Entidades cobram ação de deputados no licenciamento de fábrica de celulose em Barra do Ribeiro
Em carta enviada aos parlamentares gaúchos da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, o Comitê Técnico de Análise e Questionamento do EIA – RIMA do novo Projeto da CMPC Celulose, composto por entidades ambientais e organizações da sociedade civil, cobrou medidas objetivas para que o processo de licenciamento ambiental da nova fábrica de celulose em Barra do Ribeiro obedeça critérios técnicos e tenha transparência. O megaempreendimento da empresa CMPC está em processo de obtenção da licença ambiental na Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luís Roessler (Fepam).
“O rito do licenciamento deste projeto na Fepam, infelizmente, vem sendo atropelado, desde a aceitação, pelo órgão licenciador, por meio de um incompleto e inconsistente Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), de parte da empresa requerente”, aponta a carta, que diz que o processo de instalação da fábrica “vem acompanhado de intensa pressão econômica e política”.
O documento elenca os potenciais e perigosos impactos da nova planta, uma vez que, segundo as entidades que assinam a carta, a indústria de celulose figura entre as mais poluentes em escala global. O primeiro impacto já seria sentido na instalação do empreendimento. A área prevista para o empreendimento, na localidade de Barba Negra, tem biodiversidade elevada, constituindo-se como “Formações Pioneiras”, protegidas pela Lei da Mata Atlântica.
Algumas zonas foram classificadas pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) como “prioritárias” para conservação, com espécies ameaçadas e endêmicas presentes no local, fatores que motivaram a criação de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) pela própria empresa.
“Tais elementos foram ignorados no Estudo de Impacto Ambiental (EIA), e a tentativa da CMPC de desafetar parte da Unidade de Conservação, para viabilizar o empreendimento, é ambientalmente e juridicamente questionável, sobretudo diante da presença de espécies ameaçadas em raros ambientes de restinga na região do Guaíba”, critica o documento enviado aos deputados estaduais.
Ademais, o projeto apresentaria inconsistências graves na definição de sua localização. O documento afirma que não houve análise abrangente de locais alternativos para sua instalação, o que desconsiderou aspectos territoriais sensíveis como a elevada presença de aldeias Mbyá Guarani em Barra do Ribeiro. Ainda, a comunidade indígena não foi devidamente consultada no processo.
No começo de março, o Ministério Público Federal (MPF) recomendou a suspensão imediata do licenciamento ambiental do projeto até que as comunidades indígenas locais sejam devidamente ouvidas. As recomendações foram expedidas ao Ministério dos Povos Indígenas (MPI), à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e à Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), visando garantir a realização de consulta livre, prévia e informada, conforme preconiza a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Outro ponto sensível do projeto é a questão dos efluentes. Hoje, a CMPC despeja 154,4 milhões de litros de efluentes por dia no Guaíba de sua fábrica atual. A nova instalação prevê um despejo de 242 milhões de litros por dia. Assim, o Guaíba passaria a receber cerca de 396,4 milhões de litros de efluentes por dia vindos empresa, carga equivalente ao volume de esgotos gerados por uma população estimada em cerca de 2 milhões de habitantes, superior à população de Porto Alegre.
Segundo as entidades ambientais, entre os componentes dos efluentes da fábrica estão inclusos dioxinas e furanos, reconhecidos como Poluentes Orgânicos Persistentes (POPs). Os POPs são compostos de elevada toxicidade e longa duração no meio ambiente. O impacto das duas fábricas tornaria a região o “maior polo de poluição das indústrias de celulose do mundo”, conforme indica o documento.
Também há o problema da localização de despejo dos efluentes, a 4 km da margem de Barra do Ribeiro e a 3 km da margem do Belém Novo, em Porto Alegre. A carta destaca a possibilidade do despejo afetar a captação de duas estações de tratamento de água do DMAE. Os autores do documento entendem que o Relatório de Impacto “não considera adequadamente a complexidade da hidrodinâmica do Guaíba”.
Ao final da carta, as entidades e organizações que a assinam demandam que Fepam e a Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema) retomem “os critérios técnicos, autonomia, independência e transparência” no processo de licenciamento ambiental, garantindo também a realização de audiências públicas em Porto Alegre e demais municípios impactados pelo megaempreendimento.
Com investimento de cerca de R$ 25 bilhões da multinacional chilena CMPC, o chamado “Projeto Natureza” representa o maior investimento privado da história do estado do Rio Grande do Sul. A planta industrial planeja produzir por volta de 2,5 milhões de toneladas de celulose branqueada de eucalipto ao ano, e teve Barra do Ribeiro como território escolhido como uma estratégia de desenvolvimento da silvicultura na região. A outra planta de produção de celulose no RS, localizada em Guaíba, também é de propriedade da CMPC desde 2009 e produz cerca de 2,4 milhões de toneladas anuais.
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