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A pergunta que os jornalistas não faziam a Trump. Por Moisés Mendes

27 de Abril de 2026, 20:22
Donald Trump sendo retirado as pressas pelos serviços secretos após tiroteio em jantar com a imprensa. Texto de Moisés Mendes comenta sobre a entrevista do presidente ao 60 minutes no dia seguinte.
O presidente estadunidense Donald Trump sendo retirado as pressas pelos Serviços Secretos. Foto: Bo Erickson/REUTERS

Um atirador obrigou Trump a dizer o que já deveria ter dito diante de jornalistas, pela imposição da profissão que faz perguntas, mas não com o auxílio da muleta de uma figura que teria tentado matá-lo: “Eu não sou estuprador, nunca estuprei ninguém. Eu não sou pedófilo”.

Foi uma jornalista a formuladora da pergunta, a partir da carta deixada pelo atirador para a família. Essa carta foi a muleta. A jornalista Norah O’Donnell, da CBS, só perguntou a Trump, no dia seguinte, se ele era o pedófilo citado no texto porque Cole Tomas Allen disse o que os jornalistas americanos se negam a dizer.

Allen escreveu antes da invasão do hotel onde se realizava o banquete, sem citar Trump: “Não estou mais disposto a permitir que um pedófilo, estuprador e traidor suje minhas mãos com seus crimes”.

Norah, ao entrevistar Trump na TV, leu esse trecho e pediu que ele o comentasse. Trump respondeu acusando a jornalista de ser uma pessoa horrível, e ela faz então a pergunta que ninguém tinha feito:

“Você acha que ele estava se referindo a você?”

Trump diz, pela primeira vez diante de uma pergunta direta, que não é pedófilo nem estuprador. O jornalismo já havia tido a chance de enfrentar Trump sobre o caso Epstein com uma pergunta assim: você é pedófilo e estuprador?

Em muitas ocasiões, ele foi confrontado com o andamento do caso na Justiça, mas não dessa forma: o atirador que fala em pedófilo e estuprador se refere a você?

Não é uma perguntinha protocolar sobre o que você acha das investigações, dos dossiês e dos depoimentos de vítimas da rede de pedofilia e prostituição, mas uma pergunta direta. Formulada a partir da acusação do atirador.

Quem teria a coragem de fazer essa pergunta durante a festa de gala em que jornalistas confraternizavam com o maior gângster mundial? Quem, entre os que se jogaram ao chão no banquete para jornalistas, perguntariam a Trump: você é pedófilo e estuprador?

A cena provocada pelo atirador expôs o cinismo do jornalismo que senta, come e bebe ao lado do poder que o atemoriza e o amordaça. Sem o atirador, não teríamos a pergunta e a reação de Trump. Allen pautou o jornalismo.

Um jornalismo de corporações de mídia americanas e de outros países que também continua, por falta de coragem, manchando as próprias mãos com o sangue de crianças, mulheres e idosos assassinados pelos foguetes de Trump e por soldados de cúmplices a seu mando. E o doente, segundo Trump, é o atirador.

Ombudsman da Folha admite que outros ‘autores’ usam IA mas ‘não querem falar’

22 de Março de 2026, 09:38
Texto da Ombudsman da Folha sobre IA. Foto: Reprodução

Alexandra Moraes, a ombudsman da Folha de S.Paulo, publicou um texto crítico neste sábado (21) sobre o uso de inteligência artificial (IA) nas colunas de opinião do jornal, admitindo que muitos autores utilizam a tecnologia, mas preferem não revelar essa prática. De acordo com o levantamento, 8,9% das colunas publicadas entre setembro de 2025 e fevereiro de 2026 contêm conteúdo gerado por IA, sendo que 2,6% delas possuem mais de 80% do texto produzido por máquinas. A ombudsman questiona a transparência do jornal em relação ao uso de IA e critica a falta de uma postura mais aberta sobre o tema:

Com base no caso do mês passado sobre o uso de IA em coluna da Folha, fiz um levantamento para ver como anda o uso da inteligência artificial em colunas do jornal. Contei com ajuda da própria IA para extração e compilação dos dados. O Claude, da Anthropic, entrou com o código, e a ferramenta Pangram foi usada para fazer a avaliação.

