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Justiça nega ação do Escola Sem Partido que tentava proibir leituras obrigatórias do vestibular da UFRGS

A 2ª Vara Federal de Porto Alegre negou uma ação movida pelo Programa Escola Sem Partido que contestava a lista de leituras obrigatórias para o vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). De acordo com o programa, a obrigatoriedade das leituras ameaça o “direito à inviolabilidade da liberdade de consciência e de crença” e representam um “pedágio ideológico” ao ingresso na instituição de ensino superior.

No pedido de ação civil pública contra a universidade, o Escola Sem Partido declara que solicitou à UFRGS uma cópia dos documentos que justificariam a escolha das leituras que integram a lista. Em resposta, a universidade indicou que não há motivação expressa para a escolha das obras “se não a manutenção da variedade de gêneros e períodos literários da lista”. O processo – coordenado desde 2007 por um grupo de professores vinculados à Comissão Permanente de Seleção (Coperse) – é realizado anualmente, com a troca de quatro das doze leituras da lista.

Ainda de acordo com a manifestação do Escola Sem Partido, as leituras poderiam “afetar consideravelmente o psiquismo do leitor” através da doutrinação ideológica. Além disso, de acordo o programa, as escolhas promoveriam autores por razões de “etnia, raça, gênero e ideologia”, e não por mérito literário. Sob tal pretexto, o grupo solicitou a proibição de leituras obrigatórias nas próximas edições do vestibular e uma indenização por danos morais aos estudantes, além da exclusão de duas leituras da lista – “O avesso da pele”, de Jeferson Tenório, livro que integra o Programa Nacional do Livro e do Material Didático, e “Mas em que mundo tu vive”, de José Falero. Ambas as obras apontadas discutem a temática do racismo.

“No meu entender, há aqui uma impossibilidade lógica, porque a nossa constituição determina o dever não só de não discriminar, mas de enfrentar o racismo”, defende Enrico Rodrigues de Freitas, Procurador Regional dos Direitos do Cidadão do Ministério Público Federal (MPF). “Quando a universidade insere leituras que tratam desses temas, ela está cumprindo o seu dever constitucional”, complementa.

O MPF considerou inválido o pedido, alegando que a parte autora pretende “atingir fim ilícito” com a solicitação. O órgão ainda defendeu a autonomia universitária legitimada por lei e, assim sendo, não passível de interferência do Judiciário. “Essa autonomia [universitária] é um dos pilares do Estado Democrático de Direito”, avalia Enrico de Freitas.

Na decisão proferida pela juíza Paula Beck Bohn na última quarta-feira (22), foi destacada a autonomia didático-científica garantida por lei, que assegura às universidades a definição de como se dará o processo seletivo para ingresso na instituição. Além disso, a magistrada defendeu que a participação em qualquer vestibular não é mandatória e que, portanto, “muitas outras universidades, além da UFRGS, podem ser escolhidas para a formação acadêmica”.

Procuradas pelo Sul 21, a Coperse a UFRGS não quiseram se manifestar sobre o assunto.

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Todos eles são da mesma turma. Por Moisés Mendes

Donald Trump

A frase do maior assassino do século 21, que está na capa de todos os jornais, sobre o sujeito que teria tentado matá-lo na festa em Washington:

“Era um homem doente”.

Também está em destaque esta chamada:

“PL avalia que Zema ‘radical’ perde força para ser vice de Flávio”.

Romeu Zema

Depois dos ataques ao Supremo, Zema passou a ser radical demais para o extremista moderado.

O fascismo às vezes tenta parecer um bicho estranho, mas é o que é. Trump, Zema e Flávio são da mesma turma de homens doentes da extrema direita.

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Jornalões assumem: estão com a extrema-direita e não abrem. Por Moisés Mendes

Banca de jornal com edições da Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo, Valor Econômico e outros veículos nacionais e internacionais. Foto: Reprodução

Enquanto bate em Lula, a Folha publica na capa mais um release da assessoria de imprensa da extrema-direita:

“Michelle lança bancada de aliadas para o Senado e trabalha pelo apoio de Bolsonaro e do PL”

Está tudo bem descarado. Todos os dias há uma notícia sobre os bons modos e a vida franciscana do fascismo.

E esta é manchete da Folha:

“Famílias comprometem 29% da renda com dívidas, maior patamar em 20 anos”

A manchete da Folha. Foto: Divulgação

Logo abaixo, a informação que remete para a eleição:

“Números ligam sinal de alerta em bancos e varejistas e podem mexer com percepção do cenário econômico em ano de eleição”.

Aqui está a motivação da pauta: tudo isso mexe com a percepção do cenário em ano de eleição. É a Folha se mexendo.

O engajamento das corporações de mídia ao novo bolsonarismo sem Bolsonaro está em ritmo forte.

E esta é a manchete do Globo, que tenta fragilizar Haddad como ameaça à extrema-direita em São Paulo:

“De ‘austericida’ e ‘Taxad’ a cartada do PT: a virada de Haddad para a pré-candidatura ao governo de São Paulo”.

Manchete d Glogo. Foto: Reprodução

E tem mais esta, em chamada de capa do Estadão:

“Em pré-campanha, Flávio Bolsonaro adota tom leve e mira ‘cansaço’ do eleitor com Lula”.

Tom mais leve… O filho que tem vínculos com os milicianos se consolida pelos jornalões como mais um extremista moderado.

