Nova safra de ETFs explora o variável da renda fixa – com opções para conservadores e agressivos
A ciência ainda não encontrou uma forma de viajar no tempo. Nem de parar o passar dos anos. Mas o mundo financeiro inventou uma maneira de congelar o “envelhecimento” de papéis de renda fixa: são os ETFs com prazo fixo.
Como assim? Esse tipo de fundo traz uma carteira de títulos atrelados à inflação: as NTN-Bs – ou IPCA+, como também são chamados no mercado.
A diferença é que a carteira gira o tempo todo com um objetivo específico: manter os fundos lá dentro sempre com a mesma data de vencimento – 2, 5 10 anos… a depender do ETF. Sempre: comprou hoje o de 2 anos, e os títulos lá dentro vão vencer, na média, em 2028. Comprou no ano que vem, eles vão vencer em 2029.
Para entender melhor, vamos examinar como a passagem do tempo afeta um título de renda fixa.
O cardápio do Tesouro Direto é farto em IPCA+. Tem o 2032, o 2040, o 2045, 0 2050… Datas de vencimento diferentes, mas sempre com uma coisa o comum: o valor final.
Esse é sempre o mesmo: R$ 4.740 em dinheiro de hoje (o nome técnico é Valor Nominal Atualizado). Ele sobe um pouco todo dia para se manter a par com a inflação. Mas é isso: daqui a 10 anos, 60 anos, seja qual for a data de vencimento, toda NTN-B vai valer R$ 4.740 em dinheiro de hoje.
A diferença é o tanto que você paga por cada uma. Aí vai variar de acordo com o vencimento. Um IPCA+2032 custa hoje (20 de agosto), R$ 2.990. A taxa de juro que ele paga neste momento é de IPCA+8,05%.
Isso significa, simplesmente, que R$ 2.981 rendendo IPCA+8,05% vai dar R$ 4.740 em dinheiro de hoje no ato do vencimento, dia 15 de agosto de 2032.
Agora, um IPCA+2050. Ele custa bem menos que o 2032: só R$ 874. Por que? Porque só vai se transformar no equivalente a R$ 4.740 num futuro distante. O juro ali nem é tão diferente: 7,30%. A diferença é que ele age por muito mais tempo.
Pois bem. A taxa de juro muda todo dia. O mercado vai ajustando de acordo com as expectativas para o futuro distante da Selic.
Só tem um detalhe. Uma mexida de no juro do 2050 significa uma variação de preço preço bem maior do que no 2032, já estamos falando em décadas de juros compostos a mais.
Se o juro do 2032 cai 0,3 ponto percentual (e vai a IPCA+7,75%), seu saldo sobe 1,68%.
Se o juro do 2050 cai 0,3 ponto percentual (e vai, nesse caso, a IPCA+7%), seu saldo sobe 6,95%.
Veja mais aqui na tabela:
É isso. Quanto mais longe o título estiver o vencimento, ou seja, quanto maior for o duration dele, no jargão, mais volátil é o título – mais sensível às oscilações de juros do dia a dia.
Quando você compra um título essa volatilidade vai diminuindo conforme o título envelhece. E basicamente zera quando o vencimento está bem próximo.
Quem tem um dinheiro para aplicar com um horizonte definido, por exemplo, aposentadoria ou a compra de um carro, o melhor é comprar um título que vence próximo ao momento no qual você vai precisar dos recursos. E pronto.
Mas nem todo investidor deseja isso. É perfeitamente possível ter uma tática constantemente agressiva, sempre em busca das variações maiores do títulos de longo prazo. E também é normal querer sempre o mar calmo do curto prazo – com menos chance de alta brusca, mas com risco menor de perda.
É para isso, então, que vieram os ETFs de prazo fixo. Como eles, é como se o relógio fosse reinicializado de tempos em tempos para manter o prazo constante.
Duas gestoras chegaram a esse segmento quase ao mesmo tempo.
A Nu Asset Management lançou em julho os ETFs NB0211, NB0511 e NB1011, cada um replicando um índice desenvolvido em parceria com a B3 para representar prazos fixos de 2 anos, 5 e 10 anos.
Poucos dias depois, a Galapagos Capital anunciou o lançamento simultâneo do 03BK11 e do 10BK11, com prazos constantes de 3 e 10 anos, seguindo o índice da Teva Indices.
Também dá para misturar prazos, buscando o “blend” ideal para cada apetite. Metade do dinheiro num de 2, de baixíssima volatilidade, e metade num de cinco (de volatilidade média), vai dar um prazo médio de 3,5 anos (volatilidade média-baixa).
Em um título de 2 anos, por exemplo, para cada ponto percentual de queda de taxa há um ganho de cerca de 2% no saldo em reais. No caso de um papel com prazo constante de 10 anos, a redução de um ponto gera um aumento de quase 10% no valor em carteira.
Bom momento para os longos
Os títulos IPCA+ têm pagado taxas entre 7,2% e 8,3% ao ano. Mas a mediana do juro real, ou seja, a parcela acima da inflação, nos últimos 16 anos é de 5,5%.
É razoável, portanto, esperar que em algum momento no futuro a curva de juros passe a convergir para esse ponto mediano. Isso favorece apostas nos títulos mais longos.
De 2016 a 2019, num período de queda nos juros de longo prazo, os títulos IPCA+ com prazos de 10 anos chegaram a registrar um ganho acumulado de 100%.
Temos uma oportunidade muito interessante pensando em médio e longo prazos”, afirma o sócio responsável por ETFs da Galapagos Capital, Bruno Stein.
Outro ponto importante dos ETFs de prazo fixo é a possibilidade de manter a duração constante do investimento em IPCA+, mas com melhor eficiência tributária
“Se você ficar rebalanceando a carteira de tempos em tempos para tentar manter um ‘duration’ [prazo de retorno] constante, vai ter a cada operação imposto de renda e outros custos”, explica Stein.
O que os números mostram
A Nu Asset realizou simulações com dados que remontam a 2010 até o momento atual para entender o comportamento dos ETFs em cada prazo.
Os três índices – de 2, 5 e 10 anos – convergem para retornos parecidos entre 11,2% e 11,3% ao ano no nominal. Isso equivale a um juro real de IPCA+5% ao ano.
A diferença relevante não está no retorno final, mas na trajetória até ele: o índice de 2 anos passou pelo período com uma queda máxima de 5,1%. Já o de 10 anos, mais sensível, chegou a cair 19,5% a partir da máxima.
Stein, da Galápagos, define os ETFs de duração fixa – principalmente os longos: “É um produto diferente, para quem sabe trabalhar com risco. Não é para quem busca uma reserva financeira.”

