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Por que a Índia não deve mais exportar açúcar por vários anos

23 de Junho de 2026, 10:00

MUMBAI, 22 Jun (Reuters) – A Índia, que já foi o segundo maior exportador mundial de ⁠açúcar, deverá ter um excedente reduzido para exportação por pelo menos mais três safras, já que as condições climáticas ⁠do El Niño ameaçam a produção de cana e o aumento da demanda por etanol restringe a oferta.

Essas duas pressões devem manter milhões de toneladas de ‌açúcar fora do mercado mundial, reduzindo a oferta para importadores na Ásia, África e Oriente Médio e sustentando os preços de referência em Londres e Nova York.

Uma ausência prolongada da Índia dos mercados de exportação retiraria um importante fornecedor, à medida que os riscos climáticos e as políticas de biocombustíveis remodelam os fluxos globais do comércio de açúcar.

Entrevistas com ‌mais de uma dúzia de executivos do comércio e da indústria, fontes governamentais e agricultores mostram que a menor disponibilidade de cana e a crescente demanda por etanol deixarão pouco para exportação por vários anos, levando os corretores de empresas globais a alertar as sedes sobre a redução das oportunidades na Índia, segundo fontes do setor.

GOVERNO DEVE RESTRINGIR AS EXPORTAÇÕES

O açúcar é um tema politicamente sensível na Índia, maior consumidor mundial, onde doces são muito populares e muitas famílias de baixa renda dependem dele como fonte barata de calorias.

‘A oferta já está escassa na Índia, e agora o El Niño está se tornando um grande risco’, disse Rahil Shaikh, diretor-gerente da MEIR Commodities India, uma corretora com sede em Mumbai.

‘Se as chuvas ficarem aquém ⁠das previsões, ‌o plantio de cana será prejudicado e isso manterá a Índia fora do mercado de exportação de açúcar por pelo menos três anos, enquanto o Brasil e a Tailândia também podem ⁠ter suas safras afetadas pelo El Niño.’

O Brasil, principal exportador, também está destinando mais cana para a produção de etanol. A Tailândia, outro grande exportador, também pode ter sua produção afetada pelas chuvas reduzidas pelo El Niño.

A Índia exportou, em média, 6,8 milhões de toneladas métricas de açúcar por ano nas cinco safras até 2022-23 — cerca de 10% dos embarques globais. Este ano, após exportar cerca de 800 mil toneladas, a Índia suspendeu os embarques até 30 de setembro, o fim da safra.

As usinas precisam de aprovação do governo para exportar açúcar, e Nova Délhi provavelmente suspenderá as autorizações de exportação a cada safra, em vez de anunciar uma proibição plurianual, ​afirmaram fontes do governo e do setor com conhecimento do assunto.

No mês passado, um ministro de alto escalão do governo do primeiro-ministro Narendra Modi instruiu as usinas a priorizarem a disponibilidade no mercado interno e a não pressionarem por exportações, disseram as fontes sob condição de anonimato, uma vez que as discussões eram confidenciais.

O Departamento de ​Alimentação, Abastecimento Civil e Assuntos do Consumidor da Índia não respondeu a um pedido de comentário sobre as perspectivas para as exportações ou suas restrições sobre exportações.

EL NIÑO PREJUDICA AS PERSPECTIVAS PARA A CANA

As condições do El Niño devem enfraquecer as chuvas de monção na Índia este ano, levando-as ao nível mais baixo em 11 anos.

Chuvas abaixo da média, aliadas a uma precipitação em junho mais de 40% abaixo da média, levaram os agricultores a adiar o plantio.

‘Eu tinha planejado plantar variedades de cana de ciclo longo em junho, mas como todo mundo está falando sobre chuvas mais fracas, decidi adiar esse plano’, disse Sambhaji Patil, que decidiu cultivar soja em 2 acres (0,8 hectares) no distrito de Sangli, no estado ‌de Maharashtra, no oeste do país.

O proprietário de um viveiro, Suraj Chavan, disse que a demanda por mudas de cana ​caiu drasticamente nas últimas semanas.

É provável que os agricultores mudem para culturas que exijam menos água, o que poderia reduzir a área plantada com cana e a disponibilidade do produto na safra de 2027-28, disse Prakash Naiknavare, diretor-geral da Federação Nacional de Fábricas Cooperativas de Açúcar.

As autoridades locais começaram a promover culturas alternativas, como soja, feijão-guandu e outras variedades de leguminosas, na maioria das regiões produtoras de açúcar, e restringiram o abastecimento ⁠de água para irrigação.

A Índia deveria produzir 30,95 milhões de toneladas de açúcar ​nesta safra, mas a produção agora está estimada ​em 27,9 milhões de toneladas, abaixo do consumo anual de cerca de 28,5 milhões de toneladas, segundo estimativas do setor.

Como resultado, os estoques nas usinas no início da safra, em 1º de outubro, provavelmente cairão para cerca ⁠de 3,5 milhões de toneladas, o nível mais baixo em mais de três décadas, disse Shaikh, ​da MEIR.

Ao mesmo tempo, a Índia está promovendo uma maior mistura de etanol à gasolina e uma adoção mais ampla de veículos flex-fuel para reduzir a dependência do caro petróleo importado.

A demanda por etanol poderia mais que dobrar, passando dos atuais 12 bilhões a 13 bilhões de litros para cerca de 30 bilhões de litros (8 bilhões de galões) até 2039-40, à medida que o aumento da mistura de ​etanol na gasolina e a adoção de veículos flex-fuel ganham ritmo, sugerem as estimativas do setor.

‘A trajetória da demanda por etanol é incrivelmente forte’, disse Samir Somaiya, presidente e diretor-geral da Godavari Biorefineries. ‘A próxima fase da evolução da demanda será impulsionada pelo lançamento comercial de veículos flex-fuel.’

A Maruti Suzuki, maior ​montadora indiana, lançou este mês o primeiro veículo flex-fuel do ⁠país, enquanto a Hero MotoCorp lançou uma motocicleta flex-fuel.

A Índia eliminou este mês o imposto sobre a produção de gasolina misturada com níveis mais altos de etanol e lançou combustível com até 85% de etanol para apoiar a adoção ⁠de veículos flex-fuel.

As futuras políticas governamentais provavelmente darão prioridade à produção de etanol em detrimento das exportações de açúcar, afirmou B.B. Thombare, diretor-geral da Natural Sugar, no estado de Maharashtra.

A Índia poderia eventualmente ser forçada a importar açúcar se as perturbações climáticas relacionadas ao El Niño reduzissem drasticamente a área de cultivo de cana e a produção, disseram fontes do governo e autoridades do setor, com os comerciantes alertando que a oferta poderia ficar ainda mais restrita na safra de 2027-28.

‘Devido a um El Niño severo e à crescente demanda por etanol, não só as exportações da Índia seriam praticamente eliminadas, como também as importações para a Índia nos próximos anos poderiam se tornar necessárias”, disse Mohan Narang, diretor da K.S. Commodities, uma corretora de commodities em Nova Délhi.