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Ódio, big techs e extrema-direita: como opera engrenagem da misoginia

Da Agência Brasil

Nas últimas semanas, uma série de casos de violência e ódio contra mulheres tomou conta dos noticiários e das redes sociais. O feminicídio de uma policial militar pelo seu companheiro, em São Paulo. Estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro. Vídeos no TikTok em que homens simulam atacar mulheres que rejeitam pedidos de casamento.

Os episódios não devem ser vistos como isolados e fazem parte de uma engrenagem complexa de misoginia, que conecta diferentes peças: desde experiências individuais de frustração até estruturas econômicas e projetos políticos globais. É o que analisam especialistas ouvidos pela reportagem da Agência Brasil.

As investigações sobre a morte da policial Gisele Alves Santana, que foi encontrada com um tiro na cabeça em seu apartamento, mostram que o marido dela, o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, acusado do crime, usava em conversas termos que circulam com frequência nos grupos misóginos da internet como “macho alfa” e “mulher beta”. Eles remetem à ideia de superioridade do homem e submissão feminina.

A origem do ódio

O problema precisa ser entendido também em sua dimensão histórica. Os grupos de ódio têm crescido, em parte, favorecidos pela expansão dos ambientes virtuais, mas existem muito antes disso.

“Falamos muito sobre o aumento dessa violência, mas ela é secular, existe desde a construção da sociedade. Vemos estruturas patriarcais antigas de submissão das mulheres, e a internet potencializa essa violência”, diz a socióloga Bruna Camilo.

Bruna é cientista política, e pesquisa gênero e misoginia. O psicólogo social Benedito Medrado Dantas, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), acrescenta que as expressões de ódio às mulheres se intensificaram como uma reação às conquistas femininas

“Desde quando as mulheres começaram a ocupar outros lugares na sociedade que não fossem o do cuidado doméstico. Isso, invariavelmente, mexe nas estruturas da sociedade, na intimidade da vida doméstica e familiar”, diz.

Recrutamento precoce

Pesquisadores têm identificado que meninos cada vez mais jovens estão sendo atraídos para a chamada “machosfera”. O termo engloba fóruns na internet, canais de vídeos, grupos de mensagens instantâneas e perfis em redes sociais voltados para defesa de um padrão conservador de masculinidade e de oposição aos direitos femininos.

A ativista feminista e professora Lola Aronovich sofre ataques virtuais há anos, e relata o que encontrou ao investigar comunidades online, principalmente de jogos.

“Acontece um recrutamento muito pesado. Comecei a pesquisar o Discord [aplicativo] e vi que eram meninos cada vez mais novos, entre 12 e 14 anos. Fiquei muito chocada porque estava acostumada com adolescentes mais velhos, mas, principalmente, adultos”, diz Lola.

Segundo ela, o processo de atração para esse discurso é gradual, e a sondagem começa a partir da reação de meninos a termos e ideias misóginos.

“Por exemplo, no meio da conversa, ao falar de mulheres, vão usar expressões como ‘vagabundas’ e ver como esse menino reage. Ao perceberem uma abertura, continuam a cooptação”, explica.

Pesquisadora da Fundação Getulio Vargas (FGV) e de estudos de gênero, Julie Ricard mapeou as estratégias de recrutamento para grupos misóginos em outra rede, o Telegram. O estudo identificou 85 comunidades abertas, o que para ela significa “a ponta do iceberg”.

“Há aquelas explicitamente misóginas e outras se apresentam como espaços de autoajuda ou desenvolvimento econômico, de vida fitness. Nesses casos, os jovens acessam conteúdos que parecem neutros, mas encontram narrativas de ressentimento contra mulheres”, explica Julie.

As estratégias se multiplicam pelos diferentes canais da internet. Estudos do NetLab, laboratório de pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mapearam mais de 130 mil canais misóginos no YouTube e mostram que temas como “sedução e relacionamentos”, “questões jurídicas” e “vencer a timidez” são pontes para conteúdo de ódio.

Frustração e vulnerabilidade

Por que homens aderem às ideias que estimulam opressão e violência contra as mulheres? Para os especialistas, a resposta para essa questão não é simples, uma vez que os motivos envolvem elementos da experiência individual. Porém, há padrões coletivos que podem favorecer a assimilação e são explorados pelos líderes da chamada “machosfera”.

A engrenagem misógina depende de matéria-prima emocional: frustração, isolamento e insegurança, especialmente entre adolescentes e homens em situação econômica vulnerável, explica o psicólogo Benedito Medrado Dantas.

Quando se trata de adolescentes, a vulnerabilidade é inerente ao período da vida, uma vez que eles estão em processo de construção de identidade e de amadurecimento socioemocional. Essas inseguranças podem ser exploradas por grupos que defendem uma masculinidade violenta e submissão das mulheres. Benedito alerta que os jovens que não encontram espaço de diálogo em casa são os mais vulneráveis.

“Sem interações e conflitos, não há possibilidade de a família criar filtros sobre a informação que eles acessam. Há um processo de fragilização grande porque estão tentando construir a si mesmos, e conteúdos violentos podem ser mais atrativos”, diz Benedito.

Ele ressalta que as mensagens nesses grupos usam a linguagem dos memes e o humor para fragilizar resistências. “É um universo de mensagens de fácil assimilação”, complementa.

