mais caros
O valor de algumas categorias de produtos baratos exportados para os EUA por China e Vietnã, dois dos maiores fornecedores de itens de baixo custo, aumentou 36% entre 2015 e 2025, chegando a US$ 176 bilhões.
Eles representam aproximadamente 61% dos artigos domésticos, 55% dos móveis, 69% dos calçados e 50% das roupas e têxteis comprados pelos americanos em 2024, segundo a consultoria AlixPartners.
Essas participações caíram levemente nos últimos anos com a expansão da manufatura em outros países, mas o volume total de importações aumentou e abrange uma gama muito maior de produtos. “O consumo de produtos baratos explodiu”, disse Nitin Jain, diretor-gerente de varejo da AlixPartners.
Esse consumo também é o principal motor da economia americana. O gasto do consumidor respondeu por 68,2% do PIB dos EUA no segundo trimestre de 2025, segundo o Bureau of Economic Analysis — um pouco acima da média histórica.
Pode haver um limite para os aumentos de preços que o consumidor americano está disposto a aceitar. As empresas sabem disso e dizem que, até agora, escolheram não repassar totalmente o impacto das tarifas. Mas poucos economistas acreditam que isso vá durar.
A inflação já começa a subir, e os eleitores voltaram a se irritar com o custo de vida, elegendo recentemente democratas que fizeram da acessibilidade seu principal foco na Virgínia, em Nova Jersey e em Nova York.
Ainda assim, psicólogos e especialistas em comportamento do consumidor afirmam que será preciso um longo período de preços mais altos e menor disponibilidade, além de uma mudança geral na mentalidade coletiva, para que os hábitos de compra mudem de forma duradoura.
“O fato de ser gostoso comprar coisas não vai desaparecer”, disse Stephanie Preston, professora de psicologia da Universidade de Michigan que pesquisa consumismo. “As pessoas ainda têm a expectativa de poder comprar essas coisas. Elas só vão ficar cada vez mais irritadas com o preço.”
Recompensa imediata
O cérebro humano é programado para recompensar prazer imediato em vez de metas de longo prazo, diz Preston. Cada vez que compramos algo que achamos que vai tornar nossa vida um pouco mais simples, prazerosa ou estilosa, sentimos uma descarga de dopamina. “É um prazer imediato que faz você esquecer o que quer que estivesse preocupando você”, disse ela.
O problema é a rapidez com que esses sentimentos positivos desaparecem — e como ficou fácil obter outra dose com um único clique. Parar exige ignorar esse impulso e ir contra uma sociedade que historicamente reforçou, em vez de condenar, a acumulação constante de itens, afirma Preston.
Houve alguma reação, especialmente entre jovens, ao impacto ambiental da fast-fashion e do consumo excessivo, mas os gastos do consumidor continuam crescendo.
Consumidores ao redor do mundo devem comprar cerca de 40% mais peças de roupa em 2025, em média, do que em 2005, segundo a McKinsey. Nos EUA, esse aumento provavelmente é bem maior. As pessoas agora vestem uma peça apenas sete vezes, em média, antes de doá-la ou jogá-la fora.
Entre 2019 e 2024, o número médio anual de compras de artigos para casa e jardim feito por famílias americanas aumentou 16%, de 95 para 110 por domicílio.
As compras de brinquedos — majoritariamente importados da China — subiram 15%, de 33 para 38. Roupas femininas, também amplamente importadas da China e de outros países asiáticos, cresceram 27%, de 15 para 19 peças por domicílio, segundo a AlixPartners.
Pandemia
O amor do país por produtos baratos se transformou em vício completo durante a pandemia, quando os americanos ficaram presos em casa enquanto a tecnologia avançava e tornava as compras online mais fáceis que nunca.
Kanwal Haq foi uma dessas pessoas que intensificou seu consumo digital, comprando pijamas, itens de decoração, materiais de artesanato e jogos. E, como muitos outros, não parou quando a quarentena terminou.
Em 2024, ela fez 144 pedidos na Amazon — de um suporte frágil para toalhas a um pacote multicor com oito pulseiras para Apple Watch que precisou cortar para caber no pulso. Ela comprou máscaras faciais hidratantes recomendadas por influenciadores no TikTok (que a fizeram ter alergia). E pediu uma dúzia de roupas de viagem mal ajustadas da Shein.
O hábito começou até a prejudicar seu casamento. “Eu percebi que algo tinha que mudar quando comecei a tentar chegar antes do meu marido na sala de correspondência para esconder o que tinha comprado”, disse Haq, diretora de uma ONG de saúde feminina em Troy, Nova York.
Filha de imigrantes da classe trabalhadora, Haq se deixou levar por como cada compra individual parecia barata. Mas depois de fazer uma resolução de Ano-Novo para registrar cada gasto no cartão, percebeu que uma parcela significativa de sua renda estava indo para “tralhas”.
Ela cancelou e-mails de marketing das marcas favoritas, encerrou a assinatura da Amazon e está tentando comprar apenas o que precisa — priorizando negócios pequenos e liderados por mulheres. Ainda escorrega às vezes. Mas quando o marido perguntou, há alguns meses, quantos dos pacotes abarrotando a sala de entregas eram dela, ela se orgulhou de responder, honestamente: “nenhum”.
O consumo se tornou fundamental para a economia americana desde o fim da Segunda Guerra Mundial, quando indústrias voltadas ao esforço de guerra passaram a produzir bens de consumo e precisaram criar mercados para eles.
Anúncios da época diziam aos americanos que comprar carros e máquinas de lavar não apenas atenderia seus desejos e necessidades, mas também — após a Grande Depressão — ajudaria a impulsionar uma economia próspera no pós-guerra, explicou Lizabeth Cohen, historiadora de Harvard e autora de A Consumers’ Republic: The Politics of Mass Consumption in Postwar America.
Uma reportagem de duas páginas da revista Life em 1947 incentivava famílias a “comprar mais para si mesmas para melhorar a vida dos outros”. Argumentos semelhantes foram retomados após os atentados de 11 de setembro.
Nos anos 1970, fabricantes passaram a transferir produção para países com mão de obra barata e não sindicalizada, em busca de maiores margens, disse Cohen. Nos anos 1990, a China despontou como líder em produção de baixo custo, com varejistas como Zara e Forever 21 dependendo amplamente de fabricantes chineses. Isso marcou o início de uma mudança cultural ampla em direção a ciclos mais curtos de moda e decoração — e a jogar coisas fora em vez de consertá-las.
Chip Colwell, antropólogo e autor de So Much Stuff, uma história do consumismo, acredita que tarifas farão as pessoas comprarem menos no curto prazo. “Mas assim que puderem comprar mais, vão comprar.” As interrupções temporárias na cadeia de suprimentos durante a pandemia, explicou ele, não diminuíram a demanda de longo prazo.
Alterar nossos hábitos de compra de forma permanente exigiria “uma mudança muito fundamental na nossa relação com os objetos”, afirma Colwell. “O valor que eles trazem, a forma como às vezes prejudicam o meio ambiente e até a nós mesmos.”
Uma mudança real, acredita ele, exigiria um longo período de dificuldade econômica semelhante à Grande Depressão. Mas mesmo nesse cenário, pessoas que não podem comprar casa, trocar de carro ou fazer férias podem continuar comprando produtos baratos.
“Se as pessoas vão continuar comprando tanta coisa, é muito difícil prever”, disse Devashish Mitra, professor de economia da Universidade de Syracuse. “Produtos chineses ainda podem continuar relativamente mais baratos do que as alternativas.”
As tarifas podem oferecer aos americanos a chance de criar novos padrões de consumo. As pessoas podem descobrir que preferem comprar de segunda mão ou de artesãos locais se forem obrigadas a isso — especialmente se os produtos durarem mais e tiverem melhor qualidade do que aqueles vindos do exterior.
“Todos esses itens estão se tornando mais acessíveis por causa do preço mais baixo, mas a qualidade é inferior, então precisam ser substituídos com mais frequência”, disse Kimberly Reuter, CEO da consultoria de cadeia de suprimentos CSG Consulting. “Nos tornamos viciados no ciclo de comprar algo novo, usá-lo até o fim da sua vida útil sem manutenção, descartá-lo e comprar outro.”
Em alguns cantos da internet, comprar menos — ou “subconsumo” — já começa a ganhar força. Defensores citam benefícios ambientais, financeiros e psicológicos.
Em Rohnert Park, Califórnia, Kay Washburn assinou um aplicativo de meditação que abre toda vez que sente vontade de entrar no Temu para fazer compras. “Estou tentando me treinar para esquecer essa opção e ajudar a nos levar de volta para onde precisamos estar como país”, disse Washburn. “Mas é uma aula de disciplina, pode acreditar.”
As tarifas fizeram a influenciadora Ava Vancour, caloura universitária, repensar o conteúdo que produz. “Abrir pacotes é literalmente a melhor sensação do mundo”, disse ela — e era o que a tornava conhecida. Sua compra de volta às aulas no último ano do ensino médio teve 6,8 milhões de visualizações, enquanto seguidores buscavam inspiração para seus próprios guarda-roupas.
Este ano, porém, seus vídeos de compras para o dormitório e roupas receberam menos de 100 mil visualizações. Ela suspeita que isso se deve ao fato de as pessoas hesitarem em comprar itens que, apesar de ainda baratos, começaram a subir de preço.
Então, ela está mudando o foco para vídeos de rotina, mostrando como se arruma para o dia com roupas que já tem. Também vem participando do Project Pan, que exige terminar um produto de maquiagem — “atingir o fundo” — antes de comprar outro. “Eu não preciso comprar um milhão de coisas”, disse Vancour. “Se não é algo com que meus seguidores se identificam.”
Depois de anos sendo sacudido por disputas globais, o fazendeiro de Illinois Dean Buchholz achava que já tinha visto de tudo. Mas até ele se surpreendeu quando sua safra de soja acabou envolvida numa crise financeira sul-americana.
Dias depois de o governo Trump prometer um empréstimo de US$ 20 bilhões para reforçar as finanças da Argentina, sob o presidente libertário Javier Milei, a China comprou bilhões de dólares em soja argentina. O megacontrato agrícola repercutiu nos mercados internacionais, pressionando os preços da soja americana e dando impulso à moeda argentina.
Em meio a uma guerra comercial entre Pequim e Washington, China e Argentina uniram forças para mostrar que o mundo pode viver sem a soja dos Estados Unidos. Alguns produtores americanos viram isso como uma traição. “A gente usou dinheiro de impostos para ajudar um país estrangeiro”, disse Buchholz, “e eles basicamente cortaram nossa garganta.”
Na semana passada, o presidente Trump e o líder chinês Xi Jinping concordaram em reduzir as tensões comerciais após uma reunião na Coreia do Sul. Trump disse que cortaria tarifas sobre produtos chineses se Pequim limitasse as exportações de insumos usados na produção do opioide fentanil. Segundo o secretário do Tesouro, Scott Bessent, a China prometeu comprar 12 milhões de toneladas de soja americana nesta safra e 25 milhões de toneladas por ano nos próximos três anos.
“Nossos grandes produtores de soja, que os chineses usaram como peões políticos — isso acabou. Eles vão prosperar nos próximos anos”, disse Bessent.
Mas muitos agricultores ainda se sentem como peões. A manobra chinesa destacou os riscos de depender de uma potência capaz de abalar fortunas ao fechar a torneira do comércio. Os termos do acordo não foram divulgados. Pelo que se sabe, a China concordou em comprar menos soja dos EUA neste ano do que no anterior. Na última década, o país importou em média 29 milhões de toneladas por ano.
“Acho que todo mundo nos usa como peões”, disse David Isermann, que cultiva cerca de 1 mil hectares (10 km²) no condado de LaSalle, em Illinois. Como muitos produtores, ele espera para ver se a China realmente cumprirá a promessa. Boa parte do interior agrícola apoia Trump, diz Isermann, mas “ele irritou os produtores de soja”.
Os preços pagos aos agricultores subiram desde o anúncio do acordo, mas, no terminal de grãos de Walsh, no nordeste de Dakota do Norte, o preço recente — abaixo de US$ 10 por bushel (medida equivalente a 27,2 kg de soja) — ainda torna a oleaginosa um negócio deficitário para a maioria. Marvin Yoder, que cultiva mais de 2 mil hectares (20 km²) de milho e soja em Jacksonville, Illinois, dirigiu cerca de 130 quilômetros até a região de St. Louis para vender a colheita.
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O porto no rio Mississippi paga cerca de 40 a 45 centavos a mais por bushel que o armazém local. Yoder diz que o acordo pode ajudar as finanças dos produtores no curto prazo, mas não resolve o problema maior: o Brasil.
“Os EUA dominaram as exportações agrícolas globais, mas o resto do mundo alcançou”, afirmou. “O Brasil cresce todo ano — tem terra barata, mão de obra barata e produtores muito competentes também.”
A incerteza do mercado chega em má hora para os produtores americanos de soja. A safra deste ano foi projetada como uma das maiores da história, deixando os agricultores com mais grãos do que destinos para vendê-los.
Os custos estão subindo e os preços, baixos. Alguns que já venderam parte da colheita enfrentam prejuízos. Trump prometeu um pacote de resgate multibilionário para manter as fazendas de pé. Mike Dahman, que cultiva cerca de 8 mil hectares (80 km²) em Winchester, Illinois, diz que a soja foi um mau negócio neste ano. Somando o custo do arrendamento e das operações, calcula que perderá cerca de US$ 100 por hectare colhido.
Dahman tem armazenado a maior parte da safra em vez de vendê-la. No mês passado, levou um caminhão de grãos recém-colhidos até um silo da Cargill em Florence, Illinois, mas foi recusado enquanto o local carregava uma barcaça. Vendeu a um armazém vizinho por um preço um pouco menor. “Se você está plantando soja, provavelmente vai perder dinheiro”, disse.
A história da China
A China, de longe o maior importador mundial de soja, ajudou a transformar a oleaginosa na segunda cultura mais plantada dos EUA. O Conselho de Exportação de Soja dos Estados Unidos abriu um escritório em Pequim em 1982 para promover o grão rico em proteína usado na engorda de suínos e aves.
Nos anos 1990, com a ascensão da classe média chinesa e o aumento do consumo de carne, a demanda por soja disparou. Em resposta, agricultores americanos converteram milhões de hectares antes dedicados ao trigo, especialmente nas Grandes Planícies.
Cerca de metade da soja americana é exportada a cada ano. O restante é processado em óleo para culinária e biocombustíveis, como o diesel, e em farelo para ração animal. Avanços tecnológicos das maiores empresas de sementes e defensivos devem elevar a produtividade nos próximos anos. Uma cadeia logística inteira se formou em torno da soja e das exportações para a China — plantas de processamento, ferrovias e melhorias em portos da Costa Oeste. Por décadas, a oleaginosa sustentou milhares de produtores e economias rurais dependentes das vendas a Pequim.
Tudo mudou no primeiro mandato de Trump, quando ele impôs tarifas à China, desencadeando uma guerra comercial. As importações chinesas de soja americana despencaram, e o governo teve de compensar as perdas com cerca de US$ 23 bilhões em subsídios entre 2018 e 2019.
As exportações depois se recuperaram, mas a China gastou dezenas de bilhões de dólares fortalecendo a cadeia agrícola da América do Sul — especialmente no Brasil. A estatal chinesa Cofco, uma grande trader agrícola, desenvolve um grande terminal no Porto de Santos para exportar soja e milho.
O fator Brasil e a Argentina
O Brasil ultrapassou os EUA como maior exportador mundial há mais de uma década, impulsionado por investimentos e uma vasta área agrícola. No ano passado, respondeu por 70% das importações chinesas, o dobro da fatia de 15 anos atrás.
O país é criticado por desmatar para expandir a produção. Em uma conferência neste ano, o vice-secretário de Agricultura dos EUA, Stephen Vaden, chamou o desmatamento brasileiro de “prática comercial desleal” que dá vantagem aos produtores locais.
Trump voltou a elevar as tensões com a China após reassumir a presidência. O governo acreditava que Pequim precisava da soja americana, e o confronto evoluiu para uma disputa de barreiras comerciais. A China reagiu.
Em setembro, a Argentina suspendeu sua taxa de exportação de 26% sobre produtos agrícolas até atingir US$ 7 bilhões em vendas. Dias depois, vendeu praticamente todo esse volume à China, incluindo dezenas de carregamentos de soja.
Autoridades argentinas disseram que a medida visava fortalecer o peso, segundo uma publicação nas redes sociais do então porta-voz presidencial. Mas, em meio a um pacote de resgate financeiro de US$ 20 bilhões articulado pelo Tesouro americano, muitos produtores nos EUA sentiram-se traídos.
O secretário do Tesouro, Bessent, estava na 80ª Assembleia-Geral da ONU em setembro quando recebeu uma mensagem de texto da secretária de Agricultura, Brooke Rollins: “Os preços da soja estão caindo ainda mais por causa disso. Isso dá mais poder de barganha à China.”
Gigantes do agronegócio como a Cargill — maior empresa privada dos EUA — e a Archer Daniels Midland foram as responsáveis por levar a soja argentina até a China. É parte da lógica global das tradings, que lucram com operações externas mesmo enquanto os produtores americanos sofrem com a queda nas exportações.
Segundo Brian Sikes, CEO da Cargill, países como o Brasil devem ajudar a expandir a produção agrícola global para alimentar a população crescente. “Vemos a América do Sul como um investimento, com certeza”, disse. A Cargill, com sede em Minnesota, investiu cerca de US$ 1,5 bilhão no Brasil nos últimos cinco anos, incluindo em unidades de processamento de soja.
Entidades do setor agrícola americano celebraram o novo acordo com a China. “Expandir mercados e retomar as compras chinesas vai trazer previsibilidade para produtores que estão lutando para se manter”, disse Zippy Duvall, presidente da American Farm Bureau Federation. Ainda assim, analistas alertam que as tensões entre China e EUA podem voltar a piorar. “Há um sentimento cauteloso de otimismo”, disse Arlan Suderman, economista-chefe de commodities da StoneX.
“Mas também a consciência de que os dois países ainda estão longe de resolver suas diferenças.” O CEO da Archer Daniels Midland, Juan Luciano, afirmou nesta semana que os benefícios do acordo recente com a China ainda são incertos. “Precisamos de clareza sobre o acordo”, disse. “À primeira vista, parece positivo, mas ainda não vimos um documento conjunto com os detalhes.”
Entre setembro e o início de outubro, as exportações americanas — excluindo a China — subiram cerca de 45% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo Jim Sutter, diretor do Conselho de Exportação de Soja.
Tailândia, Bangladesh, Paquistão e países europeus ampliaram suas compras. No norte da África, Egito e Marrocos despontam como oportunidades de crescimento, diz Sutter. Mas nada substitui a China. As grandes compras semanais do país durante a colheita americana trazem previsibilidade; já os pedidos de outros mercados são irregulares, elevando custos de armazenagem e incerteza.
Greg Amundson, que cultiva cerca de 3 mil hectares (30 km²) no nordeste de Dakota do Norte, diz que, em um ano normal, toda a sua soja iria para a China. Neste ano, levou a produção a uma planta de esmagamento — onde os grãos são transformados em óleo e farelo para ração —, mas se diz frustrado com os preços baixos. Centavos por bushel podem determinar a diferença entre lucro e prejuízo. Sinais de dificuldade já vinham aparecendo na economia rural antes mesmo de Trump reassumir o cargo.
O excesso de milho e soja após várias safras recordes derrubou os preços. Os fertilizantes de Amundson custam cerca de US$ 100 por saco a mais que no ano passado. As sementes subiram entre 10% e 20%. “O acordo com a China pode trazer alguma estabilidade”, disse. “Mas tem soja demais no mundo — é por isso que os preços estão tão baixos.”
A utopia de Cristie North é feita de milhares de tijolinhos de plástico e ocupa a maior parte do porão. Tem uma rua principal movimentada e uma praia com banhistas. Tem uma montanha-russa e uma roda-gigante em movimento. Tudo feito de Lego.
A casa da moradora de Salt Lake City, de 55 anos, já passou por várias obras, inclusive derrubar paredes, para abrir espaço para seus projetos com brinquedos. North, executiva de uma empresa de hipotecas, diz ter gasto US$ 100 mil para construir seu mundo de Lego e o espaço para exibi-lo. Isso sem contar os custos de um grande mosaico de Lego que ela encomendou para a área externa do cômodo do porão que virou seu “covil” do Lego.
“Eu queria deixar tudo cada vez maior e melhor”, disse North sobre a cidade, que começou a montar em 2022, pouco depois de comprar seu primeiro kit de Lego para espantar o tédio durante a pandemia. “Isso alimenta a minha alma.”
North abre a porta da sala de Lego por um leitor de impressão digital. Ela cogita instalar câmeras ao redor do cenário para poder vê-lo quando estiver viajando.
Nos últimos anos, a Lego cultivou uma base devotada de fãs adultos, que talvez não pudessem bancar os caros kits dinamarqueses quando crianças, mas agora vêm munidos de fervor e renda disponível.
Isso cria um novo problema, já que os maiores conjuntos de Lego têm milhares de peças e rapidamente consomem o espaço de exposição disponível. Alguns montadores dedicam cômodos inteiros ao Lego. Outros decoram aparadores de lareira, estantes e paredes com suas construções de plástico — muitas vezes para desgosto dos cônjuges.
Lego: Adobe Stock
“Acho que vou ter é que comprar uma casa maior”, diz Steve Isom, 39, diretor financeiro de uma empresa de tecnologia em Omaha, Nebraska. Sua mesa de jantar e o aparador foram tomados por conjuntos de Lego montados por ele e três de seus filhos, assim como seu escritório. Naves espaciais pendem do teto presas por fio de pesca.
Isom montou pessoalmente 275 conjuntos nos últimos quatro anos, incluindo um Titanic titânico atracado numa longa prateleira e uma Torre Eiffel de 10 mil peças, com quase 1,5 m de altura. “Não é brinquedo, é um sistema sofisticado de blocos interligados”, diz Isom. O hobby o ajuda a relaxar depois de dias corridos.
Sua esposa, Preston Isom, diz que os tijolinhos de plástico não combinam necessariamente com a estética “farmhouse moderna” da casa, mas fica feliz que o marido e as crianças encontrem prazer neles. Ainda assim, ela baniu exposições de Lego no quarto. “É uma bola de neve”, brinca.
O arquiteto de Seattle Jeff Pelletier diz que ajudou a projetar cerca de 25 casas desde a pandemia com salas de Lego, 90% delas para adultos. Fã de Lego ele mesmo, Pelletier aconselha clientes a evitar cômodos com muito sol — para não desbotar as peças — e a usar armários envidraçados para exibir as criações, evitando poeira.
Um banho rápido no chuveiro, diz ele, é seu truque usual para limpá-las. Pelletier tem uma sala de Lego para os filhos e planeja outra para si em uma casa de piscina no quintal.
Em outros espaços, tenta cultivar “pequenos momentos de Lego” — um arranjo botânico de tijolinhos sobre um armário ou versões em Lego de quadros famosos, como “A Grande Onda”, de Hokusai, incorporadas a uma parede-galeria.
Niko Cejic, corretor da Douglas Elliman que já vendeu várias casas com salas de Lego, diz que esses toques dão personalidade. Em recentes visitas abertas de uma casa de US$ 2 milhões nos Hamptons, o vendedor deixou seu Lamborghini e suas Ferraris de Lego à mostra, encantando vários compradores. “Temos tantas casas estéreis, sem graça”, diz Cejic. “Isto aqui é bem mais divertido.”
Evan Rubin, 41, concorda. Entre levar os filhos para esportes e escola e fazer o trajeto até seu trabalho em uma empresa de equipamentos médicos no sudeste da Pensilvânia, “a vida pode ficar monótona”. “Isto traz de volta um pouco da nossa infância”, diz Rubin. “Ninguém quer realmente crescer.”
Ainda assim, por deferência à esposa, ele mantém a maioria de suas construções confinadas a um único cômodo no andar de baixo. “Minha esposa fica com a casa e eu fico com o porão”, diz, embora às vezes tente encaixar um conjunto em outro lugar. Uma vez ele escondeu uma casa na árvore de Lego acima do aparador da louça por mais de um mês antes de ela notar. Muitas salas de Lego acabam em porões, que têm a vantagem da discrição, diz Brodie Overton, 40, enfermeiro e fã de Lego no centro de Iowa.
“Quando o cara da climatização ou o encanador vem, eles perguntam: ‘O que está acontecendo aqui?’”, diz ele sobre sua própria sala subterrânea de Lego. “Aí passam 20 minutos olhando tudo.”
A base de fãs adultos da Lego explodiu desde 2020, quando a empresa passou a mirá-los com conjuntos embalados elegantemente em preto. Hoje, suas ofertas para “crescidinhos” incluem desde uma Estrela da Morte de US$ 1 mil até itens mais apropriados para a sala, incluindo flores e decoração sazonal.
Especialmente para quem tem cônjuges céticos, estes últimos são uma mão na roda, diz Ridwan Adhami, 45, que se apaixonou por Lego quando começou a montar com a filha, então com 4 anos. Hoje, ela tem 17 e há muito perdeu o interesse. Ele continuou montando, mesmo com os revirar de olhos dela.
Sua esposa insiste que ele restrinja o hobby a um cômodo de depósito no porão. Ainda assim, Adhami segue tentando ganhar terreno. No ano passado, o diretor de criação de Montclair, Nova Jersey, comemorou quando ela concordou em deixá-lo montar uma vila de inverno de Lego na lareira. “Foi como um pitch. Eu tive que levar os conjuntos lá”, diz ele. “Ela falou: ‘Não gosto desse boneco de neve. Esse correio pequenininho é fofo, pode ficar.’”
Recentemente ele mostrou a ela a foto de uma guirlanda de outono de Lego para tentar ganhar aprovação. Ele espera tomar outra parte do porão, atualmente reservada para os gatos da família. “Só estou tentando acostumá-la com a ideia para começar a enfiar mais coisas”, diz.
No coração da Floresta Amazônica, trabalhadores se preparam para escavar um poço vertical tão largo quanto um túnel de metrô, cerca de 800 metros de profundidade. Não é ouro nem petróleo o que está escondido em uma clareira gramada entre terras indígenas, mas fertilizante — algo, para este vasto país agrícola, possivelmente tão precioso quanto.
Com o acirramento das tensões no comércio global, o Brasil substituiu uma fatia crescente das exportações agrícolas dos EUA para a China, que passou a evitar a soja americana em resposta às tarifas do governo Trump. A imposição, pela administração Trump, de tarifas de 50% ao Brasil neste ano elevou as apostas para que o setor agrícola — em que o país é líder global — sustente a maior economia da América Latina em meio à guerra comercial.
Mas o fertilizante continua sendo o calcanhar de Aquiles do Brasil. O país importa cerca de 90% dos nutrientes de nitrogênio, fósforo e potássio de que precisa, principalmente da Rússia, cuja guerra na Ucrânia, somada às sanções ocidentais, tornou o abastecimento precário. A solução está na maior floresta tropical do mundo.
A mineradora Brazil Potash Corp., sediada em Toronto, está investindo US$ 2,5 bilhões para construir uma mina subterrânea de potássio perto da cidade de Autazes, a poucos quilômetros das margens do Rio Madeira, explorando a vasta Bacia Potássica da Amazônia, uma das maiores do mundo.
Descoberta por acaso há mais de 50 anos, quando a estatal brasileira Petrobras perfurava em busca de petróleo, a camada alaranjada-rosada de cloreto de potássio se estende por cerca de 400 quilômetros sob a floresta — resquícios secos de um oceano antigo.
A produção na mina de Autazes, estimada em 2,4 milhões de toneladas por ano, está prevista para começar em 2030. Destinada inteiramente ao mercado brasileiro, essa oferta atenderia a cerca de um quinto da necessidade de potássio do país ao longo dos 30 anos de vida útil da mina. A bacia, por si só, possui reservas suficientes para levar o Brasil a ficar próximo da autossuficiência em potássio.
Um fornecimento dedicado de potássio ajudaria a blindar as safras brasileiras de choques geopolíticos como a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, quando os preços recordes do insumo provocaram pânico no cinturão agrícola do país. Em contrapartida, daria ao Brasil uma vantagem em momentos como o atual, quando tensões entre EUA e China estão redirecionando fluxos de comércio e elevando a demanda pelos produtos agrícolas brasileiros.
Barcaça transportando soja pelo rio Madeira, onde o potássio também deverá ser transportado futuramente. Foto: María Magdalena Arréllaga/WSJ
“Temos um presente de Deus aqui, e precisamos aproveitá-lo ao máximo”, disse Raphael Bloise, responsável pelo projeto no Brasil. A mineradora listada nos EUA planeja outro site em Fazendinha, perto do encontro do Rio Madeira com o Rio Amazonas, afirmou Bloise.
O Brasil precisa de mais fertilizante do que outros gigantes agrícolas para sustentar sua produção atual. Abençoado com um clima que permite o cultivo o ano todo, o país vê seus solos terem nutrientes rapidamente exauridos. O solo rico em argila também tem dificuldade em reter fertilizantes durante as chuvas intensas.
Investidores chineses já demonstraram interesse no projeto, que inclui um terminal portuário e uma linha de transmissão de 164 km. Em um possível acordo de swap, Pequim poderia se comprometer a adquirir potássio da mina em nome dos agricultores brasileiros em troca de entregas futuras garantidas de cultivos como soja e algodão, segundo a empresa. Mas a localização do projeto de Autazes, no estado do Amazonas, é ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição.
O Amazonas faz fronteira com Mato Grosso, o maior produtor de soja do Brasil e grande consumidor de fertilizantes — a cerca de 400 milhas (aproximadamente 640 km) através de densa floresta, ainda assim mais perto do que a Rússia.
