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Escalada do ouro aumenta em 40% as previsões de investimento na mineração brasileira

5 de Dezembro de 2025, 06:00
Complexo da AngloGold Ashanti em Minas Gerais. Foto: Divulgação

Ouro Preto, Sabará, São João del-Rei… No século 18, metade da produção mundial de ouro saía do Brasil – quase tudo dessas cidades mineiras e arredores. De lá para cá, as coisas mudaram. Minas ainda dá muito ouro, mas o país responde por apenas 2% da extração global: 84 toneladas em 2024. Somos o 15º no ranking mundial de produção.

Só que temos potencial para mais. “O Brasil possui grandes reservas geológicas de ouro no subsolo. E uma parte significativa ainda não está explorada”, diz Rafael Marchi, diretor para Infraestrutura da consultoria Alvarez & Marsal.  

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São pelo menos 2,4 mil toneladas em reservas. Isso coloca o Brasil entre as dez maiores reservas mundiais, com 4% do total. Um potencial interessante para um momento em que o ouro redefine seu patamar de valorização. São 155% na década. 60% só em 2025 – a US$ 135 o grama (ou US$ 4,2 mil a onça, como prefere o mercado).

Uma alta alimentada em grande parte por compras vorazes dos Bancos Centrais. Vários deles, a começar pelo da China, têm trocado parte de seus dólares pelo metal amarelo – seja por desafinidade geopolítica, seja por medo da dívida americana. Ela está no maior nível desde a Segunda Guerra Mundial (120% do PIB), o que enfraquece a credibilidade do dólar.

A expansão do ouro e a retração do dólar nas reservas dos BCs ficam nítidas a partir de 2020. Veja aqui:

Mas essas são outras histórias. O ponto é que a alta sustentada do ouro estimula investimentos nas pesquisas em busca de novas áreas de exploração, e de ampliar as que já existem. 

O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) revisou para cima as previsões de investimento das empresas na extração de ouro. O instituto faz esse cálculo para períodos de quatro anos. No ano passado, previram US$ 1,4 bilhões (R$ 8,1 bi) para o intervalo 2024-2028. Neste ano, aumentaram a estimativa para 2,1 bilhões (R$ 11,4 bi). Uma alta de 39%.

Trata-se da maior mudança de previsão entre todos os minerais, exceto terras raras – nesse caso, alta de 49% nas previsões de investimentos; um salto catapultado pela urgência americana de acabar com o monopólio chinês nesse quesito. Mas voltemos ao metal que brilha. 

Saint John d’El Rey 

Uma das companhias com investimentos robustos no Brasil é a sul-africana AngloGold Ashanti. Ela é a terceira maior produtora em território nacional, com 10,6 toneladas em 2024 (atrás da canadense Kinross e da Vale). E a mais antiga – de longe.

Começou por aqui há quase 200 anos, em 1834, quando a operação brasileira se chamava Saint John d’El Rey Mining Company – uma mineradora com capital britânico que recebeu autorização do Império para explorar ouro em Minas Gerais. 

Desde lá, a história dela segue uma linha contínua, com a empresa mudando de controle e de nome ao longo do tempo, até chegar na estrutura atual da AngloGold Ashanti. E hoje um destaque ali é justamente a tecnologia para seguir tirando ouro – de camadas cada vez mais profundas, conforme as minas a céu aberto vão se exaurindo.    

Ela opera a mina mais profunda do país, no complexo Operações Cuiabá (apesar do nome, ele fica em Minas Gerais, nos municípios de Caeté e Sabará). A mina tem 1,6 km de profundidade. É o ponto mais profundo do território brasileiro. 

E em sondagens recentes, a companhia identificou ocorrências de ouro 2,4 km abaixo da superfície. E a extração pode ser viável – a mina de Mponeng, na África do Sul e que já foi da AngloGold, extrai o metal precioso a 4 km de profundidade. 

Em sondagens recentes, a AngloGold identificou ocorrências de ouro a mais de 2.400 metros de profundidade (Divulgação)

Com operação em nove países, a AngloGold se programou para investir R$ 800 milhões no Brasil neste ano. O grosso do dinheiro envolve melhorias nas operações atuais. E uma parte (R$ 15 milhões) foi destinada a pesquisas greenfield – de prospecção de novas áreas.   

É devagar, devagarinho

O efeito da cotação do ouro nos resultados das mineradoras é óbvio. O lucro operacional (Ebitda) da AngloGold cresceu 109% no terceiro trimestre de 2025 pela comparação anual, a US$ 1,55 bilhão.  

“A valorização do ouro tem um efeito positivo para o setor como um todo, pois tende a atrair investimentos e estimular projetos em países com alto potencial geológico, como o Brasil”, diz Luís Otávio de Lima, presidente da AngloGold Ashanti para a América Latina. Ele assumiu a posição em junho deste ano, após o antigo comandante, Marcelo Pereira, ascender ao cargo de COO global. 