Já entre os homens adultos, as mulheres e o feminismo podem virar bodes expiatórios para os problemas pessoais para aqueles que buscam justificavas simplistas para suas vivências.

“Muitos se apresentam como vítimas, porque se veem como homens feios ou sem dinheiro. O que percebemos nessas comunidades é um ressentimento muito grande com a própria situação”, diz a pesquisadora Julie Ricard.

Ela destaca que há duas camadas de frustração muito presentes nos discursos: econômica e afetivo-sexual.

“São frustrações masculinas tanto em relação às mulheres, quanto ao próprio lugar deles na sociedade. Homens socializados para serem ‘provedores do lar’, que hoje têm uma renda que não permite cumprir esse papel”, complementa.

Hierarquias do ódio

Por trás de uma aparente espontaneidade dos grupos misóginos, há liderança e organização. A socióloga Bruna Camilo chama atenção para quem conduz o processo imediato de cooptação: homens mais velhos, com idades a partir de 40 anos.

“São pessoas que viveram o mundo antes e depois da internet. Em comum, costumam também ser ressentidos, alguns com ódio inclusive das próprias mães”, diz Bruna.

Os especialistas destacam o papel das grandes plataformas digitais por onde comunidades e discursos de ódio circulam. Além do lucro direto, os empresários à frente das big techs muitas vezes têm afinidade ideológica e política com as ideias propagadas nesses espaços.

“Esses grupos misóginos notaram que ninguém os proibia de agir nas redes sociais. Pelo contrário, passaram a receber dinheiro por serem misóginos. Há cada vez mais gente apostando nisso, vivendo disso”, diz a professora Lola Aronovich.

Ela lembra que há lideranças dessas empresas que são ativistas de extrema-direita e que estiveram, por exemplo, presentes no governo de Donald Trump, nos Estados Unidos, como o dono da rede X, Elon Musk.

Lola destaca também a assimetria na moderação de conteúdo. Ela questiona o argumento das plataformas de que não podem censurar os usuários.

“Há exemplos de canais feministas que trabalham com direitos reprodutivos e não podem falar sobre pílulas abortivas, que têm o conteúdo derrubado. Mas, quando um monte de canais defende a morte de mulheres, não sofre sanções”, compara.

Projeto político

No alto dessa hierarquia, estão também políticos que influenciam e são favorecidos pela ampliação da misoginia.“Antes, os misóginos costumavam se esconder em identidades anônimas na internet. A partir da campanha eleitoral do Trump, em 2016, a gente viu uma mudança grande. Eles começaram a dar as caras. Depois, com a eleição do ex-presidente Jair Bolsonaro, a mesma coisa”, diz Lola Aronovich.

Para a socióloga Bruna Camilo, o projeto político da extrema-direita se beneficia com ideais reacionários de masculinidade (virilidade e poder) e a submissão das mulheres.

“No fundo, trata-se de controle dos corpos. O debate de gênero provoca discussões profundas na sociedade. O que interessa à extrema direita é manter o status quo, em que as mulheres não questionam, e os homens concentram poder político e social”, analisa.

Caminhos possíveis

Apesar de avanços, como a Lei nº 13.642/2018 – que determina a investigação de crimes de ódio contra mulheres na internet –, especialistas apontam lacunas. Uma delas seria criminalização da misoginia no país.

“O que adianta a Polícia Federal dizer que determinada pessoa foi misógina, se isso não pode ser tipificado como crime? Não dá para ir muito adiante, e gera uma sensação de maior liberdade e impunidade para esses criminosos”, diz Lola Aronovich, que se tornou símbolo da lei.

Enfrentar a rede de misoginia exige ação em múltiplas frentes, incluindo ainda medidas educativas voltadas a meninos e adolescentes.

“O diálogo, para mim, é o único caminho possível de transformação. Os homens não estão acostumados a falar, muitas vezes não sabem se expressar porque não aprenderam. É preciso investir no diálogo em casa e nas escolas”, diz o psicólogo Benedito Medrado.

A pesquisadora Julie Ricard acrescenta que é responsabilidade dos adultos “zelar pela autoestima e pela saúde mental desses jovens”. “Precisamos encarar isso como um problema de política pública”, diz.

Já em relação aos grupos políticos e econômicos que se beneficiam da misoginia, as soluções passam por mecanismos mais complexos de enfrentamento como o fortalecimento das instituições e da legislação. Entre elas, o debate sobre a regulação das plataformas.

“Avançamos na legislação sobre proteção digital, mas não conseguimos impedir ainda que as big techs mantenham conteúdos misóginos em suas plataformas. Por que até hoje a Câmara dos Deputados não chamou representantes desses grupos e pediu explicações sobre a construção desses algoritmos? Se não há enfrentamento, é porque há interesses políticos”, questiona Bruna Camilo.

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Pimenta critica Globo por manipular PowerPoint sobre Banco Master: “Criminoso”

O deputado Paulo Pimenta (PT-RS) falando e gesticulando sem olhar para a câmera, sério
O deputado Paulo Pimenta (PT-RS) – Reprodução/Instagram

O deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) denunciou a tentativa de manipulação de informações pela GloboNews após a emissora exibir um PowerPoint sobre o escândalo do Banco Master, em 20 de março. O quadro, que teve como figura central o banqueiro Daniel Vorcaro, foi criticado por Pimenta por omitir figuras-chave do caso, como Jair Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, Roberto Campos Neto e Ibaneis Rocha, enquanto tentava ligar o escândalo à esquerda e ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva. “É muito grave o que a Rede Globo fez, o novo PowerPoint”, declarou o deputado.

