AmazonFACE reúne pesquisadores em Manaus e avança para fase experimental
Prestes a iniciar a etapa experimental que elevará artificialmente a concentração de dióxido de carbono (CO₂) sobre parcelas da floresta amazônica, o AmazonFACE reuniu em Manaus sua comunidade científica, formada por aproximadamente 150 pesquisadores de mais de dez países. Ao longo de cinco dias, entre 8 e 12 de junho, os participantes discutiram resultados científicos já obtidos e planejaram os próximos passos do programa.
O encontro ocorreu em um momento decisivo. Após cerca de 15 anos dedicados à construção das bases científicas e da infraestrutura necessária para sua implementação, o AmazonFACE se prepara para iniciar sua operação principal, que permitirá investigar como a floresta amazônica responderá ao aumento das concentrações atmosféricas de CO₂ previstas para as próximas décadas.
“Essa foi a última reunião do comitê antes de começarmos o experimento de fato. Foi um momento importante para alinharmos o planejamento científico e estarmos prontos para esse desafio”, comenta David Lapola, coordenador científico do AmazonFACE.
O cientista ressaltou o amadurecimento alcançado pelo programa e a crescente integração entre as diferentes áreas de pesquisa que o compõem: carbono, água, nutrientes, biodiversidade, socioambiental e modelagem ecossistêmica.
A agenda incluiu discussões sobre cooperação internacional com outros experimentos FACE em andamento no mundo, como o BIFoR FACE, no Reino Unido, e o EucFACE, na Austrália.
“Além disso, temos a oportunidade única de iniciar o experimento avaliando o efeito combinado do aumento do CO₂ com uma seca como a que se avizinha com o El Niño”, acrescenta Lapola, que também coordena o Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura da Unicamp (Cepagri) – uma das 23 unidades que compõem a Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa (Cocen).
O El Niño é associado a períodos de menor chuva e temperaturas mais elevadas em partes da Amazônia. Projeções climáticas indicam que o fenômeno poderá atingir grande intensidade nos próximos meses, o que adiciona ao programa a oportunidade de observar como a floresta responde simultaneamente à escassez de água e ao aumento das concentrações de CO₂.


CO₂ em campo: estruturas prontas para a fase experimental
Um dos destaques do encontro foi a visita técnica ao sítio experimental do AmazonFACE, localizado em uma área do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), a cerca de 80 quilômetros de Manaus. No local, os participantes acompanharam o avanço das estruturas necessárias para o início da fase experimental.
Entre os equipamentos instalados estão seis tanques de armazenamento de CO₂ líquido, as cabines de controle e a rede de tubulações que conecta o sistema aos anéis experimentais.
A partir dos tanques, o gás percorre uma rede de distribuição até as cabines de controle, onde é processado e enviado às torres instaladas ao redor de cada anel experimental.
Com 35 metros de altura, essas estruturas liberam o ar enriquecido com CO₂ acima da copa das árvores, reproduzindo as concentrações atmosféricas projetadas para meados do século, sem isolar a floresta de suas condições naturais de luz, chuva e temperatura.
A atividade foi guiada por David Lapola, pelo coordenador científico do AmazonFACE no Inpa, Beto Quesada, e pelo gerente de operações do programa, Bruno Takeshi Portela.
Segundo Portela, a implantação da infraestrutura exigiu soluções desenvolvidas para as condições amazônicas. “Nada aqui é simplesmente uma solução comercial. Cada componente precisou ser projetado para atender aos desafios de operar uma instalação dessa escala no meio da Amazônia”, explicou.
“O AmazonFACE produzirá evidências inéditas sobre a capacidade da Amazônia de continuar absorvendo carbono em um mundo com concentrações crescentes de CO₂. Essa é uma das grandes incertezas da ciência climática global”, destacou o cientista britânico Richard Betts, que acompanhou a visita.
Em conferência realizada anteriormente, Betts havia mencionado a chamada “hipótese da Sininho (Tinkerbell)”, uma referência bem-humorada à ideia de que primeiro é necessário imaginar para depois realizar o sonho.
A imagem lúdica foi resgatada no contexto do fascínio despertado pelo contato direto com a infraestrutura: “O sonho do experimento AmazonFACE hoje é realidade, como vocês podem ver”, declarou Quesada.


