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Guerra no Irã faz Vale parar plantas em Omã e redirecionar navios de minério

A Vale antecipou a parada de manutenção das duas plantas de pelotas em Omã para reduzir possíveis impactos da guerra no Irã, segundo uma fonte a par do assunto.

As paradas, previstas para o primeiro semestre, foram adiantadas em algumas semanas, disse a fonte, que pediu anonimato. Ela não detalhou por quanto tempo as unidades ficarão fora de operação.

As operações em Omã têm capacidade de 9 milhões de toneladas por ano — cerca de 29% da produção total da companhia no ano passado.

A mineradora vende para países do Golfo, como Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos. Mas o bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã está travando as entregas, segundo a fonte.

A decisão ajuda a explicar o desvio de navios com minério brasileiro da Vale que tinham como destino o Oriente Médio.

A companhia não pretende revisar o guidance de produção para o ano, com previsão de 30 milhões a 34 milhões de toneladas de pelotas.

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Trump reitera ameaça de destruir o Irã. ‘Uma civilização inteira morrerá esta noite’

O presidente dos EUA, Donald Trump, reiterou seu ultimato para que o Irã aceite um acordo de cessar-fogo ou enfrente uma grande escalada militar, enquanto ambos os lados mantêm ataques na sexta semana de guerra.

Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser recuperada. Não quero que isso aconteça, mas provavelmente acontecerá”, disse Trump em uma postagem nas redes sociais na terça-feira (7). “Talvez algo revolucionariamente maravilhoso possa acontecer, QUEM SABE? Vamos descobrir esta noite.”

Os comentários vieram enquanto os EUA e Israel mantinham bombardeios contra o Irã — incluindo ataques ao polo exportador de petróleo da Ilha de Kharg — enquanto a República Islâmica disparava mísseis através do Golfo Pérsico. Trump ameaçou destruir usinas de energia, pontes e outras infraestruturas iranianas caso não haja acordo até as 20h (horário do leste dos EUA).

Falando em Budapeste, o vice-presidente JD Vance disse estar confiante de que o Irã dará uma resposta até lá.

Crime de guerra

As Nações Unidas alertaram que ataques indiscriminados a infraestrutura civil podem constituir crime de guerra. Trump afirmou não estar “nem um pouco” preocupado com essa possibilidade.

O mais recente ultimato marca um momento crítico no conflito, que já matou mais de 5.200 pessoas — a maioria no Irã e no Líbano — e atingiu instalações de energia em toda a região. O presidente começou a impor prazos em 21 de março para forçar o Irã a reabrir o estratégico Estreito de Ormuz, tendo prorrogado o prazo diversas vezes, mas disse na segunda-feira que é “altamente improvável” que volte a fazê-lo.

A liberdade de navegação pelo estreito deve fazer parte de qualquer acordo, afirmou Trump.

A agência semioficial iraniana Mehr informou que explosões foram ouvidas na Ilha de Kharg, principal centro de exportação de petróleo do país.

A Fox News relatou que os EUA atingiram bunkers, uma estação de radar e depósitos de munição, além de um impacto não intencional nos cais da ilha. Duas pessoas morreram em um ataque EUA-Israel a uma ponte ferroviária próxima à cidade iraniana de Kashan, segundo a agência estatal Nour News.

Israel se prepara para a possibilidade de que os combates continuem por várias semanas e, na terça-feira, alertou iranianos a não utilizarem a rede ferroviária até as 21h no horário local — um tipo de aviso que costuma anteceder ataques a áreas civis.

Petróleo

O petróleo reduziu ganhos à medida que investidores hesitam diante do prazo imposto por Trump, com o risco de escalada sendo parcialmente compensado por sinais de cessar-fogo. O Brent era negociado ligeiramente acima de US$ 110 por barril em Londres.

Trump afirmou na segunda-feira que as negociações com o Irã estão “indo bem” e que a reabertura do estreito é “uma prioridade muito grande”.

“Precisamos de um acordo aceitável para mim, e parte disso será garantir o livre fluxo de petróleo e de tudo mais”, disse.

O militar norte-americano poderia destruir “todas as pontes do Irã”, acrescentou. Usinas seriam deixadas “em chamas, explodindo e sem nunca mais poderem ser usadas”.

O Irã alertou que responderia a uma escalada desse tipo intensificando seus próprios ataques à infraestrutura energética no Golfo — o que poderia agravar a crise global de combustíveis e ampliar os danos à economia mundial.

A República Islâmica lançou sete mísseis balísticos e vários drones contra a Arábia Saudita durante a madrugada de terça-feira, e destroços de interceptações caíram nas proximidades de instalações energéticas, segundo o reino. Uma ponte importante que liga Bahrein e Arábia Saudita foi temporariamente fechada como precaução.

As Forças de Defesa de Israel relataram três ondas de mísseis iranianos desde a meia-noite, mirando diversos pontos em Tel Aviv e cidades vizinhas.

Israel aprovou novas missões contra o Irã para as próximas três semanas, se necessário, segundo um porta-voz militar. O país também trava uma guerra paralela no Líbano contra o grupo Hezbollah, apoiado por Teerã, e atacou alvos em Beirute na segunda-feira.

O principal diplomata de Singapura alertou que o impacto econômico do conflito pode piorar e que os investidores ainda não ajustaram totalmente suas expectativas. “Tenho certeza de que os mercados não estão precificando completamente o pior cenário”, disse o chanceler Vivian Balakrishnan à Bloomberg Television.

Trump tem enfrentado dificuldades para encontrar uma saída para o conflito, que se torna cada vez mais impopular entre os americanos, com o preço médio da gasolina acima de US$ 4 por galão. Ele afirmou que JD Vance participa das negociações de cessar-fogo, junto com o enviado especial Steve Witkoff, embora Teerã tenha rejeitado uma proposta na segunda-feira.

“Posso dizer que temos um participante ativo e disposto do outro lado”, disse Trump. “Eles estão negociando, acreditamos, de boa-fé — vamos descobrir.”

O Irã pediu o fim permanente da guerra, esforços de reconstrução e o levantamento de sanções, além de protocolos para garantir a navegação segura pelo Estreito de Ormuz, segundo a agência estatal IRNA.

A ofensiva iraniana contra EUA e Israel não será afetada pelas ameaças de Trump, disse um porta-voz militar, citado pela mídia estatal.

Teerã afirmou que só permitirá a normalização do tráfego no estreito após ser compensado pelos danos da guerra.

A República Islâmica reduziu quase a zero o fluxo pelo Estreito de Ormuz — por onde normalmente passa cerca de um quinto das exportações globais de petróleo e gás natural liquefeito.

Dois navios carregados com GNL do Catar chegaram a deixar o Golfo Pérsico na segunda-feira, mas fizeram retorno poucas horas depois após terem a passagem negada por autoridades iranianas, segundo traders.

Teerã tem permitido apenas um fluxo limitado de embarcações na via marítima, que também utiliza para suas próprias exportações de petróleo.

Trump lamentou que gostaria de utilizar o petróleo iraniano para os EUA, mas afirmou que a opinião pública americana pressiona pelo fim do conflito.

“Sou um homem de negócios antes de tudo”, disse. “E já disse: por que não usamos isso? Ao vencedor, os despojos? Mas não temos isso.”

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Vale: uma aposta menos óbvia, mas mais protegida da volatilidade da guerra

Além das petroleiras e de outras empresas do setor de energia e combustíveis, existe uma outra ação menos óbvia – e relativamente mais protegida – para se investir na bolsa em meio aos conflitos no Oriente Médio e à volatilidade decorrente deles: a Vale.

O atual ambiente tende a promover pressões de custo sobre as companhias, com insumos encarecendo até que os conflitos geopolíticos se resolvam. Mas a Vale entra nesse contexto com instrumentos que ajudam a mitigar parte relevante desses efeitos.

Entre esses instrumentos estão contratos de frete de longo prazo e de proteção para os preços de combustível marítimo, além da baixa probabilidade de enfrentar escassez de diesel no Brasil.

Isso não significa que a empresa esteja imune ao choque inflacionário decorrente da alta da energia. O aumento do preço do petróleo já impacta o setor por meio de fretes mais caros e custos mais elevados de insumos. Mas essas estratégias contra a oscilação de preços a colocam em uma situação melhor, especialmente frente a pares do setor.

O efeito indireto da guerra: liquidez para os estrangeiros

A Vale sofreu um choque importante com a escalada dos conflitos no Irã porque, como uma das maiores empresas da bolsa, ela serve de veículo para os grandes alocadores, especialmente estrangeiros, se posicionarem estrategicamente no mercado brasileiro.

Ou seja: no pico da aversão ao risco, logo que a guerra estourou, em 27 de fevereiro, a fuga de ativos considerados mais arriscados atingiu a companhia. É o tipo de evento que não tem relação com os fundamentos da empresa, mas com uma abordagem comum e tática, com foco no curtíssimo prazo.

Nos últimos pregões, a ação da companhia já vem esboçando uma retomada. Conforme as perspectivas paras os conflitos no Oriente Médio melhorem, a empresa tem boas condições de retomar uma trajetória de alta, sobretudo se pautada pela sua situação financeira e operacional.

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Fundamentos: o que faz a Vale ser um investimento viável?

Do lado das receitas, a empresa também tem uma boa história para convencer os investidores. Os preços do minério reagiram desde o início do conflito, refletindo o repasse inflacionário: ao encarecer os custos de energia e transporte, também fica mais caro produzir e entregar minério, e esse aumento é repassado para o preço final da commodity.

A isso se soma a demanda ainda resiliente pela matéria-prima. O minério de ferro tem girado em torno de US$ 110 por tonelada, acima das expectativas do mercado, conforme notam os analistas do BTG Pactual, em relatório enviado a clientes.

Mesmo diante de dados mais fracos divulgados pela China, participantes do mercado indicam que a produção de aço pode estar sendo subestimada. Se de fato há mais aço sendo produzido, cresce a procura por minério.

Além disso, os prêmios por qualidade seguem elevados – ou seja, minérios de maior teor de ferro continuam sendo vendidos com preço adicional, o que favorece a Vale.

A expectativa é de que a demanda global permaneça estável ao longo do tempo, com crescimento vindo de países como Índia e do Sudeste Asiático. Ao mesmo tempo, a entrada de nova oferta tende a ser compensada pelo esgotamento gradual de minas existentes, o que ajuda a sustentar o equilíbrio entre oferta e demanda.

Ou seja, o combo de preços mais altos e menor exposição a custos mais voláteis melhora a perspectiva de geração de caixa da companhia. A estratégia de frete, a menor dependência do petróleo e a manutenção da demanda desenham um cenário mais favorável.

Os analistas do BTG também destacam como a disciplina de capital é importante para a companhia agora. A Vale vem mantendo o foco na execução de projetos e no crescimento orgânico, com menos interesse para aquisições.

Com isso, a geração de caixa tende a se traduzir em retorno ao acionista, com a possibilidade de pagamento adicional de dividendos à medida que os resultados surpreenderem positivamente.

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Banco suíço fecha sob acusação de lavagem de dinheiro iraniano, russo e venezuelano

Sempre que conseguia uma comissão de seis dígitos para seu pequeno banco suíço, Paul-Michel von Merey era conhecido por gritar pelo escritório em plano aberto, perto do Lago de Zurique, tocando ruidosamente um sino de vaca em celebração.

