O ministro da Agricultura de Angola disse que pode começar a buscar novos parceiros, à medida que sua paciência se esgota com empresas brasileiras que continuam mudando as condições para investir nas terras agrícolas do país, mesmo depois de grandes áreas terem sido identificadas para desenvolvimento.
Angola não vai mais “implorar” para que empresas brasileiras invistam em seus projetos agrícolas, afirmou Isaac dos Anjos. “Não estou mais disposto a me ajoelhar e pedir: venham”, disse ele durante um fórum sobre agronegócio Angola-Brasil, em Luanda, na quarta-feira. “Se vocês não querem vir, não precisam vir.”
No ano passado, o país do sudoeste da África identificou 800 mil hectares (2 milhões de acres) de terras para que empresas brasileiras realizassem estudos e desenvolvessem projetos. Desde então, os dois lados discutem uma estrutura de financiamento envolvendo instituições dos dois países, mas ainda não assumiram compromissos firmes, segundo Dos Anjos.
Os investidores brasileiros continuam levantando obstáculos, apesar de Angola ter atendido às condições que eles haviam estabelecido para investir, afirmou Dos Anjos.
“O que está faltando agora? O setor financeiro precisa dizer se está disponível” para apoiar os projetos, disse. “Se isso não avançar, tenho que procurar outros parceiros.”
Países em busca de segurança alimentar e de novos mercados, incluindo China, Emirados Árabes Unidos e Brasil, se comprometeram a investir no setor agrícola de Angola depois que o país implementou amplas reformas.
No ano passado, Angola abriu quase 2 milhões de hectares de terras agrícolas para investidores estrangeiros, oferecendo concessões sem impostos e permitindo que os investidores exportem 60% de sua produção.
Em julho de 2025, Angola assinou US$ 350 milhões em acordos agrícolas com empresas chinesas, incluindo a Citic Construction Co., para desenvolver 100 mil hectares de soja e milho, e a estatal de construção de hidrelétricas Sinohydro, para cultivar 30 mil hectares de grãos.
Katia Abreu, ex-ministra brasileira da Agricultura, que participou do mesmo evento, pediu paciência e afirmou que os produtores rurais precisam de tempo, segurança e apoio antes de se comprometerem com uma nova “fronteira agrícola” como Angola.
O Reino Unido manterá a importação de carnesdo Brasil, apesar de o País não constar na lista de fornecedores da União Europeia (UE) a partir de 3 de setembro em virtude do novo regulamento de antimicrobianos adotado pelo bloco europeu.
Em comunicado a importadores britânicos, a Associação Internacional do Comércio de Carnes (Imta, na sigla em inglês), que representa empresas britânicas importadoras e exportadoras de carnes, afirmou que não haverá restrições a partir da data no Reino Unido. “O Reino Unido não introduzirá uma proibição à carne brasileira a partir de 3 de setembro.
O Reino Unido está realizando sua própria avaliação de resistência antimicrobiana dos sistemas de controle do Brasil, que é independente da avaliação da UE”, explicou a associação no comunicado.
De acordo com o Imta, o Reino Unido concluirá sua avaliação de conformidade do novo protocolo adotado pelo Brasil, desde 1º de julho, com o regulamento local. “Momento em que o Reino Unido tomará uma decisão sobre se o sistema pode garantir a rastreabilidade de antibióticos para sistemas de aves e carne bovina no Brasil”, esclareceu a associação.
A exceção será a Irlanda do Norte, que, apesar de compor o Reino Unido, aplicará a proibição da UE às carnes brasileiras a partir de 3 de setembro, disse a associação.
O Imta afirmou que participou de uma reunião com o Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais do Reino Unido (Defra) na última sexta-feira (17) sobre o tema. “O Defra observa que seria um desafio para o sistema de carne bovina estar em conformidade, visto que o novo sistema brasileiro foi estabelecido em 1º de julho e o ciclo de vida mais longo da carne bovina em comparação com as aves. Aves e carne bovina serão consideradas separadamente pelo Defra”, detalhou a associação.
A associação pondera, entretanto, que se a avaliação constatar que novo protocolo de carne bovina ou de aves adotado pelo Brasil não é capaz de fornecer as garantias necessárias, as importações desses produtos não serão permitidas nos países do bloco (Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte) a partir de fevereiro de 2027.
