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China bloqueia a compra da Manus pela Meta, desfazendo um negócio de US$ 2 bilhões

27 de Abril de 2026, 10:36

A China decidiu bloquear a aquisição de US$ 2 bilhões da startup de IA Manus pela Meta, em um movimento surpreendente para desfazer um acordo controverso criticado pelo possível vazamento de tecnologia para os EUA.

A National Development and Reform Commission, principal órgão de planejamento econômico da China, determinou o cancelamento do negócio em um breve comunicado divulgado na segunda-feira (27). O órgão afirmou, em uma única linha, que decidiu proibir investimento estrangeiro na startup de acordo com leis e regulamentos, sem dar mais detalhes.

A decisão deve esfriar o setor de inteligência artificial em expansão na China e surge semanas antes de uma cúpula de alto nível entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e o líder chinês, Xi Jinping.

Pequim intensificou o escrutínio sobre empresas-chave após o acordo, que já estava em grande parte concluído. Inicialmente celebrado como um modelo para startups com ambições globais, o negócio passou a ser criticado internamente pela perda de tecnologia valiosa para um rival geopolítico.

Os fundadores da Manus começaram na China, mas transferiram sede e equipe principal para Singapura em 2025. Não estava claro, quando o acordo foi anunciado em dezembro, se Pequim exerceria sua autoridade sobre uma transação realizada tecnicamente fora de suas fronteiras.

“O bloqueio da Manus é um momento esclarecedor”, disse o analista Ke Yan, da DZT Research. “A empresa estava incorporada em Singapura, com fundadores baseados lá, e ainda assim foi puxada de volta. O sinal de Pequim é que o que importa não é onde está a entidade legal.”

Revés para a Meta

O decreto pode representar um revés para a Meta em sua tentativa de competir em IA com rivais como a Microsoft, a Alphabet (dona do Google), além de OpenAI e Anthropic. A Manus ajudaria a Meta a avançar no desenvolvimento de agentes de IA — sistemas capazes de executar tarefas de forma autônoma.

Ainda assim, não está claro como a Meta desfaria o negócio. Funcionários da Manus já se juntaram à empresa, capital foi transferido e executivos passaram a integrar a equipe de IA da companhia. Parte da equipe já trabalha em escritórios da Meta em Singapura, enquanto investidores como Tencent, ZhenFund e Hongshan já receberam seus recursos.

A Meta afirmou que a transação seguiu as leis aplicáveis e que espera uma resolução da investigação chinesa, sem dar detalhes. As ações da empresa recuaram menos de 1% no pré-mercado.

Reguladores chineses exercem grande poder há anos, forçando mudanças em gigantes como Alibaba e a própria Tencent. Um paralelo próximo é a decisão de obrigar a Didi a sair da New York Stock Exchange após seu IPO em 2021.

Pequim e Washington disputam influência antes do encontro histórico de maio. À medida que a rivalidade em IA se intensifica, Xi busca proteger tecnologia e talentos chineses, ao mesmo tempo em que reforça a confiança no desenvolvimento doméstico — como mostrou recentemente a startup DeepSeek ao lançar seu modelo V4 integrado a chips da Huawei.

Os EUA vêm há anos restringindo o acesso da China a tecnologia americana, incluindo chips da Nvidia usados no treinamento de modelos de IA. Para analistas, a medida chinesa é uma resposta proporcional a essas restrições.

Autoridades chinesas também passaram a desencorajar novos movimentos semelhantes ao da Manus. Empresas como Moonshot AI e Stepfun foram orientadas a rejeitar capital americano sem aprovação explícita, e regras semelhantes devem atingir a ByteDance, dona do TikTok.

Essas restrições podem isolar ainda mais o setor tecnológico chinês de investidores estrangeiros, especialmente dos EUA, que historicamente financiaram grande parte do crescimento dessas empresas. Também seguem a decisão de limitar empresas chinesas incorporadas no exterior de abrir capital em Hong Kong.

O objetivo central é impedir que investidores americanos adquiram participação em setores sensíveis à segurança nacional, evitando o vazamento de tecnologia. O caso Manus reforça a preocupação de Pequim com startups fundadas por chineses que buscam expansão internacional.

Lançada em março de 2025, a Manus é um agente de IA capaz de automatizar tarefas complexas, desde análises do S&P 500 até a criação de apresentações comerciais. Um mês depois, sua controladora Butterfly Effect levantou US$ 75 milhões em rodada liderada pela Benchmark, o que levou a uma investigação do Tesouro dos EUA.

Em julho, a empresa transferiu sua equipe da China para Singapura, cortando dezenas de empregos. A Meta anunciou a aquisição em dezembro, após a Manus superar US$ 100 milhões em receita anualizada.

Ainda não está claro quais outras medidas Pequim adotará após a investigação. Segundo o Financial Times, os cofundadores Xiao Hong e Ji Yichao chegaram a ser impedidos de deixar a China.

Para especialistas, o movimento reflete a crescente importância estratégica da inteligência artificial para a China, especialmente na disputa tecnológica com os EUA. Assim como Washington tenta limitar o acesso chinês a semicondutores avançados, Pequim agora busca restringir o acesso americano à tecnologia de IA.

“É o reconhecimento da liderança chinesa de que a IA é um ativo estratégico”, disse Alfredo Montufar-Helu. “E crucial para definir quem sairá vencedor na competição com os EUA.”

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De painéis solares a carros elétricos: como a China se beneficia da crise do petróleo com a guerra

24 de Abril de 2026, 12:07

Com a pressão da Guerra do Irã sobre o mercado de petróleo, diferentes indústrias e países passaram a buscar um plano B como fonte de energia. E um dos beneficiados tem sido o setor de painéis solares. As exportações da China, principal fornecedora global, dobraram em março.

Foram 68 gigawatts em capacidade de equipamentos para geração solar embarcados no mês, segundo dados de exportação analisados pelo think tank internacional Ember. Para comparar: em termos de escala, isso equivale a seis usinas hidrelétricas de Belo Monte, no Pará. Ou praticamente toda a capacidade solar instalada na Espanha.

Cinquenta países bateram seus recordes de importação de painéis chineses em março. E outros sessenta alcançaram o maior nível em pelo menos seis meses. 

Na Ásia, a Malásia ampliou as importações em 384%, e a Índia, em 141%. Na África, Nigéria, Quênia e Etiópia superaram pela primeira vez a marca do equivalente a 1 GW importado em um único mês. Ao mesmo tempo, países como Japão e Austrália, além da União Europeia, também registraram volumes recordes. 

Desde o início da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã no fim fevereiro, o fluxo de navios vem sendo limitado no Estreito de Ormuz, o que compromete o escoamento de petróleo do Golfo Pérsico. Por ali passam cerca de 20 milhões de barris por dia, algo como 25% do comércio marítimo global.

Estimativas de bancos e consultorias indicam que entre 13 milhões e 14,5 milhões de barris por dia ficaram fora do mercado em abril, seja por restrições logísticas ou por cortes preventivos de produção.

Diante de tantas limitações, o barril do tipo Brent já acumula alta superior a 20% desde fevereiro e voltou a ser negociado acima de US$ 100 por barril. 

Com a busca global por alternativas ao combustível, não foram apenas os painéis solares que ganharam tração nas exportações chinesas.

O país também ampliou os embarques de baterias e veículos elétricos, de marcas como a BYD. Juntos, as exportações desses três segmentos avançaram 70% em março na comparação anual e 38% frente a fevereiro. 

As baterias puxaram em valor: foram US$ 10 bilhões exportados em março, alta de 44% em relação a fevereiro, com demanda forte especialmente de União Europeia, Austrália e Índia.

No Brasil

Os dados da Ember não detalham o papel do Brasil nas exportações chinesas de painéis solares em março. Ainda assim, o movimento tem impacto direto no mercado local: mais de 90% dos módulos fotovoltaicos usados no país vêm da China.

Em 2025, esses produtos foram o quarto item chinês mais importado pelo Brasil, somando US$ 1,5 bilhão e 990 mil toneladas.

Na última década, a presença de painéis solares avançou de forma meteórica no sistema elétrico brasileiro. Hoje, o país tem quase 4 milhões de sistemas espalhados por telhados e fazendas. Em 2015, eram apenas 600.

A fonte já responde por cerca de 23% da capacidade instalada brasileira, ante pouco mais de 2% em 2019.

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Por que a China está apostando em pets, brinquedos e hobbies para reaquecer o consumo

11 de Abril de 2026, 17:21

A próxima ofensiva da China para estimular o consumo está ficando mais pessoal.

Durante anos, os esforços de Pequim para reaquecer os gastos se concentraram em categorias tradicionais de maior valor, como carros e eletrodomésticos. Agora, as autoridades estão sinalizando algo diferente. Um plano recente para impulsionar o consumo passou a promover gastos “baseados em interesses”, em categorias como pets, anime e brinquedos da moda.

Isso faz parte de uma mudança mais ampla para criar novos motores de demanda, num momento em que exportações e investimentos já não têm a mesma força de antes.

Isso importa porque sugere que a China não está apenas tentando fazer as famílias gastarem mais. O país está tentando direcionar esse gasto para categorias ligadas a estilo de vida, que geram consumo recorrente, têm apelo emocional e são mais fáceis de escalar por meio de marca, propriedade intelectual e experiências presenciais.

“O boom da economia emocional é um resultado inevitável do nosso tempo. Ele reflete uma mudança profunda na lógica do consumo, que deixa de ser centrada no produto para ser centrada nas pessoas, com os consumidores mais jovens se afastando das ‘necessidades práticas’ e se aproximando da ‘satisfação emocional’”, disse Yuan Shuai, diretor-adjunto do departamento de investimentos do Instituto de Pesquisa em Desenvolvimento Urbano da China.

Essa mudança já é grande o suficiente para aparecer em pesquisas de mercado. A chamada economia emocional da China atingiu cerca de 2,3 trilhões de yuans (US$ 335 bilhões) em 2025 e deve superar 4,5 trilhões de yuans até 2029, segundo a iiMedia Research. O mesmo relatório diz que os consumidores estão pagando cada vez mais não apenas pela função de um produto, mas também por ressonância emocional, identidade e conforto psicológico.

Não é que os consumidores chineses tenham, de repente, ficado obcecados por brinquedos fofos ou por pets supermimados. O ponto é que fandom, companhia, autoexpressão e experiências imersivas estão se tornando partes mais estruturadas da história do consumo.

Na prática, a China está tentando transformar os gastos com hobbies em uma indústria. Isso cria um novo tipo de vencedor no setor de consumo.

O exemplo mais óbvio é a Pop Mart International Group, cujos personagens colecionáveis ajudaram a transformar o gasto emocional em uma tese de investimento em bolsa. Mas a oportunidade é maior do que uma única empresa.

Negócios capazes de converter afeto em compras recorrentes — por meio de propriedade intelectual de personagens, licenciamento, eventos, assinaturas, acessórios e renovação constante de produtos — podem estar mais bem posicionados do que marcas ainda dependentes de transações pontuais.

Um relatório do governo divulgado em novembro sobre essa política destacou apoio oficial não apenas a pets e brinquedos, mas também ao desenvolvimento de produtos ligados às mudanças no estilo de vida dos consumidores.

Os pets talvez sejam um dos exemplos mais claros. Um cachorro ou um gato não é uma compra única. Ele gera uma longa cadeia de gastos com alimentação, banho e tosa, saúde, roupas, brinquedos, hospedagem e serviços. Do ponto de vista do consumo, isso significa demanda recorrente. Do ponto de vista do investidor, parece bem mais atraente do que apostar numa recuperação dos gastos discricionários de maior valor, ainda atrelados ao mercado imobiliário.

“Eu corto refeições em restaurantes antes de parar de comprar coisas para o meu gato”, disse Li Wen, uma trabalhadora de tecnologia de 29 anos, em Xangai. “Não parece um luxo. Parece uma forma de deixar a vida cotidiana um pouco melhor.”

A mesma lógica vale para produtos ligados a animação e brinquedos da moda. De fora, esses itens podem parecer supérfluos, mas fazem parte de um ecossistema mais amplo de vínculo afetivo que pode ser monetizado. Um personagem bem-sucedido pode vender bonecos, chaveiros, roupas, snacks, ingressos para eventos e produtos de marcas parceiras. Isso ajuda a explicar por que shoppings e áreas comerciais na China estão apostando cada vez mais em lojas temporárias, exposições e varejo temático para transformar entusiasmo online em fluxo de consumidores nas lojas físicas.

Há também uma razão estratégica mais profunda para que Pequim goste dessa tendência. O consumo baseado em interesses depende menos da riqueza gerada por imóveis financiados por dívida e é politicamente menos delicado do que o luxo ostensivo.

Ele combina com o humor atual da política econômica: apoiar a demanda doméstica, incentivar marcas locais, desenvolver serviços e cultivar novas categorias de consumo sem recorrer a mais um velho estímulo ao setor imobiliário.

A Reuters informou que as autoridades querem que o consumo represente uma parcela maior do PIB nos próximos cinco anos e que sua contribuição para o crescimento econômico aumente de forma constante até 2030.

Nada disso significa que toda tendência ligada a hobbies seja uma aposta segura. O consumo emocional pode ser volátil, passageiro e muito influenciado pelo hype das redes sociais. Reportagem do China Daily sobre a economia emocional também trouxe alertas de estudiosos e comentaristas de que o valor emocional é difícil de medir de forma consistente, o que abre espaço para distorções de preço, compras por impulso e excessos especulativos.

Por isso, os investidores deveriam se concentrar menos no item colecionável mais quente do momento e mais em quais empresas conseguem construir ecossistemas duradouros em torno do vínculo afetivo do consumidor. A questão central não é se os chineses vão continuar comprando coisas que os façam se sentir bem. As evidências indicam cada vez mais que sim. A pergunta é quais empresas conseguem transformar esse sentimento em receita recorrente.

A nova linguagem de consumo adotada por Pequim dá uma pista. O futuro do consumo na China pode não ser liderado apenas por geladeiras e sedãs. Ele também pode ser moldado por empresas que aprendam a vender identidade, conforto, fandom e diversão em escala.

O sucesso industrial da China virou um problema diplomático. E Pequim sabe disso

22 de Março de 2026, 09:34

O primeiro-ministro chinês, Li Qiang, prometeu responder às preocupações de parceiros comerciais com o grande superávit da China, num sinal de que Pequim teme que o tema prejudique suas relações com mais países durante a trégua com os Estados Unidos na disputa tarifária.

“Levamos a sério as preocupações de nossos parceiros comerciais e estamos prontos para trabalhar com todas as partes para promover um desenvolvimento saudável e equilibrado do comércio”, disse Li em um discurso de abertura no Fórum de Desenvolvimento da China, em Pequim, no domingo (22).

“Também vamos ampliar ainda mais o acesso ao mercado no setor de serviços e aumentar as importações de produtos médicos e de saúde, tecnologias digitais e serviços de baixo carbono, para oferecer mais oportunidades de negócios a empresas estrangeiras”, acrescentou.

A China registrou no ano passado um superávit comercial recorde de US$ 1,2 trilhão, e as exportações seguiram em forte alta nos dois primeiros meses deste ano, ampliando a preocupação em vários países com o futuro de suas próprias indústrias.

Estados Unidos e China travaram uma grande guerra comercial em 2025, que foi colocada em pausa com uma trégua de um ano acertada pelo presidente Donald Trump e pelo líder chinês Xi Jinping em outubro. Em dezembro, o presidente francês, Emmanuel Macron, alertou que a União Europeia poderia ser forçada a adotar “medidas fortes” contra a China, incluindo possíveis tarifas, se Pequim não enfrentar o desequilíbrio comercial crescente com o bloco.

As autoridades chinesas já tomaram algumas medidas para aliviar as tensões comerciais, entre elas a redução de incentivos tributários à exportação para centenas de produtos, como células solares e baterias.

Essa força industrial, porém, convive com uma economia fragilizada pelo consumo doméstico fraco. Setores como o de energia solar também sofrem com excesso de capacidade e concorrência acirrada nos preços.

Li afirmou que, “nos últimos anos, fizemos progressos positivos no enfrentamento da competição de estilo involutivo”.

Falando no mesmo fórum, o presidente do Banco do Povo da China, Pan Gongsheng, defendeu o superávit em conta corrente do país, dizendo que ele “é alocado entre diferentes regiões e setores do mundo por meio do investimento externo de empresas chinesas e dos bancos”.

Li Qiang, o premiê Chinês. Foto: Bloomberg

Segundo ele, esse superávit “tem sustentado o crescimento econômico global e a estabilidade financeira”.

O Fórum de Desenvolvimento da China foi criado em 2000 com apoio do então premiê Zhu Rongji. O evento costuma ocorrer logo após o encerramento das duas principais reuniões políticas anuais do país e atrai CEOs de grandes corporações, que conversam com autoridades sobre as prioridades econômicas e de política pública de Pequim.

No domingo, o CEO da Apple, Tim Cook, elogiou as inovações de desenvolvedores chineses e a automação das fábricas no país. Os comentários vieram dias depois de o principal jornal do Partido Comunista criticar a fabricante do iPhone por práticas monopolistas.

Neste ano, nenhum executivo japonês apareceu na lista oficial de participantes. As relações entre Pequim e Tóquio se deterioraram depois que a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, sugeriu que as Forças Armadas do país poderiam ser mobilizadas no caso de uma invasão chinesa de Taiwan.

O número 2 do Fundo Monetário Internacional, Dan Katz, afirmou no fórum que Pequim “pode fazer mais para estimular o consumo e a demanda doméstica — especialmente por serviços — elevando a renda das famílias e reduzindo os incentivos à poupança por precaução”.

Isso exigiria, segundo ele, “deslocar recursos hoje destinados a subsídios industriais e infraestrutura para programas de proteção social e para a estabilização do setor imobiliário, de modo a dar aos cidadãos confiança para gastar mais e poupar menos”.

Também significaria transferir parte da carga tributária das famílias de classe média para as mais ricas e reduzir isenções concedidas a empresas, acrescentou Katz.

A guerra no Irã também amplia os riscos para a economia chinesa. Custos mais altos de combustíveis e matérias-primas podem pressionar ainda mais as margens de lucro da indústria.

Li não mencionou diretamente o conflito, mas disse que “o desenvolvimento de alguns focos de tensão é profundamente preocupante”.

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Dona da 99, chinesa DiDi tem prejuízo após enfrentar rivais no exterior

13 de Março de 2026, 11:58

A DiDi Global, dona da 99, voltou ao vermelho no último trimestre depois que a empresa chinesa de transporte por aplicativo aumentou investimentos enquanto enfrenta novos rivais no exterior, como a Meituan.

A companhia registrou prejuízo líquido de 338 milhões de yuans (US$ 49 milhões) no trimestre encerrado em dezembro. A receita cresceu mais de 10%, refletindo a expansão em mercados internacionais mais novos, incluindo Brasil e Mexico.

Os volumes de transações nos segmentos da empresa na China e no exterior atingiram novos recordes, afirmou o CEO Cheng Wei em comunicado de resultados.

Conhecida como a resposta chinesa à Uber Technologies, a DiDi estreou na New York Stock Exchange em 2021, mas logo passou a ser investigada pelo regulador do ciberespaço chinês, que abriu um inquérito sobre as práticas de segurança de dados da empresa antes de suspender seu aplicativo.

Fora da bolsa

A companhia acabou fechando o capital na bolsa principal e hoje negocia apenas no mercado over-the-counter nos Estados Unidos. Segundo informações, a empresa pretende listar suas ações na Hong Kong Stock Exchange, embora nunca tenha estabelecido um cronograma formal.

A DiDi relançou seus aplicativos em 2023, após a China encerrar a investigação, e reportou lucros na maior parte dos últimos dois anos. A empresa registrou recentemente um prejuízo no trimestre de junho devido a uma despesa pontual relacionada a um processo movido por acionistas envolvendo seu IPO de 2021.

A companhia também avançou em seu negócio de robotáxis, com veículos autônomos já em operação em algumas cidades chinesas. “Continuaremos aumentando nossos investimentos em pesquisa, desenvolvimento e operações de direção autônoma”, afirmou o CEO em comunicado divulgado nesta sexta-feira.

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BYD avalia fábrica no Canadá para replicar ‘modelo Brasil’ de expansão

13 de Março de 2026, 10:28

A BYD, maior fabricante de automóveis da China, está considerando seriamente a construção de uma fábrica no Canadá, ao mesmo tempo que mantém em aberto a opção de comprar uma montadora global mais consolidada.

A montadora sediada em Shenzhen está estudando o mercado canadense para uma possível instalação de produção, embora nenhuma decisão tenha sido tomada, disse a vice-presidente executiva Stella Li em entrevista, acrescentando que a BYD gostaria de possuir e operar uma fábrica desse tipo.

“Não acho que uma joint venture vá funcionar”, disse ela, durante uma visita a São Paulo.

Embora o Canadá esteja cortejando investimentos de montadoras chinesas, o governo canadense está incentivando parcerias com uma ou mais empresas do Canadá. Em janeiro, o Canadá decidiu isentar até 49.000 veículos elétricos fabricados na China anualmente de uma tarifa de 100% imposta em 2024, parte de uma mudança em relação à política anterior de manter distantes os carros chineses fora do país.

Stella Li também sinalizou que a BYD pode estar interessada em assumir o controle de uma montadora tradicional em um momento em que algumas concorrentes americanas, europeias e japonesas estão lutando para se manter competitivas nos mercados globais — pressionadas pelos investimentos em suas operações com veículos a combustão e elétricos. A BYD ganhou destaque produzindo veículos totalmente elétricos e híbridos.

“Estamos abertos a todas as oportunidades que surgirem”, disse ela, observando que, embora nenhum acordo esteja próximo de ser fechado, sua empresa está avaliando potenciais ativos. “Veremos o que nos beneficia.”Play Video

Stella Li não mencionou nenhum alvo potencial de aquisição, mas tal movimento não seria inédito — o grupo chinês Zhejiang Geely Holding Group comprou a Volvo Cars há mais de uma década. Mais recentemente, algumas montadoras ocidentais intensificaram os esforços para obter assistência tecnológica e capacidade de produção das montadoras chinesas.