Os dados foram coletados no último 22 de fevereiro, com 3.732 colunas de opinião publicadas desde 1º de setembro de 2025 até aquele dia. A ideia era dar uma olhada nos quase seis meses anteriores àquela polêmica da IA.

Em 332 colunas, ou 8,9%, havia texto de IA, segundo a ferramenta. Mas isso ia de pequenos trechos até a quase totalidade dos textos. Esta última era o foco. Em 98 artigos, o texto detectado como de IA ocupava mais de 80% do conteúdo. Eles eram 2,6% do total avaliado —apenas colunas opinativas, sem colunas de notas, reportagens, análises etc.

No topo, estava mesmo Natalia Beauty. De 25 artigos, 18 apareciam com mais de 80% de conteúdo gerado por IA. Cabe lembrar que a Folha considera que a colunista se saiu bem em seus argumentos e não vê problema no modus operandi, pelo contrário. […]

A taxa de erro é de menos de 0,5% se desconsiderado o modelo o1 Pro, da OpenAI, que a eleva a 2%, segundo um estudo sobre o Pangram conduzido por uma pesquisadora da Universidade de Maryland (e também conclui que humanos acostumados a usar a IA generativa são a melhor ferramenta de detecção). […]

O ideal seria revelar os nomes e fazer uma discussão aberta, mas a ausência é também um sintoma. Nenhum outro autor mostrou disposição de admitir o uso de IA como a colunista Natalia Beauty fez no mês passado. Talvez escaldados pela polêmica, foram do “ghosting” (parou de responder) à ameaça (“graves consequências e desdobramentos”). Menos pela ameaça e mais pela sensação iminente de tempestade em copo d’água, deixei os nomes para lá e me concentrei nos efeitos do levantamento. Até porque a questão central aqui é o jornal, não os autores em si. […]

O próprio jornal tem embarcado numa confusão que associa o questionamento ao ludismo. Não é disso que se trata —e até o ludita mais raivoso reconheceria que um breve banho de IA ajudaria a melhorar títulos, legendas e textos noticiosos que vão ao ar com erros de português e de acabamento.

Mas isso não deveria invalidar a cobrança por transparência diante do uso pesado no texto, ainda o principal produto do jornal.

A Folha afirma ter “entusiasmo crítico” com a IA. O comando do jornal já comparou a questão à troca das máquinas de escrever pelo computador e ao buscador do Google, com base na ideia de que ninguém cita termos que pesquisou para escrever um artigo. Pode ser, mas o buscador pré-IA não tinha o poder de entregar textos prontos. Quem fosse pego colando trechos catados no Google era tratado como plagiário. […]

A Folha afirma, em nota à ombudsman, que “é entusiasta do uso da inteligência artificial para melhorar a qualidade do serviço que presta ao leitor —como deixou claro em editorial recente— e acredita que, em um futuro não distante, a polêmica que essa tecnologia ainda provoca será vista como estéril, pura perda de tempo e energia”

Ari Peixoto, outro ex-Globo, se revolta com PowerPoint ligando Master ao PT: “Preparem-se”

22 de Março de 2026, 08:14
Ari Peixoto nos tempos da Globo

O jornalista Ari Peixoto, que trabalhou na Globo por 34 anos, com passagens por Jornal Nacional e Fantástico e coberturas internacionais, deixou um comentário no post da colega Neide Duarte, que teve a emissora por 42 anos.

Neide criticou a exibição do PowerPoint grotesco pondo o PT no centro do caso Master de “Dia da Vergonha”.

