Mudança na gestão de saúde de Porto Alegre gera apreensão entre funcionários e usuários
O começo das atividades do Instituto de Apoio à Gestão (IAG) em Porto Alegre, nesta semana, foi marcado por instabilidade para alguns trabalhadores e pacientes. A falta de contratos, uniforme, equipamento de proteção individual e de pagamento de vale-transporte e vale-alimentação foram algumas das reclamações feitas por funcionários desde a segunda-feira, quando a empresa paranaense assumiu a gestão de 36 unidades de saúde na zona leste da Capital.

Conforme uma pessoa que não quis se identificar, na quarta-feira, “o clima ainda era de caos” em uma das unidades, com intimidação, e pessoas atuando em desvio de função, além da ausência de médicos, que teriam pedido demissão diante das mudanças na gestão e nos vencimentos propostos pelo IAG.
O Instituto de Apoio à Gestão, entidade de Londrina (PR), venceu edital da Prefeitura para gerir unidades de saúde das zonas leste e norte, que estavam sob administração, respectivamente, da Sociedade Sulina Divina Providência e da Irmandade Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. As entidades decidiram, em janeiro, romper com os termos de cooperação que permitiam que administrassem as unidades na Capital, e tiveram de ser substituídas em processo coordenado pelo Executivo.
O IAG foi habilitado para assumir a gestão de 67 unidades em julho. E está, desde esta semana, na administração de 36 delas, todos na zona leste. As 31 restantes só serão assumidas pelo Instituto na primeira semana de agosto. Essa alteração é resultado de uma mediação no Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT-RS), que vem tentando, ainda sem sucesso, conciliação no pedido de dissídio coletivo de greve proposto pela gestão municipal contra os sindicatos de trabalhadores. Entre os impasses, que envolvem a redução de salários, está também o teor na negociação, pois nem todos os sindicatos estão de acordo com a ação da Prefeitura, uma vez que não fizeram paralisação.
A negociação no TRT cobre a passagem da administração da Santa Casa para o IAG, que envolve 1,3 mil profissionais da área. Na reunião, os sindicatos que atuam representando médicos, auxiliares, técnicos e odontologistas salientaram denúncias que também chegaram à reportagem do Sul21, e que formam a imagem de uma mudança turbulenta, com rupturas com a equipe anterior e a chegada de profissionais, em sua maioria, sem experiência prévia com atendimento em atenção primária. “Os que ficaram estão sobrecarregados. Ontem eu nem almocei. Estamos com muitas funções ao mesmo tempo e meu salário diminui em 60%. Foi uma perda de mais de cinco mil reais. Quem cuida de quem cuida em uma situação como essa?”, pergunta uma funcionária de uma unidade na zona leste que não quis se identificar. Eles também reclamam de intimidação para que atuem mesmo sem contratos, uniforme, equipamento de proteção individual e de pagamento de vale-transporte e vale-alimentação.
A diretora do Sindicato dos Odontologistas no Estado do Rio Grande do Sul (Soergs), Ana Cristina Soletti, afirma que o movimento dos trabalhadores nessa mudança tem sido não apenas pela manutenção de salários, mas “pela valorização dos profissionais, pela dignidade do trabalho e pela qualidade da assistência prestada aos usuários do SUS”. “Defendemos que a substituição da empresa gestora jamais pode servir como justificativa para retirar direitos, desvalorizar carreiras ou precarizar o trabalho em um serviço essencial para a população. Quem perde não é apenas o trabalhador. Perde também a comunidade, que corre o risco de ver equipes desestruturadas. Profissionais experientes deixando o serviço, e o vínculo construído ao longo de anos sendo rompido”, critica.
Nesta semana, o Simers, sindicato que representa os médicos, visitou unidades de saúde e alertou para as consequências da descontinuidade de contratos, que afeta as equipes e pacientes. Tanto a \prefeitura de Porto Alegre, por meio da Secretaria da Saúde, quanto o IAG admitem falhas nessa primeira semana. “Foram identificadas situações pontuais relacionadas à adaptação de novos profissionais às rotinas e aos sistemas utilizados nas unidades, o que pode ter impactado o tempo de atendimento em alguns serviços”, diz a Secretaria da Saúde, por meio de nota.

