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Analfabeto digitalizado: dados de conectividade e INAF revelam o impacto no eleitor

Artigo do publicitário, especialista em marketing político, Christian Jauch sobre conectividade e o impacto no eleitor.

Por Christian Jauch 

Vivemos um paradoxo silencioso e perigoso. Nunca tivemos tanto acesso à informação, estivemos tão conectados, e nunca foi tão fácil consumir conteúdo, opinar, compartilhar e reagir em tempo real.

Ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil separar informação de interpretação, dado de narrativa, conhecimento de impressão.

A promessa da internet era clara: democratizar o acesso ao conhecimento. E, de fato, isso aconteceu. O problema é que o acesso cresceu em uma velocidade muito maior do que a capacidade de interpretação.

E é nesse descompasso que surge um fenômeno central para entender o cenário político atual: o analfabeto digitalizado.

O que é o analfabeto digitalizado

O termo não descreve alguém desconectado, descreve exatamente o oposto. O analfabeto digitalizado é alguém profundamente inserido no ambiente digital. Está nas redes sociais, consome vídeos, lê manchetes, participa de discussões, recebe informação o tempo todo. Mas não necessariamente consegue interpretar o que consome.

Essa é a diferença central.

  • Consumir não é compreender.
  • Estar exposto não é entender.
  • Receber informação não é formar pensamento crítico.

E quando essa diferença escala para milhões de pessoas, o problema deixa de ser individual e passa a ser estrutural.

Os números mostram um país hiperconectado

Se olharmos apenas para conectividade, o Brasil parece um caso de sucesso. Os dados de 2024 mostram um cenário robusto:

MétricaDado (2024)Contexto
População Total203 milhõesBase para o consumo digital
Brasileiros acima de 16 anos160 milhõesPúblico-alvo para informação política
Linhas com acesso à internet270 milhõesInfraestrutura de conectividade
Pessoas conectadas168 milhõesUsuários ativos da internet
Presentes em redes sociais144 milhõesEngajamento em plataformas
Acesso via celular90%Principal meio de consumo de conteúdo

Além disso, o Brasil aparece entre os países mais conectados do mundo:

  • 2º lugar em tempo médio de uso da internet (9h13 por dia)
  • 3º lugar em presença em redes sociais
  • 5º lugar em número de usuários de internet

Se pararmos aqui, a leitura é otimista. Um país conectado, ativo, participativo. Mas essa é só metade da história.

Conectividade não é conhecimento

O erro está em assumir que acesso gera entendimento. Não gera. “A conectividade amplia a exposição. Mas não garante interpretação.” E é exatamente aí que entra o segundo conjunto de dados — muito mais incômodo.

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O acesso cresceu em uma velocidade muito maior do que a capacidade de interpretação. Foto: Pexels

O INAF 2024 revela o problema oculto

O Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF) de 2024 mostra que a capacidade de interpretação no Brasil é extremamente desigual. E, mais importante, revela que o problema não está apenas no analfabetismo tradicional. Existe uma camada muito maior de limitação cognitiva funcional, que impacta diretamente a forma como a informação digital é processada.

INAF: Distribuição de Capacidade de Interpretação

FaixaPercentualCapacidadeImpacto DigitalRisco Político
Analfabetos7%Não conseguem ler ou escrever frases simples.Extremamente vulneráveis a desinformação visual e áudio.Manipulação por conteúdo simplificado e emocional.
Rudimentares22%Identificam informações básicas em textos simples.Dificuldade em discernir fontes e contextos complexos.Formação de opinião baseada em manchetes e fragmentos.
Elementares36%Compreendem textos médios, com limitações de inferência.Podem ser enganados por narrativas bem construídas, mas superficiais.Vulneráveis a polarização por falta de análise aprofundada.
Intermediários25%Interpretam textos mais complexos, mas com dificuldade em abstrações.Capazes de filtrar parte da desinformação, mas ainda suscetíveis a vieses.Podem ser influenciados por argumentos emocionais ou populistas.
Proficientes10%Analisam, comparam e interpretam com profundidade e criticidade.Resistentes à desinformação, buscam fontes e análises diversas.Tomada de decisão mais informada e menos suscetível a manipulação.

Agora junta os dois mundos

Aqui está o ponto que pouca gente encara de frente:

  • o Brasil é altamente conectado (dados de 2024)
  • mas majoritariamente com limitações de interpretação (dados do INAF 2024)

Isso significa que temos milhões de pessoas:

  • expostas a um volume massivo de informação
  • consumindo conteúdo constantemente
  • participando do debate público

Mas sem necessariamente ter repertório crítico para filtrar, comparar e interpretar.

É isso que define o analfabeto digitalizado.

Contraste: Conectividade vs. Capacidade de Interpretação

AspectoRealidade (2024)Consequência
Acesso à Informação168 milhões de pessoas conectadas.Volume massivo de dados disponível a todo momento.
Capacidade de Interpretação65% da população com alfabetismo funcional rudimentar ou elementar (INAF 2024).Dificuldade em filtrar, analisar e contextualizar informações complexas.
Comportamento DigitalConsumo acelerado, fragmentado e via celular.Formação de opinião baseada em estímulos curtos e emocionais.