Caminhões já transportam a safra de Mato Grosso para o norte, até barcaças fluviais com destino a portos no litoral atlântico do Brasil. Quando a mina abrir, eles poderão retornar às áreas agrícolas mato-grossenses carregados de potássio, em vez de vazios. “O Brasil é um exportador maciço de produtos agrícolas para a China, mas está exposto a todos esses riscos geopolíticos que afetam seu suprimento de fertilizantes — ter uma fonte segura de potássio no próprio quintal é essencial”, disse Matt Simpson, presidente-executivo da Brazil Potash.
Mas cavar um enorme buraco em uma das regiões mais sensíveis do mundo do ponto de vista ambiental e cultural não é tarefa fácil, disse Bloise, que passou boa parte da carreira no desenvolvimento de Carajás, a maior mina de minério de ferro do mundo, também localizada na Amazônia.
A Brazil Potash passou a última década travando batalhas judiciais e tentando conquistar do prefeito local ao padre da comunidade. A empresa finalmente obteve permissão para seguir adiante.
A companhia planeja minerar apenas em áreas fora das terras dos Mura, o povo indígena cujo território se sobrepõe a partes das jazidas de potássio. Os Mura inicialmente desconfiaram. Desde os tempos coloniais, tiveram de se defender de incursões violentas — primeiro dos colonizadores portugueses e, mais recentemente, de garimpeiros ilegais.
Hoje, cerca de 35 das 40 aldeias Mura na região apoiam a mina, conquistadas pelas promessas de um futuro melhor, segundo o Conselho Indígena Mura. A Brazil Potash investiu em uma escola e em um time de futebol locais e prometeu ajudar os Mura a ampliar a renda com piscicultura, agricultura em pequena escala e artesanato.
Em Urucurituba, a comunidade ribeirinha de cerca de 500 famílias mais próxima da mina, o saneamento precário tem levado a frequentes surtos de diarreia. O píer desaba quando o rio enche, e ataques de piratas se tornaram comuns à medida que o narcotráfico avança pela Amazônia. Não há presença policial e, embora a vila tenha um posto de saúde, médicos a visitam apenas a cada duas semanas.
“Não queremos isso para os nossos filhos”, disse Aldinelson Moraes Pavão, cacique Mura de Urucurituba, acrescentando que as comunidades indígenas também desejam o que o restante dos brasileiros deseja. “Quem não quer tomar um copo de água gelada da geladeira, ter um carro ou dormir em um quarto com ar-condicionado?”, afirmou.
A mina toca no cerne do dilema do Brasil sobre o futuro da floresta e de seu povo, enquanto líderes mundiais se reúnem na Amazônia neste mês para a cúpula do clima da ONU.
Ambientalistas alertam que até mesmo a mineração legal pode estabelecer um precedente perigoso na Amazônia, abrindo caminho para desmatamento, grilagem de terras e conflitos sociais.
Críticos afirmam que a infraestrutura construída para minas industriais — como estradas de acesso, portos e linhas de transmissão — inevitavelmente atrai madeireiros ilegais, pecuaristas e garimpeiros cada vez mais para o interior da floresta. Policiar uma mata quase do tamanho dos EUA contíguos é quase impossível.
Outros argumentam que o Brasil precisa encontrar uma forma de sustentar as cerca de 30 milhões de pessoas — indígenas e não indígenas — que vivem em sua porção da Amazônia, muitas delas em pobreza extrema. A pecuária já devastou áreas vastas, privando comunidades indígenas e outras de meios de subsistência tradicionais. Em comparação com a agropecuária, a mineração deixa uma pegada relativamente pequena.
A Brazil Potash argumenta que produzir fertilizantes domesticamente poderia aliviar a pressão sobre florestas em todo o país, já que muitos agricultores desmatam novas áreas em vez de reutilizar lavouras antigas simplesmente por faltarem nutrientes para restaurar a fertilidade do solo.
Em Autazes, um município de cerca de 50 mil habitantes, a maioria das famílias depende de empregos públicos ou de programas de assistência social, disse o prefeito José Thomé Neto. A mina proposta criaria vários milhares de empregos durante a construção e a operação, além de até 30 mil empregos indiretos em toda a região, afirmou. Autoridades locais esperam que a população do município dobre ao longo dos 30 anos de vida útil da mina.
“Há uma enorme expectativa aqui”, disse Neto. “Este projeto vai contribuir para a segurança alimentar do nosso país e também para um novo modelo econômico para o estado.”
Escreva para Samantha Pearson em samantha.pearson@wsj.com
A China já demonstrou que pode transformar em arma seu controle sobre cadeias de suprimento globais ao restringir o fluxo de minerais críticos de terras raras. O presidente Trump foi para a mesa de negociação quando a falta de materiais chineses ameaçou a produção americana, e na semana passada fechou uma trégua com o líder chinês Xi Jinping que, segundo ambos, deve facilitar o fluxo de terras raras.
Mas as ferramentas de Pequim vão além desses minerais críticos. Outros três setores em que a China tem o “gargalo” — baterias de íons de lítio, chips maduros e ingredientes farmacêuticos — dão uma ideia do que os EUA precisariam fazer para se livrar totalmente dessa vulnerabilidade.
Por trás do domínio chinês nas cadeias de suprimento estão políticas industriais construídas ao longo de décadas.
Quando empresas chinesas passam a dominar uma ampla faixa da cadeia, inundando os mercados globais com produtos de menor preço nesse processo, Pequim introduz controles de exportação que lhe permitem alavancar essa vantagem e impor dor ou ameaçar economias rivais. Às vezes, os países conseguem obter alternativas a um custo maior, mas em outros casos é difícil — ou quase impossível — encontrar fornecedores fora da China.
Em um ensaio de 2020, Xi afirmou que o controle de cadeias de suprimento não deveria ser transformado em arma, mas também disse que a China deve “apertar a dependência das cadeias industriais internacionais em relação ao nosso país” para dissuadir outros de prejudicar a China.
A seguir, um guia do manual da China para flexionar seu músculo exportador.
Baterias de íons de lítio
As baterias de íons de lítio são usadas em veículos elétricos, armazenamento de energia e eletrônicos de consumo. Quem as controla tem vantagem em tecnologia automotiva e energia verde.
Os dois maiores produtores globais de baterias são chineses: CATL e BYD. Mesmo quando uma bateria é fabricada em outro lugar, suas “entranhas” incluem uma contribuição chinesa significativa. Fornecedores chineses produzem 79% dos cátodos dentro das baterias e 92% dos ânodos, segundo a Benchmark Mineral Intelligence. As baterias também utilizam materiais como lítio, no qual produtores chineses detêm 63% de participação de mercado na versão química refinada. A China também controla 80% da oferta de cobalto refinado e 98% de grafite refinado.
Em 2015, Pequim declarou a meta de ampliar sua indústria doméstica de veículos elétricos, o que abriu as comportas para centenas de montadoras e fabricantes de baterias locais. Entre 2015 e 2019, Pequim estimulou as montadoras chinesas de EV a usar baterias produzidas localmente e aprovadas.
Neste ano, a China tomou medidas para manter seu controle garantindo que sua tecnologia não vaze para rivais. Em julho, Pequim disse que exigiria licenças para transferir ao exterior certas tecnologias ligadas à fabricação de baterias de íons de lítio e, em outubro, passou a exigir licenças de exportação para determinados equipamentos de fabricação e materiais de cátodo.
Semicondutores
A China responde hoje por cerca de um terço da capacidade global de produção de semicondutores “maduros”. Esses chips ainda são críticos para setores como automóveis, eletrônicos de consumo e defesa, embora sejam mais simples de produzir do que os chips de ponta.
Enquanto isso, minerais como gálio e germânio são amplamente usados em chips — tanto avançados quanto maduros — e em outros produtos semicondutores, como células fotovoltaicas. A China respondeu por 99% da produção global de gálio em 2024, segundo dados do Serviço Geológico dos EUA (USGS). A China é a principal produtora mundial de germânio, disse o USGS, sem fornecer números exatos.
A China gastou bilhões de dólares para construir capacidade de fabricação de semicondutores com vistas à autossuficiência. Isso gerou preocupações globais sobre excesso de capacidade chinesa em chips maduros, o que pode reduzir a rentabilidade de outros produtores e, em última instância, expulsá-los do mercado.
Em 2023, a China anunciou restrições de exportação ao gálio e ao germânio, exigindo licenças para envios ao exterior.
Recentemente, a China bloqueou a exportação de chips maduros produzidos por uma empresa holandesa chamada Nexperia, usados em lanternas e eletrônicos automotivos. Os chips são majoritariamente fabricados na Europa, mas acabam sendo exportados ao mundo a partir da China, onde ocorrem o processamento e a encapsulação.
A China disse que bloqueou essas exportações como retaliação depois de o governo holandês ter assumido o controle da Nexperia de seu antigo controlador chinês, que está numa lista de sanções comerciais dos EUA.
Após as conversas entre Trump e Xi na semana passada, a China afirmou que voltaria a permitir que os chips da Nexperia chegassem a clientes globais. Ainda assim, o caso mostrou as consequências quando um único fabricante de chips maduros, de tamanho relativamente modesto, fica impossibilitado de vender seus produtos. Montadoras globais como a Honda tiveram de fechar fábricas em poucas semanas após a medida chinesa.
Farmacêuticos
Embora os remédios vendidos em farmácias dos EUA ou sem prescrição geralmente não tragam “feito na China”, o país frequentemente fornece os ingredientes farmacêuticos ativos (IFAs) dos medicamentos ou os químicos precursores usados para produzir esses IFAs.
A maior parte do paracetamol (acetaminofeno) e do ibuprofeno importados pelos EUA vem da China. Esses são os ingredientes ativos de Tylenol e Advil, respectivamente. A China também é uma produtora relevante de ingredientes para antibióticos.
Os EUA importam muitos medicamentos de marca da Europa, enquanto, no caso dos genéricos, dependem fortemente da Índia. Ainda assim, uma parcela significativa dos ingredientes ativos usados nos genéricos fabricados na Índia tem origem na China.
Em 2015, a China tornou a produção de medicamentos e dispositivos médicosuma prioridade industrial. Mais recentemente, disse que planeja apoiar o desenvolvimento de medicamentos e dispositivos médicos inovadores nos próximos cinco anos.
Talvez ciente da sensibilidade de transformar remédios em ferramenta política, a China raramente ameaçou cortar o fornecimento de medicamentos aos EUA. Ainda assim, sinalizou consciência de sua alavancagem no início da pandemia de Covid-19, quando o mundo enfrentou escassez de máscaras e equipamentos de proteção individual devido a interrupções de fornecimento na China. Em março de 2020, a agência oficial Xinhua disse que, se a China restringisse as exportações de produtos médicos, os “EUA seriam lançados no vasto oceano do coronavírus”.
Os maiores empregadores dos EUA têm uma nova mensagem para seus funcionários: não precisamos de vocês. Agora, eles têm a inteligência artificial (IA).
A Amazon anunciou esta semana que cortará 14 mil empregos, com planos de eliminar até 10% de sua força de trabalho administrativa eventualmente. A United Parcel Service informu na terça-feira (28) que reduziu sua força de trabalho gerencial em cerca de 14 mil posições nos últimos 22 meses, dias depois que a varejista Target anunciou que cortaria 1.800 cargos corporativos.
No início de outubro, trabalhadores administrativos de empresas como Rivian Automotive, Molson Coors, Booz Allen Hamilton e General Motors receberam avisos de demissão — ou souberam que os receberiam em breve.
Somando tudo, dezenas de milhares de trabalhadores administrativos recém-demitidos nos Estados Unidos estão entrando em um mercado de trabalho estagnado, aparentemente sem lugar para eles.
Às 5h30 da manhã de terça-feira, Kelly Williamson acordou com uma mensagem alarmante de seu empregador, o Whole Foods Market da Amazon, pedindo que ela verificasse seu e-mail.
“Revise o mais rápido possível e fique em casa hoje”, dizia a mensagem. O cargo de Williamson na equipe de proteção de ativos estava sendo eliminado. O crachá e o laptop da mulher de 55 anos, de Austin, Texas, foram desativados. Ela recebeu 90 dias para procurar outro emprego na empresa. Ela disse que seus pertences pessoais estão sendo enviados para ela pelo correio.
Um novo normal mais enxuto está surgindo nos EUA. Grandes empregadores estão reduzindo seus quadros de funcionários, eliminando cargos administrativos e deixando menos oportunidades para trabalhadores experientes e novos que tinham empregos bem remunerados. Quase dois milhões de pessoas nos EUA estão desempregadas há 7 meses ou mais, de acordo com dados federais recentes.
Por trás da onda de demissões de funcionários administrativos está a adoção da inteligência artificial (IA), que os executivos esperam que possa ser mais eficiente do que os funcionários administrativos bem remunerados.
Os investidores pressionaram a alta administração a trabalhar com mais eficiência e com menos funcionários. Os fatores que impulsionam a desaceleração das contratações incluem a incerteza política e os custos mais altos.
Em conjunto, esses fatores estão remodelando a aparência do trabalho nos EUA, deixando os gerentes que permanecem com mais funcionários para supervisionar e menos tempo para se reunir, enquanto sobrecarregam os funcionários que têm a sorte de ter empregos com cargas de trabalho mais pesadas.
Toda essa reestruturações criou uma sensação de precariedade, tanto para gerentes quanto para seus liderados. Também está restringindo as opções para quem procura emprego.
Cerca de 20% dos americanos entrevistados pelo WSJ-NORC este ano disseram estar muito ou extremamente confiantes de que poderiam encontrar um bom emprego se quisessem, um número menor do que em anos anteriores.
Contratação de operários
Enquanto isso, as oportunidades para trabalhadores da linha de frente, como operários ou especialistas, estão crescendo.
As empresas descrevem a escassez de funcionários nos setores de comércio, saúde, hotelaria e construção, ao mesmo tempo em que suspendem as contratações de consultores e gerentes, demitem funcionários no varejo e no setor financeiro e implantam IA para realizar trabalhos de contabilidade e monitoramento de fraudes.
“O sistema parece estar uma bagunça”, disse Chris Reed, de 33 anos, que foi demitido há um ano de uma empresa de vendas de tecnologia, área em que atuava há mais de uma década.
Reed, que mora em New Braunfels, Texas, recentemente conseguiu um emprego vendendo carros da Toyota, depois de passar 10 meses procurando trabalho. Reed sustenta seus três filhos, de 10, 8 e 6 anos, e sua esposa, dona de casa e estudante. “Na área de tecnologia, sou qualificado, tenho experiência”, disse Reed. “Não consegui nenhum emprego nesta área.”
Após sua demissão, ele disse que se candidatou a mais de 1.000 vagas. Para conseguir pagar as contas, incluindo comida, gasolina, contas de luz e água e as prestações de dois carros, Reed disse que sacou todo o seu plano de aposentadoria e vendeu ações, criptomoedas e os cards de Pokémon que colecionava com o filho. “Minha casa foi a leilão por falta de pagamento da hipoteca”, disse ele.
Neste verão, um amigo o indicou para o emprego na concessionária. Ele viaja duas horas ou mais por dia e muitas vezes trabalha incansavelmente desde às 8h30 até às 21h. Agora está pensando se deveria trabalhar em seu dia de folga.
Reed está sentindo a pressão de um desequilíbrio entre vida profissional e pessoal, vários meses após ter começado no emprego. Às vezes, ele passa dias sem ver os filhos; acorda antes de eles irem para a escola e volta para casa depois que eles dormem. À noite, ele coloca os filhos na cama, mas a filha se recusa a deixá-lo ir.
“Ela acha que eu não vou vê-la no dia seguinte”, disse ele. “Isso afetou muito minha vida familiar.” Os empregos de escritório que estão na berlinda são funções que muitos trabalhadores americanos almejavam. Eles investiram em diplomas universitários para se qualificarem para uma entrevista e, em seguida, conquistaram empregos confortáveis, como gerentes de recursos humanos e engenheiros de nível intermediário.
Agora, o que antes era uma posição estável parece uma bomba-relógio, com funcionários que galgaram os degraus da hierarquia corporativa aguardando sua vez para uma videochamada anunciando seu último dia.
Alvos da IA
Economistas do Fed da Filadélfia descobriram que empregos com salários mais altos e que exigem um diploma de bacharel são mais expostos à IA do que outras posições.
Mesmo com o crescimento da economia, as contratações enfraqueceram, com economistas prevendo uma desaceleração na criação de empregos neste outono. Nesse cenário, as empresas estão se tornando mais seletivas — e tanto os trabalhadores de escritório experientes quanto os recém-formados em busca de seus primeiros empregos estão sendo pressionados.
Mo Toueg, que dirige uma empresa de recrutamento, disse ter visto um aumento expressivo no número de pessoas de 40 anos em busca de emprego no último ano. “Eles me dizem que não conseguem acompanhar o ritmo da tecnologia atual”, disse Toueg, da Gobu Associates. “A tecnologia está superando suas habilidades.”
Candidatos a emprego disseram que estão sendo rejeitados em favor de candidatos com experiência profissional quase idêntica à exigida na vaga. “As empresas agora podem contratar funcionários que correspondam exatamente às suas qualificações desejadas”, disse Melissa Marcus, diretora administrativa de uma empresa de consultoria de emprego com sede em Austin.
“As empresas que têm dinheiro para gastar agora com pessoal estão pedindo o impossível”, disse ela.
Essa dinâmica está contribuindo para restringir as contratações de nível inicial. A turma de 2025 enviou mais candidaturas a vagas de emprego do que a turma de 2024, enquanto recebeu um número menor de ofertas, de acordo com a National Association of Colleges and Employers (NACE).
“Senti que estava me esforçando muito para entrar no mercado de trabalho, e a escada foi puxada debaixo dos meus pés”, disse Kobe Baker, de 23 anos, que começou a procurar emprego em janeiro, logo após se formar na Universidade Baylor. “Ninguém estava lá para realmente me dizer o que eu poderia fazer para melhorar, para me sair melhor na próxima candidatura. Era apenas silêncio total.”
Baker, que agora mora em Bloomfield, Nova Jersey, esperava entrar no mercado de trabalho da cidade de Nova York após a formatura. Ele ampliou sua busca antes de conseguir um emprego em atendimento ao cliente no final de setembro. Ele disse que muitos jovens querem ser independentes, mas não conseguem se firmar no mercado de trabalho.
Mike Hoffman, diretor executivo da empresa de consultoria de crescimento SBI, disse que nos últimos seis meses reduziu sua equipe de desenvolvimento de software em 80%, enquanto a produtividade aumentou consideravelmente. “Temos alguém gerenciando grupos de agentes que estão programando”, disse ele. “Nossa IA escreve seu próprio código Python.”
“Os investidores estão pressionando as empresas a otimizar as operações”, disse Hoffman, buscando reduções de pessoal de até 30%. Os executivos devem se perguntar se podem fazer isso e se é a coisa certa a fazer, disse ele.
A empresa de aprendizado online Chegg anunciou que cortará 388 empregos globalmente, ou seja, cerca de 45% de sua força de trabalho, à medida que se adapta a um modelo de IA que responde automaticamente às perguntas dos alunos.
Durante o primeiro mandato, o presidente dos EUA Donald Trump desmantelou o engajamento de décadas dos Estados Unidos com a China. Agora, ele está prestes a reatar com Pequim, adotando a estratégia de seus antecessores, de Bill Clinton a Barack Obama. Mas nos termos de Trump.
Os principais negociadores comerciais dos EUA e da China, ao concluírem dois dias de tensas negociações em Kuala Lumpur, na Malásia, disseram ter chegado a um acordo que prepara o terreno para que Trump e o líder chinês Xi Jinping cheguem a um acordo importante quando se encontrarem nesta quinta-feira (30), na Coreia do Sul.
O acordo em si parece ser uma trégua transacional, que pode envolver a retomada, pela China, das compras de soja dos EUA e o adiamento de novos controles sobre minerais de terras raras. Para os EUA, está em discussão o arquivamento de novas tarifas, a revogação da taxa de 20% sobre a China por seu papel na crise do fentanil nos EUA e, potencialmente, a abstenção de novas medidas políticas contra a China.
Mas o acordo vai além de um simples cessar-fogo temporário. É o primeiro passo em um diálogo de alto nível recém-estruturado, com o objetivo de consolidar um ano inteiro de diplomacia.
O cronograma é ambicioso: espera-se que Trump viaje a Pequim no início do próximo ano, seguido por uma visita recíproca de Xi ainda naquele ano.
Para Trump, é uma reviravolta impressionante.
“O primeiro mandato de Trump colocou os EUA e a China em um caminho rumo a uma competição inquestionável e de longo prazo, senão a um confronto”, disse Evan Medeiros, ex-alto funcionário de segurança nacional do governo Obama e atualmente professor da Universidade de Georgetown. “Agora parece que Trump está mudando completamente sua estratégia em relação à China, iniciando uma nova fase de maior engajamento e em um nível mais elevado.”
Além da diplomacia de alto nível, a trégua prepara o terreno para uma estabilização tática da relação ao longo do próximo ano.
Essa distensão recoloca Trump em seu papel preferido como negociador central, garantindo alívio econômico de curto prazo — como a retomada das compras de soja — que agrada aos estados com votação republicana.
Este novo calendário diplomático, altamente estruturado, contrasta fortemente com a abordagem de seu primeiro mandato.
Embora Trump tenha se reunido com Xi durante a primeira presidência, esse encontro era frequentemente improvisado e ofuscado pela escalada das disputas tarifárias, carecendo do agendamento formal e recíproco que agora está sendo proposto.
É também uma dinâmica que, segundo analistas, proporciona vantagens a Pequim.
O pensamento nos círculos de formulação de políticas de Pequim, de acordo com pessoas que consultam autoridades chinesas, é que Xi está se aproximando de seu objetivo de curto prazo: um “impasse estratégico” — um equilíbrio duradouro em que a pressão americana se torna administrável e a China ganha tempo para alcançar os EUA.
Ainda assim, essa mudança para o reengajamento não marca um retorno ao passado.
O antigo engajamento, defendido por décadas de formuladores de políticas dos EUA, foi construído sobre uma esperança liberal e ambiciosa: que a integração econômica inevitavelmente levaria a uma China mais aberta e politicamente reformada.
Mesmo a estratégia de “guinada para a Ásia” de Obama foi baseada no engajamento com Pequim, apoiada por um fortalecimento militar na região.
A versão Trump 2.0, por outro lado, parece ter nascido da necessidade.
Essa nova estrutura não se baseia em parceria, cooperação ou valores compartilhados. Em vez disso, alguns analistas dizem que é um reconhecimento frio de que o confronto aberto se tornou muito custoso e que os interesses dos EUA — desde a gestão do domínio da China sobre os minerais de terras raras até o controle do fluxo de fentanil — exigem um diálogo transacional.
É uma tentativa de estabelecer regras para uma rivalidade entre superpotências administrada e de longo prazo, dizem esses analistas.
Essa distensão é construída sobre terreno frágil. Os pontos de tensão fundamentais no relacionamento — do futuro de Taiwan e manobras militares no Mar da China Meridional à corrida pela supremacia em inteligência artificial e computação quântica — permanecem sem solução e voláteis.
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Trégua entre os países
E, para uma administração que prospera na imprevisibilidade, esse novo roteiro pode estar a apenas uma provocação geopolítica, ou uma única postagem presidencial nas redes sociais, de ser completamente revertido.
“Uma trégua comercial não mudará o rumo da competição entre os EUA e a China nem aumentará a confiança entre os dois países”, disse Daniel Bahar, ex-representante comercial adjunto dos EUA que participou das negociações durante a guerra comercial do primeiro mandato de Trump com a China.
“Mas dará tempo para que cada lado continue a reduzir os riscos em relação ao outro, como a China buscando a autossuficiência no setor de semicondutores e os EUA correndo para construir cadeias de suprimentos alternativas de terras raras”, disse Bahar, agora diretor administrativo da Rock Creek Global Advisors em Washington. “Cada lado usará a trégua para estar mais bem preparado para a próxima batalha comercial.”
O que Xi mais precisa é de tempo. Com a economia chinesa enfrentando uma desaceleração persistente, essa estrutura proporciona uma janela crucial de estabilidade.
Ela suspende a guerra comercial, elimina ameaças econômicas imediatas e permite que Pequim se concentre em suas fragilidades internas.
Ao final de uma reunião de alto nível do Partido Comunista na semana passada, Pequim deixou claro o que pretende fazer com esse tempo: intensificar uma estratégia de crescimento de cinco anos focada em grandes investimentos estatais em manufatura e tecnologia.
Fundamentalmente, as concessões de Pequim esta semana são táticas, não estruturais. Qualquer acordo para comprar soja dos EUA seria um retorno ao status quo, não uma reforma fundamental.
Os compromissos refletem uma nova estratégia que Xi elaborou para o Trump 2.0, que envolve fazer concessões calculadas para apaziguar o presidente, mantendo-se firme em questões de interesse central para Pequim.
A trégua não aborda as questões centrais que iniciaram o confronto durante o primeiro mandato de Trump — os enormes subsídios estatais da China, o roubo de propriedade intelectual e a busca estatal pela dominância tecnológica.
A trégua também oferece um simbolismo valioso tanto para Xi quanto para Trump.
Para Trump, isso proporciona uma plataforma para o presidente dos EUA projetar sua imagem como um mestre negociador que dialoga com um de seus principais rivais, demonstrando que sua postura firme em relação à China trouxe Pequim de volta às negociações, tudo em seus próprios termos.
Para Xi, a perspectiva de uma visita de Estado a Washington — um prêmio que ele não desfruta desde que Obama o recebeu em 2015 — é uma ferramenta poderosa para reforçar sua imagem no cenário mundial.
Pequim, por sua vez, tem buscado uma visita de Trump. Se isso acontecer, Xi, que em setembro realizou um extravagante desfile militar em Pequim, onde foi cercado pelo presidente russo Vladimir Putin e pelo líder norte-coreano Kim Jong Un, poderá mostrar ao seu povo que até mesmo o presidente americano quer visitar a China.
Num momento de persistente incerteza econômica interna, essa demonstração de força representaria um profundo presente político. Permitiria a Xi Jinping consolidar sua imagem de estadista global, sinalizando ao público chinês e ao mundo que a China superou com sucesso a tempestade da confrontação com os Estados Unidos e forçou Washington a retornar à mesa de negociações.
Alana, a filha de 9 anos de Kelly Binning, queria muito se fantasiar para o Halloween como a rapper Zoey, de “Guerreiras do K-Pop”, o fenômeno global e filme de sucesso da Netflix.
Online, Binning encontrou poucas opções. Ela encomendou uma imitação chinesa na Amazon, para crianças de 12 anos, por US$ 26,79. Mas quando chegou, era tamanho infantil.
Frenética, ela vasculhou lojas de varejo até encontrar a última fantasia de Zoey disponível, bem a tempo para a primeira festa da temporada. “Nós amamos o Halloween e normalmente planejamos com muitos meses de antecedência”, disse Binning, uma professora de Pittsburgh. “No final, minha filha fica feliz, mas eu gastei o dobro do dinheiro e tive muito estresse com essa fantasia.”
Chame-as de Caçadoras de Fantasias de KPop. Em toda a América do Norte, os pais estão se esforçando para encontrar opções para vestir seus filhos como os cantores matadores de demônios do Huntr/x e seus rivais, os Saja Boys.
O que está disponível online geralmente está esgotado, é de baixa qualidade ou de fornecedores duvidosos, e os prazos de entrega anunciados podem chegar a semanas. Produtos oficialmente licenciados são caros demais para muitas famílias — a Netflix vende a jaqueta amarela característica usada pela protagonista Rumi, com voz de sereia, por US$ 89,95, e isso sem contar o custo de seu short azul com zíper, botas de combate e trança roxa até a cintura.
Alguns pais estão usando máquinas de costura e cola quente que não usam há anos. Outros estão em pânico mesmo.
“Estou realmente fora do meu elemento aqui, especialmente em termos de tecidos”, disse Kayla Hu, microbiologista de London, Ontário, que passou grande parte de sua licença-maternidade criando botões dourados de argila e adicionando estrutura às ombreiras da fantasia de sua filha. “A cola não gruda. Estou fazendo papel machê há semanas.”
Quando a Netflix assinou um acordo em 2021 para transmitir todos os filmes da Sony nos EUA após seus lançamentos nos cinemas e financiar uma série de títulos diretamente para streaming, “KPop Demon Hunters” foi uma ideia secundária.
Sucesso da Netflix
O CEO da Netflix, Dan Lin, disse que acreditava que seria um sucesso de nicho, popular principalmente entre fãs de anime e amantes do gênero musical coreano conhecido como K-pop. Em vez disso, tornou-se o filme mais popular de todos os tempos na Netflix após seu lançamento em junho e, em seguida, liderou as bilheterias ao chegar aos cinemas em agosto.
A popularidade surpreendeu a Netflix, que teve que se esforçar para criar uma seleção mínima de produtos de consumo, incluindo fantasias de Halloween, em apenas alguns meses.
A loja online oficial da Netflix rapidamente começou a oferecer trajes “KPop” limitados, mas principalmente a preços premium. Fantasias apenas para as protagonistas femininas chegaram às prateleiras da loja Spirit Halloween no final de setembro.
Em uma sexta-feira recente, na Spirit em Glendale, Califórnia, as prateleiras estavam lotadas de fantasias de bruxas, fantasmas e vampiros, além de fantasias de “Minecraft”, “Homem-Aranha” e até mesmo de “Round 4”, da Netflix. A seção “KPop” estava vazia, exceto por algumas tranças roxas de Rumi e um chapéu bucket da Huntr/x.
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“Tivemos duas remessas até agora e tudo foi vendido no mesmo dia”, disse um balconista. “Tenho dito aos pais para procurarem na Amazon.”
Como acontece com a maioria dos grandes filmes infantis, o dono da propriedade intelectual assina centenas de contratos de licenciamento com bastante antecedência com fabricantes de brinquedos, empresas de alimentos embalados, redes de fast-food, fabricantes de roupas e, sim, fabricantes de fantasias de Halloween.