A Stellantis está considerando aproveitando a tecnologia de veículos elétricos de sua parceira chinesa Leapmotor e está explorando acordos com montadoras chinesas para investimentos na Europa. A Ford Motor manteve discussões com a Geely sobre capacidade compartilhada na Europa.

A BYD já teve joint ventures, mas sua atual filosofia de “seguir sozinha” reflete um compromisso com suas próprias medidas de eficiência, como um estratégia de integração vertical para manter grande parte de sua cadeia de suprimentos internamente.

Modelo Brasil

Por enquanto, a maior fabricante mundial de veículos elétricos está evitando quaisquer ambições de entrar nos EUA, que Stella Li classificou como um “ambiente complicado”. As montadoras chinesas enfrentam tarifas elevadas e a proibição da tecnologia de carros conectados nos EUA, o que efetivamente impediu a entrada da maioria dos modelos de mercado de massa fabricados na China.

Em vez disso, a BYD está focada em mercados onde pode aplicar seu “modelo Brasil”, utilizando o sucesso de marketing e vendas obtido na América do Sul em outras regiões, como a Europa.

Ela afirmou que a empresa está em meio ao processo de aumento de produção, do inglês ramp-up, em sua primeira planta europeia de veículos de passageiros na Hungria, e avaliando um segundo projeto na Turquia. Isso faz parte de uma expansão mais ampla no exterior.

As vendas totais da BYD nos dois primeiros meses do ano caíram 36%, para 400.241 unidades., embora as exportações tenham ganhado impulso e a empresa agora pretende vender 1,3 milhão de carros no exterior em 2026.

Stella Li disse que os dois lançamentos recentes da BYD no início deste mês — a nova geração de sua bateria blade e a tecnologia Flash de carregamento rápido — ajudarão a reverter essa queda nas vendas.

Em “menos de uma semana, vimos muitos clientes que nunca haviam comprado veículos elétricos nos procurarem”, disse ela.

No Brasil, a BYD planeja instalar 1.000 carregadores a tecnologia Flash até o final de 2027, a um custo superior a R$ 500 milhões (US$ 97 milhões), disse Alexandre Baldy, vice-presidente sênior da BYD no Brasil, à Bloomberg.

Stella Li confirmou uma reportagem da Bloomberg News no início desta semana, segundo a qual a BYD está analisando opções para entrar no automobilismo competitivo, incluindo a Fórmula 1 e corridas de resistência. Embora tenha ressaltado que nenhuma decisão final foi tomada, ela sugeriu que uma incursão nas categorias de corrida mais prestigiadas do mundo estaria alinhada com a identidade da BYD, que prioriza a tecnologia.

“Não se surpreendam”, insinuou ela. “Ainda estamos trabalhando nisso.”

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O ouro ficou para trás? Bancos centrais freiam compras, mas guerra mantém metal em evidência

7 de Março de 2026, 12:12

As compras de ouro por bancos centrais globais perderam força no início do ano, pressionadas pela volatilidade nos preços do metal. Mas a escalada da guerra entre Irã e EUA no Oriente Médio ainda mantém a commodity em evidência como grande alternativa de acumulação de reservas ao longo de 2026.

O banco central da China, um importante referencial quando o assunto é a troca de reservas em dólar pelo metal, comprou mais ouro em fevereiro, estendendo sua sequência de compras para 16 meses.

O volume de ouro detido pelo Banco do Povo da China aumentou em 30 mil onças-troy (0,93 tonelada) no mês passado, chegando a 74,22 milhões de onças (2.308 toneladas), segundo dados divulgados no sábado (7). A compra estende a rodada mais recente de acumulação que começou em novembro de 2024.

O movimento do metal precioso nos últimos dias tem respondido a uma queda de braço entre forças distintas. As baixas mais recentes respondem ao fato de que os investidores costumam aproveitar situações de forte estresse não apenas para comprar o metal, mas para usá-lo como forma de fazer caixa, por meio da venda da commodity.

É basicamente levantar recursos para investir em títulos públicos considerados mais seguros para cada país. Esse movimento já vinha acontecendo conforme o ouro atingia recordes, momento em que embolsar o que já foi ganho é uma estratégia melhor.

Mas, em um segundo momento, depois de recuar recentemente, o ouro superou novamente a marca dos US$ 5 mil por onça, respondendo à volta da clássica procura por ativos mais diversificados e que funcionam como reserva de valor.

A redução de compras de ouro por bancos centrais no mundo consta em nota divulgada nesta semana pelo World Gold Council, entidade financiada por produtores do metal. As compras líquidas, lideradas por países da Ásia Central e do Leste Asiático, somaram cinco toneladas em janeiro, em comparação com a média de 27 toneladas nos 12 meses anteriores.

Mas a trajetória para 2026 tende a seguir positiva para o metal enquanto os conflitos durarem. “Os preços voláteis do ouro e a temporada de feriados podem ter levado alguns bancos centrais a fazer uma pausa”, escreveu Marissa Salim, analista do World Gold Council, em relatório. “Mas as tensões geopolíticas, que mostram poucos sinais de diminuir, provavelmente manterão a acumulação ao longo de 2026 e além.”

O ‘divórcio’ turbulento entre China e Estados Unidos

5 de Fevereiro de 2026, 15:29

No cinturão de grãos do nordeste da China, os agricultores estão recebendo um impulso do governo: mais subsídios para plantar soja, parte de um esforço nacional estimado em US$ 1 trilhão para declarar independência econômica dos EUA.

A mais de 12 mil km de distância, em Milwaukee, o fabricante de peças industriais Husco corre para usar menos componentes chineses em suas fábricas nos EUA, à medida que o governo Trump aplica tarifas para reduzir importações e tentar revitalizar a manufatura americana. “Alguns clientes”, disse o CEO da Husco, Austin Ramirez, “exigem zero exposição à China.”

Essas tendências refletem uma realidade emergente tanto em Washington quanto em Pequim: os dois países começaram a administrar um “divórcio” complicado nas questões comerciais mais sensíveis, tratando a competição econômica como uma questão de segurança nacional.

Os líderes chineses decidiram que o “desacoplamento” das duas economias é inevitável. A mudança atende à ambição de longa data da China de não ser mais um parceiro secundário do Ocidente, rompendo com décadas de ortodoxia que vinculavam o sucesso econômico chinês à venda de produtos baratos aos americanos e ao fortalecimento tecnológico com dinheiro e know-how dos EUA.

Nenhum dos lados quer encerrar completamente o comércio entre as duas economias. Mas a rivalidade intensa com os EUA agora é o principal motor da estratégia econômica chinesa, e Xi Jinping está determinado a sair na frente.

Desde o início de 2024, Pequim destinou quase US$ 1 trilhão para construir autossuficiência em agricultura, energia e semicondutores, essenciais para sua estratégia de inteligência artificial. Essa política já ajudou a China a se tornar potência em setores como energia limpa e veículos elétricos.

Mesmo sinais de integração econômica contínua, como a aprovação de chips H200 da Nvidia para venda na China, são vistos como aceleradores da independência tecnológica chinesa. Trump afirmou que a decisão permite aos EUA monetizar sua vantagem tecnológica, enquanto retém os produtos mais avançados da Nvidia.

A Estratégia de Segurança Nacional dos EUA de 2025 prevê restaurar a independência econômica americana e concentrar o comércio com a China em fatores não sensíveis. O governo visa reduzir a dependência de commodities estratégicas produzidas na China, como minerais raros usados em eletrônicos e equipamentos militares.

O desengajamento econômico já afeta indústrias. Empresas transferem produção da China para os EUA, México ou Sudeste Asiático para escapar das tarifas. Cerca de 60% do reshoring em 2025 veio da China, segundo pesquisa da Manufacturing Advocacy and Growth Network.

A China também contornou tarifas, enviando componentes para países terceiros para posterior montagem em produtos destinados aos EUA, mantendo sua dependência subjacente. Pequim está investindo pesadamente em semicondutores, energia limpa, usinas nucleares e soja, para reduzir a vulnerabilidade a interrupções no comércio com os EUA.

No nordeste chinês, subsídios de US$ 739 por hectare para soja superam em 17 vezes os oferecidos para milho, incentivando a produção doméstica mesmo enquanto mantém compras táticas de 25 milhões de toneladas dos EUA como âncora na trégua comercial atual.

Pequim também incentiva investimentos chineses no exterior, especialmente na África e no Sudeste Asiático, para diversificar cadeias de suprimentos e contornar tarifas americanas, mostrando que a separação dos EUA é aceitável contanto que a China permaneça conectada ao resto do mundo.

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BYD: as novas estratégias da chinesa para bater de frente com Fiat, Volkswagen e GM no Brasil

7 de Janeiro de 2026, 06:00

Até pouco tempo atrás, soaria como ficção científica a ideia de uma montadora chinesa desbancando marcas tradicionais do mercado brasileiro.

Mas agora, a depender do recorte que você observa, é exatamente isso que está acontecendo. No ranking de emplacamentos da Fenabrave de novembro, por exemplo, a BYD ficou à frente da Fiat entre os veículos de passeio mais vendidos no varejo (ou seja, sem contar frotas e locadoras).

A maior montadora da China teve participação de 9,8% nesse recorte, atrás apenas da Volkswagen (16,4%), Hyundai (10,2%) e GM (10,23%).

Ou seja: não é “só” que a BYD se tornou a maior vendedora de carros 100% elétricos do mundo no ano passado, superando a Tesla por larga vantagem (2,26 milhões x 1,4 milhão). A chinesa também começa a se consolidar como uma das grandes no Brasil.

“Nosso objetivo é buscar o primeiro lugar. A gente olha para os concorrentes que estão acima. Esses são os nossos competidores”, disse Alexandre Baldy, vice-presidente sênior e head de marketing da montadora no Brasil, ao InvestNews.

Alexandre Baldy, vice-presidente da BYD no Brasil (Foto: Divulgação)

Quando você amplia a análise para além dos carros de passeio e inclui os “comerciais leves”, a história muda um pouco. Com o impulso das vendas da picape Strada (que não conta como “de passeio”, mas é o carro mais vendido do país), a Fiat salta no ranking e deixa a BYD para trás. Baldy, naturalmente, coloca a Fiat entre “os concorrentes que estão acima”.

Só que, para galgar mais degraus, a BYD terá de combinar com o mercado. Os modelos mais vendidos do país (Fiat Strada, VW Polo, Hyundai HB20, Chevrolet Onix…) têm algo em comum: motor 1.0 turbo flex, que só existe no Brasil e paga uma alíquota de IPI mais baixa – além, claro, de serem carros 100% a combustão. É isso que garante preços menores: se fossem elétricos ou híbridos, como todos os modelos da BYD, custariam mais e teriam menos mercado.

A BYD deixou de fabricar carros puramente a combustão há anos na China. Então fica a pergunta: a montadora toparia um retrocesso tecnológico para disputar as cabeças do mercado brasileiro? Para Baldy, nem pensar. “A BYD é uma das maiores montadoras do mundo e provou que o caminho é focar em novas energias.”

Voltando aos recortes: “novas energias” significa carro 100% elétrico ou híbrido em que o motor elétrico pelo menos ajuda na propulsão das rodas. Isso exclui da categoria os “micro-híbridos” (MHEVs) – caso de modelos da Fiat que vendem bem, como Pulse e Fastback em suas versões MHEV.

Usando esse critério, que é o da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), a BYD domina amplamente o mercado de “novas energias” no Brasil: tem 56,6% do total, somando os 100% elétricos e os híbridos (HEV + PHEV). Em segundo lugar vem sua conterrânea GWM, com 14,8%. Completa o pódio a Toyota, com 9,8%.

Contando só os completamente elétricos, há quase um monopólio da BYD:

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Entre os híbridos, o domínio é menor — principalmente porque os bestsellers da BYD nessa área (Song Pro e Song Plus) concorrem com o bem-sucedido GWM Haval. Ainda assim, a situação é confortável:

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Locadoras

Um jeito de ganhar mais mercado sem reinventar a roda é ir além do varejo – ou seja, buscar venda para frotas e locadoras. O InvestNews apurou que a BYD está em negociações avançadas com uma grande rede do setor. O nome mais cotado, segundo fontes que preferem não se identificar, é o da Localiza.

A empresa, no entanto, nega. “A Localiza mantém conversas com todos os players do mercado constantemente. Sobre a parceria mencionada, não há acordo firmado em 2025 e, caso haja alguma parceria em 2026, será divulgada oportunamente”, afirmou em nota.

Se as tratativas avançarem, será o primeiro grande acordo da empresa com locadoras. O negócio teria potencial de envolver 10 mil carros (9% da produção anual da BYD), principalmente os híbridos Song Pro e Song Plus.

Carregamento rápido

Não é que a BYD não faça carros 100% a combustão. Mesmo na sua linha de híbridos, todos os carros são do tipo plug-in, os mais eletrificados, que têm tomada. Sua rival GWM é mais democrática: vende híbridos sem tomada – e está lançando até uma picape só com motor a diesel.

Se a BYD realmente deseja ter aqui o tamanho que tem na China, onde é a líder inconteste, terá de resolver uma questão: a falta de carregadores nas ruas e nas estradas. Só com eles é possível fazer viagens longas de carro elétrico – ou aproveitar todo o potencial de um híbrido plug-in quando não dá para carregar na garagem de casa.

Na China, carregador não é problema: são 4,5 milhões por lá. No Brasil, não dá nem para o começo: estamos em 17 mil. Essa diferença ajuda a explicar por que os carros totalmente elétricos respondem por 34% do mercado chinês, contra 3% no Brasil.

Para aumentar o share por aqui, só aumentando a quantidade de carregadores – de preferência os rápidos, que permitem uma boa recarga em menos de 30 minutos. E a BYD está se movendo nessa direção.

A empresa pretende trazer 800 carregadores de alta velocidade para o Brasil. Trata-se da linha Flash Charging, de fabricação própria e que entrega até 400 km de autonomia em 5 minutos.

São poucos os modelos compatíveis. É o caso das novas gerações do Tan e do Han (ainda não disponíveis no Brasil) e de alguns carros da Denza, a marca de luxo da BYD, que chega ao mercado em 2026.

“Primeiro, vamos instalar em frente às concessionárias Denza e da BYD. Também estamos avaliando a implementação em eletropostos em vias públicas, começando pelas capitais – São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília, que são realmente muito relevantes para a gente”, projeta o executivo.

Ou seja: para crescer no Brasil, a BYD aposta também em planejamento urbano. Baldy tem experiência no ramo. Foi ministro das Cidades, no governo Temer, e secretário dos Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo, na gestão Doria. Antes de atuar no setor público, empreendeu: liderou a Allbox Embalagens, empresa vendida em 2023 por R$ 500 milhões.

Camaçari

A maior alavanca da BYD para o mercado brasileiro, de qualquer forma, veio há alguns meses. A empresa concluiu em outubro as obras de modernização do complexo fabril de Camaçari, na Bahia.

A BYD investiu R$ 5,5 bilhões para ocupar uma estrutura de 4,6 milhões de metros quadrados — o equivalente a 645 campos de futebol. O espaço pertencia à Ford até 2021, quando a montadora americana decidiu encerrar sua operação no Brasil.

Planta da BYD em Camaçari: desde a inauguração, em outubro, a BYD estima já ter fabricado mais de 12 mil unidades no local. (Foto: Divulgação)

A BYD monta ali o Dolphin Mini (elétrico mais vendido do país) e os híbridos plug-in King e Song Pro. A capacidade inicial da unidade era de 150 mil veículos por ano, mas, em pouco tempo, a montadora chinesa adicionou um segundo turno, elevando a produção para 300 mil unidades anuais.

A previsão é que o complexo produza 600 mil veículos por ano quando estiver totalmente operacional. Os números mostram bem a ambição: isso é quase seis vezes a venda atual da BYD, de 110 mil veículos por ano.

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China usa novo combustível na corrida espacial: os IPOs

26 de Dezembro de 2025, 14:47

As empresas chinesas que desenvolvem foguetes comerciais reutilizáveis terão acesso a uma via rápida para ofertas públicas iniciais de ações no mercado que as isenta de algumas exigências financeiras, informou a Bolsa de Valores de Xangai nesta sexta-feira.

Pequim está tentando fechar uma lacuna em suas capacidades espaciais em comparação com os Estados Unidos, que praticamente dominaram a capacidade de retornar, recuperar e reutilizar o primeiro estágio de um foguete, ou booster, depois que ele é lançado.

A via rápida isenta as empresas chinesas de foguetes dos limites de lucratividade e receita mínima e, em vez disso, exige que elas tenham atingido marcos tecnológicos importantes, incluindo um lançamento orbital bem-sucedido usando tecnologia de foguete reutilizável.

SpaceX, de Musk, na mira chinesa

Atualmente, a norte-americana SpaceX, companhia aeroespacial do bilionário Elon Musk, detém quase o monopólio dessa tecnologia, e seu exclusivo foguete Falcon 9 é o único modelo reutilizável que é lançado regularmente e usado para colocar satélites em órbita.

No início deste mês, a principal empresa privada de foguetes da China, a LandSpace, tornou-se a primeira entidade nacional a realizar um teste completo de foguete reutilizável com o lançamento de seu novo modelo Zhuque-3, sinalizando ambição de alcançar a SpaceX.

Embora o lançamento não tenha conseguido concluir a etapa crucial de recuperação do propulsor do foguete, uma enxurrada de empresas estatais e privadas chinesas está agora correndo para testar o lançamento de seus próprios foguetes reutilizáveis.

Na órbita do capital

A LandSpace já disse que deseja demonstrar uma recuperação bem-sucedida do foguete em meados de 2026, quando o Zhuque-3 será lançado pela segunda vez. Mas ela disse que a natureza de capital intensivo do desenvolvimento de foguetes significa que precisará de acesso aos mercados de capital da China se quiser competir com a SpaceX.

As regras da bolsa de Xangai não determinam que as empresas de foguetes devem recuperar um foguete com sucesso, apenas que a tecnologia de foguetes reutilizáveis seja usada para colocar um satélite em órbita, algo que a LandSpace já conseguiu com o lançamento deste mês.

As empresas que realizarem missões nacionais ou participarem de grandes projetos espaciais liderados pelo Estado receberão apoio prioritário, de acordo com as novas diretrizes, que entrarão em vigor imediatamente, ressaltando o estreito alinhamento entre a atividade de lançamento comercial e as metas estratégicas mais amplas da China.

A China descreveu repetidamente o monopólio da SpaceX sobre os satélites de órbita baixa da Terra como um risco à segurança nacional e está promovendo ativamente suas próprias constelações de satélites, que espera que cheguem a dezenas de milhares nas próximas décadas.

BC da China muda discurso e sinaliza cautela sobre estímulos agressivos para a economia

26 de Dezembro de 2025, 09:45

O banco central da China reafirmou sua postura de política monetária favorável ao crescimento, ao mesmo tempo em que sinalizou cautela contínua em relação a estímulos agressivos. Isso reforçou uma mudança de foco para a garantia da estabilidade a longo prazo em detrimento de soluções imediatas.

O Banco Popular da China (PBOC, na sigla em inglês) prometeu manter os juros em níveis baixos, de acordo com comunicado divulgado na quarta-feira, após a reunião do seu comitê de política monetária do quarto trimestre. O banco reiterou o compromisso de intensificar as políticas “transcíclicas”, uma expressão que sugere que a instituição pretende olhar além da volatilidade de curto prazo e evitar estímulos excessivos que possam criar desequilíbrios estruturais.

O comunicado não mencionou uma redução nas taxas de juros nem para o índice de requerimento de reserva, ou compulsório, que determina quanto dinheiro os bancos devem manter em reservas, enquanto o PBOC prometeu usar várias ferramentas de política monetária. Isso sugere que o banco central está cauteloso em relação a grandes passos de afrouxamento, mesmo após um comunicado divulgado na sequência de uma importante conferência anual econômica, que havia incluído uma referência a essas medidas no início deste mês.

A linguagem sugere “uma preferência por uma abordagem reativa em vez de proativa em relação ao afrouxamento monetário”, disse em nota o economista do Goldman Sachs, Xinquan Chen, na quinta-feira. As mudanças na linguagem “apontam para uma abordagem mais cautelosa e flexível em relação ao afrouxamento da política monetária”, afirmou.

Essa abordagem ponderada ocorre apesar do aprofundamento da fraqueza da demanda interna, com as vendas no varejo no mês passado expandindo ao ritmo mais lento desde o colapso causado pela Covid. O investimento em ativos fixos também está a caminho de registrar seu primeiro ano de declínio em meio a dados que remontam a 1998, após uma crise agravada por uma escassez de financiamento para projetos de infraestrutura.

O comitê afirmou que irá “avaliar a força, o ritmo e o momento” da implementação da política com base na evolução das condições internas e externas. O PBOC também reiterou o compromisso de manter a estabilidade básica do yuan em um nível razoável e equilibrado para evitar riscos de movimentos excessivos.

O PBOC tem adotado uma abordagem cautelosa neste ano, frequentemente decepcionando economistas que previam cortes mais agressivos nas taxas de juros. Essa contenção reflete preocupações mais profundas do banco central em proteger as margens bancárias cada vez menores e preservar espaço de políticas para futuras desacelerações.

Embora o comunicado da reunião tenha mencionado a manutenção de liquidez “ampla”, o foco na “qualidade e eficiência” em vez do volume bruto sugere que qualquer flexibilização adicional será majoritariamente direcionada.

O PBOC provavelmente cortará o compulsório, o RRR, em 50 pontos-base no primeiro trimestre para manter ampla liquidez e garantir que os juros do governo permaneçam baixos, escreveram economistas da China Galaxy Securities em um relatório na quinta-feira.

Embora possa reduzir a taxa básica de juros em 10 a 20 pontos-base em 2026, qualquer redução só será desencadeada por um aumento da pressão econômica, como uma deterioração nas relações entre os EUA e a China ou uma piora do desemprego, acrescentaram os economistas.

