A forte expansão do crédito privado nos últimos anos colocou a classe de ativos no centro das atenções no mercado financeiro global. Em entrevista ao programa Stock Pickers, apresentado por Lucas Collazo, o diretor e gestor de fundos de Private Credit da Blue Owl, Logan Nicholson, analisou os motivos que levaram o setor a ser tão questionado recentemente.
Na avaliação do gestor, o surgimento desses ruídos é uma reação natural dos investidores quando uma modalidade ganha muito espaço em um momento adiantado da economia americana.
“Acho que em qualquer mercado onde você viu um crescimento explosivo e um aumento massivo na participação de mercado, é preciso fazer perguntas. Também estamos muito no final de um ciclo de crédito”, explicou Nicholson.
Aprofundando esse diagnóstico, o executivo destaca que a ausência de recessões profundas nos EUA nos últimos 15 anos e o estreitamento dos spreads para as mínimas históricas reduziram demais os prêmios de risco.
Com tal dinâmica, em conjunto a falências pontuais no crédito público e no setor bancário, acabou jogando holofotes sobre as gestoras privadas. Nicholson ainda reforça que, apesar de comentários, “se você olhar objetivamente para os portfólios de crédito privado, todos estão indo muito bem”.
Outro ponto de desconfiança do mercado envolve os aportes no setor de tecnologia por fundos de Private Equity, que financiam companhias de software tomadoras de crédito privado. Apesar das incertezas sobre a rentabilidade futura dessas empresas, Nicholson destacou que os dados operacionais das carteiras sob sua gestão seguem positivos.
Seleção de ativos
Com o aumento do volume de capital direcionado ao setor, o ambiente competitivo acabou se tornando mais acirrado. Por si só, os aspectos atuais do segmento levantam dúvidas sobre a precificação do risco de crédito e o impacto da entrada de novos participantes na rentabilidade dos fundos.
Ao avaliar a concorrência, Nicholson ressaltou que o crédito privado é composto por diversas estratégias distintas e que a maturidade do mercado consegue expor a diferença na qualidade de gestão entre os participantes.
“O que você está começando a ver agora é que os preços dos ativos estão oscilando e algumas dessas operações estão vencendo, e o desempenho de alguns gestores está indo na direção errada. Algumas estratégias não estão indo bem”, alertou o executivo.
Para fundamentar a solidez dos fundos sob sua gestão em relação à média do mercado, o gestor ressaltou a evolução contínua dos indicadores financeiros das companhias investidas.
“Como medimos isso? Crescimento de receita, crescimento de Ebitda (Lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), cobertura de juros, níveis de alavancagem. As empresas estão objetivamente um pouco melhores e as taxas de inadimplência estão estáveis”, explicou Nicholson.
Na visão do executivo da Blue Owl, o posicionamento do gestor no mercado e a capacidade de originar boas oportunidades são os fatores determinantes para atravessar momentos de maior oscilação no VPL (Valor Patrimonial Líquido) das BDCs (Companhias de Desenvolvimento de Negócios). A capacidade de selecionar os melhores ativos permite filtrar operações de maior risco que costumam ser repassadas a concorrentes com menor poder de barganha.
A XP preservou a projeção de crescimento de 2,0% para o PIB brasileiro em 2026. O cenário é impulsionado por medidas de estímulo à atividade econômica.
O dólar deve encerrar este ano cotado a R$ 5,00, podendo chegar a R$ 5,30 em 2027. Incertezas políticas e a queda das commodities explicam a pressão cambial.
A previsão para a inflação (IPCA) recuou de 5,5% para 5,2%. Com isso, a Selic deve sofrer um corte de 0,25 ponto em agosto, fechando o ano em 14,00%.
A sul-coreana SK Hynix estreou na bolsa americana captando cerca de US$ 28 bilhões. A empresa busca capital para enfrentar a alta demanda por chips de inteligência artificial.
Mesmo com a oscilação de preços no setor, a procura de investidores foi massiva. O objetivo da companhia é ser reavaliada frente aos seus concorrentes diretos nos EUA.
Onde investir em julho: qualidade é a palavra de ordem
A recomendação para este mês foca em uma carteira equilibrada e diversificada. A estratégia une ativos defensivos a posições com potencial de ganho de capital.
Na renda fixa, os títulos atrelados ao IPCA oferecem taxas historicamente altas. A gestão ativa é sugerida para agilizar a escolha entre diferentes emissores.
Já no mercado de ações, o foco recai sobre empresas de alta qualidade. A XP vê oportunidades após a queda recente, adotando um critério rigoroso de seleção.