Isso não aconteceu com Kpop. A equipe de produtos de consumo da Netflix apresentou o filme em feiras de licenciamento mais de um ano antes de seu lançamento, mas as empresas de vestuário não estavam ansiosas para investir em uma franquia de animação original e não testada, disse Marian Lee, diretora de marketing da Netflix.
“Quando lançamos um filme novo como este, sempre que é novinho em folha, é preciso um pouco mais de esforço para deixar os varejistas animados”, disse Lee.
Depois que o filme estourou e a Netflix correu para tentar recuperar o atraso, as pessoas recorreram ao grupo de mães de Lee no Facebook para reclamar que era impossível encontrar fantasias e produtos. “Recebi muitos comentários do tipo: ‘Alguém no marketing da Netflix realmente estragou tudo!’”, disse Lee.
Quem fabrica as fantasias
Fantasias de Halloween tendem a exigir costuras elaboradas e uma variedade de materiais, então a capacidade costuma ser reservada com até dois anos de antecedência.
A expansão para um sucesso como “KPop” leva mais tempo. Mas o que a Netflix lançou foi vendido imediatamente.
“A Netflix precisa escolher suas apostas, e este é um negócio instável”, disse Allen Adamson, cofundador da empresa de marketing Metaforce. Adamson trabalhou para a Sony, mas não trabalhou neste título. “É realmente doloroso quando você finalmente captura um raio na garrafa, mas não consegue aproveitá-lo totalmente.”
Janice Gomez e o marido são artistas de Los Angeles e começaram a criar bastões de luz Huntr/x com plexiglass e tubos de PVC, usando moldes cortados a laser com a ajuda de um amigo.
Eles venderam dezenas de bastões, que apresentam o logotipo da Huntr/x, por US$ 25 a US$ 40 cada. “Na escola, há pais que dizem: ‘Avisem-nos quando vocês puderem fazer mais’”, disse Gomez.
Candace Birger começou a projetar versões impressas em 3D da arma brilhante conhecida como gok-do, um armamento coreano que lembra uma machadinha medieval com uma lâmina em forma de lua, inspirado naquele que a cantora Mira, do Huntr/x, usa para matar demônios. Cada um custava US$ 750.
Birger, dona da Plexi Cosplay, uma empresa de design de adereços em Maryland, teve que remover o anúncio após o aumento da demanda. “Fiquei impressionado com a rapidez com que os pedidos chegaram”, disse Birger.
AnnaMaria Gallozzi e o marido queriam ter o segundo filho no ano passado. Como Gallozzi tem câncer de mama avançado, o casal procurou uma barriga de aluguel que pudesse gerar o bebê.
Eles usaram um financiamento coletivo e fizeram outra hipoteca da casa para juntar US$ 100.000 para pagar o procedimento, reservando US$ 55.000 no que acreditavam ser uma conta caução segura. Então, começaram o delicado processo de transferência de um embrião para a mulher que, com sorte, geraria e daria à luz o bebê.
Dois meses depois, antes que o procedimento fosse bem-sucedido, o dinheiro desapareceu. “Meu coração quase parou”, disse Gallozzi, que mora em Austin, Texas, sobre o momento em que soube que a conta havia sido esvaziada. Suas esperanças de aumentar a família pareceram desaparecer com o dinheiro.
Assim como milhares de outros casais americanos que navegaram pelo processo complexo e desregulamentado da barriga de aluguel, Gallozzi e o marido colocaram esses fundos em custódia. Eles usaram uma empresa especializada em um componente obscuro, mas vital do negócio: administrar as grandes somas de dinheiro dos pais para pagar as barrigas de aluguel.
No caso de Gallozzi, ela e o marido contraram a Surrogacy Escrow Account Management (SEAM), uma das poucas empresas que surgiram para cumprir essa função administrativa no crescente negócio da barriga de aluguel, facilitando as despesas médicas e taxas pagas durante o processo.
Mas, em vez de pagar essas contas, a dona da SEAM usou o dinheiro — até US$ 16 milhões — para financiar um estúdio de gravação, a carreira no rap e uma marca vegana de roupas de luxo. As alegações estão em uma ação civil movida por vários pais contra Dominique Side, dona da SEAM, e a empresa.
A crise deixou Gallozzi e centenas de famílias nos EUA, e as barrigas de aluguel que elas contrataram, em um limbo financeiro em um dos momentos mais vulneráveis de suas vidas.
A SEAM não foi um caso isolado no setor de barrigas de aluguel. Empresas de custódia, utilizadas na maioria das barrigas de aluguel, conseguem lidar com milhões de dólares de clientes com pouca supervisão, de acordo com uma análise do The Wall Street Journal de autos e entrevistas com pais e barrigas de aluguel.
Em um caso no início deste ano, a proprietária de uma empresa de barrigas de aluguel se declarou culpada de fraude eletrônica depois que promotores disseram que ela usou o dinheiro da custódia de clientes para financiar um negócio de ioga e câmara de flutuação, além de outras despesas pessoais.
Um funcionário de outra empresa roubou US$ 2,7 milhões para alimentar o vício em jogos de azar online. Outro usou os fundos dos pais para comprar bitcoin.
Falta de regulamentação para barrigas de aluguel
A falta de regulamentação significa que pais e barrigas de aluguel frequentemente têm poucos recursos legais e poucas esperanças de recuperar os fundos perdidos.
Barrigas de aluguel já grávidas precisam continuar com o trabalho de parto pelo qual sabem que podem não ser pagas, além de potencialmente arcar com contas médicas que podem não ter condições de pagar.
Os pais enfrentam a perspectiva de litígios complicados com barrigas de aluguel não remuneradas. Um casal cujos fundos para barrigas de aluguel desapareceram devido a fraude antes que eles conseguissem transferir um embrião com sucesso disse que perdeu a esperança de engravidar.
“Lidar com o dinheiro de outras pessoas é algo regulamentado”, disse Andrew Bluebond, advogado no Texas que ajudou Gallozzi a investigar o que aconteceu na SEAM.
“Em vez de usar as salvaguardas que outros setores usam, eles deixaram que sua confiança os traísse”, disse ele.
O Departamento de Justiça está investigando a SEAM, de acordo com pessoas familiarizadas com o assunto. E o FBI publicou um questionário online buscando informações de potenciais vítimas da empresa. Clientes da SEAM entraram com duas ações civis contra a empresa e a Side.
Um advogado da Side não respondeu aos pedidos de comentário.
Gallozzi com o filho: empresas de custódia, utilizadas na maioria das barrigas de aluguel nos EUA, podem lidar com o dinheiro de clientes sem supervisão – Foto: The Wall Street Journal
Poucas regulamentações
A barriga de aluguel explodiu e se tornou uma indústria multibilionária nos EUA, impulsionada pelo aumento das taxas de infertilidade, pela expansão da cobertura de seguros, pelo crescente número de famílias LGBTQIA+ e pelo influxo de casais de países onde a prática é ilegal, incluindo a China.
Na semana passada, o presidente Trump anunciou um acordo com o objetivo de reduzir o preço dos medicamentos usados na fertilização in vitro.
Em 2023, ocorreram cerca de 10.850 transferências de embriões para barrigas de aluguel nos EUA, envolvendo clínicas que se reportam à Sociedade de Tecnologia de Reprodução Assistida (SRO), que afirma representar clínicas que realizam cerca de 95% de todos os procedimentos.
Esse número foi superior aos 8.461 registrados em 2021. Os dados do grupo e outras análises preveem uma taxa de crescimento anual de cerca de 15% nos próximos anos. Cerca de metade dessas transferências de embriões resultou em partos bem-sucedidos.
Apesar do crescimento, não há leis federais que regulem os aspectos financeiros ou outros da gestação por substituição, e a prática está sujeita a uma série de regulamentações estaduais.
Na Louisiana, por exemplo, a remuneração de barrigas de aluguel é totalmente proibida. Em alguns outros estados, os contratos que frequentemente acompanham os acordos de barriga de aluguel são legalmente inexequíveis.
Quanto custa a barriga de aluguel nos EUA
O custo de um parto por substituição — incluindo taxas para as agências que os organizam, pagamentos às barrigas de aluguel e contas médicas — frequentemente ultrapassa US$ 150.000, de acordo com Eran Amir, fundador da plataforma online de mercado de fertilidade GoStork.
Nas empresas mais caras, o custo pode chegar a US$ 500.000, incluindo serviços de concierge, como um assistente executivo para ajudar a gerenciar o processo.
As próprias barrigas de aluguel podem receber mais de US$ 100.000 por levar uma gravidez adiante, mas a maioria das barrigas de aluguel pela primeira vez recebe cerca de US$ 50.000.
Elas também recebem fundos adicionais para cobrir despesas médicas e itens como roupas de maternidade, seguro e indenização por perda de salários.
Após a assinatura do contrato com a barriga de aluguel, os pais normalmente entregam dinheiro para cobrir os custos da transferência do embrião, gravidez e parto, e outras despesas, a um agente de custódia.
O agente, por sua vez, protege os fundos e os distribui para pagar despesas e indenizações conforme elas surgem. Empresas de custódia que trabalham com múltiplas barrigas de aluguel podem acumular milhões de dólares simultaneamente.
Algumas agências de barriga de aluguel oferecem seus próprios serviços de custódia, enquanto outras recomendam serviços terceirizados, como a SEAM.
Pais que conversaram com o WSJ disseram que presumiam que os serviços de custódia funcionavam como bancos e eram isentos de riscos. No caso da SEAM, o site da empresa descreveu a oferta de contas bancárias, com auditorias mensais.
As contas de custódia visam ser acordos seguros e estáveis com terceiros para mediar pagamentos entre duas partes.
Em muitas transações, como a compra de uma casa, o pagamento de uma custódia é relativamente simples e envolve alguns desembolsos grandes que ocorrem rapidamente, com termos definidos em contratos imobiliários padronizados. Escritórios de advocacia e corretores imobiliários costumam lidar com esses pagamentos de custódia.
Na barriga de aluguel, o processo de custódia é mais complexo. Os provedores de custódia garantem que cada pagamento esteja em conformidade com os termos do contrato, desembolsando dinheiro para clínicas de fertilização in vitro, a barriga de aluguel, seguradoras e hospitais por nove meses ou mais. Embora os detentores de custódia tenham uma responsabilidade fiduciária para com seus clientes, os negócios de nicho não são regulamentados.
Em vários casos, incluindo o da SEAM, as empresas de custódia de barriga de aluguel misturaram os fundos dos clientes ou os misturaram com as contas operacionais do próprio negócio, de acordo com registros bancários citados em processos judiciais.
Isso foi um choque para Roman Belyayev, corretor imobiliário cuja esposa, Marina Vasilyeva, estava grávida de um casal francês cujo dinheiro que estava na SEAM desapareceu. “Uma das primeiras coisas que se aprende como corretor imobiliário é não misturar fundos”, disse Belyayev.
No mês passado, a Ethics in Egg Donation and Surrogacy (Sociedade para Ética em Doação de Óvulos e Barriga de Aluguel), uma organização sem fins lucrativos que funciona como uma espécie de grupo de melhores práticas do setor em vez de regulamentação, aprovou novas diretrizes para contas de custódia, embora elas não tenham força vinculativa.
As sugestões recomendam que os provedores de contas de custódia tenham credenciais relevantes, estejam sujeitos a auditorias por contadores certificados e tenham mais de US$ 10 milhões em cobertura de títulos.
Uma série de casos nos últimos meses destaca a natureza selvagem do setor.
Em maio, a proprietária de uma agência de barriga de aluguel, Lillian Markowitz, foi condenada a dois anos de prisão após se declarar culpada de fraude.
Os promotores disseram que ela desviou mais de US$ 150.000 de clientes entre 2019 e 2021 para cobrir outras despesas comerciais e pessoais, incluindo para seu negócio paralelo, um estúdio de ioga com câmaras de flutuação.
Em agosto, Darryl Kauffman foi condenado a três anos de prisão após se declarar culpado de seis acusações de fraude eletrônica decorrentes de seu negócio de custódia de barriga de aluguel. Os promotores o acusaram de roubar dinheiro de clientes para suas despesas comerciais e pessoais, incluindo para comprar bitcoin.
No mês passado, Destiny Combs foi condenada a mais de quatro anos de prisão após se declarar culpada de fraude eletrônica. Os promotores disseram que ela desviou US$ 2,7 milhões da IARC Surrogacy, uma agência de barriga de aluguel com sede em Minnesota, e de um escritório de advocacia relacionado, onde trabalhava como gerente de contabilidade. Combs usou os fundos para pagar suas dívidas de jogos de azar online.
Steven Snyder, que era dono da IARC na época do roubo, disse que “todos foram 100% ressarcidos” por meio de uma fiança de roubo de funcionário e US$ 1,6 milhão de seus próprios bens.
Em agosto, um casal entrou com uma ação civil em Los Angeles contra o International Reproductive Law Group, com sede em West Hollywood, alegando má conduta financeira após perder o acesso a cerca de US$ 61.000 em fundos de custódia. O casal foi informado em maio que o proprietário Eliseo Arebalos desenvolveu sérios problemas de saúde que afetaram as operações da empresa.
O casal passou semanas tentando, sem sucesso, reaver o saldo antes de perceber, em agosto, que o marido de Arebalos havia postado fotos do casal viajando para Puerto Vallarta no Instagram. O processo alega que Arebalos desviou os fundos para benefício próprio.
Vários clientes da IRLG não conseguem acessar cerca de US$ 380.000 entre eles, de acordo com um dos casais que mantinham custódia no escritório.
Arebalos negou que quaisquer fundos de custódia de clientes tenham sido usados na viagem. Ele afirmou que não era verdade que o dinheiro mantido em custódia no IRLG tivesse sido desviado e que o escritório responderia ao processo em breve.
Side, descrita no site da SEAM como “a chefona”, disse que ela própria era barriga de aluguel antes de comprar a empresa em 2015.
As contas de Side nas redes sociais a descreviam como uma “empreendedora em série” e promoviam seu envolvimento em um estúdio de produção musical e de vídeo, uma empresa de mídia chamada “The Luxury Vegan” e uma carreira paralela na música como um rapper obsceno chamado Dom.
O site da SEAM dizia que, quando Side não estava trabalhando, ela podia ser encontrada “viajando pelo mundo ou relaxando em um spa, de preferência ao mesmo tempo”.
A empresa cresceu ao longo dos anos e se tornou uma das maiores do setor de barriga de aluguel dos EUA, com mais de 1.000 clientes e seis funcionários.
Side foi tratada como uma empreendedora líder no ramo: em maio de 2024, ela participou de um painel intitulado “Challenges in Escrow Management: Nightmare Cases” (algo como “Desafios na Gestão de Custódia: Casos de Pesadelo”).
Nos bastidores, no entanto, ela parecia estar com sérios problemas financeiros, de acordo com documentos legais, correspondências e mensagens de texto analisados pelo WSJ.
Em 2022, um tribunal do condado de Harris decidiu que a SEAM devia US$ 15.000 em impostos prediais não pagos. Em março de 2024, um advogado de Nova York que representava uma agência de cobrança contatou uma família que trabalhava com a SEAM, alegando que Side devia US$ 69.500 a um credor com juros altos e estava tentando recuperá-los. A carta explicava que o credor acreditava que a família devia dinheiro à SEAM ou retinha o dinheiro, quando na verdade era o contrário.
Em uma mensagem de texto em abril, posteriormente compartilhada nas redes sociais pelo destinatário, Side reclamou que estava enfrentando uma crise financeira. “O que eu precisaria para ficar completamente cheia de SEAM (para me livrar de problemas para sempre) são US$ 15 milhões”, escreveu ela a um funcionário que a estava ajudando a conseguir mais empréstimos com juros altos, alguns com taxas anualizadas próximas a 200%.
Em maio, a SEAM começou a atrasar o pagamento de faturas de coisas como contas médicas de substitutos e indenizações por repouso na cama que os impediam de trabalhar, de acordo com alguns substitutos. Os credores com juros altos dos quais Side havia tomado empréstimos começaram a entrar com ações judiciais contra a Side e a SEAM por atrasos nos pagamentos de quase US$ 1,2 milhão em dívidas.
No início de junho, os clientes receberam um e-mail da SEAM pedindo desculpas pelos atrasos e informando que uma conta que a empresa estava usando no banco Capital One havia sido congelada por “cobranças fraudulentas de ACH”. Pais e mães de aluguel em pânico criaram um grupo no Facebook para compartilhar informações. AnaMaria Gallozzi tornou-se administradora do grupo.
Algumas semanas depois, Dominique Side começou a responder às famílias que perguntavam sobre suas contas com um e-mail dizendo: “Minha empresa e eu fomos notificados de que estamos sob investigação por autoridades federais. Sob orientação jurídica, não estou autorizada a responder a quaisquer perguntas relacionadas à investigação.”
No Colorado, Kelly O’Dell estava na festa de 75 anos da sogra quando leu o e-mail mencionando a investigação em seu celular.
“A adrenalina subiu e comecei a tremer”, disse O’Dell, de 37 anos. Ela se refugiou em um quarto de hóspedes, longe da família, desabou na cama e teve um ataque de pânico.
Sua barriga de aluguel estava grávida de 22 semanas e esperava mais cinco meses de pensão, para a qual O’Dell e o marido haviam reservado US$ 47.000 na SEAM. “Eu sabia que tinha acabado. E não tínhamos outros US$ 50.000 guardados em algum lugar quando já pagamos essa quantia enorme para ter essa criança”, disse ela.
Gallozzi compartilhou uma planilha para que os membros do grupo do Facebook relatassem quanto haviam investido nas contas da SEAM. O’Dell, Gallozzi e outros pais assistiram horrorizados enquanto a conta se aproximava de US$ 16 milhões em apenas quatro dias, disse Gallozzi.
Na Pensilvânia, Vasilyeva, a barriga de aluguel, estava preocupada. Ela estava grávida de um filho do casal francês e os pagamentos haviam parado. Ela temia que seu contrato internacional deixasse poucos recursos caso os pais decidissem não pagar — ou mesmo não buscar a criança após o nascimento.
Ela e o marido se solidarizaram com os futuros pais, que estavam lidando com a perda repentina de dezenas de milhares de dólares. Mas também queriam segurança e a garantia de que seriam compensados por meses de trabalho de parto difícil e não teriam que se endividar enquanto isso para cobrir despesas médicas.
“Esta é uma jornada emocional, um tanto espiritual, mas também envolve uma montanha de dinheiro”, disse Belyayev, seu marido. “É muito difícil separar os dois e ter uma discussão sem que isso afete o outro lado da discussão.”
O’Dell e outros pais iniciaram negociações delicadas com suas barrigas de aluguel sobre o que fazer agora que não tinham mais acesso aos fundos.
Melissa Brisman, advogada de Vasilyeva e outros clientes da SEAM, disse que ela e outros advogados especializados em barrigas de aluguel trabalharam horas pro bono, ajudando clientes a alterar os termos de seus contratos. “Foi uma bagunça”, disse Brisman.
Mas ela se sentiu pior pelas famílias que ainda não tinham uma barriga de aluguel grávida. “Qualquer coisa que envolva apenas dinheiro pode ser resolvida”, disse ela.
Festa em um iate
No grupo do SEAM no Facebook, pais frustrados começaram a analisar as contas de Side nas redes sociais. Eles viram o que consideraram demonstrações ostensivas de riqueza, incluindo viagens a Londres, França e República Dominicana, e cenas de Side festejando em um iate no Caribe.
Outros projetos de Side também causaram impacto: um vídeo no Instagram mostrava Side jogando notas falsas em uma dançarina seminua em uma sala com iluminação escura.
Cerca de três dúzias de famílias entraram com um processo contra a SEAM no tribunal estadual do Texas em 2024, alegando quebras de contrato e fraude, e buscando recuperar os mais de US$ 1,7 milhão que tinham depositados na SEAM.
O processo começou a juntar as peças do que supostamente aconteceu, alegando que Side transferiu US$ 4,9 milhões das contas da SEAM para um estúdio de gravação que ela cofundou.
Mais de US$ 1 milhão teria sido usado para comprar imóveis em Houston e Nova Orleans. Outros US$ 275.000 foram para a linha de moda vegana Nikki Green, da qual ela cofundou; seu site oferecia itens como um cinto de couro vegano de US$ 600.
Side nunca compareceu ao tribunal. Em julho, um juiz de Houston decidiu que ela devia a algumas das famílias um total de mais de US$ 1 milhão em indenização.
A investigação criminal contra Side está em andamento e ela não foi indiciada.
Alguns pais que perderam dinheiro disseram que ficaram indignados ao vê-la de volta às redes sociais neste verão, ministrando aulas de culinária vegana para crianças em um acampamento de verão em Nova Orleans.
“Ela está vivendo a vida como se nada tivesse acontecido, e isso é irritante”, disse Gallozzi.
Hipotecas e empréstimos
O’Dell e o marido venderam parte de seus investimentos em aposentadoria para continuar pagando a barriga de aluguel, Maranda Jensen, que deu à luz ao filho em outubro de 2024.
Fora de St. Louis, Amy e Tyler Holdener recorreram à barriga de aluguel após darem à luz há alguns anos, o que quase matou Amy e a deixou incapaz de ter mais filhos.
Uma primeira tentativa com uma barriga de aluguel resultou em um aborto espontâneo. Tyler, que trabalha com finanças em uma empresa de tecnologia, presumiu que a conta caução da SEAM era um lugar seguro para guardar cerca de US$ 32.000 antes de tentarem novamente. Depois que o dinheiro foi perdido, eles não tinham “nada para mostrar”, disse Amy. “Foi devastador.”
Ouviram falar de outras famílias que estavam fazendo segundas hipotecas ou tomando empréstimos com garantia de aposentadoria para continuar financiando barrigas de aluguel. Disseram que não tinham justificativa para assumir esse risco, então desistiram da ideia de ter outro filho por enquanto.
Para Gallozzi, o fracasso da SEAM deixou um enorme rombo nas contas bancárias de sua família. A barriga de aluguel com quem ela havia contratado inicialmente, exausta pelo desastre da SEAM, sentiu que não podia mais assumir o risco envolvido.
Mas Gallozzi tornou-se amiga íntima de outra barriga de aluguel da SEAM, Haley Rexroat, por meio do grupo do Facebook. Rexroat estava grávida de outro casal quando soube das perdas da SEAM e deu à luz em dezembro.
Ela concordou em ser a próxima a carregar o filho de Gallozzi.
Gallozzi e o marido criaram uma “vaquinha” na plataforma GoFundMe para repor os US$ 49.000 que perderam na SEAM para pagar Rexroat e os procedimentos. Eles arrecadaram cerca de US$ 16.000, fizeram empréstimos e cortaram gastos em outras áreas para se manterem à tona.
Uma transferência de embrião para a Rexroat terminou em aborto espontâneo no mês passado, a um custo de US$ 13.000. Gallozzi tem um último embrião. Dada a pressão financeira e emocional, ela não tem certeza se algum dia o transferirá para uma barriga de aluguel. “O estresse que isso nos causou foi tremendo”, disse ela. “Vale a pena?”
O governo Trump está pressionando as autoridades argentinas a limitar a influência da China sobre o país , que vem enfrentando dificuldades.
Ao mesmo tempo, bancos americanos e até Wall Street trabalham em uma linha de resgate de US$ 40 bilhões para a Argentina.
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, conversou nas últimas semanas com Luis Caputo, ministro da Economia da Argentina, sobre restringir o acesso da China aos recursos do país, incluindo minerais críticos – como o lítio, o elemento essencial para as baterias de carros elétricos e celulares.
Além disso, eles discutiram a possibilidade de conceder aos EUA maior acesso ao suprimento de urânio da Argentina, de acordo com pessoas com conhecimento sobre as negociações.
As autoridades do governo dos EUA estão tentando conter a influência de Pequim, incentivando os líderes argentinos a fechar acordos com empresas americanas para impulsionar projetos de infraestrutura e investimentos em setores-chave, como telecomunicações.
A China é o segundo maior parceiro comercial da Argentina, depois do Brasil, e o principal comprador de suas exportações agrícolas.
“Estabilizar a Argentina é ‘América em Primeiro Lugar’”, disse um porta-voz do Departamento do Tesouro. “Uma Argentina forte e estável ajuda a ancorar um Hemisfério Ocidental próspero, o que é explicitamente do interesse estratégico dos Estados Unidos.”
O porta-voz do Ministério da Fazenda da Argentina não quis comentar. Um porta-voz do presidente argentino, Javier Milei, não respondeu aos pedidos de comentário.
As conversas ocorrem em um momento em que a Argentina recorre cada vez mais aos EUA em busca de ajuda.
O governo de Milei enfrenta obstáculos significativos à sua ambiciosa agenda de reforma econômica e luta contra a inflação galopante.
Após cortar gastos públicos e tomar medidas impopulares para reduzir o déficit orçamentário, o governo Milei agora enfrenta pagamentos crescentes de dívidas no próximo ano e cofres públicos vazios.
As reservas cambiais também estão diminuindo, à medida que os argentinos correm para a segurança do dólar para se proteger contra os riscos de turbulência econômica antes das eleições de meio de mandato de domingo.
Milei construiu laços estreitos com o presidente Trump, que buscou impulsionar a posição política do partido de Milei.
A Argentina iniciou negociações com os EUA após o partido de Milei sofrer um revés nas eleições provinciais de setembro, causando a desvalorização do peso e sinalizando o enfraquecimento do apoio público às reformas pró-mercado de Milei.
Semanas após a eleição, Caputo voou para Washington para se encontrar com Bessent e discutir opções de assistência financeira.
US$ 40 bilhões para a Argentina
Desde então, os dois lados concordaram com um swap cambial de US$ 20 bilhões com o Departamento do Tesouro e uma linha de crédito separada de US$ 20 bilhões liderada por bancos, que ainda não foi estruturada com ativos ou garantias para que os bancos recebam o dinheiro de volta.
Um ponto central das discussões entre Caputo e Bessent tem sido encorajar a Argentina a reprimir a crescente presença da China no país de Milei, disseram as fontes.
Se a China fosse expulsa da Argentina, isso daria aos EUA uma vantagem em meio às crescentes tensões comerciais entre Pequim e Washington.
A China impôs recentemente restrições à exportação de minerais de terras raras, vitais para a indústria eletrônica de consumo e de tecnologia. Trump então ameaçou impor tarifas adicionais de 100% à China a partir de 1º de novembro. Trump e o presidente chinês, Xi Jinping, devem se reunir ainda este mês na Coreia do Sul.
O governo Trump fez da contenção da influência da China na América Latina uma prioridade de segurança nacional e pressionou outros países da região a romperem laços com Pequim.
A China está “atacando os interesses dos EUA de todas as direções” na América Latina, disse o chefe do Comando Sul dos EUA, Almirante Alvin Holsey, ao Congresso em fevereiro.
Desde que Bessent anunciou um acordo com a Argentina no início deste mês, Trump e sua equipe deixaram claro a Milei que esperam que ele limite as relações com a China.
“Você pode até fazer algum comércio, mas certamente não deveria ir além disso. E definitivamente não deveria fazer nada relacionado aos militares com a China. Se isso estiver acontecendo, eu ficaria muito irritado”, disse Trump a Milei, durante uma reunião na Casa Branca na semana passada. Em seguida, virando-se para Bessent, ele perguntou: “Você entende isso, Scott, certo? Você entende mesmo?”.
Foto: Getty Images
Empresas americanas
Funcionários do Tesouro disseram a altos funcionários na Argentina que querem ver as empresas americanas como a principal fonte para o setor de telecomunicações e internet da Argentina, em vez de empresas vinculadas à China, disseram as pessoas.
A China tem uma presença significativa nos mercados de telecomunicações e internet da Argentina.
A gigante local de telecomunicações Telecom Argentina concordou recentemente em receber um empréstimo de US$ 74 milhões do Banco da China. A Huawei, empresa chinesa de tecnologia impedida de realizar negócios nos EUA, também opera uma rede móvel 5G na Argentina.
A China está financiando a construção de uma usina nuclear que operará com tecnologia chinesa. A China, que tem investimentos significativos em projetos de mineração no país sul-americano, busca expandir suas fontes de urânio em meio à crescente demanda por eletricidade.
Segundo a Constituição argentina, as províncias têm minerais, além de petróleo e gás. Isso limita qualquer compromisso do governo de Milei com o governo Trump, a menos que também seja apoiado por governadores provinciais que atuam como barões políticos regionais, dizem analistas.
Em uma entrevista recente à Fox News, Bessent disse que Milei está “comprometido em tirar a China da Argentina”. Bessent escreveu posteriormente nas redes sociais: “Não queremos outro Estado fracassado ou liderado pela China na América Latina”.
A embaixada da China na Argentina criticou os comentários de Bessent. A China classificou as declarações de Bessent como um retrocesso à mentalidade da Guerra Fria que mina a independência latino-americana.
Argentina não vai cortar laços com a China
A Argentina, porém, não parece ansiosa para expulsar a China. Em uma entrevista recente à televisão, Milei negou que seu governo cortaria laços com a China.
Ele disse que o governo Trump não lhe pediu para fazer isso.
“Não, isso não é verdade”, disse Milei em resposta a uma pergunta sobre o abandono das relações da Argentina com a China.
Milei observou que Caputo e o presidente do Banco Central, Santiago Bausili, se encontraram com autoridades chinesas nas reuniões anuais do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial.
Antes de falecer no ano passado, após viver 117 anos e 168 dias, Maria Branyas Morera convidou cientistas para estudá-la. A mulher mais velha do mundo, que faz parte do grupo dos supercentenários, acreditava que seu corpo e sua história de vida tinham segredos a revelar sobre longevidade.
“Ela me disse: ‘Meu único mérito é estar viva'”, nos contou Manel Esteller, chefe de genética da Faculdade de Medicina da Universidade de Barcelona, na Espanha, e autor sênior de um estudo recém-lançado sobre o genoma de Branyas.
Maria Branyas Morera viveu 117 anos e 168 dias – Foto: The Wall Street Journal
Os supercentenários
Supercentenários, um grupo raro de pessoas com mais de 110 anos, são rastreados e suas idades validadas por uma organização internacional sem fins lucrativos conhecida como Grupo de Pesquisa em Gerontologia.