Setor de tecnologia dos EUA ainda sofre com falta de insumos chineses de terras raras

25 de Dezembro de 2025, 12:24

A China ainda está restringindo os elementos de terras raras de que os EUA precisam para produzir seus próprios ímãs permanentes e outros produtos, mesmo depois de o presidente Donald Trump ter fechado, em outubro, um acordo com seu contraparte chinês para suspender restrições ao fornecimento, segundo participantes do mercado.

Mais de uma dúzia de consumidores, produtores, autoridades do governo e especialistas em comércio disseram que, embora a China tenha aumentado as entregas de produtos acabados — principalmente ímãs permanentes —, a indústria americana continua sem conseguir adquirir os insumos necessários para fabricar esses itens por conta própria, uma prioridade-chave do governo. As pessoas pediram para não ser identificadas ao discutir assuntos que não são públicos.

A redução no comércio evidencia tensões persistentes na relação EUA–China nos meses desde que Trump e Xi Jinping costuraram uma trégua na Coreia do Sul em 30 de outubro, com os EUA reduzindo tarifas e a China se comprometendo a restabelecer o fornecimento de terras raras. Na época, Trump disse que o acordo equivalia à “remoção de fato” de uma série de limites que a China havia imposto.

Ao restringir as entregas de matérias-primas, a China está dificultando os esforços dos EUA para construir uma indústria própria capaz de processar terras raras e transformá-las em ímãs usados em tudo, de bens de consumo a sistemas de guiagem de mísseis. O governo Trump fez do desenvolvimento de capacidade doméstica de produção de ímãs permanentes e outros produtos de terras raras uma prioridade, depois de a China ter passado anos construindo um monopólio global.

A Casa Branca não respondeu a um pedido de comentário para esta reportagem. Autoridades do governo disseram, nas últimas semanas, que a China está cumprindo os termos do acordo sobre o fornecimento de terras raras.

Dados oficiais chineses divulgados em 20 de dezembro mostraram que o fornecimento de ímãs aos EUA caiu 11% em novembro em relação ao mês anterior, mas permanece acima das mínimas registradas quando Pequim restringiu o envio em abril. No total, as exportações chinesas de elementos e produtos de terras raras — incluindo ímãs — subiram 13% em novembro ante o mês anterior, segundo cálculos da Bloomberg com base em dados oficiais da alfândega.

Mineração em terras raras
Mineração em terras raras (Bloomberg)

Um porta-voz do Ministério do Comércio da China afirmou na quinta-feira que a oscilação nos dados mensais de comércio é “normal” e acrescentou que o país está comprometido em manter a estabilidade das cadeias globais de suprimento. Pequim disse que já aprovou alguns pedidos de exportação de terras raras, mas continua restringindo fornecimentos que poderiam chegar a contratantes militares.

Autoridades do setor e participantes do mercado disseram que, para os atores americanos, a realidade é diferente.

“As pessoas não estão conseguindo tirar materiais da China; você não está conseguindo metal ou óxido de disprósio se você é uma entidade dos EUA”, disse em entrevista Scott Dunn, CEO da Noveon Magnetics Inc., citando contatos com outros participantes da indústria. A Noveon é uma das poucas fabricantes americanas de ímãs permanentes. A empresa não compra insumos de terras raras da China, mas Dunn disse que alguns de seus clientes compram.

“Fora da China, o mundo consegue produzir 50.000 toneladas de ímãs, mas não chega nem perto de existir um volume equivalente de minerais de terras raras para sustentar essas toneladas fora da China”, disse Dunn. “A China restringe materiais muito além do que restringe em ímãs para manter essa dinâmica.”

Ainda assim, o afrouxamento das restrições de Pequim sobre produtos como ímãs feitos a partir de terras raras, por ora, eliminou o risco de que indústrias consumidoras — como a automotiva e a de tecnologia — tenham de interromper a produção, segundo Gracelin Baskaran, diretora do programa de segurança de minerais críticos do Center for Strategic and International Studies, em Washington.

“Como importamos mais adiante na cadeia de suprimentos, as empresas não sentem essa interrupção com a mesma intensidade”, disse ela. “Como importamos mais ímãs, o impacto é muito mais brando.”

As exportações totais de matérias-primas da China aumentaram desde o ano passado, mas os EUA não receberam uma alta semelhante, segundo dados do governo. A estagnação para empresas americanas continua mesmo depois de a União Europeia ter dito, em 15 de dezembro, que a China começou a conceder licenças com prazos mais longos para permitir que companhias europeias obtenham terras raras.

Segundo uma pessoa familiarizada com as negociações, EUA e China ainda não chegaram a um acordo sobre detalhes essenciais de como Pequim vai liberar as vendas de terras raras. A Bloomberg News informou no mês passado que os dois lados deram às suas equipes até o fim de novembro para acertar os termos das chamadas “licenças gerais” para exportações. Isso deixou participantes do mercado preocupados com a possibilidade de a trégua desmoronar.

“Chegamos a vários acordos temporários em Londres, em Genebra, na Coreia do Sul, e eles foram descumpridos”, disse Baskaran. “Então, até agora, nenhum acordo se provou definitivo — e isso deixa a indústria receosa, de um jeito que é justificável.”

A proximidade do vencimento, em seis meses, das licenças temporárias de exportação que a China aprovou no começo do verão também significa que empresas americanas vão buscar renovações ao mesmo tempo, o que pode criar um acúmulo de solicitações. Compradores temem que a China, como fez em maio e junho, possa desacelerar aprovações — um movimento que participantes do setor veem como uma forma de controle de exportações.

“Em conversas com advogados chineses, a recomendação é seguir com os pedidos de licença antes de a pausa expirar”, disse Mark Ludwikowski, chefe da área de comércio internacional do escritório Clark Hill. “Eles podem cortar isso a qualquer momento, se isso azedar.”

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Alibaba começa a vender óculos com IA na China e se posiciona como rival da Meta na corrida dos “wearables”

27 de Novembro de 2025, 14:17

O Alibaba lançou nesta quinta-feira (27) seus novos óculos de inteligência artificial Quark na China, sinalizando os esforços da empresa chinesa de tecnologia para entrar no mercado de wearables com IA, dominado pela Meta.

Os preços começarão em 1.899 iuanes para o headset, que será alimentado pelo modelo e aplicativo de IA Qwen da Alibaba. Ao contrário de outros headsets fabricados por empresas como a Meta, os óculos Quark têm a aparência de óculos comuns, com armação de plástico preto.

A Alibaba afirmou que os óculos seriam profundamente integrados aos seus aplicativos, incluindo o Alipay e seu site de compras Taobao, permitindo que os usuários os utilizassem para tarefas como tradução em tempo real e reconhecimento instantâneo de preços.

“Os pontos fortes da Alibaba são compras, pagamentos e navegação, então seus óculos com IA funcionam mais como um assistente pessoal”, disse Li Chengdong, analista da indústria eletrônica baseado em Pequim.

A empresa está investindo no mercado de IA para o consumidor, após ter ficado historicamente atrás da concorrência. No início deste mês, ela lançou uma grande atualização para seu chatbot de IA.

Li afirmou que a estratégia da Alibaba para óculos de IA inclui um foco na captura de tráfego futuro em meio à intensa competição no setor de comércio eletrônico da China.

“O Alibaba não detém o monopólio do comércio eletrônico”, afirmou. “A empresa espera que a IA possa ajudá-la a garantir a segurança do gateway de tráfego da próxima geração.”

Os novos óculos de IA da Quark estão disponíveis nas principais plataformas de comércio eletrônico chinesas, incluindo Tmall, JD.com e Douyin. Os números de vendas ainda não estão disponíveis, pois o produto foi lançado oficialmente apenas na quinta-feira.

A corrida para encontrar novas formas de dispositivos para entretenimento e computação, baseadas em IA, alimentou uma batalha entre as maiores empresas de tecnologia. A Meta, proprietária do Instagram, domina amplamente o setor de headsets de realidade virtual, com cerca de 80% do mercado. A Apple vende seu headset Vision Pro enquanto a Samsung Electronics lançou seu headset de realidade estendida Galaxy XR em outubro, que utiliza recursos de IA do Google, da Alphabet .

Outras empresas de tecnologia chinesas também lançaram óculos semelhantes com inteligência artificial. A Xiaomi lançou um produto em junho, enquanto a Baidu já possui um produto similar à venda.

O prodígio dos chips que virou bilionário com o protecionismo da China

17 de Novembro de 2025, 10:37

Em 2019, Chen Tianshi estava longe de se tornar uma das pessoas mais ricas do planeta.
O maior cliente de sua startup de chips de inteligência artificial de apenas três anos — a gigante chinesa de telecomunicações Huawei Technologies — havia abruptamente cortado quase todos os negócios, optando por desenvolver seus próprios semicondutores. Até então, a Huawei representava mais de 95% da receita da empresa.

Mas então ele teve uma sorte inesperada. A decisão dos EUA de cortar o acesso da China a chips avançados e a determinação de Pequim em fomentar tecnologia doméstica acabaram criando um ambiente de forte apoio estatal e um vasto mercado protegido para a empresa do prodígio da computação — impulsionando-o a se tornar um dos bilionários self-made mais ricos do mundo.

As ações da sua frabricante de chips, Cambricon Technologies, dispararam mais de 765% nos últimos 24 meses. Sua fortuna — quase toda derivada de sua participação de 28% na fabricante de aceleradores de IA com sede em Pequim — mais que dobrou em 2025, alcançando US$ 22,5 bilhões, segundo o Bloomberg Billionaires Index.

A ascensão meteórica de Chen destaca como o robusto apoio da China à indústria doméstica de IA está criando uma nova elite tecnológica alinhada ao Estado, poucos anos depois de o país ter reprimido seus titãs do setor privado. Com as sanções dos EUA sufocando o acesso da China a chips avançados, empresas como a Cambricon emergiram como campeãs nacionais, protegidas por políticas públicas e entusiasmo dos investidores — símbolos de uma nova ordem industrial em que o favoritismo político, e não a livre concorrência, define os vencedores.

Questionamentos sobre quanto desse avanço se deve ao protecionismo estatal — e não à competitividade dos chips — dividem analistas quanto à longevidade dessa trajetória.

“Crescimentos explosivos como o da Cambricon vêm de uma base muito baixa; sua avaliação atual pode estar inflada sem um apoio político contínuo”, disse Shen Meng, diretor do banco de investimento Chanson & Co., de Pequim.

Embora Chen ainda esteja longe da fortuna de Jensen Huang, fundador da Nvidia, ele já é a terceira pessoa mais rica do mundo com 40 anos ou menos, atrás apenas de Lukas Walton e Mark Mateschitz, herdeiros das fortunas Walmart e Red Bull, respectivamente.

As ações da Cambricon — e, por extensão, o patrimônio de Chen — dispararam em agosto, quando Pequim instruiu empresas locais a evitarem usar os processadores H20 da Nvidia, especialmente em projetos governamentais.

A empresa tentou esfriar o frenesi dos investidores, advertindo em documento à Bolsa de Xangai que ainda enfrenta sanções dos EUA e ressaltando as dificuldades de escalar tecnologicamente. Também desmentiu rumores sobre produtos inexistentes em desenvolvimento.

Relatórios de corretoras mencionavam seu próximo chip Siyuan 690, embora se acredite que ainda esteja anos atrás do produto equivalente da Nvidia.

“É cedo demais para dizer se Cambricon ou Huawei, as líderes em chips de IA na China, se tornarão a ‘Nvidia chinesa’, porque o ecossistema completo da Nvidia, incluindo o CUDA, é extraordinariamente difícil de replicar rapidamente”, disse Sunny Cheung, pesquisador no think tank Jamestown Foundation, em Washington.

A Cambricon não respondeu aos pedidos de comentário da Bloomberg.

Apesar das dúvidas sobre a avaliação da empresa, a trajetória de Chen tornou-se um caso de estudo do pipeline acadêmico apoiado pelo Estado que também impulsionou o avanço surpreendente da startup DeepSeek e de seu fundador millennial, Liang Wenfeng.

Aluno superdotado

Nascido em 1985, filho de um engenheiro elétrico e de uma professora de história na cidade de Nanchang, sudeste da China, Chen teve seu talento identificado cedo. Ele e seu irmão mais velho, Chen Yunji, foram escolhidos para um programa de alunos superdotados na prestigiosa Universidade de Ciência e Tecnologia da China, em Hefei, onde obteve PhD em ciência da computação em 2010.

Depois, juntou-se ao irmão como pesquisador no Instituto de Computação da Academia Chinesa de Ciências — centro das ambições científicas do país e financiado pelo Estado.

Foi ali que os irmãos ganharam atenção com artigos acadêmicos de prestígio internacional sobre seu acelerador DianNao, em 2014. Um ano depois, apresentaram seu primeiro chip — um processador inspirado no cérebro para deep learning, batizado de Cambricon, referência à explosão Cambriana, simbolizando um ponto inicial de evolução para a IA.

Em 2016, o projeto virou empresa, com a Academia como uma das primeiras investidoras.

O primeiro grande avanço veio em 2017, quando a Huawei usou a tecnologia de processadores de IA da Cambricon para melhorar fotografia e jogos no smartphone Mate 10. A parceria terminou em 2019, quando a Huawei começou a desenvolver soluções próprias. Desde então, a Cambricon migrou gradualmente para projetar e vender chips de IA para servidores de nuvem e dispositivos de borda.

Ela abriu capital em 2020, no STAR Market, em Xangai, mas permaneceu no vermelho até registrar lucro trimestral pela primeira vez no quarto trimestre de 2024.

A empresa sofreu um revés em 2022, quando o Departamento de Comércio dos EUA a colocou na “entity list”, por supostamente buscar itens de origem americana para apoiar a modernização militar da China — restrição que limita o acesso da Cambricon a tecnologias ocidentais.

Mas as limitações não frearam as perspectivas da empresa. Quando Washington endureceu os controles e impediu Nvidia e AMD de vender chips avançados à China, criou um enorme vácuo de suprimentos. Pequim reagiu exigindo que empresas domésticas “comprassem local”, o que significa que companhias chinesas agora precisam adquirir ao menos parte de seus chips de fabricantes nacionais como Huawei ou Cambricon.

A demanda explodiu. A receita da Cambricon cresceu mais de 500% nos últimos 12 meses, mesmo competindo com a Huawei e várias outras startups chinesas.

Embora hoje seja um dos principais investimentos domésticos em IA, investidores podem voltar-se a outras rivais à medida que Moore Threads e MetaX avançam rumo a IPOs na China. Enquanto isso, as fabricantes de chips Biren Technology e Iluvatar CoreX estariam preparando aberturas de capital em Hong Kong.

“O crescimento delas é diretamente causado pela necessidade urgente de países terem infraestrutura de hardware”, disse Shuman Ghosemajumder, cofundador e CEO da Reken, startup de IA de São Francisco. “Assim como a Nvidia, acredito que elas devem enfrentar grande volatilidade nas ações, à medida que o mercado tenta determinar quanta infraestrutura realmente é necessária para modelos de IA generativa úteis — e quanto dessas expectativas foi exagerado.”

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A mega rede de infraestrutura que as estatais chinesas costuram no Brasil

17 de Novembro de 2025, 06:00

Um dos maiores exportadores de soja brasileira para a China é a própria China, de certa forma. O grosso das exportações acontece via traders agrícolas: Cargill, Bunge, Louis Dreyfus… Elas compram das fazendas e vendem para os clientes de fora, cuidando da parte logística no meio do caminho. 

Acontece que, hoje, a segunda maior trader de grãos do mundo é a Cofco, uma estatal chinesa, que só fica atrás da americana Cargill. A China é o grande destino da soja brasileira, lógico – perto de 80% das nossas exportações embarcam para lá. E das 72,5 milhões de toneladas que o Brasil vendeu para China em 2024, 6,65 milhões foram transportadas da lavoura para o mar pela Cofco. 9% do total

Soja sendo carregada em um navio cargueiro
Terminal de grãos. Foto: Wirestock/Getty Images

Não é apenas soja, nem só para a China. A Cofco é a maior exportadora de produtos agrícolas no Brasil. Foram 17 milhões de toneladas no ano passado – principalmente soja, milho e açúcar. Para dezenas de países.

E essa capacidade está aumentando. A estatal operava dois terminais no Porto de Santos (além de alugar instalações de outras empresas). Em março deste ano, inaugurou parcialmente seu terceiro, o TEC (Terminal Exportador Cofco), também conhecido pelo nome técnico da área que ele ocupa no maior porto da América Latina: STS11

O TEC entra em operação plena no ano que vem. Quando isso acontecer, a capacidade da empresa no Porto de Santos vai saltar de 4,5 milhões de toneladas por ano para 14 milhões. Será o maior terminal da Cofco fora da China. 

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Não significa que vão exportar exatamente 9,5 milhões de toneladas extras. Boa parte será realocada dos terminais de terceiros para o STS11. O ponto é que isso diminui os custos de exportação para a empresa. 

Essa não foi a única medida na linha de “verticalizar” a logística, ou seja, de controlar mais fases do ecossistema de exportação. A Cofco também comprou 23 locomotivas e 979 vagões de carga, por R$ 1,2 bilhão. Os trens, operados pela Rumo, vão levar quatro milhões de toneladas de grãos e açúcar por ano das regiões produtoras até o Porto de Santos, a partir de 2026. 

As peças de Lego

A fauna de terminais portuários de carga é vasta, mas se divide basicamente em dois reinos. 

Um é o dos terminais de granéis – caso do STS11. Vai tudo solto, sem embalagem individual. Em vez de sacas de soja empilhadas, o navio recebe um rio de grãos caindo pela correia.

O outro reino portuário é o dos terminais de contêineres. iPhones, blusinhas, peças de avião, remédios… Tudo vai nesses caixotes de tamanho padrão. É como se o comércio global fosse feito de Lego: o mesmo contêiner que está empilhado em um navio vira um vagão de trem ou a traseira de um caminhão, e segue viagem sem ninguém ter de abrir a porta para desempacotar tudo. 

Por essas, os contêineres padronizados são uma invenção não muito menos importante do que a roda.

Terminal de contêineres
Terminal de contêineres. Foto: John Lamb/Getty Images

Pois bem. 11% dos 14 milhões de contêineres que se movimentam pelo Brasil (para importação, exportação ou cabotagem) passam pelo TCP – o Terminal de Contêineres de Paranaguá (PR).

E desde 2018 o TCP é parte do portfólio de outra estatal do país de Xi Jinping, a China Merchants Port Holdings (CMPorts). Trata-se da maior operadora de contêineres da China. E agora uma das maiores daqui também. Mais precisamente, a número três: em volume de contêineres (1,6 milhão/ano) só fica atrás da Santos Brasil (2,3 milhões) e da BTP, um consórcio de empresas europeias de logística (1,8 milhão).

Talvez ela até suba uma posição nesse ranking. A CMPorts assinou no início de novembro um acordo com o governo se comprometendo a investir R$ 1,5 bilhão na ampliação do terminal.

E esse não é o único investimento dela no Brasil. Vamos agora para o outro.

O ‘porto do Eike’

Lembra do Eike Batista? Então. No começo do século, ele queria montar um complexo de mega empresas que se retroalimentassem. Começava com mineradora (a MMX) e petroleira (OGX). Para fornecer energia às instalações, criou uma companhia de termelétricas (MPX). O combustível das plantas viria de sua mina de carvão (CCX). Projetou também um estaleiro (OSX) e o Porto do Açu (LLX), no Estado do Rio de Janeiro, que teria terminais de granéis para escoar o petróleo da OGX e o minério de ferro da MMX.

O tempo passou, as coisas mudaram, mas o porto vingou. O fundo americano EIG comprou o controle de Eike em 2013 e criou a Prumo Logística, que desenvolveria o Porto do Açu. Hoje ele tem 11 terminais, e o de petróleo responde por 30% das exportações brasileiras da commodity – o porto recebe embarcações vindas das plataformas marítimas e transfere o líquido preto para os petroleiros que fazem a exportação.

O que nos leva de volta à CMPorts.

Petroleiros atracados em um porto
Petroleiros atracados em um terminal. Foto: Luciana Floriano/Getty Images

Em fevereiro de 2025, a estatal chinesa assinou um acordo para a compra de 70% do terminal de petróleo – com os 30% restantes permanecendo com a Prumo. O negócio não está concluído. Precisa da aprovação dos órgãos reguladores e do cumprimento de certas exigências contratuais.

Caso o negócio feche, de qualquer forma, a CMPorts responderia pela parte logística de 21% das exportações brasileiras de petróleo (ou seja, 70% do que está hoje nas mãos da Prumo). 

Ainda assim, um dos maiores investimentos recentes da China no Brasil na área de infraestrutura não tem a ver com exportação de commodities. Mas com o transporte de gente: um trem de passageiros entre São Paulo e Campinas.

O trem São Paulo-Campinas

A ideia de ligar São Paulo e Campinas por trem é tão antiga quanto os trens. E foi concretizada há mais de 150 anos. A primeira ferrovia entre a capital do Estado e a maior cidade do interior paulista começou a operar em 1872. No fim do século 20, porém, o serviço ainda era lento, precário. E deixou de existir em 1999.

Mas o sonho de um trem moderno ligando as cidades nunca deixou de existir, claro. Passou pelo nunca concretizado trem bala Rio-SP-Campinas. Mas deve sair do papel, finalmente, com o Trem Intercidades – uma concessão leiloada pelo poder público em 2024.

E quem arrematou? 60% ficou com a família Constantino (via Grupo Comporte, a holding de transportes terrestres deles) e 40% com outra estatal chinesa, a CRRC. Trata-se da maior fabricante de trens do mundo, e que tem 90% do mercado na China.

A previsão é que o Trem Intercidades consuma R$ 14 bilhões em investimentos. R$ 8,98 bilhões ficarão com o governo do Estado. Considerando que a CRRC cuidará de 40% do restante, estamos falando em R$ 2 bilhões. A inauguração está planejada para 2031.