O barulho constante refletia uma fonte lucrativa que sua empresa explorava. O MBaer Merchant Bank, cofundado por von Merey em 2018, às vezes cobrava dos clientes até dez vezes a taxa de mercado para processar pagamentos, segundo pessoas familiarizadas com o assunto, principalmente em transações que outros bancos não aceitavam.

Mas, mesmo após o banco ter sido apontado como um dos “mais prósperos” bancos privados suíços, no ano passado, em um evento local de gestão de fortunas, seu fim estava próximo. A suposta facilitação de lavagem de dinheiro chamou a atenção do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, que, às vésperas da guerra contra o Irã no final do mês passado, praticamente o forçou a fechar as portas.

“O MBAer canalizou mais de cem milhões de dólares por meio do sistema financeiro dos EUA em nome de agentes ilícitos ligados ao Irã e à Rússia”, disse Bessent em comunicado. A ameaça de cortar o acesso do banco ao sistema financeiro americano foi suficiente para superar os desafios legais da ordem anterior da autoridade reguladora suíça Finma de liquidar o banco.

A seguir está um relato de como o MBaer conseguiu operar sem ser detectado, enquanto, segundo autoridades dos EUA, em alguns casos, era “provavelmente cúmplice das atividades de lavagem de dinheiro de seus clientes”. Seu fim desonroso compromete os esforços de longa data da Suíça para sanear o sistema financeiro e provar que Zurique e Genebra não oferecem mais um refúgio fácil para dinheiro ligado ao crime.

Um porta-voz do MBaer não quis comentar sobre esta reportagem. A Finma também não se manifestou.

Banco foi fundado por herdeiro do Julius Baer

O MBaer foi fundado como um banco de investimentos concebido para atender tanto aos interesses empresariais dos clientes — como o financiamento do comércio — quanto ao seu patrimônio pessoal. Seu cofundador homônimo e primeiro diretor-executivo do banco, Mike Baer, ​​passou 12 anos no Julius Baer Group, banco fundado por seu bisavô. Durante esse período, ele ocupou diversos cargos sêniores, incluindo a chefia das áreas de banking, trading e TI, de acordo com seu perfil no LinkedIn. No Julius Baer, ​​ele também conheceu muitos clientes em potencial e alguns dos outros sócios do MBaer.

Mike Baer e Paul von Merey não quiseram comentar para esta reportagem.

No início de 2005, Mike Baer deixou o banco da família e, nos anos seguintes, ocupou vários cargos em conselhos de administração, de acordo com seu perfil no LinkedIn, incluindo na Odey Asset Management e no Falcon Private Bank, ambos com problemas regulatórios não relacionados nos últimos anos.

Corredor entusiasta, que completou maratonas nos polos Norte e Sul, Baer utilizou fortemente o nome da família. “A herança do MBaer Merchant Bank remonta a 1890, quando Julius Bär lançou as bases para uma longa tradição bancária em Zurique”, afirmou o banco em seu site.

Expansão acelerada a partir de 2023

Ao longo dos anos, o banco expandiu-se rapidamente, em particular, vivenciando um salto nos ativos em 2023. No final de 2025, detinha ativos de clientes no valor de cerca de 4,9 bilhões de francos suíços (US$ 6,2 bilhões), e contava com cerca de 700 clientes e 60 funcionários. Seu tamanho o enquadrava inicialmente na categoria mais baixa de supervisão da autoridade reguladora suíça Finma — destinada a pequenos participantes no mercado, ou de “baixo risco”.

Fontes internas descreveram a cultura do banco como uma reminiscência dos tempos mais liberais das finanças suíças — antes do confronto com os EUA sobre a evasão fiscal nos anos 2000, que levou a tentativas de “limpeza” e ao fim do sigilo bancário absoluto.

Segundo investigadores da unidade de crimes financeiros do Tesouro dos EUA, a FinCEN, o banco começou a atrair atenção por possíveis atividades de lavagem de dinheiro ligadas à Venezuela por volta de 2020. O banco teria então facilitado o financiamento da máquina de guerra russa e ajudado a canalizar fundos petrolíferos iranianos de volta ao regime — incluindo para o Corpo da Guarda Revolucionária.

Lavagem de dinheiro e apoio ao terrorismo

“O MBaer também proporcionou acesso ao sistema financeiro dos EUA a pessoas que oferecem apoio material a esforços de lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo relacionados ao Irã, incluindo apoio a organizações terroristas iranianas”, afirmou a FinCEN em um documento publicado em 2 de março.

As autoridades acusaram o MBaer de facilitar pagamentos em conexão com um esquema internacional de contrabando de petróleo e lavagem de dinheiro conduzido pela Força Quds, da Guarda Revolucionária. Os EUA consideram a Força Quds, que opera fora do país, como uma organização terrorista estrangeira.

Clientes do MBaer transferiram cerca de US$ 37 milhões em conexão com uma empresa sancionada, chamada Turkoca Import Export Transit Co. Ltd., em grandes pagamentos arredondados em dólares, que normalmente levantariam suspeitas de lavagem de dinheiro, declara a FinCEN. A Turkoca era uma “entidade intermediária” usada por afiliados da Força Quds para lavar fundos para o Irã, disse a FinCEN.

Cultura de medo

O MBaer supostamente tinha diversos métodos para conduzir negócios sem chamar atenção. Funcionários permitiam pagamentos em francos suíços ou euros para clientes de alto risco, em uma tentativa de contornar controles mais rigorosos sobre transações em dólares, disseram pessoas familiarizadas com o assunto.

Alguns funcionários de fato geraram alarmes sobre deficiências operacionais. Muitos enfrentaram obstáculos internos significativos após expressarem suas preocupações ou acabaram deixando a empresa. Isso criou uma cultura de medo entre os funcionários e uma relutância em denunciar irregularidades percebidas, afirmaram as fontes.

Em 2023, autoridades dos EUA e a Finma começaram a investigar o banco mais de perto.

Por volta da mesma época, o MBaer rompeu com a empresa que atuava como seu banco correspondente nos EUA — o agora extinto Credit Suisse, de acordo com pessoas familiarizadas com o tema. O JPMorgan passou a prestar esse serviço posteriormente, disseram as pessoas a par do assunto, juntamente com diversas outras instituições financeiras.

O JPMorgan não quis comentar sobre seu relacionamento com o MBAer.

Em 2024, Bignia Vieli, então membro do conselho administrativo, contratou o escritório de advocacia do qual era sócia para realizar uma revisão da infraestrutura operacional do banco, que identificou riscos sistêmicos generalizados. O relatório chegou a sugerir que o banco deveria se autoreportar à Finma.

Fontes de ‘alto risco’

Apesar das preocupações com lavagem de dinheiro, aparentemente nenhuma medida corretiva significativa foi tomada após o relatório, segundo pessoas familiarizadas com o assunto, que afirmaram que a administração continuou recebendo seus bônus integrais. Vieli não respondeu a um pedido de comentário.

A Finma iniciou formalmente procedimentos de execução contra o MBaer em 2024. Posteriormente, informou que 98% dos ativos recentes de clientes do banco vinham de fontes de “alto risco”, segundo um comunicado. O banco havia sistematicamente falhado em investigar o histórico dos relacionamentos de seus clientes e auxiliado ativamente clientes a contornar o congelamento de ativos, afirmou a Finma.

Contudo, no sistema regulatório suíço, um processo sancionador pode se arrastar por anos, e os bancos podem continuar a operar enquanto contestam judicialmente as ordens da Finma. No início de 2026, uma ordem da Finma para fechar o MBaer estava travada nos tribunais — até a intervenção do Tesouro dos EUA.

Liquidação forçada

Na segunda-feira, 9 de fevereiro, Annett Viehweg, CEO do MBaer desde janeiro de 2025, tentou tranquilizar os funcionários do banco, segundo uma pessoa presente na reunião. O MBaer se defenderia na justiça, Viehweg teria afirmado, de acordo com a pessoa.

O banco acabou negociando com a Finma os termos de sua autoliquidação, segundo fontes a par do assunto. As duas partes estavam em desacordo sobre se a lavagem de dinheiro seria mencionada especificamente no comunicado que anunciava o fechamento, até que o Tesouro dos EUA as forçou a agir, disseram as fontes. Posteriormente, o MBaer retirou seu recurso, o que significa que a ordem de liquidação entrou em vigor em 27 de fevereiro.

Von Merey e Mike Baer deixaram o banco, e ambos têm mantido um perfil discreto. O perfil de Von Merey no LinkedIn minimiza sua função no MBaer. No mês passado, a Finma também informou ter aberto processos contra quatro indivíduos não identificados associados ao MBaer. Esses procedimentos se concentram em pessoas que já deixaram o banco, afirmou uma fonte familiarizada com o assunto. Os funcionários foram informados de que até 25 pessoas seriam demitidas em março e abril.

A carteira de clientes de “alto risco” do MBaer agora enfrenta uma espera por uma resolução que pode levar anos, com poucos ou nenhum outro banco na Suíça dispostos a aceitá-los.

Para um banco acusado de lavagem de dinheiro para venezuelanos, russos e iranianos, o fim do MBaer demorou surpreendentemente a chegar. O país está em processo de reformulação da regulamentação financeira, incluindo medidas para ampliar os poderes da agência reguladora Finma. As lições da crise do Credit Suisse, em 2023, estão sendo incorporadas à legislação em tramitação no Parlamento suíço.

Por ora, a aparente incapacidade da Finma de fazer cumprir sua decisão inicial destaca a fragilidade da Suíça no combate eficaz aos crimes do setor financeiro, segundo Mark Pieth, advogado especializado na área e membro fundador do Grupo de Ação Financeira, radicado em Basileia, na Suíça.

“Os americanos tiveram que intervir novamente e apontar uma arma para o peito deles”, disse Pieth. “Em termos de sistema jurídico, a Suíça ainda é um centro offshore, onde os casos se arrastam por anos sob o pretexto do devido processo legal”.

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Mercados hoje: EUA dão sinais de preparações para invasão por terra ao Irã e acendem alerta entre investidores

Bom dia!

Nesta segunda-feira (23), as preocupações com a inflação global sobem mais um degrau: o petróleo negocia acima de US$ 110 o barril, enquanto os juros americanos de 10 anos já superam 4,4% ao ano, no maior patamar desde julho do ano passado. Outra preocupação do mercado vem dos sinais de que os EUA se preparam para operações com soldados em terra, o que marcaria uma nova fase mais complexa e duradoura da Guerra no Irã. Por aqui, o investidor acompanha o boletim Focus, que pode sinalizar como o mercado absorveu o corte de 0,25 da Selic e a comunicação do Banco Central sobre os rumos dos juros no país.

Enquanto você dormia…

  • O pano de fundo segue sendo o conflito no Oriente Médio, com o ultimato dos EUA ao Irã sobre o Estreito de Ormuz elevando o prêmio de risco global. O futuros das bolsas de Nova York se mantêm em queda: às 7h25, o S&P 500 futuro tinha queda de -0,44% e o Nasdaq futuro caía -0,53%.
  • Na Europa, as bolsas caem em bloco. O Stoxx 600 tem recuo de -2,24%.
  • Na Ásia, o índice Nikkei, da bolsa de Tóquio, terminou em queda de -3,48%. O Hang Seng, de Hong, Kong, fechou em baixa de -3,54%.
  • O índice dólar (DXY) sobe +0,47% aos 100,12 pontos. O petróleo Brent sobe +1,16% a US$ 113,46 o barril. Os juros da Treasury de 10 anos ao redor de 4,437% ao ano.