Nas redes sociais, Pimenta questionou a ausência de personagens importantes na narrativa da GloboNews, como Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto. Segundo ele, a apresentação ignorou a relação de pessoas e instituições com o escândalo, especialmente a ligação de figuras da direita com o Banco Master. “Não aparece o Bolsonaro, não aparece o Campos Neto, presidente do Banco Central, figura chave do esquema do Bolsomaster”, destacou.

O deputado também fez referência à omissão de outros nomes envolvidos no caso, como Ciro Nogueira (PP-PI), que foi mencionado de forma distorcida, e a falta de transparência sobre a relação entre a Globo e Daniel Vorcaro, que patrocinou eventos da emissora. “Não dá destaque pro fato de que o avião do Vorcaro foi utilizado para que o Nikolas Ferreira percorresse o Brasil fazendo campanha pro Bolsonaro no segundo turno”, apontou, acusando a Globo de proteger seus próprios interesses e aliados políticos.

Globo e o PowerPoint das omissões
O Powerpoint da Globo: a palhaçada da Lava Jato 2.0 está completa

A denúncia de Paulo Pimenta evidencia a manipulação de informações pela mídia, com a tentativa de desviar a atenção das verdadeiras conexões do Banco Master com figuras do governo anterior. O caso coloca em discussão a prática da mídia corporativa de distorcer narrativas para proteger suas conexões políticas e financeiras. “Nós queremos que a verdade apareça, porque na medida que a verdade aparecer vai ficar claro que esse filho não é nosso, que o Bolsomaster não é nosso filho, pelo contrário, ele é filho legítimo do Bolsonaro”, afirmou Pimenta.

O escândalo do Banco Master e sua relação com o financiamento de campanhas eleitorais também foi abordado, com o deputado apontando que as campanhas mais financiadas nas últimas eleições foram as de Bolsonaro e Tarcísio de Freitas. A apresentação da GloboNews foi vista como uma tentativa de ocultar as responsabilidades de figuras da direita no esquema criminoso.

Com o avanço das investigações e a pressão por transparência, Pimenta reforçou a importância de esclarecer os fatos e responsabilizar os verdadeiros envolvidos no caso. “A verdade vai prevalecer”, concluiu, indicando que o movimento para desmascarar a manipulação midiática segue em frente.

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Sou conservador (por Delmar Bertuol) 

Delmar Bertuol (*) 

Descobri dia desses, fazendo uma autorreflexão: sou conservador. Cheguei nos quarenta, casei, emprego estável, comprei casa pela Caixa, tenho um sedã um-ponto-seis e só tomo Brahma. Tenho a cartilha completa. Religioso, heterossexual, pai de família, não usuário de drogas ilícitas, usuário de drogas lícitas e, por fim, reclamante dos impostos. Só me falta financiar um Toyota Corolla.

Mas não sou um conservador de nascença. Fui me transformando. Eu juro que não era assim. Na faculdade, tive que experimentar maconha. Oito vezes. É pré-requisito pro diploma. Porém, uma vez formado, nunca mais fumei. 

E sobre universidade, ainda, afirmam que as federais são um antro de orgia e sacanagem. Me esforcei pra passar no vestibular (aprendi no cursinho, inclusive, que não poderia ter começado esta frase com pronome oblíquo). No auge dos meus vinte, eu queria era essas tal festas despudoradas. Decepção. Minha experiência foi a pior possível. Descobri que qual suruba o quê. Os estudantes da universidade precisam é estudar muito. Únicas noites em claro que tive com as colegas foi pra estudar Teoria da História e Filosofia Grega. Quanto mais sei, mais sei que não comi ninguém.   

Drogas lícitas eu uso pelo menos desde os dezoito. Nada demais. Além de café sem açúcar, umas duas ou quinze cervejinhas no final de semana. Ou um charuto com uísque à cowboy para planejar uma revolução. No outro dia, que arma que nada, só me minucio de Paracetamol 750 pra dor de cabeça. E, pra ser ainda mais contraditório, tomo uma garrafa imperialista de Coca-Cola. 

Heterossexual eu acho que sempre fui. Já recebi convites em contrário, mas consegui resistir.

Da religião eu andava distante. Até da religiosidade eu me afastei, por causa do ceticismo. Mas minha mulher só casava se fosse na Igreja. Então, fui à missa, fiz curso de noivos, li a Bíblia, ajoelhei ante ao Padre e comunguei. É bom. Se todos os que se dizem cristãos realmente seguissem as ideias de Jesus, a sociedade seria bem melhor.

Eu não vou colar no carro o adesivo da Câmara de Dirigentes Lojistas: “chega de tanto imposto!”. Tenho consciência da importância dos recursos públicos. Mas o Lula poderia ter feito diferente essa isenção pra quem ganha até cinco mil, de forma a beneficiar também quem ganha um pouco mais do que isso, meu caso. Seria, no meu entender, mais justo e lógico que ele atualizasse as alíquotas até o patamar que dispensaria quem ganha os cinco mil do IR. Só que não. As regras de isenção e abono foi uma confusão que acho que nem os contabilistas vão saber fazer as declarações direito. Enfim, pelo menos um baita benefício para quem ganha menos.