Trem intermunicipal de passageiros
Trem intermunicipal de passageiros. Foto: Den Belitsky/Getty Images

É fácil imaginar a motivação do governo chinês, o controlador das estatais, em algo como o suprimento de petróleo e de soja, ou a movimentação de contêineres em Paranaguá – é dentro deles que boa parte dos importados chineses entram no Brasil, afinal. Mas qual é a estratégia da China com o Trem Intercidades? A receita ali, afinal, virá da venda de passagens para brasileiros, algo distante dos interesses de Pequim.      

Mas não é só na bilhetagem que está o faturamento ali. “Sob a perspectiva do governo chinês, há retornos maiores. Quando você entra numa concessão como essa, também ganha fornecendo os trens, colocando uma construtora chinesa…”,  diz Juan Landeira, diretor para Infraestrutura na consultoria Alvarez & Marsal. “Você vende tecnologia. Você vende know-how.” 

De fato. A CRRC vai construir os trens do Intercidades. E não só eles. A estatal venceu neste ano uma concorrência para fabricar 44 trens para o Metrô de São Paulo, batendo a francesa Alstom, tradicional fornecedora do governo paulista. O contrato é de R$ 3,1 bilhões.

Para montar as composições, a CRRC passou a operar uma fábrica em Araraquara. Ela pertencia à sul-coreana Hyundai Rotem (que fez os trens da Linha Amarela de São Paulo). A ocupação da planta foi agora em outubro, e é de lá que vão sair também os trens do Intercidades.

As interconexões vão mais longe. A energia elétrica que alimenta os projetos da China aqui vem, em parte, da própria China. A State Grid, do governo de lá, controla a CPFL, responsável por 15% da distribuição aqui. A China Three Gorges (CTG) cuida de 3,5% da geração brasileira. E as duas compram painéis solares da China, que responde por 80% da produção global. Com o petróleo é a mesma coisa. Parte do que chega ao Porto do Açu, alvo da CMPorts, vem da CNOOC, da CNPC e da Sinopec – petroleiras da China que atuam nas águas brasileiras

Enfim. É a mesma lógica que Eike Batista sonhava para si: um ecossistema de empresas gigantes, no qual uma alimenta a outra, multiplicando a receita do controlador por trás de todas. Só tem duas diferenças. Com o governo chinês nesse papel, a escala é monumental. E está dando certo.

Como a soja virou protagonista na guerra comercial entre EUA e China

10 de Novembro de 2025, 06:00

Depois de anos sendo sacudido por disputas globais, o fazendeiro de Illinois Dean Buchholz achava que já tinha visto de tudo. Mas até ele se surpreendeu quando sua safra de soja acabou envolvida numa crise financeira sul-americana.

Dias depois de o governo Trump prometer um empréstimo de US$ 20 bilhões para reforçar as finanças da Argentina, sob o presidente libertário Javier Milei, a China comprou bilhões de dólares em soja argentina. O megacontrato agrícola repercutiu nos mercados internacionais, pressionando os preços da soja americana e dando impulso à moeda argentina.

Em meio a uma guerra comercial entre Pequim e Washington, China e Argentina uniram forças para mostrar que o mundo pode viver sem a soja dos Estados Unidos. Alguns produtores americanos viram isso como uma traição. “A gente usou dinheiro de impostos para ajudar um país estrangeiro”, disse Buchholz, “e eles basicamente cortaram nossa garganta.”

Acordo e desconfiança

Na semana passada, o presidente Trump e o líder chinês Xi Jinping concordaram em reduzir as tensões comerciais após uma reunião na Coreia do Sul. Trump disse que cortaria tarifas sobre produtos chineses se Pequim limitasse as exportações de insumos usados na produção do opioide fentanil. Segundo o secretário do Tesouro, Scott Bessent, a China prometeu comprar 12 milhões de toneladas de soja americana nesta safra e 25 milhões de toneladas por ano nos próximos três anos.

“Nossos grandes produtores de soja, que os chineses usaram como peões políticos — isso acabou. Eles vão prosperar nos próximos anos”, disse Bessent.

Mas muitos agricultores ainda se sentem como peões. A manobra chinesa destacou os riscos de depender de uma potência capaz de abalar fortunas ao fechar a torneira do comércio.
Os termos do acordo não foram divulgados. Pelo que se sabe, a China concordou em comprar menos soja dos EUA neste ano do que no anterior. Na última década, o país importou em média 29 milhões de toneladas por ano.

“Acho que todo mundo nos usa como peões”, disse David Isermann, que cultiva cerca de 1 mil hectares (10 km²) no condado de LaSalle, em Illinois. Como muitos produtores, ele espera para ver se a China realmente cumprirá a promessa. Boa parte do interior agrícola apoia Trump, diz Isermann, mas “ele irritou os produtores de soja”.

Os preços pagos aos agricultores subiram desde o anúncio do acordo, mas, no terminal de grãos de Walsh, no nordeste de Dakota do Norte, o preço recente — abaixo de US$ 10 por bushel (medida equivalente a 27,2 kg de soja) — ainda torna a oleaginosa um negócio deficitário para a maioria.
Marvin Yoder, que cultiva mais de 2 mil hectares (20 km²) de milho e soja em Jacksonville, Illinois, dirigiu cerca de 130 quilômetros até a região de St. Louis para vender a colheita.

Foto: Adobe Stock

O porto no rio Mississippi paga cerca de 40 a 45 centavos a mais por bushel que o armazém local. Yoder diz que o acordo pode ajudar as finanças dos produtores no curto prazo, mas não resolve o problema maior: o Brasil.

“Os EUA dominaram as exportações agrícolas globais, mas o resto do mundo alcançou”, afirmou. “O Brasil cresce todo ano — tem terra barata, mão de obra barata e produtores muito competentes também.”

A incerteza do mercado chega em má hora para os produtores americanos de soja. A safra deste ano foi projetada como uma das maiores da história, deixando os agricultores com mais grãos do que destinos para vendê-los.

Os custos estão subindo e os preços, baixos. Alguns que já venderam parte da colheita enfrentam prejuízos. Trump prometeu um pacote de resgate multibilionário para manter as fazendas de pé. Mike Dahman, que cultiva cerca de 8 mil hectares (80 km²) em Winchester, Illinois, diz que a soja foi um mau negócio neste ano. Somando o custo do arrendamento e das operações, calcula que perderá cerca de US$ 100 por hectare colhido.

Dahman tem armazenado a maior parte da safra em vez de vendê-la. No mês passado, levou um caminhão de grãos recém-colhidos até um silo da Cargill em Florence, Illinois, mas foi recusado enquanto o local carregava uma barcaça. Vendeu a um armazém vizinho por um preço um pouco menor. “Se você está plantando soja, provavelmente vai perder dinheiro”, disse.

A história da China

A China, de longe o maior importador mundial de soja, ajudou a transformar a oleaginosa na segunda cultura mais plantada dos EUA. O Conselho de Exportação de Soja dos Estados Unidos abriu um escritório em Pequim em 1982 para promover o grão rico em proteína usado na engorda de suínos e aves.

Nos anos 1990, com a ascensão da classe média chinesa e o aumento do consumo de carne, a demanda por soja disparou. Em resposta, agricultores americanos converteram milhões de hectares antes dedicados ao trigo, especialmente nas Grandes Planícies.

Cerca de metade da soja americana é exportada a cada ano. O restante é processado em óleo para culinária e biocombustíveis, como o diesel, e em farelo para ração animal. Avanços tecnológicos das maiores empresas de sementes e defensivos devem elevar a produtividade nos próximos anos.
Uma cadeia logística inteira se formou em torno da soja e das exportações para a China — plantas de processamento, ferrovias e melhorias em portos da Costa Oeste. Por décadas, a oleaginosa sustentou milhares de produtores e economias rurais dependentes das vendas a Pequim.

Tudo mudou no primeiro mandato de Trump, quando ele impôs tarifas à China, desencadeando uma guerra comercial. As importações chinesas de soja americana despencaram, e o governo teve de compensar as perdas com cerca de US$ 23 bilhões em subsídios entre 2018 e 2019.

As exportações depois se recuperaram, mas a China gastou dezenas de bilhões de dólares fortalecendo a cadeia agrícola da América do Sul — especialmente no Brasil. A estatal chinesa Cofco, uma grande trader agrícola, desenvolve um grande terminal no Porto de Santos para exportar soja e milho.

O fator Brasil e a Argentina

O Brasil ultrapassou os EUA como maior exportador mundial há mais de uma década, impulsionado por investimentos e uma vasta área agrícola. No ano passado, respondeu por 70% das importações chinesas, o dobro da fatia de 15 anos atrás.

O país é criticado por desmatar para expandir a produção. Em uma conferência neste ano, o vice-secretário de Agricultura dos EUA, Stephen Vaden, chamou o desmatamento brasileiro de “prática comercial desleal” que dá vantagem aos produtores locais.

Trump voltou a elevar as tensões com a China após reassumir a presidência. O governo acreditava que Pequim precisava da soja americana, e o confronto evoluiu para uma disputa de barreiras comerciais. A China reagiu.

Em setembro, a Argentina suspendeu sua taxa de exportação de 26% sobre produtos agrícolas até atingir US$ 7 bilhões em vendas. Dias depois, vendeu praticamente todo esse volume à China, incluindo dezenas de carregamentos de soja.

Autoridades argentinas disseram que a medida visava fortalecer o peso, segundo uma publicação nas redes sociais do então porta-voz presidencial. Mas, em meio a um pacote de resgate financeiro de US$ 20 bilhões articulado pelo Tesouro americano, muitos produtores nos EUA sentiram-se traídos.

O secretário do Tesouro, Bessent, estava na 80ª Assembleia-Geral da ONU em setembro quando recebeu uma mensagem de texto da secretária de Agricultura, Brooke Rollins: “Os preços da soja estão caindo ainda mais por causa disso. Isso dá mais poder de barganha à China.”

Gigantes do agronegócio como a Cargill — maior empresa privada dos EUA — e a Archer Daniels Midland foram as responsáveis por levar a soja argentina até a China. É parte da lógica global das tradings, que lucram com operações externas mesmo enquanto os produtores americanos sofrem com a queda nas exportações.

Segundo Brian Sikes, CEO da Cargill, países como o Brasil devem ajudar a expandir a produção agrícola global para alimentar a população crescente. “Vemos a América do Sul como um investimento, com certeza”, disse. A Cargill, com sede em Minnesota, investiu cerca de US$ 1,5 bilhão no Brasil nos últimos cinco anos, incluindo em unidades de processamento de soja.

Entidades do setor agrícola americano celebraram o novo acordo com a China. “Expandir mercados e retomar as compras chinesas vai trazer previsibilidade para produtores que estão lutando para se manter”, disse Zippy Duvall, presidente da American Farm Bureau Federation. Ainda assim, analistas alertam que as tensões entre China e EUA podem voltar a piorar. “Há um sentimento cauteloso de otimismo”, disse Arlan Suderman, economista-chefe de commodities da StoneX.

“Mas também a consciência de que os dois países ainda estão longe de resolver suas diferenças.” O CEO da Archer Daniels Midland, Juan Luciano, afirmou nesta semana que os benefícios do acordo recente com a China ainda são incertos. “Precisamos de clareza sobre o acordo”, disse. “À primeira vista, parece positivo, mas ainda não vimos um documento conjunto com os detalhes.”

Entre setembro e o início de outubro, as exportações americanas — excluindo a China — subiram cerca de 45% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo Jim Sutter, diretor do Conselho de Exportação de Soja.

Tailândia, Bangladesh, Paquistão e países europeus ampliaram suas compras. No norte da África, Egito e Marrocos despontam como oportunidades de crescimento, diz Sutter. Mas nada substitui a China. As grandes compras semanais do país durante a colheita americana trazem previsibilidade; já os pedidos de outros mercados são irregulares, elevando custos de armazenagem e incerteza.

Greg Amundson, que cultiva cerca de 3 mil hectares (30 km²) no nordeste de Dakota do Norte, diz que, em um ano normal, toda a sua soja iria para a China. Neste ano, levou a produção a uma planta de esmagamento — onde os grãos são transformados em óleo e farelo para ração —, mas se diz frustrado com os preços baixos. Centavos por bushel podem determinar a diferença entre lucro e prejuízo. Sinais de dificuldade já vinham aparecendo na economia rural antes mesmo de Trump reassumir o cargo.

O excesso de milho e soja após várias safras recordes derrubou os preços. Os fertilizantes de Amundson custam cerca de US$ 100 por saco a mais que no ano passado. As sementes subiram entre 10% e 20%.
“O acordo com a China pode trazer alguma estabilidade”, disse. “Mas tem soja demais no mundo — é por isso que os preços estão tão baixos.”

EUA investem R$ 2,5 bilhões na produção de terras raras da Serra Verde, em Goiás

8 de Novembro de 2025, 10:11

A Serra Verde, produtora brasileira de terras raras, garantiu um financiamento de até US$ 465 milhões – cerca de R$ 2,5 bilhões – da Corporação Financeira dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (DFC). O investimento tem como pano de fundo a busca pelas nações ocidentais da redução da dependência da China em relação a minerais essenciais.

O financiamento busca ajudar a cobrir as melhorias na mina Pela Ema da empresa, no estado do Goiás, de acordo com um documento de 15 de agosto do site do DFC. A agência federal foi criada durante o primeiro mandato do presidente dos EUA, Donald Trump, para oferecer financiamento e garantias a projetos em países em desenvolvimento que tenham ligação com os objetivos de política externa dos Estados Unidos.

O governo Trump recorre ao Brasil — o país com as maiores reservas de terras raras fora da China — por seus esforços na construção de cadeias de suprimentos alternativas para elementos-chave usados em equipamentos militares, veículos elétricos e turbinas eólicas.

O depósito de Pela Ema contém terras raras leves e pesadas – principalmente neodímio, praseodímio, térbio e disprósio – que são essenciais para a transição energética. A Serra Verde, apoiada pela Denham Capital, Vision Blue Resources e Energy and Minerals Group, é a primeira produtora de terras raras em larga escala do país.

O DFC afirmou que o fundo se destina a financiar melhorias na mina Pela Ema, bem como despesas operacionais e o refinanciamento da dívida existente dos acionistas. O financiamento foi divulgado anteriormente pelo Financial Times.

A Serra Verde iniciou a produção comercial em sua mina e planta de processamento em 2024. A empresa pretende aumentar a produção para entre 4.800 e 6.500 toneladas métricas de óxidos de terras raras até o início de 2027.

“Este projeto ainda está passando por diversas etapas e revisões antes de ser concluído”, disse um porta-voz da empresa sobre seus planos. “Como esses detalhes ainda não foram finalizados, preferimos aguardar para comentar até que a transação esteja totalmente concluída e possamos fornecer informações precisas.”

Em setembro, a Aclara Resources garantiu financiamento do DFC para um projeto de terras raras no Centro-Oeste, em um acordo que poderá ser convertido em participação acionária no futuro.

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China encerra embargo após seis meses e retoma importações de frango do Brasil

8 de Novembro de 2025, 09:59

A China suspendeu o embargo que mantinha há meses sobre as importações de carne de frango do Brasil. A medida deve reaquecer as vendas externas do maior exportador mundial do produto.

O bloqueio havia sido imposto em maio, após a detecção de casos de gripe aviária em território brasileiro. Segundo comunicado divulgado na conta oficial do departamento de alfândega chinês na plataforma Weibo, a decisão de liberar as compras foi tomada com base em uma análise de risco concluída no fim de outubro.

Tradicionalmente, a China é um dos principais compradores de carne de frango brasileira. A retomada das importações segue o mesmo caminho de países como Arábia Saudita, África do Sul e Filipinas, que também reverteram restrições após o Brasil declarar-se livre da doença em junho.

“A reabertura do mercado chinês pode ajudar a conter a desaceleração do setor de aves, que deve enfrentar maior oferta em 2026”, avaliou o analista Henrique Brustolin, do Bradesco BBI, em relatório.
“Isso tende a sustentar as margens de curto prazo da MBRF e da Seara, mas não muda nossa visão de que o ciclo deve enfraquecer no próximo ano.”

Brasil livre da doença, mas alerta global continua

Segundo o Ministério da Agricultura, o Canadá é atualmente o único país que mantém a suspensão total das importações de frango brasileiro.

Embora o Brasil tenha sido declarado livre da gripe aviária em junho, surtos recentes vêm sendo registrados em diversas regiões do mundo, especialmente na Europa, onde alguns governos chegaram a determinar que aves fossem mantidas em ambientes fechados para conter a disseminação do vírus.

O impacto da doença ainda é sentido no setor: os preços dos ovos dispararam no início de 2025 em várias partes do mundo, reflexo direto da escassez provocada pelos novos casos de gripe aviária.

Em maio, no mês que a China pausou as importações, as exportações brasileiras de carne de frango, incluindo produtos in natura e processados, caíram 12,9% em relação ao mesmo período do ano passado, por conta dos embargos decorrentes de um foco de gripe aviária em granja comercial. 

Depois de quebrar a relação EUA-China, Trump agora tenta dar um jeitinho

29 de Outubro de 2025, 15:34

Durante o primeiro mandato, o presidente dos EUA Donald Trump desmantelou o engajamento de décadas dos Estados Unidos com a China. Agora, ele está prestes a reatar com Pequim, adotando a estratégia de seus antecessores, de Bill Clinton a Barack Obama. Mas nos termos de Trump.

Os principais negociadores comerciais dos EUA e da China, ao concluírem dois dias de tensas negociações em Kuala Lumpur, na Malásia, disseram ter chegado a um acordo que prepara o terreno para que Trump e o líder chinês Xi Jinping cheguem a um acordo importante quando se encontrarem nesta quinta-feira (30), na Coreia do Sul.

O acordo em si parece ser uma trégua transacional, que pode envolver a retomada, pela China, das compras de soja dos EUA e o adiamento de novos controles sobre minerais de terras raras. Para os EUA, está em discussão o arquivamento de novas tarifas, a revogação da taxa de 20% sobre a China por seu papel na crise do fentanil nos EUA e, potencialmente, a abstenção de novas medidas políticas contra a China.

Mas o acordo vai além de um simples cessar-fogo temporário. É o primeiro passo em um diálogo de alto nível recém-estruturado, com o objetivo de consolidar um ano inteiro de diplomacia.

O cronograma é ambicioso: espera-se que Trump viaje a Pequim no início do próximo ano, seguido por uma visita recíproca de Xi ainda naquele ano.

Para Trump, é uma reviravolta impressionante.

“O primeiro mandato de Trump colocou os EUA e a China em um caminho rumo a uma competição inquestionável e de longo prazo, senão a um confronto”, disse Evan Medeiros, ex-alto funcionário de segurança nacional do governo Obama e atualmente professor da Universidade de Georgetown. “Agora parece que Trump está mudando completamente sua estratégia em relação à China, iniciando uma nova fase de maior engajamento e em um nível mais elevado.”

Além da diplomacia de alto nível, a trégua prepara o terreno para uma estabilização tática da relação ao longo do próximo ano.

Trump é negociador central com a China

Essa distensão recoloca Trump em seu papel preferido como negociador central, garantindo alívio econômico de curto prazo — como a retomada das compras de soja — que agrada aos estados com votação republicana.

Este novo calendário diplomático, altamente estruturado, contrasta fortemente com a abordagem de seu primeiro mandato.

Embora Trump tenha se reunido com Xi durante a primeira presidência, esse encontro era frequentemente improvisado e ofuscado pela escalada das disputas tarifárias, carecendo do agendamento formal e recíproco que agora está sendo proposto.

É também uma dinâmica que, segundo analistas, proporciona vantagens a Pequim.

O pensamento nos círculos de formulação de políticas de Pequim, de acordo com pessoas que consultam autoridades chinesas, é que Xi está se aproximando de seu objetivo de curto prazo: um “impasse estratégico” — um equilíbrio duradouro em que a pressão americana se torna administrável e a China ganha tempo para alcançar os EUA.

Ainda assim, essa mudança para o reengajamento não marca um retorno ao passado.

O antigo engajamento, defendido por décadas de formuladores de políticas dos EUA, foi construído sobre uma esperança liberal e ambiciosa: que a integração econômica inevitavelmente levaria a uma China mais aberta e politicamente reformada.

Mesmo a estratégia de “guinada para a Ásia” de Obama foi baseada no engajamento com Pequim, apoiada por um fortalecimento militar na região.

A versão Trump 2.0, por outro lado, parece ter nascido da necessidade.

Essa nova estrutura não se baseia em parceria, cooperação ou valores compartilhados. Em vez disso, alguns analistas dizem que é um reconhecimento frio de que o confronto aberto se tornou muito custoso e que os interesses dos EUA — desde a gestão do domínio da China sobre os minerais de terras raras até o controle do fluxo de fentanil — exigem um diálogo transacional.

É uma tentativa de estabelecer regras para uma rivalidade entre superpotências administrada e de longo prazo, dizem esses analistas.

Essa distensão é construída sobre terreno frágil. Os pontos de tensão fundamentais no relacionamento — do futuro de Taiwan e manobras militares no Mar da China Meridional à corrida pela supremacia em inteligência artificial e computação quântica — permanecem sem solução e voláteis.

Xi Jinping e Donald Trum sorriem e olham para a mesma direção
Foto: Getty Images

Trégua entre os países

E, para uma administração que prospera na imprevisibilidade, esse novo roteiro pode estar a apenas uma provocação geopolítica, ou uma única postagem presidencial nas redes sociais, de ser completamente revertido.

“Uma trégua comercial não mudará o rumo da competição entre os EUA e a China nem aumentará a confiança entre os dois países”, disse Daniel Bahar, ex-representante comercial adjunto dos EUA que participou das negociações durante a guerra comercial do primeiro mandato de Trump com a China.

“Mas dará tempo para que cada lado continue a reduzir os riscos em relação ao outro, como a China buscando a autossuficiência no setor de semicondutores e os EUA correndo para construir cadeias de suprimentos alternativas de terras raras”, disse Bahar, agora diretor administrativo da Rock Creek Global Advisors em Washington. “Cada lado usará a trégua para estar mais bem preparado para a próxima batalha comercial.”

O que Xi mais precisa é de tempo. Com a economia chinesa enfrentando uma desaceleração persistente, essa estrutura proporciona uma janela crucial de estabilidade.

