Expulsar empresas chinesas. Libertar o ex-presidente de direita Jair Bolsonaro da prisão. Acabar com tarifas sobre o etanol americano.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, bombardeou o Brasil com uma lista de exigências enquanto Washington busca ampliar sua influência na América Latina.
No entanto, poucas medidas provocaram tanta indignação no país quanto o ataque de Trump ao Pix, o popular sistema brasileiro de pagamentos instantâneos que Washington citou como uma das principais justificativas para a decisão de impor, nesta semana, tarifas de 25% sobre diversos produtos brasileiros.
De vendedores de coco a bilionários, mais de 90% dos adultos brasileiros — mais de 140 milhões de pessoas — usam regularmente o Pix, um programa administrado pelo governo que permite aos usuários transferir dinheiro em segundos pelo celular, sem custo. Em menos de seis anos desde sua criação, o Pix já processa mais transações na maior economia da América Latina do que cartões de crédito e débito combinados.
Marcos Rosa, um pastor evangélico que passa seus dias visitando vilarejos remotos da Amazônia, afirmou que o Pix não apenas facilitou os pagamentos, mas também reduziu as distâncias na maior floresta tropical do mundo.
“Tudo acontece muito mais rapidamente”, disse ele, explicando como o Pix e a internet via satélite fizeram com que moradores não precisem mais passar dias no rio para comprar um saco de arroz.
Em vez disso, eles enviam um pagamento via Pix para uma loja na cidade mais próxima, que coloca os produtos em um barco que já está subindo o rio.
“Tem sido uma ajuda enorme”, afirmou Rosa.
A administração Trump discorda. Washington informou na quarta-feira que, a partir da próxima semana, aplicará uma tarifa de 25% sobre cerca de 3 mil produtos brasileiros. O Brasil é o primeiro país atingido pelas tarifas dentro da nova estratégia do governo Trump de usar a Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos para punir supostas práticas comerciais desleais.
Entre uma série de reclamações — incluindo políticas de combate à corrupção e barreiras às importações de etanol americano — Washington argumenta que o Pix se tornou tão disseminado no Brasil que prejudica injustamente empresas americanas de pagamentos, como Visa e Mastercard. Há também uma preocupação crescente nos Estados Unidos de que o Brasil e outros países estejam tentando reduzir sua dependência do dólar.
O governo Trump afirma que o Brasil favoreceu o Pix de diversas formas, incluindo ao exigir que instituições financeiras com mais de 500 mil contas ativas ofereçam o sistema. Diferentemente do Pix, que tem apoio estatal, empresas privadas, muitas delas americanas, precisam arcar com custos de prevenção a fraudes, tecnologia e remuneração de acionistas por meio de tarifas, tornando praticamente impossível competir.
Embora a medida mais recente tenha poupado carne bovina, café, suco de laranja e outros produtos importantes que os Estados Unidos precisam comprar do Brasil, ela ainda abrange mais de US$ 11 bilhões em exportações brasileiras, segundo a Câmara Americana de Comércio para o Brasil.
As tarifas são resultado de uma investigação comercial conduzida pelos Estados Unidos durante um ano. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, culpou o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva pelo fracasso das negociações para chegar a um acordo. Em uma publicação no X, Rubio afirmou que o líder de esquerda colocou “seu próprio ego à frente de fechar um acordo”.
O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, classificou os comentários de Rubio como “um ataque rude e arrogante”. O Brasil prometeu adotar medidas de retaliação.
A Seção 301 permite que presidentes americanos imponham tarifas permanentes sobre comércio, mas nunca antes havia sido usada explicitamente contra o sistema doméstico de pagamentos de outro país, afirmou Alisha Chhangani, diretora associada do Atlantic Council, centro de estudos com sede em Washington.
“Este é o primeiro exemplo e não será o último”, disse ela, classificando o episódio como um alerta para países que buscam maior controle sobre seus sistemas de pagamentos, incluindo o Banco Central Europeu, que desenvolve o euro digital.
Criado por técnicos do Banco Central brasileiro no fim de 2020 para reduzir custos e aumentar a competição no setor bancário do país, o Pix foi elogiado pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional como um modelo de inclusão financeira em uma das sociedades mais desiguais do mundo. Outros países estudaram o sistema brasileiro enquanto desenvolvem suas próprias soluções.
“O Pix pertence ao Brasil e ninguém vai nos obrigar a mudá-lo”, disse Lula no início deste ano. O sistema ajudou milhões de brasileiros de baixa renda, um segmento importante da base política do presidente.
Assim como o sistema indiano UPI, o Pix incentivou usuários a abandonar o dinheiro em espécie e abrir contas bancárias, após anos evitando transferências bancárias lentas e caras. O número de usuários ativos do sistema financeiro brasileiro quase dobrou, passando de cerca de 77 milhões em 2018 para 152 milhões em 2023, crescimento atribuído em grande parte pelo Banco Central ao Pix.
Seja para comprar um Porsche 911, pagar contas ou dar dinheiro a um morador de rua em um semáforo, o pagamento é feito da mesma maneira. Com o Pix integrado aos aplicativos bancários, usuários podem enviar dinheiro usando número de celular, CPF, e-mail, chave Pix ou QR Code.
Enquanto empresas maiores podem pagar pequenas tarifas, elas geralmente são inferiores às taxas cobradas pelas operadoras de cartões, permitindo que muitos varejistas ofereçam descontos para pagamentos via Pix.
O sistema também reduz a necessidade de carregar dinheiro em um país marcado por altos índices de roubos.
PixTinder
Apelidado por alguns de “PixTinder”, o sistema chegou a se tornar um último recurso para pessoas rejeitadas em relacionamentos. Depois que um ex-parceiro bloqueia o contato por telefone e nas redes sociais, ainda é possível enviar uma transferência de um centavo com uma curta mensagem de pedido de perdão na descrição da transação.
O conflito diplomático entre os dois países mais populosos do Hemisfério Ocidental começou depois que Washington impôs tarifas de 50% ao Brasil no ano passado, exigindo o fim do que chamou de “perseguição” a Bolsonaro, rival político de Lula. As tarifas foram posteriormente reduzidas, e a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou parte das tarifas globais de Trump, considerando que ele havia ultrapassado sua autoridade.
Pesquisas indicam que os ataques de Washington fortaleceram Lula antes da eleição de outubro contra o filho de Bolsonaro, Flávio. Muitos brasileiros responsabilizam a família Bolsonaro, aliada de Trump, pelas tarifas, enquanto Lula apresenta as medidas como um ataque à soberania brasileira.
O Brasil tradicionalmente importa mais produtos dos Estados Unidos do que exporta para o país.