O mundo tem cerca de 200 pessoas no grupo dos supercentenários. A pessoa mais velha entre elas é uma britânica com 116 anos.
Maria Branyas nasceu em São Francisco, mas aos 8 anos mudou-se para a região da Catalunha, na Espanha, onde viveu o resto da vida.
Esteller e seus colegas coletaram amostras de seu cabelo, saliva, urina, fezes e sangue em seus últimos anos e compararam seu genoma com o de centenas de outras mulheres que viviam na mesma região.
O DNA de Maria Branyas mostrou que ela possuía uma rara mistura de variações genéticas associadas à função imunológica e à saúde cardiovascular e cerebral. Isso contribuiu para que ela vivesse cerca de 30 anos a mais do que a média das mulheres catalãs.
Mas o mais notável, disseram os pesquisadores, foi que a idade biológica de Maria Branyas — essencialmente, uma medida da idade de suas células e tecidos — era muito menor do que sua idade cronológica.
Células mais velhas acumulam danos no DNA ao longo do tempo e, quanto maior o dano, menor a probabilidade de as células funcionarem adequadamente. Por exemplo, células mais jovens e saudáveis têm maior probabilidade de suprimir certos tipos de câncer.
“As células dela se comportavam como se fossem 23 anos mais jovens”, disse Esteller. Era uma supercentenária.
Estilo de vida dos supercentenários
As escolhas de estilo de vida podem afetar a idade biológica de uma pessoa. Maria Branyas não fumava nem bebia e seguia uma dieta mediterrânea enriquecida com azeite, iogurte e peixe com o mínimo de açúcar refinado. Ela tinha colesterol muito baixo.
E seu microbioma — a comunidade de bactérias e microrganismos no intestino que ajuda a digerir os alimentos — também era característico de alguém muito mais jovem.
À medida que as pessoas envelhecem, a diversidade de bactérias e a presença de micróbios benéficos diminuem. “Essas bactérias forneceram uma característica anti-inflamatória”, disse Esteller. “E sabemos que, se você tem inflamação crônica, envelhece muito rápido.”
Análises como esta, disseram os autores do estudo, podem ajudar a orientar empresas que buscam desenvolver terapias antienvelhecimento que possam atingir genes.
“Mas um estudo com um supercentenário significa que as conclusões dessa pesquisa são menos poderosas do que aquelas que poderiam vir de um estudo populacional”, disse Austin Argentieri, pesquisador do Hospital Geral de Massachusetts que conduz estudos em larga escala sobre o envelhecimento humano e não esteve envolvido no estudo.
“Algumas dessas descobertas podem ser peculiaridades específicas de Branyas”, disse Argentieri.
Havia claramente algo notável nessa mulher, de acordo com o coautor do estudo, Bernardo Lemos, codiretor do Centro Coit de Longevidade e Neuroterapia da Universidade do Arizona.
Os dois filhos sobreviventes de Branyas são mulheres na faixa dos 80 e 90 anos. Seu terceiro filho morreu em um acidente aos 80 anos. “Os filhos dela são mais velhos do que a maioria das pessoas”, disse Lemos. “Só isso já nos diz alguma coisa.”
A Kering está em negociações para vender sua área de beleza para a L’Oréal em um acordo que avalia a unidade em US$ 4 bilhões, segundo pessoas familiarizadas com o assunto — um passo inicial do novo presidente-executivo da controladora da Gucci para reverter a situação do conglomerado de luxo. A Kering também controla as grifes Balenciaga e Pomellato, entre outras.
O acordo pode ser anunciado já na próxima semana, desde que as conversas não desandem de forma inesperada nem surja outro interessado, disseram as pessoas. O avanço ocorre poucas semanas depois de Luca de Meo assumir o comando como novo CEO da Kering.
A L’Oréal, com sede em Paris, oferece uma gama de produtos de beleza, incluindo sob sua marca homônima, Garnier e Maybelline New York. Seus produtos são vendidos tanto para consumidores quanto para profissionais. Ao adquirir a área de beleza da Kering, a L’Oréal agregaria a fabricante de fragrâncias Creed ao seu portfólio.
Um acordo também daria à L’Oréal a oportunidade de desenvolver novas ofertas em torno das marcas de moda da Kering, que também incluem Saint-Laurent, Bottega Veneta e McQueen, disseram as pessoas familiarizadas com o assunto.
O contexto
Também sediada na França, a Kering lançou uma nova divisão de beleza em 2023. A iniciativa buscava aproveitar o crescimento de cosméticos e perfumes produzindo os itens internamente, sob as marcas controladas, em vez de licenciá-la para terceiros nessa categoria.
A empresa se moveu rapidamente para escalar o negócio de beleza, fechando um acordo integralmente em dinheiro para adquirir a marca de fragrâncias Creed no verão de 2023.
Mas o esforço da Kering em beleza esbarrou em dificuldades em outras partes da companhia. A Gucci — sua maior marca em receita — sofreu com a desaceleração das vendas na China. Enquanto isso, a Saint Laurent foi pressionada por um negócio de atacado menor e por um mercado mais difícil nos Estados Unidos.
Uma venda poderia ajudar a Kering a reduzir seu endividamento, que somava US$ 11 bilhões em 30 de junho.
A Kering compete com a LVMH, de Bernard Arnault, a Hermès e outras potências europeias da moda.
Ao escolher de Meo como CEO, a Kering aposta que o tempo do executivo na indústria automotiva lhe deu as competências e a perspectiva renovada necessárias para reanimar o conglomerado. Mais recentemente, ele foi o chefe da Renault.
Ao longo de mais de três décadas no setor automotivo, de Meo ganhou reputação como construtor de marcas e marketeiro. Ele ajudou a transformar o Fiat 500 moderno em um ícone cultural, criou a linha esportiva Cupra da Seat e reposicionou a Renault ao enxugar sua linha de modelos e aumentar a rentabilidade em híbridos e veículos elétricos.
De Meo sucedeu François-Henri Pinault, cuja família fundou a Kering. Pinault manteve o cargo de presidente do conselho.
É fácil identificar adeptos do estilista Thom Browne: as roupas que ele desenha geralmente trazem uma fita azul, branca e vermelha.
Agora, algum superfã de Browne terá a chance de expor sua admiraçãona pele, literalmente. Ele é um dos vários artistas que estão leiloando designs exclusivos para tatuagens em um leilão chamada Inked: Tattoos by Contemporary Artists (algo como ‘Tinta na pele: Tatuagens de Artistas Contemporâneos’), realizada pela Joopiter, a casa de leilões digital fundada pelo músico e designer Pharrell Williams.
Logo da Thom Browne. Foto: Divulgação/Joopiter
Como comprar a tatuagem no leilão
Entre os dias 22 e 31 de outubro, os interessados participam do leilão e disputam desenhos de 16 artistas.
Tecnicamente, eles comprarão um certificado do desenho de uma tatuagem encomendada especificamente para o leilão, com a expectativa de que a tatuagem seja feita após a venda e, em alguns casos, em partes do corpo sugeridas pelo artista original. Cada lote tem um valor estimado de US$ 10 mil a US$ 15 mil (entre R$ 55 mil e R$ 80 mil).
Muitos tatuadores leiloaram seu tempo e habilidades para arrecadar fundos para causas, mas raramente essa prática de rua colidiu tão diretamente com o mundo das artes. “O mundo não separa mais a cultura”, disse Williams. “Arte, moda, música, design e até o próprio corpo: todos vivem nessa conversa.”
“Os orçamentos foram elaborados para serem acessíveis”, disse a curadora Sharon Coplan, que procurou a Joopiter com a ideia do projeto. Isso significava precificar cada lote de forma idêntica, em vez de usar trabalhos anteriores como guia.
Afinal, colecionadores de arte podem acumular obras de seus artistas favoritos, e fãs de moda podem comprar e usar roupas feitas por seus designers favoritos. Mas a arte corporal é “uma espécie de plataforma inexplorada para artistas”, disse Coplan. “Ela realmente não foi explorada.”
Pelo preço certo, o licitante vencedor receberá um certificado de autenticidade assinado pelo artista, juntamente com o design e as instruções para sua aplicação.
No caso de Browne, isso significa que o vencedor receberá seu design (o carimbo vermelho, branco e azul, assinatura da marca), juntamente com dimensões específicas (23 mm de largura por 25 mm de altura) e códigos de cores Pantone (Vermelho Verdadeiro, Branco Estrela e Eclipse Total) para entregar ao seu tatuador.
Browne, conhecido por sua abordagem rigorosa, sugere o local (“abaixo da base da nuca”). “Foi tão específico porque é algo que eu faço com todas as minhas coleções”, disse Browne.
Outras figuras em destaque ali incluem os artistas contemporâneos Derrick Adams e Jeffrey Gibson, o arquiteto Peter Marino, o tatuador Dr. Woo e a estilista Gabriela Hearst. A maioria dos artistas doará parte da renda do leilão para uma instituição de caridade de sua escolha.
Tatuagem como ofício
Existem alguns casos de artistas plásticos que tratam o design de tatuagem como um meio “oficial”. Ao longo de suas vidas, artistas como Ellsworth Kelly, Lawrence Weiner e Félix González-Torres criaram obras de arte destinadas a assumir a forma de tatuagens.
Nesse sentido, disse Coplan, a tatuagem pode ser considerada análoga à gravura: os artistas criam um design, que pode ser produzido quantas vezes eles especificarem. Cada peça da série é uma edição única.
Todo esse processo começou quando Coplan abordou o espólio de Lawrence Weiner sobre a possibilidade de relançar seu design. Usou isso como ponto de partida para discussões com diversos artistas e figuras culturais. Então, se concentrou especialmente em “artistas que deixam marcas incríveis”.
Nem todos os participantes do leilão tinham alguma relação com as tatuagens. Muitos dos companheiros de equipe de Thom Browne na Universidade de Notre Dame fizeram tatuagens de trevo, mas ele desistiu e não fez mais nenhuma desde então. “Simplesmente nunca foi minha praia”, disse. Mas gostou da ideia de fazer uma tatuagem para outra pessoa usar.
A artista visual Marilyn Minter se mostrou muito entusiasmada com a oportunidade de arrecadar dinheiro para uma instituição de caridade. “Basicamente, faço tudo o que posso que seja conveniente e valioso para arrecadar dinheiro para a Planned Parenthood”, disse ela.
E escolher seu desenho — um close colorido de uma boca, um tema recorrente em seu trabalho — foi fácil. “Eu já tinha a boca, porque fotografei Mickalene Thomas, e ela tem uma boca incrível”, disse ela. “Então, simplesmente a transformamos em uma tatuagem.” (Thomas também tem um desenho — uma silhueta nua — no leilão.)
Cópias
Existem algumas peculiaridades em leiloar tatuagens. Nada impede que um fã de Thom Browne que perca a tatuagem do designer em um leilão vá até o estúdio local e tatue a mesma peça no pescoço, por exemplo. Para Caitlin Donovan, chefe global de vendas da Joopiter, esse seria o resultado ideal. “Espero que as pessoas copiem essas tatuagens”, disse ela.
O proprietário poderia vender o certificado de tatuagem. Mas, como observou Minter, cada tatuagem tem um prazo de validade. “Depois que você morre, você morre. E tudo acaba”, disse ela. “Você não pode revender.”
Em seu impasse comercial com Washington, a China acredita ter encontrado o calcanhar de Aquiles dos Estados Unidos: a fixação do presidente Donald Trump pelo mercado de ações.
O líder chinês, Xi Jinping, aposta que a economia dos EUA não conseguirá absorver um conflito comercial prolongado com a segunda maior economia do mundo, segundo pessoas próximas ao núcleo duro de Pequim.
A China mantém uma linha firme devido à sua convicção, disseram as fontes, de que uma guerra comercial crescente afundará os mercados, como aconteceu em abril, depois que Trump anunciou suas tarifas do Dia da Libertação, levando Pequim a reagir.
A China espera que a perspectiva de outro colapso do mercado force Trump a negociar em uma cúpula prevista para o final deste mês, disseram as pessoas.
Pequim continuou jogando duro esta semana, intensificando a disputa comercial nesta segunda-feira (13) ao sancionar as unidades americanas da empresa de navegação sul-coreana Hanwha Ocean. A medida abalou os mercados americanos na última terça-feira (14), desencadeando uma forte liquidação no início da semana, com a esperança de alívio das tensões diminuindo, antes que os principais índices se recuperassem parcialmente e se estabilizassem à tarde.
Na semana passada, a China impôs restrições à exportação de minerais de terras raras, vitais para a indústria eletrônica de consumo e a tecnologia. Trump então ameaçou impor tarifas adicionais de 100% ao país asiático a partir de 1º de novembro.
China acusa EUA de “dois pesos e duas medidas”
Ambos os lados têm oscilado entre o discurso duro e a distensão nos últimos dias, mas a retórica tomou um rumo mais duro na terça-feira. O Ministério do Comércio da China acusou os EUA de “dois pesos e duas medidas” em relação às ameaças tarifárias e prometeu que a China “lutaria até o fim” na disputa comercial.
Em sua plataforma Truth Social, Trump disse que os EUA estão considerando “encerrar negócios” com a China sobre óleo de cozinha e outros “elementos de comércio”, devido à recusa da China em comprar soja dos EUA — uma decisão que Pequim disse ser uma retaliação às próprias tarifas de Trump.
O mercado de ações continua sendo um dos poucos controles sobre um presidente que exerceu o poder executivo agressivamente.
Trump frequentemente utiliza o mercado como um barômetro em tempo real de sua gestão econômica. Ele recorreu às redes sociais para alardear recordes de mercado, creditando-os às políticas de seu governo, como desregulamentação e cortes de impostos. Por outro lado, quando o mercado vacilou, especialmente em resposta às suas políticas comerciais agressivas, ele tendeu a recuar ou a aventar a perspectiva de novos acordos.
Enquanto Trump elogia a força da economia americana, as autoridades chinesas veem fraquezas que se agravariam durante uma guerra comercial. Com a desaceleração das contratações, a contração da indústria e a alta dos preços, muitos economistas afirmam que os EUA não estão posicionados para absorver outra grande disputa comercial com a China. A forte reação negativa do mercado na última sexta-feira às novas restrições chinesas ao fornecimento de terras raras e à potencial retaliação dos EUA serviram como um lembrete da vulnerabilidade econômica que Pequim busca explorar.
A economia chinesa está em crise prolongada, pressionada por um mercado imobiliário em colapso, dívidas crescentes e confiança do consumidor em declínio. No entanto, Xi está muito menos sujeito a quedas do mercado, mesmo com a economia chinesa enfrentando uma perspectiva precária.
Em declarações a repórteres na Casa Branca na terça-feira, Trump projetou uma mistura de sua habitual afinidade pessoal declarada com Xi e confronto aberto ao abordar a disputa comercial com a China. Trump enquadrou o conflito por meio de seu relacionamento com o líder chinês, a quem chamava de amigo.
“Tenho um ótimo relacionamento com Xi”, disse Trump, antes de acrescentar rapidamente: “Mas às vezes ele fica irritado”.
Reconhecendo a gravidade das recentes ações chinesas, desde seus novos controles de exportação de terras raras até as últimas sanções relacionadas ao transporte marítimo, Trump disse: “Estamos recebendo muitos golpes”.
Em seguida, ele defendeu sua estratégia econômica contra os temores de uma retração do mercado, retratando os EUA como imunes à pressão. “Somos o país mais bem-sucedido que já tivemos”, disse Trump.
Pequim suavizou seu tom no domingo depois que Trump reagiu furiosamente às restrições às terras raras, mas sua redução pareceu ser uma pausa tática.
Segundo pessoas próximas ao processo decisório de Pequim, a estratégia linha-dura de Xi baseia-se na crença de que Trump acabará cedendo e oferecendo concessões, em vez de recorrer à influência significativa de Washington. Essa confiança foi alimentada, segundo as fontes, pela trégua comercial firmada entre EUA e China em maio. Trump havia imposto tarifas de mais de 100% sobre produtos chineses, mas cedeu depois que Pequim usou sua influência como o maior exportador mundial de ímãs de terras raras.
“É precisamente a crença da China de que Trump irá se dobrar — como ele pareceu fazer com os ímãs no início deste ano — que os levou a uma escalada massiva”, disse Rush Doshi , um acadêmico da Universidade de Georgetown e do Conselho de Relações Exteriores que anteriormente serviu no governo Biden.
O representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, disse à CNBC na terça-feira que altos funcionários em Washington e Pequim mantiveram discussões sobre as últimas tensões comerciais na segunda-feira, dizendo que ambos os lados “serão capazes de resolver isso”.
Pessoas familiarizadas com o assunto disseram que o embaixador dos EUA na China, David Perdue, vem tentando marcar uma ligação telefônica entre o secretário do Tesouro, Scott Bessent , que lidera a equipe de negociação dos EUA, e seu homólogo chinês, o vice-primeiro-ministro He Lifeng .
A atenção agora se volta para a esperada cúpula entre Trump e Xi, quando ambos participarão de uma reunião de líderes da Ásia-Pacífico na Coreia do Sul no final deste mês.
“A reunião será a mensagem. Não haverá grandes avanços”, disse Ryan Hass , diretor do centro para a China no think tank Brookings Institution e ex-funcionário do alto escalão da segurança nacional. “Xi vai querer usar a reunião para projetar maior estabilidade e previsibilidade. Trump pode buscar garantias sobre os fluxos de elementos de terras raras. Eles podem anunciar uma extensão da trégua comercial que limita a escalada tarifária.”
O sul do Texas atraiu a Tesla, juntamente com a Exxon Mobil e outras gigantes do setor energético. Todas as empresas estavam atrás de terras, energia barata e o mais crítico de tudo: água abundante.
As empresas investiram pesado nas últimas duas décadas, construindo usinas que usam enormes quantidades de água para transformar combustíveis fósseis em gasolina, querosene de aviação e outros produtos refinados.
Outras empresas se instalaram nos últimos anos para refinar lítio para baterias de veículos elétricos e produzir pellets de plástico.
Todas foram atraídas para a região por seus lucrativos acordos fiscais, seu porto de águas profundas na Costa do Golfo e sua rede de oleodutos que transportam gás natural e petróleo bruto baratos.
Agora, Corpus Christi, a principal fornecedora de água da região, diz que está sem recursos. Uma seca devastadora está esgotando seus reservatórios, e a cidade espera não conseguir atender à demanda de água da região em apenas 18 meses.
Além dos usuários industriais, a concessionária de água atende mais de 500.000 pessoas em sete condados.
Veio o pânico.
As empresas de energia estão alertando que podem ter que interromper parte de sua produção, gerando temores de demissões e estagnação do crescimento.
A região está se esforçando para evitar a iminente escassez em meio a disputas políticas. Os moradores, por sua vez, estão tentando salvar seus quintais e se preparando para o aumento das tarifas de água.
“A situação da água no sul do Texas é a mais terrível que já vi”, disse Mike Howard, diretor executivo da Howard Energy Partners, uma empresa privada de energia que possui diversas instalações em Corpus Christi. “Ela tem toda a energia do mundo e não tem água.”
A crise pode repercutir além de Corpus Christi, a oitava maior cidade do Texas em população, localizada a apenas 240 quilômetros da fronteira com o México.
Suas refinarias fornecem produtos para aeroportos e mercados regionais em Dallas, San Antonio, Austin, Texas e no México.
A cidade também abriga uma base da Marinha que abriga o maior centro de reparos de aeronaves de asa rotativa do mundo, que presta serviços a aeronaves de combate, incluindo Black Hawks.
Desde a década de 1950, Corpus Christi expandiu seu abastecimento de água após cada seca severa. Atualmente, duas represas a oeste e uma tubulação de 162 quilômetros a leste atendem às suas necessidades.
Mas, há três anos, uma prolongada escassez de água levou a cidade a começar a decretar restrições, e a situação continuou piorando. Os níveis nas represas são os menores da história.
A última seca coincidiu com o crescimento industrial que está sugando as reservas cada vez menores.
Corpus Christi atraiu mais de US$ 57,4 bilhões em investimentos apenas na última década, segundo relatório de 2024 do município.
Água do Texas para empresas
Por outro lado, a LyondellBasell aumentou a capacidade de uma fábrica de etileno em 50%.
A fabricante de produtos químicos OxyChem e uma empresa mexicana construíram uma planta de etileno de US$ 1,5 bilhão.
A Tesla inaugurou uma refinaria de lítio, e a Exxon e a Saudi Basic Industries Corp., empresa petroquímica do reino, construíram uma unidade de plásticos de US$ 7 bilhões.
Só essa planta consome, em média, cerca de 13 milhões de galões de água por dia, de acordo com uma pessoa familiarizada com suas operações. Isso representa cerca de 13% de toda a demanda de água de Corpus Christi no inverno, de acordo com Drew Molly, que recentemente renunciou ao cargo de diretor de operações da empresa de água da cidade. Ele disse que cerca de metade do abastecimento de Corpus Christi vai para cerca de oito empresas.
“Toda cidade quer crescer”, disse ele. “Acho que a cidade de Corpus Christi estava fazendo isso de forma razoável, mas nunca imaginei que haveria uma seca dessa proporção.”
A região previu há muito tempo que períodos de seca causariam escassez de água, a menos que diversificasse seus recursos para além dos reservatórios.
Então, Corpus Christi decidiu construir a primeira usina de dessalinização de grande porte, de propriedade municipal, do país.
A instalação removeria a água do mar do Golfo e produziria até 36 milhões de galões de água potável por dia a partir de 2028. A ideia era que a usina daria tempo à cidade enquanto desenvolvia outras fontes de água.
Corpus Christi obteve licenças e recebeu sinal verde para US$ 757 milhões em empréstimos a juros baixos do estado. Então, tudo desmoronou. A prefeitura rejeitou o plano em setembro, depois que os engenheiros aumentaram suas estimativas de custo para até US$ 1,2 bilhão. Corpus Christi já havia tomado cerca de US$ 235 milhões emprestados do estado e gasto cerca de US$ 50 milhões no projeto.
Sylvia Campos, vereadora que se opôs à usina, disse que ela não teria sido construída a tempo de poupar a cidade de uma escassez. Ela afirmou que a construção beneficiaria grandes empresas de energia às custas dos moradores, mesmo que a cidade recebesse pouco em troca por sediar as instalações. “Uma vez concluída a dessalinização, não há como parar a indústria”, disse ela.
Os defensores da dessalinização dizem que a região terá dificuldades para atrair empresas, a menos que resolva seus problemas de água com soluções à prova de seca. Eles afirmam que a indústria de energia sustenta dezenas de milhares de empregos locais e gera milhões de dólares em receita tributária.
“Estamos buscando todas essas grandes coisas evamos dar um tiro no pé”, disse Denise Villalobos, deputada estadual republicana pelo 34º distrito do Texas, que abrange partes de Corpus Christi. Villalobos, que trabalha para a refinaria Flint Hills Resources, disse estar ciente de várias empresas que estão considerando abrir usinas na região e que agora estão hesitantes.
Torre de resfriamento na usina Flint Hills West, em Corpus Christi, Texas – Foto: The Wall Street Journal
Emergência hídrica
Enquanto isso, os clientes industriais existentes estão se preparando para potenciais cortes de água a partir de novembro de 2026, quando Corpus Christ prevê que enfrentará uma emergência hídrica. A empresa ainda não divulgou os detalhes do corte.
Entre os que se preparam está a refinaria Flint Hills. A empresa sediada em Wichita, Kansas, opera duas usinas na cidade do Texas que, juntas, podem processar cerca de 380.000 barris de petróleo bruto por dia. As instalações fabricam gasolina, diesel e querosene de aviação, que fornecem para aeroportos regionais e mercados em todo o Texas.
As usinas consomem cerca de 5,5 milhões de galões de água bruta e tratada todos os dias para resfriar embarcações, gerar calor e lavar matéria-prima.
Desde 2010, seu consumo de água foi reduzido em 29%, para cerca de 0,55 barril de água por barril de petróleo bruto, informou Flint Hills no ano passado. A empresa está explorando maneiras de reduzir e diversificar ainda mais seus recursos hídricos.
“Cortes de água podem exigir a paralisação das operações de uma instalação”, disse Jake Reint, porta-voz de Flint Hills. Ele afirmou que isso poderia reduzir a produção de combustíveis e colocar as empresas em significativa desvantagem competitiva.
A Exxon, uma das maiores consumidoras de água industrial, está explorando fontes alternativas de água em caso de corte de fornecimento, disse uma porta-voz da empresa. Ela afirmou que sua planta foi projetada para reciclar água e que a empresa busca continuamente maneiras de reduzir seu consumo de água.
A perspectiva de cortes preocupa as autoridades municipais, que podem demitir funcionários. “Isso pode significar que esses empregos nunca mais serão recuperados e que empregos futuros não serão gerados aqui”, disse o administrador municipal Peter Zanoni.
Várias empresas estão explorando a perfuração de seus próprios poços de água subterrânea para compensar potenciais cortes, de acordo com Molly, ex-chefe de operações da concessionária de água da cidade.
Ele disse que os cortes também afetariam a base aérea naval de Corpus Christi, que é uma das maiores consumidoras de água da cidade. O Depósito do Exército de Corpus Christi, que conserta motores de turbina e aeronaves danificadas, é um inquilino da base.
Um assessor de relações públicas da base disse que a empresa continua comprometida com os esforços de conservação de água e busca novas tecnologias para reduzir o consumo de água.
Procurando água
Corpus Christi está correndo para construir projetos emergenciais e aliviar a pressão sobre os reservatórios.
A cidade está bombeando água subterrânea salobra de poços e despejando-a no Rio Nueces, que deságua em uma estação de tratamento de água.
Mais a oeste, trabalhadores estão ocupados perfurando uma dúzia de poços sob o sol escaldante. As autoridades esperam que o projeto forneça cerca de 28 milhões de galões de água por dia dentro de um ano, o que compensaria apenas parte do suprimento perdido dos reservatórios.
A longo prazo, a cidade está considerando canalizar água subterrânea do vizinho Condado de San Patricio, mas as comunidades que dependem desse suprimento estão preocupadas.
Corpus Christi está considerando outros projetos de águas subterrâneas, bem como participar de um projeto proposto de dessalinização em terras de propriedade do Porto de Corpus Christi.
Todos esses empreendimentos provavelmente levarão anos para serem concluídos, custariam centenas de milhões e aumentariam as tarifas de água de todos os clientes.
Por enquanto, alguns moradores dizem que esperam por um furacão que encha os reservatórios. Eles estão tentando se adaptar às restrições de irrigação de gramados impostas pela cidade em dezembro. Em um dia de semana recente, cinco caminhões estavam enfileirados em frente à Estação de Tratamento de Esgoto de Oso para coletar água de reuso gratuita que pode ser usada para regar jardins.
Robert Peña, um aposentado de 62 anos, estava na caçamba de seu caminhão sob um calor de quase 38 graus Celsius e começou a encher cinco tanques com 1.270 litros de água. Ele disse que cobra US$ 200 dos vizinhos para entregar a água, compensando as cerca de sete horas que às vezes leva para esperar na fila e abastecer — e pagar a gasolina. “Gostaria que houvesse um jeito melhor”, disse ele, enxugando o suor das sobrancelhas.
Há duas semanas, Mike Hewlett encontrou ouro. Quer dizer, mais ou menos.
O soldador californiano tem muitos hobbies, incluindo snowboard, esqui e motocross. Mas com os preços do ouro atingindo recordes, ele adotou um novo compromisso na agenda: procurar ouro.
Enquanto caminhava por uma floresta na região do Monte Shasta com um detector de metais, examinando pedras e terra, sua máquina começou a apitar. Hewlett havia detectado metal enterrado em cascalho — ao desenterrá-lo, encontrou um pedaço de ouro com cerca de metade do tamanho da unha do seu mindinho.
“Eu estava pulando para todos os lados, como se fosse um desenho animado”, disse o homem de 50 anos. A pepita, que ele pesou mais tarde, não foi exatamente transformadora. “Valia US$ 175”, disse ele. “Mas, por outro lado, estava ali, à espera de ser pega.”
Em todo o país, uma corrida do ouro moderna está em andamento. Pessoas nas redes sociais brandem panelas e pepitas salpicadas de ouro enquanto exibem seus equipamentos, que vão de picaretas antigas a caixas separadoras de ouro. Outros trocam dicas e examinam mapas, determinados a descobrir quais áreas ainda podem esconder riquezas metálicas.
O sonho de encontrar uma mina-mãe pode ser improvável, mas com os preços do ouro chegando a US$ 4.000 a onça, é tentador.
“Durante todo o caminho, fico pensando que vou tirar essa maldita pepita de US$ 100.000”, disse Hewlett.
A Mina de Ouro Big Thunder, na Dakota do Sul, tem sido inundada com pedidos de consultoria, disse a coproprietária Sandi McLain.
O museu de mineração de ouro, que contém uma coleção de artefatos que datam da Corrida do Ouro de Black Hills de 1874, oferece aulas de garimpo e a oportunidade de prospectar em suas terras: quem acha, fica com ele.
As aulas já estão esgotadas. As vendas de seus baldes de 5 galões de “terra paga” — que custam US$ 55 cada e contêm terra local — aumentaram 50% em relação ao ano passado.
“As pessoas levam para casa e sentam na garagem com uma cuba do Walmart para garimpar”, disse McLain. Em seus 33 anos como proprietária do museu, ela nunca viu tanta febre.
Como nas corridas do ouro de antigamente, o caminho mais seguro para ganhar dinheiro geralmente vem da venda de equipamentos de mineração. Em uma versão mais moderna, há também o ouro nas mídias sociais: as maiores contas do YouTube dedicadas à prospecção ostentam mais de meio milhão de seguidores.