Minha reflexão, contudo, é que se pode ser conservador e mesmo assim não enveredar pra extrema-direita. Não precisa, num ato até irresponsável para com a nossa democracia, votar nalgum Bolsonaro para poder frequentar o culto ao lado da esposa. Nem consta que a esquerda liberou as drogas. Uma vez falaram num tal kit gay, mas foi só pra ganhar as eleições. Já se percebe que os governos petistas, ou da ideologia que os valha, respeitam todas as orientações sexuais sem interferir na escolha de cada um. 

Enfim, a esquerda não vai destruir a paz da vida classe mediana. Pelo contrário, até amantes se pode continuar tendo. Quer dizer, o certo é não ter, mas o governo não vai investigar isso.

A ideologia social-democrata, base da esquerda no Brasil (e não caiam no patético de dizer que “o petê quer o comunismo”) tem como missão aumentar o poder de consumo da população como um todo. Ou seja, é mais fácil comprar uma camionete 4×4 que dá a sensação de pau maior aos homens num governo pretensamente de esquerda do que num de extrema-direita, que não só dificultará esse virtual aumento peniano, com também vai querer saber o que se faz com ele.

(*) Professor 

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As opiniões emitidas nos artigos publicados no espaço de opinião expressam a posição de seu autor e não necessariamente representam o pensamento editorial do Sul21

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PT promove encontro de jovens parlamentares em Brasília

Primeiro Encontro de Jovens Parlamentares, que reunirá centenas de representantes dos parlamentos de diversas regiões do país. Foto: Divulgação

Nos dias 16 e 17 março de 2026, Brasília será palco de um evento histórico para a política brasileira. O Partido dos Trabalhadores (PT) realizará o Encontro Nacional de Parlamentares Jovens Petistas, um evento que reflete um movimento de renovação geracional e diversidade, com o objetivo de fortalecer a presença de jovens no cenário político.

O evento será um espaço de diálogo e articulação, reunindo lideranças históricas e jovens parlamentares eleitos nas últimas eleições municipais. O encontro, que vai além de uma simples agenda institucional, busca consolidar o movimento que, nas últimas eleições, elegeu 562 vereadores e vereadoras entre 18 e 35 anos.

Esses jovens parlamentares representam um novo capítulo na política, especialmente nas periferias e pequenos municípios, onde as demandas por renovação política são cada vez mais urgentes. A proposta do evento é transformar a potência das urnas em uma rede de sustentação política permanente, fortalecendo o protagonismo jovem dentro do PT e nas câmaras municipais de todo o país.

A programação do encontro será dividida em blocos temáticos que abrangem tanto a articulação com o Governo Federal quanto a troca de experiências sobre como os mandatos jovens podem territorializar as políticas públicas.

O evento contará com oficinas práticas sobre o “Modo Petista de Legislar”, focando na comunicação política e no enfrentamento da extrema-direita, temas fundamentais para a formação desses novos parlamentares.

Entre os nomes confirmados no evento, estarão figuras históricas do PT, como Zé Dirceu, Edinho Silva, presidente nacional do partido, Luna Zarattini, vereadora eleita com 100 mil votos em São Paulo, Valter Pomar, secretário nacional de formação do PT, e Anne Moura, secretária executiva nacional da sigla.

Para a secretária nacional de juventude do PT, Julia Köpf, o Encontro Nacional de Parlamentares Jovens Petistas é uma oportunidade única para qualificar a atuação dos jovens dentro do partido.

“Estamos reunindo a juventude que faz a política acontecer lá na ponta para garantir que esses mandatos não fiquem isolados. Nossa missão é qualificar a incidência desses jovens nas câmaras municipais, oferecendo ferramentas para que o ‘Modo Petista de Legislar’ se traduza em políticas públicas reais para quem mais precisa”, afirmou Julia.

Köpf destacou que o encontro visa fortalecer a juventude política como uma rede de apoio mútuo, para que os jovens vereadores e vereadoras se sintam parte de um projeto nacional de defesa da democracia e enfrentamento ao extremismo. “Queremos que esses mandatos se tornem verdadeiramente populares, com propostas que atendam às necessidades das comunidades e enfrentem a crescente onda de extremismo”, completou a secretária.

O grande objetivo do encontro será a consolidação de uma “Agenda Nacional de Atuação”. Essa agenda terá como propósito não apenas fortalecer a rede de apoio dos jovens parlamentares, mas também coordenar propostas legislativas que enfrentem o extremismo e defendam a democracia em todos os cantos do Brasil.

O encontro será uma oportunidade para os jovens parlamentares saírem de Brasília com uma missão clara e com um conjunto de ações concretas a serem implementadas em seus respectivos municípios.

O encontro também traz consigo uma mensagem poderosa sobre o processo de renovação política. Como destacou Julia Köpf, “renovar não é apenas trocar a data de nascimento no documento de identidade; é renovar os sujeitos, as vozes e as narrativas que fazem a nossa democracia ser, verdadeiramente, popular.”

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Bolsonaro deve ser mantido bem vivo. Por Moisés Mendes

O ex-presidente, Jair Bolsonaro

Bolsonaro será protagonista da eleição, onde estiver, ainda vivo, na cadeia ou em casa, ou já morto e cremado. A velha direita, a Globo e as esquerdas não conseguiram se livrar do chefe da organização criminosa.

