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Quem fiscaliza a terceirização? (Coluna da ASERGHC)

Por:Sul 21
21 de Agosto de 2026, 11:12

ASERGHC (*)

A terceirização no serviço público costuma ser apresentada como uma solução administrativa: contrata-se uma empresa, ela fornece o serviço e o Estado supostamente ganha em eficiência. Mas o que acontece quando, dentro de um único hospital público, passam a atuar mais de 80 empresas diferentes?

Um levantamento exemplar realizado pelo SindSaúde Paraná ajuda a responder essa pergunta. A entidade analisou a escala de trabalho de agosto de 2026 do Hospital Regional do Sudoeste Walter Alberto Pecoits, em Francisco Beltrão, e encontrou um retrato impressionante da expansão da terceirização na saúde pública paranaense.

Nos 17 setores analisados, havia 458 trabalhadores. Destes, 204 eram servidores efetivos do Estado e cinco tinham vínculo com a Funeas. Outros 249 eram trabalhadores vinculados a empresas terceirizadas ou credenciadas. Isso significa que 54,4% dos profissionais identificados pelo sindicato não tinham vínculo direto com o Estado.

Em algumas categorias, a situação é ainda mais expressiva. Dos 99 enfermeiros encontrados na escala, 73 eram terceirizados, o equivalente a 73,7%. Entre os técnicos de enfermagem, metade dos profissionais não tinha vínculo público. E os 14 instrumentadores cirúrgicos identificados eram todos terceirizados.

Mas talvez o dado que melhor revele a dimensão do modelo seja outro: esses trabalhadores estão espalhados por mais de 80 empresas. Mais de 80 empresas diferentes atuando dentro de um único hospital público.

Isso significa profissionais trabalhando lado a lado, muitas vezes desempenhando atividades semelhantes, mas submetidos a empregadores diferentes, contratos diferentes, salários diferentes, direitos diferentes e relações distintas de trabalho. É uma fragmentação que não pode ser tratada como um simples detalhe administrativo.

O próprio SindSaúde chama a atenção para uma questão fundamental: o problema não são os trabalhadores terceirizados, que diariamente garantem o funcionamento dos serviços. O problema é o modelo adotado pelo Estado, que substitui progressivamente vínculos públicos permanentes por relações de trabalho fragmentadas e mais instáveis.

Os dados levantados pelo sindicato mostram que esse processo ocorre paralelamente à redução do quadro próprio da saúde no Paraná. Em 2014, o Quadro Próprio dos Servidores da Saúde tinha 8.963 trabalhadores. Em 2025, eram 5.967. Uma redução de 33,4%.

E isso ocorre mesmo depois da realização e homologação de concurso público para a saúde. Enquanto candidatos aprovados aguardam nomeação, o Estado continua recorrendo a processos seletivos simplificados e à contratação terceirizada. Em julho deste ano, foi lançado mais um edital para contratação temporária de profissionais.

O levantamento do SindSaúde Paraná é importante também por mostrar o papel que uma entidade dos trabalhadores pode cumprir. Ao olhar uma escala de serviço, contar vínculos, identificar empresas e comparar esses números com a evolução do quadro público, o sindicato torna visível uma transformação que, vista contrato por contrato, pode passar despercebida.

É justamente esse tipo de trabalho que precisamos fazer diante do avanço das terceirizações no Grupo Hospitalar Conceição.

Quantos trabalhadores terceirizados atuam hoje no GHC? Quantas empresas diferentes estão presentes dentro de seus hospitais? Em quais setores? Quanto esses contratos custam? Como são fiscalizados? E, principalmente, até onde a direção do GHC, identificada com o campo da esquerda, pretende levar esse modelo? Combatemos as políticas neoliberais de Sebastião Melo e Eduardo Leite, mas, aqui no GHC, a direção do Grupo Hospitalar Conceição adota práticas da mesma natureza ao ampliar terceirizações e avançar na perspectiva de uma Parceria Público-Privada. 