(Reportagem de Rajendra ​Jadhav)

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Energia nuclear: por que a transição energética vai precisar dela? Confira a resposta no Empiricus Podca$t deste sábado (13)

13 de Junho de 2026, 09:00

A energia nuclear não é um tema tão frequentemente discutido entre os brasileiros. A depender do contexto, o assunto pode ser até um pouco estigmatizado. Porém, essa discussão voltou ao radar global, em tempos de guerra no Oriente Médio.

Com os conflitos entre EUA e Irã e o bloqueio do Estreito de Ormuz, o mundo ficou exposto a uma vulnerabilidade: sua grande dependência dos insumos de energia gerados e exportados pela região.

Enquanto isso, a demanda global por eletricidade não para de crescer, principalmente com o avanço da inteligência artificial e dos veículos elétricos. Para atender essa alta demanda em um mundo conflituoso, a energia nuclear voltou a ser mencionada como uma alternativa viável.

Mas por que energia nuclear, especificamente? E o mais importante: o que isso significa para o investidor brasileiro, que já está mais acostumado com outras teses de energia, como o petróleo?

Esse é o tema do Empiricus Podca$t deste sábado (13), que já está no ar. Assista na íntegra:

Os três fatores que justificam o retorno energia nuclear ao radar global

Segundo Jean Miranda, analista de commodities do BTG Pactual, o mercado de energia nuclear vinha “relativamente estagnado” nas últimas três décadas. O resgate de sua relevância se dá por “três ondas de longo prazo e duração” que “tendem a impactar o mercado positivamente”:

  • Alta demanda por energia em meio à corrida pela IA;
  • Transição energética;
  • Segurança energética em um cenário geopolítico estressado.

Tratando-se de inteligência artificial (IA), os analistas reforçam que “a IA precisa de energia limpa”, mas a energia eólica, por exemplo, é intermitente demais para atender a demanda com maior eficiência.

Já no âmbito geopolítico, em um mundo conflituoso, com a oferta de petróleo posta em xeque, “segurança energética se torna o eixo estratégico mais relevante”, segundo Matheus Spiess, estrategista da Empiricus Research, que conclui:

 “O mundo, por muito tempo, buscou eficiência, mas hoje está se reorganizando em torno de segurança. Alimentar, cibernética e energética”.

Energia nuclear também é parte essencial da transição para energia ‘verde’

“A energia nuclear é uma energia verde. Não é sustentável, por causa do urânio, mas é verde”, afirma Spiess. “Se você quiser migrar sua matriz econômica para energias verdes, vai precisar dela”.

Para o analista, a energia nuclear está no “mote de diversificação energética” global, e não pode ser ignorada. “É fundamental que você tenha mecanismos de farta geração de energia. Faz parte da corrida pela inteligência artificial. Ela entra justamente nessa dinâmica”.

Como o brasileiro pode se expor a uma tese aparentemente ‘distante’ do nosso mercado?

“Parece distante, mas há maneiras fáceis de aplicar esse dinheiro nessa temática”, afirma Spiess, que indica a facilidade de acesso ao mercado global atualmente.

É possível encontrar investimentos temáticos ligados ao urânio, principal matéria-prima da energia nuclear, por meio de contas internacionais disponibilizadas por bancos e corretoras brasileiras. Eventualmente, para os analistas, é um tema do qual o investidor não poderá fugir.

“Quando olhamos no longuíssimo prazo, é um assunto que o mundo não pode contornar. Vamos continuar vendo esses investimentos de forma crescente”, afirma Jean Miranda.

Para acompanhar a conversa na íntegra, e conhecer as recomendações de investimento dos analistas dentro do tema, clique no vídeo abaixo:

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Petróleo fecha em queda de 2% com avanços diplomáticos para encerrar guerra no Irã

21 de Maio de 2026, 16:44

O petróleo fechou em queda nesta quinta-feira, 21, após operar volátil, diante de novos avanços diplomáticos entre Estados Unidos e Irã para encerrar a guerra no Oriente Médio e reabrir o Estreito de Ormuz.

O petróleo WTI para julho negociado na New York Mercantile Exchange (Nymex) fechou em queda de 1,94% (US$ 1,91), a US$ 96,35 o barril.

Já o Brent para o mesmo mês, negociado na Intercontinental Exchange de Londres (ICE), encerrou em baixa de 2,32% (US$ 2,44), a US$ 102,58 o barril.

O petróleo zerou a alta no pregão após relatos de que Estados Unidos e Irã alcançaram uma versão preliminar de um acordo mediado pelo Paquistão. No texto, os dois países concordam com um cessar-fogo e se comprometem a garantir a livre navegação no Estreito de Ormuz e no Golfo Pérsico. Em troca, o Irã teria suas sanções suspensas gradualmente.

Mais cedo, o aiatolá Mojtaba Khamenei teria emitido uma diretriz determinando que o urânio enriquecido não deve deixar o Irã, um ponto de divergência nas tratativas com Washington. Horas depois, porém, uma autoridade iraniana negou os relatos. Já o presidente americano, Donald Trump, disse que os EUA vão receber esse urânio enriquecido.

Nos desdobramentos da guerra, o diretor-executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, alertou que o mercado global de petróleo pode entrar em uma “zona vermelha” entre julho e agosto. Segundo ele, pesam a combinação do pico sazonal de demanda no verão do Hemisfério Norte, o bloqueio das exportações no Estreito de Ormuz e a queda dos estoques mundiais.

Analistas da Capital Economics alertam que o caminho de volta à normalidade energética está ficando mais longo. Segundo eles, quanto mais tempo a interrupção nos fluxos de energia através do Estreito de Ormuz continuar, mais complexa será qualquer retomada eventual desses fluxos. “Os preços do petróleo só tenderiam a cair quando os fundamentos do mercado de petróleo melhorarem de forma significativa”, afirmam.

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Brasil tenta, de novo, expandir as ferrovias. Mas ainda falta combinar com os chineses

21 de Maio de 2026, 06:00

O Brasil já foi uma potência ferroviária. E ainda carrega resquícios desse passado: hoje, são 30,5 mil quilômetros de ferrovias espalhadas pelo país – mais que na França ou no Japão, dois países completamente rabiscados de linhas férreas. 

Só que, na vida real, esse número é bem menor. Dois terços da malha brasileira estão fora de serviço, inutilizáveis. Sobram, então, mais ou menos 10 mil quilômetros.

É basicamente que tínhamos no Brasil Império: quando Dom Pedro II deixou o trono, há 136 anos, o país somava 9,5 mil quilômetros de trilhos.

Agora, o governo federal tenta destravar um novo ciclo de expansão do setor. Ainda para 2026, o Ministério dos Transportes prevê oito leilões de ferrovias – três de linhas totalmente novas, as outras reciclando malhas já existentes. 

Os projetos somam 9 mil quilômetros de extensão e devem exigir R$ 140 bilhões em investimentos. É virtualmente impossível esperar que esse dinheiro saia diretamente do setor privado. Vai ser preciso muito financiamento estatal – seja do Brasil, via BNDEs, seja de forma indireta: via China, através das estatais de lá. É o que vamos ver mais adiante.

Porque a matemática segue implacável: ferrovias são um negócio caro. Cada quilômetro de trilhos custa, na média, R$ 27 milhões – mais de três vezes o valor de uma rodovia, em torno de R$ 8 milhões por quilômetro. O retorno pode levar décadas, e nem sempre vem.

