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Da recuperação judicial à Bolsa de Valores de Nova York: a virada da Azul em menos de um ano

26 de Maio de 2026, 22:36

Doze meses — essa é a distância que separa dois eventos importantes e de dimensões completamente distintas da história da Azul Linhas Aéreas: o processo de recuperação judicial nos Estados Unidos e o anúncio da estreia em uma das bolsas de valores mais importantes do mundo, a NYSE American.

De lá pra cá, o caminho não foi simples. A Azul enfrentou uma trajetória cheia de obstáculos, marcada por uma das maiores crises do setor aéreo brasileiro, uma fusão frustrada com a concorrente Gol e uma renegociação bilionária com credores que redesenhou por completo o balanço de uma das maiores companhias aéreas do Brasil.

A crise que levou ao Chapter 11

Quando recorreu à Justiça de Nova York, em 28 de maio de 2025, a Azul carregava o passivo acumulado de anos de turbulência. A dívida havia alcançado R$ 31,35 bilhões no primeiro trimestre de 2025, mais de 50% superior à de um ano antes. Os fatores somavam os efeitos prolongados da pandemia sobre a demanda, a valorização do dólar, atrasos na entrega de aeronaves pelas fabricantes e as enchentes que mantiveram o aeroporto de Porto Alegre (uma das principais bases da companhia) fechado por meses em 2024.

A decisão de pedir socorro à Justiça americana, e não à brasileira, tinha lógica. No Brasil, a lei não permite que dívidas de leasing de aeronaves entrem no processo de recuperação judicial, e como boa parte da frota da Azul é arrendada, ficaria de fora qualquer renegociação.

Além de permitirem incluir esses contratos, os EUA oferecem o financiamento DIP (sigla em inglês para debtor-in-possession, ou “devedor em posse”), uma linha de crédito desenhada para companhias em reestruturação, em que o credor entra na frente dos demais na fila de recebimento. É esse dinheiro que mantém a empresa operando, pagando salários e voando, enquanto o plano de reorganização é negociado. Sem ele, a Azul teria pouca margem para sobreviver à travessia.

Mas a companhia chegou à Justiça de Nova York preparada. Levou para o tribunal acordos pré-arranjados com seus principais credores. O pacote previa cerca de US$ 1,6 bilhão em financiamento durante o processo, o corte de mais de US$ 2 bilhões em dívidas e até US$ 950 milhões em novos aportes na saída. Era um plano costurado para encurtar a rota.

Leia também: Azul anuncia entrada na bolsa de valores de Nova York após reestruturação financeira

Uma fusão que naufragou

No meio do processo, um capítulo paralelo se encerrou. Em setembro de 2025, a Abra, controladora da Gol, e a Azul anunciaram o fim das negociações para uma possível fusão — uma união que vinha sendo costurada desde janeiro daquele ano e que criaria a maior companhia aérea do Brasil, com cerca de 60% do mercado doméstico. O negócio esbarrou em obstáculos como o descompasso financeiro entre as duas empresas, pressões políticas e a perspectiva de uma análise concorrencial complexa pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

No mercado, as ações da Azul dispararam 17,1% no pregão seguinte ao anúncio do fim das tratativas. Para os investidores, a desistência era menos uma derrota do que uma libertação. Afinal, sem o peso da negociação com a Gol, a Azul podia finalmente concentrar suas energias em colocar a própria casa em ordem.

Saída em tempo recorde

E foi o que aconteceu. Em 20 de fevereiro de 2026, menos de nove meses depois de ter pedido o Chapter 11, a Azul anunciou a conclusão do processo — uma das saídas mais rápidas entre as companhias aéreas da América Latina que passaram por reestruturações parecidas na última década. A empresa emergiu mais leve, com US$ 850 milhões em capital novo, US$ 2,5 bilhões a menos em dívidas e obrigações de leasing, além da menor alavancagem da história.

Os primeiros resultados pós-reestruturação, divulgados em maio, confirmaram a virada. A Azul reportou prejuízo ajustado de R$ 44,4 milhões no primeiro trimestre, queda de 97,6% em relação ao mesmo período do ano anterior, quando a empresa ainda afundava em vermelho. O Ebitda atingiu R$ 1,7 bilhão, recorde para um primeiro trimestre, com margem de 31,1%. A liquidez praticamente dobrou em um ano, chegando a R$ 4,7 bilhões. Era uma companhia diferente da que havia entrado no tribunal de Nova York.