Em Sacramento, Cody Blanchard procurava ouro há vários anos no norte da Califórnia antes de abrir seu próprio negócio vendendo equipamentos e oferecendo passeios de prospecção no ano passado. Ele encontrou pessoalmente cerca de 170 gramas. Mas o negócio — um bico para o trabalhador do saneamento — provou ser mais lucrativo.
Em alguns dias, Blanchard dá uma passada rápida em um parque local com um detector de metais na esperança de encontrar joias de ouro perdidas. Mas, quando tem mais tempo, prefere mergulhar com snorkel em leitos de rios, onde escava o leito rochoso.
Ele disse que a emoção da primeira descoberta de ouro na natureza é imbatível e faz com que as pessoas voltem sempre. “É como um vício em heroína”, disse ele.
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Muito além do ouro
Às vezes, os caçadores de ouro tropeçam em outras descobertas. Certa vez, quando Blanchard estava garimpando com amigos, eles encontraram botões antigos de uma calça jeans Levi’s que datava de meados do século XIX. Ainda havia um pouco de jeans preso.
Dois anos atrás, enquanto Chris Spangler acampava com a família no Deserto de Mojave e escavava ouro à noite, um de seus filhos olhou para cima e percebeu que estavam cercados por centenas de tarântulas. Aparentemente, elas foram atraídas pelas vibrações de seus equipamentos, incluindo uma lavadora a seco e um gerador.
“Foi meio bizarro, mas, ao mesmo tempo, algo que você nunca experimentaria de outra forma”, disse Spangler, um administrador de saúde de 39 anos da Marinha dos EUA, agora baseado em Sydney. Ele tem registrado a jornada de caça ao ouro de sua família nas redes sociais, onde tem um total de 430.000 seguidores. Sua presença nas redes sociais rendeu à família cerca de US$ 30.000, superando qualquer ouro que tenham encontrado.
Parker Schnabel tem um programa sobre extração de ouro – Foto: Divulgação
“Em muitos países, a mineração de ouro em pequena escala é um modo de vida”, disse Parker Schnabel, um minerador de ouro do Alasca que estrela a longa série “Gold Rush” da Discovery.
Em contraste, nos EUA, ele observa, regulamentações ambientais mais rígidas podem dificultar a extração de grandes quantidades. “Mas a alta dos preços do ouro está ajudando a mudar esse cálculo”, disse ele, especialmente considerando a dificuldade financeira que muitos americanos enfrentam.
“Essa é uma das coisas mais legais sobre a mineração de ouro e a razão pela qual existe um programa de TV sobre o assunto”, disse Schnabel. “Você pode ter muita sorte e encontrar quantias de dinheiro que podem mudar sua vida se encontrar o lugar certo.”
A febre do ouro traz um sintoma sério: competição. A alta dos preços atraiu mais pessoas para o evento anual de mineração Goldzilla, em um acampamento no Alabama, perto da fronteira com a Geórgia, onde tudo o que é encontrado é dividido entre a multidão. “Quanto mais pessoas participam, menos ouro você vai levar para casa”, disse Cannady. O dono do acampamento usa equipamentos de lavagem de ouro que ele mesmo construiu.
Mesmo assim, o mecânico, de 46 anos, disse que a experiência é divertida de qualquer maneira. Ele planeja participar novamente e quer transformar o ouro que coletou em anéis para sua esposa e filha.
Todos os anos, ônibus lotados de alunos do quarto ano se reúnem no Parque Histórico Estadual Marshall Gold Discovery, em Coloma, Califórnia, para aprender sobre a Corrida do Ouro no estado e experimentar a arte da garimpagem, usando água em um cocho que os funcionários do parque semeiam com flocos de ouro. Em um fim de semana, o local sediou uma encenação de uma cidade de tendas da década de 1850, com atores fantasiados.
Embora o preço do ouro tenha disparado, disse a assistente sênior do parque, Cynthia Flewelling, eles continuarão com a atividade, que custa US$ 10 por pessoa e inclui uma aula de 15 minutos e meia hora para garimpar flocos, que os participantes podem ficar com eles.
Na semana passada, a China introduziu novas restrições draconianas às exportações de ímãs de terras raras, um lembrete de seu poder de interromper as cadeias de suprimentos globais e fazer com que fabricantes americanos, incluindo montadoras, paralisem a produção.
As montadoras americanas há muito tempo dependem da China para os ímãs, que são essenciais para a fabricação de tudo, de motores elétricos a faróis e limpadores de para-brisa.
Mas hoje, uma montadora, a General Motors (GM), tem menos motivos para se preocupar.
Em 2021, a GM fez a aposta ousada de investir na produção de ímãs de terras raras nos EUA, como parte de um esforço mais amplo para reduzir sua dependência da China, componentes e materiais.
Como resultado, nos próximos meses, a GM agora deverá ser a única montadora americana com um grande fornecimento direto de ímãs de terras raras fabricados nos EUA a partir de diversas fábricas.
Foi uma aposta arriscada. A GM teve que se comprometer com acordos de compra de longo prazo com novos fornecedores, em alguns casos relativamente pouco comprovados, cujos ímãs são mais caros que os chineses.
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Em uma indústria automobilística que espreme todos os custos extras, pagar preços mais altos pode ser uma grande desvantagem — principalmente se os EUA e a China chegarem a um acordo comercial que resulte em um fluxo mais livre de terras raras chinesas.
Mas, no momento, essa possibilidade parece distante. A China introduziu regulamentações ainda mais rígidas sobre a exportação de ímãs de terras raras, exigindo que até mesmo empresas que fabricam ímãs no exterior usando materiais de terras raras chineses busquem permissão de Pequim antes de exportar.
O presidente Trump, que planejava se encontrar com Xi Jinping em uma cúpula com o líder chinês no final deste mês, respondeu às novas restrições dizendo que “não havia motivo” para se reunir com Xi. Trump ameaçou tarifas adicionais de 100% em retaliação, enquanto Pequim acusou os EUA de terem um padrão duplo e disse que aplicaria as regras de forma flexível para limitar o impacto sobre as empresas.
Ainda assim, a perspectiva de novas interrupções no mercado de ímãs é grande na indústria automobilística. Em maio, a Ford foi forçada a paralisar brevemente uma fábrica em Chicago que monta seu SUV Explorer devido à escassez de ímãs. No mês seguinte, um executivo da Ford disse que a montadora estava vivendo “na mão” com seu fornecimento. A Ford não quis comentar.
Pequim gradualmente facilitou a exportação de ímãs nos meses seguintes, após firmar acordos com o governo Trump, mas continua a controlar rigorosamente o fornecimento. Mesmo antes das restrições mais recentes, as empresas americanas que desejavam comprar ímãs chineses eram obrigadas a responder a longas séries de perguntas para solicitações que frequentemente eram atrasadas ou rejeitadas.
Enquanto as montadoras lutam para obter terras raras não chinesas, leva anos para garantir matérias-primas de terras raras, encomendar equipamentos e construir novas fábricas de ímãs, tornando difícil para as montadoras garantir rapidamente novos suprimentos.
Em 2024, a Stellantis, controladora da Jeep, fechou um acordo de fornecimento de terras raras com a Carester, uma empresa de processamento na França que está construindo uma unidade com previsão de conclusão para o próximo ano.
A gigante industrial coreana Posco anunciou um acordo no ano passado para começar a fornecer ímãs para uma montadora norte-americana não identificada a partir de 2026. Poucos rivais anunciaram acordos de fornecimento semelhantes com produtores nacionais de ímãs de terras raras.
Quando a China restringiu o fornecimento de ímãs na primavera passada, foi um “chamado de atenção” para a indústria automobilística dos EUA e outros fabricantes que dependem de ímãs, disse RJ Scaringe, presidente-executivo da fabricante de veículos elétricos Rivian, em setembro.
GM reduz dependência da China
Para a GM, os esforços para reduzir a dependência da China começaram em meio à pandemia de Covid-19.
Em 2021, as fábricas de automóveis lutavam para permanecer abertas, já que os lockdowns na Ásia dificultavam o acesso a semicondutores. Isso levou Shilpan Amin, chefe de suprimentos da GM, a considerar a possibilidade de adquirir mais suprimentos internamente, incluindo ímãs de terras raras, mesmo que a um custo mais alto.
“Você começa a reconhecer que a falta de resiliência é muito mais custosa”, disse Amin.
O único problema: poucas empresas sabiam como fabricar ímãs de terras raras nos Estados Unidos.
Em 2021, executivos da GM contataram a VAC, sediada na Alemanha, uma das poucas fabricantes ocidentais de ímãs que se manteve ativa durante as décadas de 1990 e 2000, quando uma enxurrada de terras raras chinesas baratas forçou o fechamento da maioria dos produtores ocidentais.
“Ficamos positivamente surpresos quando a GM veio até nós e disse: ‘Precisamos de um plano B'”, disse o CEO da VAC, Erik Eschen. Em dezembro de 2021, a VAC anunciou que construiria uma fábrica na América do Norte para fornecer à GM.
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Ao mesmo tempo, a GM anunciou que também forneceria ímãs da MP Materials, a maior mineradora de terras raras dos EUA. A MP queria investir um grande investimento em uma nova fábrica que transformaria suas terras raras em ímãs e estava em busca de um cliente âncora. A GM concordou.
O governo dos EUA também ajudou a impulsionar o sucesso da MP e da VAC. O Departamento de Defesa depende de ímãs para mísseis, drones e caças. No entanto, não compra ímãs suficientes para sustentar uma fábrica completa, por isso historicamente depende de fornecedores de ímãs do Japão e da Europa, que por sua vez dependem, em parte, de matérias-primas chinesas.
Para garantir o fornecimento doméstico, o governo investiu recursos nas novas fábricas da VAC e da MP Materials.
“Se eles estiverem fornecendo apenas para o Departamento de Defesa, não estarão aqui em cinco a dez anos. Mas se estiverem fornecendo para o Departamento de Defesa e a General Motors, terão um futuro muito mais estável”, disse Anthony Di Stasio, um alto funcionário da defesa dos EUA, em uma entrevista no ano passado.
A nova fábrica de ímãs da VAC na Carolina do Sul entrará em operação antes do final do ano, com a maior parte da produção prometida à GM.
A GM também deverá receber a maior parte dos ímãs iniciais produzidos pela MP Materials quando iniciar a produção comercial em sua primeira fábrica de ímãs, ainda este ano. Em julho, o Pentágono concordou em investir US$ 400 milhões em uma participação na MP, como parte de um plano que levaria a empresa de terras raras a aumentar rapidamente a produção. Em agosto, a GM também anunciou um acordo de fornecimento com a Noveon, uma produtora de ímãs do Texas, com entregas a partir de julho. “Este é um grande jogo de xadrez e eles já estão alguns movimentos à frente de todos os outros”, disse Eschen, da VAC.
Recuperando o tempo perdido
De muitas maneiras, a GM está tentando recuperar uma posição que desperdiçou décadas atrás. Na década de 1980, cientistas da GM e da Sumitomo, uma empresa japonesa, inventaram separadamente um novo ímã de terras raras mais potente, que continua sendo o tipo dominante até hoje. A GM desmembrou uma divisão de ímãs chamada Magnequench, que fornecia para empresas de automóveis, eletrônicos e defesa.
Mas logo a China se tornou a maior produtora mundial de terras raras, em parte porque o país estava mais disposto a tolerar os custos ambientais da mineração e do processamento do que os EUA ou a Europa.
Em 1995, a GM desinvestiu da Magnequench, que foi adquirida por um grupo de investimentos que incluía uma empresa estatal chinesa. Nos anos seguintes, a Magnequench fechou suas fábricas americanas e estabeleceu a produção na China. A saída da Magnequench tornou-se um símbolo da marcha da China rumo ao domínio da indústria de terras raras.
“Os equipamentos foram desativados, desmontados, embalados para transporte marítimo e enviados para a China”, disse um ex-funcionário da Magnequench, que foi enviado à China para treinar funcionários locais. “O que eu os ajudei foi a encurtar a curva de aprendizado.”
Na entrevista, Amin, chefe de suprimentos da GM, não quis dizer qual a parcela da demanda total por ímãs de terras raras da empresa que pode ser atendida com a produção doméstica e se ainda precisará ser complementada por fábricas na China.
Analistas alertam que riscos ainda podem estar à espreita.
“A GM parece um gênio hoje devido à forma como os eventos se desenrolaram”, disse Willis Thomas, especialista em minerais essenciais da empresa de pesquisa de commodities CRU. “Se os eventos mudarem para o outro lado, e houver um acordo de livre comércio que eliminou todas as tarifas e cotas, isso fará com que eles paguem caro por algo em que estão presos.”
A GM está confiante de que fez a aposta certa. “Essa vantagem de ser o primeiro a se mover deve durar um bom tempo”, disse Amin.
As mais recentes restrições da China às terras raras marcam um controle de exportação quase sem precedentes que pode desestabilizar a economia global. Isso dá a Pequim mais influência nas negociações comerciais e aumentaria a pressão sobre o governo Trump.
A regra, divulgada na quinta-feira (9) pelo Ministério do Comércio da China, é vista como uma escalada na disputa comercial entre os EUA e a China, pois ameaça a cadeia de suprimentos de semicondutores.
Os chips são a força vital da economia, alimentando telefones, computadores e data centers necessários para treinar modelos de inteligência artificial.
A regra também afetaria carros, painéis solares e equipamentos para fabricação de chips e outros produtos, limitando a capacidade de outros países de sustentar suas próprias indústrias.
Empresas globais que vendem produtos com certos materiais de terras raras provenientes da China representando 0,1% ou mais do valor do produto precisariam da permissão de Pequim, de acordo com a nova regra.
As empresas de tecnologia provavelmente terão extrema dificuldade em comprovar que seus chips, os equipamentos necessários para fabricá-los e outros componentes estão abaixo do limite de 0,1%, disseram especialistas do setor.
“Os minerais de terras raras e a capacidade de refiná-los são apenas a base da civilização moderna”, disse Dean Ball, que deixou seu cargo na Casa Branca como consultor de políticas de IA para se tornar membro sênior da Fundação para a Inovação Americana, um think tank.
Ele acrescentou que as regras podem causar uma recessão nos EUA se implementadas de forma agressiva, devido à importância dos gastos de capital em IA para a economia.
Os EUA e outros países estão investindo pesado em data centers, tornando a IA um motor econômico fundamental.
A China potencialmente colocaria em vantagem na corrida da IA e mudaria a ordem mundial, afirmam especialistas.
“É o equivalente econômico de uma guerra nuclear — uma intenção de destruir a indústria americana de IA”, disse Dmitri Alperovitch, cofundador do think tank Silverado Policy Accelerator. Ele chamou isso de “tática de chantagem” antes de uma possível reunião entre o presidente Trump e o líder chinês Xi Jinping na Coreia do Sul nas próximas semanas para dar continuidade às negociações comerciais e não acredita que a China implementará integralmente a regra.
As tarifas americanas estão atualmente na faixa de 30% a 50% sobre as importações chinesas — níveis superiores aos negociados com Vietnã, Japão e Indonésia.
As tarifas médias da China sobre as exportações americanas giram em torno de 33%.
Embora posicionada como retaliação às recentes ações de controle de exportação dos EUA visando empresas de tecnologia chinesas, a decisão de Pequim é um jogo de poder calculado, de acordo com pessoas familiarizadas com o processo decisório do governo chinês.
A China está tentando fortalecer sua influência sobre Trump — que considera ansioso para fechar um acordo — em uma tentativa de extrair concessões em tarifas e controles de tecnologia, disseram as pessoas.
Durante a última rodada de negociações com altos funcionários americanos em Madri, no mês passado, o principal negociador comercial da China, o vice-primeiro-ministro He Lifeng, solicitou a remoção total de tarifas e controles de exportação, informou o The Wall Street Journal. A mais recente ação sobre terras raras, disseram as pessoas, é uma tática que visa atingir esse objetivo.
A ação, observaram as fontes, faz parte de um padrão da China em responder ao que considera ações frágeis de Washington com medidas desproporcionalmente fortes.
Terras raras produzidas pela Aclara (Divulgação)
Terras raras nas guerras
As novas regras também abrangem bens que podem ser usados para fins militares.
Elas ampliariam as restrições anteriores sobre terras raras e produtos relacionados, que já atingiram empresas em todo o mundo.
A cadeia de suprimentos de semicondutores é vulnerável a ações como a da China porque grandes fábricas de chips exigem grandes investimentos de capital de um ecossistema de empresas que fornecem equipamentos especializados, processos técnicos complexos e embalagem final. Empresas nos EUA, Taiwan, Japão e Holanda colaboram entre si.
Os governos Trump e Biden ofereceram subsídios e outras políticas para auxiliar o processo, mas a capacidade doméstica, em geral, ainda é incipiente.
Alguns analistas afirmam que as novas regras aumentarão a urgência para que as grandes empresas de tecnologia invistam mais nessas áreas.
“Esta é uma vulnerabilidade real para as empresas de IA dos EUA”, disse Joseph Hoefer, diretor de IA da empresa de lobby Monument Advocacy, que representa empresas de tecnologia.
O CEO da OpenAI, Sam Altman, embarcou em uma campanha global para arrecadação de fundos, buscando financiamento e parceiros que possam ajudar a atender à demanda insaciável da startup por capacidade computacional.
Em uma tentativa de garantir suprimentos de longo prazo e de baixo custo para o impressionante plano de infraestrutura multitrilionário da OpenAI, Altman tem explorado alternativas de financiamento com parceiros da cadeia de suprimentos, disseram pessoas familiarizadas com suas reuniões.
Desde o final de setembro, o chefe do ChatGPT viajou para Taiwan, Coreia do Sul e Japão para acelerar a capacidade mundial de construção de chips de inteligência artificial. Ele se reuniu com empresas como a Taiwan Semiconductor Manufacturing (TSMC) e a Foxconn, bem como a Samsung e a SK Hynix, disseram as pessoas que acompanharam o assunto de perto.
Altman estava pressionando essas empresas, muitas das quais são fornecedoras da Nvidia, uma das maiores fabricantes de chips de IA do mundo, a aumentar a capacidade de produção e priorizar os pedidos da OpenAI, disseram pessoas que acompanharam o assunto.
Ele planeja visitar investidores nos Emirados Árabes Unidos para arrecadar fundos para financiar a expansão da infraestrutura e a pesquisa da OpenAI.
Desde a introdução do ChatGPT, a cadeia de suprimentos de computação tem enfrentado gargalos de fabricação para atender à crescente demanda global.
A TSMC produz chips para a Nvidia, enquanto a Foxconn monta os servidores com esses chips. A Samsung e a SK Hynix, da Coreia do Sul, fornecem chips de memória para ambos os sistemas.
A viagem de Altman lembra uma visita que ele fez no início de 2024, quando apresentou planos de infraestrutura com um valor exorbitante de até US$ 7 trilhões para as mesmas empresas e buscou financiamento dos Emirados Árabes Unidos.
Seu esforço anterior foi então rejeitado por alguns líderes do setor, que não o consideraram realista, dada a baixa receita gerada pelos serviços de IA na época. Logo após essa viagem, o CEO da TSMC, C.C. Wei, disse que Altman era “agressivo demais para se acreditar”.
Desta vez, ele está recebendo mais apoio.
Uma onda de confiança renovada na OpenAI veio de seu acordo de sucesso com a Nvidia, no qual a gigante dos chips concordou em alugar até cinco milhões de seus chips de IA para a fabricante do ChatGPT ao longo do tempo e investir até US$ 100 bilhões para viabilizar o projeto.
O anúncio ajudou a reforçar a visão de Altman para o poder computacional e elevou as ações de fornecedores de chips em todo o mundo.
Cerca de três anos após o lançamento do chatbot de IA, a OpenAI agora está avaliada em US$ 500 bilhões, em pé de igualdade com empresas corporativas globais como Netflix e Exxon Mobil.
Nos últimos dias, Altman se reuniu com líderes de tecnologia como Samsung e SK Hynix, bem como com a empresa japonesa de eletrônicos e indústria Hitachi. Os anúncios de suas parcerias impulsionaram as ações das três empresas, seguindo o mesmo padrão observado com os acordos nos EUA.
Altman contratou as duas empresas sul-coreanas como parceiras em chips de memória. Eles disseram que a demanda geral da OpenAI poderia chegar a até 900.000 wafers por mês, o que é mais que o dobro da capacidade global atual de memória de alta largura de banda. Eles planejam desenvolver data centers de IA em conjunto com a OpenAI na Coreia do Sul.
No Japão, a OpenAI e a Hitachi concordaram que o conglomerado japonês apoiaria a OpenAI no desenvolvimento de infraestrutura de IA, incluindo o fornecimento de equipamentos para transmissão e distribuição de energia para os data centers da startup americana. A OpenAI forneceria seus modelos e outras tecnologias para a Hitachi.
Altman manteve discussões com algumas das empresas sobre a fabricação e implantação dos futuros sistemas Rubin da Nvidia, disseram as pessoas familiarizadas com as viagens. A OpenAI estará entre os primeiros clientes a receber os sistemas Rubin no segundo semestre de 2026.
Durante sua parada no Oriente Médio, Altman planejou se reunir com os fundos de investimento MGX e Mubadala de Abu Dhabi, bem como com o parceiro operacional da OpenAI, G42, disseram pessoas familiarizadas com os planos. O potencial novo capital seria parcialmente usado para financiar o data center Stargate em Abu Dhabi, disseram as pessoas que acompanham o assunto.
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A OpenAI informou a seus investidores e parceiros comerciais que provavelmente gastará cerca de US$ 16 bilhões em aluguel de servidores de computação este ano, e que o gasto poderá chegar a cerca de US$ 400 bilhões em 2029, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.
Na semana passada, a empresa reacendeu o entusiasmo global com seu modelo de geração de vídeo Sora 2. Participantes do setor esperam que tais modelos e aplicações aumentem a demanda por capacidade computacional de forma muito mais agressiva do que os modelos baseados em texto.
“Nossa visão é simples: queremos criar uma fábrica capaz de produzir um gigawatt de nova infraestrutura de IA por semana”, escreveu Altman em um blog recente.
No mês passado, a OpenAI e a Nvidia anunciaram que implantariam pelo menos 10 gigawatts dos sistemas de computação da Nvidia para que a OpenAI treinasse e executasse sua próxima geração de modelos. A OpenAI também anunciou cinco novos data centers nos EUA, construídos em parceria com a Oracle e o conglomerado de tecnologia japonês SoftBank.
O CEO da Hyundai, Euisun Chung, esperava que a montadora pudesse apaziguar os ânimos com o governo Trump com uma série de medidas para aprofundar os laços com os EUA. Mas até agora, isso parece um erro de cálculo doloroso.
A operação de imigração realizada no mês passado no complexo de produção da Hyundai, na Geórgia, terminou com mais de 300 funcionários coreanos de colarinho branco algemados e acorrentados. A ação foi o ponto culminante de um ano em que a terceira maior montadora do mundo tentou repetidamente agradar o presidente Trump — mas colheu poucos resultados.
A Hyundai, em vez disso, tornou-se um dos exemplos corporativos mais notórios das armadilhas de tentar prever exatamente como o governo implementará suas políticas econômicas e de imigração, muitas vezes caóticas.
Para Chung, a luta para cair nas graças de Washington é pessoalmente irritante, enquanto a Coreia tenta finalizar um acordo comercial que aliviaria a dor das tarifas americanas.
Nos últimos anos, o CEO da Hyundai pressionou a montadora coreana fundada por seu avô a se aprofundar no mercado de consumidores americanos. A Hyundai e sua marca irmã Kia — que antes apostavam sua reputação em garantias de uma década e preços acessíveis — acumularam prêmios de design, tecnologia e qualidade. Mais da metade dos lucros operacionais da empresa hoje vêm dos EUA.
Para dar continuidade a esse impulso, Chung seguiu o manual corporativo para conquistar Donald Trump após sua eleição para um segundo mandato em novembro de 2024.
A Hyundai doou US$ 1 milhão para a posse de Trump. Semanas depois, a marca recebeu Donald Trump Jr. e sua filha em Torrey Pines para o evento profissional e amador de um torneio da PGA que leva o nome do sedã de luxo da montadora.
Antecipando-se às tarifas iminentes, a Hyundai prometeu em março cerca de US$ 21 bilhões em investimentos nos EUA que seriam concretizados antes do fim do segundo mandato de Trump. O investimento rendeu a Chung e a funcionários da Hyundai uma viagem à Casa Branca. Trump elogiou o investimento nas redes sociais como prova de que suas tarifas “funcionam muito bem”.
Mas quando a tarifa de 25% de Trump sobre as exportações globais de automóveis foi anunciada dias depois, a Hyundai não foi poupada.
Sem se deixar abater, a Hyundai tomou novas medidas para conquistar a simpatia de Washington. Em abril, a Hyundai anunciou que a produção de um SUV popular seria transferida de uma fábrica da Kia no México para uma fábrica já existente no Alabama. A empresa prometeu adquirir mais componentes nos EUA.
Horas após o presidente da Coreia do Sul se encontrar com Trump em 25 de agosto na Casa Branca, com a presença de Chung novamente, a Hyundai anunciou que investiria mais US$ 5 bilhões nos EUA. Em poucos dias, o mandado de busca foi assinado para a operação de imigração de 4 de setembro nas instalações da Hyundai na Geórgia.
As prisões ocorreram no projeto americano mais importante de Chung, um complexo industrial de US$ 7,6 bilhões apelidado de “Metaplanta”. Agentes federais invadiram um canteiro de obras para uma fábrica de baterias operada em conjunto pela Hyundai e pela empresa coreana LG Energy Solution. Foi a maior operação do tipo em um único local na história dos EUA: cerca de 450 prisões, incluindo mais de 300 coreanos.
Um mandado de busca mostra que o alvo inicial da operação eram quatro trabalhadores hispânicos, mas o efeito foi um destaque global sobre a dependência da fábrica em relação à mão de obra coreana.
Diretores da Hyundai admitem reservadamente que prefeririam contratar todos os americanos, embora reconheçam que isso não é realista, pois os trabalhadores americanos não têm o conhecimento necessário, especialmente com baterias de veículos elétricos.
Os sul-coreanos detidos, segundo autoridades de Seul, estavam, em grande parte, prestando consultoria sobre instalação de equipamentos e outras tarefas nas quais os americanos normalmente não têm experiência. A maioria dos trabalhadores coreanos tinha vistos de negócios de curto prazo ou entrou nos EUA por meio de um programa de isenção de visto.
“Há muitos e muitos anos ouço que simplesmente não é possível encontrar trabalhadores americanos em alguns desses estados”, disse James Kim, presidente da Câmara de Comércio Americana na Coreia do Sul. A operação atrasará a construção do local em cerca de dois meses.
Trump disse que muitos imigrantes ilegais trabalhavam na Geórgia logo após a operação. Mas mudou sua mensagem em poucos dias, enfatizando que certos trabalhadores estrangeiros eram bem-vindos nos EUA.
A libertação dos 317 sul-coreanos detidos foi adiada por cerca de um dia, informou o Ministério das Relações Exteriores de Seul na época, porque Trump havia pedido que eles ficassem mais tempo para treinar os americanos. Quando um voo fretado de volta para casa partiu de Atlanta em 11 de setembro, todos, exceto um, optaram por partir.
Kush Desai, porta-voz da Casa Branca, disse que os EUA atraíram grandes investimentos em vários setores, reduzindo a regulamentação e permitindo que as empresas contratassem especialistas técnicos para montar instalações e treinar trabalhadores americanos. “Como o presidente Trump deixou claro, o governo trabalhará com qualquer empresa que invista nos Estados Unidos”, disse Desai.
A Hyundai é um fator importante nas negociações tarifárias entre Seul e Washington — um barômetro fundamental para os acordos mais amplos dos EUA com dezenas de países. O pacto comercial ainda não assinado com Trump se concentra principalmente na promessa da Coreia do Sul de investir US$ 350 bilhões nos EUA. Em troca, o governo Trump reduzirá as tarifas sobre uma ampla gama de itens, incluindo automóveis, de 25% para 15%.
Desde a operação, a Hyundai reafirmou publicamente seu compromisso com US$ 26 bilhões em investimentos nos EUA, incluindo a fábrica de baterias da Geórgia, ainda inacabada, e seus planos de aumentar a produção americana.
Isso atraiu uma forte repreensão da Hyundai pelo governo sul-coreano, que acredita que a Hyundai corre o risco de enfraquecer a influência da Coreia nas negociações comerciais com o governo Trump por ser abertamente entusiasmada demais por uma resolução comercial rápida, de acordo com pessoas familiarizadas com o assunto.
O gabinete presidencial da Coreia do Sul não quis comentar.
Em comunicado, a Hyundai reconheceu os esforços do governo sul-coreano para apoiar os negócios de empresas locais nos EUA. A montadora acrescentou que no próximo ano celebrará quatro décadas nos EUA, com seus investimentos anteriores e em andamento totalizando mais de US$ 45 bilhões.
“Essas decisões de investimento são impulsionadas pela visão de longo prazo da Hyundai”, incluindo um compromisso com o crescimento sustentado e oportunidades nos Estados Unidos, afirmou a empresa. Apesar da turbulência, o compromisso de Chung com os EUA permaneceu inalterado, de acordo com pessoas familiarizadas com seu pensamento.
Ainda assim, eles reconhecem que a dinâmica atual é mais desafiadora do que parecia na inauguração do complexo Metaplant em março, quando Chung subiu em um pódio com uma grande bandeira americana pendurada atrás dele. Fileiras de operários usando capacetes brancos o aplaudiram. O governador da Geórgia, Brian Kemp, presente com outras autoridades estaduais, autografou um Hyundai EV.
“Estamos construindo o futuro da mobilidade com a América. Na América”, disse Chung.
Lado humano do chefe
Chung, de 54 anos, assumiu os negócios do pai em 2020, tornando-se o líder da terceira geração da Hyundai. Desde o início, a empresa tinha laços com os EUA: o terreno original da Hyundai em Seul foi comprado do exército americano.