Destaques do dia

  • Petróleo se mantém no centro do pregão. O principal vetor desta segunda-feira é a nova escalada entre EUA e Irã. O mercado passou a precificar um conflito mais longo e mais caro para a energia, com o Brent acima de US$ 113 o barril.
  • Ao mesmo tempo, os juros globais sobem porque o barril mais caro embaralha a aposta de cortes por bancos centrais.
  • E daí? Para o Brasil, o efeito é ambíguo: petroleiras como Petrobras e Prio tendem a seguir no radar positivo, enquanto setores dependentes de combustível, como o aéreo e o de logistica,a podem sentir a pressão.

Giro pelo mundo

  • EUA se preparam para invasão: o Pentágono está enviando milhares de fuzileiros navais adicionais para o Oriente Médio e fontes militares citam ‘preparações intensas’ para o envio de tropas terrestres ao Irã.
  • IEA no radar: a Agência Internacional de Energia discute eventual liberação de estoques estratégicos de petróleo caso a crise se intensifique — mercado monitora qualquer anúncio.
  • BCE mais duro: dirigentes reforçaram que podem agir se a inflação de energia contaminar o restante da economia — falas seguem ao longo da semana.

Giro pelo Brasil

  • Focus na mesa: boletim semanal do Banco Central ganha relevância após o corte recente da Selic para 14,75% — atenção às revisões de inflação e juros.
  • IR 2026: começa o prazo de entrega da declaração, com envio até o fim de maio — programa já disponível para os contribuintes.
  • Combustíveis: governo monitora impacto da alta global e avalia medidas para suavizar o preço do diesel — tema segue sensível.

Giro corporativo

  • CSN: companhia fechou empréstimo de até US$ 1,4 bilhão para alongar dívidas e reforçar o caixa.
  • Desktop: Claro acertou a compra do controle por R$ 4 bilhões, acelerando a consolidação da fibra no interior — negócio depende de aprovações regulatórias.
  • Petrobras: refinarias seguem operando com alta utilização para reduzir pressão no mercado doméstico de combustíveis.

Agenda do dia

Ótima segunda-feira e bons negócios!

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Trump dá ultimato ao Irã e ameaça bombardear usinas se Hormuz não reabrir

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deu ao Irã um prazo de dois dias para reabrir o Estreito de Hormuz ou ver suas usinas de energia serem bombardeadas, elevando o tom de uma guerra que, já em sua quarta semana, não mostra sinais de desescalada.

Trump, num indicativo da pressão que enfrenta para conter a disparada dos preços do petróleo, disse que o Irã precisa “abrir totalmente, sem ameaças” a via marítima vital para o fluxo global de energia. Ele deu ao país 48 horas “a partir deste exato momento”, em uma postagem na Truth Social publicada no fim da noite de sábado (21).

Os militares iranianos responderam dizendo que vão mirar “toda a infraestrutura de energia, tecnologia da informação e dessalinização pertencente aos EUA e ao regime israelense na região” caso a infraestrutura de combustíveis e energia do Irã seja atacada, segundo a agência semioficial Tasnim. A TV estatal iraniana publicou relatos semelhantes.

A retórica indica que nenhum dos lados está disposto a recuar. A guerra — iniciada com ataques de Israel e dos Estados Unidos ao Irã em 28 de fevereiro — já desencadeou uma crise inédita no fornecimento de petróleo e gás. As ameaças mais recentes vieram depois de uma semana de ataques pesados contra infraestrutura energética crucial no Oriente Médio, aprofundando o risco de efeitos mais duradouros sobre a economia global.

Os fluxos de petróleo e gás provavelmente levarão tempo para voltar ao normal mesmo depois da reabertura do Estreito de Hormuz, já que muitos locais de produção foram danificados. Os bloqueios também estão provocando escassez de fertilizantes e nutrientes agrícolas, o que eleva a perspectiva de disrupções graves na produção de alimentos.

Estados Unidos e Israel continuaram, no domingo, a atacar alvos no Irã, que por sua vez segue lançando mísseis e drones contra Israel e países árabes do Golfo.

Mais de 4 mil pessoas morreram em toda a região, segundo governos e organizações não governamentais, sendo mais de três quartos das vítimas no Irã. No Líbano, onde Israel intensificou a ofensiva contra militantes do Hezbollah apoiados por Teerã, o número de mortos já supera 1 mil. Dezenas de pessoas morreram em Israel e em países árabes.

Os ataques com mísseis iranianos contra Israel se intensificaram nos últimos dias. No sábado, cerca de 115 pessoas ficaram feridas nas cidades de Arad e Dimona, no sul do país — esta última conhecida por dar nome a uma instalação de pesquisa nuclear nas proximidades. A mídia iraniana afirmou que o ataque foi uma retaliação a uma ofensiva contra a instalação nuclear de Natanz.

“Esta é uma noite muito difícil na luta pelo nosso futuro”, disse o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, acrescentando que estava reforçando as equipes de resgate nas áreas atingidas.

Donald Trump está com terno escuro e gravata vermelha, e aponta para à esquerda

Falando no domingo, Netanyahu pediu que líderes de outros países se juntem à guerra e afirmou que alguns já começam a dar sinais nessa direção. “Fico feliz em dizer que consigo ver alguns deles começando a se mover nessa direção”, afirmou.

A nova ameaça de Trump ao Irã veio um dia depois de ele dizer que estava pensando em “reduzir” as operações militares e que a responsabilidade por vigiar Hormuz caberia a outros países. Isso exemplifica os sinais contraditórios enviados pelo presidente ao longo da guerra, deixando governos e mercados correndo para acompanhar os desdobramentos.

O tráfego por Hormuz — por onde normalmente passa cerca de um quinto da oferta mundial de petróleo e gás natural liquefeito — praticamente parou desde o início da guerra. O barril do Brent disparou para mais de US$ 112, o maior nível em quase quatro anos. Também subiram os preços da gasolina nos Estados Unidos, dos fertilizantes e de vários metais transportados por Hormuz.

Autoridades iranianas relutam até mesmo em discutir a reabertura do estreito, enquanto concentram esforços em sobreviver à ofensiva de EUA e Israel, segundo uma pessoa envolvida em contatos diretos e de alto nível com Teerã.

Alguns países, no entanto, vêm encontrando formas de fazer cargas atravessarem o corredor. A Marinha iraniana escoltou um navio-tanque indiano de gás natural liquefeito pelo estreito após articulação diplomática de Nova Déli. O Irã afirmou que a passagem está aberta a todos, exceto embarcações ligadas a países inimigos.

Até agora, Estados Unidos e Israel evitaram em grande parte atacar usinas de energia e instalações de água do Irã. Israel chegou a bombardear depósitos de combustível em Teerã duas semanas atrás, provocando nuvens de chuva ácida e atraindo críticas veladas dos Estados Unidos, que avaliaram a ação como um erro estratégico capaz de voltar a população iraniana contra a ofensiva.

Israel e Estados Unidos falaram em mudança de regime nos primeiros dias da guerra, mas agora enfatizam objetivos mais limitados, como destruir as capacidades nuclear e de mísseis do Irã. O regime iraniano não parece perto de colapsar, e autoridades vêm se reagrupando em torno das lideranças remanescentes, segundo avaliações de inteligência ocidentais e pessoas familiarizadas com o assunto.

O Irã tem cerca de 100 usinas termelétricas a gás natural em operação, segundo dados compilados pela Bloomberg. Entre as maiores estão a usina de Damavand, perto de Teerã; a de Ramin, ao norte de Ahvaz, no oeste do país; e a de Kerman, em Chatroud, no sudeste.

Os ativos energéticos do Oriente Médio vêm entrando cada vez mais no centro do conflito à medida que os ataques se ampliam. Israel bombardeou o campo de gás de South Pars na quarta-feira passada, e o Irã retaliou com ataques contra a maior instalação de gás natural liquefeito do mundo, no Catar, além de outros ativos energéticos no Golfo.

Os preços do petróleo em Londres subiram mais de 50% desde o início da guerra, reacendendo temores de inflação global. A disparada dos preços — especialmente da gasolina — traz riscos políticos para Trump dentro dos Estados Unidos, faltando apenas oito meses para as eleições legislativas de meio de mandato.

Os Estados Unidos estão produzindo volumes recordes de petróleo e gás no mercado doméstico, mas regiões como Europa, China e Japão dependem mais dos recursos energéticos do Oriente Médio.

O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, afirmou no sábado que a campanha conjunta será intensificada de forma significativa, um dia depois de Teerã lançar mísseis balísticos contra a base militar conjunta de EUA e Reino Unido em Diego Garcia — a quase 4 mil quilômetros do Irã.

A base não sofreu danos, segundo uma pessoa a par do assunto que falou sob condição de anonimato. Ainda assim, o ataque demonstrou uma capacidade que vai além do que se sabia até então sobre o arsenal iraniano.

Os esforços de Trump para mobilizar aliados dos Estados Unidos na reabertura do estreito ao tráfego comercial em larga escala têm sido, em grande medida, rejeitados. Em resposta, o presidente americano atacou verbalmente membros da Otan, chamando-os de “covardes” por não aderirem à operação.

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BC volta a intervir no câmbio: o que fazer com os seus investimentos com a volatilidade do dólar

O Banco Central entrou em campo ontem (19) com uma intervenção dupla no mercado de câmbio: vendeu dólares à vista e atuou com contratos futuros ao mesmo tempo.

O movimento, conhecido como “casadão”, é uma resposta ao nervosismo que tomou conta dos mercados desde o início da Guerra do Irã no fim de fevereiro. Nesse ambiente, uma pergunta que muitos investidores se fazem é: o que fazer com os investimentos em dólar na carteira?

O momento aponta para manter os ativos na moeda americana – seja via fundos negociados em plataformas de corretoras, seja via ETFs de câmbio – como uma clássica defesa contra choques externos.

Para quem não tem tais ativos no portfólio e deseja montar uma reserva em moeda forte, é preciso evitar exageros, porque o cenário está mais complexo do que o habitual.

O ideal é evitar um nível de exposição muito grande, que fique acima do equivalente a 5% do patrimônio em um portfólio, na média — pode ser um pouco mais se a posição estiver em ações, ativos de baixa correlação com o dólar.

Isso porque, como dizem economistas, o real está “resiliente”. Nos últimos 30 dias, mesmo diante da escalada dos conflitos no Oriente Médio entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, a moeda americana sobe apenas 0,9% contra a moeda brasileira.

Em relação ao sol peruano, o dólar já ganha 3% em valor no mesmo período; contra o peso colombiano, a alta é de 1,2%; ante o peso chileno, de 7%; em relação ao peso mexicano, a moeda avança 4,2%.

Desde o começo do ano, na verdade, a moeda americana está na contramão, com queda de 3% em relação ao real.

A palavra que define o momento, porém, é “instabilidade”.

