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O moleiro de Sans-Souci (por Luiz Marques)

Luiz Marques (*) 

 1.

A “teoria dos três poderes” legada pela Revolução Gloriosa, na Inglaterra, e teorizada pelo filósofo e jurista francês Charles de Montesquieu (1689-1755), está em crise há muito tempo. A mídia corporativa se candidatou a “quarto poder” no século XX, mas nunca ultrapassou a condição de braço auxiliar do status quo 

No Brasil, na análise da tripartição dos poderes, o Congresso Nacional com as emendas impositivas é cooptado por interesses pessoais e de classe acima do bem comum. Enquanto o Judiciário se torna uma loja de conveniências para magistrados que perdem a noção de decoro no exercício da função, com um vergonhoso simulacro de consumo de luxo espelhado em hábitos dos mais ricos. 

O Executivo padece sob um sistema eleitoral que não vincula o voto no candidato majoritário à distribuição das cadeiras no Legislativo. A eleição dos prefeitos, governadores e presidente não têm correspondência na composição parlamentar. A governabilidade depende de alianças exóticas. Um fisiologismo substitui as afinidades programáticas e desqualifica o sentido da política na opinião pública. 

Em cada país acham-se vetores atuantes na desconstituição do Estado de direito e da democracia. A presença de uma intencionalidade religiosa e os discursos de autoajuda se propagam, junto aos ideais de um empreendedorismo individual. O reino da necessidade mostra-se mais forte do que o altruísmo das personas em favor dos interesses gerais. Faltam republicanos para sustentar uma República. 

No contexto global, dos valores que segundo Montesquieu regem as formas de governo, a saber, a “virtude” na República, a “honra” na Monarquia e o “medo” no Despotismo apenas o último se destaca na contemporaneidade. A insegurança se estende ao conjunto da sociedade civil e desperta um alerta sobre os jovens.  

2.

Conforme a pesquisa “Next Generation Brasil 2025”, no Atlas das Juventudes, em torno de 50 milhões de pessoas situam-se na faixa etária de 15 a 29 anos. Estão abertas às ideias de participação política e cívica e pedem representatividade e inclusão. Tamanho potencial para o progresso econômico e o desenvolvimento social, porém, corre o risco de não se realizar pela ausência de oportunidades. 

Não bastam professores com uma pedagogia antirracista e decolonial. É preciso que a juventude seja acolhida por políticas que a protejam da superexploração em aplicativos. E mais, que ajudem a reorganizar a esperança militante. A destruição dos laços de identidade e solidariedade laboral condensa uma imensa vitória do neoliberalismo contra os direitos, para acelerar um processo de acumulação. 

A instabilidade no mundo do trabalho rompe o contrato social, alastra a guerra de todos contra todos e reatualiza a lógica do “estado de natureza” hobbesiano. Os demagogos aproveitam a situação para incrementar as pautas sobre a diminuição da idade penal e a proibição do aborto até em casos dos estupros em crianças. O medo é um instrumento eficaz para impor a obediência e a aceitação da ordem. 

A limitação de poderes é a lição aprendida no enfrentamento ao absolutismo em priscas eras. Tinha em vista a moderação para garantir a estabilidade sistêmica com a institucionalização dos conflitos, contornando os atos de violência na luta de classes. Mas a tentação pelos Estados de exceção retorna hoje, obedecendo a impulsos históricos e conjunturais que melindram a autoridade das convenções. 

O imperialismo estadunidense cultua o medo com a força das armas e do dólar, ora ao mexer nas receitas estrangeiras com as tarifas de exportação. Israel faz o mesmo desde o nascimento, com uma despossessão dos palestinos. A extrema direita reitera o rito no discurso de ódio, xenofobia e perseguição aos imigrantes legais e ilegais. Como sentencia o sábio Riobaldo, em Grande sertão: veredas, “O real não está no início nem no fim, ele se mostra pra gente é no meio da travessia”. 

3.

Nesta dialética sem síntese, a racionalidade rentista atrela à política os projetos de “austeridade” onde ajustes fiscais rebaixam o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). A economia ortodoxa divorcia o Estado e a nação. Os desesperançados abraçam o diabo na expectativa se dar bem no inferno com a benção do patrão. 

O caos é uma consequência do desequilíbrio na correlação de forças entre capital e trabalho. Ao privilegiar o polo capitalista e subjugar o movimento trabalhista, por via da desindustrialização que gera desemprego e arrocha os salários, escancara la porte de l’enfer. A precarização e as terceirizações são uma decorrência natural das investidas contra a dignidade, a diversidade e idem os direitos de cidadania. 

Os vícios do patrimonialismo (transferência de bens e funções públicas para o privado), o negacionismo estrutural (desmonte dos órgãos de regulamentação), o monopólio tecnológico das Big Techs (indução ao consumo e escolhas eleitorais) e o neoliberalismo (empoderamento do livre mercado, sem participação social na definição de políticas) são fatores de desestabilização da ordem na sociedade. 

Não obstante, os ventos mudam. A camisa da seleção brasileira na Parada do Orgulho LGBTQIA+ quebra o monopólio político do amarelo pelo bolsonarismo. A febre do álbum da Copa com adultos e crianças em espaços públicos para uma troca de figurinhas, mais do que evento comercial, simboliza a confraternização lúdica com leveza para a sociabilidade cotidiana. É o antídoto ao ressentimento e ao divisionismo ideológico. Acena compartilhamentos além das bolhas tóxicas.   