Mesmo em países ricos, fazer essa conta fechar exige boas doses de subsídio do Estado. Na China, a expansão ferroviária foi liderada pela estatal China State Railway. Na Europa, estatais como a Deutsche Bahn, na Alemanha, e a SNCF, na França, até hoje bancam parte da operação dos trens, especialmente os de passageiros.

No Brasil, onde a malha opera sob regimes de concessão, poucas empresas foram capazes de fazer o negócio valer.

Desde os anos 1990, o país já privatizou a antiga malha estatal, lançou projetos ferroviários via Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e criou um regime de autorizações para que empresas construíssem ferrovias próprias. Nada bastou para que a malha voltasse a crescer de forma consistente. 

“Ao longo de décadas, houve um desenvolvimento enorme do setor rodoviário, novas estradas, aprimoramentos nas antigas, caminhões melhores. O transporte rodoviário no Brasil é muito barato”, diz David Goldberg, sócio-diretor da A&M Infra. “Por outro lado, as ferrovias ficaram estagnadas”.

A geografia dos trilhos brasileiros

Falar em ferrovias, no Brasil, é falar em cargas. 

O país tem hoje só duas linhas interestaduais de passageiros: a Estrada Vitória-Minas, entre Minas Gerais e Espírito Santo, e a Estrada Carajás, entre Pará e Maranhão. Ambas são operadas pela Vale. Não porque levar gente dá dinheiro para a mineradora, mas por obrigação. Ela precisa de trens para levar suas cargas, pesadas demais para caminhões, e os contratos de concessão ferroviária exigem abrir alguj espaço para passageiros nos comboios. 

Porque é isso. O grosso das ferrovias em operação por aqui transporta commodities. Em especial, minério de ferro. Em 2025, os trilhos brasileiros carregaram 406,6 milhões de toneladas de minério – 73% de tudo o que passou por nossas linhas férreas.

Boa parte desse volume opera num modelo verticalizado: a mesma empresa que extrai o minério controla também o caminho até os portos. Sozinha, a Vale movimentou 301 milhões de toneladas em suas ferrovias no ano passado.

“Quando a gente fala de mineração, o projeto perfeito é aquele que tem as três pontas: mina, ferrovia e porto”, diz Solange Costa, advogada do escritório Mello Torres e especializada no setor. 

Fora da mineração, a gigante do setor é a Rumo, a empresa de logística da Cosan, holding do empresário Rubens Ometto. O foco ali é oferecer transporte para o agronegócio – em especial, grãos. 

A companhia tem hoje a concessão de cinco malhas ferroviárias, mas devolverá ainda neste ano a Malha Oeste, cujo contrato vence em junho. O trecho já não transporta cargas desde novembro de 2025.

O motor do negócio na Rumo é outro: a Malha Norte, que liga o Mato Grosso ao Porto de Santos – e virou a principal rota de escoamento de soja e milho do Centro-Oeste.

Ainda assim, o agro ocupa um espaço relativamente pequeno nos trilhos brasileiros. Em 2025, as ferrovias transportaram 104,4 milhões de toneladas de itens agrícolas, 19% do que passou pelos trilhos.

Os novos leilões previstos para este ano tentam ampliar essa fatia. Em comum, elas têm o seguinte: buscam encurtar o caminho das commodities produzidas no interior do país até os portos no litoral.

Mapa da malha ferroviária brasileira mostra a concentração das linhas férreas nas regiões Sul, Sudeste e parte do Centro-Oeste, com destaque para trechos operados por grupos como Rumo, Vale, VLI e MRS Logística.
Ilustração: João Brito

Novos projetos

O projeto mais simbólico (e polêmico) dessa nova leva é a Ferrogrão. A linha foi pensada para ligar Sinop, grande produtora de grãos no norte de Mato Grosso, a Itaituba, hub hidroviário no Pará. De lá, as cargas seguiriam por hidrovias até portos do Norte do país. 

A proposta entrou na agenda federal em 2014, mas desde então ficou presa em disputas ambientais e judiciais. Para abrir caminho à ferrovia, uma lei de 2017 reduziu a área de proteção ambiental no Parque Nacional do Jamanxim, no Pará. A mudança foi parar no STF, que ainda não deu a palavra final.

O projeto também é questionado por órgãos de controle, que cobram estudos mais completos sobre os impactos ambientais e sobre povos indígenas na região. Em março, o TCU manteve a análise da concessão suspensa.

Dentro do pacote pensado para este ano, há também o Corredor Leste-Oeste, planejado para ligar áreas produtoras do Centro-Oeste aos portos da Bahia. A proposta prevê conectar, ao longo de 1,7 mil km, duas ferrovias em construção: a Fico, no Centro-Oeste, e a Fiol, na Bahia.

Também tem a Extensão da Ferrovia Norte-Sul, a espinha dorsal ferroviária do país. No traçado atual, ela liga Açailândia, no Maranhão, a Estrela d’Oeste, no interior de São Paulo. O novo projeto prevê expandir para o norte: de Açailândia até Barcarena, no Pará, onde fica o Porto de Vila do Conde.

Mapa destaca as principais linhas férreas que o governo pretende levar a leilão em 2026, incluindo projetos como Ferrogrão, Corredor Leste-Oeste, Anel Ferroviário do Sudeste e trechos das malhas Sul e Oeste.
Ilustração: João Brito

Show me the money

Para fazer esses projetos saírem do papel, algum apoio do Estado parece inevitável. Segundo o Valor Econômico, o governo negocia uma linha especial de financiamento no BNDES para as ferrovias. A ideia é oferecer prazos mais longos para pagar a dívida, até 60 anos, além de uma carência maior durante as obras, quando a ferrovia ainda não gera receita.

Outro caminho tem sido buscar capital internacional. Em especial, chinês. Em entrevista ao Brazil Journal, George Santoro, o atual Ministério dos Transportes, disse que cinco companhias chinesas estavam estudando projetos de ferrovias ou rodovias no país.

Por que China? Porque 70% da soja e do milho que eles importam vêm do Brasil. Arrumar a logística por aqui, então, é uma questão de segurança alimentar para o governo chinês. Para dar uma ideia: um dos maiores exportadores de soja brasileira para a China é a própria China, via Cofco, uma estatal que compra das fazendas daqui e manda para lá.

Do ponto de vista do governo chinês, faria sentido usar uma estatal de ferrovias para ampliar a malha daqui. Mesmo que a ferrovia em si não desse retorno, um transporte mais eficiente baixaria os custos do produto final para a grande enmpresa por trás de tudo: o governo XI Jinping.

George Santoro não citou nomes das companhias chinesas que podem ter interesse, mas algumas aparecem no radar.

A CCCC, estatal chinesa de infraestrutura, já fincou os pés no Brasil com participação no Porto São Luís, no Maranhão. Em 2025, representantes da empresa se reuniram com o Ministério dos Transportes e disseram acompanhar a carteira de leilões ferroviários, com interesse especial no corredor Fico-Fiol.

Outro nome forte é o da CRRC, maior fabricante de trens do mundo. A empresa também está no Brasil: é sócia do Grupo Comporte na concessão do Trem Intercidades, projeto de R$ 14 bilhões para criar um trem de passageiros entre São Paulo a Campinas.