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O BC realizou o “casadão” ontem com o objetivo de providenciar liquidez e referência de preços ao mercado – uma resposta ao mesmo ambiente de estresse que levou o Tesouro Nacional a também intervir e fazer grandes recompras de títulos públicos nos últimos dias para conter o que classifica como disfuncionalidades no mercado de renda fixa.

Por isso, apesar da citada resiliência do real neste momento, é importante levar em conta movimentos mais amplos como parte de padrões históricos.

Quando há forte busca por proteção no mundo, moedas e ativos emergentes tendem a sofrer mais. É por essa razão que vender investimentos em dólar é uma má escolha.

Nesta sexta-feira (20), por exemplo, o dólar subiu 1,75%, cotado a R$ 5,3110, depois de uma sessão com estabilidade no dia anterior.

Diversificação global

O real tem demonstrado força ante o dólar diante de uma tendência mais ampla de desvalorização da moeda globalmente, motivada pelo interesse de grandes gestoras e fundos e de bancos centrais de diversificar suas reservas para além da moeda americana em um momento de incertezas nos Estados Unidos com as políticas de Donald Trump.

O que faz a moeda brasileira se destacar em relação a outros países emergentes é o chamado diferencial de juros entre o Brasil e os Estados Unidos, algo que segue elevado. E isso persiste mesmo com o corte da Selic feito pelo Banco Central nesta semana, que levou a taxa básica a 14,75% ao ano. Na maior economia do mundo, o juro está no intervalo entre 3,50% e 3,75%.

Isso mantém o Brasil relativamente atrativo para o investidor estrangeiro, dado que os ativos em reais oferecem maior remuneração. Isso tende a estimular a entrada de dólares e contribuir para a valorização do real.

E há ainda o efeito da alta do petróleo a ser observado nessa equação do dólar.

O aumento das cotações da commodity para o patamar de US$ 100 com a Guerra no Irã joga incerteza sobre a inflação diante da necessidade de repasses para os preços dos combustíveis.

Só que, de outro lado, o Brasil é um grande exportador de petróleo e de commodities em geral. Isso significa que o aumento dos preços tende a apreciar a nossa moeda, e não o contrário.

Com o petróleo mais caro, o Brasil exporta mais em valor e recebe mais dólares, o que aumenta a oferta de moeda estrangeira e isso acaba fortalecendo o real.

Tudo isso posto, é preciso levar em conta que o câmbio é um dos canais do mercado que mais expressam as incertezas na economia. Isso significa que tentar acertar o “momento certo” de adquirir ou vender dólares é uma má decisão.

Nos últimos 30 dias, o dólar oscilou entre o piso de R$ 5,12 e o teto de R$ 5,32 no mercado brasileiro com a escalada da guerra no Oriente Médio. Não é uma variação desprezível para um intervalo de tempo tão curto, e não à toa o Banco Central decidiu atuar para atenuar os movimentos.

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Petrobras sobe 50% no ano e pode avançar com cenário favorável. Mas eleição é risco no radar

Preços do petróleo, imposto sobre exportações, riscos com as eleições presidenciais e aquisições potenciais. Esses são temas fundamentais hoje para o cenário de quem investe na Petrobras.

Esses elementos indicam que ainda há espaço para novas altas para as ações da estatal, mas tudo depende da concretização de um cenário favorável, conforme tem acontecido até agora. Não se trata de algo garantido, especialmente com o risco de ingerência política na gestão, algo que potencialmente pode levar a estatal a represar reajustes no mercado local antes das eleições.

No acumulado deste ano, as ações preferenciais da companhia (PETR4) acumulam ganhos de 49,4%. Já o papel preferencial (PETR3) sobe 56,3% até agora. O Ibovespa avança 12,6% no mesmo período.

Nos cálculos de analistas do setor e gestores, o petróleo do tipo Brent, referência global para a commodity, precisa estar no preço mínimo de US$ 70 o barril para manter a Petrobras com forte geração de caixa e, portanto, como boa alternativa no setor de óleo e gás brasileiro.

Esse também é o piso para garantir que a empresa mantenha o pagamento dos dividendos ordinários. Com o Brent na casa dos US$ 80, analistas do BTG Pactual estimam um dividend yield (rentabilidade dos dividendos) de cerca de 9%.

Nesse contexto, a geração de caixa livre sobre o patrimônio (quanto caixa a empresa produz para cada real de patrimônio dos acionistas) fica em aproximadamente 10% para 2026. São números que se destacam frente a pares globais, que negociam com retorno total médio ao acionista de 5,5%.

Com a Guerra do Irã e os riscos que envolvem a produção de petróleo no Oriente Médio, a cotação da matéria-prima ultrapassou os US$ 100.

Se houver uma solução no curto prazo para o conflito, os preços devem se estabilizar em níveis mais baixos, mas não tão baixos a ponto de prejudicar a geração de caixa da Petrobras, sobretudo porque levaria tempo até que a produção global voltasse ao normal.

Imposto, aquisições e ‘efeito Braskem’

Outro tema relevante para quem investe na empresa é o recém-anunciado imposto sobre exportações. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotou medidas para aliviar o impacto dos preços dos combustíveis com a alta do petróleo, entre elas um imposto de 12% sobre exportações de óleo cru.

Isso representa um custo direto para a Petrobras, grande exportadora da commodity, já incorporado nos modelos dos analistas.

Ao mesmo tempo, o aumento do preço do diesel nas refinarias em 11,6%, anunciado na última semana para aproximar os preços locais dos internacionais — representa uma receita adicional relevante para a empresa.

O aumento não resolve a defasagem em relação aos preços globais, mas, dado que os custos de extração de petróleo e de refino seguem iguais, compensa em parte a incidência do novo imposto.

Além disso, considerados em conjunto, o ambiente atual de preços mais altos e o ajuste nos combustíveis melhoram materialmente a geração de caixa da Petrobras, o que mais do que compensa os custos adicionais.

Analistas também observam o movimento da Petrobras em torno de aquisições de usinas de etanol de milho e da necessidade de participar da reestruturação da Braskem.

Esse envolvimento poderia se dar por meio de uma injeção direta de recursos ou via ajuste de preços de nafta, em que a estatal precisaria rever quanto cobra pela matéria-prima vendida à Braskem.

Os dois fatores podem gerar impactos importantes sobre o fluxo de caixa e nos pagamentos de dividendos no curto prazo – um dos maiores riscos para o investimento na empresa agora porque os preços das ações não estão “embutindo” esses eventos atualmente.

Eleições: a maior dúvida

Como uma estatal, a Petrobras está sujeita ao risco de ingerências do governo, especialmente em relação ao repasse das variações dos preços do petróleo para o mercado interno – exatamente como aconteceu recentemente.

Com a alta de dois dígitos registrada neste ano, é possível afirmar que parte do otimismo já está refletida nos preços, o que torna os riscos ainda mais relevantes de serem monitorados.

Esse tema é o que mais divide opiniões no mercado. Enquanto alguns dos grandes fundos de investimento no país mantêm posição vendida, ou short – que ganha com a queda das ações – exatamente por causa desse risco, há aqueles que enxergam pouca mudança de cenário.

Ou o atual governo vence as eleições e, tal qual até aqui, não interfere tanto na companhia, ou muda-se o governo para uma linha mais liberal, o que significa um cenário potencial melhor.

Nesse segundo caso, analistas do BTG Pactual estimam que uma eventual compressão no custo de capital da empresa poderia levar o preço-alvo das ações a US$ 26 por ADR (o recibo de ação negociado no mercado americano), contra os US$ 21 do cenário-base atual.

“Acreditamos que é menos provável que o atual governo faça mudanças significativas para a Petrobras se reeleito”, afirmam os analistas do BTG Pactual em relatório.

“Na verdade, as medidas anunciadas na semana passada reforçam a abordagem cautelosa do governo em relação à governança e aos preços dos combustíveis no mercado interno.”

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Petrobras, Prio e cia: como o novo imposto de exportação afeta o caixa das petroleiras 

De um lado, o barril acima de US$ 100 – um patamar que ninguém esperava até o início da guerra com o Irã. De outro, o pacote do governo para aliviar os preços internos dos combustíveis em meio à alta do petróleo; que incluem um imposto de exportação de 12% para o óleo cru.  

O imposto, anunciado na quinta (12) e válido a princípio por quatro meses, entra para compensar o PIS/Cofins zerado sobre o diesel e também um auxílio financeiro de R$ 0,32 por litro para produtores e importadores do combustível.   

Vejamos aqui como essa realidade, de petróleo em alta e imposto surpresa, impacta cada uma das nossas petroleiras de capital aberto: Petrobras, Prio, Brava Energia e PetroReconcavo.

Petrobras

A estatal ganha por conta do parque de refino. Ela aumentou o diesel na boca das refinarias em 11,6%, para aproximar os preços locais dos internacionais. Ainda que a defasagem siga alta, o custo de extração de matéria-prima (petróleo) e de refino permanecem os mesmos. Logo, o aumento compensa em parte o novo imposto sobre a fatia de óleo cru que a petroleira exporta. 

O custo de extração da Petrobras, vale notar, é particularmente baixo: US$ 9 por barril. No quarto trimestre de 2025, a estatal fez um Ebitda equivalente a US$ 10,9 bilhões com o Brent, o preço de referência para o barril, entre US$ 60 e US$ 65. 

Antes mesmo do conflito, o barril já estava em um patamar superior, US$ 73. Caso venha um cessar fogo, a produção dos países árabes ainda levaria algum tempo até voltar ao normal. Eles já cortaram a produção em 30% (10 milhões de barris por dia, o equivalente a um décimo do consumo global).

A Agência Internacional de Energia estima que um retorno aos níveis pré-guerra pode levar semanas e, em alguns casos, meses – religar poços de forma apressada poderia danificar equipamentos, gerando novas paradas. 

Ou seja: a pressão sobre a oferta não terminaria da noite para o dia, favorecendo as petroleiras daqui. Somando isso à margem maior do refino, o cenário para a Petrobras segue positivo mesmo com o imposto.     

Prio

A Prio exporta toda sua produção e não tem refino para compensar a taxa de 12%. Por conta disso, o Safra prevê uma redução de 15% no lucro operacional previsto para 2026 caso o imposto de exportação se mantenha até dezembro. 

O cálculo, porém, leva em conta uma eventual realidade com o Brent a um preço médio de US$ 70. Caso o barril permaneça a um patamar mais elevado do que esse, o impacto arrefece. 

Também vale lembrar que o barril em alta vem num momento de expansão da Prio. Ela acaba de colocar um novo campo em operação, Wahoo, com capacidade para extrair 40 mil barris por dia. O Itaú BBA estima que a produção chegue a 201 mil bpd neste ano – praticamente o dobro dos 106 mil bpd de 2025.    

Brava Energia e PetroReconcavo

A Brava exporta só um terço de sua produção. Diante disso, os analistas do Safra vêem um impacto menor do novo imposto ali: redução de 7% do lucro operacional em 2026. Também ajuda o fato de ela trabalhar com refino – a petroleira opera a refinaria de Camarão (RN). As margens maiores no diesel, então, mitigam o efeito do imposto.

A Brava é a segunda maior junior oil do país (80 mil barris por dia em 2025) e passa por um momento de virada. Aumentou produção em 46% no ano passado e reverteu o prejuízo de R$ 1,1 bilhão em lucro de R$ 1,5 bilhão. O plano interno é aumentar a produção para 100 mil bpd em 2027. 