A experiência revelada pelo SindSaúde Paraná deixa uma advertência que não deveria ser ignorada: terceirização não é apenas contratar uma empresa para realizar determinado serviço. Quando esse modelo avança, ele pode modificar profundamente a composição da força de trabalho, fragmentar equipes e reduzir progressivamente a presença de trabalhadores com vínculo público permanente.

Por isso, antes de terceirizar mais, é preciso saber onde esse caminho está nos levando. E, sobretudo, quem está fiscalizando esse caminho.

(*) Associação dos Servidores do Grupo Hospitalar Conceição.

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As opiniões emitidas nos artigos publicados no espaço de opinião expressam a posição de seu autor e não necessariamente representam o pensamento editorial do Sul21.

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Saúde não é mercadoria: contra as PPPs e terceirizações no GHC (Coluna da ASERGHC)

Por:Sul 21
11 de Julho de 2026, 08:00

Coluna da (ASERGHC)

A ASERGHC manifesta seu repúdio às terceirizações e às Parcerias Público-Privadas (PPPs), que avançam sobre a saúde pública e ameaçam o caráter público, universal e gratuito do SUS.

No Grupo Hospitalar Conceição, o novo hospital é apresentado como símbolo de modernização e ampliação da capacidade de atendimento. A construção de um hospital público, moderno e 100% SUS, é uma necessidade legítima. O problema é o modelo escolhido: uma PPP entregará à iniciativa privada serviços essenciais ao funcionamento da instituição.

Chamados de “bata-cinza”, setores como higienização, manutenção, segurança, nutrição, logística, tecnologia, engenharia e apoio administrativo não são secundários. Eles sustentam a assistência. Não existe SUS forte com trabalhadores precarizados, serviços fragmentados e áreas estratégicas subordinadas à lógica do lucro.

A realidade das terceirizações no GHC já foi denunciada pela ASERGHC ao Ministério Público do Trabalho: trabalhadores receberam menos de mil reais e sofreram violações de direitos. Esse é o modelo que agora querem ampliar.

As PPPs representam uma privatização disfarçada. O patrimônio permanece público, mas a operação cotidiana passa a depender de contratos privados de longa duração. O Estado paga, empresas lucram e o serviço público perde autonomia, qualidade e capacidade de planejamento.

A ASERGHC é favorável à construção de um novo hospital, mas rejeita que essa necessidade seja usada para aprofundar a terceirização do GHC.

Hospital novo, sim. GHC terceirizado, não.

Defendemos investimento público direto, fortalecimento das equipes próprias, transparência total nos projetos, participação dos trabalhadores, controle social, chamamento de aprovados, realização de concursos públicos, reversão das terceirizações e revogação do modelo de PPP previsto para o novo complexo do GHC.

(*) Associação dos Servidores do Grupo Hospitalar Conceição

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SUS precisa de financiamento, gestão e respeito aos trabalhadores (Coluna da ASERGHC)

Por:Sul 21
17 de Junho de 2026, 08:00

ASERGHC (*)

Mais de 70% da população brasileira depende diretamente do Sistema Único de Saúde. Esse dado deveria orientar qualquer debate sério sobre os desafios da saúde no Brasil. Estamos falando do sistema que garante atendimento, vacinação, urgência, emergência, consultas, exames, cirurgias e cuidado cotidiano para a maioria do povo brasileiro.

O SUS é uma das maiores conquistas sociais do país. Mas nenhuma conquista se sustenta apenas com discurso.

Não existe SUS forte com subfinanciamento permanente. A saúde pública deixa de ser tratada como direito quando o orçamento aparece sempre como obstáculo, e não como instrumento para garantir cuidado à população.

O debate sobre a saúde costuma falar em filas, falta de leitos, demora em exames e cirurgias, dificuldade de acesso e falta de profissionais. Tudo isso é verdade. Mas esses problemas são resultado de escolhas políticas, de modelos de gestão e de uma lógica fiscal que insiste em adaptar as necessidades da população ao tamanho do orçamento disponível.

A pergunta deveria ser outra: quanto custa garantir saúde pública de verdade para um país como o Brasil?