Além disso, prepara uma fábrica em Araraquara, no interior paulista, com investimento inicial previsto de R$ 50 milhões. A unidade deve produzir trens para o Metrô de São Paulo e para o próprio Trem Intercidades a partir de 2026.

Trem produzido pela CRRC
Trem produzido pela CRRC (Divulgação)

O interesse chinês em mais projetos, porém, ainda não se traduziu em propostas concretas. Pela agenda do governo, o primeiro leilão dessa leva de oito está previsto para setembro, mas o edital ainda não foi publicado.

No setor, a visão é que destravar esses investimentos, com ou sem os chineses, segue sendo um desafio e tanto. “Hoje, eu não vejo isso tendo uma demanda 100% privada. Não enxergo essa viabilidade”, diz uma fonte com experiência no setor.

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Açúcar bruto atinge máxima de 5 meses com retomada da alta do petróleo

26 de Março de 2026, 18:36

Os contratos futuros do açúcar bruto na bolsa ICE atingiram uma máxima de cinco meses nesta quinta-feira, com a retomada da alta dos preços do petróleo em meio à incerteza entre os investidores sobre as perspectivas do fim da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã.

Um aumento sustentado nos preços do petróleo pode fazer com que as usinas de cana no maior produtor, o Brasil, e em outros países reduzam a produção de açúcar em favor do etanol.

O açúcar bruto subiu 0,32 centavo, ou 2,1%, a 15,87 centavos de dólar por libra-peso, depois de ter atingido uma máxima de cinco meses de 15,97 centavos mais cedo.

Sinais contraditórios emitidos anteriormente pelos EUA e pelo Irã sobre as negociações para acabar com a guerra no Oriente Médio deixaram os mercados nervosos, com as ações e títulos caindo em meio ao aumento do preço do petróleo.

O Brasil deve reduzir as exportações de açúcar na temporada 2026/27 em 14,2%, já que as usinas desviam a cana-de-açúcar para produzir etanol devido aos altos preços da energia, informou a consultoria Safras & Mercado na quinta-feira.

A AP commodities disse que, embora o açúcar esteja sob pressão devido aos modestos excedentes e à forte venda especulativa, é provável que surjam recuperações, mesmo que temporárias, dada a sensibilidade do adoçante aos riscos climáticos e a fatores ligados ao etanol.

A consultoria acrescentou que as posições vendidas dos especuladores, ou apostas na queda dos preços, são grandes, o que significa que há o risco de que muitos revertam o curso e apostem em ganhos de preços se suas posições permanecerem no vermelho por muito mais tempo.

O açúcar branco subiu 1,2%, para US$459,60 a tonelada.

Café

O café arábica caiu 8,45 centavos de dólar, ou 2,7%, para US$3,0765 por libra-peso, depois de ter atingido a máxima de sete semanas, de US$3,1950, na terça-feira.

A anomalia climática conhecida como El Niño deverá se desenvolver globalmente por volta do terceiro trimestre deste ano e deverá trazer secura e temperaturas mais altas até o início de 2027 para as áreas tropicais onde o café e o cacau são cultivados, informou a trader Sucafina.

O café robusta caiu 0,9%, para US$3.596 a tonelada.

Os negociantes do Vietnã, maior produtor de robusta, disseram que os agricultores não estão vendendo no momento e que aqueles que precisam cumprir contratos começaram a buscar grãos no Brasil e na Indonésia.

Cacau

O cacau em Londres fechou em alta de 28 libras, ou 1,2%, a 2.356 libras por tonelada.

O cacau está sob pressão da fraca demanda e de uma perspectiva geralmente favorável para as safras na África Ocidental, embora grande parte disso esteja precificada por enquanto.

O cacau em Nova York subiu 1%, para US$3.164 a tonelada, depois de cair 3,2% na quarta-feira.

Após petróleo, guerra no Oriente Médio ameaça disparar commodities agrícolas; veja onde investir

25 de Março de 2026, 20:36

A escalada da guerra entre EUA e Irã já incendiou as cotações de petróleo, e agora flerta com o próximo front: as commodities agrícolas. Com o risco de interrupção em cadeias logísticas e o encarecimento de insumos, o setor surge como a nova fronteira de um rali com contornos estruturais — e o investidor pode estar de cara com a oportunidade de bons retornos.

“Não é só uma ou outra commodity que está subindo, todas estão. A última que falta reagir são as agrícolas”, afirma Matheus Spiess, analista da Empiricus Research.

Na leitura dele, esse movimento não se explica apenas pela guerra no Irã, mas por uma mudança mais estrutural de cenário.

Ele avalia que o mundo pode estar à beira de um novo ciclo de alta das commodities, sustentado por fatores que vão além do curto prazo.

Tradicionalmente, commodities e dólar caminham em direções opostas: a moeda norte-americana mais forte costuma pressionar os preços das matérias-primas — e o inverso também é verdadeiro.

Spiess aposta em um cenário de enfraquecimento do dólar no horizonte estrutural, o que abriria espaço para uma valorização mais consistente das commodities.

“Episodicamente, o dólar pode se fortalecer, como vimos em março. Mas, estruturalmente, podemos estar perto de um novo ciclo em que o dólar volte para a média histórica”, afirma.

Por trás dessa visão está uma combinação de fatores macroeconômicos. Spiess cita o aumento da dívida dos Estados Unidos, o risco fiscal elevado e um movimento global de diversificação cambial.

Há também uma questão de posicionamento: na leitura dele, o dólar ficou “caro demais” desde a crise de 2008, enquanto commodities ficaram relativamente baratas.

Segundo Spiess, pode haver um movimento de busca estrutural por mais exposição em commodities.

O resultado, segundo o analista, é um ambiente propício para um novo ciclo de alta — com potencial de beneficiar países exportadores, como o Brasil.

Fertilizante mais caro, comida mais cara

O conflito, que já pressiona o petróleo e deve chegar às commodities agrícolas, também atinge um elo menos visível, mas igualmente estratégico: o mercado de fertilizantes, essencial para a produção de alimentos.

Nesta terça-feira (24), a Rússia anunciou a suspensão das exportações de fertilizantes por um mês, priorizando o abastecimento interno.

A medida se soma a um cenário de rotas marítimas alteradas, redução da produção no Golfo Pérsico e dificuldades no escoamento via Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um terço do comércio global desses insumos antes do conflito.

No Brasil, o efeito tende a ser direto: aproximadamente 40% dos fertilizantes usados no agronegócio passam pela região.

E o impacto nos preços já começou. A ureia, por exemplo, acumula alta de cerca de 50% desde o início da guerra, impulsionada também pelo encarecimento do gás natural — insumo essencial para sua produção.

Segundo Spiess, o efeito deve se espalhar rapidamente pela economia real. “Se o fertilizante ficar mais caro, os alimentos vão ficar mais caros. Então, há um medo inflacionário generalizado no Ocidente”, afirma.

Na avaliação dele, esse risco preocupa governos, inclusive nos envolvidos na guerra, como os Estados Unidos.

“Os governantes não querem isso para si, porque inflação acaba gerando impopularidade”, pontua.

Ele relembra que o próprio presidente norte-americano, Donald Trump, que neste ano passa por uma eleição de meio de mandato, deve se preocupar com a possível aceleração da inflação no país.

