Alô, Brasil! Precisamos falar da Noruega (por Adriano Skrebsky Reinheimer)
Adriano Skrebsky Reinheimer (*)
Há quase uma década, um artigo detalhado circulou pelas redes sociais brasileiras exaltando o modelo norueguês de desenvolvimento. O texto, escrito em 2016, destacava algo que soava como heresia aos ouvidos liberais da época. A Noruega, um dos países mais prósperos do mundo, não devia seu sucesso ao livre mercado desregulado, mas, sim, à presença massiva do Estado em setores estratégicos, a um generoso sistema de bem-estar social e a políticas agressivas de conteúdo local e industrialização a partir do petróleo.
Passados dez anos, os números tornaram esse contraste ainda mais gritante e incômodo. Enquanto a capital da Noruega, Oslo, comemora indicadores socioeconômicos que beiram a fantasia, o Brasil ainda luta para se reerguer do desmonte promovido entre 2016 e 2022 pelos golpistas do lavajatismo de toga. Logo, o grito de “Alô, Brasil” nunca foi tão necessário.
É sabido que o debate econômico do século 20 foi marcado por duas visões antagônicas. De um lado, John Maynard Keynes defendia, com argumentos teóricos e estudos de casos, que o capitalismo, deixado à própria sorte, tende a crises cíclicas e ao desemprego crônico, exigindo a intervenção estatal para sustentar a demanda, garantir o pleno emprego e prover uma rede de proteção social que permita ao cidadão viver sem o medo permanente da miséria, o chamado Estado de Bem-Estar Social. Do outro, Milton Friedman e a Escola de Chicago advogavam o Estado Mínimo, no qual o governo deveria se limitar a poucas funções essenciais, deixando que a mão invisível do mercado alocasse recursos com máxima eficiência. Uma alucinação ultraliberal.
O que a experiência norueguesa demonstra, de forma cristalina e irrefutável, é a falência prática do mito friedmaniano e a validação histórica do modelo keynesiano de bem-estar social quando aplicado com seriedade institucional.
Posto isso, tem-se que um dos pilares mais sólidos do sucesso nórdico é o tamanho e a eficiência de sua máquina pública. Dados oficiais do Statistics Norway de 2025 revelam que cerca 33,5% de todos os empregos na Noruega estão no setor público.
São mais de um milhão de noruegueses dedicados a prover saúde, educação e infraestrutura de ponta. Esse número não é um desvio burocrático, mas uma política de Estado estável que reflete a decisão consciente de uma sociedade de que certos serviços não podem ser mercantilizados.
A presença estatal não se limita ao funcionalismo dos serviços essenciais. Lá, o governo controla diretamente as gigantes de infraestrutura como a Statnett e a Statkraft, além de manter o controle acionário da Equinor, a antiga Statoil, da Telenor e do maior banco do país, o DNB.
A diferença crucial para o Brasil é que esse gigantismo é sinônimo de eficiência e transparência radical, na qual a renda de qualquer cidadão é informação pública desde 1814, e não de aparelhamento político ou corrupção.
Portanto, no campo do petróleo, a comparação entre a sabedoria keynesiana norueguesa e o desastre liberal brasileiro é particularmente dolorosa.
Em 2025, o Fundo Soberano Norueguês atingiu a marca impressionante de 1,7 trilhão de euros, consolidando-se como a maior poupança coletiva do planeta. A lógica norueguesa é simples, o petróleo é da nação, não de um grupo de acionistas privados.
A criação da Petoro, 100% estatal para gerir a participação do Estado nos campos petrolíferos, e o controle estatal absoluto sobre a Equinor garantiram que as décadas de vacas gordas financiassem o futuro, não apenas o consumo presente.
Os indicadores colhidos em 2026 falam por si: PIB per capita superior a 95 mil dólares, IDH de 0,970 e Índice de Gini de apenas 25,3. A carga tributária de 40,6% do PIB é devolvida integralmente à população na forma de serviços públicos de excelência, exatamente como preconizava Keynes.
Ora, o que aconteceu no Brasil a partir do golpe parlamentar de 2016 foi um desastre estratégico com uma requintada crueldade ideológica. O processo que destituiu a presidenta Dilma Rousseff sob o pretexto frágil das “pedaladas fiscais” abriu as portas para uma agenda radical de desnacionalização do setor de óleo e gás.
A Operação Lava-Jato, conduzida por uma gangue paranaense, desempenhou um papel complementar devastador. Ao criminalizar a engenharia pesada nacional e demonizar qualquer relação entre Estado e iniciativa privada, a força-tarefa de Curitiba criou o ambiente perfeito para que a Petrobras fosse tratada como uma empresa maldita a ser desmontada.