A partir de 22 de julho, as empresas listadas começam a divulgar seus resultados do 2º trimestre. O mercado aguarda os números para conferir se as expectativas se confirmam.
A construtora Tenda (TEND3) já sinalizou um trimestre forte, com lançamentos de R$ 1,8 bilhão. Vendas recordes e custos menores indicam margens de lucro mais elevadas para a companhia.
O fenômeno meteorológico também reflete, de forma mais moderada, no setor farmacêutico. A XP monitora as temperaturas como um indicador positivo para o consumo.
Um estudo de 15 anos da XP revelou que investir mensalmente supera a tentativa de prever topos. A regularidade nas aplicações rendeu mais do que esperar o momento “ideal”.
Para investidores de renda fixa, a novidade é a inclusão de fundos de crédito privado. A medida visa facilitar a diversificação para o investidor mais conservador.
Quem investe em ações pagadoras de dividendos e embolsa os proventos sem reaplicá-los pode estar deixando uma parcela expressiva do retorno na mesa. Um estudo elaborado pela XP mostra que a decisão de reinvestir cada valor recebido na compra de mais ações faz a diferença no acúmulo de patrimônio, e pode significar uma multiplicação até quatro vezes maior do capital ao longo de uma década.
Os analistas Raphael Figueredo e Bruna Sene simularam um investimento de R$ 10 mil em quatro grandes ações da Bolsa brasileira em janeiro de 2016 e acompanhou os resultados até abril de 2026 em dois cenários: com e sem reinvestimento dos proventos.
O caso mais extremo é o da Petrobras (PETR4). No cenário sem reinvestimento, os R$ 10 mil iniciais se transformaram em R$ 68,9 mil, uma alta de 590% explicada pela valorização do preço da ação. Já quem reinvestiu sistematicamente os proventos ao longo do período terminou com R$ 272,9 mil, uma alta de 2.629% sobre o capital inicial e retorno anual de 37,8%.
A Petrobras realizou 32 pagamentos de proventos no período, que somaram R$ 133,7 mil em dividendos recebidos sobre o investimento inicial de R$ 10 mil. O reinvestimento transformou as 1.456 ações iniciais em 5.760 papéis ao final do período, sem nenhum aporte adicional. O yield on cost calculado foi de 1.337%, o que significa que a renda gerada pela ação ao longo do tempo pagou 13,4 vezes o valor originalmente investido.
A simulação com Vale (VALE3) mostra que o impacto do reinvestimento não depende de alta frequência de pagamentos. A mineradora realizou 22 distribuições ao longo do período, contra mais de 30 da Petrobras, mas distribuiu R$ 54,2 mil em proventos sobre o capital inicial de R$ 10 mil. Com reinvestimento, a quantidade de ações em carteira passou de 788 para 1.591 papéis, e o patrimônio final chegou a R$ 136,0 mil, o dobro dos R$ 67,4 mil obtidos no cenário sem reaplicação.
No Banco do Brasil (BBAS3), a maior frequência de pagamentos, com 76 distribuições ao longo de 10 anos, compensou uma valorização de preço mais contida, de 216% no período. Ao reinvestir todos os proventos, o patrimônio passou de R$ 31,6 mil para R$ 60,5 mil. Para os autores do estudo, o caso do BB mostra que “o efeito do reinvestimento não depende apenas de fortes altas na cotação, mas também da constância na geração de renda.”
Já a Taesa (TAEE11), com valorização de preço de cerca de 170% no período, teve 43 pagamentos de proventos e a quantidade de papéis em carteira saltou de 619 para 1.716 unidades. O investidor que reinvestiu terminou com um patrimônio 2,8 vezes maior do que quem apenas recebeu os dividendos sem reaplicá-los.
Fonte: Economatica. Capital inicial de R$ 10 mil em cada ação. Período de 04/01/2016 a 27/04/2026. Reinvestimento ao preço de fechamento da data-ex proventos. Não considera impostos nem custos de corretagem
“A maioria dos investidores acompanha apenas o preço da ação. O reinvestimento atua na quantidade de ações. E é nessa segunda variável, ignorada por muitos, que mora boa parte do retorno de longo prazo”, escrevem Figueredo e Sene em relatório publicado na segunda-feira (22).
Cada provento reinvestido compra novas ações, que passam a gerar mais dividendos no período seguinte, criando uma base de investimento crescente ao longo do tempo. Os autores do estudo chamam esse processo de “efeito bola de neve aplicado à renda variável.”
Todos os cenários superam com folga o CDI no período, que transformaria os mesmos R$ 10 mil em cerca de R$ 25,5 mil. Já a correção pelo IPCA acumulado de 67,9% colocaria o montante em R$ 16,8 mil.