Ela suspende a guerra comercial, elimina ameaças econômicas imediatas e permite que Pequim se concentre em suas fragilidades internas.

Ao final de uma reunião de alto nível do Partido Comunista na semana passada, Pequim deixou claro o que pretende fazer com esse tempo: intensificar uma estratégia de crescimento de cinco anos focada em grandes investimentos estatais em manufatura e tecnologia.

Fundamentalmente, as concessões de Pequim esta semana são táticas, não estruturais. Qualquer acordo para comprar soja dos EUA seria um retorno ao status quo, não uma reforma fundamental.

Os compromissos refletem uma nova estratégia que Xi elaborou para o Trump 2.0, que envolve fazer concessões calculadas para apaziguar o presidente, mantendo-se firme em questões de interesse central para Pequim.

A trégua não aborda as questões centrais que iniciaram o confronto durante o primeiro mandato de Trump — os enormes subsídios estatais da China, o roubo de propriedade intelectual e a busca estatal pela dominância tecnológica.

A trégua também oferece um simbolismo valioso tanto para Xi quanto para Trump.

Para Trump, isso proporciona uma plataforma para o presidente dos EUA projetar sua imagem como um mestre negociador que dialoga com um de seus principais rivais, demonstrando que sua postura firme em relação à China trouxe Pequim de volta às negociações, tudo em seus próprios termos.

Para Xi, a perspectiva de uma visita de Estado a Washington — um prêmio que ele não desfruta desde que Obama o recebeu em 2015 — é uma ferramenta poderosa para reforçar sua imagem no cenário mundial.

Pequim, por sua vez, tem buscado uma visita de Trump. Se isso acontecer, Xi, que em setembro realizou um extravagante desfile militar em Pequim, onde foi cercado pelo presidente russo Vladimir Putin e pelo líder norte-coreano Kim Jong Un, poderá mostrar ao seu povo que até mesmo o presidente americano quer visitar a China.

Num momento de persistente incerteza econômica interna, essa demonstração de força representaria um profundo presente político. Permitiria a Xi Jinping consolidar sua imagem de estadista global, sinalizando ao público chinês e ao mundo que a China superou com sucesso a tempestade da confrontação com os Estados Unidos e forçou Washington a retornar à mesa de negociações.

Trégua comercial entre EUA e China deixa questões essenciais indefinidas

27 de Outubro de 2025, 09:11

Os negociadores da China e dos Estados Unidos alinharam uma série de vitórias diplomáticas para Donald Trump e Xi Jinping apresentarem em uma cúpula nesta semana. Esses avanços mais fáceis agradam aos investidores, mas deixam sem solução conflitos centrais mais profundos.

O presidente americano Donald Trump disse que se sentia “realmente bem” com um pacto com a China, depois que autoridades na Malásia revelaram, neste fim de semana, uma série de acordos para amenizar as tensões comerciais.

Isso provavelmente fará com que a China retome as importações de soja de estados republicanos, enquanto os EUA recuam em sua mais recente ameaça de tarifa de 100%, em troca da garantia dos ímãs de terras raras críticos de Pequim.

Os mercados tiveram valorização com as notícias. O índice MSCI para ações globais testava máximas históricas, mas analistas alertaram que o acordo, agora preparado para ser assinado por Trump e Xi na Coreia do Sul, ignorou questões delicadas.

Disputas fundamentais sobre segurança nacional pareciam intocadas, juntamente com a missão central declarada de Trump de reequilibrar o comércio, disseram os analistas.

Acordos entre China e EUA

Para dificultar, o investimento chinês nos Estados Unidos permanece fortemente restrito.

“A colheita dos frutos torna o caminho à frente inerentemente mais difícil, porque deixa os conflitos difíceis e de alto risco para o final”, disse Sun Chenghao, pesquisador da Universidade Tsinghua, em Pequim. “O ‘grande acordo’ exige o enfrentamento de divergências profundas sobre subsídios estatais, concorrência tecnológica e segurança nacional — áreas em que os modelos fundamentais de ambos os lados entram em conflito.”

Isso significa que uma série de acordos setoriais menores, alcançados por meio de um diálogo sustentado, são mais prováveis nos próximos anos, acrescentou.

O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, tem pressionado a China a reequilibrar sua economia e aumentar o consumo interno durante as recentes negociações comerciais.

Pequim pareceu ignorar esses apelos na semana passada, ao divulgar um documento de políticas que enfatizavam a autossuficiência industrial e tecnológica como as forças motrizes da economia chinesa até pelo menos 2030.

Os contornos do acordo com a China emergiram quando Trump iniciou sua viagem de uma semana à Ásia, firmando pactos comerciais com a Tailândia e a Malásia que abordavam terras raras, e prometiam combater o antidumping com o Camboja — todas áreas de discórdia com a China. A mobilização republicana de aliados americanos no quintal de Pequim parecia ter como objetivo construir influência antes de sua primeira reunião com Xi desde que retornou ao poder.

Mercados hoje: acerto entre China e EUA e encontro entre Lula e Trump animam investidores

27 de Outubro de 2025, 07:32

Bom Dia!
A semana abre em modo “inclinação ao risco ligado”. O fim de semana trouxe notícias para animar os investidores: sinais de entendimento entre EUA e China tiram pressão de tarifas e animam a pré-abertura lá fora. Aqui, o encontro Lula–Trump trouxe uma luz no fim do túnel das tarifas. Por outro lado… a expectativa para o encontro do Fed entre terça-feira e quarta-feira pode inspirar cautela ao longo do dia.
A seguir: giro global, os destaques do dia, pílulas e a agenda, com balanço de Neoenergia.


Enquanto Você Dormia…

  • Clima mais leve: investidores precificam avanço num acordo EUA–China e aguardam Big Techs + Fed.
  • Futuros de NY: S&P 500 +0,74% e Nasdaq +1,10% (por volta de 08h50).
  • Europa e Ásia: STOXX 600 perto de máximas históricas; Japão/Coreia/Taiwan bateram recordes com o alívio tarifário no radar.
  • Dólar DXY estável perto de 98,9; Petróleo Brent em US$ 66,4; Treasury 10 anos ao redor de 4,04%

Destaques do dia

  • EUA–China afinam um caminho para um futuro acordo:
  • Washington e Pequim indicaram um esboço para evitar novas tarifas dos EUA e adiar controles chineses a exportações (terras-raras), com encontro de líderes. Futuros saltam na esteira do noticiário.
  • E o que isso importa? Se o desarme tarifário avançar, melhora o humor em commodities e cíclicas ligadas à China (Vale, CSN e Gerdau) e tira pressão de dólar/juros globais; soja e cadeias industriais sensíveis a insumos asiáticos também entram no radar.

Giro pelo mundo

  • Big Tech na semana: Microsoft, Apple, Alphabet, Amazon e Meta puxam a temporada e testam o “trade” de IA. (Triggers: pré/pós-fechamento ao longo da semana)
  • Futuros de NY sobem com expectativa de corte de 25 pb na quarta (Fed) e reunião Trump–Xi.
  • Argentina: Milei sai fortalecido nas eleições de meio de mandato, reforçando agenda pró-mercado e laços com os EUA. Partido do presidente argentino conquistou 67 de 127 cadeiras na Câmara dos Deputados.

Giro pelo Brasil

  • Lula–Trump: reunião de 45 minutos em Kuala Lumpur ensaia trégua tarifária; times técnicos começam a negociar “solução rápida”. (Próximo passo: agenda de encontros entre Tesouro/Trade Reps)
  • Focus: sai entre 8h25–8h30 com novas projeções de IPCA/Selic/câmbio; baliza a curva logo cedo.

Giro Corporativo

  • Energia: Neoenergia (NEOE3) divulga 3T25 hoje; teleconferência amanhã de manhã. (Olho em alavancagem, CAPEX e fluxo de caixa)
  • Temporada local: resultados ganham tração nesta e nas próximas semanas, com blue chips na fila.

A Agenda de hoje

  • ⏰ 08:25: Relatório Focus — Banco Central do Brasil. Termômetro das expectativas para IPCA/Selic/câmbio.
  • ⏰ 12:30 (ET 10:30): Dallas Fed Manufacturing — EUA. Sinal de atividade/preços no Texas.
  • ⏰ Após o fechamento: Neoenergia (NEOE3) — 3T25. Divulgação dos números; call amanhã às 09:00 (BRT).
  • ⏰ Durante o pregão: Prévias/expectativas de balanços nos EUA; foco em Big Tech ao longo da semana.
  • ⏰ Amanhã: Início da reunião do Fed (27–29/10); decisão na quarta-feira, 14h (ET).

Petroleiras da China avançam no pré-sal. Entenda os detalhes por trás dessa estratégia

27 de Outubro de 2025, 06:00

Não é por acaso que a China lidera em produção de carros elétricos. Trata-se de uma política nacional para diminuir a dependência de petróleo.

A China produz até mais do que o Brasil: 4,2 milhões de barris por dia (contra 3,8 mbpd por aqui), mas consome quase tanto quanto os Estados Unidos. São 16 milhões de barris por dia

Dá só 3 mbpd menos que os americanos, com uma diferença: enquanto os EUA chegaram à autossuficiência, com sua extração de 20 milhões de barris por dia, a China depende de petróleo importado para manter seu coração batendo. É o maior comprador do mundo, de longe.

A participação chinesa nas nossas exportações de petróleo é absurda. Dos 1,7 milhões de barris por dia que o país exportou em 2024, 750 mil foram para a China. Ou seja: 44%. Só que uma fatia cada vez maior desse bolo parte de empresas chinesas que atuam na extração de petróleo por aqui. 

Em agosto de 2025, data dos dados mais recentes, elas tiraram 221,7 mil barris por dia dos nossos mares. Dá 5,7% da produção total

Não chega a ser um absurdo. O Reino Unido fica com 11% (por ser o país-sede da Shell, a segunda maior concessionária de campos de petróleo brasileiros, atrás apenas da Petrobras). Mas a proporção que mais cresce entre os players relevantes é a da China mesmo, que passou a ser o terceiro país com mais presença na produção nacional, atrás do Reino Unido e, claro, do próprio Brasil. 

O país da Muralha atua por aqui com três estatais: Sinopec, CNPC (China National Petroleum Corporation) e CNOOC (China National Offshore Oil Corporation). Até outro dia, em 2021, elas respondiam por apenas 2% da produção brasileira. Ou seja: a fatia chinesa triplicou de lá para cá:

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Mesmo assim, o objetivo da China não é fazer volume a qualquer custo. As petroleiras de lá prezam mais pela qualidade dos campos do que pela quantidade de áreas de exploração. É o que vamos ver agora.  

Mandato duplo

Rivaldo Moreira Neto, diretor de infraestrutura da consultoria Alvarez & Marsal, tem uma boa analogia para descrever a estratégia chinesa: ‘mandato duplo’. 

Trata-se de um paralelo com a missão dupla do Fed, o banco central americano: de um lado, controlar a inflação (o que pede altas nos juros); de outro, combater o desemprego (tarefa que exige baixar os juros) – no Brasil também é assim, mas a tradição vem do Fed. É de “mandato duplo” que os economistas chamam esse equilíbrio de interesses.

Pois bem. “Claro que a China busca rentabilidade, mas com um mandato duplo”, diz Rivaldo. “De um lado, retorno financeiro, de outro, segurança de acesso ao petróleo”. 

“Segurança” significa escolher os maiores campos, que garantem produção por décadas. E aqui dá pra desenhar a estratégia chinesa.

O pré-sal tem 31 campos de petróleo. Mas os três maiores concentram, sozinhos, 70% da produção. São eles:

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E é justamente nesse trio de megacampos que as chinesas concentram o grosso de suas atividades. Em Búzios, elas têm uma participação de 11,1% (3,7% com a CNPC e 7,4% com CNOOC, especializada em águas profundas). O resto fica com a Petrobras. Veja abaixo as participações das chinesas nesses três campos: 

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Em tempo. Enquanto CNOOC e CNPC atuam por conta própria no Brasil, a Sinopec entra por meio de joint-ventures. No campo de Tupi, ela atua com a portuguesa Galp, num esquema 70-30: 70% pertence à Galp; 30%, à Sinopec.

Essa joint-venture possui 10% de Tupi. Na prática, então, a Sinopec tem 3% do campo – como mostramos ali na tabela. Além desse campo, essa sociedade sino-lusa também opera em outros quatro de menor porte. 

Essa não é a única joint-venture da qual a Sinopec participa. Eles têm outra, com a espanhola Repsol, que opera em outros sete campos menores. No total, ela atua em 12 campos. Dos 31 do pré-sal, ela está em 11 – 35% de presença. 

Mas a Sinopec, cheia de tentáculos em campos menores, é meio que a exceção que confirma a regra. Porque CNOOC e a CNPC seguem à risca a estratégia de focar em campos gigantes e longevos: atuam apenas em Búzios e Mero. E mesmo assim a produção delas é bem maior que a da Sinopec. Aqui, com números de agosto (os mais recentes):

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Para dar uma ideia: a produção que cabe à CNOOC no Brasil é superior à da Prio, a maior das petroleiras independentes do país. Faça você mesmo suas comparações entre a tabela de cima, com os números das chinesas, e a de baixo, com a produção das brasileiras de capital privado. 

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Em tempo. O movimento chinês no Brasil não é totalmente expansionista. No jogo de fusões e aquisições petrolíferas, uma das estatais deles saiu do país. Foi a Sinochem. Ela tinha 40% do campo de Peregrino, na Bacia de Campos. Em setembro do ano passado, vendeu essa participação para a Prio, pro US$ 1,9 bilhão.

Em maio deste ano, a junior oil brasileira completaria a aquisição do campo todo, comprando por US$ 3,5 bilhões os demais 60%, que pertenciam à Equinor, da Noruega.

‘Bons em aprender’

Além de focar em megacampos, as petroleiras chinesas têm outra característica: participar sempre como não operadoras. A empresa que opera o campo é a que manda. Desenha o projeto, faz a extração, define o ritmo dos trabalhos.

Em Búzios, Tupi e Mero, os grandes campos do pré-sal, esse papel é da Petrobras. As chinesas entram como investidoras coadjuvantes. 

Plataforma P-74 no campo de Búzios, operado pela Petrobras com duas sócias chinesas. Foto: Divulgação/Petrobrás

Existe um motivo para isso. Primeiro, que 70% da produção de petróleo na China é em terra. O mar não é exatamente a praia da Sinopec e da CNPC. E mesmo a CNOOC, nascida e criada para o offshore, prefere ir de mansinho. “O pré-sal é uma província muito particular. Não é trivial chegar num país novo e operar campos dessa complexidade”, diz Rivaldo Moreira Neto, da A&M. 

“Então existe também esse componente estratégico de aprendizado: estarem juntas de quem opera agora para talvez, no futuro, se tornarem operadores também”, completa o consultor. “Eles são bons em aprender.” 

De fato. Na indústria automobilística aconteceu algo parecido, de certa forma. Entre os anos 1980 e 2000, as montadoras estrangeiras que quisessem entrar no mercado chinês eram obrigadas a fazer joint ventures com estatais de lá. 

Surgiram aí SAIC-Volkswagen, Dongfeng-Peugeot, Beijing-Benz, GAC-Honda… E no fim os chineses aprenderam tão bem sobre como produzir carros que, hoje, são eles quem dão aula. Nada indica que no petróleo será diferente.   


Foto da abertura: Adobe Stock

EUA e China se aproximam de acordo histórico e abrem caminho para novo pacto comercial

26 de Outubro de 2025, 08:53

Os principais negociadores comerciais dos Estados Unidos e da China disseram ter chegado a um entendimento sobre uma série de pontos delicados, preparando o terreno para que os presidentes Donald Trump e Xi Jinping finalizem um acordo e aliviem as tensões comerciais que têm abalado os mercados globais.

Após dois dias de conversas na Malásia, encerradas neste domingo, um funcionário chinês afirmou que as duas partes chegaram a um consenso preliminar sobre temas como controles de exportação, tráfico de fentanil e taxas portuárias.

O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirmou em entrevista à CBS News que a ameaça de tarifas de 100% sobre produtos chineses “está efetivamente fora de questão”, e disse esperar que a China faça “compras substanciais” de soja e adie as restrições sobre exportações de terras-raras. Bessent acrescentou que os EUA não pretendem alterar seus próprios controles de exportação direcionados à China.

“A ameaça dos 100% desapareceu, assim como a possibilidade de a China impor imediatamente um regime global de controle de exportações”, disse Bessent. Ele afirmou ainda à ABC News acreditar que Pequim deve adiar por um ano as restrições às terras-raras enquanto reavalia a política.

Bessent sinalizou que o acordo em discussão entre Trump e Xi deve ser amplo, incluindo a extensão da trégua tarifária, a resolução de diferenças sobre a venda do TikTok e a manutenção do fluxo de ímãs de terras-raras usados em produtos de alta tecnologia, de semicondutores a motores de aviões. Os dois líderes também planejam discutir um plano global de paz, após Trump declarar que pretende contar com a ajuda de Xi para buscar uma solução para a guerra da Ucrânia.

Os sinais positivos de ambos os lados contrastam com as últimas semanas, marcadas por ameaças de tarifas e restrições de exportação que reacenderam temores de uma nova guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo.

Trump disse a repórteres, durante a cúpula da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean) em Kuala Lumpur, que prevê “um bom acordo com a China” e espera novos encontros de alto nível nos EUA e na China.

“Eles querem fazer um acordo, e nós também queremos”, declarou Trump.

Ainda assim, os mercados devem acompanhar de perto os detalhes do acordo final, após quase um ano de mudanças bruscas nas políticas comerciais e tarifárias entre EUA e China.

O enviado comercial chinês Li Chenggang afirmou acreditar que houve consenso em relação ao fentanil — o que poderia levar os EUA a reduzir uma tarifa de 20% imposta para pressionar Pequim a conter o fluxo de precursores químicos usados na produção da droga. Ele disse ainda que os países pretendem resolver a disputa sobre taxas portuárias impostas por Washington a navios chineses, que motivaram tarifas retaliatórias sobre embarcações americanas.

Li — que Bessent havia chamado de “desequilibrado” neste mês — descreveu as negociações como intensas, mas produtivas, elogiando o avanço das discussões. Ambas as partes devem agora relatar os resultados a seus líderes antes da cúpula entre Trump e Xi, marcada para quinta-feira.

“As turbulências e reviravoltas atuais são algo que não desejamos ver”, afirmou Li. “Uma relação econômica e comercial estável entre China e EUA é benéfica para ambos os países e para o mundo.”

A retomada das compras de soja pelos chineses, caso confirmada, seria uma vitória política significativa para Trump. Em março, a China havia imposto tarifas retaliatórias sobre produtos agrícolas dos EUA, fechando o mercado às exportações de soja antes mesmo do início da colheita. No ano passado, o país asiático comprou US$ 13 bilhões em soja americana, mais de 20% da safra total, e a paralisação atingiu em cheio os agricultores, uma das bases políticas mais fiéis de Trump.

Talvez ainda mais importante seja resolver a disputa sobre as terras-raras, depois de a China ter cortado o fornecimento desses minerais estratégicos no início do ano em resposta à ofensiva tarifária de Trump. Embora os fluxos tenham sido restaurados após uma trégua que reduziu tarifas acima de 100%, Pequim voltou a ampliar as restrições neste mês, após Washington endurecer as medidas contra empresas chinesas.

As negociações aconteceram no arranha-céu Merdeka 118, enquanto Trump se reunia com líderes do Sudeste Asiático em um centro de convenções próximo, onde buscava novos acordos comerciais regionais para diversificar o comércio americano além da China.

A delegação chinesa foi liderada por He, principal autoridade econômica do país, e contou com o vice-ministro das Finanças Liao Min. O representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, também participou das conversas.

O encontro entre Trump e Xi será o primeiro desde o retorno de Trump à Casa Branca. O presidente americano disse acreditar que as conversas diretas são a melhor forma de resolver as pendências sobre tarifas, exportações, compras agrícolas, tráfico de fentanil e questões geopolíticas como Taiwan e a guerra na Ucrânia.

“Vamos falar sobre muita coisa”, disse Trump. “Acho que temos uma boa chance de fechar um acordo realmente abrangente.”

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Os EUA estão tentando levantar um muro entre a Argentina e a China

23 de Outubro de 2025, 06:00

O governo Trump está pressionando as autoridades argentinas a limitar a influência da China sobre o país , que vem enfrentando dificuldades.

Ao mesmo tempo, bancos americanos e até Wall Street trabalham em uma linha de resgate de US$ 40 bilhões para a Argentina.

O secretário do Tesouro, Scott Bessent, conversou nas últimas semanas com Luis Caputo, ministro da Economia da Argentina, sobre restringir o acesso da China aos recursos do país, incluindo minerais críticos – como o lítio, o elemento essencial para as baterias de carros elétricos e celulares.

Além disso, eles discutiram a possibilidade de conceder aos EUA maior acesso ao suprimento de urânio da Argentina, de acordo com pessoas com conhecimento sobre as negociações.

As autoridades do governo dos EUA estão tentando conter a influência de Pequim, incentivando os líderes argentinos a fechar acordos com empresas americanas para impulsionar projetos de infraestrutura e investimentos em setores-chave, como telecomunicações.

China e Argentina

A China é o segundo maior parceiro comercial da Argentina, depois do Brasil, e o principal comprador de suas exportações agrícolas.

“Estabilizar a Argentina é ‘América em Primeiro Lugar’”, disse um porta-voz do Departamento do Tesouro. “Uma Argentina forte e estável ajuda a ancorar um Hemisfério Ocidental próspero, o que é explicitamente do interesse estratégico dos Estados Unidos.”

O porta-voz do Ministério da Fazenda da Argentina não quis comentar. Um porta-voz do presidente argentino, Javier Milei, não respondeu aos pedidos de comentário.

As conversas ocorrem em um momento em que a Argentina recorre cada vez mais aos EUA em busca de ajuda.

O governo de Milei enfrenta obstáculos significativos à sua ambiciosa agenda de reforma econômica e luta contra a inflação galopante.