Chung tem uma imagem diferente de seu pai e avô, ambos ícones na comunidade empresarial coreana. Ele prefere ser conduzido em carros coloridos da empresa — em vez do preto convencional — e se considera um tecnólogo franco após obter seu MBA no Vale do Silício durante o boom das empresas pontocom na década de 1990. Seu amor pelo basquete levou a Kia a se tornar patrocinadora do concurso de enterradas da NBA em 2011.
O vencedor daquele ano, Blake Griffin, saltou sobre um Kia Optima para o momento de destaque. Nos bastidores, Chung, frequentemente chamado de “E.S.” no Ocidente, também é conhecido por confraternizar confortavelmente com os funcionários da Hyundai, as concessionárias da empresa e outros.
John Krafcik, ex-CEO da Hyundai Motor America, relembrou uma sessão de karaokê à noite em Seul, há mais de uma década, quando Chung pegou um microfone e cantou Radio Ga Ga, do Queen. Chung, que era vice-presidente da Hyundai na época, pegou sua bateria e tocou mais algumas músicas. “Ele nunca teve medo de mostrar um lado humano real”, disse Krafcik.
O fato de todos reconhecerem que Chung é o chefe supremo permite que a Hyundai, mesmo hoje, opere em um “modo fundador”, o que significa que a empresa provavelmente não se desviará estrategicamente, apesar dos contratempos de curto prazo, disse Krafcik, que deixou a empresa em 2013. Chung também não é avesso a fazer política.
Em junho de 2024, Kemp, o governador da Geórgia, visitou a Coreia do Sul para reuniões econômicas. A Metaplant da Hyundai foi o maior investimento industrial do estado até então. Ele se viu passeando pela Ilha de Jeju, uma ilha turística famosa por suas tangerinas doces e estátuas de rocha vulcânica.
Mas ele precisava de transporte de volta para Seul. Chung, que havia acompanhado Kemp com outros altos funcionários da empresa até a Ilha de Jeju, ofereceu seu jato particular, de acordo com pessoas familiarizadas com o assunto.
Kemp aceitou, eventualmente voando no jato, enquanto Chung e a cúpula da Hyundai voaram cerca de uma hora até a capital sul-coreana em um voo comercial da Korean Air.
Poucos dias após a eleição nos EUA, Chung nomeou o espanhol José Muñoz como CEO da Hyundai, o primeiro não coreano a liderar a montadora. A mudança ressaltou o desejo de Chung de embarcar em uma era de “desempenho acima do passaporte”. Muñoz, ex-assessor de Carlos Ghosn na Nissan que comandava as operações da Hyundai nos EUA, tinha um perfil global.
A nomeação também refletiu a crescente importância dos EUA para os negócios da Hyundai.
Agora, mais de 1 em cada 10 veículos novos vendidos nos EUA são Hyundai ou Kia, incluindo Ioniq EVs, sedãs Elantra e SUVs Sportage. Na quinta-feira, a empresa informou que as vendas de setembro nos EUA aumentaram 14% em relação ao ano anterior.
Queda do lucro
Mas as tarifas de Trump, em vigor desde abril, contribuíram para uma queda de 22% no lucro líquido durante o trimestre mais recente em relação ao ano anterior.
A montadora não aumentou os preços, apesar das tarifas. Após o vencimento de um crédito tributário da era Biden para veículos elétricos, a Hyundai anunciou que, a partir deste mês, reduziria os preços ou ofereceria um incentivo em dinheiro.
Parte do foco crescente da Hyundai nos EUA se deve à queda nos negócios em outros lugares.
Em 2016, a Hyundai e a Kia atingiram recordes históricos de vendas na China, vendendo juntas cerca de 1,8 milhão de veículos e abocanhando 7% do mercado geral do país na época, de acordo com estimativas da Korea Investment & Securities.
No ano seguinte, a reação chinesa à instalação de um sistema de defesa antimísseis dos EUA pela Coreia do Sul surgiu. Fotos de carros Hyundai e Kia vandalizados surgiram nas redes sociais chinesas.
Hyundai e Kia representam atualmente menos de 1% do mercado chinês.
Hyundai e Kia foram as marcas de automóveis mais populares da Rússia em 2021. Mas a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia no ano seguinte interrompeu as operações das empresas coreanas no país devido a problemas na cadeia de suprimentos. A Hyundai vendeu sua fábrica em São Petersburgo em 2023.
“Os EUA são um mercado simplesmente importante demais para ser abandonado”, disse Kim Chang-ho, ex-gerente de relações com investidores da Kia, que agora é analista automotivo na Korea Investment & Securities.
Vistos especiais
A Hyundai iniciou suas operações em sua primeira fábrica nos EUA há duas décadas, em Montgomery, Alabama. Quatro anos depois, a empresa inaugurou uma fábrica da Kia ao sul de Atlanta.
A Hyundai e a Kia atualmente produzem cerca de 40% dos veículos vendidos nos EUA localmente, com o restante ainda sendo fabricado em grande parte na Coreia do Sul. Até 2030, os executivos querem que a produção local nos EUA represente 80% das vendas locais.
O complexo ultramoderno da Metaplant, nos arredores de Savannah, alvo da operação de imigração, é central para essas esperanças. Lá, braços robóticos amarelos descem do teto, agarrando peças, soldando e fixando portas.
Dos 317 trabalhadores sul-coreanos detidos no canteiro de obras da bateria de veículos elétricos, mais da metade havia entrado nos EUA por meio do programa de isenção de visto do Electronic System for Travel Authorization (algo como ‘Sistema Eletrônico de Autorização de Viagem’ – ESTA), que permite turismo e viagens de negócios de curta duração, de acordo com registros divulgados por um parlamentar sul-coreano. Quase todos os demais possuíam um visto de visitante a negócios B-1 e um visto de turista B-2.
No final do mês passado, os EUA esclareceram que sul-coreanos viajando com o visto B-1 e o ESTA estão autorizados a “instalar, fazer manutenção ou consertar” equipamentos do exterior para construir fábricas nos EUA, de acordo com o Ministério das Relações Exteriores de Seul.
Washington também concordou em abrir em breve um balcão de vistos especiais na Embaixada dos EUA em Seul, que responderá a consultas relevantes.
Foi com um ESTA que Cho Young-hee, um dos sul-coreanos detidos, viajou para a Geórgia. Ele é engenheiro de equipamentos da LG Energy.
Apesar de uma semana difícil atrás das grades, Cho, que está de volta à Coreia, disse após retornar para casa que gostaria de voltar para a Geórgia para “terminar o trabalho”. “É a única maneira de a fábrica estar pronta e pronta para que colegas americanos assumam o controle no futuro”, disse ele.
Empresas e fortunas vão e vêm, mas o ouro sempre está conosco. Às vezes, é um ativo especulativo, um porto seguro ou uma jogada de diversificação, mas certamente vale a pena ficar de olho quando o preço do ouro sobe para US$ 4.000 a onça pela primeira vez, como aconteceu nesta semana.
O ouro é um refúgio tradicional em tempos de incerteza econômica ou inflação, e você pode ver isso acontecendo agora.
O governo dos EUA está fechado em meio a um impasse partidário, e crescem os temores de que o presidente Trump ceda em uma expansão permanente dos subsídios à saúde, que custariam US$ 450 bilhões (dinheiro que o governo não tem).
O Federal Reserve pode abandonar sua batalha contra a inflação antes que ela seja vencida.
Mais adiante, a França está ingovernável, e outras partes da Europa quase. A economia da China está vacilante, e ninguém sabe se o provável novo primeiro-ministro do Japão tem um plano para reanimar o que costumava ser uma vibrante potência industrial.
As cadeias de suprimentos globais estão no limbo em meio a diversas guerras comerciais e tarifárias.
Os riscos geopolíticos estão aumentando.
Investidores com muito dinheiro em caixa buscam segurança, ao mesmo tempo em que querem maximizar os retornos.
Apesar dos cortes de juros de curto prazo do Fed, as taxas dos títulos de longo prazo permanecem altas — possivelmente um sinal de que os mercados estão cautelosos com os riscos de inflação ou com as perspectivas incertas de crescimento econômico, ou ambos.
Mas há um crescimento em outros mercados de crédito, especialmente para formas exóticas de dívida, como títulos lastreados em financiamentos automotivos subprime.
As ações estão em avaliações recordes, graças à mania da inteligência artificial e às expectativas de maiores lucros corporativos após a recente lei tributária.
É difícil saber o quanto disso constitui uma bolha, enquanto os mercados fazem seu trabalho de canalizar capital para novas tecnologias promissoras, mas arriscadas, como a IA.
Seria útil se os investidores pudessem ponderar esses riscos em um cenário de estabilidade monetária, mas tanto o presidente Trump quanto o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, parecem ter ideias diferentes.
Por mais que discordem um do outro em palavras, na prática ambos parecem dispostos a tolerar uma inflação acima da meta declarada pelo Fed de 2%. Então, por que não comprar ouro?
Uma maneira útil de entender isso é que o valor do dólar caiu para 1/4000 de uma onça de ouro. Quaisquer que sejam as razões específicas para uma determinada variação de preço, essa queda no poder de compra não é consistente com a vitória na guerra contra a inflação que os eleitores elegeram Trump para travar.
Não interprete isso como uma previsão de pânico ou crise.
A inflação ainda pode cair, e a IA pode muito bem cumprir a promessa que os investidores acreditam ver. Em vez disso, o preço do ouro é um conselho ao Sr. Trump e ao Fed: os investidores buscam garantias sobre a inflação, o dólar e uma política econômica menos maníaca.
No sábado, o Japão ganhou uma nova primeira-ministra. Na terça-feira, o ouro ultrapassou US$ 4.000 pela primeira vez. Não foi coincidência.
Sanae Takaichi, líder do Partido Liberal Democrata do Japão, é uma figura conservadora em termos fiscais e monetários. Takaichi quer mais estímulos econômicos e que o Banco do Japão ajude, não aumentando os juros. A notícia de sua escolha derrubou o iene e elevou os rendimentos das ações e títulos japoneses.
A notícia também contribuiu para a corrida épica do ouro neste ano, com um salto adicional de 2,6% na segunda (6) e terça-feira (7).
Sanae Takaichi, primeira-ministra do Japão – Foto: Getty Images
Acontece que os EUA não são o único país onde dívidas públicas e políticas populistas ameaçam o valor de moedas fiduciárias como o dólar.
No mês passado, Nigel Farage, líder do partido populista Reform UK, agora à frente nas pesquisas no Reino Unido, criticou o Banco da Inglaterra por vender títulos, porque as perdas resultantes e a pressão ascendente sobre as taxas de juros estavam custando caro aos contribuintes.
O Banco Central Europeu, criado com quase total independência dos políticos, parece seguro por enquanto. Mas a pressão sobre ele também pode aumentar. A França acaba de perder seu quarto primeiro-ministro em pouco mais de um ano, em meio a um impasse sobre o controle de sua dívida. Tanto na França quanto na Alemanha, populistas que no passado defendiam o abandono do euro lideram as pesquisas.
A alta do ouro ocorreu em várias etapas. A primeira começou depois que os países ocidentais congelaram as reservas cambiais da Rússia após sua invasão em larga escala da Ucrânia em 2022. Bancos centrais e governos estrangeiros, em busca de algo que os adversários não pudessem tomar, começaram a investir em ouro.
A segunda acoonteceu em abril, com a guerra comercial do presidente Trump, que minou a confiança nos EUA como estabilizadores do sistema econômico global e o lugar preeminente do dólar nesse sistema.
A terceira veio no final de agosto, quando o Federal Reserve (Fed) sinalizou que cortaria as taxas de juros para neutralizar a fraqueza do mercado de trabalho, apesar da inflação estar acima da meta de 2%.
Dias depois, Trump, que vinha defendendo taxas de juros mais baixas durante todo o ano, buscou aumentar seu controle sobre a política monetária demitindo a governadora do Fed, Lisa Cook, por supostas declarações falsas sobre hipotecas. Ela contestou as alegações e mantém seu cargo por enquanto.
É impossível saber se o ouro está corretamente precificado a US$ 4.000 a onça.
Ken Griffin, CEO da gestora de fundos Citadel, citando a forte queda do dólar neste ano, disse no início desta semana: “Soberanos, bancos centrais e investidores individuais em todo o mundo agora dizem: ‘Agora vejo o ouro como um ativo de porto seguro, da mesma forma que o dólar costumava ser visto.'”
Ainda assim, como observou Robin Brooks, da Brookings Institution, o dólar tem se mantido estável desde agosto, sugerindo que a recente alta do ouro está relacionada à erosão da confiança em todas as moedas fiduciárias.
Embora as circunstâncias sejam diferentes em cada país, o que o Japão, os EUA e a Europa Ocidental têm em comum é a dívida.
Uma fórmula simples mostra a sustentabilidade dessa dívida.
Quando a taxa de juros média da dívida está abaixo do crescimento nominal (ou seja, sem ajuste pela inflação) do PIB, a dívida tende a cair como parcela do PIB. Quando a taxa de juros é mais alta, essa proporção tende a aumentar.
De 2008 a 2022, as dívidas nas economias desenvolvidas dispararam em resposta, primeiro à crise financeira global e, depois, à pandemia de Covid-19. Mas, como as taxas de juros estavam muito abaixo do crescimento nominal do PIB, essas dívidas eram fáceis de sustentar.
Não mais. Com o retorno da inflação, as taxas de juros estão retornando aos padrões históricos.
Em um novo relatório, o Morgan Stanley observou que, nos mercados desenvolvidos, o crescimento nominal desacelerou, o custo da dívida aumentou e os déficits se deterioraram — um triplo golpe para a sustentabilidade da dívida.
O relatório prevê que, até 2030, o custo médio do serviço da dívida será igual às taxas de crescimento. Evitar um aumento explosivo da dívida exigiria um superávit orçamentário considerável, excluindo juros — ou seja, cortes drásticos de gastos ou aumentos de impostos. Isso está se mostrando politicamente intragável.
Trump herdou um déficit orçamentário anual de cerca de 6% do PIB e uma dívida (a soma de todos os déficits ao longo do tempo) próxima de 100% do PIB, e pouco fez para mudar sua trajetória.
A receita proveniente de tarifas compensa os cortes de impostos previstos no projeto de lei fiscal dos republicanos, assinado em julho, mas pode desaparecer se a Suprema Corte decidir que algumas tarifas foram impostas ilegalmente. Enquanto isso, o governo está paralisado devido às exigências democratas de que certos subsídios à saúde sejam estendidos, às quais Trump e os republicanos parecem abertos.
Trump acredita que existe uma maneira mais fácil de reduzir os déficits: fazer com que o Fed reduza as taxas de juros e, assim, barateie o serviço da dívida. Quando os bancos centrais mudam sua prioridade da inflação para ajudar o Tesouro, isso se chama dominância fiscal e geralmente leva à inflação.
Seth Carpenter, economista-chefe global do Morgan Stanley, disse que, embora ninguém possa ter certeza de como será o Fed após a saída do atual presidente, Jerome Powell, “Trump pode fazer algumas escolhas e deixou claro o que quer”. O Fed, disse ele, pode estar migrando para uma política monetária mais branda ao longo do tempo, o que implica um dólar mais baixo, uma inflação esperada mais alta e um ouro mais caro do que o normal.
O domínio fiscal também paira no Japão. Takaichi, a nova primeira-ministra, é uma defensora da estratégia das “três flechas” do ex-primeiro-ministro Shinzo Abe para a recuperação econômica: reformas estruturais para impulsionar a competitividade e estímulos fiscais e monetários.
No ano passado, ela disse que era “estúpido” o Banco do Japão aumentar as taxas de juros. Desde então, ela suavizou um pouco o tom, reiterando que o governo deve “determinar a direção da política econômica e monetária”.
Os mercados concluíram que o governador do Banco do Japão, Kazuo Ueda, será mais lento no aumento das taxas de juros.
O problema é que, assim como nos EUA, a inflação no Japão está notavelmente mais alta do que antes da pandemia. Acatar as exigências do governo corre o risco de levar a inflação a subir ainda mais.
Os rendimentos dos títulos japoneses de 10 anos ainda estão bastante baixos, em torno de 1,6%. Mas Brooks, da Brookings Institution, observou que os rendimentos de 30 anos subiram acentuadamente, especialmente desde a escolha de Takaichi, e isso implica que os rendimentos de 10 anos ficarão acima de 4% em 20 anos. O mesmo padrão é visível em outros países, disse ele. “O mercado está dizendo: ‘Vocês vão inflar a dívida, não agora, mas no longo prazo’”, disse Brooks.
Lucy Jackson usa um telefone que faz pouco além de ligações e, com algum esforço, envia mensagem de texto. Isso complica a vida de uma jovem estudante em 2025.
Mas, para Lucy, que usa mapas de papel e liga para a empresa de táxi local quando precisa de uma carona, os desafios adicionais da vida com pouca tecnologia são um pequeno preço a pagar.
“Aprecio muito mais coisas que não posso acessar facilmente na ponta dos dedos, como qualquer tipo de mídia”, disse Lucy, de 17 anos. “Mas é um pouco mais difícil fazer amizade com as pessoas e manter contato.”
Adolescentes e jovens de vinte e poucos anos podem ter crescido consumindo mídia em seus celulares, pedindo comida em aplicativos e usando caronas compartilhadas, mas alguns já se cansaram.
Motivados pelo desejo de escapar das telas e recuperar a sensação de controle, eles estão ressuscitando câmeras, celulares flip e CDs. Não é incomum vê-los circulando pelos corredores de uma loja de discos ou fazendo sessões de fotos na calçada com câmeras de fotografia, como se tivessem viajado de volta ao início dos anos 2000.
O Luddite Club, um grupo sem fins lucrativos que apoia pausas sem smartphones, tem 26 filiais, quase todas em escolas de ensino médio ou faculdades. Lucy Jackson é membro do conselho.
Músicos com ouvintes mais jovens, incluindo Taylor Swift, Sabrina Carpenter e Chappell Roan, vendem diversas formas de mídia física — CDs, discos de vinil e fitas cassete. Alguns até vendem singles em CD, um formato esquecido.
Foto: Getty Images
Carpenter, o cantor islandês Laufey e Roan, todos da Geração Z, recentemente lideraram as paradas de CDs da Amazon. Artistas mais velhos também aparecem nas paradas, mas os ouvintes de John Fogerty provavelmente não são nativos digitais que compram discos por diversão.
Até o TikTok está cheio de vídeos para tocadores de CD Bluetooth, celulares flip e câmeras. “As pessoas, especialmente da Geração Z, estão cansadas de não ter nada”, disse Hunter White, engenheiro de dados de 25 anos e autodenominado membro dos “nerds da música da internet”.
White disse que coleciona CDs para escapar do domínio dos serviços de streaming, que, segundo ele, pagam mal aos artistas e têm ofertas inconsistentes. Ele compra os discos em leilões de garagem e de imóveis, brechós, lojas de discos e eventos de vendedores, e ouve em um tocador que a Sony lançou em 2002.
No ano passado, White lançou um aplicativo chamado Dissonant. Sim, você pode amar mídia física e ainda criar um aplicativo. Os membros pagam para receber um CD pelo correio de acordo com seu gosto, juntamente com uma nota escrita à mão sobre o álbum. Eles podem ficar com o CD ou devolvê-lo e receber um novo gratuitamente. O Dissonant tem 800 discos e cerca de 350 membros, a maioria com a idade de Hunter White.
80% dos entrevistados do Zoomer relataram sentir que os jovens eram muito dependentes da tecnologia, de acordo com uma pesquisa da Harris Poll de 2023. E 60% disseram que gostariam de “poder voltar a uma época em que todos não estavam ‘conectados'”.
“Eles estão fazendo uma interessante caminhada na corda bamba”, disse Clay Routledge, cuja equipe de pesquisa no Human Flourishing Lab fez parceria com a Harris Poll para a pesquisa. “Eles gostam de tecnologia, mas sentem que estão perdendo algo e querem ter mais controle sobre como a usam.”
Lucy Jackson ganhou seu primeiro iPhone no ensino fundamental. As redes sociais a faziam sentir como se estivesse vivendo uma vida dupla. “Havia a versão 3D da vida real, onde eu era feliz, e havia esse mundo 2D, onde eu conseguia retratar uma imagem de mim mesma”, disse ela. “Era tão falso.”
No primeiro ano do ensino médio, ela conheceu pessoas que também queriam se livrar dos celulares e comprou um modelo flip. “A maneira como eu tocava música mudou drasticamente”, disse ela. “A navegação era um problema real. Para os trabalhos escolares, você tinha que estar realmente por dentro.”
A câmera digital compacta é uma das tecnologias redescobertas mais valorizadas. Há uma piada no TikTok que diz que uma pessoa em cada grupo é a “amiga da câmera digital”, brigando com todos para tirar fotos e manuseando cartões SD e adaptadores. Kendall Jenner recentemente usou uma Canon PowerShot como acessório em uma postagem no Instagram.
Essas câmeras variam de US$ 15 a mais de US$ 300.
Tumasi Agyapong, de 26 anos, de Chicago, disse que começou a se interessar por câmeras há cerca de dois anos, motivada por uma sensação de nostalgia e qualidade de imagem.
Ela adora o fato de elas serem de uso único, sem as distrações de um smartphone. Pelas suas contas, ela agora tem 15. “Na verdade, isso vem do desejo de me desintoxicar do meu celular, que é tudo para mim”, disse ela.
Quando Lisa Su assumiu o cargo de CEO da empresa de chips Advanced Micro Devices (AMD) em 2014, o valor de mercado da empresa era pouco menos de US$ 3 bilhões.
Hoje, a AMD vale mais de US$ 330 bilhões, um aumento de mais de cem vezes que reflete a habilidade da AMD em mudar de uma estratégia de produção. A empresa saiu da fabricação de placas de vídeo para jogos e processadores para computadores pessoais para chips de data center que impulsionam a revolução da inteligência artificial.
O preço das ações da AMD subiu 24% na segunda-feira (6), logo depois que a empresa anunciou uma parceria com a OpenAI, dona do ChatGPT.
Segundo os termos do acordo, a OpenAI comprará dezenas de milhares de chips AMD para gerar 6 gigawatts de capacidade computacional para funções que permitem que modelos de IA respondam às consultas dos usuários.
O acordo impulsionou o preço das ações da AMD e as ambições da empresa de competir com a concorrente Nvidia, que é de longe a concorrente dominante na indústria de semicondutores para IA.
O acordo especifica que a OpenAI receberá warrants para 160 milhões de ações da AMD, a um preço marginal de 1 centavo por ação, assim que a OpenAI atingir certas metas de implantação e o preço das ações da AMD subir.
A última parcela de ações será concedida somente se as ações da AMD atingirem US$ 600 por ação, o que daria à AMD uma avaliação de mercado de US$ 1 trilhão.
Por enquanto, com uma capitalização de mercado de US$ 4,5 trilhões, a Nvidia é quase 14 vezes maior que a AMD, e a maioria das estimativas de analistas estima sua participação de mercado para as unidades de processamento gráfico, ou GPUs, que alimentam o treinamento e a inferência de IA em mais de 75%.
Mas, além da AMD, a Nvidia enfrenta pressão de empresas como a Broadcom, que produz chips personalizados para aplicações específicas para clientes como a OpenAI, e até mesmo dos próprios grandes clientes, alguns dos quais já começaram a projetar seus próprios chips.
O acordo com a OpenAI pode ter mudado um pouco a situação a favor da AMD. A AMD chegou a esse ponto de inflexão graças a uma combinação de planejamento estratégico cuidadoso e de estar no lugar certo, na hora certa.
“Nos últimos anos, o importante foi entendermos as cargas de trabalho que realmente impulsionariam a IA, o treinamento e a inferência da próxima geração”, disse Su em uma entrevista. “Este acordo representa uma enorme expansão do trabalho que estamos fazendo.”
Durante grande parte da última década, a arquirrival da AMD foi a Intel, a problemática projetista e fabricante de chips que recentemente recebeu grandes investimentos da Nvidia e do governo dos EUA.
Com base nos designs populares dos chips gráficos usados nos sistemas de jogos PlayStation e Xbox e nas CPUs usadas em PCs de consumo, a AMD vem conquistando a fatia de mercado da Intel há anos.
A Intel, por sua vez, estava atolada em um esforço dispendioso para recuperar seu negócio de fabricação de chips. A AMD desmembrou seu negócio de manufatura, agora conhecido como GlobalFoundries, em 2009, enquanto a Intel continuou a investir em seu segmento de fundição, que não era lucrativo, mesmo estando muito atrás de rivais tecnologicamente mais avançados, como a Taiwan Semiconductor Manufacturing.
Em 2018, a AMD fez uma mudança drástica para a computação em nuvem, lançando sua linha Instinct de GPUs para data centers, seus primeiros chips projetados para cargas de trabalho de IA.
Desde então, a AMD tem lutado para acompanhar a Nvidia, que dominou não apenas o espaço de chips de IA, mas também os sistemas de software necessários para executar grandes clusters de data centers.
Nos últimos anos, à medida que os laboratórios de IA se apressavam para aperfeiçoar seus modelos mais recentes, a demanda por chips poderosos que podem ser usados para treinar esses modelos em bilhões ou até trilhões de parâmetros de entrada aumentou.
Agora, no entanto, a demanda mudou para funções de inferência, em vez de treinamento, à medida que as empresas buscam ferramentas de IA que sejam mais úteis nos mundos dos negócios, entretenimento e pesquisa. Essas aplicações também tendem a ser mais lucrativas.
“A computação tem sido mais direcionada para o treinamento no passado e, nos próximos anos, tenderá a se deslocar muito mais para a inferência, à medida que a demanda por esses serviços de IA cresce”, disse Jacob Feldgoise, pesquisador de IA do Centro de Segurança e Tecnologias Emergentes da Universidade de Georgetown. “A AMD tem se esforçado cada vez mais para se posicionar como fornecedora preferencial de soluções para inferência.”
Su, da AMD, assim como os principais executivos da OpenAI, concordaram que a demanda por inferência será o principal impulsionador da infraestrutura de IA e argumentaram que, à medida que a indústria de IA cresce, qualquer empresa que ofereça poder computacional aos desenvolvedores verá grandes benefícios.
A AMD possui algumas vantagens cruciais que podem ajudar em sua busca por maior participação de mercado da Nvidia. Seus chips são geralmente mais baratos que os da Nvidia, e sua eficiência e qualidade estão melhorando. Há também a questão da disponibilidade: como os chips da Nvidia são amplamente considerados os melhores disponíveis, a concorrência para comprá-los é acirrada.
O aumento expressivo da demanda abre uma oportunidade para a AMD oferecer seus próprios produtos como uma alternativa mais acessível e prontamente disponível.
“Acreditamos realmente que o mundo está subestimando a demanda por IA e que estamos caminhando para um mundo onde simplesmente não há tecnologia suficiente”, disse Greg Brockman, presidente e cofundador da OpenAI. “Não haverá chips suficientes.”
As sanções americanas tornam quase impossível comprar petróleo do Irã. A China, porém, descobriu um jeito de fazê-lo de qualquer maneira, em um acordo secreto.
O canal oculto de financiamento aprofundou os laços econômicos entre os dois rivais americanos, desafiando os esforços de Washington para isolar o Irã.
De acordo com autoridades de vários países ocidentais, o sistema de escambo funciona da seguinte forma: o petróleo iraniano é enviado para a China, que é o maior cliente de Teerã. Em troca, empresas chinesas apoiadas pelo Estado constroem infraestrutura no Irã.
Completando o ciclo, estão uma seguradora estatal chinesa que se autodenomina a maior agência de crédito à exportação do mundo e uma entidade financeira chinesa, tão sigilosa que seu nome não pôde ser encontrado em nenhuma lista pública de bancos ou instituições financeiras chinesas.
O acordo, ao contornar o sistema bancário internacional, forneceu uma tábua de salvação para a economia iraniana, pressionada pelas sanções.
Até US$ 8,4 bilhões em pagamentos de petróleo fluíram pelo canal de financiamento no ano passado para financiar o trabalho chinês em grandes projetos de infraestrutura no Irã, de acordo com algumas das autoridades.
O Irã exportou US$ 43 bilhões, principalmente em petróleo bruto, no ano passado, de acordo com estimativas da Administração de Informação de Energia dos EUA. Autoridades ocidentais estimam que cerca de 90% dessas exportações vão para a China.
A China tem sido a principal compradora de petróleo iraniano desde 2018, quando o presidente Trump retirou os EUA do acordo nuclear de 2015 e restabeleceu as sanções americanas.
Duas semanas após retornar ao cargo, Trump ordenou o uso de “pressão máxima” para forçar Teerã a restringir seu programa nuclear e encerrar o apoio a grupos de milícias aliadas. A diretiva buscava reduzir as exportações de petróleo iraniano a zero.
Desde então, os EUA impuseram sanções a indivíduos e pequenas entidades chinesas, mas as exportações iranianas para a China continuaram praticamente inalteradas.
Pequim também fornece apoio político ao Irã. Em setembro, o líder chinês Xi Jinping recebeu o presidente iraniano Masoud Pezeshkian em uma cúpula multinacional e em um desfile militar com a presença dos líderes da Rússia e da Coreia do Norte — um grupo unido em oposição a uma ordem mundial liderada pelos EUA.
Nações ocidentais conseguiram recentemente reimpor sanções internacionais a Teerã, suspensas pelo acordo nuclear de 2015, uma resposta europeia às violações do acordo pelo Irã. China e Rússia afirmaram que a medida violava o direito internacional.
A China também considerou as sanções impostas por Washington ao Irã ilegais. No entanto, como as sanções ameaçam as empresas que fazem negócios com o Irã com penalidades que incluem o bloqueio do sistema financeiro internacional, Pequim tem se mostrado cautelosa em expor suas grandes empresas aos riscos de sanções. As autoridades alfandegárias chinesas não relataram nenhuma compra de petróleo bruto iraniano desde 2023.
Além de visar as exportações iranianas de produtos energéticos, Washington impôs sanções à maioria dos bancos iranianos, incluindo seu banco central, tornando extremamente difícil a transferência de dinheiro para o Irã.