Já na PetroReconcavo o efeito do imposto seria desprezível. Focada em campos maduros e em terra no Nordeste, com produção de 24 mil bpd, a empresa tem escala menor e perfil pouco exposto à exportação. De acordo com o Safra, ela praticamente não sofre impacto da taxa de 12%.

O que mais preocupa, para o setor como um todo, nem é o impacto financeiro imediato, mas o precedente aberto pelo governo. Para os analistas do Morgan Stanley e do Bradesco BBI, a criação do imposto aumenta a incerteza regulatória na exploração de petróleo no Brasil, o que pode reduzir o apetite de investidores.

Na outra ponta, a vantagem geopolítica conta a favor das brasileiras. Não estamos, afinal, numa região sujeita a conflitos militares capazes de interromper a produção.

Países que dependem fortemente de petróleo importado, especialmente China, Índia e Japão, agora tendem a buscar mais fontes de suprimento alternativas ao Oriente Médio. E, definitivamente, somos uma delas.

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Barril a US$ 120? Analistas esperam mais altas no petróleo após ataques à ilha de Kharg

A semana do petróleo começa às 20h deste domingo – com a abertura das negociações do Brent, às 23h de Londres. Será a primeira sessão após o ataque americano ao principal hub de exportação iraniano, que vem operando apesar do conflito. Na sexta (13), o barril fechou a US$ 103.

Forças americanas atingiram alvos militares na estratégica Ilha de Kharg e ameaçou estender os ataques à infraestrutura de energia caso Teerã continue bloqueando o Estreito de Ormuz – a estreita passagem que liga o Golfo Pérsico ao resto do mundo.

Kharg é uma ilha a 25 km da costa iraniana. Ela serve como um hub de exportação porque o mar profundo ao redor da massa de terra é bom para receber superpetroleiros, que não navegam em águas rasas. O petróleo chega do continente via oleodutos e daí flui para os berços de atracação do lugar.

E mesmo com a guerra em andamento o Irã continua exportando petróleo, principalmente para a China – navios chineses e, claro, iranianos, têm passagem liberada pelo estreito de Ormuz. Seguem, portanto, indo e voltando à ilha de Kharg. Também foram identificados recentemente dois navios com destino à Índia, carregados de gás liquefeito de petróleo (GLP), e um petroleiro grego.

Caso esse fluxo pare também, o suprimento global de petróleo sofrerá mais uma baixa. Até agora, cortes nos países árabes já reduziram o output global em 10%.

O Irã afirmou que ataques à infraestrutura de petróleo em Kharg provocarão retaliação contra instalações de energia ligadas aos EUA na região.

Nos Emirados Árabes, as operações de carregamento no porto de Fujairah – outro hub estratégico – foram interrompidas após um ataque de drone nas primeiras horas de sábado (14), bloqueando os embarques pela única rota de exportação do país que não passa por Ormuz (fica de cara para o Oceano Índico, fora do Golfo). As atividades foram retomadas no domingo (15).

“Não acho que os mercados vão reagir bem aos últimos desdobramentos”, disse Tim Waterer, analista-chefe de mercado da KCM Trade. “Espero mais um início de semana tenso, com o destino da Ilha de Kharg ainda incerto, dada sua importância para o fornecimento global de energia.”

O Brent subiu 11% na semana passada, chegando a bater US$ 119,50 o barril, antes de fechar um pouco acima de US$ 103. Foi a semana mais volátil para o marcador europeu desde que os contratos futuros começaram a ser negociados, em 1988.

“Seguimos em disparada na rodovia, na faixa da esquerda, sem nenhum sinal de quando vamos conseguir pegar a saída”, disse Stephen Schork, fundador da Schork Group, com sede em Radnor, Pensilvânia, acrescentando que não ficaria surpreso de ver o petróleo abrir acima de US$ 117 o barril — “ou até além disso.”

Giovanni Staunovo, analista de commodities do UBS, concorda: “Com o fluxo de petróleo por Ormuz ainda restrito, o caminho de menor resistência para os preços do petróleo segue sendo o de alta”.

Para o Brasil, duas consequências diretas. De um lado, somos grandes exportadores de petróleo – e, obviamente, nenhum cliente que compra daqui precisa passar pelo Estreito de Ormuz.

Petrobras sobe 13% desde o início do conflito. Prio, 10%. Petroreconcavo vem mais atrás, com 5%. A exceção é a Brava Energia, que cai 4% no mesmo intervalo – ela vinha subindo também, mas entregou os pontos após divulgar um balanço mal visto pelo mercado na quinta (12).

Por outro lado, o país sofre com a alta nos preços internacionais do diesel, já que 25% do consumo nacional depende de importações.

O gargalo

O mercado global de petróleo foi jogado ao caos. A Agência Internacional de Energia alertou que a interrupção no abastecimento é sem precedentes, e os países-membros concordaram na semana passada em liberar 400 milhões de barris de reservas de emergência para tentar conter a alta dos preços.

O número pode impressionar, mas equivale a apenas quatro dias do consumo global.

Com o fechamento efetivo de Ormuz cortando as exportações marítimas dos demais países do Golfo, os tanques de armazenamento da região foram enchendo, forçando alguns produtores a reduzir a extração. A Arábia Saudita, o peso-pesado da região, vem aumentando o fluxo por um oleoduto que cruza o país até o litoral do Mar Vermelho, o que pode permitir exportações de cerca de 5 milhões de barris por dia.

A Ilha de Kharg é uma instalação vital para Teerã, pois por ela passa a maior parte das exportações de petróleo bruto do país. Ao anunciar o ataque, Trump disse que as instalações militares do local foram “destruídas por completo”. A agência de notícias estatal iraniana Fars informou que as exportações seguem normalmente após o ataque.

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Alumínio dispara 9% com bloqueio ao estreito de Ormuz. Maior usina do mundo freia a produção

O alumínio sobe 9% na Bolsa de Metais de Londres desde o início da guerra, há duas semanas.

É mais uma consequência do bloqueio ao estreito de Ormuz. Pelo menos 5 milhões de toneladas atravessam a passagem marítima por ano. Dá 7% da produção global, de 74 milhões de toneladas. Vários países do golfo são exportadores da commodity: Bahrain, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.

Sem ter como escoar boa parte da produção, as usinas locais começam a cortar o output. A Aluminum Alba, do Bahrain e que opera a maior usina de alumínio do mundo, iniciou uma paralisação gradual.

A empresa desligou três linhas de produção, que juntas respondem por 19% de sua capacidade total de 1,6 milhão de toneladas por ano.

E o problema não é só no escoamento do alumínio. É na chegada da matéria prima também: a alumina, mineral que serve de base para a produção do metal brilhante, chega em grande parte pelo Estreito de Ormuz.

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Trump pede que outros países enviem navios de guerra para reabrir o Estreito de Ormuz

Donald Trump, intensificou os apelos para a reabertura do vital Estreito de Ormuz, afirmando “ter esperança” de que que navios de guerra de outros países também serão enviados à região para garantir a passagem de petroleiros.

Seus comentários, no Truth Social, vieram horas depois de ele ordenar ataques a instalações militares na Ilha de Kharg, de onde o Irã exporta quase todo o seu petróleo, escalando um conflito no Oriente Médio que dura duas semanas e não dá sinais de arrefecimento.

O presidente afirmou que as instalações militares na ilha do Golfo Pérsico foram “destruídas por completo”, acrescentando que optou por não atacar a infraestrutura petrolífera “por uma questão de decência”. Ele ameaçou fazer exatamente isso caso o Irã “tome qualquer atitude para interferir na passagem livre e segura de navios pelo Estreito de Ormuz.”

“Muitos países, especialmente os afetados pela tentativa do Irã de fechar o Estreito de Ormuz, enviarão navios de guerra em conjunto com os Estados Unidos da América para manter o Estreito aberto e seguro”, escreveu em sua publicação mais recente. Ele deu poucos detalhes além de expressar a esperança de que China, França, Japão, Coreia do Sul e Reino Unido também enviem navios de guerra.

Trump declarou que, embora as forças militares do Irã estivessem “já 100% destruídas”, era “fácil” para Teerã continuar ameaçando navios com drones, minas e mísseis de curto alcance. Os EUA, disse ele, irão “bombardear pesado” o litoral iraniano para tentar conter essas ameaças.

Quase ao mesmo tempo, o chanceler iraniano Abbas Araghchi afirmou que o estreito — por onde normalmente passa cerca de um quinto do suprimento mundial de petróleo — estava fechado apenas para navios de “países inimigos”.

Durante a noite e ao longo do sábado, Israel e os EUA continuaram atacando o Irã, que por sua vez seguiu bombardeando países árabes do Golfo.

O Irã, claramente inferior em poderio militar frente aos EUA e a Israel, está atacando países vizinhos, além de rotas marítimas e instalações de energia, numa tentativa de semear o caos na região e nos mercados de petróleo e gás — esperando pressionar Trump a encerrar os combates. O presidente americano enfrenta críticas internas à medida que os preços da gasolina disparam, com muitos opositores alegando que ele subestimou a resposta e a resiliência do Irã.

A incerteza sobre a duração da guerra cresce diante dos sinais contraditórios de Trump e da contínua resistência iraniana. Na sexta-feira, o presidente disse que os EUA manteriam sua campanha “pelo tempo que for necessário” e sinalizou que a Marinha americana começaria em breve a escortar navios pelo Estreito de Ormuz — uma mudança de tom em relação a declarações anteriores de que os objetivos militares americanos estavam “praticamente cumpridos.”

No sábado, o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, elogiou o ataque a Kharg e afirmou que a guerra está entrando em sua “fase de vitória”, acrescentando que os combates durarão “o tempo que for preciso.”

Ataque nos Emirados

Nos Emirados Árabes Unidos, as operações no estratégico porto petrolífero de Fujairah, no Golfo de Omã, foram suspensas após um ataque de drone e um incêndio na manhã de sábado, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.

O carregamento de petróleo bruto e derivados em Fujairah, localizado logo fora do Estreito de Ormuz, foi interrompido por precaução enquanto os danos são avaliados, de acordo com as fontes, que pediram anonimato por não estarem autorizadas a falar com a imprensa.

Fujairah é um importante hub de exportação tanto de petróleo bruto quanto de combustíveis, e ganhou relevância ainda maior para os Emirados e para os mercados globais por ser um dos poucos pontos de escoamento de petróleo do Golfo que contorna Ormuz.

O barril de petróleo fechou a US$ 103 na sexta-feira (13), atingindo seu nível mais alto desde 2022. Arábia Saudita, Iraque, EAU e Kuwait tiveram de reduzir a produção de petróleo bruto em razão do fechamento de fato de Ormuz, enquanto o Catar suspendeu as operações de gás natural liquefeito — sendo um dos três maiores fornecedores mundiais do combustível.

Dois petroleiros estavam atracados na Ilha de Kharg horas após o ataque americano às instalações militares, segundo o Tankertrackers.com, empresa especializada em monitoramento de embarcações. A mídia estatal iraniana afirmou que as exportações continuam normalmente.