Na mineração, porém, não existe um “aperta o botão aí e dobra a produção”. Os projetos levam anos, décadas, para amadurecer. E com ouro a situação é ainda mais peculiar. Para extrair a quantidade que vai numa aliança (6 gramas), você precisa explodir pelo menos uma tonelada de rochas na mina. Haja expansão.

Por essas, a produção global de ouro cresceu apenas 2% entre o 3T24 e o 3T25, mesmo com um rali de 45% no preço do metal nesse intervalo. A do complexo Operações Cuiabá, de qualquer forma, avançou mais: 6%

Tal como no petróleo

O caso da AngloGold, por sinal, ajuda a explicar a dinâmica da mineração de ouro. Num aspecto, ela é parecida com a exploração de petróleo. Da mesma forma que junior oils compram campos maduros das majors, mineradoras menores costumam comprar ativos das maiores, com a ideia de explorá-los sob uma estrutura de custos mais enxuta. 

O caso mais recente nessa linha, em território brasileiro, aconteceu justamente entre a sênior AngloGold (faturamento US$ 5,8 bilhões/ano) e a canadense Aura Minerals, de menor porte (US$ 594 milhões/ano).     

Na última terça-feira (2), a sul-africana concluiu a venda da Mineração Serra Grande, que possui três minas subterrâneas e uma a céu aberto na cidade de Crixás (GO), para a canadense. Em 2024, a unidade produziu 2,5 toneladas de ouro, um pouco abaixo das 2,7 toneladas de um ano antes.

O acordo, anunciado em junho, foi fechado por US$ 76 milhões mais 3% em royalties sobre os lucros futuros da operação. Lima comenta que o ativo não fazia mais parte do plano estratégico da companhia: 77% da produção da AngloGold no país veio das operações em Minas Gerais. 

Agora ficam só elas no portfólio brasileiro da empresa – na mesma região onde ela já extraía ouro em 1834, nos tempos de Saint John d’El Rey Mining Company, quando o ouro era cotado a US$ 20,67 a onça. Contabilizando 194 anos de inflação do dólar, aliás, isso só US$ 760 em dinheiro de hoje, o que dá uma ideia da dimensão do rali pelo qual estamos passando agora. 

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Ação em foco: Aura Minerals supera o próprio ouro e dispara na bolsa; há espaço para mais?

17 de Outubro de 2025, 17:51

O ouro não para de subir – e a Aura Minerals, mineradora canadense, também não. Desde a estreia na bolsa de Nova York, em julho deste ano, os papéis da empresa deslancharam e já sobem 49%; no Brasil, o recibo lastreado na ação (BDR), 52%. Enquanto isso, nesse mesmo período, o metal amarelo avançou 28%. Ou seja: a empresa está sob o efeito de um “combo” de fatores positivos, que vai além da valorização do ouro – e deve continuar atraindo a atenção dos investidores.

A ação da Aura é hoje um bom instrumento para o investidor tirar proveito da valorização do ouro. Mas é também um caminho de diversificação: o papel tende a ter um bom desempenho em períodos que podem ser negativos para a maioria das empresas e, portanto, pode servir de contrapeso para a carteira.

Momento dourado

Dos nove analistas que fazem o acompanhamento regular das ações da Aura, todos têm recomendação de compra para a empresa, fruto da confiança de que os resultados financeiros vão continuar fortes.

Uma das razões para esse otimismo, claro, tem a ver com o cenário favorável para o ouro. Com o ambiente geopolítico tenso e o enfraquecimento do dólar no mundo, a commodity vem ocupando o posto de “ativo de segurança”, o que explica a valorização recente. Ao que tudo indica, essa dinâmica deve prosseguir. E a Aura Minerals é uma das companhias que se beneficiam desse quadro.

Uma prévia desse desempenho já se viu na mais recente divulgação de dados operacionais da companhia: no terceiro trimestre deste ano, a Aura teve recorde de produção, com 74,2 mil onças equivalentes de ouro (GEO, em inglês). É um aumento de 16% em relação ao segundo trimestre e de 9% frente o terceiro trimestre de 2024. Números alinhados à meta da companhia de atingir uma produção entre 266 mil a 300 mil onças em 2025.

Os analistas do Itaú BBA classificaram a performance operacional como “levemente positiva”. E destacaram o retorno acima do esperado das minas de Apoena (MT) e Minosa (Honduras) e com aceleração da exploração na mina de Borborema (RN). A produção até setembro deste ano já equivale a 70% da projeção da companhia.

O ponto é que existe entre investidores a percepção de que a mineradora está bem preparada para tirar proveito desse cenário forte para a commodity. E o resultado da companhia já traz essa visão. No segundo trimestre, a mineradora reverteu o prejuízo que havia contabilizado em igual período do ano anterior e mostrou um lucro de US$ 8,1 milhões. A receita líquida, US$ 190,4 milhões, e o lucro operacional ajustado, de US$ 106 milhões, foram recordes.

“Com preços fortes do ouro e performance operacional estável, amparados por um controle forte de custos, esperamos que a Aura entregue resultados fortes no terceiro trimestre”, atestam os analistas do BTG Pactual, em relatório. A recomendação do banco para o papel negociado em NY é de compra.