Solução oculta da China
O sistema pelo qual o petróleo bruto iraniano é trocado por infraestrutura construída pela China envolve dois atores principais: a grande seguradora estatal chinesa Sinosure e um mecanismo de financiamento baseado na China, ao qual todas as autoridades se referiam como Chuxin.
As autoridades construíram sua compreensão do sistema por meio de documentos financeiros, avaliações de inteligência e canais diplomáticos.
No acordo, uma empresa controlada pelo Irã registra a venda de petróleo para um comprador chinês, que é controlado pela estatal Zhuhai Zhenrong, alvo de sanções dos EUA.
O comprador chinês, em troca, deposita centenas de milhões de dólares todos os meses na Chuxin, disseram as autoridades. A Chuxin então entrega os fundos a empreiteiras chinesas que realizam trabalhos de engenharia no Irã, em projetos cujo financiamento é assegurado pela Sinosure. A Sinosure atua como a cola financeira que mantém os projetos unidos.
A Chuxin não está nomeada entre as quase 4.300 instituições bancárias registradas pelo principal regulador do setor na China e não pôde ser encontrada em listas oficiais de instituições financeiras e registros de empresas disponíveis ao público.
O petróleo iraniano que chega à China segue uma rota indireta para mascarar sua origem, envolvendo transferências entre navios e, muitas vezes, misturando-o com petróleo de outras nações, afirmam o governo dos EUA e especialistas do setor.
Seguradora de Pequim
A Sinosure, conhecida como China Export & Credit Insurance, é uma ferramenta financeira do governo central da China que apoia as prioridades de desenvolvimento internacional de Pequim — um mandato com particular importância em um local politicamente sensível como o Irã.
A Sinosure investiu mais de US$ 9 trilhões em atividades de comércio em todo o mundo até o final do ano passado, de acordo com a própria empresa.
No Irã, os projetos de infraestrutura chineses tendem a ser grandes empreendimentos estatais, incluindo aeroportos, refinarias e projetos de transporte, administrados pelos maiores bancos estatais e grupos de engenharia da China.
A China assumiu mais de US$ 25 bilhões em compromissos financeiros para construir infraestrutura no Irã entre 2000 e 2023, de acordo com a AidData, um laboratório de pesquisa da William & Mary em Williamsburg, Virgínia.
A Sinosure teve um papel direto em 16 dos 54 negócios documentados.
Os EUA, que usaram sanções direcionadas contra empresas chinesas, não colocaram as empresas em uma lista por realizarem trabalhos civis no Irã. Nem miraram um grande banco chinês.
Não foi encontrada nenhuma documentação de domínio público que vincule diretamente a Sinosure ao acordo de petróleo por construção no Irã.
Em resposta a perguntas, o Ministério das Relações Exteriores da China afirmou desconhecer o acordo, opor-se a sanções unilaterais ilegais e que o direito internacional permite a cooperação normal entre as nações. Zhuhai Zhenrong e a Sinosure não responderam aos pedidos de entrevista sobre o acordo.
Autoridades da missão iraniana nas Nações Unidas não comentaram sobre o mecanismo de pagamento ou sobre as compras de petróleo da China.
A estrutura da China para a execução de obras de infraestrutura no Irã provavelmente reflete um acordo documentado com a Sinosure no Iraque, afirmou Brad Parks, diretor executivo da AidData. Sob esse acordo de 20 anos, a Sinosure garante empréstimos chineses para projetos locais em troca de petróleo.
“Todos os credores e empreiteiros de construção devem estar sob essa égide”, disse Parks. As obras de infraestrutura chinesas no Irã aumentaram desde o acordo de parceria de 25 anos firmado em 2021. Os projetos são essenciais para o Irã, que tem lutado para manter serviços básicos, como água e eletricidade.
O Irã também consegue recuperar parte de sua receita com a venda de petróleo comprando produtos diretamente da China. Autoridades americanas afirmam que o país consegue trazer parte dessa receita de volta à região.
“Entidades iranianas dependem de redes bancárias paralelas para driblar sanções e movimentar milhões”, disse John K. Hurley, subsecretário do Tesouro para terrorismo e inteligência financeira, no mês passado, anunciando sanções a pessoas e entidades nos Emirados Árabes Unidos e Hong Kong por supostamente coordenarem a transferência de fundos.
Nem a Sinosure, nem a Chuxin foram atingidas por sanções americanas. O Departamento do Tesouro se recusou a comentar a descrição das atividades das empresas chinesas.
A fábrica da Nissan já foi sinônimo da ascensão industrial do Japão no pós-guerra. Inaugurada na década de 1960, a unidade foi uma das primeiras fábricas de automóveis a implementar a robótica. Além disso, foi ali onde a Nissan, em 2010, começou a fabricar o Leaf, seu primeiro veículo elétrico de massa.
Nos próximos dois anos, o CEO da Nissan, Ivan Espinosa, fechará a fábrica, esvaziando uma cidade de cerca de 30.000 habitantes que orgulhosamente enviava gerações de crianças em idade escolar para excursões à fábrica.
Com o caixa sangrando e sofrendo com erros de gestão, a Nissan tem, sem dúvida, o cenário mais sombrio entre todas as grandes montadoras. Seu futuro como montadora independente foi posto em dúvida.
O resgate da Nissan cabe a Espinosa, um mexicano de 46 anos, com uma longa trajetória na empresa. Ele recebeu a oferta do cargo em uma sexta-feira de março, logo após a Nissan anunciar um prejuízo trimestral recorde, fracassar em um acordo de fusão para ser resgatada pela Honda e demitir seu CEO. Espinosa superou a apreensão com o tamanho da tarefa e foi anunciado como o novo CEO na terça-feira seguinte, 11 de março.
Seu trabalho, diz ele, é impulsionar mudanças, “mesmo que algumas delas sejam um pouco dolorosas”.
O prédio onde ele se sentou para uma entrevista, a sede da Nissan em Yokohama, é um exemplo. A Nissan — a nona maior montadora em volume de vendas do mundo, segundo a empresa de pesquisa Inovev — poderia vender o prédio para levantar dinheiro.
“A Nissan não está lucrando hoje”, disse Takaki Nakanishi, chefe da consultoria automotiva Nakanishi Research Institute, com sede em Tóquio. “Se a Nissan não conseguir reverter seus números, não há futuro.”
CEOs do setor automobilístico em Detroit, Japão e Alemanha estão lidando com a ascensão das fabricantes chinesas de veículos elétricos. E o consequente colapso da participação de mercado na China, o maior mercado automotivo do mundo. Eles precisam fazer enormes investimentos em carros elétricos, inteligência artificial e direção autônoma, sem saber para onde essas tecnologias estão indo.
A pressão do presidente Trump para retornar a produção aos EUA por meio de tarifas acrescentou mais um desafio ao setor. Embora fabrique carros nos EUA, a Nissan também os exporta do México e do Japão para concessionárias americanas.
A empresa afirma que as tarifas devem custar cerca de US$ 2 bilhões em lucros cessantes no ano fiscal encerrado em março.
O volume de vendas da Nissan atingiu o pico de 5,8 milhões de carros no ano fiscal de 2017, quando obteve um lucro líquido de 750 bilhões de ienes, equivalente a US$ 5 bilhões nas taxas atuais.
Mas a empresa despencou para um prejuízo líquido quase recorde de US$ 4,5 bilhões no ano passado, e o preço de suas ações caiu 70% desde o pico do volume de vendas.
Outras marcas de ponta também estão sentindo o impacto.
A Honda prevê que o lucro líquido caia pela metade no atual ano fiscal.
O preço das ações da Stellantis, dona da Jeep, caiu 40% desde a introdução das tarifas em março. As ações da Volkswagen caíram quase 10%.
A posição de Espinosa atrai comparações inevitáveis com a do único outro CEO não japonês a liderar a Nissan: Carlos Ghosn, que também estava na casa dos 40 anos quando chegou ao Japão em 1999, vindo da Renault, com a missão de salvar a Nissan. Na época, a marca estaava em crise devido a dívidas infladas e altos custos. Ghosn também fechou fábricas e cortou empregos, levando a montadora à lucratividade.
Espinosa X Ghosn
Mas as diferenças entre Espinosa e Ghosn são gritantes.
Ghosn trouxe o tipo de carisma que inspirou uma editora japonesa a criar um mangá sobre ele.
Sua vida foi repleta de cenas cinematográficas — crescendo no Líbano como filho de um homem que passou uma década na prisão por assassinato e se tornando um CEO viajante e ricamente remunerado.
A carreira de Ghosn na Nissan terminou quando promotores japoneses o acusaram de deturpar seu salário e roubar da empresa. Antes que pudesse ir a julgamento, ele fugiu do Japão, escondido em uma caixa de instrumentos musicais, para o Líbano, onde hoje não pode deixar o país sob risco de extradição e afirma sua inocência.
Após o drama de Ghosn, a Nissan escolheu um fiel companheiro de equipe, Espinosa, cujo trabalho mais chamativo era ser baterista de uma banda chamada Tempura Crime Scene.
Espinosa cresceu na Cidade do México e, quando criança, visitava a fábrica de ônibus onde seu pai trabalhava como engenheiro mecânico. Ele também se juntava ao pai para consertar carros em casa, trocando pastilhas de freio, velas de ignição ou óleo.
Um dia, quando tinha 15 anos, Espinosa viu um esportivo Nissan 300ZX na rua. Ele se lembra de correr para pegar uma revista automotiva para ler sobre sua potência e seu interior semelhante a um cockpit.
Após estudar engenharia, ele ingressou na operação mexicana da Nissan em 2003, na área de planejamento de produtos. Ele está na montadora desde então, atendendo clientes em todo o mundo. A tela de bloqueio do celular de Espinosa mostra um esportivo Z cinza-pedra, um descendente do modelo que lhe chamou a atenção na adolescência. Ele costuma levar o carro para o trabalho ou dirigi-lo em uma pista de corrida à sombra do Monte Fuji.
“O valor dos carros esportivos não é apenas financeiro, é a alma de uma empresa. E, especialmente o Z, é a alma da Nissan“, disse Espinosa, que mora em Yokohama com a família.
Espinosa acredita que a situação crítica da Nissan tem raízes na estratégia implementada por Ghosn há uma década, quando ele buscava praticamente dobrar as vendas globais da Nissan, que na época eram de cerca de quatro milhões de carros.
“A estratégia forçou a Nissan a reduzir os preços dos carros, corroendo as margens de lucro e, por fim, deixando a empresa com fábricas subutilizadas”, afirmou. “A velocidade com que a administração esperava crescer naquela época era completamente irracional”, disse Espinosa.
Um porta-voz de Ghosn disse que a situação atual da Nissan reflete “deficiências na administração” desde que ele era CEO.
Nos EUA, a Nissan não conseguiu desenvolver veículos híbridos a gasolina e eletricidade. Os híbridos ganharam popularidade durante a pandemia e se mostraram uma dádiva para a Toyota e a Honda.
O pioneiro Leaf EV da Nissan há muito tempo desapareceu na sombra de modelos como os da Tesla, que combinavam um toque descolado com maior autonomia e carregamento mais rápido. Enquanto isso, foi bombardeado por empresas locais na China, perdendo metade de suas vendas apenas nos últimos três anos fiscais.
Espinosa, o terceiro CEO da Nissan a tentar desfazer o legado de Ghosn, quer arrancar o curativo e atingir rapidamente uma capacidade anual de 2,5 milhões de carros — menos da metade do pico de vendas da Nissan.
Ele está fechando sete das 17 fábricas da Nissan em todo o mundo e demitindo 20.000 funcionários, ou 15% do total, e espera voltar ao lucro no próximo ano.
Nos EUA, a Espinosa está aumentando a produção nas duas principais fábricas da Nissan, em Smyrna, Tennessee, e Canton, Mississippi, onde fabrica o sedã Altima e os SUVs Rogue e Pathfinder, substituindo as importações.
A Nissan ainda exporta alguns modelos do Japão, como o Rogue, mas as margens de lucro desses modelos estão reduzidas devido às tarifas de 15% sobre carros japoneses, por isso a empresa está direcionando verbas de marketing para os modelos mais rentáveis, fabricados nos EUA.
Uma longa campanha publicitária envolvendo os vencedores do Troféu Heisman do futebol americano universitário deste ano os apresenta em uma viagem pelos EUA no Nissan Pathfinder e no Rogue, bem como na picape Frontier.
Na China, Espinosa planeja superar seus rivais juntando-se a eles. Os parceiros chineses da Nissan costumavam seguir sua liderança em design, mas agora a joint venture da Nissan com a montadora Dongfeng Motor está produzindo carros que atendem aos gostos chineses. A Nissan espera exportar sua tecnologia desenvolvida na China.
“Podemos, de fato, desempenhar um papel muito, muito importante na reformulação não apenas do futuro da Nissan, mas também do futuro da indústria”, disse Espinosa.
Mesmo que todas essas iniciativas funcionem, as autoridades japonesas estão preocupadas com a possibilidade de empresas como a Nissan não terem escala para inovar em áreas como inteligência artificial.
“Ainda temos alguns pontos fortes para competir”, disse Masamichi Ito, diretor da divisão automotiva do Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão. “Mas, em tecnologia de última geração precisamos nos atualizar.”
Temendo que a Nissan fosse pequena e fraca demais para sobreviver sozinha, o ministério impulsionou o plano de fusão Honda-Nissan, que foi abortado. As duas montadoras ainda estão colaborando em pesquisas de software.
Espinosa disse que a empresa ainda está aberta a um parceiro financeiro, mas ele quer que a marca Nissan perdure.
Os assessores do presidente Trump estão aconselhando-o a refinar sua mensagem econômica com um apelo aos eleitores voltado a aliviar a ansiedade com o fraco crescimento do emprego e a inflação persistente.
O novo mantra: espere até o ano que vem.
Em conversas privadas com o presidente, os assessores de Trump, em vez de se deterem em dados econômicos instáveis, pintaram um cenário otimista, insistindo que os indicadores começarão a melhorar no primeiro trimestre de 2026, segundo pessoas a par do assunto, incluindo altos funcionários do governo.
Após um relatório que mostrou apenas 22 mil novos postos de trabalho em agosto, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, disse a Trump que acredita que os números de emprego começarão a subir quando as políticas de sua lei “Big Beautiful” de impostos e gastos estiverem totalmente implementadas, rumo ao próximo ano, de acordo com uma pessoa próxima a Bessent.
Antes, em uma reunião a portas fechadas no Salão Oval, outros assessores disseram a Trump que cabia a ele decidir como abordar publicamente os dados fracos de empregos e que ele poderia simplesmente passar por cima das informações apontando para o futuro, segundo um alto funcionário do governo. Eles garantiram que os indicadores econômicos mostrarão melhorias à medida que 2025 se aproxima do fim, disse o funcionário.
O próprio Trump mudou o tom. Embora a economia tenha sido fundamental em sua bem-sucedida campanha de reeleição, agora ele parece preferir focar em imigração, crime e acertos de contas com inimigos que considera ter.
Durante um evento recente sobre autismo, o presidente desconversou sobre perguntas de repórteres a respeito da economia. “Prefiro não falar de algumas bobagens sobre a economia. Dito isso: a economia é inacreditável”, afirmou na ocasião.
Em comunicado, o porta-voz da Casa Branca, Kush Desai, disse que o governo “está focado em impulsionar reformas do lado da oferta, garantir trilhões em investimentos manufatureiros e implementar acordos comerciais históricos que irão reviver a dominância industrial dos EUA”.
O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent e o presidente Donald Trump.
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Quando fala da economia, Trump costuma se referir ao mercado de ações e apontar para o ano que vem, no mínimo, quando os eleitores começarão a sentir suas políticas. “Nosso grande ano na realidade não será o próximo — será o seguinte”, disse ele recentemente a repórteres.
Isso representa uma mudança acentuada na mensagem de Trump desde as primeiras semanas no cargo, quando a economia era o centro de sua comunicação.
As primeiras ações econômicas de Trump estão entre as mais disruptivas em gerações. Ele impôs tarifas abrangentes sobre quase todas as importações — com mais por vir —, reduziu a imigração a quase zero enquanto ampliou deportações e pressionou empresas a firmarem acordos com seu governo.
O presidente inicialmente previu que essas medidas inaugurariam uma idade de ouro. Isso ainda não aconteceu, embora Trump continue a vangloriar-se de uma economia forte. Alguns indicadores são positivos. O PIB cresceu a uma taxa anualizada de 3,8% no segundo trimestre e caminha para um ritmo semelhante no terceiro trimestre, encerrado nesta semana.
Mas alguns dados econômicos importantes ainda estão atrasados.
O crescimento mensal do emprego diminuiu. Mesmo que as tarifas não tenham elevado os preços tanto quanto economistas esperavam inicialmente, a inflação continua a frustrar consumidores, já que os preços dos bens seguem em alta. Casas continuam sendo vistas como inacessíveis em todo o país.
A opinião pública sobre a liderança de Trump na economia tornou-se mais negativa nos últimos meses. Apenas 37% dos adultos ouvidos em setembro aprovaram a condução da economia por Trump, segundo pesquisa AP-NORC, enquanto 62% desaprovaram. Em uma pesquisa recente do New York Times, 45% dos eleitores disseram que Trump piorou a economia desde que assumiu, enquanto 32% disseram que ele a melhorou.
O presidente e seu partido estão sob enorme pressão para melhorar o sentimento público sobre a economia. Trump e os republicanos caminham para eleições legislativas de meio de mandato em 2026 consideradas difíceis, em que os democratas têm chance de conquistar a maioria tanto na Câmara quanto no Senado. Um prolongado fechamento do governo poderia azedar ainda mais o humor dos eleitores com os republicanos, especialmente se subsídios de saúde não forem renovados, elevando custos para muitos americanos.
Alguns assessores do presidente tentam lapidar as falas republicanas para enfatizar os esforços do partido em ajudar a classe média.
Durante um jantar em agosto em Jackson Hole, Wyoming, com doadores republicanos, o pesquisador Tony Fabrizio e o veterano consultor político Chris LaCivita disseram aos presentes que haviam informado o presidente sobre levantamentos internos mostrando que o apelido “One Big Beautiful Bill” não agradava aos eleitores. A legislação emblemática de Trump talvez precisasse de uma nova marca, disseram, segundo uma pessoa presente. Em vez disso, os republicanos deveriam passar a se referir à lei como um corte de impostos para famílias trabalhadoras. Desde então, os republicanos adotaram essa formulação.
Economistas independentes dizem que muitas políticas de Trump, especialmente sobre imigração e tarifas, tendem a pesar sobre o crescimento e elevar custos, ao menos no curto prazo. Muitos desses economistas esperam melhora no ano que vem, à medida que a incerteza em torno das tarifas diminui e o Fed reduz os juros.
Para autoridades do governo, mudar de rumo não é opção. Em seu primeiro mandato, Trump se irritava com auxiliares que tentavam conter seus impulsos. Gary Cohn, seu primeiro diretor do Conselho Econômico Nacional, por exemplo, retirava cartas e memorandos relacionados a comércio da mesa de Trump antes que o presidente pudesse assiná-los, disseram autoridades à época.
Em contraste, Stephen Miran, um dos principais assessores econômicos de Trump que recentemente ingressou no conselho de governadores do Fed, às vezes parece minimizar indicadores negativos. Neste verão, após um relatório fraco de empregos, Miran reduziu a importância dos números em entrevistas na TV a cabo e a repórteres. Os dados eram resultado de fatores técnicos, disse, acrescentando que o emprego voltaria a crescer nos próximos meses.
Conselheiros externos também escolhem suas batalhas. Art Laffer, economista pró-livre-comércio que assessorou o presidente Ronald Reagan, não critica as ideias de Trump durante as reuniões.
Laffer diz ter conversado com Trump sobre como a Lei Tarifária Smoot-Hawley, de 1930, elevou tarifas de importação sobre milhares de produtos, levando à retaliação e a uma depressão mais profunda, para sustentar seu argumento de que tarifas podem voltar a prejudicar a economia dos EUA — tudo isso sem dizer diretamente que o presidente não deveria adotá-las. “Uma das coisas que você precisa fazer como funcionário é respaldar as decisões do presidente”, disse Laffer.
Presidente dos EUA, Donald Trump, segura um cartaz de tarifas recíprocas durante um anúncio no Jardim das Rosas da Casa Branca em Washington, DC. Foto: Bloomberg/Kent Nishimura
A confiança de Trump em seus instintos traz riscos políticos e econômicos.
“O risco é que, em algum momento, a recusa em considerar toda a gama de indicadores econômicos válidos na formulação de políticas leve o governo a um erro colossal”, disse Russell Riley, copresidente do programa de história oral presidencial da Universidade da Virgínia.
Por ora, porém, grande parte do retorno que Trump tem recebido é positivo.
O secretário de Comércio, Howard Lutnick, em uma reunião com o presidente, comparou Trump a um comandante da Marinha dos EUA do século XIX chamado Matthew Perry, que pressionou o Japão a abrir mais seus mercados ao Ocidente, segundo autoridades do governo. Para isso, Perry liderou uma frota de navios de guerra até o Japão e exigiu que abrissem seus portos aos navios americanos.
Lutnick disse a Trump que Perry parou antes de abrir totalmente os mercados japoneses, segundo um dos funcionários. Ao firmar um acordo comercial com o Japão, argumentou Lutnick, Trump conseguiu onde Perry falhara.
Um trem elevado corta um arranha-céu residencial. O que parece uma praça no nível da rua é também o telhado de um prédio de 22 andares na encosta de um penhasco. À noite, o horizonte de neon se ilumina como uma cena de Blade Runner. Construída sobre montanhas, Chongqing é uma megacidade na China que parece ter saído de um filme de ficção científica.
E foi exatamente por isso que os aposentados da Flórida, Bev e John Martin, precisavam visitá-la. “Era um banquete para os olhos em todos os lugares”, disse Bev, 62.
Há muito tempo a China encanta os visitantes com maravilhas como a Grande Muralha e os guerreiros de terracota enterrados em uma tumba antiga. Agora, os visitantes estão se deslumbrando com a visão de Chongqing de uma cidade cyberpunk do mundo real.
Até alguns anos atrás, Chongqing era, em grande parte, uma resposta trivial: a cidade mais populosa do mundo, segundo alguns critérios, com 32 milhões de habitantes em uma área do tamanho da Carolina do Sul.
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Os aficionados pela história da Segunda Guerra Mundial a conheciam como a capital dos nacionalistas chineses durante a guerra.
Então, vídeos virais de sua arquitetura impensável mudaram sua imagem. De repente, muitos viajantes chineses e internacionais sentiram que precisavam visitá-la.
Chongqing recebeu 120 milhões de turistas que pernoitaram no ano passado, um aumento de 17% em relação a 2023.
No primeiro semestre deste ano, os postos de controle de fronteira de Chongqing receberam um número recorde de estrangeiros — mas apenas 330.000, então os visitantes estrangeiros que chegam aqui ainda podem se gabar de ter visitado uma joia escondida.
Há poucos voos diretos da Europa e dos EUA, então muitos visitantes fazem escala em Pequim ou Xangai.
Muitos atribuem o aumento do turismo a influenciadores das redes sociais, como o “Trump Chinês”, um nativo de Chongqing chamado Ryan Chen, que imita perfeitamente o presidente dos EUA enquanto come o típico ensopado picante da cidade. Ou o morador local Jackson Lu, que mostra uma viagem de ônibus em espiral em uma rodovia elevada de 20 andares em um vídeo com 56 milhões de visualizações no TikTok e no Instagram.
Lu, um guia turístico de 28 anos, disse que a maioria dos arranha-céus foi construída durante sua vida. Mas o charme é que eles são cercados por prédios de apartamentos imponentes e sem elevadores da década de 1980, onde as pessoas penduram roupas para secar em grades de metal nas janelas.
“Há um choque entre o antigo e o novo”, disse ele. Seu sonho era fazer de Chongqing o cenário de um filme de ação com Tom Cruise.
Muitos visitantes internacionais precisam solicitar vistos de turista, incluindo Felix Donaldson, um pesquisador acadêmico britânico de 29 anos, que passou uma noite em Chongqing em um cruzeiro fluvial noturno.
A China se tornou mais fácil de navegar para pessoas que não falam mandarim, como Donaldson. Aplicativos de pagamento e tradução tornaram as coisas mais tranquilas. Sua única reclamação: banheiros agachados.
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A cidade pode estar em seu período “Cachinhos Dourados”: conveniente o suficiente para estrangeiros, mas ainda não tão lotada deles.
O esforço valeu a pena para Bev e John Martin, que documentaram sua viagem no YouTube, mostrando pontos turísticos como uma rua iluminada por neon e o teleférico do Rio Yangtze.
“Chongqing é a cidade desconhecida, mas fabulosa, que você precisa visitar”, disse Bev.
Taylor Swift compôs e lançou álbuns por seis anos até conquistar o primeiro primeiro lugar na parada Hot 100. A música We Are Never Ever Getting Back Together, com sua bateria estrondosa e feita para agitar estádios lotados, marcou o início da transição de Swift do country para o pop.
Ela compôs a música com a ajuda de Max Martin e Shellback, produtores suecos com um histórico de sucessos quase inigualável. “Sempre fui fascinada pela forma como Max Martin consegue acertar um refrão”, disse Swift à Billboard em 2012. “Ele vem até você e te acerta — tudo em letras maiúsculas e com pontos de exclamação.”
Martin, 54, passou a carreira construindo sucessos instantaneamente reconhecíveis para Britney Spears, Backstreet Boys, Kelly Clarkson, Katy Perry, The Weeknd e Ariana Grande. Seu trabalho com Taylor Swift em “Red”, “1989” e “Reputation” ajudou a catapultá-la para o topo do pop.
Embora Taylor Swift tenha se aventurado em outros gêneros e trabalhado com diferentes colaboradores, ela se reuniu com Martin depois de quase oito anos para produzir seu mais recente álbum, The Life of a Showgirl, lançado na sexta-feira (3).
Para Taylor Swift, este álbum marca o retorno ao tipo de sucesso que te prende e que Martin, cujo nome completo é Karl Martin Sandberg, tornou sua marca registrada. “As músicas pop mais divertidas e cativantes que existem”, disse Dan Cash, fã de Taylor Swift e que posta sobre a cantora no TikTok. “O lirismo de Taylor e a produção de Max são simplesmente a perfeição mágica do pop.”
Martin — bronzeado e com cachos esvoaçantes — é um dos compositores mais bem-sucedidos da história. Ele coescreveu 27 sucessos número 1. Essa marca só fica atrás da alcançada por ninguém menos que Paul McCartney.
Frequentemente descrito como tímido por aqueles que trabalham com ele, ele raramente concede entrevistas e se recusou a falar com o The Wall Street Journal.
Mas seus colaboradores têm algumas teorias sobre o que o torna um criador de sucessos inimitável: seu ouvido atento aos detalhes, sua experiência como cantor e sua disposição em recrutar colaboradores dinâmicos que mantêm seus discos atualizados com os últimos lançamentos.
A tradição da indústria musical está repleta de artistas meticulosos — o engenheiro Bruce Swedien explicou certa vez que Michael Jackson fez 91 mixagens diferentes de “Billie Jean”.
“Martin é obsessivo e está sempre disposto a ficar acordado por três dias só para acertar o som da bateria”, diz Martin Dodd, executivo de A&R que trabalhou com o produtor.
Gary Barlow, vocalista do grupo pop britânico Take That, conheceu Martin quando ele embarcava em carreira solo no final dos anos 1990. “Sou um cantor bastante proficiente, e eles me deixaram no estúdio por horas, ajustando os mínimos detalhes”, disse Barlow. “Não se tratava apenas dos quatro versos do refrão. Cada verso era importante.”
Martin não está apenas superando a concorrência.
Embora evite os holofotes, “ele é provavelmente um dos melhores cantores que já conheci na vida”, disse Chad Wolf, vocalista do Carolina Liar.
O Carolina Liar colaborou com Martin em dois álbuns, resultando em músicas que apareceram em programas populares como The Hills e One Tree Hill. “Há algo na abordagem dele ao cantar que é a coisa mais triste que você já ouviu”, disse Wolf. “Os cantores sabem que ele é o cara nesse sentido, e ele consegue extrair algo de você que você nem sabe que está na música ainda.”
Barlow, vocalista do Take That, também expressou admiração pelas habilidades vocais de Martin. “A maneira como ele termina as notas, como ele se liga nas notas, como as vogais soam, as escolhas de sons que ele usa nas letras que escreve — é simplesmente inteligente”, disse.
Isso dá a Martin uma posição sólida quando ele pede aos artistas que tentem uma abordagem semelhante. “Você não se importa em ser torturado quando alguém consegue cantar como ele”, disse Barlow, brincando.
Após uma fase inicial de sucesso no final dos anos 1990 com Spears (“…Baby One More Time”), Backstreet Boys (“I Want It That Way”) e NSYNC (“I Want You Back”), Martin atingiu um obstáculo criativo no início dos anos 2000. “Começamos a nos repetir, a usar os mesmos sons e a não ser criativos o suficiente”, disse ele em 2020.
Para evitar que isso aconteça novamente, ele tem tido o cuidado de buscar coautores — Ali Payami, Savan Kotecha, Shellback entre outros — que o desafiem, colaboradores para os quais ele “tem medo de tocar”, como disse em 2020.
Antes de Wolf começar a gravar com Martin, ele dizia: “Quero trazer Shellback, porque acho que precisamos de alguém mais jovem, com vontade, para ter energia e uma nova perspectiva”.
Shellback, que tocou em bandas de metal antes de unir forças a Martin, adaptou-se rapidamente ao novo ambiente. Um de seus primeiros créditos foi em “So What”, do P!nk, que alcançou o primeiro lugar na Hot 100.