Nas palavras de Ari:

Trabalhei nesta emissora por 34 anos e posso dizer, sem medo de errar, que alguns destes anos foram os melhores para mim, para ela e para o jornalismo…

Mas, aos poucos, tudo isso foi ficando pra trás, os melhores repórteres, repcines, editores e produtores foram saindo (ou foram saídos) e o que era pra ser uma emissora de televisão se tornou uma arma política, quase um partido autônomo, dirigido por gente ressentida pelas derrotas sucessivas para os candidatos da esquerda…

Me lembro bem do selo do túnel de esgoto por onde passava dinheiro, exposto todas as noites no JN. Uma lástima.

Mas preparem-se. Cenas como esta, aliadas à IA, serão muito comuns até outubro. O PowerPoint da Lava Jato vai parecer desenho de criança do jardim de infância.

O PowerPoint da Globo

Lava Jato 2.0

Na tarde de sexta-feira (20), a GloboNews exibiu um PowerPoint “explicativo” sobre o escândalo do Banco Master que causa espanto pela distorção dos fatos.

O diagrama canhestro, que tinha como figura central o banqueiro Daniel Vorcaro, tentou ligar o caso a figuras da esquerda e do governo, como Jaques Wagner, Guido Mantega e o “PT da Bahia”, ignorando completamente os nomes de figuras-chaves que têm conexões diretas com o escândalo, como Jair Bolsonaro (PL), Tarcísio de Freitas (Republicanos), Ibaneis Rocha (MDB), Roberto Campos Neto, Rueda e outros nomes do centrão.

O PowerPoint da GloboNews omitiu o PL, o maior envolvido no escândalo, e deixou de mencionar figuras como Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e outros aliados do governo que receberam recursos de Fabiano Zettel, operador financeiro de Vorcaro.

Já o nome de Ciro Nogueira (PP-PI), um dos senadores mais próximos de Vorcaro, foi colocado na apresentação de maneira discreta, sem mencionar seu partido e sua conhecida ligação com o banqueiro. Gabriel Galípolo, atual presidente do Banco Central, foi incluído como “próximo” de Vorcaro, enquanto Roberto Campos Neto, seu antecessor e aliado de Bolsonaro, foi completamente ignorado.

O PowerPoint verdadeiro deveria ter incluído a própria Globo e seu envolvimento no escândalo. Daniel Vorcaro, que patrocinou um evento da Globo em Nova York e foi o principal orador, chamou figuras do grupo de “amigos”, incluindo o organizador Fred Kachar.

“Dia da Vergonha”, diz ex-repórter especial da Globo sobre PowerPoint ligando Master ao PT

21 de Março de 2026, 21:37
Neide Duarte nos tempos da Globo

Do perfil no Instagram da ex-repórter especial da Globo, Neide Duarte, sobre o vergonhoso PowerPoint pondo o governo Lula no centro do caso Master:

Quando passei pela sala e vi rapidamente a tela da TV, me pareceu um programa de algum culto pentecostal que resolveu fazer o seu jornalzinho rápido para atacar o Lula. Mandaram alguém pegar uma cartolina cor da pele, colar algumas fotos e fazer linhas associando alhos com bugalhos, pão de queijo com fuzil, brincadeira de criança com tornozeleira eletrônica.

No meio, a foto com cara de rico de Vorcaro, bem debaixo dele a estrela do PT, como se ele fosse um petista, acima deles Lula, como se fosse o chefe de tudo. Numa órbita bem distante do centro, estavam Ciro Nogueira, Nikolas Ferreira, Antonio Rueda, João Doria, Hugo Motta e Davi Alcolumbre.

Acredito que a editoria que mandou fazer essa cartolina esqueceu vários nomes principais dessa história. Por exemplo, Roberto Campos Neto, o ex-presidente do Banco Central, foi na época dele que tudo começou; Tarcísio de Freitas, que recebeu 2 milhões de reais de Vorcaro; Jair Bolsonaro, que recebeu 3 milhões de reais de Vorcaro; Ibaneis Rocha, governador de Brasília, que quis comprar o Banco Master através do Banco de Brasília para salvar Vorcaro; Claudio Castro, governador do Rio, que investiu bilhões do fundo de previdência dos funcionários públicos do Rio em papéis podres do Master.