O horizonte positivo para a mineradora vem também como resultado de projetos que devem acelerar os volumes produzidos. Em 2 de junho, Aura anunciou a compra da mina Serra Grande, em Goiás, por US$ 76 milhões. É uma planta que produziu perto de 80 mil onças em 2024. A nova mina e o aumento da extração em Borborema devem ter impacto total na produção da Aura em 2026, mas as expectativas devem já direcionar o interesse dos investidores ao longo dos próximos meses.

Canadá x Brasil

A Aura Minerals ainda não tem o tamanho de gigantes do setor, caso das canadenses Barrick e Agnico Eagle e da americana Newmont, mas nasce como uma importante produtora de ouro e cobre com operações nas Américas a partir da também canadense Canadian Baldwin Holdings, fundada em 1946.

Em 2006 teve o nome alterado para Aura Gold para focar exploração aurífera no Brasil e, mais tarde, foi reorganizada como Aura Minerals, após concluir em 2018 a fusão com a Rio Novo Gold (BVI). A chegada efetiva ao Brasil veio do redirecionamento estratégico de 2006, com a aquisição do complexo EPP (Ernesto/Pau-a-Pique), conjunto de minas de ouro no Mato Grosso, anunciada em 2015 e concluída em 2016, quando o novo controle acionário foi estabelecido.

O atual CEO da empresa, Rodrigo Barbosa, ocupa o cargo desde 2017. Hoje, a companhia opera com minas em Honduras e no México, além das plantas em Apoena (MT), Almas (TO) e Borborema (RN) e dos projetos de exploração em Carajás (PA) e na Colômbia.

Fundamentos para o ouro

No mercado internacional, o ouro fechou a semana com o maior ganho acumulado desde o colapso do Lehaman Brothers em setembro de 2008. Os contratos para dezembro da matéria-prima, o mais negociado no mercado, avançaram 6,75% em cinco dias. No ano, o ouro sobe 62%.

O metal vem marcando recorde após de recorde, acima de US$ 4.300 por onça, com os investidores na corrida por ativos de proteção para fugir dos impactos das tensões geopolíticas e comerciais, sobretudo com o vaivém nos atritos entre EUA e China. Um dólar mais fraco também ajuda a commodity, barateando o ouro para quem compra em outras moedas e ampliando a demanda global.

Os cortes de juros nos EUA também reduzem o custo de carregar um ativo que não paga cupom. Em outras palavras: o ouro não paga juros e nem dividendos; por isso, quem tem o metal como investimento “deixa de ganhar” o que receberia em aplicações seguras, como títulos do Tesouro dos EUA. Se o juro cai, melhor para o metal.

Um outro efeito que leva o ouro a perseguir novas marcas históricas são as compras pelos bancos centrais no mundo: depois de um pico histórico em 2024, as compras permanecem elevadas, com acréscimo líquido de 19 toneladas só em agosto, segundo dados compilados pelo World Gold Council a partir de relatórios ao FMI. O Banco Popular da China, por exemplo, reportou aumento de reservas por 11 meses seguidos até setembro.

Para a frente, há razões para a alta continuar, ainda que com volatilidade. Casas como HSBC e UBS apontam que o recuo dos juros reais e a provável continuidade da fraqueza do dólar mantêm o suporte ao ouro, enquanto a XP cita uma “visão construtiva” sobre os preços tanto pela continuidade das compras por bancos centrais, quanto pela “tendência contínua de desdolarização”.

Incentivo à liquidez

A Aura já era negociada em NY antes de realizar a oferta de ações (IPO, em inglês) que levantou US$ 200 milhões para o caixa, mas os papéis estavam no mercado chamado “over-the-counter” (OTC), um ambiente fora de bolsa em que empresas, sobretudo estrangeiras, podem ter seus papéis negociados sem fazer listagem tradicional. Para entrar no segmento, são precisos padrões rígidos de divulgação de informações e governança, mas a liquidez e a cobertura dos analistas são reduzidas.

Com o IPO na Nasdaq, a empresa ganhou visibilidade e aumentou a sua base de investidores. Quem apostou na empresa desde então recebeu outras boas notícias, como o pagamento de dividendos de US$ 0,33 por ação (US$ 0,11 por BDR). Para “destravar” mais valor aos papéis, a companhia também anunciou neste mês um programa de incentivo para converter BDRs (AURA33) em ações (AUGO) com isenção de taxas do banco depositário por 32 dias — medida que tende a reduzir eventuais desalinhamentos de preço entre Brasil e EUA.

Se considerado na conta o desempenho no acumulado apenas deste ano das ações da Aura, antes da migração para a bolsa de NY, o avanço é ainda mais estrondoso: AUGO subiu 230%, enquanto AURA33 teve ganho de 187%; o ouro avançou 62,5%. A diferença entre o desempenho no exterior e no mercado brasileiro tem a ver com a desvalorização do dólar frente ao real.

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