É incômodo para todos. Nunca um doente preso teve tanta influência nos destinos do país. Se ressuscitar amanhã e andar, Bolsonaro será um super-Deus da extrema direita.

Se ficar penando em casa, será visto como o líder que se submete ao flagelo de continuar vivo para salvar seu povo. Se morrer, será martirizado e a eleição pode virar uma nova confusão.

E aí se apresenta a dúvida que consome Alexandre de Moraes, o fascismo, o governo, Lula e a direita antiga: como lidar com Bolsonaro agora, se ele é mais do que um estorvo?

O filho Flávio fez um alerta inspirado nos gestos dos grandes humanistas: “Estão brincando com a vida do meu pai. Não dá mais para ficar com essa postura de achar que isso aqui é algum tipo de frescura, ou ficar com essa paranoia de que ele pode fugir”.

Flávio avisa que Bolsonaro não está fazendo mi-mi-mi e pede que ele deixe a Papudinha. O filho exige prisão “domiciliar humanitária em casa, onde ele pode ter cuidado permanente da família”.

É onde Bolsonaro pode ter, como acrescenta Flávio, cuidado permanente de um técnico de enfermagem. Bolsonaro pode ter em casa carinho, afeto e suporte como se continuasse no hospital.

Poderá dispor do que é decisivo para um paciente com problemas respiratórios. Terá muitos tubos de oxigênio. Porque é do que ele mais irá precisar. Ar, para continuar vivendo com suas deficiências pulmonares.

Flávio durante entrevista sobre a internação de seu pai, Jair Bolsonaro. Foto: reprodução

Bolsonaro não pode morrer com falta de ar. Não pode faltar nada a Bolsonaro, porque qualquer passo em falso de Moraes agora pode oferecer ao bolsonarismo o que muitos torcem para que aconteça, dentro inclusive das facções de extrema direita.

Os que imaginavam a viabilização de uma terceira via acreditavam que Bolsonaro condenado e preso deixaria de ser o que ainda é. Está preso, está doente e sai da cama à noite cambaleando. Mas está vivo. É preciso mantê-lo vivo.

Se o candidato ungido por Bolsonaro, que quase foi Tarcísio, fosse outro, é possível que as pesquisas indicassem um bolsonarismo competitivo. Mesmo sem o sobrenome da família.

Porque Bolsonaro ainda inspira, lidera e comanda. Tombaram todas as previsões em contrário, que o consideravam um morto político.

Caiado, Ratinho, Eduardo Leite e Zema não são nada no cenário em que o filho brilha. Uma figura que nunca foi citada como possível herdeiro, que não aparecia nas pesquisas, que não tem carisma, que não sabe falar e até ontem era apenas o operador financeiro da família.

Flávio parou de pé porque o pai disse: é ele. Esse pai está mal e deve ser protegido. A primeira providência hoje, a mais urgente, é não deixá-lo morrer.

É preciso mantê-lo vivo. Não por piedade, mas pelo que é determinado pelos cálculos políticos de quem ainda aposta na salvação da democracia. Depois da eleição, Bolsonaro estará liberado para morrer várias vezes.

(O autor desse artigo teve familiares próximos, amigos e vizinhos que morreram enquanto Bolsonaro debochava dos que sentiam falta de ar e lhes negava vacina e oxigênio.)

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Governo Lula vê ação de EUA e ultradireita latina para abalar eleição no Brasil

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Kuala Lampur, Malásia. | Crédito: Foto: Ricardo Stuckert/PR
A extrema-direita latino-americana e o governo de Donald Trump iniciam uma ofensiva contra o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, no que está sendo interpretado como um ensaio geral para uma ingerência nas eleições brasileiras do sinal do ano. Nos últimos dias, atos nos EUA, Argentina e Chile acenderam o alerta no Palácio do […]
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O colapso climático chegou: contra fatos não há argumentos (por Heitor Scalambrini Costa) 

Heitor Scalambrini Costa (*) 

“Tudo é político, inclusive seu silêncio conivente e fantasiado de neutralidade”
Antonio Gramsci

No balanço energético do planeta Terra, uma parte importante da energia vinda do Sol, que chega na superfície terrestre, é reenviada para o espaço na forma de calor (radiação infravermelha). Uma fração considerável da energia calorífica é absorvida pela atmosfera, impedindo sua saída para o espaço. Este fenômeno físico é chamado efeito estufa, que garantiu por milênios uma temperatura média do planeta em nível estável e adequado para as condições de vida. A atmosfera, que tem um papel fundamental neste processo, é constituída de uma fina camada de ar com vários gases, predominando o nitrogênio (79%), o oxigênio (21%), o dióxido de carbono (CO2), vapor de água, entre outros que bloqueiam o calor, chamados de gases de efeito estufa (GEE’s).

A partir da Revolução Industrial (RI), meados do século 18 e 19, o uso intensivo dos combustíveis fósseis se tornou realidade, inicialmente com o carvão mineral, depois petróleo e gás natural nos nossos dias. O aumento da concentração do gás carbônico (CO2), principal GEE emitido pela queima dos combustíveis fósseis, tem afetado o clima planetário, provocando aquecimento, com o aumento da temperatura média global.