O Imta destacou ainda que Reino Unido se alinhará totalmente ao regulamento de antimicrobianos da União Europeia em meados de 2027, quando o Reino Unido poderá importar somente de países na lista de países aprovados pela UE.
Os novos procedimentos para controle de uso de antimicrobianos na cadeia de proteínas e de produtos de origem animal para atendimento à legislação europeia, estabelecidos pelo Ministério da Agricultura no início deste mês, serão válidos para as exportações de carne de aves, carne bovina, envoltórios, pescado, mel, ovos e subprodutos exportados à União Europeia e ao Reino Unido.
O Brasil está prestes a ultrapassar os Estados Unidos como maior exportador agrícola do mundo, encerrando uma liderança americana que dura há mais de um século, segundo reportagem publicada pelo Financial Times.
Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) mostram que os americanos exportaram US$ 171 bilhões em produtos agrícolas em 2025, apenas US$ 2 bilhões acima dos US$ 169 bilhões registrados pelo Brasil. É a menor diferença já observada entre os dois países.
Há duas décadas, a vantagem americana era de dezenas de bilhões de dólares. Impulsionado pelo avanço da soja, da carne bovina, do frango e do algodão, além da forte demanda chinesa, o Brasil reduziu rapidamente essa distância e pode assumir a liderança global das exportações agrícolas já em 2026.
O avanço brasileiro ocorre em meio às consequências das guerras comerciais iniciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A partir de 2018, as tarifas impostas pelos EUA à China levaram Pequim a reduzir as compras de soja americana e ampliar significativamente as importações do Brasil.
Hoje, o Brasil já é o maior produtor mundial de soja, carne bovina e carne de frango e também superou os Estados Unidos nas exportações de algodão.
Segundo o Financial Times, a mudança alterou profundamente as cadeias globais de abastecimento e consolidou relações comerciais entre produtores brasileiros e compradores chineses. Quando Trump retornou à Casa Branca, em 2025, o Brasil já respondia pela maior parte das importações chinesas de soja.
Vantagens competitivas do Brasil
Especialistas ouvidos pelo jornal apontam que o crescimento brasileiro vai além dos efeitos da política comercial americana.
Uma das principais vantagens é a possibilidade de colher duas safras por ano em grande parte do território nacional. Em regiões como Mato Grosso, mais da metade das áreas cultivadas recebe uma segunda safra de milho ou algodão após a colheita da soja.
Além disso, o Brasil dispõe de terras relativamente baratas em áreas de expansão agrícola e conseguiu mais que dobrar sua produção de cereais, leguminosas e oleaginosas nos últimos 13 anos, alcançando 346,1 milhões de toneladas em 2025.
Dificuldades dos agricultores americanos
Enquanto o agronegócio brasileiro avança, produtores americanos relatam margens cada vez menores.
O Financial Times acompanhou a rotina de agricultores no Meio-Oeste dos EUA que enfrentam queda nos preços das commodities, incertezas comerciais e dependência crescente de programas governamentais.
A Federação Americana de Agricultura projeta prejuízos médios de US$ 138 por acre na soja, US$ 167 no milho, US$ 145 no trigo e US$ 406 no algodão.
Para muitos produtores, a perda do mercado chinês representa uma mudança estrutural.
“Já não somos o fornecedor mundial de soja; somos o fornecedor residual”, afirmou ao jornal Corey Goodhue, agricultor de Iowa. Segundo ele, compradores recorrem aos Estados Unidos apenas quando o Brasil enfrenta problemas de oferta.
Desafios permanecem
Apesar do crescimento acelerado, o agronegócio brasileiro também enfrenta obstáculos. Isso porque o país importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome, o que aumenta a vulnerabilidade a choques geopolíticos e oscilações de preços.
Além disso, produtores reclamam dos gargalos logísticos. O frete pode representar até 30% do valor da soja brasileira, contra algo entre 10% e 15% nos Estados Unidos.
Ainda assim, para analistas, a trajetória favorece o Brasil. Com a demanda chinesa consolidada e a capacidade de expansão ainda significativa, o país se aproxima de assumir uma posição que durante décadas pertenceu aos Estados Unidos: a liderança global das exportações agrícolas.
A disparada dos custos de fertilizantes provocada pela guerra no Irã atinge os agricultores brasileiros no pior momento possível, e reforça como o conflito no Oriente Médio ameaça o abastecimento global de alimentos.
