O ex-presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, costumava dizer que a política monetária é 98% conversa e apenas 2% ação. Já Kevin Warsh quer mudar essa proporção.
O novo presidente do Fed, que comandará nesta semana sua primeira reunião de política monetária, prometeu reformular a comunicação da instituição. Sem entrar em muitos detalhes, ele deu sinais de que pretende reduzir a quantidade de mensagens emitidas pelo banco central.
Durante sua audiência de confirmação no Congresso, afirmou que o Fed se esforça demais para fornecer um roteiro detalhado de seus planos futuros. Também observou que os formuladores de política monetária “falam com bastante frequência”.
No entanto, o Fed e outros bancos centrais vêm ampliando sua comunicação com mercados e sociedade ao longo das últimas décadas, e seguir na direção oposta envolve riscos, segundo observadores veteranos da instituição.
“É preciso ter cuidado ao reduzir a comunicação”, disse William English, professor da Universidade Yale e ex-secretário do comitê responsável por definir os juros nos EUA. Fazer isso de forma muito brusca “prejudicaria a eficácia da política monetária e poderia gerar mais decisões inesperadas, provocando volatilidade nos mercados financeiros”.
Os defensores de uma comunicação frequente argumentam que a transparência ajuda investidores e o público a entender melhor o que está por vir e a se preparar para isso. Isso também facilita o trabalho dos banqueiros centrais ao influenciar os custos de financiamento de longo prazo.
Warsh vê a questão de forma diferente. Para ele, os bancos centrais precisam preservar flexibilidade e evitar a percepção de que estão presos a compromissos que podem deixar de fazer sentido diante de mudanças nas condições econômicas. Em uma palestra no International Monetary Fund no ano passado, afirmou que os formuladores de política monetária podem se tornar “prisioneiros de suas próprias palavras”.
Investidores do mercado de títulos estão tentando entender como exatamente o Fed de Warsh pretende mudar sua comunicação, inclusive se o tradicional Summary of Economic Projections (SEP) poderá ser simplificado. O documento reúne projeções para crescimento econômico, desemprego, inflação e juros, além do famoso “dot plot”, gráfico que mostra onde os dirigentes do Fed acreditam que as taxas de juros estarão no futuro.
Há outras possibilidades. Para Torsten Slok, da Apollo Global Management, os comunicados do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) podem ficar significativamente mais curtos. Já Cindy Beaulieu, diretora de investimentos para a América do Norte da gestora Conning, acredita que Warsh gostaria de realizar menos coletivas de imprensa após as reuniões e até eliminar o “dot plot”.
“Isso provavelmente tornará os juros mais voláteis”, afirmou Beaulieu. Segundo ela, uma redução na transparência pode levar os mercados a reagirem exageradamente a cada novo indicador econômico, tentando antecipar os próximos passos do Fed.
O debate sobre o “forward guidance”
O SEP existe desde 2007 e reúne projeções dos 19 participantes do FOMC para crescimento, desemprego, inflação e juros. Tornou-se uma das principais ferramentas de orientação ao mercado, embora alguns economistas questionem sua utilidade, já que as projeções podem rapidamente se tornar obsoletas. Ainda no ano passado, havia propostas para ampliar as informações divulgadas no documento, e não reduzi-las.
A discussão faz parte de um debate mais amplo sobre o chamado forward guidance, estratégia adotada pelo Fed após a crise financeira de 2008. Como os juros já estavam próximos de zero e não podiam cair muito mais, uma das alternativas para estimular a economia era sinalizar que permaneceriam baixos por um período prolongado.
Alguns economistas argumentam que esse tipo de orientação só funciona em circunstâncias excepcionais, como no período pós-crise. Em sua palestra no FMI, Warsh demonstrou simpatia por essa visão.
Além das discussões teóricas, Warsh assume o comando em meio a uma disputa concreta dentro do Fed sobre que tipo de orientação deve ser dada ao mercado. Na última reunião, o comitê manteve em seu comunicado a indicação de que o próximo movimento mais provável seria um corte de juros, embora vários membros defendessem a retirada dessa mensagem.
O episódio também revela uma limitação do forward guidance: investidores nem sempre acreditam no que o Fed está dizendo.
Em março, os mercados chegaram a apostar em aumentos de juros, mesmo quando dirigentes da instituição indicavam que o movimento mais provável seria uma redução. Agora, à medida que alguns dirigentes passaram a discutir publicamente cenários de alta dos juros, os investidores também elevaram suas apostas nessa direção.
Embora o mercado possa estar errado, uma orientação mais limitada é “provavelmente positiva”, afirmou Jack McIntyre, gestor da Brandywine Global Investment Management.
Menos discursos?
Outra forma direta de comunicação do Fed é por meio de discursos públicos. Dados da própria instituição mostram que seus dirigentes falam mais frequentemente hoje do que no passado. Em 2024 e 2025, os governadores realizaram cerca de 225 discursos, aproximadamente 20% a mais do que duas décadas antes.
Pesquisas indicam que comunicação excessiva ou mal coordenada pode prejudicar a capacidade de um banco central de orientar os mercados. Ainda assim, não está claro o que Warsh poderia mudar além de incentivar os dirigentes a falarem menos.
Uma ferramenta que ele controla diretamente é a coletiva de imprensa após as reuniões de política monetária. Quando esse formato foi criado, em 2011, havia apenas quatro coletivas por ano. Hoje são oito — uma após cada decisão sobre juros.
Essas entrevistas servem para explicar os argumentos discutidos pelos formuladores de política monetária e se comunicar diretamente com investidores e cidadãos. Durante sua audiência de confirmação, Warsh não se comprometeu a manter coletivas após todas as reuniões do FOMC.
Segundo Claudia Sahm, ex-economista do Fed, o estilo de comunicação que Warsh parece defender lembra a era de Alan Greenspan, quando o então presidente da instituição adotava deliberadamente uma linguagem vaga.
“Se eu parecer excessivamente claro para vocês”, disse Greenspan certa vez aos parlamentares, “então vocês devem ter entendido errado o que eu disse”.
Mesmo durante a gestão Greenspan, porém, o Fed iniciou um processo gradual de aumento da transparência. Episódios posteriores mostraram os riscos da comunicação aberta, como o chamado “taper tantrum” de 2013, quando Bernanke desencadeou uma forte venda de títulos do Tesouro americano ao sinalizar a retirada de estímulos monetários.
Ainda assim, esses episódios foram geralmente interpretados como evidência da necessidade de uma comunicação mais cuidadosa — e não menos comunicação. Hoje, a maioria dos observadores do Fed acredita compreender melhor como o banco central reage às mudanças na economia.
Por isso, economistas e investidores não esperam mudanças radicais de imediato. Qualquer alteração significativa no sistema atual provavelmente exigirá amplo debate interno.
“Quando você muda a forma de comunicação, é muito difícil voltar atrás”, afirmou Don Kohn, ex-vice-presidente do Fed. “Por isso existe a percepção de que é preciso haver amplo consenso antes de promover uma mudança desse tipo, porque será difícil recuar caso ela se revele um erro.”