Para Figueredo e Sene, reinvestir proventos é “provavelmente a decisão de carteira com a melhor relação entre retorno e esforço disponível ao investidor de longo prazo”, já que “não exige acertar timing de mercado, não depende de teses complexas nem de novos aportes constantes.”
Os especialistas, no entanto, alertam que a estratégia não corrige uma tese de investimento ruim, e recomendam aplicar o reinvestimento em empresas com fundamentos sólidos, geração recorrente de caixa e política consistente de distribuição de dividendos, avaliando sempre o desempenho pelo retorno total e não apenas pela variação de preço na tela: “Dividendos não são apenas renda para ‘sacar’. Eles fazem parte central do retorno do investimento e, quando reinvestidos de forma disciplinada, tornam se um dos principais motores de crescimento no longo prazo”.
A JHSF está montando um novo fundo imobiliário para comprar uma fatia de 16,99% do Shopping Cidade Jardim, em São Paulo, avaliada em R$ 454 milhões, apurou o InvestNews. A companhia de José “Zeco” Auriemo controla 51% do shopping de luxo. Pelo valor da operação, o empreendimento estaria avaliado em cerca de R$ 2,7 bilhões.
A operação foi registrada na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) na última semana. O veículo em questão, o JHSF Capital SCJ FII, criado no início deste mês, está captando até R$ 293,8 milhões no mercado de capitais, em uma oferta coordenada pelo Itaú BBA. Está prevista ainda uma tranche subordinada, o que elevaria a captação total a R$ 400 milhões.
Embora o documento não cite nominalmente quem está na outra ponta do negócio, o vendedor seria o XP Malls, maior fundo de shoppings do país e único sócio do grupo JHSF no Cidade Jardim – um outro fundo imobiliário criado pela empresa de Auriemo detém os 33% restantes do empreendimento. O fundo imobiliário da XP passou a deter participação no empreendimento em 2018.
No relatório gerencial mais recente do XP Malls, referente a maio, o XPML11 afirma ter participação de 16,99% no shopping, percentual idêntico ao da fatia à venda. Um segundo indício está na dívida. O prospecto prevê que o fundo da JHSF assumirá cerca de R$ 155 milhões em obrigações, valor semelhante ao saldo que o XP Malls carrega em carteira.
Procuradas pelo InvestNews, XP e JHSF não comentaram até a publicação do texto.
O Cidade Jardim é um dos principais ativos da JHSF. Inaugurado em 2008 na Marginal Pinheiros, na zona sul de São Paulo, concentra, segundo a companhia, a maior quantidade de flagships de marcas internacionais da América Latina.
Ali estão a global store da Louis Vuitton e lojas de Hermès, Prada, Dior e Celine, entre outras. A JHSF define o empreendimento como o principal shopping de alta renda do continente.
Outros negócios do Cidade Jardim
Não é a primeira vez que a fatia troca de mãos. Em 2023, a JHSF Capital comprou 33% do Cidade Jardim da israelense Gazit por R$ 560 milhões, numa operação que avaliava o shopping inteiro em R$ 1,68 bilhão. A fatia havia sido vendida pela própria JHSF à Gazit em 2016, por R$ 410 milhões, quando o grupo precisava reduzir dívida.
Caso a operação seja confirmada, será a segunda negociação entre JHSF e XP Malls em menos de um mês. Em maio, o FII da XP vendeu sua participação de 30% no Shops Jardins, no mesmo complexo, para outro fundo da JHSF Capital, o JCCJ11. A transação saiu por R$ 20 milhões.
O pagamento não foi em dinheiro: o XP Malls recebeu cotas do fundo comprador. À época, a gestora do XPML11 descreveu a venda como reciclagem de portfólio e saída de um ativo de baixa relevância na carteira.
A rápida ascensão do tenista João Fonseca devolveu ao Brasil um entusiasmo pelo tênis que não se via desde os tempos de Gustavo Kuerten, o Guga. Mesmo eliminado nas oitavas de final do Rio Open este ano, Fonseca, de 19 anos, ainda disputa neste domingo (22) o título nas duplas ao lado de Marcelo Melo.
Além do maior interesse do público, refletido em arquibancadas cheias e maior procura por ingressos, o efeito também aparece nas transmissões e, principalmente, entre patrocinadores do mercado financeiro. Afinal, em um esporte historicamente associado às elites, o gosto e o dinheiro raramente competem – costumam atuar em dupla.
E na semana do maior torneio de tênis da América do Sul, o mercado financeiro aproveitou para ampliar sua presença no tênis: desde financiamento de jovens promessas e da criação de plataformas de relacionamento com clientes a patrocínios diretos de campeonatos.