Os produtores brasileiros já enfrentavam preços mais baixos das commodities, acesso restrito ao crédito, endividamento elevado, câmbio desfavorável e custos crescentes para transportar mercadorias aos portos. Agora, a rápida alta dos fertilizantes leva a situação a um ponto crítico, e muitos agricultores passaram a rever investimentos em terras e insumos diante da próxima safra.
É o caso da soja, principal cultura agrícola do país. A área plantada deve crescer no ritmo mais lento em 20 anos na temporada que começa em setembro, segundo a empresa de inteligência de mercado Veeries. A consultoria Agroconsult apresentou recentemente uma projeção semelhante, enquanto estimativas de analistas da Datagro apontam para a menor expansão em uma década.
“Quem acompanhou o agronegócio nos últimos 10 anos sempre viu o setor como próspero e em crescimento”, afirmou Marcos Rubin, fundador da Veeries. “Esse não é o cenário hoje.”
A mudança tem potencial para provocar impactos em toda a agricultura global. A soja brasileira abundante e de baixo custo ajudou a elevar os estoques internacionais da oleaginosa usada na produção de óleo de cozinha e ração animal. O país é o principal fornecedor da China, maior compradora mundial de commodities agrícolas. Uma desaceleração no Brasil pode significar inflação adicional de alimentos na Ásia e em outras regiões, à medida que importadores disputam a oferta disponível.
No Brasil, o pessimismo no agronegócio se espalha. O índice de sentimento do produtor calculado pela Bloomberg Intelligence caiu ao menor nível em mais de um ano. A situação representa um desafio político para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que disputará a reeleição. O agronegócio responde por cerca de um quarto do Produto Interno Bruto brasileiro, segundo algumas métricas, e produtores pressionados financeiramente pedem mais crédito subsidiado e ampliação do seguro rural.
Embora a área de soja ainda deva avançar, o ritmo será muito mais lento. A situação tende a ser ainda mais delicada para outras culturas. As áreas plantadas de algodão, arroz e milho de verão devem encolher, segundo a Veeries. Essas lavouras dependem mais do fornecimento de certos tipos fertilizantes afetados diretamente pelo conflito com o Irã, que praticamente paralisou o Estreito de Hormuz.
“Não vamos ter aumento de área plantada, isso já está definido”, disse Thiago Facco, produtor de soja e milho no Tocantins e vice-presidente da Aprosoja.
A região de Facco esteve entre as que lideraram o recente boom agrícola brasileiro. Agora, segundo ele, o crédito restrito e os custos crescentes da produção vão limitar o crescimento. As margens dos produtores, que já estão apertadas, podem piorar ainda mais na próxima safra, acrescentou.
Menores investimentos
Além da área plantada, a produtividade também está em risco, já que os custos mais altos devem forçar produtores a reduzir gastos com insumos, sementes, máquinas e fertilizantes. Relatório do Rabobank divulgado em abril estimou queda de 3,9% no consumo de fertilizantes até o fim de 2026.
“Vai ter corte de investimento”, disse Daniel Jaeger da Silva, produtor de soja, milho e arroz no Rio Grande do Sul, terceiro maior estado agrícola do Brasil. Silva pretende adiar planos antigos de expandir os negócios para outra região agrícola e também postergar a compra de novas máquinas.
Ainda assim, o Brasil está longe de perder o status de potência agrícola global. Mesmo os modestos aumentos de área previstos para a próxima safra podem resultar em mais uma colheita recorde de soja, enquanto os preços mais competitivos em relação aos EUA devem continuar sustentando as exportações.
Mas o crescimento seguirá ameaçado em meio às dificuldades enfrentadas pelos produtores. As finanças do setor não estão tão sólidas quanto durante o último choque de preços dos fertilizantes, em 2022, afirmou Marcela Marini, analista do Rabobank Brasil. A valorização do real e os elevados custos do frete rodoviário reduzem a rentabilidade dos sojicultores brasileiros nas vendas da commodity cotada em dólar.
“Este é um momento em que os produtores podem revisar o modelo de negócios”, disse Marini, após anos de investimentos intensivos.
As vendas de tratores e outros equipamentos agrícolas também devem cair neste ano. A receita do setor pode recuar até 7%, segundo a Abimaq. A projeção pode ser revisada para baixo em breve, afirmou Pedro Estevão, presidente da câmara setorial de máquinas agrícolas da entidade.