“A contratação e a manutenção dos profissionais são responsabilidades da organização gestora, que está sendo cobrada pela Secretaria para recompor as equipes e cumprir integralmente as obrigações previstas em contrato. Sempre que forem constatadas inconformidades serão adotadas as medidas administrativas cabíveis. As informações levantadas durante a transição na Região Leste também subsidiarão o acompanhamento da implantação da nova gestão nas unidades da Região Norte, com fiscalização desde o início da operação para garantir a continuidade da assistência à população”, conclui. A Prefeitura também indica o canal 156 para reclamações da população, bem como para registro de demandas e irregularidades.
O IAG reforçou, também por meio de nota, que o atendimento foi mantido em todas as 36 unidades que estão sob a gestão da empresa desde essa semana. “Nas UBSs da região leste, dos 101 médicos necessários, só existe uma vacância de 25 profissionais, cujas vagas já estão sendo substituídas, nos próximos dias, por novas contratações, que estão com documentações em andamento. É importante reforçar que nenhuma Unidade de Saúde deixou de atender as demandas de pacientes que buscam atendimento”, salientou.
Os problemas também foram foco de um debate na Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa na terça-feira (7), com presença de representantes de sindicatos de trabalhadores da saúde, CUT-RS, Conselho Estadual de Saúde, Defensoria Pública e vereadores da Capital.
A presidente do Conselho Estadual de Saúde, Inara Ruas, critica o processo de descontinuidade dos serviços causado pela troca de equipes. “Somos contra o modelo de gestão de terceirização, mas não somos contra os trabalhadores terceirizados, porque eles precisam trabalhar. Defendemos a carreira única do SUS, uma carreira interfederativa, para que não aconteça o que está acontecendo agora em Porto Alegre. Porque se o profissional é fixado no território, com remuneração adequada e valorização justa, com um plano de carreira do SUS, ele não vai ficar pipocando de unidade por unidade. Mesmo que a empresa não tivesse saído, o que acontece hoje em Porto Alegre é ter muita rotatividade de profissionais. Isso tira a continuidade do cuidado ao usuário. Ele vai a uma unidade de saúde, consulta com um médico, pede exames e daqui a dois meses quando ele for levar o estado dos exames já mudou o pessoal, ele tem contar toda a sua história de vida novamente, o vínculo da equipe com a comunidade se quebra cada vez que você vai trocando as equipes”, contextualiza Inara.
O vereador Alexandre Bublitz (PT), que é médico pediatra, diz que está acompanhando o caso e fez encaminhamento ao Ministério Público das possíveis irregularidades. Para ele, a situação demonstra queda de investimentos da Prefeitura no setor. ” A Prefeitura de Porto Alegre vem reduzindo o quanto investe em atenção primária. Há 10 anos atrás, a gente investia 25% dos recursos da saúde em atenção primária, hoje a gente investe apenas 15%. Ou seja, caiu quase até a metade. Precisamos olhar para essa situação com mais calma e realmente com planejamento. Se a atenção primária não funciona, a saúde da Capital não vai funcionar”, critica.
Com a mudança na administração, o IAG passa a gerir cerca de 50% da rede municipal até agosto. São pessoas que buscam regularmente o atendimento em saúde pelo SUS, como Fátima Dornelles, de 67 anos, que saiu da US Campo da Tuca, Rua Coronel José Rodrigues Sobral, no Partenon, e conversou com a reportagem sobre a apreensão do filho, que faz tratamento no local há oito anos, e precisa de cuidados permanentes. “Quem vai cuidar dele agora?”, questiona, referindo-se à troca nas equipes.