“Ele não pode se dar ao luxo de ver a popularidade cair ainda mais. Então, tem motivo para que o conflito acabe antes [da eleição]”, afirma Spiess.

Crise hídrica e risco de colapso no Oriente Médio

As preocupações não se limitam aos preços do petróleo, do fertilizante ou das commodities agrícolas. Segundo Spiess, há um risco estrutural mais grave se o conflito avançar sobre a infraestrutura da região.

“O Irã tem muito petróleo, mas não tem comida nem água em abundância. Grande parte do abastecimento passa pelo Estreito de Ormuz. Se isso for comprometido, você pode ter uma crise alimentar humanitária”, afirma.

Outro ponto crítico são as usinas de dessalinização existentes nas proximidades do Irã, essenciais para o abastecimento de água em diversos países do Oriente Médio.

Segundo Spiess, essas instalações não possuem proteção e um eventual ataque teria consequências imediatas.

“Se você ‘queimar’ essas estações, cidades inteiras, como a capital saudita, serão inviabilizadas”, alerta.

Apesar de, em tese, serem protegidas pelo direito internacional, ele pondera que esse tipo de regra vem perdendo força.

“Temos visto um enfraquecimento do direito internacional. As pessoas estão indo pela lei do mais forte. Então, o Irã, em um movimento de desespero, pode acabar atacando essas instalações”, afirma.

O que o investidor deve fazer diante desse cenário?

Spiess defende uma estratégia menos exposta à volatilidade direta das commodities e mais ancorada na geração de caixa.

A preferência, segundo o analista, é por empresas do setor, que conseguem capturar os ganhos do ciclo de alta com maior previsibilidade.

“Eu prefiro me expor a isso com fluxo de caixa em petróleo, por meio de ações do setor”, afirma.

Nessa leitura, o Brasil aparece bem posicionado. “O Brasil tem muito disso e pode se beneficiar. Se essa tese for verdadeira — e gente grande lá fora defende isso —, pode ser muito bom para os ativos brasileiros de maneira geral”, diz.

Entre as alternativas, o analista cita o ETF CMDB11, que permite acessar o tema de forma simples e diversificada.

“Você compra como se fosse uma ação e ganha exposição a empresas brasileiras de commodities”, explica.

Segundo Spiess, o produto reúne algumas vantagens: exposição ao fluxo de caixa gerado pelas commodities, forte presença em petróleo e gás (cerca de 40% da carteira), diversificação, baixo custo e boa liquidez — com prazos de resgate de cerca de dois dias.

Guerra no Irã impulsiona grãos, mas pressiona setor de carnes, diz BB Investimentos; uma ação pode avançar 82,2%

22 de Março de 2026, 10:00

As commodities agrícolas têm apresentado alta em meio ao conflito entre Estados Unidos e Irã.

De acordo com o BB Investimentos, as perspectivas para a soja e o milho são de crescimento para este mês, já para as carnes, os preços têm sido pressionados.

Em fevereiro, a soja teve bons resultados na bolsa de Chicago, com crescimento de 6,7% em comparação ao mês anterior. A alta partiu de perspectivas de maior consumo de grãos nos Estados Unidos, além da expectativa de exportação para a China, com a possível elevação do uso de óleo de soja para biocombustíveis.

Em março, a cotação da soja teve novas altas, após o início do conflito entre EUA e Irã. De acordo com o BB Investimentos, a cotação mais alta do petróleo influencia os valores das commodities agrícolas, “dado que a cotação dos biocombustíveis se correlaciona com a do petróleo”.

Já o milho, no mês passado, teve uma leve queda de 0,3% comparado a janeiro, devido a expectativa de redução do trade global dos EUA, com maior competição contra exportadores sul-americanos e pouco crescimento da demanda global. Todavia, a guerra também elevou a cotação do grão, que fechou a US$ 4,53 no dia 12 de março.

Pressão sobre os preços

No caso das carnes, as perspectivas a médio e longo prazo para o BB não são tão otimistas.

A carne bovina teve uma desaceleração no ritmo de abates, mas manteve um patamar de exportações elevado. Esse desequilíbrio tem pressionado os preços da arroba do boi gordo, que está sendo negociada em torno de R$ 350/@, segundo o banco.

Para a carne de frango e a carne suína, o cenário é semelhante: crescimento dos abates, mas níveis de exportação reduzidos, prejudicando a rentabilidade tanto no mercado internacional quanto no mercado doméstico.

A analista Georgia Jorge, que assina o relatório, indica uma expectativa de que esse cenário se mantenha nos próximos meses e impacte negativamente a lucratividade do setor ao longo de 2026.

Ainda assim, entre as recomendações, os frigoríficos foram destaque de fevereiro para o BB, com 3 recomendações de compra em Minerva Foods (BEEF3), JBS (JBSS32) e MBRF (MBRF3). Já em março, SLC Agrícola (SLCE3) fica em evidência, apontando para os melhores resultados nos preços dos grãos.

Veja todas as recomendações:

Empresa Ticker Cotação Mar (%) No ano (%) 12 meses (%) Preço-alvo 2026 Potencial (%) Recomendação
3Tentos TTEN3 15.02 -12.2 -8 4.8 20.8 38.5 Compra
Ambev ABEV3 15.1 -7.2 9 20.3 16 6 Neutra
Minerva BEEF3 4.39 -15.9 -23.8 -19.3 8 82.2 Compra
JBS JBSS32 79.34 -7.4 0.3 109 37.4 Compra
M. Dias Branco MDIA3 21.9 -6.4 -8.4 0.4 27.2 24.2 Neutra
Marfrig MBRF3 16.83 -18.6 -15.8 4.2 28.6 69.9 Compra
Ourofino OFSA3 27.5 12.2 19.6 29.3 24 -12.7 Neutra
SLC Agrícola SLCE3 18.09 9.8 26.8 18.7 18.4 1.7 Neutra
Boa Safra SOJA3 8.09 0.8 -10.5 -15.6 14.9 84.2 Neutra

O ouro ficou para trás? Bancos centrais freiam compras, mas guerra mantém metal em evidência

7 de Março de 2026, 12:12

As compras de ouro por bancos centrais globais perderam força no início do ano, pressionadas pela volatilidade nos preços do metal. Mas a escalada da guerra entre Irã e EUA no Oriente Médio ainda mantém a commodity em evidência como grande alternativa de acumulação de reservas ao longo de 2026.

O banco central da China, um importante referencial quando o assunto é a troca de reservas em dólar pelo metal, comprou mais ouro em fevereiro, estendendo sua sequência de compras para 16 meses.

O volume de ouro detido pelo Banco do Povo da China aumentou em 30 mil onças-troy (0,93 tonelada) no mês passado, chegando a 74,22 milhões de onças (2.308 toneladas), segundo dados divulgados no sábado (7). A compra estende a rodada mais recente de acumulação que começou em novembro de 2024.

O movimento do metal precioso nos últimos dias tem respondido a uma queda de braço entre forças distintas. As baixas mais recentes respondem ao fato de que os investidores costumam aproveitar situações de forte estresse não apenas para comprar o metal, mas para usá-lo como forma de fazer caixa, por meio da venda da commodity.