Até mesmo em Mato Grosso, maior e mais rico estado produtor de soja do país, a área plantada deve ficar estagnada na próxima safra, informou o instituto de pesquisa IMEA. Condições mais restritivas de financiamento e juros elevados limitam a expansão para novas áreas, segundo o grupo.
“Hoje me mostraram as condições de preço do adubo, e deu vontade de chorar”, disse Endrigo Dalcin, produtor de soja em Mato Grosso, que espera redução na aplicação de fosfato nesta safra, além da suspensão da abertura de novas áreas para plantio. “É a tempestade perfeita.”
O Conselho Monetário Nacional (CMN) decidiu, em reunião extraordinária nesta terça-feira (12), adiar a implementação de uma norma que proíbe a concessão de empréstimos rurais subsidiados a solicitantes com áreas desmatadas após julho de 2019.
Segundo a norma, os bancos seriam responsáveis por verificar o cumprimento da exigência por meio de imagens de satélite, se estão de acordo com a legislação ambiental.
A norma havia entrado em vigor em abril para propriedades rurais com mais de quatro módulos fiscais. Agora, o prazo foi adiado para janeiro de 2027 para propriedades com mais de 15 módulos fiscais.
Para áreas entre quatro e 15 módulos fiscais, a exigência de verificação só entrará em vigor em julho do ano que vem, enquanto para propriedades menores, de até quatro módulos fiscais, a norma passará a vigorar em janeiro de 2028, em vez do prazo anterior de janeiro de 2027.
O adiamento aconteceu após o ministro da Agricultura, André de Paula, ter dito que prometera a produtores que trabalharia dentro do governo para que eles não fossem prejudicados injustamente, sem o direito de defesa, em caso de o sistema de verificação apontar algum falso positivo.
A postergação dos prazos acontece ainda pouco antes do anúncio do Plano Safra, o principal programa governamental de oferta de crédito, que inclui recursos com juros subsidiados pelo Tesouro.
A Agrishow começa no próximo domingo (26) e segue até o feriado de 1º de maio, trazendo, como de costume, os holofotes do setor para a capital brasileira do agronegócio: Ribeirão Preto.
A edição deste ano deve ser maior, com cerca de 100 novas empresas expositoras. A área do evento também foi ampliada em 12 mil metros quadrados, segundo a organização.
No campo, o cenário combina mais uma supersafra com desafios relevantes: crédito mais restrito, margens pressionadas, aumento de custos fiscais e maior incerteza nos mercados. Diante disso, analisamos a seguir alguns eixos temáticos que devem pautar o evento.
Ano eleitoral reforça presença política
Em 2026, o Brasil terá eleições gerais, e a Agrishow tradicionalmente se torna palco de intensa movimentação política nesses períodos. A expectativa é de presença de pré-candidatos à Presidência, além de governadores, parlamentares e outras lideranças.
O governador de São Paulo, embora ainda não colocado como candidato à Presidência, deve aproveitar o evento para anunciar programas voltados ao agronegócio paulista. Outros governadores e representantes políticos também devem marcar presença, ampliando o caráter institucional da feira.
Crise do petróleo pode impulsionar biocombustíveis
O atual contexto de elevação de custos — influenciado pela reforma tributária, alta nos fertilizantes e pressão sobre o diesel em meio às tensões geopolíticas — tende a aumentar a atratividade dos biocombustíveis.
Além de funcionarem como alternativa em um ambiente de maior volatilidade, esses produtos seguem alinhados à agenda de sustentabilidade, ainda em evidência após a COP-30 realizada em Belém no ano passado. O cenário pode favorecer especialmente os produtores de cana-de-açúcar e os agentes ligados ao setor.
Dólar mais fraco pode destravar investimentosna Agrishow
Por outro lado, a recente desvalorização do dólar frente ao real, mesmo em um ambiente de crédito mais restrito, pode estimular investimentos em máquinas, equipamentos e tecnologia — segmentos que são destaque na feira.
Com uma visão de possível recuperação de preços, margens e crédito a partir da safra 2027/28, produtores que tiverem acesso a financiamento podem antecipar investimentos para ganho de eficiência.
Fundamentos estruturais seguem positivos e novas tecnologias mantêm protagonismo
A expectativa de uma nova supersafra em 2026/27 pode contribuir para alguma recomposição de preços e volumes. Apesar das dificuldades no crédito — pressionado por inadimplência e maior aversão ao risco — o setor segue robusto.