Leia também: Azul registra melhor março da história com alta de 170% nos fretamentos e maior pontualidade do Brasil

A chegada a Wall Street

Foi nesse cenário que veio o anúncio desta terça-feira (26). A Azul informou ao mercado que teve aprovada a listagem de suas ações na NYSE American, em Nova York. A negociação começa em 1º de junho.

Mas a estreia em Wall Street é só uma escala. A própria companhia já avisou que pretende migrar para a New York Stock Exchange (NYSE), a bolsa principal, logo no início de julho.

“A nossa listagem na NYSE American marca um momento decisivo para a Azul, à medida que saímos do nosso processo de reestruturação com uma posição financeira mais sólida”, afirmou John Rodgerson, CEO da empresa, em comunicado ao mercado.

Doze meses depois de bater à porta da Justiça americana pedindo socorro, a Azul aterrissa na mesma cidade — mas desta vez, para tocar o sino da bolsa.

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Botafogo tem 60 dias para apresentar plano de recuperação; veja os próximos passos

21 de Maio de 2026, 15:20

A Justiça do Rio de Janeiro homologou, na madrugada da última sexta-feira (15), o pedido de recuperação judicial da SAF do Botafogo. A decisão saiu na 2ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro e deu início oficial ao processo de reestruturação financeira do alvinegro.

O Botafogo declarou uma dívida de R$ 1,28 bilhão sujeita à recuperação judicial, enquanto o passivo total chega a R$ 2,5 bilhões. Com a homologação, o clube ganha proteção contra penhoras, bloqueios judiciais e riscos de rescisões envolvendo atletas.

Leia também: Botafogo deve R$ 1,1 bilhão só pela compra de jogadores; dívida total chega a R$ 2,5 bilhões

Prazo de 60 dias

A partir da decisão judicial, a SAF (Sociedade Anônima do Futebol) do Botafogo terá 60 dias para apresentar um plano de pagamento aos credores. O documento deve detalhar como o clube pretende reorganizar as dívidas e manter a operação esportiva funcionando.

De acordo com o alvinegro, a recuperação judicial cria um ambiente de previsibilidade e supervisão da Justiça, permitindo uma reorganização financeira mais estruturada. A SAF também afirmou que o objetivo é preservar empregos, proteger atletas, funcionários, parceiros comerciais e manter a competitividade dentro de campo.

A SAF Botafogo informa que, em continuidade ao processo de reorganização financeira já iniciado com o ajuizamento de medida cautelar, protocolou, na noite desta quinta-feira (14), pedido de Recuperação Judicial como medida necessária para proteger o clube, preservar suas… pic.twitter.com/EHPPujLQdm

— Botafogo F.R. (@Botafogo) May 15, 2026

Transfer bans da FIFA

Além dos motivos citados, a recuperação judicial também abre caminho para a suspensão dos recentes transfer bans impostos pela FIFA ao Botafogo. Em nota, o clube explicou que a entidade máxima do futebol já havia informado anteriormente que medidas cautelares não tinham o mesmo efeito jurídico dentro do processo formal de recuperação.

Por isso, o avanço para essa etapa se tornou essencial para proteger as atividades esportivas e evitar novos impactos no elenco e nas inscrições de atletas.

Leia também: Quem manda no Botafogo agora? Entenda a mudança após saída de Textor

John Textor e a Eagle Football

Ainda segundo a nota do clube, o Botafogo fez críticas públicas contra John Textor, ex-controlador da SAF, além de também criticar a Eagle Football. De acordo com o fogão, mais de R$ 900 milhões deixaram de retornar ao Botafogo nos últimos meses, enquanto outros ativos do grupo receberam investimentos relevantes.

O clube citou ainda aportes recentes de aproximadamente US$ 90 milhões no Lyon, time da França que também faz parte da Eagle Football. Para a SAF, a condução financeira da gestora agravou a crise e contribuiu para o cenário atual.

O Botafogo afirmou que tanto Textor quanto representantes da Eagle tinham conhecimento da gravidade da situação financeira e, mesmo assim, seguiram como beneficiários da estrutura que retirou recursos do clube sem recomposição de capital.

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