Após cortar gastos públicos e tomar medidas impopulares para reduzir o déficit orçamentário, o governo Milei agora enfrenta pagamentos crescentes de dívidas no próximo ano e cofres públicos vazios.

As reservas cambiais também estão diminuindo, à medida que os argentinos correm para a segurança do dólar para se proteger contra os riscos de turbulência econômica antes das eleições de meio de mandato de domingo.

Milei construiu laços estreitos com o presidente Trump, que buscou impulsionar a posição política do partido de Milei.

A Argentina iniciou negociações com os EUA após o partido de Milei sofrer um revés nas eleições provinciais de setembro, causando a desvalorização do peso e sinalizando o enfraquecimento do apoio público às reformas pró-mercado de Milei.

Semanas após a eleição, Caputo voou para Washington para se encontrar com Bessent e discutir opções de assistência financeira.

US$ 40 bilhões para a Argentina

Desde então, os dois lados concordaram com um swap cambial de US$ 20 bilhões com o Departamento do Tesouro e uma linha de crédito separada de US$ 20 bilhões liderada por bancos, que ainda não foi estruturada com ativos ou garantias para que os bancos recebam o dinheiro de volta.

Um ponto central das discussões entre Caputo e Bessent tem sido encorajar a Argentina a reprimir a crescente presença da China no país de Milei, disseram as fontes.

Se a China fosse expulsa da Argentina, isso daria aos EUA uma vantagem em meio às crescentes tensões comerciais entre Pequim e Washington.

A China impôs recentemente restrições à exportação de minerais de terras raras, vitais para a indústria eletrônica de consumo e de tecnologia. Trump então ameaçou impor tarifas adicionais de 100% à China a partir de 1º de novembro. Trump e o presidente chinês, Xi Jinping, devem se reunir ainda este mês na Coreia do Sul.

O governo Trump fez da contenção da influência da China na América Latina uma prioridade de segurança nacional e pressionou outros países da região a romperem laços com Pequim.

A China está “atacando os interesses dos EUA de todas as direções” na América Latina, disse o chefe do Comando Sul dos EUA, Almirante Alvin Holsey, ao Congresso em fevereiro.

Desde que Bessent anunciou um acordo com a Argentina no início deste mês, Trump e sua equipe deixaram claro a Milei que esperam que ele limite as relações com a China.

“Você pode até fazer algum comércio, mas certamente não deveria ir além disso. E definitivamente não deveria fazer nada relacionado aos militares com a China. Se isso estiver acontecendo, eu ficaria muito irritado”, disse Trump a Milei, durante uma reunião na Casa Branca na semana passada. Em seguida, virando-se para Bessent, ele perguntou: “Você entende isso, Scott, certo? Você entende mesmo?”.

Javier Milei está em uma mesa com outros políticos da Argentina
Foto: Getty Images

Empresas americanas

Funcionários do Tesouro disseram a altos funcionários na Argentina que querem ver as empresas americanas como a principal fonte para o setor de telecomunicações e internet da Argentina, em vez de empresas vinculadas à China, disseram as pessoas.

A China tem uma presença significativa nos mercados de telecomunicações e internet da Argentina.

A gigante local de telecomunicações Telecom Argentina concordou recentemente em receber um empréstimo de US$ 74 milhões do Banco da China. A Huawei, empresa chinesa de tecnologia impedida de realizar negócios nos EUA, também opera uma rede móvel 5G na Argentina.

A China está financiando a construção de uma usina nuclear que operará com tecnologia chinesa. A China, que tem investimentos significativos em projetos de mineração no país sul-americano, busca expandir suas fontes de urânio em meio à crescente demanda por eletricidade.

Segundo a Constituição argentina, as províncias têm minerais, além de petróleo e gás. Isso limita qualquer compromisso do governo de Milei com o governo Trump, a menos que também seja apoiado por governadores provinciais que atuam como barões políticos regionais, dizem analistas.

Em uma entrevista recente à Fox News, Bessent disse que Milei está “comprometido em tirar a China da Argentina”. Bessent escreveu posteriormente nas redes sociais: “Não queremos outro Estado fracassado ou liderado pela China na América Latina”.

A embaixada da China na Argentina criticou os comentários de Bessent. A China classificou as declarações de Bessent como um retrocesso à mentalidade da Guerra Fria que mina a independência latino-americana.

Argentina não vai cortar laços com a China

A Argentina, porém, não parece ansiosa para expulsar a China. Em uma entrevista recente à televisão, Milei negou que seu governo cortaria laços com a China.

Ele disse que o governo Trump não lhe pediu para fazer isso.

“Não, isso não é verdade”, disse Milei em resposta a uma pergunta sobre o abandono das relações da Argentina com a China.

Milei observou que Caputo e o presidente do Banco Central, Santiago Bausili, se encontraram com autoridades chinesas nas reuniões anuais do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial.

Fotos: Getty Images

Exportações diárias de US$ 1 bilhão mostram poder da China sobre EUA

22 de Outubro de 2025, 17:02

Seis meses após o início da guerra comercial do presidente dos EUA Donald Trump, a resiliência das exportações chinesas prova o quanto muitos de seus produtos continuam essenciais.

Todos os dias, cerca de US$ 1 bilhão em mercadorias atravessam o Pacífico, da China para os EUA.

Apesar das quedas de dois dígitos no valor do comércio geral durante o último semestre, alguns produtos tiveram um aumento em relação a 2024, o que desafia as tensões comerciais entre Pequim e Washington.

O resultado é que as tarifas dos EUA parecem um tanto limitadas em sua capacidade de controlar o que as empresas americanas importam.

A influência da China em setores como terras raras e produtos eletrônicos torna seus itens difíceis de serem substituídos. Pelo menos no curto prazo.

Isso pode mudar com o tempo, especialmente se Trump elevar ainda mais as tarifas, como o líder republicano tem ameaçado fazer.

“A forte posição da China nas cadeias globais de suprimento lhe dá algum poder de negociação com os importadores dos EUA no curto prazo”, escreveram os economistas da Bloomberg, Chang Shu e David Qu, que alertaram que outros países não podem substituir rapidamente a China como fornecedora dos EUA. “O realinhamento da produção levará tempo”, acrescentaram.

Poder de barganha da China

Tudo isso garante mais poder de barganha ao presidente Xi Jinping, à medida que seus negociadores comerciais querem estender uma trégua tarifária de 90 dias, que expira em novembro.

No terceiro trimestre, mais de US$ 100 bilhões em produtos chineses chegaram aos EUA, o que ajudou Pequim a manter o crescimento econômico no caminho certo para a meta anual e elevou o superávit comercial bilateral para US$ 67 bilhões.

Na terça-feira (21), Trump estimou que um próximo encontro com o colega chinês renderia um “bom acordo” sobre comércio, ao mesmo tempo em que alertava que a esperada reunião em uma cúpula na Coreia do Sul, na próxima semana, ainda poderia fracassar.

O líder dos EUA citou terras raras, fentanil e soja como as principais questões comerciais para seu lado discutir com a China.

A relação entre as duas maiores economias do mundo vai além de produtos cujo fornecimento global é dominado pela China, como ímãs para a indústria americana ou produtos para medicamentos.

Cigarros e bicicletas

Embora quase todas as 10 principais exportações para os EUA tenham caído no último trimestre em relação ao ano anterior, as remessas de cigarros eletrônicos aumentaram, de acordo com uma análise da Bloomberg sobre dados alfandegários da China.

As bicicletas elétricas também estão com forte demanda nos EUA, com empresas chinesas exportando mais de US$ 500 milhões nos três meses até setembro, um ligeiro aumento em relação ao ano anterior.

As exportações de cátodos de cobre refinado dispararam em termos de valor, e passaram de quase nada para US$ 270 milhões nos últimos três meses, enquanto os embarques de cabos elétricos subiram 87%, para US$ 405 milhões.

“Os dois lados podem reduzir a dependência um do outro, mas não pode ser reduzida a zero”, disse Zhaopeng Xing, estrategista sênior para a China no Australia & New Zealand Banking.

Rachaduras na barreira tarifária de Trump provavelmente tornam parte do comércio possível ao manter os custos baixos.

China joga duro com Donald Trump e ataca seu calcanhar de Aquiles: o mercado de ações dos EUA

16 de Outubro de 2025, 06:00

Em seu impasse comercial com Washington, a China acredita ter encontrado o calcanhar de Aquiles dos Estados Unidos: a fixação do presidente Donald Trump pelo mercado de ações.

O líder chinês, Xi Jinping, aposta que a economia dos EUA não conseguirá absorver um conflito comercial prolongado com a segunda maior economia do mundo, segundo pessoas próximas ao núcleo duro de Pequim.

A China mantém uma linha firme devido à sua convicção, disseram as fontes, de que uma guerra comercial crescente afundará os mercados, como aconteceu em abril, depois que Trump anunciou suas tarifas do Dia da Libertação, levando Pequim a reagir.

A China espera que a perspectiva de outro colapso do mercado force Trump a negociar em uma cúpula prevista para o final deste mês, disseram as pessoas.

Pequim continuou jogando duro esta semana, intensificando a disputa comercial nesta segunda-feira (13) ao sancionar as unidades americanas da empresa de navegação sul-coreana Hanwha Ocean. A medida abalou os mercados americanos na última terça-feira (14), desencadeando uma forte liquidação no início da semana, com a esperança de alívio das tensões diminuindo, antes que os principais índices se recuperassem parcialmente e se estabilizassem à tarde.

Na semana passada, a China impôs restrições à exportação de minerais de terras raras, vitais para a indústria eletrônica de consumo e a tecnologia. Trump então ameaçou impor tarifas adicionais de 100% ao país asiático a partir de 1º de novembro.

China acusa EUA de “dois pesos e duas medidas”

Ambos os lados têm oscilado entre o discurso duro e a distensão nos últimos dias, mas a retórica tomou um rumo mais duro na terça-feira. O Ministério do Comércio da China acusou os EUA de “dois pesos e duas medidas” em relação às ameaças tarifárias e prometeu que a China “lutaria até o fim” na disputa comercial.

Em sua plataforma Truth Social, Trump disse que os EUA estão considerando “encerrar negócios” com a China sobre óleo de cozinha e outros “elementos de comércio”, devido à recusa da China em comprar soja dos EUA — uma decisão que Pequim disse ser uma retaliação às próprias tarifas de Trump.

O mercado de ações continua sendo um dos poucos controles sobre um presidente que exerceu o poder executivo agressivamente.

Trump frequentemente utiliza o mercado como um barômetro em tempo real de sua gestão econômica. Ele recorreu às redes sociais para alardear recordes de mercado, creditando-os às políticas de seu governo, como desregulamentação e cortes de impostos. Por outro lado, quando o mercado vacilou, especialmente em resposta às suas políticas comerciais agressivas, ele tendeu a recuar ou a aventar a perspectiva de novos acordos.

Enquanto Trump elogia a força da economia americana, as autoridades chinesas veem fraquezas que se agravariam durante uma guerra comercial. Com a desaceleração das contratações, a contração da indústria e a alta dos preços, muitos economistas afirmam que os EUA não estão posicionados para absorver outra grande disputa comercial com a China. A forte reação negativa do mercado na última sexta-feira às novas restrições chinesas ao fornecimento de terras raras e à potencial retaliação dos EUA serviram como um lembrete da vulnerabilidade econômica que Pequim busca explorar.

A economia chinesa está em crise prolongada, pressionada por um mercado imobiliário em colapso, dívidas crescentes e confiança do consumidor em declínio. No entanto, Xi está muito menos sujeito a quedas do mercado, mesmo com a economia chinesa enfrentando uma perspectiva precária.

Em declarações a repórteres na Casa Branca na terça-feira, Trump projetou uma mistura de sua habitual afinidade pessoal declarada com Xi e confronto aberto ao abordar a disputa comercial com a China. Trump enquadrou o conflito por meio de seu relacionamento com o líder chinês, a quem chamava de amigo.

“Tenho um ótimo relacionamento com Xi”, disse Trump, antes de acrescentar rapidamente: “Mas às vezes ele fica irritado”.

Reconhecendo a gravidade das recentes ações chinesas, desde seus novos controles de exportação de terras raras até as últimas sanções relacionadas ao transporte marítimo, Trump disse: “Estamos recebendo muitos golpes”.

Em seguida, ele defendeu sua estratégia econômica contra os temores de uma retração do mercado, retratando os EUA como imunes à pressão. “Somos o país mais bem-sucedido que já tivemos”, disse Trump.

Pequim suavizou seu tom no domingo depois que Trump reagiu furiosamente às restrições às terras raras, mas sua redução pareceu ser uma pausa tática.

Segundo pessoas próximas ao processo decisório de Pequim, a estratégia linha-dura de Xi baseia-se na crença de que Trump acabará cedendo e oferecendo concessões, em vez de recorrer à influência significativa de Washington. Essa confiança foi alimentada, segundo as fontes, pela trégua comercial firmada entre EUA e China em maio. Trump havia imposto tarifas de mais de 100% sobre produtos chineses, mas cedeu depois que Pequim usou sua influência como o maior exportador mundial de ímãs de terras raras.

“É precisamente a crença da China de que Trump irá se dobrar — como ele pareceu fazer com os ímãs no início deste ano — que os levou a uma escalada massiva”, disse Rush Doshi , um acadêmico da Universidade de Georgetown e do Conselho de Relações Exteriores que anteriormente serviu no governo Biden.

O representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, disse à CNBC na terça-feira que altos funcionários em Washington e Pequim mantiveram discussões sobre as últimas tensões comerciais na segunda-feira, dizendo que ambos os lados “serão capazes de resolver isso”.

Pessoas familiarizadas com o assunto disseram que o embaixador dos EUA na China, David Perdue, vem tentando marcar uma ligação telefônica entre o secretário do Tesouro, Scott Bessent , que lidera a equipe de negociação dos EUA, e seu homólogo chinês, o vice-primeiro-ministro He Lifeng .

A atenção agora se volta para a esperada cúpula entre Trump e Xi, quando ambos participarão de uma reunião de líderes da Ásia-Pacífico na Coreia do Sul no final deste mês.

“A reunião será a mensagem. Não haverá grandes avanços”, disse Ryan Hass , diretor do centro para a China no think tank Brookings Institution e ex-funcionário do alto escalão da segurança nacional. “Xi vai querer usar a reunião para projetar maior estabilidade e previsibilidade. Trump pode buscar garantias sobre os fluxos de elementos de terras raras. Eles podem anunciar uma extensão da trégua comercial que limita a escalada tarifária.”

Vendas globais de veículos elétricos batem recorde em setembro a 2,1 milhões

15 de Outubro de 2025, 12:24

As vendas globais de veículos elétricos e híbridos plug-in aumentaram 26% em setembro em relação ao ano anterior, atingindo um recorde de 2,1 milhões de unidades, impulsionadas pela forte demanda na China e por uma corrida tardia por incentivos fiscais nos Estados Unidos, segundo dados da empresa de pesquisa de mercado Rho Motion divulgados nesta quarta-feira.

A China foi responsável por cerca de dois terços das vendas globais, com cerca de 1,3 milhão de unidades, enquanto a América do Norte também atingiu um recorde, com norte-americanos correndo para garantir incentivos antes que expirassem, disse o gerente de dados da Rho Motion, Charles Lester.

A China é o maior mercado de automóveis do mundo e responde por mais da metade das vendas globais de veículos eletrificados, que nos dados da Rho Motion incluem veículos elétricos e híbridos plug-in.

A Europa também atingiu um novo recorde, ajudada pelos incentivos na Alemanha e pela forte demanda no Reino Unido. O lançamento de uma versão mais barata do Model Y, da Tesla, no continente deve intensificar ainda mais a concorrência nos próximos meses.

As vendas globais de veículos elétricos e híbridos plug-in aumentaram 26%, atingindo um recorde de 2,1 milhões de unidades em setembro, segundo dados da Rho Motion.

As vendas na Europa aumentaram 36%, para 427.541 unidades, enquanto as vendas na América do Norte aumentaram 66%, para cerca de 215.000. As vendas no resto do mundo aumentaram 48%, chegando a 153.594 veículos.

No Brasil, maior mercado sul-americano e um dos 10 maiores do mundo, a associação de montadoras Anfavea afirmou este mês que as vendas de veículos elétricos e híbridos novos em setembro somaram 27,1 mil unidades, acumulando no ano até o final do mês passado 191,8 mil.

“Com o fim do incentivo federal, espera-se que a demanda dos EUA caia drasticamente no último trimestre do ano”, disse Lester.

Algumas montadoras, como General Motors e Hyundai, estão tentando amenizar o impacto oferecendo descontos ou aproveitando estoques de concessionárias, mas a produção geral está sendo reduzida, acrescentou.

Brasil pode se tornar o contraponto à China no mercado global de terras raras

15 de Outubro de 2025, 11:38

Em 1967, um helicóptero da United States Steel, que transportava uma equipe de geólogos, fez uma descoberta acidental após pousar em uma área remota da Floresta Amazônica: um gigantesco depósito de minério de ferro que se tornaria Carajás, uma das regiões minerais mais ricas do mundo.

O cenário atual pode parecer menos com um roteiro de filme, mas uma parceria de mineração semelhante entre os Estados Unidos e o Brasil pode tomar forma novamente — desta vez em torno dos minerais essenciais que estão agitando a geopolítica moderna. 

Enquanto os governos de Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva buscam apaziguar suas ruidosas diferenças, o desenvolvimento de metais estratégicos — particularmente as terras raras — se destaca como uma área incomum de interesse compartilhado.

Domínio chinês usado como arma

A iniciativa da China de usar seu domínio na cadeia de suprimentos de terras raras como uma arma em resposta às tarifas impostas por Washington — ampliando as restrições às exportações de componentes vitais para vários setores, de semicondutores a sistemas de defesa — abriu as portas para potenciais produtores, incluindo o Brasil, a Austrália e a Índia.

Embora os EUA tenham um plano ambicioso — e nada convencional — para reconstruir sua própria indústria de mineração, Washington precisará de toda a ajuda possível se quiser desafiar o domínio quase total da China. É aí que entra o Brasil: já uma potência na mineração, geograficamente próximo aos EUA e detentor das maiores reservas de terras raras do mundo, depois da nação asiática.

Brasília tem falado sobre uma estratégia para minerais críticos há décadas, com pouco resultado. Uma aliança estratégica com os EUA, o maior investidor estrangeiro do país, poderia finalmente garantir o momentum — por meio de joint ventures, acordos de compra, financiamento ou acordos estratégicos. Além de alguns poucos esforços existentes, a questão provavelmente ganhará destaque quando o Ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, se encontrar com seu colega Marco Rubio em Washington nesta semana, preparando o cenário para o primeiro diálogo bilateral entre Trump e Lula.

Oportunidade de negócio

O presidente brasileiro poderia usar a carta das terras raras como moeda de troca para suspender as altas tarifas de 50% de Trump, anunciadas em julho, aproveitando o renovado apetite do presidente por negócios com o Brasil. Seria um acordo que ambos os lados poderiam vender como uma vitória, especialmente dadas as implicações para a segurança nacional dos EUA. Mas o líder de esquerda terá que agir com cautela: seu Partido dos Trabalhadores, nacionalista, sempre desconfiado de qualquer indício real ou imaginário de imperialismo, não tolerará nenhum arranjo exploratório semelhante ao que muitos viram no acordo anterior de Trump com a Ucrânia.

Para amenizar esses temores, Lula poderia pressionar pelo desenvolvimento da capacidade nacional de refino e produção de ímãs, uma ideia alinhada às ambições da política industrial de seu governo e que teria sido cogitada pelo governo Biden antes do retorno de Trump ao poder. Lula poderia retomá-la agora.

Para os EUA, qualquer cadeia de suprimentos adicional que desafie o domínio da China é uma vitória — mesmo que se desenvolva no exterior. Além disso, ajudaria a contrabalançar o relacionamento do Brasil com Pequim, já seu principal parceiro comercial e destino da maior parte de seus minérios e commodities.

Ao mesmo tempo, a colaboração com os EUA poderia dar ao Brasil os incentivos e a massa crítica necessários para que sua indústria de terras raras finalmente decole. Apesar de todas as suas enormes reservas e muitos projetos promissores, a produção de terras raras do Brasil permanece próxima de zero.

Vantagens ao capital estrangeiro

“Estamos atrasados ​​em um negócio que tem um conflito de grandes proporções. A China está fechando seu mercado e os EUA estão investindo forte no seu país”, disse Fernando Landgraf, especialista em minerais críticos e professor da Universidade de São Paulo. “Seria muito interessante se os EUA tenham interesse ​​em uma joint venture de refino de terras raras no Brasil, agregando mais valor aqui.”

O Brasil também oferece uma vantagem fundamental para os investidores dos EUA: apesar de sua burocracia e regulamentação rigorosa, continua sendo um destino aberto ao capital estrangeiro, inclusive em setores estratégicos.

Subsidiárias brasileiras de empresas americanas podem até se qualificar para financiamento do banco nacional do desenvolvimento, o BNDES, que atualmente analisa o apoio a 56 projetos com foco em minerais estratégicos. O sucesso da maior economia da América Latina no desenvolvimento de outros metais essenciais para a transição energética (incluindo níquel, cobre, grafite e lítio) reforça ainda mais suas credenciais.

Diplomacia mineral

E há também o nióbio: o Brasil responde por cerca de 90% da produção global, essencial para ligas de aço mais resistentes e leves, usadas em tudo, de turbinas a smartphones. Uma única empresa privada brasileira, a CBMM — controlada pela família Moreira Salles — domina a produção de nióbio após décadas de construção de uma nova cadeia de suprimentos, confirmando o enorme potencial do país nestes setores. Em 2011, um grupo chinês e um consórcio nipo-sul-coreano compraram uma participação de 15% cada um na CBMM, posicionando-se estrategicamente anos à frente de qualquer concorrente dos EUA.

É claro que a diplomacia mineral é apenas um dos vários tópicos esperados na agenda bilateral, muitos deles controversos, incluindo a situação na Venezuela, a expansão dos BRICS, a turbulência no Haiti, a postura dura de Brasília contra as big techs e o etanol.