No lugar dessa pergunta, o que se impõe é a lógica do ajuste fiscal. O governo federal anunciou novo bloqueio bilionário de despesas no Orçamento de 2026 para cumprir as regras fiscais. A Saúde também aparece entre as áreas atingidas. Na prática, o recado é conhecido por quem vive o SUS diariamente: o direito é universal, mas o financiamento segue limitado.

Essa contradição tem consequência concreta. Aparece quando o usuário espera meses por um exame ou tem uma cirurgia adiada. Aparece quando faltam trabalhadores em uma escala. Aparece quando a enfermagem é remanejada para tapar buracos da gestão. Aparece quando trabalhadores adoecem e depois são tratados como se o problema fosse individual, e não resultado de um ambiente de trabalho cada vez mais desorganizado e adoecedor.

O GHC deveria ser referência de fortalecimento do SUS. Pela sua história, pelo seu tamanho e pelo papel que ocupa na rede pública, deveria ser exemplo de gestão técnica, democrática, transparente e comprometida com trabalhadores e usuários. Mas o que se vê hoje é uma instituição pressionada por problemas internos graves, enquanto a direção assume novas responsabilidades fora da sua base original.

A gestão do Hospital Federal de Bonsucesso, no Rio de Janeiro, e do Hospital de Pronto-Socorro de Pelotas é apresentada como expansão da capacidade pública. Mas é preciso perguntar: com qual estrutura? Com qual planejamento? Com qual modelo de gestão? Com qual participação dos trabalhadores?

Não se trata de negar a importância de ampliar o atendimento à população. O SUS precisa crescer e responder às demandas reprimidas. Mas expansão sem base sólida não é fortalecimento. Pode ser apenas vitrine. Quando uma instituição não resolve problemas estruturais dentro das suas próprias unidades, assumir novas frentes de gestão pode significar mais improviso e mais distanciamento entre a direção e a realidade concreta do trabalho.

No lugar de anúncios grandiosos, o SUS precisa de serviços funcionando, equipes completas e valorizadas, processos organizados, chefias qualificadas, orçamento suficiente e respeito aos trabalhadores.

O problema central do GHC é a falta de gestão. As trabalhadoras e os trabalhadores sabem disso porque vivem essa realidade na prática. Sabem o que significa entrar em um plantão com equipe reduzida. Sabem o que significa ser deslocado sem critério. Sabem o que significa acumular tarefas que não fazem parte da sua função. Sabem o que significa ver a assistência ser comprometida por decisões tomadas por indicados políticos sem qualificação técnica.

A solução passa por financiamento adequado do SUS, valorização dos quadros de carreira e enfrentamento da precarização do trabalho. Passa também por reduzir o peso das indicações políticas, profissionalizar a gestão e democratizar as decisões.

Não se administra hospital público apenas com cargos de confiança assim como não é possível organizar uma rede complexa com improviso. Não se fortalece o SUS tratando trabalhadores como peça substituível em uma engrenagem desregulada. O GHC precisa enfrentar o adoecimento dos trabalhadores, os remanejamentos abusivos, a falta de dimensionamento adequado, a ausência de uma política efetiva de saúde do trabalhador e a fragmentação dos processos de trabalho. Precisa ouvir quem trabalha nos hospitais todos os dias.

Antes de vender soluções para fora, a direção precisa responder às denúncias de dentro.

Os desafios do SUS não serão resolvidos com expansão desordenada, bloqueio de recursos e gestão distante da realidade. Serão enfrentados com financiamento público adequado, gestão profissional, participação dos trabalhadores e compromisso real com a população.

O SUS que defendemos precisa ser universal, público, financiado e democrático. E o GHC que precisamos não é um laboratório de improvisos, nem uma plataforma de expansão para gestores. É uma instituição pública forte, comprometida com os usuários e capaz de cuidar sem adoecer quem cuida.

(*) Associação dos Servidores do Grupo Hospitalar Conceição

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As opiniões emitidas nos artigos publicados no espaço de opinião expressam a posição de seu autor e não necessariamente representam o pensamento editorial do Sul21.

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