É basicamente levantar recursos para investir em títulos públicos considerados mais seguros para cada país. Esse movimento já vinha acontecendo conforme o ouro atingia recordes, momento em que embolsar o que já foi ganho é uma estratégia melhor.

Mas, em um segundo momento, depois de recuar recentemente, o ouro superou novamente a marca dos US$ 5 mil por onça, respondendo à volta da clássica procura por ativos mais diversificados e que funcionam como reserva de valor.

A redução de compras de ouro por bancos centrais no mundo consta em nota divulgada nesta semana pelo World Gold Council, entidade financiada por produtores do metal. As compras líquidas, lideradas por países da Ásia Central e do Leste Asiático, somaram cinco toneladas em janeiro, em comparação com a média de 27 toneladas nos 12 meses anteriores.

Mas a trajetória para 2026 tende a seguir positiva para o metal enquanto os conflitos durarem. “Os preços voláteis do ouro e a temporada de feriados podem ter levado alguns bancos centrais a fazer uma pausa”, escreveu Marissa Salim, analista do World Gold Council, em relatório. “Mas as tensões geopolíticas, que mostram poucos sinais de diminuir, provavelmente manterão a acumulação ao longo de 2026 e além.”

Petrobras? Não. Por que a Aura Minerals reaparece no radar com aumento dos riscos geopolíticos

6 de Janeiro de 2026, 16:27

O petróleo mal se mexeu após o ataque dos EUA à Venezuela, mas o mercado segue em estado de alerta. Para o investidor brasileiro, é natural que a atenção se volte à Petrobras, mas há um nome menos óbvio que pode ser atingido – e para o bem – por esse novo equilíbrio geopolítico: a Aura Minerals.

A Aura é uma mineradora de ouro. O ouro subiu 65% no ano passado – e a tendência é que a escalada continue. Depois do ataque americano ao governo venezuelano e da retirada de Nicolás Maduro do poder, o mercado rapidamente reagiu para um movimento de procura por ativos considerados defensivos – e o ouro subiu 2% em seguida.

É aquela coisa: quando não se sabe o que vai acontecer, o melhor é já ter uma proteção na carteira. Vale para um grande investidor, como vale para você.

Do lado “macro”…

Na frente macroeconômica, o grande ponto é: o ouro deve seguir avançando nesse ano. Os riscos geopolíticos, que eram apenas “risco” há um tempo, cresceram: agora, eles se tornaram um medo recorrente com a escalada das tensões na América Latina. Lembrando: em um mundo que já enfrenta conflitos entre Rússia e Ucrânia e no Oriente Médio.

Junto disso vem a deterioração das contas públicas em várias economias e o temor de pressões inflacionárias, que reforçaram o status do metal como instrumento de proteção.

Não só entre investidores. O ouro conta com um comprador sólido: bancos centrais. Eles vêm recorrendo ao ouro como alternativa para diversificar reservas além do dólar.

O ouro, afinal, não é imune a crises geopolíticas. Para a China, por exemplo, não interessa ter só dólares em suas reservas internacionais. Em última instância, eles podem ser confiscados pelos EUA – como aconteceu com a Rússia –, já que ficam na forma de títulos públicos. Logo, o país de Xi Jinping tem trocado paulatinamente suas reservas em dólar por ouro. Com o caso da Venezuela, o caldeirão geopolítico ganha mais temperatura. E o jogo fica mais favorável para o metal amarelo.

A China não está sozinha, claro. Turquia, Polônia, Cazaquistão e até o Brasil estão entre os maiores compradores. Não só por “medo de confisco”, mas porque a dívida americana está no maior nível desde 1946 (120% do PIB). Isso tira confiança no dólar – os EUA podem imprimir moeda para pagar, gerando inflação e corroendo o valor da moeda. Não dá para imprimir ouro. Logo, os bancos centrais correm para o metal amarelo.

A perspectiva de afrouxamento monetário nos Estados Unidos – que no fim do ano passado virou realidade – também tornou o metal mais atrativo. Um corte de juros reduz o custo de carregar um ativo que não paga cupom. Em outras palavras: o ouro não paga juros nem dividendos; por isso, quem tem o metal como investimento “deixa de ganhar” o que receberia em aplicações seguras, como títulos do Tesouro dos EUA. Se o juro cai, melhor para o metal.

Para este ano, muitas casas já trabalham com um cenário em que o ouro possa perder um pouco de força, mas sem afetar o ciclo atual do metal, que é de alta, consolidado na faixa entre US$ 3 mil e US$ 4 mil a onça (o equivalente a 31 gramas).

…e do lado “micro”

Depois de ser negociada na bolsa do Canadá, a Aura Minerals estreou na Nasdaq em julho de 2025, de olho em um aumento da liquidez de seus papéis. De lá para cá, teve enorme valorização na bolsa americana – e o BDR, a “versão brasileira” da ação lá fora, acompanhou o desempenho.

O que explica o descolamento do BDR da ação em Nova York é a variação do ouro, que foi mais relevante que a do câmbio e é melhor capturada pela ação diretamente lá fora.

Toda essa euforia é resultado da leitura sobre o momento operacional da empresa. Na frente de volumes produzidos, o crescimento estimado é de 39% em 2026 na comparação anual, segundo cálculos do BTG Pactual. O impulso deve vir sobretudo do aumento de produção na mina de Borborema (RN) e da plena atividade da mina de Serra Grande (GO).

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Os papéis estão entre os mais “esticados” da bolsa, quer dizer, avaliados como caros no comparativo com outras companhias de mineração – Vale, CSN Mineração e Usiminas entre os mais importantes. Ainda assim, partindo da premissa que o ciclo do ouro vai permanecer, a expectativa é de que a Aura apresente uma forte geração de caixa.

O fluxo de caixa livre – o dinheiro que sobra após os investimentos para manter e expandir as operações – equivaleria a aproximadamente 11% do valor de mercado. É um nível elevado, que indica que, em um único ano, a empresa gera caixa correspondente a mais de um décimo do que o mercado paga hoje por ela. Um fluxo de caixa forte estimula a compra do papel, portanto, porque representa um percentual muito grande do preço da ação.

Além disso, a Aura seria avaliada a cerca de 3,9 vezes o Ebitda (uma medida de lucro operacional) projetado para 2026, também nas contas do BTG. Essa é uma métrica calculada dividindo-se a dívida líquida pelo Ebitda e expressa quantos anos a empresa levaria para quitar suas dívidas usando todo o lucro operacional. Em linhas gerais, níveis abaixo de 2 vezes são considerados mais saudáveis, mas empresas com operações mais alavancadas pode acabar operando com relações mais altas.

O papel também negociaria com “desconto” em relação ao valor de seus ativos, já que o múltiplo que relaciona o preço da ação ao valor patrimonial (P/NAV) é de 0,68 vez. Ou seja: o mercado ainda atribui à companhia um valor inferior ao das minas e projetos que ela tem.

Por fim, a empresa teria capacidade de sustentar um dividend yield na faixa de 7% a 8%, ou seja, um retorno anual em dividendos equivalente a esse percentual do preço da ação, desde que mantidas as atuais condições de geração de caixa.