Quando Martin recebeu o Polar Music Prize, uma homenagem sueca que também foi concedida a Bruce Springsteen e Paul Simon, em 2016, ele elogiou Shellback em seu discurso. “Esse cara mudou minha vida”, disse Martin. “Esse cara é um gênio. Agora tenho que acompanhá-lo.”
“Max sempre sabe como se conectar com pessoas que podem ter outras habilidades que ele não tem”, disse Chris Anokute, ex-executivo de A&R que trabalhou em “Teenage Dream”, de Katy Perry, o álbum de 2010 que incluiu quatro sucessos número 1 coescritos por Martin. “Saber como encontrar pessoas que entendem o cenário atual, colaborar com elas e nutri-las é a razão pela qual ele ainda é dominante.”
Assim como Prince (que é um dos ídolos de Martin), ele é adepto de muitos estilos. “Since You’ve Been Gone”, de Kelly Clarkson, é um rock estrondoso e intenso. “Blinding Lights”, de The Weeknd, presta homenagem ao synth-pop dos anos 1980. “Send My Love (To Your New Lover)”, de Adele, se inspira no soul acústico dedilhado.
Quando Martin se conectou com Taylor Swift, ela já havia curtido grandes sucessos como “You Belong With Me” e “Love Story”, que começou no country e saltou a barreira para o pop. Desta vez, ela planejava abrir um buraco direto na divisória.
Suas músicas com Martin são mais densas e musculosas. Os sintetizadores têm toda a delicadeza de uma escavadeira, e a voz de Taylor Swift é tão complexa que suas melodias pastosas também geram um impacto incrível.
“Quando Taylor Swift ligou, não foi tipo: ‘Hum, eu deveria fazer isso?'”, disse Martin em 2016. Ele descreveu trabalhar com a estrela como “uma escolha fácil”. Martin contribuiu para três músicas de “Red”, além da maioria de “1989” e “Reputation”.
As músicas que eles fizeram juntos não são apenas algumas das favoritas da cantora — elas também estão entre as mais populares.
Ele é um charmoso surfista australiano que joga videogame e é faixa preta do jiu-jitsu. E acabou de transformar um de seus hobbies e laços sociais em um acordo de US$ 55 bilhões. Andrew Wilson, de 51 anos, é o CEO da Electronic Arts (EA) e, no momento, o garoto de ouro do mundo dos negócios.
A potência dos videogames confirmou na segunda-feira (29) que fecharia o capital em uma venda de US$ 55 bilhões para um grupo de investidores, incluindo o Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita, a empresa de private equity Silver Lake e a empresa de investimentos Affinity Partners, de Jared Kushner.
O acordo, que o The Wall Street Journal noticiou pela primeira vez que estava se aproximando da linha de chegada na semana passada, deve ser a maior aquisição de todos os tempos.
A filosofia de negócios de Wilson segue o que ele aprendeu no jiu-jitsu, a prática de artes marciais que ele estuda desde os 20 anos.
“É muito cerebral e muito calculado”, diz ele. “Quase sempre envolve encontrar o sucesso por caminhos inesperados, desconhecidos e territórios não testados.”
Tudo começou anos atrás, com uma amizade crescente entre Wilson e Egon Durban, co-CEO da Silver Lake. Eles têm casas de férias no Havaí; suas esposas jogam golfe juntas e os dois já fizeram viagens de surfe e golfe para a Costa Rica e o México.
Wilson até ensinou jiu-jitsu a Durban: “Ele me jogava de um lado para o outro como uma boneca de pano, sorrindo, e ainda me fez estrangulá-lo”, diz Durban.
Durban elogia a inteligência de Wilson e lhe dá o crédito pela construção dos negócios esportivos da EA, que ele descreveu como a “joia da coroa” da empresa. Os jogos da EA incluem Madden NFL e o gigante do futebol FC, que os fãs fervorosos ainda chamam pelo nome original FIFA.
Durban conheceu Jared Kushner, da Affinity Partners, em uma conferência no início deste ano. “Tenho uma ideia para você”, disse ele a Kushner, sabendo que Kushner tinha um relacionamento com o fundo saudita, que detinha uma participação de 10% na EA. “Você deveria conhecer meu amigo Andrew.”
Kushner passou um tempo com Wilson e o apresentou à liderança do fundo saudita.
Wilson, Durban, Kushner e os líderes do fundo saudita se reuniram no escritório de Silver Lake, em Menlo Park, neste verão (no hemisfério norte), e as conversas se intensificaram após o Dia do Trabalho.
“O investimento será divertido e, além disso, poderemos passar mais tempo como amigos, trabalhando juntos para vencer”, diz Durban.
Um acordo pessoal
Para Wilson, o acordo também é pessoal. Ele deve continuar liderando a empresa após o fechamento do acordo, previsto para o ano que vem. “Eu amo esta empresa mais do que qualquer outra coisa no mundo”, diz ele. “Sinto uma profunda lealdade e afinidade com nossa equipe.”
Wilson, que é de Geelong, na Austrália, cresceu jogando em seu Atari. Depois de surfar, ele jogava o jogo de luta Double Dragon em um fliperama em frente à loja da família de seu amigo. Enquanto jogava, via filmes de Bruce Lee, Chuck Norris e Jean-Claude Van Damme.
Wilson ingressou na EA em 2000 para trabalhar em jogos de surfe e rúgbi.
No início de sua carreira na EA, Wilson foi produtor executivo da franquia de maior sucesso da EA: o FIFA. Wilson ajudou a criar o modo Ultimate Team, que permite aos usuários montar seus próprios elencos de jogadores famosos com compras no jogo.
A receita com o recurso agora é maior do que as vendas do próprio jogo.
“Não é exagero dizer que o Ultimate Team mudou drasticamente a trajetória dos negócios da EA”, disse Clay Griffin, analista sênior da MoffettNathanson que cobre a indústria de videogames.
Wilson foi nomeado CEO em 2013, após a EA receber o prêmio Golden Poo do site de defesa do consumidor Consumerist, como a “pior empresa dos Estados Unidos”, pelo segundo ano consecutivo.
A distinção foi baseada em uma pesquisa online, que em 2012 registrou mais de 250 mil votos. Só receberam a “honraria” empresas com péssimo atendimento ao cliente e outras reclamações.
Para a EA, as críticas se concentraram em complementos, custos no jogo e no histórico de comprar empresas menores de jogos.
Sob o comando de Wilson, o preço das ações da EA mais que se septuplicou. Ele recebeu US$ 30,5 milhões no ano fiscal de 2025 da EA, de acordo com um documento da empresa.
A EA enfrentou problemas em outras áreas, com alguns jogos não esportivos lutando para ganhar força com os usuários.
O jogo Anthem, um RPG de combate multijogador ambientado em um planeta fictício, foi criticado por grande parte da comunidade de jogadores. Uma análise da PC Gamer o chamou de “cheio de bugs e, às vezes, sem alma”. Em janeiro, a empresa afirmou que um novo lançamento, Dragon Age: The Veilguard, tem cerca de 1,5 milhão de jogadores, cerca de metade do número previsto pela EA.
Wilson ajudou a lançar o aplicativo de esportes da EA e, em 2023, após o fim de um relacionamento de décadas com a FIFA, renomeou sua franquia de futebol homônima como FC. Ele também relançou a franquia de jogos College Football no ano passado.
Wilson joga videogames regularmente — da própria EA — e também acompanha a competição. “É trabalho”, ele disse anteriormente, “mas também é divertido”.
Ele ainda é presidente da World Surf League, que organiza e sanciona competições profissionais de surfe, e faz parte do conselho do Paley Center for Media. Wilson mora com a esposa e os dois filhos no Vale do Silício.
Kron Gracie, lutador de MMA e condecorado competidor de jiu-jitsu que frequentemente treina com Wilson quando ele está na Bay Area, disse que ele tem “um bom estrangulamento” — mas não quis revelar muitos de seus segredos estratégicos. “Ele está disposto a levar uma surra se for preciso, a ser derrotado e depois voltar”, disse Gracie.
A violinista Rose Crelli adora cachorros. Ela cresceu com cães de trenó no Alasca e sempre acaricia um na rua. Se tivesse que dar uma nota de 1 a 10 para o seu amor, seria 10.
Mas Crelli, de 29 anos, começou a achar que talvez São Francisco seja muito amigável com cachorros. Enquanto ela e uma amiga tomavam café no parque Alamo Square, a dupla foi abordada por cinco cães diferentes, sem coleira, em uma área que exige o uso de coleira. O último, um golden retriever, deixou Crelli furiosa.
“Ele literalmente se lançou sobre o meu doce, lambeu e o cobriu de baba”, disse ela. O dono do cachorro viu tudo e continuou andando.
São Francisco é para amantes de cães. Possui amplos espaços verdes, guloseimas atrás de cada balcão e praias onde os cães podem correr e se refrescar nas ondas. Mas os amantes de cães, os que odeiam cães e os que são neutros em relação a eles estão se encontrando em uma aliança desconfortável contra um grupo que, segundo eles, está explorando a tolerância da cidade.
Patas estão nos balcões das cafeterias e ninguém se mexe. Croissants estão sendo roubados das mãos de clientes famintos por labradores pretos ainda mais famintos. Os corredores da Target e da Trader Joe’s estão cheios de “animais de serviço” que parecem não se lembrar de muita coisa do seu treinamento.
Ralph Migdal diz que os moradores locais esperam cada vez mais levar seus cães para qualquer lugar, o que ele não se importaria se seus donos tomasse conta dos cachorros.
O homem de 63 anos estava em um colchonete fazendo abdominais em sua academia quando o cachorro de alguém se aproximou e o lambeu. “Eu simplesmente não acho legal levar uma lambida na cara na academia”, disse Migdal. Quando alertou o dono, que estava ao celular, ele disse: “Desculpe, cara”. E só.
Chandra Wilson se mudou para São Francisco em parte por causa da aceitação dos cães por lá. Profissional de biotecnologia, Wilson tem uma Dachshund com 64.000 seguidores no Instagram.
Wilson leva Clementine para todos os lugares onde ela possa entrar, incluindo restaurantes e butiques. Foram ao zoológico no dia do cachorro e várias pessoas comentaram que Clementine se comportava melhor do que crianças.
Wilson espera que os cães tenham etiqueta básica. Há alguns meses, em uma loja Target em São Francisco, ela observou um comportamento impróprio para um animal de serviço.
“Vi o cachorro fazendo cocô, que ficou no chão, ninguém recolheu”, diz Wilson, 33 anos. “As pessoas ficaram um pouco perplexas.”
O gerente de uma loja Trader Joe’s local diz que o volume de cães andando pelos corredores é incontrolável.
Clare O’Malley, que trabalha com finanças e acabou de se mudar de Chicago para a região, não tem cachorro, mas descobriu que São Francisco é a cidade mais amigável a cães que já viu. “Eu não esperava encontrar cachorros em bares esportivos”, diz ela.
Enquanto estava do lado de fora de uma cafeteria com uma amiga em agosto, acariciando um cachorro, O’Malley, 33, observou dois labradores pretos se aproximando, “parecendo tão dóceis e despretensiosos”.
Num piscar de olhos, um deles pulou e arrancou um croissant da mão de um homem. O’Malley conta que o dono confessou que aquela não era a primeira vez. “É como se fosse uma coisa comum”, diz O’Malley. “Aquele cachorro é conhecido por roubar croissants e agir com inocência.”
Foto: The Wall Street Journal
Comportamento dos cães
Como presidente do conselho do grupo de voluntários do Parque Lafayette, Steffen Franz ouve todo tipo de reclamação sobre cães. Franz, que também mora do outro lado da rua, diz que não é incomum ouvir latidos descontrolados ou pessoas ao celular enquanto seus cães se perdem em áreas que exigem coleiras.
“O contrato social para posse de cães se desgastou”, diz ele. Os donos de cães costumavam se respeitar. Mas a Covid inaugurou uma nova era de direitos.
“Antigamente, parecia que, se seu cachorro se comportasse mal, um grupo de pessoas vinha até você e dizia: ‘Ei, cara, isso não é legal'”, diz Franz, dono de Aroux, um pastor alemão mestiço. “Agora sinto que todo mundo vira as costas.”
As ligações para o Departamento de Parques e Recreação de São Francisco sobre cães sem coleira aumentaram 6% no último ano em comparação com o ano anterior, embora ainda sejam raras.
O passeador de cães Chris Laraway raramente vê cães se comportando mal. “Os cães de São Francisco estão indo bem”, ele diz. “São as pessoas que estão exagerando.”
Ele leva cães para estabelecimentos e eventos locais. Frequentemente, os funcionários os convidam para entrar. Uma mulher certa vez gritou com ele quando um Bernedoodle de 23 quilos pulou em uma cama em um leilão de espólio. “Não é como se eu o deixasse fazer isso”, diz ele. “Ele está sendo um cachorro.”
Xenia Giol, uma treinadora de cães local, sente-se dividida; ela quer que os cães vivam suas melhores vidas, mas acredita que alguns donos precisam assumir mais responsabilidade.
Recentemente, em um Whole Foods, Giol viu um funcionário confrontar um cliente, dizendo que cães não eram permitidos. O dono disse que o cão era um animal de serviço e foi embora.
“Então, eles colocaram o cachorro no carrinho de compras”, conta Giol.
Em outra ocasião, no Dolores Park, um amigo descreveu a Giol como um grupo de amigos da tecnologia comemorando um aniversário circulava em volta de um bolo de aparência cara.
Assim que terminaram de cantar, um cachorrinho correu para o bolo, deu uma mordida e saiu correndo, deixando o grupo sem palavras. “Era o meu cachorro”, diz Giol sobre seu poodle mini, um labrador e um shih tzu. “Não levo mais meu cachorro ao parque.”
Finalmente convencidos de que é hora de se afastar, fundadores de empresas decidem que são necessários dois sucessores — apesar do histórico heterogêneo de empresas lideradas por co-CEOs.
Daniel Ek, do Spotify, é o mais recente empreendedor a ser sucedido por uma dupla de CEOs. A gigante do streaming de música anunciou que os copresidentes Alex Norström e Gustav Söderström se tornarão seus co-CEOs em 1º de janeiro. A Oracle, fundada por Larry Ellison, acaba de anunciar sua segunda dupla de co-CEOs em 11 anos. A Comcast também escolheu um co-CEO para se juntar ao líder de longa data Brian Roberts, cujo pai fundou a empresa de mídia em 1963.
Duas cabeças pensam melhor do que uma, argumentam alguns conselhos, porque podem trazer habilidades complementares para a função exigente.
A abordagem continua rara, mas tem se tornado popular entre empreendedores que estão passando o bastão.
Um levantamento feito com base no Índice Russell 3000, que mede o desempenho das 3.000 maiores empresas de capital aberto incorporadas dos EUA, mostra que, das 33 empresas com co-CEOs, em dois terços delas os executivos incluíam ou substituíam o fundador.
“Alguns fundadores podem achar que é indispensável e não quer entregar ‘seu bebê’ a uma só pessoa”, disse Ranjay Gulati, professor da Harvard Business School que estudou transições de liderança entre CEOs de startups.
Outros fundadores acreditam que são necessárias várias pessoas para assumir as responsabilidades que acumularam desde o início. “Eles estão se protegendo, dizendo: ‘Não podemos colocar todos os ovos na mesma cesta'”, disse ele.
Apesar de algumas brigas de alto nível, algumas duplas de sucessores conseguiram permanecer no cargo. Elas tendem a liderar em harmonia quando há uma clara delimitação de responsabilidades.
Joseph Bae e Scott Nuttall lideram conjuntamente a gigante de private equity KKR desde 2021, quando seus antecessores de longa data, os cofundadores Henry Kravis e George Roberts, tornaram-se copresidentes executivos.
A Netflix teve conjuntos sobrepostos de co-CEOs: primeiro quando o cofundador Reed Hastings compartilhou o poder com Ted Sarandos e, em 2023, quando o COO Greg Peters ascendeu para se juntar a Sarandos no comando.
A estrutura de compartilhamento de poder funcionou, dizem especialistas em governança corporativa, porque ambos os executivos trazem experiências distintas para a função.
Peters é conhecido como um guru de produtos e habilidoso na interpretação de dados, enquanto o czar de Hollywood Sarandos é visto como um gênio da programação.
Disputa de poder
No entanto, esse arranjo frequentemente cria uma disputa de poder desde o início, e muitas empresas acabam abandonando-o em pouco tempo.
A Salesforce cancelou duas vezes os experimentos com duplas de sucessores nos últimos anos, deixando o cofundador Marc Benioff no comando da plataforma de software em nuvem. A gigante alemã de software SAP abandonou seu modelo de CEO duplo na pandemia, após menos de seis meses; o CEO Christian Klein comanda a empresa sozinho desde então.
“Raramente vemos um cargo de co-CEO que funcione”, disse Raheela Anwar, presidente e CEO da consultoria Group 360 Consulting. “Você está pedindo que dois seres humanos sejam um só ser humano.”
Mas é raro ver a divisão do cargo mais alto de uma empresa acontecer. Elas representam apenas 1,2% das empresas no Índice Russell 3000 em qualquer nos últimos anos, segundo a empresa de dados de remuneração Equilar em uma análise para o The Wall Street Journal.
Esses acordos também não tendem a durar muito, constatou a Equilar.
Entre os atuais líderes das empresas que compõem o Russell 3000, a mediana dos co-CEOs compartilha o poder há 2,6 anos, enquanto a mediana dos CEOs individuais está no cargo há 5,6 anos. “Onde o modelo de co-CEOs permanece, geralmente um deles é cofundador ou eles são parentes”, disse Courtney Yu, diretora de pesquisa da Equilar.
Ainda assim, outra análise sugere que dois líderes podem ser melhores do que um para os acionistas.
O estudo, publicado na Harvard Business Review em 2022, examinou 87 empresas com co-CEOs, em comparação com cerca de 2.200 empresas globais no total.
A maioria das empresas colideradas superou o índice relevante — em média, elas registraram retornos anuais para os acionistas de 9,5%, em comparação com 6,9% dos índices.
“Isso não é compartilhamento de tarefas, é duplicação de capacidade”, disse o coautor Marc Feigen, CEO da empresa de consultoria de gestão Feigen Advisors.
No Spotify, Ek comanda a empresa que fundou há quase duas décadas. Mesmo após a transição para presidente executivo no ano que vem, ele exercerá influência significativa. Os dois co-CEOs do Spotify se reportarão a ele, e ele dedicará mais tempo ao que chama de “longo arco” da empresa, incluindo estratégia, decisões de alocação de capital, esforços regulatórios e como deve ser a próxima década do Spotify.
“Essa abordagem reflete uma configuração de presidente europeu, que é bem diferente de uma tradicional americana”, escreveu Ek em um memorando à equipe. “Isso também significa que terei mais participação ativa do que alguns dos meus colegas americanos que ocupam o cargo de presidente.”
A Dow Jones, editora do The Wall Street Journal, tem uma parceria de conteúdo com o Spotify.
A importância do conselho
Ter dois CEOs significa que os conselhos também podem resolver questões complexas para os sucessores.
Quando as empresas buscam substituir um fundador, podem relutar em escolher um executivo interno em vez de outro, temendo que a pessoa que não conseguir o cargo peça demissão em breve.
“Nomear ambos como co-CEOs ajuda a resolver esse desafio no curto prazo”, disse Gulati, professor de Harvard que escreveu recentemente o livro sobre liderança How to Be Bold.
Outro benefício do compartilhamento de poder: planejamento de sucessão emergencial. A última incursão da Oracle com co-CEOs terminou após seis anos em 2019, quando Mark Hurd se demitiu por motivos de saúde. Ele faleceu no mês seguinte, e sua co-CEO, Safra Catz, tornou-se a única líder da empresa.
Catz liderou a empresa até a semana passada, quando a Oracle disse que retornaria a um modelo de CEO duplo: Clay Magouyrk, presidente de negócios de infraestrutura de nuvem da Oracle, e o presidente da Oracle Industries, Mike Sicilia.
A casa de dois andares com telhado de terracota, em um condomínio fechado conhecido como Doral Landings East (EUA) parecia ideal para a família venezuelana de quatro pessoas que se mudou para lá há dois anos. Os vizinhos ficaram surpresos quando um dia a família desapareceu sem pagar o aluguel, segundo o proprietário, e deixando grande parte dos móveis para trás.
Um a um, venezuelanos e outros imigrantes começam a sair de Doral, um subúrbio de Miami às portas dos Everglades, conhecido por um resort de Trump, onde o presidente planeja sediar a cúpula do G-20 no ano que vem.
Muitos venezuelanos foram para lá com permissão legal temporária para trabalhar nos EUA. A liberação era parte de uma série de programas de imigração expandidos pelo governo Biden. O governo Trump está tentando revogar essa permissão, deixando mais de um milhão de estrangeiros de vários países em algum tipo de limbo legal, dependendo de seu tipo de status.
Poucos lugares nos EUA estão sentindo os efeitos da mudança na política de imigração de forma mais aguda do que Doral, onde cerca de 40% de seus 80.000 habitantes nasceram na Venezuela ou são descendentes de venezuelanos.
Alguns venezuelanos vivem ali há décadas, eventualmente se tornando cidadãos americanos e com filhos nascidos nos Estados Unidos. Outros são recém-chegados que construíram suas vidas na cidade nos últimos anos, graças aos programas temporários do governo.
Alguns dos esforços do governo Trump foram frustrados por um tribunal de apelações, mas muitos imigrantes estão partindo mesmo assim, sem saber se poderão ficar.
As taxas de vacância de apartamentos em municípios ao redor de Doral são de 4,3%. Mas em Doral mesmo, essa taxa subiu de 5,6% para 6,5% no final do ano passado.
Em alguns edifícios de Doral, a taxa de vacância é muito maior — mais de 10% em alguns casos.
Corretores de locação de prédios dizem que as vagas são motivadas por venezuelanos que fugiram. Os aluguéis em Doral caíram para o menor nível em três anos.
“Todos estão me dizendo: ‘Não posso ficar, meu status temporário está expirando'”, disse Maria Eugenia Nucete, corretora imobiliária venezuelana-americana que trabalha em Doral há décadas. Em março, ela perdeu um inquilino venezuelano que se mudou para a Itália, disse ela.
A prefeita de Doral, a republicana Christi Fraga, diz que o aumento nas vagas reflete uma combinação de fatores, embora imigrantes que estão deixando a cidade por medo de serem pegos por agentes federais também seja um fator.
“Conheço pessoalmente algumas famílias que se autodeportaram. Seu status era incerto e elas não queriam ficar aqui ilegalmente”, disse Fraga. “Tenho certeza de que isso afetará o mercado imobiliário até certo ponto.”
Aqueles que partem frequentemente deixam para trás casas, móveis, empregos e os resquícios de novas vidas. Alguns migrantes que conversaram com o The Wall Street Journal afirmam ter planos de se mudar para a Itália e a Espanha. Alguns até voltaram para a Venezuela, de acordo com uma corretora imobiliária que disse que seu cliente entregou as chaves do apartamento e deixou todos os móveis para trás.
“Nossos planos ruíram”, disse Gabriela Hernandez, de 26 anos, que afirmou que vai deixar Doral no mês que vem. Hernandez e o namorado moravam juntos em um apartamento novo de um quarto com varanda com vista para casas de milhões de dólares. Ele trabalhava como corretor de seguros e ela, como executiva de marketing em um escritório de advocacia.
O namorado dela, que esperava perder a permissão temporária, já saiu da cidade, dirigindo no meio da noite para evitar problemas com agentes federais, disse Hernandez.
Hernandez, que chegou da Venezuela há quase uma década, disse que está legalmente nos EUA enquanto aguarda a tramitação do seu pedido de asilo no sistema judicial.
O casal agora planeja se mudar para a Espanha assim que economizarem o suficiente, juntando-se ao êxodo de venezuelanos que estão deixando seu prédio em Doral, de acordo com moradores.
Status imigratório
Os proprietários de prédios de apartamentos em Doral dizem que querem saber o status imigratório de uma família antes de permitir que ela alugue. Muitos administradores de prédios estão recusando famílias, preocupados que uma decisão judicial possa, de repente, significar que ela esteja vivendo ilegalmente nos EUA.
A Lei de Moradia Justa do governo dos EUA, promulgada em 1968, proíbe a discriminação na venda e no aluguel de imóveis. Recusar pessoas por serem da Venezuela corre o risco de violar essa lei, afirmou Courtney Cunningham, advogado especializado em moradia justa em Miami.
“Pode ser visto como discriminação racial ou como um caso envolvendo alegações de discriminação com base na nacionalidade”, disse ele.
Os imigrantes representam uma parcela substancial da população de inquilinos no sul da Flórida, afirmou Juan Arias, diretor de análise de mercado da empresa de dados CoStar Group, acrescentando que 70% dos imigrantes que chegaram desde 2010 são inquilinos.
Em julho, a família de quatro pessoas em Doral Landings East fugiu de sua casa alugada de quatro quartos devido a problemas de imigração, de acordo com o proprietário. Eles pararam de pagar o aluguel de US$ 4.000 porque haviam gastado boa parte do dinheiro para pagar assistência jurídica, disse o proprietário. A família foi embora e levou mobílias e pertences pessoais. Vanesa Eguillor, corretora imobiliária do proprietário, que trabalha na área há 20 anos, disse: “Nunca vi nada parecido”.
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou negociações para uma linha de swap de US$ 20 bilhões para Buenos Aires. Ele também afirmou que os EUA estão preparados para comprar dívida em dólar argentino e usar o Fundo de Estabilização Cambial para fornecer crédito stand-by.
A tábua de salvação de Trump parece ser um esforço para acalmar os mercados argentinos antes das eleições legislativas de 26 de outubro. A coalizão precisa conquistar mais de um terço das cadeiras na Câmara dos Deputados, se Milei espera impedir que os peronistas avancem com gastos irresponsáveis contra seu veto.
As perspectivas para isso pareciam boas no início deste ano. Mas a desaceleração da economia e um escândalo de corrupção aumentaram as chances de um renascimento peronista. Isso desencadeou uma corrida para o peso.
A sinalização dos EUA foi suficiente para conter o pânico. Mas os detalhes são obscuros e parte da assistência pode estar vinculada aos resultados da votação de outubro. “Começaremos a trabalhar com o governo argentino imediatamente após a eleição”, escreveu Bessent em um tuíte.
Alguns argentinos podem ter ficado ressentidos com Milei porque ele quebrou suas promessas de campanha mais importantes: abandonar o peso, dolarizar a economia e fechar o banco central.
Em vez disso, quase dois anos após seu mandato, a inflação deve terminar 2025 perto de 30%, alguns controles de capital ainda estão em vigor e ele está operando uma flutuação suja do peso.
Não precisa ser assim. A Argentina pode dolarizar a economia, sem a ajuda dos EUA. Tudo o que precisa fazer é decretar a conversão de todas as contas no sistema bancário — passivos e ativos — para dólares, adotar o dólar como moeda legal, interromper a emissão de pesos e trocar pesos por dólares conforme a demanda, a uma taxa fixa próxima ao mercado no dia em que for anunciada.
Os primeiros passos podem ser dados da noite para o dia. O último passo permitirá a retirada gradual dos pesos da economia, à medida que os moradores migram para o dólar em seu próprio ritmo.
Quer o Milei governe por apenas mais dois anos ou permaneça no cargo por mais seis anos, ele terá libertado o país do inferno da desvalorização em que vive há décadas.
Não está claro por que Milei se acovardou na dolarização. Mas muitos ao seu redor argumentam que a Argentina não tem dólares suficientes para fazer a mudança. Isso é comprovadamente falso.
A Argentina está inundada de dólares. Estima-se que US$ 245 bilhões estejam nas mãos do público, fora do sistema financeiro. Muitas transações — como pagamentos de aluguel, contas médicas e negócios imobiliários — já são feitas em dólares. As experiências de dolarização do Equador e de El Salvador mostram que, quando o dólar se torna moeda corrente, o público deposita ativos em bancos, onde pode render juros.
Milei poderia dolarizar mesmo sem o dinheiro atualmente sob os colchões, pois ele só precisa estar pronto para trocar pesos em poder do público. Isso equivale a aproximadamente US$ 15 bilhões.
Como as trocas não ocorrerão de uma só vez, mesmo esse valor superestima o valor das reservas necessárias no primeiro dia. O Equador tinha reservas negativas no banco central quando dolarizou em 2000.
É verdade que, sem o peso, o governo não poderia mais imprimir moeda para pagar sua dívida. Mas esse é o ponto principal. A dolarização acaba com a monetização dos empréstimos governamentais pelo banco central e com a destruição perpétua de lucros e poupanças que a acompanha.
Altas taxas de juros são um entrave ao crescimento. Elas cairiam. As finanças públicas melhorariam porque o governo finalmente conseguiria rolar sua dívida. Com a dolarização, a intermediação financeira e o investimento estrangeiro se expandem. O crescimento econômico se segue, gerando maior receita tributária, desta vez em dólares. O domínio do dólar na Argentina contrariaria os esforços da China para reduzir a influência dos EUA no Cone Sul.
Há algo de engraçado no argumento de que a dolarização exporia a Argentina a choques e instabilidade. O país é um inadimplente em série e o símbolo internacional da hiperinflação. Foi excluído dos mercados de capitais de 2001 a 2016 devido ao seu status de caloteiro. Mas não aprendeu nada.
A direita argentina é mestre em se aproveitar do dinheiro alheio. Em 2018, o governo do presidente Mauricio Macri conseguiu um empréstimo de US$ 57 bilhões do Fundo Monetário Internacional. E a Argentina é a maior devedora do FMI. Em julho, o ministro da Fazenda, Luis Caputo, fez isso novamente, garantindo mais US$ 20 bilhões do fundo. Agora, ele fisgou o Bessent.
Os tecnocratas do livre mercado podem se orgulhar de como conseguem persuadir Washington. Mas cada vez que resgatam o peso, eles marcam contra seu próprio time. Sem a dolarização, tudo o que Milei pode fazer é acumular reservas no banco central a tempo para o retorno ao poder dos peronistas que imprimem pesos. Enxágue e repita.