Talvez se isso tivesse sido exibido por uma TV rodoviária de alguma cidade pequena do interior, seria uma grande mentira, mas não um grande problema. Ser exibido pela emissora que um dia teve orgulho de dizer que tinha um padrão de qualidade é jogar na nossa cara, telespectadores, a falta de respeito que têm por nós. Esse episódio aceita vários nomes, menos o de jornalismo.

Dia da vergonha na Gnews. Os tios dos churrascos e as tias do zap também sabem fazer jornalismo desse jeito.

O PowerPoint da vergonha

Até um lavajatista pode virar herói contra o mafioso. Por Moisés Mendes

4 de Março de 2026, 22:13
Daniel Vorcaro olhando sério para a câmera
O banqueiro Daniel Vorcaro – Reprodução

Em seus melhores momentos, principalmente quando do enfrentamento da ditadura, nos anos 70, o jornalismo brasileiro produziu combatentes que viraram lendas. Quase todos da grande imprensa, alguns da chamada imprensa alternativa.

O jornalismo dos anos 70 e 80 consagrou nomes, nas mais variadas áreas, como Raimundo Pereira, Audálio Dantas, Mino Carta, Marisa Raja Gabaglia, Alberto Dines, Ricardo Kotscho, Rose Nogueira, Rosa Freire d’Aguiar, Fernando Morais, José Hamilton Ribeiro, Luiz Nassif, Tereza Cruvinel.

Há dezenas de outros, muitos em atividade. Não citarei nenhum gaúcho ou gaúcha (e são exemplares), para que não digam que estou agauchando a lista. E aí, diante de todos esses nomes, nos deparamos agora com o profissional que ganha manchete como o jornalista do momento, o colunista Lauro Jardim, do Globo.

Jardim virou capa por ter sido incluído numa lista criminosa do banqueiro Daniel Vorcaro como um dos alvos a serem alcançados. Que simulassem um assalto e quebrassem os dentes de Jardim, ordenou o mafioso.

E, se era e ainda é ‘inimigo’ de um gângster, Jardim passou a ser visto como o cara que enfrenta bandidos. O lavajatista Lauro Jardim, o colunista que ajudou a propagar boa parte dos ataques a Alexandre de Moraes, com notinhas de intrigas, agora é herói.

Print de ameaça contra Lauro Jardim
Print de ameaça contra Lauro Jardim – Reprodução

Jardim sempre usou sua coluna no Globo para exaltar Sergio Morro e a Lava-Jato, e depois, quando dos preparativos para o julgamento dos golpistas, para tentar criar fissuras dentro do Supremo.

Foram suas algumas das notas mais venenosas sobre o desconforto de ministros com os ‘exageros’ de Moraes. E esse é o cara que temos hoje como herói da livre imprensa e como exemplo de bravura, por ter produzido notinhas que irritaram as máfias do Master.

É uma situação que reflete o cenário geral do país, com bancos envolvidos com o PCC, juízes tarados ou vendendo sentenças e com a degradação do jornalismo das corporações.

Jardim trabalha numa das organizações que escondem informações sobre o fascismo (leiam o que dizem Luiz Nassif e Mario Vitor Santos). O jornal que o emprega colocou nos cantinhos a nota produzida pelo próprio Globo sobre o uso do jatinho de Vorcaro por Nikolas Ferreira. E se engaja ao esforço da grande mídia para que Flávio Bolsonaro tenha roupa nova.

Há muita gente do jornalismo de combate que poderia ser apresentada como exemplo de afronta ao poder econômico e político da direita e da extrema direita acumpliciadas com Vorcaro, as fintechs, os grileiros e os milicianos.

Numa hora dessas, quando o fascismo mostra as unhas de novo e as empresas de mídia fortalecem o protagonismo político, o herói não precisava ser Lauro Jardim, mas pelo menos não é Malu Gaspar.

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