A tentativa de vários países em conter suas emissões teve início em 1992, quando a ONU organizou a ECO92, no Rio de Janeiro. O evento marcou a adoção da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (em inglês, UNFCCC). Na ocasião, foi criado o Secretariado de Mudanças Climáticas da ONU.

Através desta convenção, as nações concordaram em “estabilizar as concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera para evitar interferências perigosas da atividade humana no sistema climático”. Até agora, 197 países assinaram o documento. Desde 1994, quando o tratado entrou em vigor, todos os anos a ONU reúne os países do planeta nas cúpulas climáticas globais, ou “COPs”, a “Conferência das Partes”.

Estas conferências anuais do clima começaram em 1995, com a primeira COP realizada em Berlim, Alemanha. Desde então, elas acontecem anualmente para avaliar o progresso das medidas tomadas pelos países para enfrentar as mudanças climáticas. O objetivo principal é alinhar os esforços com os objetivos da Convenção, a mitigação de emissões de gases de efeito estufa e a adaptação aos impactos do aquecimento global.

Nos últimos anos, as COPs têm se tornado um “campo de batalha”, uma disputa entre os países produtores de petróleo, representantes de grandes empresas petrolíferas, de quem tem negócios com combustíveis fósseis; e os que defendem que chegou a hora de traçar um novo rumo para a humanidade, abandonando os combustíveis responsáveis pelo aquecimento global, e implantando mudanças estruturais nas formas de consumo e produção da sociedade. A batalha tem se mostrado desigual, pois a força dos fósseis se baseia no poder do dinheiro, o que tem adiado o inadiável.

Outras propostas adotadas para reduzir as emissões têm sido impulsionadas como soluções de mercado e mecanismos financeiros, como o protocolo de Kyoto (COP 3, 1997), primeiro tratado vinculante focava nos países desenvolvidos, estabelecendo uma redução média de 5,2% das emissões entre 2008-2012, com base nos níveis de 1990.

O Acordo de Paris (COP 21, 2015) substituiu o Protocolo de Kyoto, agora abrangendo quase todos os países do mundo (195 signatários). Seu objetivo é limitar o aumento da temperatura média global “bem abaixo de 2°C” e envidar esforços para limitá-la a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais (1850-1900). As metas de cada país são voluntárias e revisadas a cada 5 anos. O que aconteceu em 2024 foi que o mundo terminou acima da meta de 1,5°C, o que mostrou a insuficiência das ambições de cada país, expostas nas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC, em inglês). O fato é que as promessas atuais de redução das emissões indicam um cenário de aquecimento de 2,9°C, até o fim do século.

Para proteger as florestas, principal sumidouro do CO2, mecanismos de proteção foram criados, como o Mercado de Carbono Florestal, o Programa de Redução de Emissões Provenientes do Desmatamento e Degradação Florestal (REDD+), o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), a criação de Fundos de Investimento Específicos. Na COP 30, por proposta brasileira, foi criado o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (em inglês, TFF).

Infelizmente estas medidas não impedem que 10,9 milhões de hectares de florestas ainda continuem sendo desmatadas anualmente, conforme assegura a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), no seu mais recente Relatório de Recursos Florestais Mundiais 2025, publicado a cada cinco anos.

Mesmo com iniciativas propostas nas COPs para conter as emissões, ano após ano recordes são superados, com o consequente aumento na temperatura global. Seu efeito afeta a sociedade, os ecossistemas, e as economias. Já são constatadas alterações no ciclo das chuvas, das correntes marítimas e dos padrões de vento; impactos na biodiversidade com a extinção de espécies, desequilíbrios ecológicos; o aumento de doenças respiratórios, surtos de doenças relacionadas ao clima, aparecimento de novos vírus; ondas letais de calor, com maior risco de incêndios florestais, estresse térmico em humano/animais, e aumento da mortalidade; elevação do nível do mar com o derretimento inundando áreas costeiras, e aumento da vulnerabilidade de cidades e ilhas; entre outros efeitos dramáticos que comprometem a vida no Planeta.

2.

O Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês), grupo de cientistas ligados a ONU, concluiu em seus estudos, divulgados em relatórios, que o modelo de vida atual, baseado em padrões insustentáveis de produção e consumo, tem levado ao aumento da intensidade e da frequência de eventos climáticos extremos em todos os continentes, provocados pelo aquecimento global.

São as atividades humanas as principais responsáveis pelo aumento das emissões, dentre elas: a queima de combustíveis fósseis como principal fonte energética da humanidade, as mudanças no uso da terra e o desmatamento (no Brasil é a maior fonte de emissão, representando 40% do total), a agricultura (uso intensivo de fertilizantes nitrogenados, fontes significativas de metano e óxido nitroso, ambos GEE) e pecuária (processo digestivo dos animais que emite o metano), além de processos industriais.

O consenso científico é claro e unânime, a emergência climática é inegável, mesmo que alguns poucos negacionistas da ciência ainda tenham espaço na mídia, e tenham poder, caso do extremista de direita o atual presidente norte americano, e que no Brasil tem seu fiel seguidor, o ex-presidente e atual presidiário, e seus seguidores fanatizados.