O ponto fora da curva é o ministro Nunes Marques, presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), ao suspender a divulgação de pesquisa da AtlasIntel que revela o desgaste nas intenções de voto em Flávio Bolsonaro dadas provas de ligações do senador com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. Doravante estatísticas estão sujeitas à censura da toga. Um tal despautério abala a fé na justiça. “Ainda existem juízes em Berlim”, pergunta agora remoçado o moleiro de Sans-Souci. 

 (*) Docente de ciência política na UFRGS; ex-secretário estadual de Cultura 

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Zema quer ser ponta-de-lança da Operação Delenda Supremo. Por Paulo Henrique Arantes

Romeu Zema – Foto: Eduardo Knapp/Folhapress

Romeu Zema integra o campo político dos direitistas travestidos de moderninhos, que administram a coisa pública pela ótica das redes sociais. Seus atos são forjados por marqueteiros para conquistarem seguidores, gerarem likes e aumentarem o engajamento, visando a consolidar uma persona pública antes de tudo falsa, descasada das liturgias a que são obrigados os governantes. São enganadores profissionais.

Candidato a presidente da República, o ex-governador de Minas Gerais, ou sua assessoria de marquetagem, percebeu que a onda do momento é atirar contra o Supremo Tribunal Federal. A Operação Delenda Supremo, ora em curso, é pilotada por políticos e empresários enroscados com a lei, golpistas da democracia, alas partidarizadas da Polícia Federal e boa parte da imprensa. Zema pretende ser ponta-de-lança do movimento.

Como quase metade do Brasil aprecia um ser abjeto como Jair Bolsonaro, por natural a corte que o condenou tornou-se alvo da turba e atacá-la, discurso eleiçoeiro certeiro. A intenção de voto em Romeu Zema deu um pequeno salto depois do bate-boca que travou com Gilmar Mendes, ministro que não leva desaforo para casa, mas que neste caso parece ter caído numa armadilha. A retórica do cerceamento da liberdade de expressão gruda como cola.

Gilmar Mendes – Foto: Sergio Lima/AFP

O que dá certa tranquilidade à parcela civilizada do eleitorado é que a desconstrução de Zema virá com facilidade, pelo ridículo do seu comportamento e por sua administração errática em Minas Gerais.

Ocupante do Palácio Tiradentes, Roma Zema não apenas comeu banana com casca para abordar pateticamente a questão alimentar. Antes, no Carnaval de 2019, surgiu vestido de gari, a varrer ruas em Belo Horizonte. A ação buscava sinalizar humildade e valorização do trabalho básico, mas não passou de encenação simbólica, típica de marketing político rasteiro, sem conexão com políticas públicas estruturais. Ao viajar de classe econômica, tentou posar de homem simples e econômico, mas a atitude nitidamente performática de se fazer passar por um cidadão comum prejudica, na prática, a gestão do Estado: o governador não pode estar limitado aos voos de carreira em suas viagens de trabalho, em nome da celeridade administrativa.

Ao longo dos seus mandatos, Zema publicou vídeos com linguagem coloquial, tentando se aproximar do eleitor comum. Tais conteúdos foram alvo de críticas por parecerem artificiais ou mal calibrados, especialmente quando tratavam de temas complexos mediante simplificação excessiva, gerando reações negativas.

O verdadeiro governo Zema guarda esqueletos assustadores no armário. Em 2021, auge da pandemia, o Ministério Público Federal abriu procedimentos para apurar compras de EPIs pelo governo de Minas por indícios de sobrepreço e favorecimento de fornecedores. A investigação foi encerrada, contudo, sem desdobramento penal.

Em 2026, o Ministério Público de Minas Gerais abriu inquérito para apurar uma queda de 96% na destinação de recursos para prevenção contra enchentes no Estado, motivado por suspeitas de omissão administrativa e má gestão orçamentária. A investigação está em curso.

O neoliberal Romeu Zema, de outra parte, não consegue se livrar da ajuda estatal, como prova o avanço da dívida mineira, hoje na casa de R$ 200 bilhões, cerca de 90% dos quais com a União. O governador Zema obteve um novo acordo com a União, no âmbito do Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag),que estabelece parcelamento em até 30 anos, possibilidade de juros reais próximos de zero (IPCA + 0%) e exigência de contrapartidas (ajustes fiscais e eventualmente venda/federalização de ativos). Uma renegociação de pai para filho.

Só que o papagaio continua sendo tema de disputa no Supremo Tribunal Federal. O ministro Nunes Marques chegou a cobrar comprovantes de pagamento da dívida em 2026. Minas já conseguiu, no passado recente, suspender pagamentos por quase dois anos via decisões judiciais. Ou seja: o conflito federativo não desapareceu — só foi reorganizado. Registre-se que a dívida de Minas Gerais cresceu mais de 60% desde 2019, início da era Zema.

Apesar do acordo do Propag, relatórios da Secretaria de Fazenda de Minas Gerais indicam que o Estado iniciou 2026 com uma disponibilidade de caixa líquida negativa em mais de R$ 11 bilhões. Isso ocorre porque, embora a dívida tenha sido alongada, o fluxo de pagamentos e a renúncia fiscal aprovada em 2025 ainda pressionam o orçamento mineiro no curto prazo.

Como todo neoliberal brasileiro, Zema não vive sem uma mãozinha da União.

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