Diversidade de saberes e integração
Desde sua concepção, o AmazonFACE busca integrar à pesquisa científica os conhecimentos e as experiências das populações que vivem na Amazônia, em especial os povos indígenas. O encontro deste ano refletiu esse compromisso ao reunir um grupo cada vez mais diverso de participantes, ampliando a pluralidade de perspectivas presentes no projeto.
De acordo com Beto Quesada, essa diversidade contribui diretamente para a construção do conhecimento produzido pelo projeto, ao trazer novas perguntas, interpretações e perspectivas sobre a floresta.
“Não se trata apenas de incluir pessoas na pesquisa, mas de reconhecer que diferentes formas de conhecimento são fundamentais para compreender a Amazônia e responder aos desafios que ela enfrenta”, esclarece.
Segundo o colíder da área Socioambiental do AmazonFACE, Marko Monteiro, professor do Instituto de Geociências da Unicamp, o encontro marcou uma mudança de patamar para o projeto também no sentido de consolidação geral das equipes.
“Foi um encontro de virada em termos de concretizar ações e constatar que as áreas estão muito mais consolidadas”, afirmou. Para ele, o amadurecimento das diferentes frentes de pesquisa se refletiu também no crescimento das pessoas envolvidas. “Como consequência do progresso do projeto como um todo, a equipe cresceu muito”, observou.
O evento serviu ainda para aproximar pesquisadores que até então mantinham contato principalmente à distância. “Foi também uma oportunidade para muitas pessoas se conhecerem pessoalmente”, concluiu.
A avaliação é compartilhada por Simone Vieira, pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais da Unicamp (Nepam) e líder do projeto temático da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) vinculado ao AmazonFACE. Segundo ela, o encontro ajudou a fortalecer a articulação entre as diferentes frentes de pesquisa do programa.
“Essa reunião foi muito importante para que os diferentes grupos pudessem trocar experiências e alinhar os próximos passos”, destacou.


Ciência e decisões públicas em diálogo
A valorização da diversidade também se refletiu na oficina “Analisando a interface entre ciência(s) e políticas públicas no experimento AmazonFACE”, realizada com metodologias participativas para entender de que forma as comunidades, cientistas e tomadores de decisão veem o futuro da coprodução de saber.
As abordagens utilizadas são chamadas de “Três Horizontes” e “Diagramas de Loop Causal”, as quais, combinadas, são identificadas pela sigla 3H-CLD, pelo seus nomes em inglês. A ideia é conciliar a construção de cenários futuros com a análise das relações de causa e efeito que moldam os desafios do presente.
Assim, ao longo da atividade, os participantes foram convidados a imaginar futuros desejados para a coprodução de saberes entre ciência, conhecimentos indígenas e saberes locais, identificar os principais obstáculos para alcançar esses cenários e propor estratégias para fortalecer essa articulação nos próximos anos.
Segundo Taís Sonetti González, uma das responsáveis pela oficina, as mudanças climáticas são complexas demais para serem compreendidas a partir de uma única perspectiva.
“Metodologias participativas permitem aproximar diferentes formas de conhecimento, experiências e visões de futuro, criando espaços de diálogo essenciais para que a ciência produza não apenas evidências robustas, mas também conhecimento socialmente relevante, acionável e conectado às realidades dos territórios”, afirma.
Para ela, iniciativas como essa são particularmente importantes em um projeto com a dimensão do AmazonFACE, pois contribuem para fortalecer as conexões entre ciência, sociedade e políticas públicas.
Maíra Padgurschi, colíder da área Socioambiental do AmazonFACE e pesquisadora no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), enfatiza que o programa está ainda mais robusto depois que passou a contar com dois grandes projetos de fomento: um temático da Fapesp e o edital Pró-Amazônia do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Para ela, o encontro significou uma importante interação entre as áreas. “As pessoas estavam muito abertas à troca e à escuta. É notável ver como cresce o reconhecimento da importância da área socioambiental. Nenhuma pesquisa ou pergunta científica é isolada; ela está conectada ao todo.”
O AmazonFACE conta com apoio do governo britânico e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) do Brasil. A coordenação científica é realizada pelo Inpa, pela Unicamp e pelo Met Office (serviço nacional de meteorologia do Reino Unido). O programa também tem financiamento da Fapesp e do CNPq.
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