Segundo o Ministério da Agricultura, o crédito ao agronegócio movimenta cerca de R$ 1,4 trilhão ao ano. Além disso, instrumentos privados como Fiagros e títulos do agronegócio ampliam a oferta de financiamento.
A demanda do mercado de capitais por esses ativos permanece firme, impulsionada também pela entrada de investidores estrangeiros em meio à realocação global de portfólios.
No comércio exterior, a demanda por produtos agropecuários brasileiros segue aquecida, com destaque para negociações diretas com países como China, Turquia, Vietnã e Japão, além da possível retomada de fluxos com o Irã.
Ademais, novas tecnologias, programas de sucessão no campo, empreendedorismo feminino, além de seminários, debates e milhares de visitantes, devem garantir o sucesso da feira, que é uma ode ao empreendedorismo no campo, sempre trazendo novas tecnologias, muitas novidades e injeção de ânimo ao setor que, frise-se, precisa cada vez mais de marcos regulatórios estáveis e políticas públicas efetivas para continuar a contribuir decisivamente com o desenvolvimento da economia brasileira.
A aproximação entre a Faria Lima e o agronegócio brasileiro ainda está nos primeiros passos, mas caminha para se tornar a principal via de financiamento do setor. Essa é a avaliação de Octaciano Neto, fundador da Zera.ag. e ex-diretor de agronegócio do Grupo Suno, que vê um processo de aprendizado mútuo entre investidores e produtores rurais — e sem retorno possível.
Segundo ele, o estágio atual ainda é inicial, com desafios relevantes dos dois lados. No campo, há uma clara necessidade de evolução em governança e gestão.
“Muitos produtores ainda operam com baixa disciplina financeira, misturando contas pessoais com as da fazenda ou adotando práticas pouco estruturadas” comenta, apesar de ressaltar que há um movimento consistente de amadurecimento em curso.
Do lado do mercado financeiro, o aprendizado também está longe de completo.
“A análise do agronegócio ainda é, muitas vezes, feita com as mesmas ferramentas utilizadas para setores tradicionais, como energia ou saneamento. O agro exige lentes próprias, capazes de capturar suas especificidades, riscos e dinâmicas produtivas”, completa.
As barreiras entre o campo e o mercado de capitais
Esse descompasso ajuda a explicar por que grandes gestoras ainda evitam o crédito direto ao produtor rural.
Seja por percepção de risco elevado ou pela falta de familiaridade com o setor, o fato é que o agro ainda não conta com um ecossistema financeiro tão completo quanto outros segmentos, como imobiliário e infraestrutura — onde já existem “one stop shops” capazes de atender diferentes perfis de risco e operações.
Além disso, há um desafio comercial: é mais simples para gestores captar recursos com teses padronizadas, focadas em empresas com balanços auditados e perfis mais previsíveis, do que apresentar ao investidor operações pulverizadas no campo, muitas vezes ligadas a culturas ou regiões específicas.
Ainda assim, Octaciano é categórico: a conexão está apenas começando, mas é irreversível. No longo prazo, ele não tem dúvidas de que o mercado de capitais será protagonista no financiamento da agricultura brasileira, consolidando uma ponte definitiva entre a Faria Lima e o campo.
O governo brasileiro destinará até R$ 70 milhões para programas de subvenção visando apoiar produtores de arroz que lidam com preços baixos do cereal, de acordo com nota do Ministério da Agricultura.
A subvenção será operacionalizada por meio do pagamento do Prêmio Equalizador Pago ao Produtor Rural ou sua Cooperativa (Pepro) e do Prêmio para o Escoamento de Produto (PEP), ofertados em leilões públicos a serem realizados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
O Pepro visa complementar o valor recebido pela venda de um produto, de modo que ele atinja o valor do preço mínimo estabelecido pelo governo.
No caso do PEP, o comprador do arroz — uma usina de beneficiamento ou um comerciante de cereais — arremata o prêmio em leilão e paga o preço mínimo ao produtor rural.
Segundo publicação no Diário Oficial da União, o programa valerá para o arroz em casca da safra 2025/26.
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) publicou novas diretrizes para orientar a tramitação de processos de recuperação judicial e falência envolvendo produtores rurais em todo o país. As regras estão no Provimento nº 216 e passam a orientar juízes de primeira instância sobre como analisar pedidos apresentados por empresários rurais, pessoas físicas ou jurídicas.