Para exemplificar o que a ciência e os cientistas têm alertado sobre os efeitos das mudanças climáticas globalmente, com reflexos locais, a seguir algumas das recentes catástrofes climáticas ocorridas nas últimas semanas, associadas ao aquecimento global:

  • Em dezembro de 2024 e janeiro de 2025, chuvas intensas com fortes ventanias ocorridas na gigantesca cidade de São Paulo e municípios do entorno, produziram quedas de energia elétrica, afetando mais de 4 milhões de residências. Em fevereiro de 2026 chuvas extremas na Zona da Mata mineira provocaram uma tragédia, com aproximadamente 60 mortes e mais de 15 desaparecidos. A maior parte das vítimas foi de Juiz de Fora, a principal cidade atingida pelas inundações e deslizamentos de terra.
  • Tempestade de neve histórica nos EUA deixou pelo menos 30 mortos, 500 mil pessoas sem energia elétrica, e 200 milhões de pessoas sob alerta. Forte nevasca, e fortes ventos provocaram grandes apagões com linhas de energia derrubadas em todo o sul do país, além de recordes de frio no sul e leste do Hemisfério Norte. Uma forte tempestade de inverno provocou uma nevasca histórica em Toronto, na província de Ontário, no Canadá. O evento estabeleceu novos recordes de neve, paralisou o transporte e causou grandes transtornos em toda a região metropolitana.
  • Várias regiões da Austrália estão sofrendo com ondas de calor que alcançaram o pico de 50oC no início de janeiro. Foi a mais severa onda de calor desde o verão de 2019-2020, conhecida como “Black Summer”, que deixou um saldo de mais de 400 mortes direta ou indiretamente relacionadas à maior onda de incêndios florestais da história recente da Oceania, consumindo mais de 24 milhões de hectares pelas chamas e 3.000 edificações. Estima-se que 3 bilhões de animais tenham sido dizimados. Em 2026, os termômetros superaram 40°C em Melbourne e em Sydney. Em Victoria, o calor precedeu incêndios florestais que devastaram 400.000 hectares, e destruíram 900 edificações.
  • Em 12 de janeiro de 2025, considerada a pior inundação da história, chuvas torrenciais em Moçambique, na África, atingiram várias regiões do país, deixando cidades inteiras alagadas, com pelo menos 700 mil pessoas desabrigadas e em torno de 125 mortas. As Nações Unidas estimaram que, entre o fim de 2025 e o início de 2026, as piores inundações da história ocorreram, com chuvas torrenciais, abrangendo cerca de 3.000 km² do território moçambicano (de um total de 801.000 km²).
  • Países da Península Ibérica tiveram no início de fevereiro, regiões castigadas pelas chuvas torrenciais provocadas por ciclone. Populações de Portugal, Espanha e sul da Itália foram atingidas por inundações e milhares de pessoas tiveram que abandonar suas casas.
  • No Japão, a pior tempestade de neve dos últimos 40 anos causou sérios transtornos, e mesmo perdas de vidas humanas (ao menos 50 pessoas) no norte do arquipélago; e mais de 100 ficaram gravemente feridas.
  • O Chile e a Argentina têm enfrentado temperaturas extremas e ondas de calor desde o início do ano. Em duas regiões do sul do Chile, foi decretado estado de calamidade pública devido a incêndios florestais que deixaram ao menos 19 mortes e forçaram a evacuação de mais de 50 mil pessoas, e consumiu pelo menos 8,5 mil hectares. Grande parte do país estava sob alerta de calor extremo, atingindo 38oC. Na Argentina, a região da Patagônia sofreu incêndios florestais devastadores provocados por raios gerados na tempestade.
  • Em vários continentes, médicos têm relatado o aumento de casos de deterioração da saúde mental das populações que sofreram com catástrofes climáticas. Outro aspecto relacionado à saúde humana é o aparecimento de novos vírus e o ressurgimento de doenças infecciosas diretamente ligados às mudanças climáticas.

As catástrofes já são uma realidade, manifestando-se em incêndios, inundações, deslizamentos de terra, ondas de calor, tempestades e secas sem precedentes. Estudos com cenários de aquecimento extremo da ordem de 30C, apontam que a mortalidade humana pode chegar a 2 bilhões, ou mesmo a espantosa cifra de 4 bilhões de óbitos.

A responsabilização deve recair com maior peso nos maiores emissores, maiores responsáveis. Praticamente 75% de todas as emissões de GEE’s são de 10 países e corporações, somado às emissões dos super ricos responsáveis pela maior parte das emissões de gases de efeito estufa (GEE). Segundo a Stockholm Environment Institute (SEI) e a OXFAM, uma extrema “desigualdade de carbono” ocorre entre os moradores do planeta, e os mais pobres sofrem as piores consequências das mudanças climáticas.

É necessário refletir e (re)agir diante da frase aludida a Giordano Bruno (teólogo, filósofo, escritor, matemático, poeta, teórico de cosmología, ocultista hermético e frade dominicano italiano), “ingenuidade é pedir a quem tem poder mudar o poder”. A inércia, a omissão, o boicote, a ineficaz ação dos governantes e das grandes corporações, é que tem obstaculizado medidas concretas para o enfrentamento do aquecimento global, como por ex. definir o mapa do caminho para além dos combustíveis fósseis, o que impõe planejamento, metas claras e financiamento.

(*) Físico, graduado pela Universidade Estadual de Campinas-UNICAMP, com mestrado em Ciências e Tecnologia Nuclear na UFPE, e doutorado em Energética na Universidade de Marselha/Centro de Estudos de Cadarache-Comissariado de Energia Atômica-França.

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