Ouro e prata despencam após investidores realizarem lucros com altas recordes

29 de Dezembro de 2025, 19:10

O ouro e a prata despencaram com a realização de lucros por parte dos investidores após uma forte alta no final do ano que levou ambos os metais a máximas históricas, sendo a baixa liquidez do mercado um fator que exacerbou as oscilações de preço.

O ouro à vista caiu até 5%, registrando a maior queda intradia desde 21 de outubro. Foi a segunda vez neste ano que o metal precioso despencou tanto em um único dia. A prata, por sua vez, declinou 11%, sua maior queda intradiária desde setembro de 2020. Ambos os metais apresentaram uma forte retração após atingirem novas máximas históricas, o que sinalizou que suas altas foram rápidas demais e prematuras.

“Não interprete movimentos bruscos como uma grande oportunidade”, disse Michael Haigh, chefe de pesquisa de renda fixa, investimentos e commodities do banco europeu Societe Generale, acrescentando que o final de cada ano tende a ser “muito ilíquido”.

Segundo Haigh, a queda desta segunda-feira (29) deve-se principalmente à realização de lucros após uma forte alta sazonal tanto do ouro quanto da prata. Historicamente, os metais preciosos apresentam uma forte valorização no final do ano e no início do ano seguinte. O ouro registrou ganhos de cerca de 4% nesse período nos últimos 10 anos, enquanto a prata normalmente subiu quase 7%, afirmou ele.

Os indicadores técnicos para o ouro corroboraram a queda, com o índice de força relativa (RSI) de 14 dias — uma medida do ímpeto de compra e venda — em território de sobrecompra nas últimas duas semanas. Isso sinalizou que a alta do ouro estava prestes a sofrer uma correção.

A situação é semelhante na prata, embora mais dramática: o metal branco valorizou mais de 25% desde meados de dezembro, com seu RSI permanecendo bem acima de 70. Uma leitura acima de 70 indica que muitos investidores compraram em excesso em um curto período.

O iShares Silver Trust, o maior fundo negociado em bolsa lastreado fisicamente em prata do mundo, caiu até 10%, registrando sua maior queda desde 2020.

A forte queda da prata na segunda-feira ocorreu horas depois de ela ter ultrapassado os US$ 84 por onça, impulsionada pela crescente demanda de investimentos chineses. Os prêmios para a prata à vista em Xangai subiram para mais de US$ 8 por onça em relação aos preços de Londres, o maior spread já registrado.

“O clima de especulação está muito forte”, disse Wang Yanqing, analista da China Futures Ltd. “Há muita expectativa em torno da escassez de oferta no mercado à vista, e isso está um pouco extremo agora.”

Algumas bolsas estão tomando medidas para conter o risco. As margens para alguns contratos futuros de prata na Comex serão aumentadas a partir de segunda-feira, de acordo com um comunicado do CME Group Inc. — uma medida que, segundo Wang, ajudará a reduzir a especulação.

Quando uma bolsa aumenta os requisitos de margem, os investidores precisam depositar mais dinheiro para manter suas posições abertas. Alguns especuladores não têm esse dinheiro extra e, portanto, são forçados a reduzir ou fechar suas posições.

Abalo da prata: maior queda intradiária desde 2021

A mais recente valorização da prata ocorreu apenas dois meses depois de o mercado de prata de Londres ter sofrido uma forte pressão, com os fluxos para fundos negociados em bolsa e as exportações para a Índia corroendo os estoques que já estavam criticamente baixos. Os cofres de Londres têm recebido fluxos significativos desde então, mas grande parte da prata disponível no mundo permanece em Nova York, enquanto os investidores aguardam o resultado de uma investigação nos EUA que pode levar a tarifas ou outras restrições comerciais.

Às 15h05 em Nova York, o ouro caiu 4,2%, para US$ 4.343,38 a onça. As ações de empresas ligadas ao setor de mineração de ouro também despencaram, com a Newmont Corp., a Barrick Mining Corp. e a Agnico Eagle Mines Ltd. caindo mais de 6%.

A prata à vista caiu 8,5%, para US$ 72,58 a onça, após ter atingido um novo recorde de US$ 84,01 a onça. A platina despencou 14%, enquanto o paládio caiu quase 16%, após ter registrado sua maior queda intradiária desde 2020.

Ouro e prata alcançam novos recordes na esteira da atuação bélica dos EUA

26 de Dezembro de 2025, 09:51

Ouro, prata e platina saltaram para novos recordes, ampliando um rali histórico de final de ano para os metais preciosos, com suporte da escalada das tensões geopolíticas e da fraqueza do dólar dos EUA.

O preço do ouro à vista subiu até 1,2%, para um pico acima de US$ 4.530 a onça. Atritos na Venezuela, onde os Estados Unidos têm bloqueado petroleiros e intensificado a pressão sobre o governo de Nicolás Maduro, aumentaram o apelo do metal precioso como porto seguro. Washington também lançou um ataque militar contra o Estado Islâmico na Nigéria em colaboração com o governo da nação africana.

A prata à vista para entrega imediata avançou pela quinta sessão consecutiva, subindo até 4,6% para ultrapassar os US$ 75 por onça. O recente avanço do metal branco foi impulsionado por fluxos especulativos e por persistentes desalinhamentos na oferta em importantes centros de negociação, após um histórico aperto de vendidos em outubro.

O índice Bloomberg Dollar Spot, um indicador fundamental da força da moeda americana, caiu 0,7% na semana, a maior queda desde junho. Um dólar mais fraco geralmente favorece o ouro e a prata.

O ouro ganhou cerca de 70% neste ano e a prata mais de 150%, com ambos os metais a caminho de seus melhores desempenhos anuais desde 1979. O intenso rali tem sido impulsionado por elevadas compras de bancos centrais, entradas em fundos negociados em bolsa e três cortes consecutivos da taxa de juros pelo Federal Reserve dos EUA. Taxas mais baixas são um fator favorável para os metais preciosos, que não pagam juros, e operadores apostam em mais cortes em 2026.

As medidas agressivas do presidente americano Donald Trump para reformular o comércio global, juntamente com as ameaças à independência do Fed, adicionaram ímpeto ao rali anteriormente neste ano. A demanda dos investidores também foi sustentada pelo chamado “debasement trade”, à medida que as preocupações com o aumento da dívida levam a uma retirada dos títulos soberanos e das moedas nas quais são emitidos.

A resiliência do ouro foi demonstrada por sua rápida recuperação após recuar de um pico anterior de US$ 4.381 em outubro, quando o rali foi considerado excessivo. A forte compra de ETFs tem sido um dos principais motores da recente valorização, com participações no SPDR Gold Trust, da State Street, — o maior ETF de metais preciosos — aumentando em mais de um quinto neste ano.

O rali da prata tem sido ainda mais espetacular do que o do ouro. Os cofres em Londres receberam fluxos consideráveis desde o aperto de outubro, embora grande parte da prata disponível no mundo permaneça em Nova York, enquanto operadores aguardam o resultado de uma investigação do Departamento de Comércio dos EUA sobre se as importações de minerais críticos representam um risco à segurança nacional. A revisão pode abrir caminho para tarifas ou outras restrições comerciais sobre o metal.