Na sequência, o governo Jair, sob a batuta de um filhote da Escola de Chicago, um tal de Guedes, implementou dogmaticamente a cartilha do Estado Mínimo que Milton Friedman aplaudiria. Venderam-se refinarias, gasodutos, distribuidoras e campos de petróleo a preço de banana.
A política de Conteúdo Local, que obrigava as petroleiras a contratar fornecedores brasileiros, exatamente como a Noruega fez nos anos 1970 para criar seu cluster offshore, foi demonizada e extinta.
O resultado foi devastador e a Petrobras, que entre 2012 e 2015 investia mais de 40 bilhões de dólares por ano em plataformas e refinarias, viu esse número despencar para menos de 14 bilhões, passando-se a pagar dividendos recordes e destruindo a capacidade industrial do país.
Prontamente, faz-se fundamental não atribuir ao atual governo a responsabilidade por essa herança maldita. Quem assumiu o Planalto em 2023 encontrou uma terra arrasada e contratos draconianos assinados durante o período de desmonte. Modificar unilateralmente essas regras implicaria em ações bilionárias em cortes internacionais de arbitragem.
E não bastam decretos presidenciais ou a vontade do Executivo para reverter esse cenário; é necessária uma recomposição profunda das forças que ocupam o Congresso Nacional, hoje dominado por uma coalizão ultraconservadora, o Centrão fisiológico, que reúne a bancada evangélica pentecostal, a bancada militar/segurança pública e a poderosa bancada do agronegócio.
Infelizmente, para essa maioria parlamentar que aí está, a Noruega é uma abstração distante, uma “utopia socialista” que não merece estudo ou emulação. O que lhes interessa é a manutenção do status quo que financia suas campanhas e perpetua seu poder.
Nessa conjuntura, as eleições de 2026 assumem uma importância histórica que transcende a disputa partidária cotidiana. Não se trata apenas de escolher um presidente da República, mas de redefinir completamente a correlação de forças que define os rumos do país.
A reconstrução nacional passa, obrigatoriamente, pela eleição de governadores, deputados estaduais comprometidos com a industrialização de seus estados e com a defesa das empresas públicas municipais e estaduais. Passa pela eleição de deputados federais e senadores que compreendam que a soberania energética não é uma pauta “ideológica”, mas uma questão de sobrevivência nacional e de projeto de futuro. E passa, evidentemente, pela reeleição de um presidente que tenha coragem de enfrentar o ”rentismo” e o “colonialismo econômico” que nos foram impostos.
Assim, a Noruega nos mostra que soberania não é um conceito vazio, mas a capacidade e um país de ditar as regras do jogo para as multinacionais que querem explorar suas riquezas, de cobrar 78% de imposto sobre o lucro extraordinário do petróleo e ainda assim ser considerado o melhor lugar do mundo para se fazer negócios.
A transição energética não precisa ser um pesadelo de perdas e desemprego, como muitas vezes nos fazem temer. A própria Noruega, mesmo tendo construído sua riqueza com petróleo, lidera hoje o mundo em adoção de veículos elétricos e investe maciçamente em energia renovável, provando que é possível sair dos fósseis sem abrir mão do desenvolvimento, da justiça social e da soberania nacional.
O caminho é árduo, mas não impossível: exige planejamento, visão de futuro e a coragem de transformar a riqueza de hoje na infraestrutura do amanhã.
O mesmo fetiche privatista que entregou o petróleo nacional a preço de banana também explica o desastre ambiental e social da privatização do saneamento básico no Brasil. Onde, sob a desculpa da “eficiência”, assistimos à interrupção de obras, ao aumento abusivo de tarifas e à exclusão de milhões do acesso à água tratada e ao esgotamento sanitário.
Basta olhar para o triste espetáculo em Porto Alegre, onde, desde 2016, governantes insistem em entregar o DMAE para o “mercado”, ignorando que a gestão pública e comunitária da água é questão de soberania, saúde e dignidade, não de lucro imediato de acionista.
Alô, Brasil, enquanto tratarmos nosso pré-sal como uma maldição a ser terceirizada, e não como uma alavanca de desenvolvimento nos moldes do keynesianismo nórdico, e enquanto não elegermos um Congresso que permita reescrever os contratos abusivos herdados do período 2016-2022, de Temer e Bozo, seguiremos sendo o país do futuro que nunca chega.
A urna eletrônica de 2026 é o instrumento para retomarmos as rédeas do nosso destino. Que saibamos usá-la com a sabedoria norueguesa e a coragem que o momento exige.
(*) Engenheiro Civil, Servidor Público
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