Fátima também reclamou da falta de materiais de cuidado, como gaze e coletor de urina, que ela costuma retirar na unidade, mas estava, no dia, em falta. “É desesperador”. No mesmo dia a filha dela, que estava se recuperando de uma fratura, esperava atendimento, já com duas horas de atraso. “Falaram que houve uma reunião com os médicos. Por isso que está demorando”, disse.
Uma outra paciente, que não quis se identificar, afirmou que perguntou se o atendimento iria demorar naquela quinta-feira (9) e que ouviu que “iria, sim, e muito”.
Na entrada US Vila Vargas, na rua Padre Angêlo Costa, bairro Aparício Borges, a reportagem conversou com moradores que relataram ter acompanhado com preocupação a notícia de possíveis mudanças nas equipes. Pessoas que não quiserem se identificar elogiaram o serviço prestado pelos médicos da unidade e disseram que, apesar de o tempo de espera ter aumentado mais nessa semana, eles têm expectativa de que o serviço se normalize sob a nova administração.
Na US Campo da Tuca, pacientes também relataram atrasos e demora no atendimento. Famílias que esperam por consulta de rotina com especialistas em pediatria esperaram por mais de uma hora com as crianças no colo, como a reportagem apurou no local. Ainda conforme os relatos, na triagem, devido à reclamação sobre atrasos e espera excessiva, alguns pacientes também foram atendidos por funcionários com casacos identificados com o logo da Prefeitura de Porto Alegre a serviço da Secretaria Municipal da Saúde, que pediam compreensão devido às mudanças.
Em duas das três unidades da zona leste visitadas pela reportagem, pacientes e funcionários que não quiseram se identificar confirmaram a falta de uniformes e de material para atendimento. A demora também foi maior do que o normal, com pacientes regulares aguardando por horas pelo atendimento que estava previamente agendado.
A Secretaria Municipal de Saúde acompanha de forma permanente a execução do contrato de gestão das unidades de saúde por meio de equipes técnicas da Diretoria de Atenção Primária à Saúde. Nesta segunda-feira, 6, profissionais da secretaria estiveram nas unidades da Região Leste para monitorar o funcionamento dos serviços, verificar as condições de atendimento e acompanhar o processo de transição da nova gestora.
Foram identificadas situações pontuais relacionadas à adaptação de novos profissionais às rotinas e aos sistemas utilizados nas unidades, o que pode ter impactado o tempo de atendimento em alguns serviços. A Secretaria está acompanhando diariamente a composição das equipes, o funcionamento das unidades e a prestação da assistência.
A contratação e a manutenção dos profissionais são responsabilidades da organização gestora, que está sendo cobrada pela Secretaria para recompor as equipes e cumprir integralmente as obrigações previstas em contrato. Sempre que forem constatadas inconformidades, serão adotadas as medidas administrativas cabíveis.
As informações levantadas durante a transição na Região Leste também subsidiarão o acompanhamento da implantação da nova gestão nas unidades da Região Norte, com fiscalização desde o início da operação para garantir a continuidade da assistência à população.
A população também pode registrar manifestações e eventuais ocorrências por meio do serviço 156. Todas as demandas são analisadas pela Secretaria e, quando identificadas irregularidades, são adotadas as providências previstas em contrato.
O Instituto de Apoio à Gestão Pública (IAG), vem a público esclarecer sobre o andamento da transição de gestão da saúde primária da região leste de Porto Alegre. O IAG reforça que todas as medidas adotadas seguem os princípios da transparência e responsabilidade com a população.
Nas UBSs da região leste, dos 101 médicos necessários, só existe uma vacância de 25 profissionais, cujas vagas já estão sendo substituídas, nos próximos dias, por novas contratações, que estão com documentações em andamento.
É importante reforçar, que nenhuma Unidade de Saúde, deixou de atender as demandas de pacientes, que buscam atendimento.
O IAG permanece à disposição para esclarecer quaisquer dúvidas e reafirma seu compromisso com o bem-estar dos cidadãos de Porto Alegre.
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