“Você tem muitas negociações ou posições no papel: agora precisa cobri-las com volume físico — e não há muita oferta para suprir essa demanda”, disse Manav Modi, analista de commodities da Motilal Oswal Financial Services. “Você precisa alimentar a prata no papel com prata real”, acrescentou.

Escalada do ouro aumenta em 40% as previsões de investimento na mineração brasileira

5 de Dezembro de 2025, 06:00
Complexo da AngloGold Ashanti em Minas Gerais. Foto: Divulgação

Ouro Preto, Sabará, São João del-Rei… No século 18, metade da produção mundial de ouro saía do Brasil – quase tudo dessas cidades mineiras e arredores. De lá para cá, as coisas mudaram. Minas ainda dá muito ouro, mas o país responde por apenas 2% da extração global: 84 toneladas em 2024. Somos o 15º no ranking mundial de produção.

Só que temos potencial para mais. “O Brasil possui grandes reservas geológicas de ouro no subsolo. E uma parte significativa ainda não está explorada”, diz Rafael Marchi, diretor para Infraestrutura da consultoria Alvarez & Marsal.  

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São pelo menos 2,4 mil toneladas em reservas. Isso coloca o Brasil entre as dez maiores reservas mundiais, com 4% do total. Um potencial interessante para um momento em que o ouro redefine seu patamar de valorização. São 155% na década. 60% só em 2025 – a US$ 135 o grama (ou US$ 4,2 mil a onça, como prefere o mercado).

Uma alta alimentada em grande parte por compras vorazes dos Bancos Centrais. Vários deles, a começar pelo da China, têm trocado parte de seus dólares pelo metal amarelo – seja por desafinidade geopolítica, seja por medo da dívida americana. Ela está no maior nível desde a Segunda Guerra Mundial (120% do PIB), o que enfraquece a credibilidade do dólar.

A expansão do ouro e a retração do dólar nas reservas dos BCs ficam nítidas a partir de 2020. Veja aqui:

Mas essas são outras histórias. O ponto é que a alta sustentada do ouro estimula investimentos nas pesquisas em busca de novas áreas de exploração, e de ampliar as que já existem. 

O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) revisou para cima as previsões de investimento das empresas na extração de ouro. O instituto faz esse cálculo para períodos de quatro anos. No ano passado, previram US$ 1,4 bilhões (R$ 8,1 bi) para o intervalo 2024-2028. Neste ano, aumentaram a estimativa para 2,1 bilhões (R$ 11,4 bi). Uma alta de 39%.

Trata-se da maior mudança de previsão entre todos os minerais, exceto terras raras – nesse caso, alta de 49% nas previsões de investimentos; um salto catapultado pela urgência americana de acabar com o monopólio chinês nesse quesito. Mas voltemos ao metal que brilha. 

Saint John d’El Rey 

Uma das companhias com investimentos robustos no Brasil é a sul-africana AngloGold Ashanti. Ela é a terceira maior produtora em território nacional, com 10,6 toneladas em 2024 (atrás da canadense Kinross e da Vale). E a mais antiga – de longe.

Começou por aqui há quase 200 anos, em 1834, quando a operação brasileira se chamava Saint John d’El Rey Mining Company – uma mineradora com capital britânico que recebeu autorização do Império para explorar ouro em Minas Gerais. 

Desde lá, a história dela segue uma linha contínua, com a empresa mudando de controle e de nome ao longo do tempo, até chegar na estrutura atual da AngloGold Ashanti. E hoje um destaque ali é justamente a tecnologia para seguir tirando ouro – de camadas cada vez mais profundas, conforme as minas a céu aberto vão se exaurindo.    

Ela opera a mina mais profunda do país, no complexo Operações Cuiabá (apesar do nome, ele fica em Minas Gerais, nos municípios de Caeté e Sabará). A mina tem 1,6 km de profundidade. É o ponto mais profundo do território brasileiro. 

E em sondagens recentes, a companhia identificou ocorrências de ouro 2,4 km abaixo da superfície. E a extração pode ser viável – a mina de Mponeng, na África do Sul e que já foi da AngloGold, extrai o metal precioso a 4 km de profundidade. 

Em sondagens recentes, a AngloGold identificou ocorrências de ouro a mais de 2.400 metros de profundidade (Divulgação)

Com operação em nove países, a AngloGold se programou para investir R$ 800 milhões no Brasil neste ano. O grosso do dinheiro envolve melhorias nas operações atuais. E uma parte (R$ 15 milhões) foi destinada a pesquisas greenfield – de prospecção de novas áreas.   

É devagar, devagarinho

O efeito da cotação do ouro nos resultados das mineradoras é óbvio. O lucro operacional (Ebitda) da AngloGold cresceu 109% no terceiro trimestre de 2025 pela comparação anual, a US$ 1,55 bilhão.  

“A valorização do ouro tem um efeito positivo para o setor como um todo, pois tende a atrair investimentos e estimular projetos em países com alto potencial geológico, como o Brasil”, diz Luís Otávio de Lima, presidente da AngloGold Ashanti para a América Latina. Ele assumiu a posição em junho deste ano, após o antigo comandante, Marcelo Pereira, ascender ao cargo de COO global. 

Na mineração, porém, não existe um “aperta o botão aí e dobra a produção”. Os projetos levam anos, décadas, para amadurecer. E com ouro a situação é ainda mais peculiar. Para extrair a quantidade que vai numa aliança (6 gramas), você precisa explodir pelo menos uma tonelada de rochas na mina. Haja expansão.

Por essas, a produção global de ouro cresceu apenas 2% entre o 3T24 e o 3T25, mesmo com um rali de 45% no preço do metal nesse intervalo. A do complexo Operações Cuiabá, de qualquer forma, avançou mais: 6%

Tal como no petróleo

O caso da AngloGold, por sinal, ajuda a explicar a dinâmica da mineração de ouro. Num aspecto, ela é parecida com a exploração de petróleo. Da mesma forma que junior oils compram campos maduros das majors, mineradoras menores costumam comprar ativos das maiores, com a ideia de explorá-los sob uma estrutura de custos mais enxuta. 

O caso mais recente nessa linha, em território brasileiro, aconteceu justamente entre a sênior AngloGold (faturamento US$ 5,8 bilhões/ano) e a canadense Aura Minerals, de menor porte (US$ 594 milhões/ano).     

Na última terça-feira (2), a sul-africana concluiu a venda da Mineração Serra Grande, que possui três minas subterrâneas e uma a céu aberto na cidade de Crixás (GO), para a canadense. Em 2024, a unidade produziu 2,5 toneladas de ouro, um pouco abaixo das 2,7 toneladas de um ano antes.

O acordo, anunciado em junho, foi fechado por US$ 76 milhões mais 3% em royalties sobre os lucros futuros da operação. Lima comenta que o ativo não fazia mais parte do plano estratégico da companhia: 77% da produção da AngloGold no país veio das operações em Minas Gerais. 

Agora ficam só elas no portfólio brasileiro da empresa – na mesma região onde ela já extraía ouro em 1834, nos tempos de Saint John d’El Rey Mining Company, quando o ouro era cotado a US$ 20,67 a onça. Contabilizando 194 anos de inflação do dólar, aliás, isso só US$ 760 em dinheiro de hoje, o que dá uma ideia da dimensão do rali pelo qual estamos passando agora. 

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