Afinal, o tênis sempre foi território natural de empresários e investidores: um esporte caro, de base social concentrada e ambiente propício para relacionamento e para fechar negócios.
Se antes o apoio vinha de entusiastas que bancavam atletas de forma quase artesanal, hoje ele começa a passar por estruturas financeiras organizadas.
Apostando no futuro
A corretora EQI, por exemplo, criou no ano passado um fundo de renda fixa com liquidez diária cuja taxa de administração é integralmente destinada ao financiamento de atletas brasileiros. O produto, chamado Fundo Match Point, já soma cerca de R$ 53 milhões sob gestão e mais de 100 cotistas.
Em 2025, o projeto contou com R$ 241,3 mil em receitas – sendo R$ 208,3 mil aportados como seed money da própria EQI – uma casa com R$ 50 bilhões sob gestão – e outros R$ 32,9 mil oriundos do fundo. Ao longo do ano, cerca de R$ 100 mil foram efetivamente investidos em cinco atletas profissionais.
Parte dos recursos é destinada ao treinamento, como acesso a técnicos, fisioterapia e preparação física. Outra fatia cobre viagens, um dos principais custos da carreira profissional. E há ainda um sistema de bônus atrelado a desempenho, como avanço em rankings e resultados em torneios.
A corretora, cujos sócios são tenistas amadores, decidiu se aproximar do circuito profissional ainda em 2023. O primeiro nome foi o gaúcho Rafael Matos. O acordo foi fechado às pressas, às vésperas do Australian Open daquele ano. Segundo Patrik Castilho, diretor de marketing da EQI, houve tempo apenas de entregar os “patches” com a marca antes de o atleta embarcar.
O contrato formal ainda nem estava assinado quando Matos, que disputava duplas mistas ao lado da também brasileira Luisa Stefani, começou a avançar rodada após rodada em Melbourne. Ele acabaria conquistando o título – tornando-se parte da primeira dupla 100% brasileira a vencer um Grand Slam, grupo que reúne os quatro principais torneios do circuito: Australian Open, Roland Garros, Wimbledon e US Open.
Rafa Matos e Luisa Stefani venceram o Australia Open de 2023 (Divulgação/Tennis Australia)
O episódio consolidou a aposta da corretora no esporte. Desde então, a empresa ampliou o portfólio e hoje patrocina cerca de dez atletas entre profissionais e juvenis, como Thiago Monteiro, Marcelo Zormann, João Lucas Reis, Ingrid Martins, Mateus Pucinelli e o juvenil Miguel Dahia, além de dois nomes do pádel, outro esporte de raquete.
A seleção, segundo a companhia, passou por um processo de profissionalização. “No começo era muito emocional. A gente gostava do atleta, acompanhava e apoiava. Hoje a curadoria é técnica”, afirmou Castilho. A triagem passou a ser feita em parceria com a Tênis Root, estrutura especializada em formação e alto rendimento, que acompanha desempenho, ranking e potencial de evolução.
Por trás dessa engenharia está uma estratégia mais ampla da EQI para ocupar o território do tênis. A corretora, que até poucos anos atrás dividia investimentos em outras modalidades como o automobilismo, decidiu concentrar esforços exclusivamente nos esportes de raquete.
Thiago Mointeiro, tenista patrocinado pela EQI (Divulgação/Rio Open)
Além do fundo, a EQI mantém criou a chamada “Match Point Mansion”, uma casa paralela ao Rio Open onde clientes convivem com jogadores, participam de clínicas e assistem aos jogos em ambiente exclusivo. O investimento no espaço foi de cerca de R$ 2 milhões no ano passado e deve chegar a R$ 2,6 milhões neste ano.
A lógica é dupla: fortalecer a marca no esporte e usar o tênis como plataforma de relacionamento. “A casa começa às oito da manhã e vai até a noite. O cliente fica imerso, convive com o atleta. É uma experiência que dificilmente teria só com o patrocínio tradicional do torneio”, disse o executivo.
No curto prazo, o objetivo é ampliar o número de atletas apoiados à medida que o patrimônio do fundo cresce. “O nosso foco agora é fazer o fundo ganhar escala para que a gente consiga trazer mais atletas para dentro do projeto”, disse.
Paixão empresarial
A proximidade entre tênis e mercado financeiro está longe de ser novidade. O esporte sempre orbitou as elites econômicas – seja como parte da formação social, seja como ambiente de relacionamento e negócios.