Ainda assim, o Irã advertiu que atacará instalações de petróleo e energia ligadas aos EUA no Oriente Médio caso sua própria infraestrutura petroleira seja atingida. A mídia iraniana informou que todos os trabalhadores da indústria do petróleo na ilha — situada a cerca de 25 quilômetros do continente — estão sãos e salvos.

“Todas as instalações de petróleo, econômicas e energéticas pertencentes a empresas petrolíferas na região que sejam parcialmente de propriedade dos Estados Unidos ou que cooperem com os Estados Unidos serão imediatamente destruídas e reduzidas a cinzas” caso os ativos energéticos e econômicos do Irã sejam atacados, noticiou a agência Fars News, citando o comando central militar do país.

O veículo informou que mais de 15 explosões sacudiram a Ilha de Kharg, com alvos incluindo sistemas de defesa antiaérea, uma base naval, a torre de controle do aeroporto e um hangar de helicópteros — sem especificar a extensão dos danos.

Os militares americanos afirmaram ter destruído infraestruturas de armazenamento de mísseis e minas navais.

Nos dias anteriores aos ataques americano-israelenses, o Irã acelerou as exportações a partir de Kharg para níveis próximos ao recorde, acima de 3 milhões de barris por dia — quase o triplo do ritmo habitual —, segundo analistas do JPMorgan Chase, incluindo Natasha Kaneva, em nota de pesquisa.

Um ataque às instalações petrolíferas de Kharg “interromperia imediatamente a maior parte das exportações de petróleo bruto do Irã, provavelmente desencadeando uma retaliação severa no Estreito de Ormuz ou contra a infraestrutura energética regional”, avaliaram os analistas do JPMorgan.

Por Arsalan Shahla

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Brasil importa um quarto do diesel que consome. E lá fora a alta já é de 50%

Desde o início da guerra, há 15 dias, o diesel no mercado internacional sobe 50% – ainda mais do que os 42% do petróleo. E boa parte do diesel que abastece os caminhões brasileiros vem de fora. 

O Brasil, apesar de ser um grande exportador de petróleo, não tem capacidade de refino para atender a demanda interna por diesel. As importações suprem 25% do nosso consumo.

Daí as altas nos postos. De acordo com a ANP, o preço médio do diesel nos postos subiu 12% na última semana. E dados do sistema de monitoramento TruckPag,levantados pelo Valor, mostram um acréscimo de 18,75% desde o dia 27 de fevereiro, o último antes da eclosão do conflito. 

Foi nesse contexto que a Petrobras anunciou na sexta (13) o primeiro reajuste do diesel em refinarias após 312 dias: alta de R$ 0,38 por litro, ou 11,6%, com o preço passando de R$ 3,27 para R$ 3,65 a partir deste sábado (14).

O reajuste, de qualquer forma, não cobre nem de longe a defasagem ante o preço internacional. Para isso, o preço teria de subir a R$ 5,61 por litro, de acordo com a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom). 

Essa diferença é central para entender como a guerra pesa no mercado brasileiro. Quando a cotação internacional dispara, os importadores passa a trazer diesel a um custo muito mais alto que o da Petrobras – a estatal controla 84% do nosso parque de refino. 

Isso aumenta a pressão sobre a Petrobras para abastecer o mercado. A estatal chegou a rejeitar pedidos extras de diesel. O aumento no preço, então, é uma forma de tentar conter a demanda e evitar uma crise de abastecimento.

O governo busca amortecer o choque de forma indireta. Na quinta (12), o Brasil zerou tributos federais sobre o diesel e anunciou uma subvenção para produtores e importadores, numa tentativa de conter o avanço dos preços domésticos.

Em grande parte porque altas no diesel significam altas no frete, o que afeta basicamente todos os setores da economia e joga a inflação para cima. 

Mas enquanto não houver um cessar-fogo no Irã qualquer medida será como enxugar gelo. O barril fechou ontem (13) acima de US$ 100 pelo segundo dia consecutivo – o que não acontecia desde 2022, com a invasão da Ucrânia. Cortesia do fechamento do Estreito de Ormuz. O bloqueio da passagem marítima de apenas 3,7 km de largura entre Irã e Omã tira de circulação 20 milhões de barris por dia. Um quinto do suprimento global. 

Na gasolina, o efeito para o Brasil é menor. Importamos entre 6% e 7%, apenas. E a frota de carros flex, que roda com etanol, dá um refresco para a demanda do derivado de petróleo. Com o diesel, porém, não há escapatória. A alta nos preços internacionais bate por aqui de forma automática, como o preço nas bombas deixa claro.

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Petróleo Brent e WTI: entenda a diferença entre os barris da commodity

O petróleo voltou ao centro das atenções do mercado internacional com a escalada da guerra que envolve Irã, Estados Unidos e Israel. A cotação do barril do Brent, referência global da commodity, encerrou esta quinta-feira (12) acima da marca de US$ 100, pela primeira vez desde 2022.

Em meio às tensões no Oriente Médio e aos riscos em rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz, dois tipos de petróleo ganham destaque neste momento: Brent e WTI, as principais referências globais para o preço da commodity.

Apesar de aparecerem frequentemente lado a lado nas cotações internacionais, o petróleo Brent e o WTI possuem características diferentes de origem, produção e formação de preço.

  • Além das referências globais, existem também classificações utilizadas para caracterizar diferentes tipos de petróleo produzidos em países específicos.

No caso do Brasil, a indústria nacional utiliza denominações próprias para identificar a qualidade e a origem do óleo extraído em campos locais e também recorre aos padrões internacionais para se posicionar dentro do mercado global da commodity.

Leia Mais: Carlos Kawall: na conta da inflação, câmbio pesa mais do que choque do petróleo

Produção do petróleo Brent e WTI

A diferença entre os dois tipos de barril começa pela origem da extração.

O Brent, principal referência internacional da commodity, é extraído de campos petrolíferos no Mar do Norte, em uma região situada entre o Reino Unido e a Noruega.

Por se tratar de um petróleo marítimo, isto é, extraído do fundo do mar, o Brent possui maior facilidade logística para ser transportado para diferentes portos internacionais.

  • Devido a essa flexibilidade logística, o petróleo Brent tornou-se a principal referência do mercado, utilizada para precificar cerca de 80% do petróleo comercializado globalmente.

Já o WTI (West Texas Intermediate), produzido onshore (em terra) nos EUA, também é uma referência importante, porém com particularidades diferentes.

A extração da commodity é feita em campos localizados no Texas e em outras regiões produtoras do país, sendo o armazenamento centralizado na região de Cushing, localizada em Oklahoma, que funciona como ponto central de estocagem e entrega física do petróleo.

A logística nesse hub é feita por meio de tanques de armazenamento conectados a diversos oleodutos que distribuem o petróleo para refinarias ou outros pontos da rede energética dos EUA.

  • Com isso, o petróleo WTI está mais associado ao mercado norte-americano e serve como principal parâmetro de preços para o mercado energético dos EUA, maior economia do mundo.

Composição química do petróleo Brent e WTI

Na composição química, as diferenças entre o petróleo Brent e o WTI também aparecem de forma mais técnica.

O WTI é classificado como um petróleo leve e “doce”, com teor de enxofre em torno de 0,24%, característica que facilita o processo de refino e permite uma produção maior de derivados como gasolina e diesel.

  • O termo “doce” (sweet) é usado para indicar baixo teor de enxofre na composição do óleo bruto, enquanto o tipo com alto teor é chamado de “ácido” (sour).

O Brent também possui baixo teor de enxofre e densidade considerada média a leve, mas costuma apresentar uma classificação ligeiramente mais pesada na escala API quando comparado ao WTI.

  • API é uma escala que indica a densidade do óleo em relação à água, utilizada para classificar diferentes tipos de petróleo bruto. Quanto mais leve, melhor a qualidade do petróleo.

A diferença de composição influencia diretamente a eficiência do refino: petróleos mais leves e com menos enxofre exigem menos etapas de processamento e demandam menos processos adicionais para a produção de combustíveis.

Cotação do petróleo Brent e WTI

Além disso, o Brent e o WTI também se diferenciam pelos ambientes em que são negociados, ligados a diferentes centros financeiros do mercado de energia.

O Brent tem seus contratos futuros e derivativos negociados principalmente na Bolsa de Londres, que reúne operações ligadas ao mercado internacional de energia.

Sua cotação é mais influenciada por fatores geopolíticos, econômicos e logísticos, sendo especialmente sensível a mudanças no ambiente político internacional.

Conflitos em regiões produtoras, especialmente no Oriente Médio, costumam ter impacto direto sobre as cotações do petróleo Brent, uma vez que elevam o risco de interrupção no abastecimento e adicionam um prêmio de risco ao barril.

E a sensibilidade do Brent não para por aí.

Decisões da OPEP+ (Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados) que alteram a oferta global, eventos climáticos extremos e variações cambiais — especialmente do dólar — também podem afetar os custos de produção, transporte e importação do petróleo.

Já o WTI é negociado na Nymex (Bolsa de Mercadorias de Nova York), que concentra as operações ligadas ao mercado de energia nos Estados Unidos.

Os estoques de petróleo em Cushing são centrais na formação do preço do WTI. A relação segue a lógica básica de oferta e demanda.

Estoques elevados tendem a pressionar os preços da commodity para baixo. Já quedas nos níveis de armazenamento costumam impulsionar a cotação do barril.

  • Em condições normais de mercado, o petróleo WTI tende a ser negociado por um valor ligeiramente superior ao Brent, devido à sua composição química e ao menor custo de refino.

No entanto o aumento das tensões no Oriente Médio e os riscos de interrupção nas rotas marítimas internacionais tendem a pressionar mais a cotação do Brent, devido ao seu uso como padrão internacional.

Como a alta do Brent e do WTI podem afetar o petróleo produzido no Brasil?

As variedades de petróleo produzidas no Brasil também seguem a dinâmica do mercado internacional.

Os barris de petróleo Tupi e Marlim têm seus preços influenciados diretamente pelas cotações globais, principalmente pelo Brent, que serve de referência para decisões comerciais de empresas como Petrobras e PRIO.

Extraído das reservas do pré-sal, o petróleo Tupi é classificado como um óleo leve, por apresentar características semelhantes às de petróleos de alta qualidade no mercado internacional.

  • Com isso, sua cotação tende a acompanhar a valorização do Brent quando os preços globais sobem.

O petróleo Marlim, por sua vez, é classificado como um óleo pesado, produzido na Bacia de Campos, localizada no litoral entre o norte do Rio de Janeiro e o sul do Espírito Santo.

Seu preço também segue os movimentos de alta do Brent, mas normalmente é negociado com “desconto” em relação aos óleos mais leves, devido à maior complexidade no processo de refino.

O WTI também influencia os preços locais, embora o Brent seja a principal referência utilizada no Brasil.

Por ser um petróleo mais leve e com menor teor de enxofre, o WTI costuma ser negociado por valores mais altos que o Brent.

  • Quando a cotação do WTI atinge níveis elevados, isso pode indicar mudanças de oferta ou demanda nos Estados Unidos, com reflexos nas cotações globais.

Na prática, movimentos de alta do WTI tendem a elevar o valor de exportação dos petróleos brasileiros, ao mesmo tempo em que pressionam o custo dos combustíveis no mercado interno.