Contudo, a oportunidade está aí. Trump e Lula não a aproveitarão por afinidade ideológica. Mas podem simplesmente aproveitá-la porque faz todo o sentido comercial e estratégico.

Trump escala guerra comercial com a China: agora o alvo é o óleo de cozinha

14 de Outubro de 2025, 18:28

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que pode suspender o comércio de óleo de cozinha com a China, reacendendo as tensões entre as duas maiores economias do planeta.

Trump apresentou a possível medida como retaliação à decisão de Pequim de interromper a compra de soja americana, o que ele classificou como um “ato economicamente hostil” que estaria “causando dificuldades aos nossos produtores de soja”.

“Estamos considerando encerrar os negócios com a China envolvendo óleo de cozinha e outros elementos do comércio, como forma de retaliação. Podemos facilmente produzir nosso próprio óleo de cozinha; não precisamos comprá-lo da China”, escreveu Trump em rede social.

As declarações levaram o índice S&P 500 a virar para o campo negativo, anulando ganhos anteriores, e reacenderam o temor de uma nova escalada comercial com a China. Horas antes, tanto o presidente quanto o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, haviam sinalizado confiança de que as tensões seriam amenizadas com as negociações em andamento.

As ações das tradings agrícolas Archer-Daniels-Midland (ADM) e Bunge Global subiram após o anúncio, revertendo perdas do início do pregão.

Impacto

Cortar o comércio de óleo de cozinha com a China poderia ter efeitos amplos sobre o agronegócio americano e sobre o mercado de energia. O óleo usado — assim como a soja — é uma das matérias-primas para a produção de biocombustíveis, como o diesel renovável.

O governo Trump já vinha reduzindo incentivos à importação de óleo usado estrangeiro, especialmente da China, cujas exportações para os EUA atingiram um recorde histórico em 2024, segundo o Departamento de Agricultura americano.

Retaliações

Os eventos desta terça-feira reforçam o vai e vem diplomático que tem marcado a relação entre Washington e Pequim desde o retorno de Trump à Casa Branca — um movimento que mantém investidores em alerta quanto ao risco de uma nova guerra comercial.

Mais cedo, o representante comercial Jamieson Greer havia dito que as conversas tarifárias continuavam abertas, e que autoridades de alto escalão dos dois países se reuniram na segunda-feira. Ele confirmou que Trump e o presidente chinês Xi Jinping ainda têm uma “reunião programada” para o fim do mês.

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Enquanto o Brasil vive um dos períodos mais fortes das exportações de soja, os EUA estão colhendo uma safra recorde, mas sem o principal cliente: a China. #China #EUA #soja

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Trump também demonstrou cauteloso otimismo: “Temos uma relação justa com a China e acho que ficará tudo bem. E, se não ficar, tudo bem também”, afirmou a jornalistas na Casa Branca. “Estamos trocando muitos golpes, e temos sido muito bem-sucedidos.”

Essas falas ajudaram a acalmar parte do mercado, que havia reagido negativamente após Pequim sancionar filiais americanas de um grupo naval sul-coreano e ameaçar novas medidas contra o setor — o mais recente episódio da retaliação mútua entre os dois países.

Commodities no centro

Tanto os EUA quanto a China vêm buscando ganhar vantagem nas negociações impondo restrições a exportações de minérios de terras-raras e semicondutores — insumos centrais na disputa tecnológica e comercial entre as duas potências.

Em resposta às novas medidas chinesas, Trump ameaçou aplicar uma tarifa adicional de 100% sobre produtos chineses até 1º de novembro, e também levantou a possibilidade de cancelar o encontro com Xi Jinping durante a cúpula da APEC, marcada para acontecer na Coreia do Sul.

“Se essa reunião vai acontecer ou não, não quero me comprometer nem da nossa parte nem da parte deles. Mas acho que faz sentido manter o diálogo quando possível”, disse Greer.

O representante comercial acrescentou que a decisão de impor a tarifa de 100% “depende muito do que a China fizer”.
Mais cedo neste ano, os dois países haviam estabelecido uma trégua tarifária, após os impostos americanos sobre produtos chineses chegarem a até 145%. O acordo, contudo, expira em 10 de novembro.

“Nosso acordo era: manteremos tarifas baixas se vocês continuarem enviando terras-raras. Agora eles dizem que vão restringir mais esses materiais e seus derivados. Então, faz sentido que possamos aumentar as tarifas também”, afirmou Greer.

Alívio à vista: expectativa de encontro entre EUA e China anima mercado e dólar cai

13 de Outubro de 2025, 15:08

Depois de elevar a temperatura do mercado na sexta-feira (10) com um anúncio de uma nova taxa de 100% sobre produtos chineses, o próprio presidente americano Donald Trump jogou água na fervura ao amenizar o tom em relação ao rival asiático. O resultado foi que o mercado buscou um meio termo nesta segunda-feira (13).

O dólar, que tinha subido 2,39% frente ao real na sexta-feira, agora compensou parte da alta e fechou em queda de 0,75% a R$ 5,4617. O movimento de baixa da moeda americana também se repetiu frente outras moedas emergentes ao longo do dia.

Na bolsa, a melhora nos ânimos também prevaleceu e o Ibovespa terminou o dia em alta de 0,78% aos 141.783 pontos.

A moeda americana, porém, avançou na comparação com pares de países desenvolvidos. O índice dólar (DXY), que acompanha a variação da divisa frente a uma cesta com as seis principais moedas do comércio internacional, subiu 0,30% a 99,27.

O último pregão da semana passada foi conturbado. Trump anunciou uma tarifa de 100% sobre os produtos comprados da China pelos EUA, além da imposição de controles de exportação sobre softwares críticos ao país asiático.

O presidente americano justificou a decisão como uma resposta aos controles criados pelo governo chinês, no dia anterior, sobre as exportações de terras raras, que são essenciais para vários setores da indústria, em especial aqueles ligados à tecnologia.

No fim de semana, porém, Trump adotou um tom mais conciliador. Afirmou que os EUA querem ajudar a China e não prejudicá-la. Além disso, a Casa Branca confirmou o encontro entre os presidentes dos Estados Unidos e da China, Xi Jinping, marcado para ocorrer em Seul, na Coreia do Sul.

Nesta segunda-feira, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, reforçou o tom mais conciliador ao afirmar que houve comunicações substanciais entre americanos e chineses no fim de semana.

“Houve uma desescalada significativa da situação”, disse Bessent em entrevista à Fox Business Network. “O presidente Trump disse que as tarifas não entrarão em vigor até 1º de novembro. Ele se reunirá com o presidente do Partido, Xi, na Coreia”, acrescentou.

Outro reforço para uma redução da volatilidade do dólar globalmente veio pelo discurso da nova presidente do Federal Reserve da Filadélfia, Anna Paulson. Em sua primeira fala no cargo, a dirigente defendeu mais cortes de juros pelo Fed. A redução das taxas seria necessária para dar suporte ao mercado de trabalho dos Estados Unidos.

Trump e Xi Jinping geram novo impasse e colocam economia global em risco

13 de Outubro de 2025, 14:24

O último confronto direto do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com o líder chinês Xi Jinping chegou a um impasse nesta segunda-feira (13). Ambos os países alegaram que agora cabe ao outro dar o primeiro passo.

Depois que Trump sinalizou abertura para fechar um acordo com Pequim, o vice-presidente americano JD Vance declarou que o resultado “dependeria de como os chineses responderiam”.

Horas depois, o Ministério das Relações Exteriores da China deixou claro que Pequim seguiria as indicações dos próximos passos de Washington, depois de já ter desencadeado o que considerou ações retaliatórias.

“Se os EUA continuarem no caminho errado, a China tomará firmemente as medidas necessárias para salvaguardar os seus direitos e interesses legítimos”, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Lin Jian, em coletiva de imprensa regular em Pequim. As autoridades chinesas ainda não retaliaram à ameaça de Trump de impor tarifas de 100% sobre as recentes restrições às terras raras, já que as taxas não estão formalmente incluídas na política.

Reunião com Trump

Os mercados da China mostraram resiliência à turbulência. O índice de referência CSI 300 para ações onshore encerrou a segunda-feira com queda de 0,5%, sugerindo que os investidores veem as tensões renovadas como uma postura estratégica.

Os futuros indicam que as ações dos EUA também devem recuperar algumas perdas da venda de sexta-feira, depois que Trump suavizou o tom.

Analistas, como os da Nomura Holdings, disseram que as maiores economias do mundo poderiam cancelar a reunião de líderes neste mês na Coreia do Sul.

Ressaltando esse ponto, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, disse acreditar que a reunião entre Trump e Xi ainda vai acontecer. Enquanto isso, ele esperava reuniões entre as equipes americanas e da China esta semana, juntamente com medidas do governo Trump para mobilizar os aliados dos EUA para pressionar Pequim.

Por sua vez, as autoridades chinesas disseram que poderia haver “isenções” para suas restrições radicais às terras raras, a fim de facilitar o comércio.

A questão agora é qual lado cederá primeiro.

“Embora seja difícil indicar quem exatamente tem mais influência, o que é bastante claro é que o setor de exportação da China pode suportar tarifas dos EUA de cerca de 50%”, disse Christopher Beddor, vice-diretor de pesquisa para a China da Gavekal Dragonomics.

“Pequim se importa se as tarifas ultrapassarem 100%, mas enquanto esse cenário não se concretizar, as tarifas serão uma prioridade menor”, acrescentou. “As medidas sobre terras raras visam extrair concessões dos EUA nos controles de exportação de tecnologia, mas também não é do interesse de nenhum dos lados inviabilizar completamente as negociações.”

Exportações da China

Dados comerciais divulgados nesta segunda mostraram que as remessas da China para o exterior cresceram ao ritmo mais rápido em seis meses, atenuando o impacto de qualquer aumento de tarifas dos EUA. Trump tem outras ferramentas para infligir dor: ele já ameaçou impedir o acesso de Pequim a peças de jato e parar de vender software essencial à China.

Bessent, em entrevista à Fox Business, disse que espera se reunir com o colega, o vice-primeiro-ministro chinês He Lifeng, “na Ásia” antes da reunião entre Trump e Xi. No mês passado, antes da atual polêmica, ele havia indicado Frankfurt para a próxima rodada de negociações que visa estender a trégua de 90 dias, que expira no início de novembro. As conversas provavelmente estabelecerão as bases para concessões que resolvam o recente conflito.

China intensifica controle sobre terras raras e acende alerta na economia global

11 de Outubro de 2025, 06:00

As mais recentes restrições da China às terras raras marcam um controle de exportação quase sem precedentes que pode desestabilizar a economia global. Isso dá a Pequim mais influência nas negociações comerciais e aumentaria a pressão sobre o governo Trump.

A regra, divulgada na quinta-feira (9) pelo Ministério do Comércio da China, é vista como uma escalada na disputa comercial entre os EUA e a China, pois ameaça a cadeia de suprimentos de semicondutores.

Os chips são a força vital da economia, alimentando telefones, computadores e data centers necessários para treinar modelos de inteligência artificial.

A regra também afetaria carros, painéis solares e equipamentos para fabricação de chips e outros produtos, limitando a capacidade de outros países de sustentar suas próprias indústrias.

A China produz cerca de 90% das terras raras do mundo.

Empresas globais que vendem produtos com certos materiais de terras raras provenientes da China representando 0,1% ou mais do valor do produto precisariam da permissão de Pequim, de acordo com a nova regra.

As empresas de tecnologia provavelmente terão extrema dificuldade em comprovar que seus chips, os equipamentos necessários para fabricá-los e outros componentes estão abaixo do limite de 0,1%, disseram especialistas do setor.

“Os minerais de terras raras e a capacidade de refiná-los são apenas a base da civilização moderna”, disse Dean Ball, que deixou seu cargo na Casa Branca como consultor de políticas de IA para se tornar membro sênior da Fundação para a Inovação Americana, um think tank.

Ele acrescentou que as regras podem causar uma recessão nos EUA se implementadas de forma agressiva, devido à importância dos gastos de capital em IA para a economia.

Os EUA e outros países estão investindo pesado em data centers, tornando a IA um motor econômico fundamental.

Terras raras: a nova guerra nuclear

A China potencialmente colocaria em vantagem na corrida da IA ​​e mudaria a ordem mundial, afirmam especialistas.

“É o equivalente econômico de uma guerra nuclear — uma intenção de destruir a indústria americana de IA”, disse Dmitri Alperovitch, cofundador do think tank Silverado Policy Accelerator. Ele chamou isso de “tática de chantagem” antes de uma possível reunião entre o presidente Trump e o líder chinês Xi Jinping na Coreia do Sul nas próximas semanas para dar continuidade às negociações comerciais e não acredita que a China implementará integralmente a regra.

As tarifas americanas estão atualmente na faixa de 30% a 50% sobre as importações chinesas — níveis superiores aos negociados com Vietnã, Japão e Indonésia.

As tarifas médias da China sobre as exportações americanas giram em torno de 33%.

Embora posicionada como retaliação às recentes ações de controle de exportação dos EUA visando empresas de tecnologia chinesas, a decisão de Pequim é um jogo de poder calculado, de acordo com pessoas familiarizadas com o processo decisório do governo chinês.

A China está tentando fortalecer sua influência sobre Trump — que considera ansioso para fechar um acordo — em uma tentativa de extrair concessões em tarifas e controles de tecnologia, disseram as pessoas.

Durante a última rodada de negociações com altos funcionários americanos em Madri, no mês passado, o principal negociador comercial da China, o vice-primeiro-ministro He Lifeng, solicitou a remoção total de tarifas e controles de exportação, informou o The Wall Street Journal. A mais recente ação sobre terras raras, disseram as pessoas, é uma tática que visa atingir esse objetivo.

A ação, observaram as fontes, faz parte de um padrão da China em responder ao que considera ações frágeis de Washington com medidas desproporcionalmente fortes.

Um punhado de terras raras
Terras raras produzidas pela Aclara (Divulgação)

Terras raras nas guerras

As novas regras também abrangem bens que podem ser usados ​​para fins militares.

Elas ampliariam as restrições anteriores sobre terras raras e produtos relacionados, que já atingiram empresas em todo o mundo.

A cadeia de suprimentos de semicondutores é vulnerável a ações como a da China porque grandes fábricas de chips exigem grandes investimentos de capital de um ecossistema de empresas que fornecem equipamentos especializados, processos técnicos complexos e embalagem final. Empresas nos EUA, Taiwan, Japão e Holanda colaboram entre si.

Os governos Trump e Biden ofereceram subsídios e outras políticas para auxiliar o processo, mas a capacidade doméstica, em geral, ainda é incipiente.

Alguns analistas afirmam que as novas regras aumentarão a urgência para que as grandes empresas de tecnologia invistam mais nessas áreas.

“Esta é uma vulnerabilidade real para as empresas de IA dos EUA”, disse Joseph Hoefer, diretor de IA da empresa de lobby Monument Advocacy, que representa empresas de tecnologia.

Trump anuncia tarifas adicionais de 100% para importações chinesas em novembro

10 de Outubro de 2025, 18:46

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que o país vai impor uma tarifa adicional de 100% sobre as exportações chinesas para “todo e qualquer software crítico” a partir de 1º de novembro, horas após ameaçar cancelar uma reunião futura com o líder do país, Xi Jinping.

“Algumas coisas muito estranhas estão acontecendo na China! Eles estão se tornando muito hostis e enviando cartas a países em todo o mundo, dizendo que querem impor controles de exportação sobre todos os elementos de produção relacionados a terras raras e praticamente qualquer outra coisa que possam imaginar, mesmo que não seja fabricada na China.”

A declaração veio logo após Trump ameaçar impor ações comerciais contra a China, citando os controles “hostis” de exportação introduzidos por Pequim a minerais de terras raras. Trump também disse que parecia não haver “nenhuma razão” para prosseguir com a reunião planejada com Xi à margem da cúpula da APEC na Coreia do Sul no final deste mês, embora o momento das tarifas recém-anunciadas ainda deixe espaço para que essa reunião ocorra antes de entrarem em vigor.

As tarifas planejadas por Trump aumentariam os impostos de importação sobre produtos chineses para 130%. Isso seria um pouco abaixo do nível de 145% imposto no início deste ano, antes de ambos os países reduzirem as taxas em uma trégua para avançar nas negociações comerciais.

Os mercados reagiram negativamente aos comentários iniciais do presidente, que prenunciavam novas tensões comerciais entre as duas maiores economias do mundo. O S&P 500 caiu mais de 1,5%. O Nasdaq 100 chegou a recuar 2,4%, a maior queda desde 30 de abril. Os contratos futuros de soja em Chicago recuaram 1,9%, para US$ 10,0275 o bushel, atingindo as mínimas da sessão após a publicação. A queda intradiária é a maior desde 7 de julho.

Antes da reunião planejada, tanto os EUA quanto a China agiram para potencialmente restringir os fluxos de tecnologia e materiais entre os países — o que era visto como uma forma de ganhar vantagem nas negociações.

Na ação mais recente, a China aplicou novas taxas portuárias a navios dos EUA e iniciou uma investigação antitruste contra a Qualcomm — após novos esforços para restringir o fluxo de minerais de terras raras necessários para fabricar diversos produtos de consumo, incluindo motores, semicondutores e jatos de combate.

O anúncio coloca em dúvida não apenas a agenda da viagem planejada por Trump à Ásia, que incluía uma reunião com Xi no final deste mês na cúpula de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico, mas também o futuro das negociações sobre a recusa da China em comprar soja dos EUA, o que prejudicou os agricultores americanos.

“Esse vai e vem indica a fragilidade do relacionamento bilateral”, disse Wendy Cutler, ex-negociadora comercial dos EUA. “Não há nenhuma certeza de que a calma prevalecerá, levando a uma redução da tensão a tempo” da reunião planejada entre os líderes.

Trump x Xi: a guerra comercial

Materiais de terras raras têm estado no centro das disputas comerciais entre Washington e Pequim. Depois que Trump aumentou as tarifas sobre as importações chinesas no início deste ano, o governo chinês respondeu cortando as exportações de minerais para empresas americanas. Autoridades de ambos os lados concordaram com uma trégua na primavera, sob a qual Trump reduziu as tarifas e as autoridades de Xi concordaram em retomar o fluxo dos minerais.

Mas na quinta-feira, a China exigiu que exportadores estrangeiros de itens que utilizam traços de certas terras raras obtenham uma licença de exportação, de acordo com o Ministério do Comércio, alegando preocupações com a segurança nacional. Alguns equipamentos e tecnologias para processamento de terras raras e fabricação de ímãs também estarão sujeitos a controles, informou o ministério em um comunicado separado.

Sem detalhar os próximos passos dos EUA, Trump disse que seria “forçado” a “combater financeiramente” a iniciativa, descrita no que ele disse serem cartas da China para outros parceiros comerciais. “Para cada Elemento que eles conseguiram monopolizar, temos dois”, publicou Trump.

Os comentários de Trump marcam uma mudança abrupta de tom, mesmo em relação à quinta-feira, quando ele expressou otimismo de que poderia convencer Xi a acabar com a moratória da China sobre as compras de soja dos EUA e disse sobre o líder chinês: “ele tem coisas que quer discutir comigo, e eu tenho coisas que quero discutir com ele”.

As tensões entre os EUA e a China oscilam há meses, enquanto os dois lados disputam poder em uma série de questões em negociação, incluindo tarifas, combate ao fluxo de fentanil, soja, controles de exportação e o destino das operações americanas da gigante chinesa de mídia social TikTok. A mais recente trégua comercial entre as economias suspendeu as elevadas tarifas americanas sobre a China até novembro.

“Nossa relação com a China nos últimos seis meses tem sido muito boa, o que torna esta mudança no comércio ainda mais surpreendente”, disse Trump em sua publicação na Truth Social nesta sexta-feira. “Sempre achei que eles estavam à espreita, e agora, como sempre, estou certo!”

Trump afirmou ter ouvido de outros parceiros comerciais globais que, segundo ele, receberam cartas semelhantes e estavam “extremamente irritados com essa grande hostilidade comercial” da China.

O presidente também expressou aborrecimento com o momento das cartas chinesas, que chegam enquanto ele planeja visitar o Oriente Médio para anunciar um acordo de paz que ele ajudou a intermediar entre Israel e o Hamas.

“As cartas chinesas foram especialmente inapropriadas porque este foi o dia em que, após três mil anos de confusão e luta, houve PAZ NO ORIENTE MÉDIO”, escreveu Trump.

Trump contra a China e quadro fiscal no Brasil: nervosismo no mercado cresce e dólar vai a R$ 5,51

10 de Outubro de 2025, 17:24

Novas ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra a China e mais preocupações dos investidores com o quadro fiscal brasileiro. Esses foram os motivos para os mercados encerrarem a semana sob forte pressão, com o dólar batendo o nível mais alto em sete meses e o Ibovespa estacionando na faixa dos 140 mil pontos.

A moeda americana terminou a sessão com alta de 2,4%, em R$ 5,503, após bater os R$ 5,51 no dia. Na semana, subiu 3%. O DXY, índice que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de divisas fortes – euro, iene japonês, libra esterlina, dólar canadense, coroa sueca e franco suíço –, cai 0,6%.

A tendência do dólar no acumulado do ano ainda é de queda. Em 2025 até hoje, a baixa já está em 11%. O grande ponto de atenção, na visão de profissionais do mercado, é que a moeda americana ainda é uma boa alternativa aos investidores que querem diminuir a exposição a ativos de risco no curto prazo. É também a razão para a disparada de metais preciosos, como o ouro, que ultrapassou a marca histórica de US$ 4 mil a onça-troy.

E a busca por ativos mais seguros não ficou restrita ao mercado de câmbio. As bolsas americanas também refletiram a debandada dos investidores e os três principais índices de Wall Street ficaram no vermelho: o Dow Jones caiu 1,9%, o S&P 500 cedeu 2,7% e o Nasdaq teve baixa de 3,6%.

Na mesma toada, o Ibovespa encerrou o dia em queda de 0,73%, aos 140.860 pontos, depois de ultrapassar os 144 mil pontos na semana. Em cinco dias, a baixa do índice foi de 2,4%.