O exemplo está no próprio João Fonseca: principal nome da nova geração, ele cresceu em uma família já consolidada no mercado financeiro. Seu pai, Christiano Fonseca Filho, é fundador da IP Capital Partners, uma das primeiras gestoras independentes do país.
A estrutura familiar permitiu a João competir em alto nível desde cedo, algo essencial em um esporte de custos elevados, que exige viagens internacionais frequentes, equipe técnica especializada e raquetes que podem custar mais de R$ 1,5 mil cada.
João Fonseca entrando em quadra no Rio Open (Divulgação/Rio Open)
A associação entre quadra e capital também aparece na trajetória de empresários influentes. O bilionário Jorge Paulo Lemann, por exemplo, jogava tênis no Rio de Janeiro na juventude antes de se tornar um dos maiores investidores brasileiros.
Fora do país, o bilionário americano Bill Ackman, fundador da Pershing Square, chegou a disputar, aos 59 anos, um torneio profissional da Associação de Tenistas Profissionais (ATP) em duplas. E há casos emblemáticos como o do romeno Ion Țiriac, ex-top 10 do ranking mundial que, após pendurar a raquete, construiu um império empresarial e se tornou um dos homens mais ricos da Europa Oriental.
Hoje, essa relação ganha escala institucional. O fundo soberano de Abu Dhabi, Mubadala, é um ds principais patrocinadores desta edição do Rio Open, ao lado da XP – a empresa de Guilherme Benchimol substituiu o Santander em um dos espaços principais e também apoia João Fonseca. O BTG Pactual, de André Esteves, mantém histórico de patrocínios no circuito.
O Itaú é patrocinador da tenista Bia Haddad Maia, além de ter promovido no ano passado, em Miami um jogo exibição entre Fonseca e o número 1 do mundo, Carlos Alcaraz – confronto que será repetido neste ano em São Paulo.
No plano internacional, os valores são ainda mais expressivos. O Public Investment Fund (PIF), fundo soberano da Arábia Saudita, tornou-se, em 2024, o patrocinador oficial da ATP e passou a financiar etapas do circuito global.
PIF, da Arábia Saudita, é o principal patrocinador da ATP (Divulgação/ATP)
A influência saudita avançou a ponto de o país garantir, a partir de 2028, a realização de uma etapa de Masters 1000 – torneios que estão entre os mais importantes do calendário, atrás apenas dos Grand Slams – ampliando a estratégia do fundo de usar o esporte como instrumento de projeção internacional, como já fez no futebol e no golfe.
A rápida ascensão do tenista João Fonseca devolveu ao Brasil um entusiasmo pelo tênis que não se via desde os tempos de Gustavo Kuerten, o Guga. Mesmo eliminado nas oitavas de final do Rio Open este ano, Fonseca, de 19 anos, ainda disputa neste domingo (22) o título nas duplas ao lado de Marcelo Melo.
Além do maior interesse do público, refletido em arquibancadas cheias e maior procura por ingressos, o efeito também aparece nas transmissões e, principalmente, entre patrocinadores do mercado financeiro. Afinal, em um esporte historicamente associado às elites, o gosto e o dinheiro raramente competem – costumam atuar em dupla.
E na semana do maior torneio de tênis da América do Sul, o mercado financeiro aproveitou para ampliar sua presença no tênis: desde financiamento de jovens promessas e da criação de plataformas de relacionamento com clientes a patrocínios diretos de campeonatos.
Afinal, o tênis sempre foi território natural de empresários e investidores: um esporte caro, de base social concentrada e ambiente propício para relacionamento e para fechar negócios.
Se antes o apoio vinha de entusiastas que bancavam atletas de forma quase artesanal, hoje ele começa a passar por estruturas financeiras organizadas.
Apostando no futuro
A corretora EQI, por exemplo, criou no ano passado um fundo de renda fixa com liquidez diária cuja taxa de administração é integralmente destinada ao financiamento de atletas brasileiros. O produto, chamado Fundo Match Point, já soma cerca de R$ 53 milhões sob gestão e mais de 100 cotistas.
Em 2025, o projeto contou com R$ 241,3 mil em receitas – sendo R$ 208,3 mil aportados como seed money da própria EQI – uma casa com R$ 50 bilhões sob gestão – e outros R$ 32,9 mil oriundos do fundo. Ao longo do ano, cerca de R$ 100 mil foram efetivamente investidos em cinco atletas profissionais.
Parte dos recursos é destinada ao treinamento, como acesso a técnicos, fisioterapia e preparação física. Outra fatia cobre viagens, um dos principais custos da carreira profissional. E há ainda um sistema de bônus atrelado a desempenho, como avanço em rankings e resultados em torneios.