A ilusão do entendimento

O ambiente digital cria uma sensação de domínio. A pessoa vê um vídeo, lê uma manchete, acompanha um corte e rapidamente forma uma opinião. Mas essa opinião não vem de análise. Vem de exposição. Esse é um dos efeitos mais perigosos da hiperconectividade: a ilusão de que ver é entender.

E isso muda completamente a dinâmica do debate público.

O impacto direto da conectividade na política

Esse cenário altera o comportamento do eleitor. O consumo de informação deixa de ser linear e passa a ser fragmentado. O eleitor não acompanha processos completos, ele reage a estímulos, isso muda o jogo.

A disputa política deixa de ser apenas:

  • quem tem a melhor proposta
  • quem tem mais preparo
  • quem tem melhor histórico

E passa a ser também:

  • quem simplifica melhor
  • quem comunica mais rápido
  • quem gera mais identificação imediata

A ascensão da reação sobre a reflexão

O ambiente digital favorece a velocidade. E a velocidade favorece a reação.

Isso cria um cenário onde:

  • conteúdos curtos ganham espaço
  • interpretações rápidas se espalham
  • emoções têm mais peso que análise

Não porque as pessoas não sejam capazes de pensar, mas porque o ambiente não estimula esse tipo de comportamento.

O terreno perfeito para narrativas

Quando você combina:

  • alta conectividade
  • baixa capacidade média de interpretação (INAF 2024)
  • consumo fragmentado de conteúdo

Você cria o ambiente ideal para a circulação de narrativas simplificadas.

Narrativas que não precisam ser completas. Precisam apenas ser compreensíveis e replicáveis.

E é aqui que entra a inteligência artificial

Se já existe dificuldade de interpretação em um ambiente saturado de informação, o que acontece quando ferramentas passam a produzir conteúdo em escala, com aparência de autoridade?

A inteligência artificial não cria esse cenário, ela potencializa. Mas antes de tratá-la como solução, é necessário entender sua natureza. Porque existe um erro conceitual que precisa ser corrigido: a inteligência artificial não pensa.

E entender isso muda completamente a forma como as campanhas devem usar a tecnologia.

Eu aprofundo esse ponto no próximo artigo da série

Leia também: Inteligência Artificial não pensa: por que ela só amplifica quem a comanda

Conclusão

O problema não é falta de informação. É excesso sem filtro.

O desafio não é o acesso. É interpretação.

E, no centro desse cenário, está um eleitor que participa, consome, reage — mas nem sempre compreende em profundidade o que está diante dele.

Isso não simplifica a política. Complica.

Porque exige não apenas comunicação, mas entendimento do ambiente em que essa comunicação acontece.

Reflexão

Se o Brasil nunca esteve tão conectado, por que a sensação de confusão só aumenta?

estamos formando uma sociedade mais informada…
ou apenas mais exposta?

E mais:

no ambiente digital, estamos estimulando o pensamento…
ou apenas acelerando a reação?


Sobre o autor

Christian Jauch é um publicitário com mais de 20 anos de experiência, especializado em branding, design, inovação, tecnologia, inteligência artificial, automação de processos, marketing político e comunicação governamental.

Estrategista político com duas décadas de experiência na integração entre tecnologia e comunicação em campanhas de todas as esferas (municipal, estadual e federal).

Atualmente, é especialista na aplicação tática de Inteligência Artificial para blindagem e estratégia eleitoral.

Há 12 anos, também lidera campanhas para a OAB. Membro do CAMP (Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político) e co-fundador da Alcateia Política. Mais artigos:

Outras reflexões sobre o tema podem ser lidas no blog: www.christianjauch.com.br


Os artigos dos colunistas expressam as opiniões individuais da autora ou do autor e não, necessariamente, refletem a opinião da TVT News

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O centro que tenta nascer em meio ao barulho dos extremos

Por Nilson Hashizumi


Há algo curioso acontecendo na política brasileira.

Enquanto os extremos seguem organizados, barulhentos e emocionalmente mobilizados, uma parte significativa do país parece ter entrado em silêncio.

Não é apatia.
É exaustão.

Exaustão de um debate que não avança, de posições que não dialogam e de uma lógica onde vencer parece mais importante do que governar.

É nesse espaço — difuso, fragmentado, ainda sem identidade clara — que surge, mais uma vez, a tentativa de construção de uma terceira via.

Mas há um detalhe importante que costuma ser ignorado:

O centro não nasce da ausência de extremos. Ele precisa ser construído como presença.

A engenharia política que tentou dar forma ao centro

No fim de janeiro de 2026, Gilberto Kassab fez um movimento que, à primeira vista, parecia reunir todos os elementos da racionalidade política.

Atraiu três governadores em fim de mandato — Ronaldo Caiado, Ratinho Junior e Eduardo Leite — e organizou uma espécie de “pré-seleção” para a disputa presidencial.

A ideia era simples, quase didática:

escolher entre os três aquele que tivesse melhores condições de competir, unificar o grupo e apresentar ao país uma candidatura de centro, moderada, dialogadora, sem os vícios dos extremos.