Até ontem, a queda do dólar na semana estava na casa dos 0,5%. A fuga de mercados e ativos mais arriscados cresceu hoje, após Trump voltar a ameaçar a China com aumento de tarifas comerciais. A investida veio como resposta à decisão do gigante asiático de impor novas restrições às exportações de terras raras, como a exigência de licenças de exportação e mais controles sobre equipamentos usados no processamento dos materiais.

O presidente americano não apenas acusou a China de deixar o mundo “refém” da sua política, como reacendeu o medo de uma nova escalada dos conflitos comerciais em retaliação. E tudo isso às vésperas de uma reunião entre o governo americano e o chinês na Coreia do Sul – encontro que Trump diz “não ter mais motivo”.

Riscos fiscais de volta ao jogo

Não bastasse o exterior, o momento é de bastante nervosismo entre profissionais de mercado em relação às contas públicas do Brasil, sobretudo depois que o governo perdeu a batalha no aumento de impostos a partir da Medida Provisória 1303.

A MP, que aumentava os tributos de diversas aplicações financeiras, era a cartada que o governo Lula tinha na mão para compensar a tentativa frustrada de aumentar o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). A Câmara dos Deputados sequer votou o texto, que perdeu validade. Com isso, cai por terra a alternativa que permitiria a arrecadação de R$ 17 bilhões para o ano que vem.

A partir daqui, sobram dúvidas de qual caminho o governo vai seguir para cumprir a meta fiscal, que é de superávit de 0,25% do PIB, ou R$ 34,3 bilhões. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já havia dito que não haverá mudança na meta mesmo que o Congresso derrubasse a MP.

Como a China compra petróelo secretamente do Irã e evita sanções dos EUA

7 de Outubro de 2025, 06:00

As sanções americanas tornam quase impossível comprar petróleo do Irã. A China, porém, descobriu um jeito de fazê-lo de qualquer maneira, em um acordo secreto.

O canal oculto de financiamento aprofundou os laços econômicos entre os dois rivais americanos, desafiando os esforços de Washington para isolar o Irã.

De acordo com autoridades de vários países ocidentais, o sistema de escambo funciona da seguinte forma: o petróleo iraniano é enviado para a China, que é o maior cliente de Teerã. Em troca, empresas chinesas apoiadas pelo Estado constroem infraestrutura no Irã.

Completando o ciclo, estão uma seguradora estatal chinesa que se autodenomina a maior agência de crédito à exportação do mundo e uma entidade financeira chinesa, tão sigilosa que seu nome não pôde ser encontrado em nenhuma lista pública de bancos ou instituições financeiras chinesas.

O acordo, ao contornar o sistema bancário internacional, forneceu uma tábua de salvação para a economia iraniana, pressionada pelas sanções.

Até US$ 8,4 bilhões em pagamentos de petróleo fluíram pelo canal de financiamento no ano passado para financiar o trabalho chinês em grandes projetos de infraestrutura no Irã, de acordo com algumas das autoridades.

O Irã exportou US$ 43 bilhões, principalmente em petróleo bruto, no ano passado, de acordo com estimativas da Administração de Informação de Energia dos EUA. Autoridades ocidentais estimam que cerca de 90% dessas exportações vão para a China.

A China tem sido a principal compradora de petróleo iraniano desde 2018, quando o presidente Trump retirou os EUA do acordo nuclear de 2015 e restabeleceu as sanções americanas.

Duas semanas após retornar ao cargo, Trump ordenou o uso de “pressão máxima” para forçar Teerã a restringir seu programa nuclear e encerrar o apoio a grupos de milícias aliadas. A diretiva buscava reduzir as exportações de petróleo iraniano a zero.

Desde então, os EUA impuseram sanções a indivíduos e pequenas entidades chinesas, mas as exportações iranianas para a China continuaram praticamente inalteradas.

Pequim também fornece apoio político ao Irã. Em setembro, o líder chinês Xi Jinping recebeu o presidente iraniano Masoud Pezeshkian em uma cúpula multinacional e em um desfile militar com a presença dos líderes da Rússia e da Coreia do Norte — um grupo unido em oposição a uma ordem mundial liderada pelos EUA.

Nações ocidentais conseguiram recentemente reimpor sanções internacionais a Teerã, suspensas pelo acordo nuclear de 2015, uma resposta europeia às violações do acordo pelo Irã. China e Rússia afirmaram que a medida violava o direito internacional.

A China também considerou as sanções impostas por Washington ao Irã ilegais. No entanto, como as sanções ameaçam as empresas que fazem negócios com o Irã com penalidades que incluem o bloqueio do sistema financeiro internacional, Pequim tem se mostrado cautelosa em expor suas grandes empresas aos riscos de sanções. As autoridades alfandegárias chinesas não relataram nenhuma compra de petróleo bruto iraniano desde 2023.

Além de visar as exportações iranianas de produtos energéticos, Washington impôs sanções à maioria dos bancos iranianos, incluindo seu banco central, tornando extremamente difícil a transferência de dinheiro para o Irã.

Solução oculta da China

O sistema pelo qual o petróleo bruto iraniano é trocado por infraestrutura construída pela China envolve dois atores principais: a grande seguradora estatal chinesa Sinosure e um mecanismo de financiamento baseado na China, ao qual todas as autoridades se referiam como Chuxin.

As autoridades construíram sua compreensão do sistema por meio de documentos financeiros, avaliações de inteligência e canais diplomáticos.

No acordo, uma empresa controlada pelo Irã registra a venda de petróleo para um comprador chinês, que é controlado pela estatal Zhuhai Zhenrong, alvo de sanções dos EUA.

O comprador chinês, em troca, deposita centenas de milhões de dólares todos os meses na Chuxin, disseram as autoridades. A Chuxin então entrega os fundos a empreiteiras chinesas que realizam trabalhos de engenharia no Irã, em projetos cujo financiamento é assegurado pela Sinosure. A Sinosure atua como a cola financeira que mantém os projetos unidos.

A Chuxin não está nomeada entre as quase 4.300 instituições bancárias registradas pelo principal regulador do setor na China e não pôde ser encontrada em listas oficiais de instituições financeiras e registros de empresas disponíveis ao público.

O petróleo iraniano que chega à China segue uma rota indireta para mascarar sua origem, envolvendo transferências entre navios e, muitas vezes, misturando-o com petróleo de outras nações, afirmam o governo dos EUA e especialistas do setor.

Seguradora de Pequim

A Sinosure, conhecida como China Export & Credit Insurance, é uma ferramenta financeira do governo central da China que apoia as prioridades de desenvolvimento internacional de Pequim — um mandato com particular importância em um local politicamente sensível como o Irã.

A Sinosure investiu mais de US$ 9 trilhões em atividades de comércio em todo o mundo até o final do ano passado, de acordo com a própria empresa.

No Irã, os projetos de infraestrutura chineses tendem a ser grandes empreendimentos estatais, incluindo aeroportos, refinarias e projetos de transporte, administrados pelos maiores bancos estatais e grupos de engenharia da China.

A China assumiu mais de US$ 25 bilhões em compromissos financeiros para construir infraestrutura no Irã entre 2000 e 2023, de acordo com a AidData, um laboratório de pesquisa da William & Mary em Williamsburg, Virgínia.

A Sinosure teve um papel direto em 16 dos 54 negócios documentados.

Os EUA, que usaram sanções direcionadas contra empresas chinesas, não colocaram as empresas em uma lista por realizarem trabalhos civis no Irã. Nem miraram um grande banco chinês.

Não foi encontrada nenhuma documentação de domínio público que vincule diretamente a Sinosure ao acordo de petróleo por construção no Irã.

Em resposta a perguntas, o Ministério das Relações Exteriores da China afirmou desconhecer o acordo, opor-se a sanções unilaterais ilegais e que o direito internacional permite a cooperação normal entre as nações. Zhuhai Zhenrong e a Sinosure não responderam aos pedidos de entrevista sobre o acordo.

Autoridades da missão iraniana nas Nações Unidas não comentaram sobre o mecanismo de pagamento ou sobre as compras de petróleo da China.

A estrutura da China para a execução de obras de infraestrutura no Irã provavelmente reflete um acordo documentado com a Sinosure no Iraque, afirmou Brad Parks, diretor executivo da AidData. Sob esse acordo de 20 anos, a Sinosure garante empréstimos chineses para projetos locais em troca de petróleo.

“Todos os credores e empreiteiros de construção devem estar sob essa égide”, disse Parks.
As obras de infraestrutura chinesas no Irã aumentaram desde o acordo de parceria de 25 anos firmado em 2021. Os projetos são essenciais para o Irã, que tem lutado para manter serviços básicos, como água e eletricidade.

O Irã também consegue recuperar parte de sua receita com a venda de petróleo comprando produtos diretamente da China. Autoridades americanas afirmam que o país consegue trazer parte dessa receita de volta à região.

“Entidades iranianas dependem de redes bancárias paralelas para driblar sanções e movimentar milhões”, disse John K. Hurley, subsecretário do Tesouro para terrorismo e inteligência financeira, no mês passado, anunciando sanções a pessoas e entidades nos Emirados Árabes Unidos e Hong Kong por supostamente coordenarem a transferência de fundos.

Nem a Sinosure, nem a Chuxin foram atingidas por sanções americanas. O Departamento do Tesouro se recusou a comentar a descrição das atividades das empresas chinesas.

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SkyRail: o projeto de monotrilho da BYD que emperrou e se tornou o primeiro grande fracasso da chinesa

5 de Outubro de 2025, 18:44

Wang Chuanfu, fundador da BYD, já se aventurou em muitos negócios: baterias, eletrônicos e, mais recentemente, o que tornou a empresa famosa — os veículos elétricos. Mas, há mais de uma década, ele tenta desenvolver outro projeto: uma rede de monotrilhos que resolveria, ao mesmo tempo, os problemas de congestionamento e de emissões de carbono.

Lançado em 2016, o sistema SkyRail da BYD foi apresentado como um transporte verde para o futuro. A companhia, com sede em Shenzhen, investiu quase US$ 1 bilhão e destacou mais de mil engenheiros para o projeto. Em 2017, Wang declarou que o SkyRail poderia ser implantado em mais de 200 cidades chinesas, movimentando um mercado de trilhões de yuans.

Poucos anos depois, porém, a expansão em cerca de uma dúzia de cidades enfrentou o aperto dos orçamentos municipais. Hoje, estações parcialmente desmontadas e trens enferrujados acumulam poeira em locais como Anyang (província de Henan) e na turística Guilin, segundo imagens e vídeos publicados no Douyin, a versão chinesa do TikTok.

Mesmo que o SkyRail pareça um raro erro para a BYD — que disputa com a Tesla o posto de maior vendedora global de carros elétricos —, a empresa afirma continuar inovando a tecnologia, de acordo com seu último relatório anual, divulgado em março. Essa persistência, contudo, levanta dúvidas num momento em que o caixa das montadoras é pressionado por uma guerra de preços prolongada e a divisão de automóveis elétricos da BYD mostra sinais de enfraquecimento.

“Temos dados suficientes para provar que estamos certos”, disse Wang em 2021, quando as autoridades começaram a suspender projetos como o SkyRail. Apesar dos desafios, ele afirmou acreditar que, um dia, o público superará as dúvidas e verá o sistema como uma solução viável de transporte.

Há cerca de sete anos, a BYD negociava a implantação do SkyRail e, depois, do modelo menor SkyShuttle, em cerca de 20 cidades chinesas atraídas pelo custo mais baixo em relação ao metrô. Wang dizia que o custo por quilômetro de um SkyRail representava 20% do valor de uma linha de metrô e exigia apenas um terço do tempo de construção. As obras chegaram a começar em cidades como Shenzhen, Shantou e Xi’an.

Os principais obstáculos surgiram em 2021, quando Pequim suspendeu aprovações para novos projetos de transporte urbano sobre trilhos, numa tentativa de conter o endividamento dos governos locais e fixar critérios mínimos de receita, PIB e população. A cidade de Bengbu, na província de Anhui, relatou ter concluído grande parte de uma linha de teste de 5,7 quilômetros, mas, por não atender aos critérios populacionais da nova política nacional, não pôde iniciar as operações, segundo reportagens chinesas da época.

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O interior de um BYD SkyRail. Foto: Bloomberg/BYD

A China retomou, nos últimos anos, aprovações pontuais para alguns projetos de metrô e ferrovias urbanas, mas a maioria dos empreendimentos SkyRail ou SkyShuttle acabou abandonada — incluindo o de Bengbu. Alguns, porém, continuam operando, como o da sede da BYD em Shenzhen e os das cidades de Xi’an e Yinchuan.

A BYD também enfrentou dificuldades para expandir o SkyRail fora da China. O maior avanço ocorre no Brasil, onde a empresa construiu uma fábrica de veículos elétricos no estado da Bahia. Ela havia fechado um contrato de monotrilho com Salvador, mas o acordo foi cancelado em 2023 devido à escalada dos custos. Um contrato para desenvolver a Linha 17 da rede de São Paulo segue em andamento, com operação prevista para 2026, segundo a imprensa brasileira.

Embora, após uma década, o SkyRail ainda não tenha avançado significativamente, a história mostra que Wang é persistente em suas convicções e encontra meios de fazer suas ideias funcionarem.

Charlie Munger, falecido sócio de Warren Buffett e um dos primeiros investidores da BYD, afirmou em uma reunião anual de 2009 que, depois de realizar “alguns milagres” nos negócios de baterias e componentes de celulares, a empresa entrou no setor automotivo sem experiência alguma e conseguiu produzir em massa um modelo popular.

“É um milagre, e tanto”, disse Munger.

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A megacidade na China que parece ter saído de um filme de ficção científica

5 de Outubro de 2025, 06:00

Um trem elevado corta um arranha-céu residencial. O que parece uma praça no nível da rua é também o telhado de um prédio de 22 andares na encosta de um penhasco. À noite, o horizonte de neon se ilumina como uma cena de Blade Runner. Construída sobre montanhas, Chongqing é uma megacidade na China que parece ter saído de um filme de ficção científica.

E foi exatamente por isso que os aposentados da Flórida, Bev e John Martin, precisavam visitá-la. “Era um banquete para os olhos em todos os lugares”, disse Bev, 62.

Há muito tempo a China encanta os visitantes com maravilhas como a Grande Muralha e os guerreiros de terracota enterrados em uma tumba antiga. Agora, os visitantes estão se deslumbrando com a visão de Chongqing de uma cidade cyberpunk do mundo real.

Até alguns anos atrás, Chongqing era, em grande parte, uma resposta trivial: a cidade mais populosa do mundo, segundo alguns critérios, com 32 milhões de habitantes em uma área do tamanho da Carolina do Sul.

Cidade na China com um menino de vermelho
Foto: The Wall Street Journal

Os aficionados pela história da Segunda Guerra Mundial a conheciam como a capital dos nacionalistas chineses durante a guerra.

Então, vídeos virais de sua arquitetura impensável mudaram sua imagem. De repente, muitos viajantes chineses e internacionais sentiram que precisavam visitá-la.

Chongqing recebeu 120 milhões de turistas que pernoitaram no ano passado, um aumento de 17% em relação a 2023.

No primeiro semestre deste ano, os postos de controle de fronteira de Chongqing receberam um número recorde de estrangeiros — mas apenas 330.000, então os visitantes estrangeiros que chegam aqui ainda podem se gabar de ter visitado uma joia escondida.

China no foco dos influenciadores

Há poucos voos diretos da Europa e dos EUA, então muitos visitantes fazem escala em Pequim ou Xangai.

Muitos atribuem o aumento do turismo a influenciadores das redes sociais, como o “Trump Chinês”, um nativo de Chongqing chamado Ryan Chen, que imita perfeitamente o presidente dos EUA enquanto come o típico ensopado picante da cidade. Ou o morador local Jackson Lu, que mostra uma viagem de ônibus em espiral em uma rodovia elevada de 20 andares em um vídeo com 56 milhões de visualizações no TikTok e no Instagram.

Lu, um guia turístico de 28 anos, disse que a maioria dos arranha-céus foi construída durante sua vida. Mas o charme é que eles são cercados por prédios de apartamentos imponentes e sem elevadores da década de 1980, onde as pessoas penduram roupas para secar em grades de metal nas janelas.

“Há um choque entre o antigo e o novo”, disse ele. Seu sonho era fazer de Chongqing o cenário de um filme de ação com Tom Cruise.

Muitos visitantes internacionais precisam solicitar vistos de turista, incluindo Felix Donaldson, um pesquisador acadêmico britânico de 29 anos, que passou uma noite em Chongqing em um cruzeiro fluvial noturno.

A China se tornou mais fácil de navegar para pessoas que não falam mandarim, como Donaldson. Aplicativos de pagamento e tradução tornaram as coisas mais tranquilas. Sua única reclamação: banheiros agachados.

Imagem de teleférico na China
Foto: Getty Images

A cidade pode estar em seu período “Cachinhos Dourados”: conveniente o suficiente para estrangeiros, mas ainda não tão lotada deles.

O esforço valeu a pena para Bev e John Martin, que documentaram sua viagem no YouTube, mostrando pontos turísticos como uma rua iluminada por neon e o teleférico do Rio Yangtze.

“Chongqing é a cidade desconhecida, mas fabulosa, que você precisa visitar”, disse Bev.

China não comprou um grão sequer da nova safra de soja dos EUA — e Trump vai correr atrás do prejuízo

3 de Outubro de 2025, 14:16

Para os agricultores dos Estados Unidos, chuvas abundantes que garantem uma supersafra normalmente seriam boas notícias. Mas isso não fará diferença em 2025 se a China — maior compradora de soja do mundo — não levar um único grão.

Em meio à guerra comercial reaberta pelo governo Trump, os EUA devem perder ainda mais participação de mercado para a América do Sul, especialmente para o Brasil — talvez de forma permanente.

“Essa teoria de dor de curto prazo para ganho lá na frente não está funcionando, e não vai funcionar”, disse Ed Hodgson, agricultor de 1.500 acres no Kansas, que planta soja desde 1967.

Quando Donald Trump anunciou em abril tarifas sobre a maioria dos países — com foco em parceiros como China, México e Canadá — Hodgson viu como um “desastre” para o campo. E não acreditou na promessa de preços melhores.

Nos últimos cinco anos, a China respondeu por 52% das compras de soja dos EUA, lembrou o produtor. Em 2025, não comprou nada por causa das tarifas e da guerra comercial. “Nosso mercado de exportação à China foi dizimado e o preço despencou”, disse.

Segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), até agora a China não adquiriu soja da safra 2025/26. No mesmo período do ano passado, já havia comprado 6,8 milhões de toneladas — o que equivale a cerca de 250 milhões de bushels (a unidade padrão de negociação na Bolsa de Chicago, cada bushel equivale a 27,2 quilos de soja).

Tarifa pesa, Brasil avança

A combinação de tarifas retaliatórias de 20%, impostos de valor agregado e taxas de nação mais favorecida elevaram a carga sobre a soja americana para 34% em 2025, segundo a Associação Americana de Soja. Resultado: a soja dos EUA ficou “proibitiva” frente à oferta mais barata de Brasil e Argentina.

“É um mercado que perdemos e provavelmente nunca vamos recuperar”, resumiu Hodgson.

De fato, a mudança estrutural já dura 15 anos, com a China migrando para a soja brasileira, segundo Arlan Suderman, economista-chefe de commodities da StoneX. 

A desvalorização do real impulsionou a produção no Brasil, barateando o grão. Além disso, Pequim investiu bilhões em infraestrutura agrícola no país, para garantir abastecimento rápido e constante.

Bioenergia pode ajudar — mas não resolve

Uma saída parcial para os EUA pode vir do programa de biocombustíveis, que aumenta a demanda doméstica por óleo de soja usado em biodiesel. A produção americana de diesel renovável subiu de 1,47 bilhão de galões em 2013 para 4,29 bilhões em 2023, segundo a Associação Americana de Soja.

Ainda assim, a capacidade de processamento doméstico não chega perto de substituir o que antes ia para a China. “Não dá para simplesmente apertar o botão. Levará anos para construir a infraestrutura necessária”, disse Suderman.

Armazéns lotados e preços baixos

Sem a China, os EUA enfrentam excesso de oferta e preços em queda. No mercado futuro de Chicago, a soja para novembro foi negociada a US$ 10,13 por bushel. Mas produtores como Hodgson dizem que na prática recebem cerca de US$ 9 — bem abaixo dos US$ 14 a US$ 15 que seriam sustentáveis, sobretudo diante da alta de fertilizantes, sementes e máquinas.

“Todo mundo quer comida barata, mas isso não é porque o agricultor está ganhando dinheiro”, disse Hodgson.

Enquanto isso, Trump prometeu discutir o tema diretamente com o presidente chinês Xi Jinping nas próximas semanas e acena com um pacote de US$ 10 bilhões em ajuda aos fazendeiros, possivelmente financiado com receitas de tarifas. Até lá, os armazéns do Meio-Oeste seguem cheios de soja que ninguém parece querer.

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Brasil e China se unem para criar fundo de investimento de US$ 1 bilhão

3 de Outubro de 2025, 10:59

O BNDES e o Banco de Exportação e Importação da China (CEXIM) concordaram em criar um fundo de US$ 1 bilhão que investirá em setores como transição energética, infraestrutura, mineração, agricultura e inteligência artificial.

O banco brasileiro fornecerá US$ 400 milhões e o CEXIM, US$ 600 milhões, de acordo com comunicado. O novo fundo, que começará a operar em 2026, investirá em títulos de dívida e participações acionárias no Brasil.

O BNDES e a CEXIM já assinaram um termo de compromisso e uma declaração de intenções para cooperar na estruturação do fundo.

Primeiro fundo bilateral dos bancos

Segundo o diretor de Planejamento do BNDES, Nelson Barbosa, a iniciativa é o primeiro fundo bilateral entre uma instituição brasileira e uma chinesa, operando principalmente por meio de investimentos em reais.

“Esta parceria entre as duas instituições fortalecerá o relacionamento comercial e econômico entre Brasil e China”, disse ele durante a cerimônia de anúncio do fundo, que aconteceu no Rio de Janeiro.

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