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Saudi Aramco alerta para ‘catástrofe’ no mercado de petróleo em caso de guerra prolongada

O diretor-executivo da Saudi Aramco, Amin Nasser, alertou que o impacto sobre os mercados globais de petróleo será “catastrófico” quanto mais tempo durar a interrupção causada pela guerra com o Irã.

Em seus primeiros comentários públicos desde que o conflito prejudicou os embarques de energia do Oriente Médio, o chefe da maior produtora de petróleo da região disse que a Aramco pode redirecionar mais petróleo para uma rota alternativa que evita o Estreito de Hormuz. Ainda assim, a empresa não consegue exportar seus volumes normais devido a limitações de capacidade.

A Arábia Saudita está reduzindo a produção em até 2,5 milhões de barris por dia, juntando-se a Emirados Árabes Unidos, Iraque e Kuwait no aprofundamento dos cortes, informou a Bloomberg. Nasser não revelou os níveis de produção, mas disse em uma teleconferência que a Aramco “não está utilizando por enquanto” algumas de suas variedades mais pesadas de petróleo.

“Haverá consequências catastróficas para o mercado mundial de petróleo quanto mais tempo durar essa interrupção, e consequências ainda mais drásticas para a economia global”, disse Nasser. “Embora já tenhamos enfrentado interrupções no passado, esta é de longe a maior crise que a indústria de petróleo e gás da região já enfrentou.”

Interrupções de energia no Oriente Médio

As hostilidades na região interromperam a produção e o tráfego de petroleiros.

A Aramco está correndo para desviar petróleo da rota habitual pelo Estreito de Hormuz para Yanbu, na costa do Mar Vermelho. A companhia pode transportar até 7 milhões de barris por dia por um oleoduto que liga o leste ao oeste do país e pretende atingir esse nível nos próximos dias, disse Nasser.

Cerca de 2 milhões de barris por dia desse volume serão enviados para refinarias domésticas ao longo da costa do Mar Vermelho. A empresa continua exportando produtos refinados, como diesel, a partir dessas refinarias.

Normalmente, a Aramco exporta cerca de 7 milhões de barris por dia de petróleo. A maior parte dos embarques atuais pelo oleoduto East-West é do tipo Arab Light, o mais abundante da empresa, além de algum volume de Extra Light, disse Nasser.

Segundo ele, certos campos com petróleo médio e pesado não estão sendo utilizados temporariamente, pois a companhia tem capacidade suficiente para atender às necessidades atuais com outras variedades. A empresa também está usando sua rede global de armazenamento, inclusive fora do reino, para abastecer o mercado.

A Aramco também foi forçada a fechar a maior refinaria de petróleo da Arábia Saudita após um ataque de drone, e trabalha para reiniciar a operação, disse Nasser. Alguns outros campos de petróleo também foram alvo de ataques, segundo o governo saudita.

Recompra de ações e dividendos

Na terça-feira, a Aramco anunciou seu primeiro plano de recompra de ações, no valor de US$ 3 bilhões. A empresa pretende recomprar até 350 milhões de ações ordinárias nos próximos 18 meses, a partir de março, podendo mantê-las por até 10 anos.

O programa é pequeno para uma empresa avaliada em cerca de US$ 1,7 trilhão e deve reduzir ainda mais o já limitado free float da companhia. A recompra ocorre em um momento em que as ações da Aramco subiram quase 12% neste ano, embora tenham ficado atrás de outras supermajors globais, como Shell e Exxon Mobil Corp.

A Aramco também está aumentando seu dividendo base para US$ 21,9 bilhões no trimestre encerrado em 31 de dezembro, alta de 3,5% em relação aos três meses anteriores. O pagamento maior beneficia o governo saudita e o fundo soberano do país, que juntos detêm mais de 97% da empresa.

O fluxo de caixa livre da companhia — recursos que sobram após investimentos e despesas — subiu para US$ 27,5 bilhões no trimestre, valor suficiente para cobrir o dividendo total pelo segundo trimestre consecutivo, após um período prolongado em que isso não ocorria.

O lucro líquido ajustado no período caiu 1,9%, para US$ 25,1 bilhões, em linha com as estimativas de analistas compiladas pela Bloomberg.

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MBRF, Minerva e o outro custo da guerra no Oriente Médio: a logística

A escalada das tensões no Oriente Médio adicionaram um novo ponto de atenção ao setor de proteína animal: a logística. Duas companhias brasileiras – MBRF e Minerva – são aquelas com exposição mais evidente a mercados e fluxos comerciais ligados à região.

O ponto de partida dessa preocupação está no peso da região para as exportações brasileiras. O Oriente Médio responde por cerca de 25% das exportações de frango do Brasil, o que coloca a MBRF, dona de marcas relevantes nesse segmento, entre as empresas mais sensíveis a eventuais mudanças nas rotas de embarque.

No caso da Minerva, a exposição aparece na carne bovina: cerca de 7% das exportações brasileiras do produto tiveram como destino o Oriente Médio em 2025, segundo dados computados pelo Itaú BBA.

Até aqui, não é possível afirmar que o impacto esteja “contratado” para as empresas ou que há interrupção dos embarques, mas a instabilidade geopolítica joga luz sobre um um novo risco operacional que se desenha no horizonte.

As tensões geopolíticas são o grande ponto de atenção porque podem gerar gargalos logísticos na entrega de embarques das companhias para a região, que devem contar com alternativas para tentar driblar as dificuldades.

Segundo o Itaú BBA, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) já havia alertado para possíveis interrupções decorrentes da mudança de fluxo de tráfego pelo Estreito de Ormuz, que já está fechado e já vem, por isso, afetando a cadeia de produção de outras commodities, caso do petróleo. E isso se soma a uma capacidade operacional menor no Canal de Suez, outra fonte de escoamento.

Como estratégia de segurançca alimentar, os produtores da região estão priorizando, atualmente, produção local em vez de importações. Além disso, a MBRF tem operações locais de frango halal, voltado ao consumo de acordo com as regras islâmicas.

Esses dois fatores permitem que a companhia consiga uma menor pressão sobre as vendas no curto prazo, mas isso só valerá se o conflito não se prolongar de forma significativa.

No caso das exportações brasileiras de carne bovina, a exposição é menor do que no segmento de aves, mas é possível ver efeitos potenciais sobre os produtores que já vinham trabalhando para redirecionar embarques para outras regiões após a imposição de cotas de produtos pela China.

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) indicou que 30% a 40% das exportações brasileiras de carne bovina dependem de rotas que passavam pelo Estreito de Ormuz, trazendo novos riscos para a cadeia de suprimentos do setor.

Os volumes destinados ao Oriente Médio pela Minerva representaram 9% das exportações totais nos últimos 12 meses até o terceiro trimestre de 2025 e, mesmo não entregando produtos diretamente para o Irã, a companhia ainda tem pela frente desafios logísticos para atender a região se a guerra continuar no processo de escalada.

Nos cálculos do Itaú BBA, os spreads da carne bovina no Brasil – a diferença entre o preço de venda da carne e o custo da matéria-prima – recuaram 5,6% na comparação trimestral até agora no primeiro trimestre deste ano. O movimento é resultado da alta de 4,4% nos custos do gado, combinada com uma queda de 1,5% nos preços de exportação da carne bovina.

Desde o começo de março, as ações da MBRF (MBRF3) acumulam perdas de 12,6%. Já os papéis da Minerva (BEEF3) têm baixa de 13,8% no mesmo período.

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Guerra no Irã coloca aposta de Wall Street em mercados emergentes à prova

A guerra no Irã deu um golpe em uma das apostas favoritas de Wall Street: os mercados emergentes. Isso não significa que o cenário esteja perdido, mas os riscos aumentaram e continuam se acumulando.

Ações e moedas registraram fortes perdas recentes, com o índice de ações MSCI de mercados emergentes marcando sua maior queda semanal em seis anos, enquanto os rendimentos dos títulos subiram, em um tradicional movimento de busca por proteção.

Até aqui, gestores de recursos de empresas como Pimco, Barings e T. Rowe Price Group afirmam que o argumento de longo prazo a favor dos mercados emergentes permanece intacto. Alguns estão fazendo ajustes pontuais em seus portfólios, enquanto a maioria evita mudanças mais profundas – ao menos por enquanto.

A convicção desses investidores se baseia no que eles veem como os principais motores da alta recente dos emergentes: a busca por diversificação em relação aos ativos dos Estados Unidos, avaliações de preço mais atraentes e crescimento econômico sólido.

A expectativa é que esses fatores voltem a ganhar peso quando o choque geopolítico diminuir e parte do mercado já começa a aproveitar as quedas recentes para ampliar posições. Investidores injetaram US$ 12,6 bilhões em ações e títulos de mercados emergentes na semana até quarta-feira (4), segundo relatório do Bank of America, citando dados da EPFR Global.

Impactos e riscos

Os rendimentos dos títulos em moeda local de mercados emergentes atingiram os níveis mais altos desde abril. A queda das moedas desses países levou investidores a vender esses papéis, o que derrubou seus preços e elevou os juros.

“Estamos esperando mais clareza“, disse Nick Eisinger, chefe de estratégia de crédito soberano de mercados emergentes da J.P. Morgan Asset Management. “Gostamos da história fundamental de muitos emergentes, mas infelizmente os fundamentos não contam muito neste momento, então precisamos que esse choque passe.

Nesse ambiente, a percepção é de que os riscos estão aumentando, com o petróleo Brent superando US$ 90 por barril e o conflito no Oriente Médio se intensificando. A preocupação é que a alta dos preços do petróleo pressione o crescimento econômico em países que dependem de importações de energia.

Ao mesmo tempo, o dólar mais forte – que voltou a ser visto como um ativo de proteção em momentos de turbulência, especialmente frente às moedas emergentes – tende a apertar as condições financeiras globais e reduzir os retornos para investidores nesses mercados.

O J.P. Morgan reduziu suas recomendações para ativos de mercados emergentes três vezes na última semana, à medida que a incerteza aumentou em relação às perspectivas para essa classe de ativos.

Os estrategistas do banco reduziram suas posições otimistas para posição neutra em câmbio e juros locais e passaram a recomendar “subexposição tática” — quando a indicação é vender e permanecer com menos exposição no curto prazo — em títulos soberanos e corporativos denominados em dólar.

Eric Fine, chefe de dívida ativa de mercados emergentes da VanEck Associates, avalia que a queda nas moedas emergentes que abriu oportunidade de compra: a gestora aumentou exposição a países como África do Sul, Colômbia e Chile.

Segundo Fine, muitos mercados emergentes são exportadores de commodities, o que pode beneficiar regiões como América Latina e África Subsaariana em um cenário de preços elevados de matérias-primas.

A Ásia, por sua vez, pode enfrentar desafios econômicos maiores, embora ainda apresente oportunidades de investimento devido à solidez de suas políticas econômicas e à valorização do yuan chinês.

O fator decisivo agora é quanto tempo o conflito vai durar. “Se o mercado começar a estimar que a guerra será mais longa, aumentará também a probabilidade de recessão global”, disse.

Para Samy Muaddi, chefe de renda fixa de mercados emergentes da T. Rowe Price, os fundamentos dos emergentes continuam relativamente sólidos. A preocupação está na combinação de petróleo mais caro e política fiscal mais expansionista nos Estados Unidos, que pode alterar o cenário para taxas de juros globais e aumentar a volatilidade.