A corretora, cujos sócios são tenistas amadores, decidiu se aproximar do circuito profissional ainda em 2023. O primeiro nome foi o gaúcho Rafael Matos. O acordo foi fechado às pressas, às vésperas do Australian Open daquele ano. Segundo Patrik Castilho, diretor de marketing da EQI, houve tempo apenas de entregar os “patches” com a marca antes de o atleta embarcar.
O contrato formal ainda nem estava assinado quando Matos, que disputava duplas mistas ao lado da também brasileira Luisa Stefani, começou a avançar rodada após rodada em Melbourne. Ele acabaria conquistando o título – tornando-se parte da primeira dupla 100% brasileira a vencer um Grand Slam, grupo que reúne os quatro principais torneios do circuito: Australian Open, Roland Garros, Wimbledon e US Open.
Rafa Matos e Luisa Stefani venceram o Australia Open de 2023 (Divulgação/Tennis Australia)
O episódio consolidou a aposta da corretora no esporte. Desde então, a empresa ampliou o portfólio e hoje patrocina cerca de dez atletas entre profissionais e juvenis, como Thiago Monteiro, Marcelo Zormann, João Lucas Reis, Ingrid Martins, Mateus Pucinelli e o juvenil Miguel Dahia, além de dois nomes do pádel, outro esporte de raquete.
A seleção, segundo a companhia, passou por um processo de profissionalização. “No começo era muito emocional. A gente gostava do atleta, acompanhava e apoiava. Hoje a curadoria é técnica”, afirmou Castilho. A triagem passou a ser feita em parceria com a Tênis Root, estrutura especializada em formação e alto rendimento, que acompanha desempenho, ranking e potencial de evolução.
Por trás dessa engenharia está uma estratégia mais ampla da EQI para ocupar o território do tênis. A corretora, que até poucos anos atrás dividia investimentos em outras modalidades como o automobilismo, decidiu concentrar esforços exclusivamente nos esportes de raquete.
Thiago Mointeiro, tenista patrocinado pela EQI (Divulgação/Rio Open)
Além do fundo, a EQI mantém criou a chamada “Match Point Mansion”, uma casa paralela ao Rio Open onde clientes convivem com jogadores, participam de clínicas e assistem aos jogos em ambiente exclusivo. O investimento no espaço foi de cerca de R$ 2 milhões no ano passado e deve chegar a R$ 2,6 milhões neste ano.
A lógica é dupla: fortalecer a marca no esporte e usar o tênis como plataforma de relacionamento. “A casa começa às oito da manhã e vai até a noite. O cliente fica imerso, convive com o atleta. É uma experiência que dificilmente teria só com o patrocínio tradicional do torneio”, disse o executivo.
No curto prazo, o objetivo é ampliar o número de atletas apoiados à medida que o patrimônio do fundo cresce. “O nosso foco agora é fazer o fundo ganhar escala para que a gente consiga trazer mais atletas para dentro do projeto”, disse.
Paixão empresarial
A proximidade entre tênis e mercado financeiro está longe de ser novidade. O esporte sempre orbitou as elites econômicas – seja como parte da formação social, seja como ambiente de relacionamento e negócios.
O exemplo está no próprio João Fonseca: principal nome da nova geração, ele cresceu em uma família já consolidada no mercado financeiro. Seu pai, Christiano Fonseca Filho, é fundador da IP Capital Partners, uma das primeiras gestoras independentes do país.
A estrutura familiar permitiu a João competir em alto nível desde cedo, algo essencial em um esporte de custos elevados, que exige viagens internacionais frequentes, equipe técnica especializada e raquetes que podem custar mais de R$ 1,5 mil cada.
João Fonseca entrando em quadra no Rio Open (Divulgação/Rio Open)
A associação entre quadra e capital também aparece na trajetória de empresários influentes. O bilionário Jorge Paulo Lemann, por exemplo, jogava tênis no Rio de Janeiro na juventude antes de se tornar um dos maiores investidores brasileiros.
Fora do país, o bilionário americano Bill Ackman, fundador da Pershing Square, chegou a disputar, aos 59 anos, um torneio profissional da Associação de Tenistas Profissionais (ATP) em duplas. E há casos emblemáticos como o do romeno Ion Țiriac, ex-top 10 do ranking mundial que, após pendurar a raquete, construiu um império empresarial e se tornou um dos homens mais ricos da Europa Oriental.
Hoje, essa relação ganha escala institucional. O fundo soberano de Abu Dhabi, Mubadala, é um ds principais patrocinadores desta edição do Rio Open, ao lado da XP – a empresa de Guilherme Benchimol substituiu o Santander em um dos espaços principais e também apoia João Fonseca. O BTG Pactual, de André Esteves, mantém histórico de patrocínios no circuito.