Na lógica da estratégia, fazia sentido.

Na lógica da política real, nem tanto.

Porque política não é apenas construção de cenário.

É disputa de percepção.

Quando o plano encontra a realidade

Ratinho Junior foi anunciado como pré-candidato.

Duas semanas depois, desistiu.

E esse movimento, que pode parecer apenas mais um capítulo da dinâmica eleitoral, na verdade revela algo mais profundo:

O centro ainda não encontrou o seu próprio chão

Com cerca de 7% das intenções de voto no início de março, segundo a Genial/Quaest, Ratinho ocupava exatamente o lugar onde muitas candidaturas de centro param:

existe, aparece, mas não se impõe.

É lembrado — mas ainda não é escolhido.

E na política, essa diferença é brutal.

O jogo que acontece fora dos holofotes

Enquanto o centro tenta se organizar, os extremos seguem jogando.

A reaproximação entre Jair Bolsonaro e Sergio Moro não é apenas um gesto político.

É reposicionamento de força.

É reorganização de território.

É mensagem para dentro e para fora.

Ao fortalecer o palanque no Paraná, ao mesmo tempo em que reconfigura relações internas, o campo conservador demonstra algo que o centro ainda não conseguiu fazer:

agir como bloco.

Já o centro, até aqui, se comporta como soma.

E soma, em política, raramente vence bloco organizado.

O dado que revela o espaço — e o problema

Se a movimentação das lideranças mostra o jogo político, os dados mostram o humor da sociedade.

E o humor é claro: o país está dividido — e cansado.

A pesquisa Genial/Quaest de fevereiro de 2026 mostra um cenário de equilíbrio tenso: 45% aprovam o governo Lula, enquanto 49% desaprovam.

Em março, a desaprovação cresce para 51%, com 44% de aprovação.

Não há ruptura.

Mas há desgaste.

E mais do que isso: há um dado que costuma passar despercebido —

os eleitores independentes, aqueles que poderiam sustentar uma candidatura de centro, não estão plenamente convencidos por nenhum dos lados.

O centro existe.
Mas ainda não se reconhece como escolha.

O erro recorrente: tratar o centro como estratégia — e não como identidade

Há um equívoco que se repete eleição após eleição.

Imaginar que o centro pode ser construído por engenharia política.

Não pode.

Centro não é posicionamento técnico.
Centro é percepção social.

Não se define em reunião.
Se constrói na trajetória.

Não se impõe por acordo.
Se conquista por confiança.

E aqui entra um ponto que deveria ser óbvio, mas raramente é tratado com a devida seriedade:

reputação não se improvisa em ano eleitoral.

Entre a intenção e a viabilidade

O movimento de Kassab tem mérito.

É, talvez, a tentativa mais estruturada dos últimos anos de dar forma a uma alternativa fora da polarização.

Mas esbarra em três barreiras que não se resolvem com articulação:

1. O eleitor não escolhe apenas com a razão — escolhe com identidade
E identidade, hoje, está ancorada nos extremos.

2. O centro não mobiliza — ainda
Porque não oferece pertencimento claro.

3. Visibilidade não é viabilidade
Ser conhecido não é o mesmo que ser escolhido.

E a política, no fim, é sobre escolha.

2026 não será uma eleição simples

Lula chega competitivo, mas sob desgaste.

O campo conservador se reorganiza e tenta reviver sua força.

E, entre esses dois polos, existe um eleitor que não quer repetir 2018, nem reviver 2022.

Mas querer algo diferente não significa saber o que escolher.

E esse é o espaço — e o desafio — da terceira via.

A travessia que ainda não começou

A pergunta não é se há espaço para o centro.

Há.

A pergunta é outra: há alguém capaz de transformar esse espaço em confiança?

Porque, no fim, é sempre sobre isso.

Trajetória gera reputação.
Reputação gera confiança.
E confiança é o que sustenta qualquer projeto de poder legítimo.

Sem isso, não há terceira via.

Há apenas tentativa.

Sobre o autor

NILSON HASHIZUMI

Nilson Hashizumi é estrategista de marketing político e corporativo, jornalista, fotógrafo, gestor de cultura e preparador de candidatos, grupos e agremiações políticas, com MBA em Comunicação Governamental e Marketing Político. Co-fundador da Alcateia Política, orientou, coordenou e defendeu candidatos majoritários em São Paulo e Pará e candidatos proporcionais em São Paulo e Minas Gerais.

Orientado a resultados, trabalha com visão de processos na gestão da comunicação on e off-line para a construção de reputação, imagem e formação de opinião. Atuou por mais de 30 anos na iniciativa privada, organizações da sociedade civil e entidades de classe antes de atuar em favor de entes políticos. Associado ao CAMP.

Especialista em campanhas e comunicação governamental, integra estratégias on-line e off-line na construção de imagem pública

Defende que reputação é patrimônio — construída pela trajetória, sustentada pela coerência e reconhecida pela confiança.


Os artigos dos colunistas expressam as opiniões individuais da autora ou do autor e não, necessariamente, refletem a opinião da TVT News

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