“Qualquer coisa que mude as taxas básicas, a volatilidade ou o risco nos mercados acionários tende a afetar os mercados emergentes”, disse. A gestora tem preferido ativos de maior qualidade e maior liquidez, reduzindo exposição a países considerados mais arriscados.

Nos mercados locais, Muaddi afirma que prefere países onde não há eleições importantes nos próximos meses e onde as taxas de juros reais permanecem elevadas, citando México, Romênia e Turquia como exemplos. Segundo ele, a América Latina tende a ser menos vulnerável do ponto de vista das condições financeiras globais e pode se beneficiar de uma rotação de portfólio de investidores internacionais.

Onde está o otimismo?

Se a crise permanecer contida, o ambiente global de crescimento e a convergência entre economias emergentes e desenvolvidas devem continuar favorecendo os ativos desses países. É a visão de Bill Campbell, gestor de portfólio da DoubleLine Group, para quem o conflito não altera os fundamentos de longo prazo dos emergentes.

“Não estou no grupo que acha que isso muda tudo fundamentalmente e que é hora de sair completamente dos mercados emergentes. Vejo isso muito mais como um choque externo”, disse. “Os mercados emergentes oferecem muito valor e formas diversificadas de investir.”

Campbell afirma que muitos dos movimentos recentes foram provocados pelo desmonte de posições muito populares no mercado, o que pode abrir oportunidades. “Se tivermos mais clareza sobre a situação no Irã, pode ser um excelente momento para voltar a investir em moedas e títulos locais de mercados emergentes.”

Para Pramol Dhawan, chefe de gestão de portfólios de mercados emergentes da Pimco, o episódio atual mostra justamente uma das principais fragilidades para a classe de ativos: tensões geopolíticas.

Ainda assim, ele acredita que os emergentes continuam sustentados por fatores estruturais, como maior credibilidade fiscal dos governos, inflação mais controlada graças à atuação dos bancos centrais e maior interesse de investidores globais em diversificar suas carteiras.

“Esse ciclo de mercados emergentes parece mais durável do que altas anteriores, incluindo o ciclo de 2008”, disse.

O efeito dos preços mais altos do petróleo de fato pode prejudicar os países importadores de energia, mas isso vale tanto para economias desenvolvidas, como as emergentes, segundo Ghadir Cooper, chefe global de ações da Barings. Ele acredita que os mercados emergentes seguem apoiados por avaliações atrativas e por ainda estarem sub-representados nas carteiras globais de investimento.

Como os emergentes tiveram desempenho inferior por mais de uma década, o argumento de diversificação ganha força: investidores podem migrar parte de seus recursos de ativos americanos para esses lugares agora.

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Navegação entra em colapso no Estreito de Ormuz

O tráfego pelo estratégico Estreito de Ormuz praticamente paralisou em meio à guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã.

Apenas dois navios graneleiros e um pequeno porta-contêineres foram vistos atravessando a hidrovia na terça-feira (3). Todos estavam saindo do Golfo Pérsico, e não entrando.

O estreito mergulhou em uma espécie de “névoa digital”. Interferências de sinal e a desativação generalizada de transponders de posição dificultaram o rastreamento por satélite e tornaram mais complexo monitorar o tráfego na via marítima. Ainda assim, entender o que — se é que algo — está se movimentando é crucial para avaliar o impacto do conflito sobre os mercados de petróleo, gás e outras commodities.

Os países do Golfo Pérsico são fundamentais para o fornecimento global de petróleo bruto, combustíveis, gás natural e insumos para fertilizantes. Quase toda a produção da região precisa passar por Ormuz, tornando-o um gargalo estratégico para cerca de um quinto da oferta global de petróleo e gás natural liquefeito, além de metade do comércio marítimo mundial de enxofre.

O fechamento efetivo da hidrovia já está levando países como o Iraque a interromper parte da produção, contribuindo para uma alta de 14% nos preços do petróleo desde o fim de semana e elevando o gás natural ao nível mais alto desde a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. A situação também deixou traders de enxofre em busca de fontes alternativas de suprimento para as indústrias de fertilizantes e processamento de níquel.

Queda de 95%

Dados de rastreamento de navios compilados pela Bloomberg mostram que o tráfego despencou mais de 95%, com grandes petroleiros e navios de gás natural liquefeito evitando a rota. As poucas embarcações ainda em movimento estão deixando o Golfo com os transponders de localização desligados — uma prática comum em zonas de conflito.

Apenas sete embarcações cruzaram a região na segunda-feira, segundo dados de rastreamento, ante mais de 100 na sexta-feira — um dia antes de Estados Unidos e Israel lançarem a Operação Epic Fury. Na terça-feira, o número caiu para três.

As poucas travessias que continuaram ocorreram principalmente com navios deixando o Golfo Pérsico à medida que o conflito se intensificava e as embarcações recebiam comunicados informando que a passagem estava proibida.

Como os navios podem navegar sem sinais de AIS até estarem bem distantes de Ormuz, os sinais automáticos de posição foram compilados em uma ampla área que abrange o Golfo de Omã, o Mar da Arábia e o Mar Vermelho para identificar embarcações que possam ter saído ou entrado no Golfo Pérsico.

Quando possíveis travessias são identificadas, os históricos de sinal são analisados para determinar se o movimento parece genuíno ou resultado de spoofing — quando interferências eletrônicas falsificam a posição aparente de um navio.

Esse tipo de atividade se tornou generalizado na região de Ormuz desde o início do conflito, com sinais de embarcações provavelmente afetados por uma guerra eletrônica mais ampla.

Algumas travessias podem não ter sido detectadas caso os transponders não tenham sido religados. Petroleiros ligados ao Irã frequentemente partem do Golfo Pérsico sem transmitir sinais de AIS até alcançarem o Estreito de Malaca, cerca de 10 dias após passarem por Fujairah. Outras embarcações podem estar adotando táticas semelhantes e não aparecerão nas telas de rastreamento por vários dias.

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Trump diz que vai cortar comércio com Espanha após país negar uso de bases para atacar Irã

Donald Trump disse que vai “cortar todo o comércio com a Espanha” após o país negar acesso às suas bases militares para sua campanha de bombardeio contra o Irã, o que provocou uma forte reprimenda de Madri de que o presidente dos Estados Unidos deve respeitar os acordos comerciais internacionais.

“Eu disse ao Scott para cortar todos os negócios com a Espanha,” disse Trump na terça-feira (3) durante uma reunião na Casa Branca, referindo-se ao Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent.

Trump não explicou como planejava cumprir essa ameaça, que pode se mostrar particularmente difícil, dado que os EUA têm um relacionamento comercial com a União Europeia mais ampla.

Mais tarde, ele sugeriu que tinha o poder de impor um embargo total a bens do país, embora não tenha indicado explicitamente que planejava fazê-lo.

Se a administração Trump deseja revisar sua relação comercial com a Espanha, deve fazê-lo respeitando a autonomia das empresas privadas, o direito internacional e os acordos bilaterais entre a UE e os EUA, disse um funcionário do governo espanhol em resposta ao comentário de Trump.

A Espanha tem os recursos necessários para conter impactos potenciais e apoiar setores que podem ser afetados por uma proibição comercial, afirmou o funcionário.

O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, deve fazer uma declaração na quarta-feira (4) às 9h no horário de Madri.

Em uma entrevista em janeiro ao New York Times, Trump disse que não “precisa de direito internacional.” Ele então acrescentou que isso depende da definição de direito internacional.

“A Espanha não tem absolutamente nada de que precisamos, exceto por grandes pessoas,” disse Trump na terça-feira. “Eles têm grandes pessoas, mas não têm uma liderança grande.”

Impacto na bolsa

O comentário de Trump na terça-feira veio após o fechamento da Bolsa de Madri. O ETF iShares MSCI Espanha caía 5,7% às 18h32 em Madri, após reduzir uma queda anterior que havia chegado a 6,8%, enquanto as ações europeias eram atingidas por preocupações com a inflação ao longo da sessão.

No domingo (1), Sánchez disse que a operação dos EUA e de Israel equivalia a uma “intervenção militar injustificada e perigosa fora do direito internacional.”

O governo em Madri alertou Washington de que os EUA não poderiam usar as duas bases militares no sul do país para apoiar a operação, argumentando que tal envolvimento estaria fora do tratado que rege as instalações.

“Queremos ações militares sempre sob a carta das Nações Unidas e sob esforço coletivo,” disse o ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Albares, em uma entrevista à Bloomberg Television na terça-feira. “Um mundo baseado em regras previsíveis é melhor do que um mundo em que a força é a única regra.”

Trump expressou repetidamente frustração com Sánchez por rejeitar seu apelo para que os aliados da OTAN aumentassem os gastos com defesa para o equivalente a 5% do Produto Interno Bruto. Em outubro passado, o presidente dos EUA disse que a Espanha deveria receber uma “punição comercial” pela discordância.

“Eu poderia amanhã parar — ou hoje, ainda melhor — tudo que tem a ver com a Espanha, todos os negócios que têm a ver com a Espanha, ter o direito de parar, embargos, fazer o que eu quiser com isso,” continuou Trump. “E podemos fazer isso com a Espanha.”

Bessent, na reunião, afirmou sua crença de que Trump tinha a capacidade legal de embargar bens espanhóis, sem dizer se ele seguiria esse caminho.

“O anúncio poderia ter um efeito no sentimento do mercado mais do que em números macro, embora, se a ameaça avançar, seria ruim para as exportações de vinho e azeite para os EUA,” disse Ricardo Gil, vice-chefe de investimentos da Trea Asset Management. “Do lado político, isso é um golpe para a credibilidade do governo.”

O chanceler alemão Friedrich Merz, que estava na reunião da Casa Branca com Trump, interveio para apoiar o apelo do presidente para que Madri aumentasse seus gastos com defesa.

“Estamos tentando convencer a Espanha a alcançar” a meta de gastos da OTAN, disse Merz enquanto se sentava ao lado de Trump durante sua visita à Casa Branca.

“A Espanha é a única que não está disposta a aceitar isso, e estamos tentando convencê-los de que isso faz parte da nossa segurança comum, que todos devemos cumprir com esses números.”

Trump também criticou o Reino Unido por bloqueá-lo de usar uma base militar na ilha de Diego Garcia para realizar ataques ao Irã, dizendo que estava “surpreso” enquanto se absteve de fazer uma ameaça comercial semelhante.

“Esta não é a era de Churchill. Eu vou dizer, o Reino Unido tem sido muito, muito não cooperativo com aquela ilha estúpida que eles têm,” disse Trump.

O Supremo Tribunal dos EUA derrubou no mês passado o alegado direito de Trump de usar uma lei de poderes de emergência para impor suas chamadas tarifas recíprocas ao redor do mundo. Ele anunciou uma nova taxa global de 10%, que depois ameaçou aumentar para 15%.

A equipe de Trump disse que as tarifas continuarão sendo centrais em sua política comercial, reiterando planos de lançar uma série de investigações em cronogramas acelerados que lhe permitam impor unilateralmente direitos — tudo com o objetivo de reconstruir o regime tarifário que a decisão do tribunal mais alto dos EUA efetivamente destruiu.

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