O Itaú é patrocinador da tenista Bia Haddad Maia, além de ter promovido no ano passado, em Miami um jogo exibição entre Fonseca e o número 1 do mundo, Carlos Alcaraz – confronto que será repetido neste ano em São Paulo.
No plano internacional, os valores são ainda mais expressivos. O Public Investment Fund (PIF), fundo soberano da Arábia Saudita, tornou-se, em 2024, o patrocinador oficial da ATP e passou a financiar etapas do circuito global.
PIF, da Arábia Saudita, é o principal patrocinador da ATP (Divulgação/ATP)
A influência saudita avançou a ponto de o país garantir, a partir de 2028, a realização de uma etapa de Masters 1000 – torneios que estão entre os mais importantes do calendário, atrás apenas dos Grand Slams – ampliando a estratégia do fundo de usar o esporte como instrumento de projeção internacional, como já fez no futebol e no golfe.
Guilherme Benchimol, fundador da XP, André Street, cofundador da Stone, e David Vélez, fundador do Nubank, lançaram nesta terça-feira (10) o Instituto B55, iniciativa sem fins lucrativos voltada a pequenas e médias empresas que já superaram a fase inicial, mas enfrentam dificuldades para ganhar escala.
O instituto parte do diagnóstico de que o Brasil tem alto potencial empreendedor, mas enfrenta obstáculos para transformar esse dinamismo em crescimento. O primeiro produto da iniciativa será lançado em 5 de março, e a operação deve começar efetivamente em abril, com a entrada dos primeiros empreendedores e alunos.
O B55 tem como proposta atuar em gargalos recorrentes do crescimento empresarial, como a falta de conhecimento aplicado, método e estrutura para avançar após a fase inicial. O nome do instituto combina a ideia de “base”, representada pela letra B, com o número 55, código internacional do Brasil.
O projeto é liderado por Cristhiano Faé, cofundador e CEO do B55, fundador de empresas como a Accera, vendida à Neogrid em 2018, e responsável pela execução da iniciativa.
Empresas estagnadas
Segundo Street, o Brasil tem cerca de 47 milhões de empreendedores, mas mais de 70% das empresas enfrentam algum grau de estagnação. Além dos três fundadores, o B55 conta com mais de 20 embaixadores que atuarão em mentorias e atividades de formação. Entre os nomes confirmados estão Jorge Paulo Lemann, David Feffer, Fabricio Bloisi, Mariano Gomide, Pedro Franceschi e Henrique Dubugras.
O público-alvo do instituto são empresas da chamada economia real, incluindo negócios de serviços, logística, saúde e varejo que já superaram a fase inicial, mas encontram dificuldades para escalar. O projeto também dialoga com o setor de tecnologia e se posiciona entre aceleradoras voltadas a startups em estágio inicial e programas de apoio de base, como os do Sebrae.
Estruturado ao longo dos últimos seis meses, o B55 foi organizado em quatro frentes: educação e desenvolvimento; jornada e aceleração; comunidade e networking; e a criação de um hub físico de empreendedorismo e inovação, ainda em fase de estudo. A operação começa com um escritório em São Paulo e uma equipe inicial de cerca de dez pessoas.
Apesar de ser uma organização sem fins lucrativos, o B55 tem como objetivo alcançar autossuficiência financeira. O capital inicial, aportado pelos fundadores, está na casa dos milhões de dólares, e o plano é encerrar o primeiro ano de operação com equilíbrio financeiro.
A LiveMode vai passar a controlar integralmente a CazéTV após uma reorganização societária em que a empresa, que detinha 51% do canal, incorporou a fatia de 49% que estava nas mãos da CMiguel Produções, do jornalista e streamer Casimiro Miguel, apurou o InvestNews. A operação tem como objetivo “otimizar a estrutura acionária” do grupo.
A transação envolve a alienação das ações de Casimiro para a LiveMode em troca de sua entrada como sócio da holding do grupo, a LiveMode Cayman. O formato indica uma operação de troca de ações, mas os valores e os percentuais envolvidos no negócio não foram revelados. A operação ainda precisa de aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
Com isso, Casimiro deixa de ser sócio direto da CazéTV e passa a integrar o capital da holding internacional que controla toda a operação da LiveMode, empresa que também negocia e produz direitos de transmissão para diversos veículos brasileiros.
Sócios grandes
A LiveMode Cayman — também chamada de LiveMode Holdings Limited — é o mesmo veículo no qual está o investimento da americana General Atlantic e que funciona como guarda-chuva societário do grupo.