A medida surge em meio ao aumento de recuperações judiciais no agronegócio e busca padronizar decisões judiciais, reforçar a segurança jurídica e evitar o uso indevido do mecanismo.
Entre as mudanças, o provimento estabelece critérios mais claros para comprovar a atividade rural, amplia mecanismos de fiscalização antes da aceitação do pedido e define com mais precisão quais dívidas podem ou não ser incluídas na recuperação judicial.
Comprovação da atividade rural
Uma das principais exigências é a comprovação de que o produtor exerce atividade rural há mais de dois anos — requisito já previsto na Lei nº 11.101/2005, que regula recuperações judiciais e falências.
No caso de produtores pessoa física, a comprovação deverá ser feita por meio de documentos como:
Livro Caixa Digital do Produtor Rural (LCDPR);
Declaração do Imposto de Renda da Pessoa Física (DIRPF);
balanço patrimonial elaborado por contador habilitado.
Quando se tratar de pessoa jurídica, a comprovação deverá ocorrer por meio da Escrituração Contábil Fiscal (ECF) ou outro registro contábil equivalente.
As informações financeiras deverão seguir padrões contábeis formais e regime de competência.
Perícia antes de aceitar o processo
O provimento também permite que o juiz determine uma constatação prévia antes de decidir se aceita o pedido de recuperação judicial.
Nesse procedimento, um profissional indicado pelo magistrado poderá avaliar:
se o produtor realmente exerce atividade rural;
se a comarca escolhida corresponde ao principal estabelecimento do devedor;
as condições operacionais da atividade;
a existência de garantias sobre safras ou animais;
a perspectiva de produção no ciclo agrícola em curso.
A análise poderá incluir visitas à propriedade, uso de fotografias, mapas e imagens de satélite.
Caso sejam identificados indícios de fraude ou inconsistências na documentação, o pedido pode ser indeferido.
Relatórios sobre a safra
Durante o processo de recuperação judicial, o administrador judicial deverá incluir nos relatórios mensais informações específicas sobre a atividade rural.
Entre os dados exigidos estão:
estágio do ciclo produtivo;
insumos utilizados;
cronograma das atividades;
riscos que possam afetar a produção.
Além disso, até 20 dias antes do início da colheita, poderá ser solicitado um laudo técnico com estimativas de produtividade, condições fitossanitárias e viabilidade de comercialização da safra.
Dívidas que não entram na recuperação judicial
O provimento também esclarece quais créditos não se submetem aos efeitos da recuperação judicial.
Entre eles estão:
operações vinculadas à Cédula de Produto Rural (CPR) com liquidação física, inclusive operações de barter com insumos;
financiamentos contraídos para compra de propriedade rural nos três anos anteriores ao pedido;
recursos de crédito rural controlado que tenham sido renegociados com instituições financeiras;
patrimônio rural em afetação vinculado a títulos como a Cédula Imobiliária Rural.
Também permanecem fora da recuperação judicial créditos garantidos por alienação fiduciária ou arrendamento mercantil, preservando os direitos de propriedade dos credores.
Plano especial para pequenos produtores
Produtores com dívidas de até R$ 4,8 milhões poderão utilizar o chamado plano especial de recuperação judicial, previsto na legislação, que simplifica o processo.
O provimento também permite o parcelamento das custas processuais, desde que solicitado pelo produtor na petição inicial.
Atuação do Ministério Público
Nos processos envolvendo produtores rurais, o Ministério Público deverá atuar como fiscal da ordem jurídica e ser ouvido antes da homologação de planos de recuperação judicial ou extrajudicial.
Segundo o CNJ, as novas diretrizes buscam orientar magistrados em um tema considerado complexo e com impacto relevante para o agronegócio e para o sistema de crédito rural.
A suspensão das tarifas de exportação para produtos agrícolas na Argentina foi implementada para fortalecer as finanças do país.
A estratégia do presidente Javier Milei era aumentar a oferta de dólares no mercado. Deu certo: a suspensão atraiu rapidamente cerca de US$ 7 bilhões em embarques, com exportadores — incluindo as gigantes Bunge, Cargill e Louis Dreyfus — aproveitando a oportunidade.
Em 48 horas, as tarifas voltaram a vigorar, incluindo alíquotas de cerca de 25% sobre os embarques de soja e cerca de 10% sobre milho e trigo.
Embora não tenha sido a primeira vez que oscilações na política argentina desencadearam uma corrida desenfreada para as exportações, a escala do frenesi comercial da semana passada deixou o setor agrícola do país abalado.