Em abril do ano passado, a General Atlantic, em conjunto com o braço de private equity da XP, passou a ser sócia da LiveMode. No mercado, circula a informação de que a dupla teria investido cerca de R$ 440 milhões por uma fatia superior a 20% na empresa, embora os detalhes da operação não tenham sido divulgados oficialmente.
Fundada em 2017, a LiveMode construiu reputação como uma das empresas mais influentes do país em direitos esportivos, produção digital e transmissões multiplataforma. É a companhia responsável por negociar, por exemplo, os direitos de transmissão da Liga Forte União (LFU), que recentemente vendeu parte de seus jogos do Campeonato Brasileiro em TV aberta para a Record.
A empresa foi criada por Sergio Lopes e Edgar Diniz, fundadores do Esporte Interativo — canal vendido em 2015 ao grupo Turner (hoje Warner Bros. Discovery) por um valor que, à época, circulava no mercado na faixa de US$ 80 milhões a US$ 100 milhões.
Já a CazéTV, criada em 2022 como uma joint venture entre a LiveMode e Casimiro Miguel, tornou-se rapidamente um fenômeno de audiência com transmissões do Copa do Mundo do Catar, Copa do Brasil, Jogos Olímpicos e competições internacionais.
Procurada pelo InvestNews, a LiveMode não respondeu.
As perdas com certificados de operações estruturadas (COE) lastreadas por títulos em dólar da Ambipar e da Braskem já são realidade. A XP começou a enviar comunicados aos assessores de investimentos de sua rede nos quais pede para informar os clientes sobre os prejuízos dos certificados após o acionamento de cláusulas de vencimento antecipado. Há casos nos quais o cliente vai receber apenas 7% do valor originalmente aplicado, ou seja, uma perda de 93%.
Conforme revelado com exclusividade pela reportagem do InvestNews, há, pelo menos, 41 emissões de COEs da Ambipar no mercado e 78 da Braskem, ligados a seus bonds – títulos de dívida emitidos no mercado internacional. São produtos emitidos por várias casas e potencialmente sob risco.
Nos comunicados enviados aos assessores, a XP informa que os investidores vão receber menos de 7% do valor investido originalmente, no caso dos COEs de Ambipar que tiveram a cláusula de vencimento antecipado acionada. São certificados emitidos até 18 de março do ano passado. Em relação aos COEs de Braskem, o percentual recuperado é maior, entre 26% e 37%, para títulos emitidos até 24 de março de 2024.
Na plataforma Reclame Aqui, há vários relatos de supostos clientes que tiveram prejuízos significativos com os COEs emitidos pela XP. Há cerca de 20 depoimentos até o momento relacionados a perdas com os COEs.
Em uma reclamação postada na segunda-feira (6), o investidor afirma ter perdido R$ 270 mil em um certificado com lastro em bonds da Ambipar e vencimento em 2031. “Por causa da crise na empresa, a XP liquidou o título e os meus R$ 289 mil viraram R$ 19 mil.”
Em outro depoimento postado no mesmo dia, o suposto cliente alega ter perdido R$ 22 mil com um COE semelhante. “O valor aparece zerado no meu aplicativo, e eu nem sequer fui informado.” Há ainda um caso divulgado na plataforma nesta terça-feira (7) no qual o aplicador reclama ter tido um prejuízo de 80% com o certificado. Dos R$ 25 mil originalmente alocados, poderá recuperar cerca de R$ 5 mil.
Vários COEs preveem que, se os títulos das companhias que servem como lastro caírem mais que um determinado nível no mercado secundário, por exemplo, serem negociados abaixo de 50% do preço de emissão, os vencimentos desses certificados são antecipados. Nesse caso, os investidores pagam a conta, ou seja, amargam os prejuízos, porque o COE é desfeito, o bond é vendido ao preço que o mercado está pagando e o aplicador só recebe o que for possível obter.
O problema é que com os temores sobre potenciais pedidos de recuperação judicial tanto da Braskem quanto da Ambipar, os títulos passaram a ser negociados por uma fração do preço de face. No caso da Ambipar, o efeito foi ainda maior porque a companhia obteve na Justiça um pedido de tutela cautelar para se proteger contra credores por 30 dias, renováveis por mais 30. Esse tipo de sollicitação costuma anteceder processo de RJ.
As preocupações têm levado os títulos emitidos pelas companhias no mercado internacional a serem negociados nos preços mínimos históricos. Os bonds de Ambipar têm sido negociados a 13% do valor de face, enquanto os da Braskem a até 20% do preço original na emissão.