Foram quase 20 milhões de toneladas embarcadas, maior volume registrado, segundo dados do Departamento de Agricultura desde 2011.
“Nunca vi nada parecido”, disse Gustavo Passerini, consultor veterano de mercados de grãos em Rosário, centro comercial da Argentina. “O único outro momento na história recente que pode se comparar foi quando o país aumentou as tarifas de exportação em 2007”, disse ele.
A corrida pelas exportações não está causando surpresa apenas na Argentina. Os produtores de soja dos EUA estão atualmente excluídos do mercado chinês, em benefício dos produtores argentinos e brasileiros, com todos os olhos voltados para as próximas negociações de Donald Trump com Xi Jinping sobre o assunto.
Mas os produtores de todo o Pampa argentino também estão frustrados, suspeitando que os comerciantes possam capturar a maior parte dos ganhos.
“Estamos com a pulga atrás da orelha porque o governo Milei deixou os exportadores se beneficiarem mais com essa medida”, disse Santiago Fernandez de Maussion, agricultor de Jesús María, província de Córdoba. “Agora eles conseguem negociar preços com vantagem, enquanto eu estou lutando para ter algum lucro.”
Os comerciantes também podem estar em apuros. Eles prometeram 12,4 milhões de toneladas de soja entre outubro e março do ano que vem, antes da próxima colheita. E, no entanto, os estoques nos Pampas estão reduzidos. Com isso, os produtores têm mais poder de barganha.
“O programa especial desencadeou uma onda de vendas de safras”, informou Ciara-Cec, principal grupo exportador e de esmagamento da Argentina, que inclui todas as principais tradings como membros, em uma publicação no X. “As tradings continuam operando nos mercados de grãos para cumprir todos os contratos de exportação, como de costume.”
Até 24 de setembro, os produtores haviam vendido mais de 35 milhões de toneladas, ou 62% do estoque total estimado de 57 milhões.
“Os produtores com grãos que sobraram são os que têm poder de barganha para mantê-los em silos, então eles têm alavancagem”, disse Javier Preciado Patiño, consultor que atuou como chefe de mercados agrícolas da Argentina de 2019 a 2022.
Soja mais cara
Eles já estão ganhando no cabo de guerra. As ofertas de soja giram em torno de US$ 350 a tonelada, em comparação com menos de US$ 300 antes do alívio tarifário, de acordo com a Junta Comercial de Rosário. Isso significa que os comerciantes estão repassando cerca de 60% do benefício enquanto lutam para cobrir os compromissos, de acordo com a analista de mercado Lorena D’Angelo.
O próprio Milei apontou os preços mais altos como prova de que os agricultores estão colhendo uma parte dos lucros inesperados.
Ainda assim, os produtores — um bastião de apoio ao presidente Milei — continuam chateados com a inclinação da balança a favor dos grandes traders.
Isso aumenta a frustração em relação a Milei, por não ter cumprido a promessa de liberar a agricultura. A produção argentina tem sido prejudicada há duas décadas por intervenções governamentais e está ficando cada vez mais atrás do Brasil.
“Assumimos o maior risco e, no entanto, carregamos o fardo novamente”, disse Augusto McCarthy, agricultor de Navarro, província de Buenos Aires. “Os exportadores não deveriam ficar com nada do que é nosso por direito.”
O BNDES e o Banco de Exportação e Importação da China (CEXIM) concordaram em criar um fundo de US$ 1 bilhão que investirá em setores como transição energética, infraestrutura, mineração, agricultura e inteligência artificial.
O banco brasileiro fornecerá US$ 400 milhões e o CEXIM, US$ 600 milhões, de acordo com comunicado. O novo fundo, que começará a operar em 2026, investirá em títulos de dívida e participações acionárias no Brasil.
O BNDES e a CEXIM já assinaram um termo de compromisso e uma declaração de intenções para cooperar na estruturação do fundo.
Segundo o diretor de Planejamento do BNDES, Nelson Barbosa, a iniciativa é o primeiro fundo bilateral entre uma instituição brasileira e uma chinesa, operando principalmente por meio de investimentos em reais.
“Esta parceria entre as duas instituições fortalecerá o relacionamento comercial e econômico entre Brasil e China”, disse ele durante a cerimônia de anúncio do fundo, que aconteceu no Rio de Janeiro.