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Chama-se “flaking” o mais novo crime de Vorcaro descoberto pela PF

Daniel Vorcaro, dono do Banco Master
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em seminário da Esfera Brasil em São Paulo. Foto: Reprodução.

O banditismo de Daniel Vorcaro está muito além das famigeradas redes de corrupção brasileiras. Trata-se não apenas da cooptação de políticos e de quadros técnicos das estruturas estatais para favorecimentos e enriquecimento nos ambientes financeiros, mas da adoção sem pudor de práticas mafiosas para solução mesmo de entreveros de ordem pessoal ou amorosa. Os métodos de intimidação da “Turma”, nome dado à milícia privada à serviço do dono do Banco Master, não devem nada aos das máfias transnacionais, reais ou cinematográficas. Assim nos fazem deduzir as recentes revelações da Polícia Federal.

Diálogos interceptados pela PF mostraram que Vorcaro ordenou à “Turma” uma ação de vingança contra o DJ e ex-jogador da NBA Ronald Fred Seikaly, que teve um relacionamento com Martha Graeff – eles têm uma filha. À época das mensagens, Graeff era namorada de Vorcaro. O método sugerido pelo banqueiro-mafioso, disposto a investir R$10 milhões na empreitada, foi o flaking: termo que designa “plantar” drogas e forjar uma situação de flagrante policial.

Seikaly morava em Miami. Nas conversas capturadas pela PF não parece decidido se o flaking ocorreria na cidade da Flórida ou se o DJ seria seduzido a realizar uma apresentação no Brasil, onde se armaria a cilada. Vorcaro orienta Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o Sicário, a acionar “o amigo da Interpol” para viabilizar a tarefa.

Fato é que a polícia de Miami possui notória expertise quando se trata de plantar provas falsas, e o banqueiro mostra-se conhecedor dos métodos intimidatórios que, digamos, possuem alto potencial de gerar o resultado esperado. Rememore-se o caso Raul Iglesias, de 2012.

Iglesias era um policial veterano com 18 anos de corporação e liderava uma unidade de elite de combate ao tráfico de drogas. Na verdade, era o rei do flaking. Investigações conduzidas pelo FBI e pela Corregedoria descobriram que ele e sua equipe rotineiramente plantavam sacos de cocaína e crack em suspeitos que queriam prender, mesmo quando nenhuma droga era encontrada com o alvo. O esquema era duplo: além de forjar os flagrantes, o sargento Iglesias roubava pacotes de drogas e milhares de dólares em espécie apreendidos de traficantes reais, usando parte do entorpecente roubado para abastecer seu “estoque” e plantar em futuras vítimas inocentes.

Em janeiro de 2013, um júri federal em Miami julgou Raul Iglesias culpado por conspiração para violar direitos civis, distribuição de narcóticos e obstrução de justiça. O Departamento de Justiça americano classificou o caso como uma traição absoluta à confiança pública. Parece que o “método Iglesias” seduziu Daniel Vorcaro e seus sicários – sem surpresa, se forem consideradas as dimensões dos outros métodos adotados pela “Turma”.

Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”. Foto: reprodução

As organizações mafiosas modernas, como a liderada por Danilel Vorcaro, utilizam aparatos de vigilância privada e infiltrações para antecipar passos de adversários e neutralizar ameaças internas. Perseguição, levantamento de rotinas e descoberta de endereços residenciais de ex-funcionários, colaboradores insatisfeitos ou críticos são práticas rotineiras. No caso de Vorcaro, a PF identificou ordens expressas para conseguir o endereço e rastrear os passos de ex-empregados que ameaçavam expô-lo.

O banqueiro também usava de agentes ou contatos policiais para invadir ilegalmente bancos de dados sigilosos do Ministério Público Federal e da própria Polícia Federal, como apurou a investigação. O leque criminoso incluída planejamento de emboscadas violentas disfarçadas de crimes comuns para aplicar surras ou punições físicas, como àquela desvendada que se armava contra o jornalista Lauro Jardim.

A umbilical relação entre Vorcaro e o senador Ciro Nogueira, recebedor de mesadas milionárias e mimos variados, bem como o tratamento fraterno desnudado entre o banqueiro-mafioso e Flávio Bolsonaro com vistas à produção da hagiografia do pai – ou ao sustento luxuoso do foragido Eduardo Bolsonaro -, ou ainda a escandalosa promiscuidade apurada entre o CEO do Banco Master e o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro atestam o que já era público e notório: a intimidade dos bolsonaristas com adeptos de práticas milicianas. Gente da pior espécie se admira e se atrai.

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A pergunta que o advogado da ex de Vorcaro não respondeu

A modelo Martha Graeff. Foto: reprodução

A defesa da modelo Martha Graeff, ex-noiva do banqueiro Daniel Vorcaro, afirmou que ela não possui bens vinculados ao empresário e que vive de aluguel em Miami, nos Estados Unidos. Em entrevista ao “Estúdio I”, da GloboNews, na quinta-feira (19), o advogado Lúcio de Constantino disse que o patrimônio da influenciadora permaneceu inalterado antes, durante e após o relacionamento com o dono do Banco Master.

“A Martha possui um patrimônio que é igual antes, durante e depois do relacionamento. Eu perguntei: ‘Martha, tu mora onde?’ Ela mora de aluguel, em um apartamento alugado”, disse.

Apesar da afirmação, o imóvel citado é uma cobertura de alto padrão com cerca de 700 m² no complexo Four Seasons Surfside, em uma das áreas mais valorizadas de Miami. Segundo informações do caso, o contrato de aluguel teria sido pago antecipadamente por Vorcaro, e a mudança da modelo para o local ocorreu após o início do relacionamento.

A investigação da Operação Carbono Oculto identificou mensagens em que o banqueiro discutia a criação de um trust para Martha, com valores que poderiam ultrapassar R$ 520 milhões. A defesa, no entanto, nega que a influenciadora tenha conhecimento ou participação em qualquer estrutura financeira.

“A Marta possui um patrimônio que é igual antes, durante e depois do relacionamento com o senhor Daniel Vorcaro. Basta examinar as declarações de renda”, afirmou Constantino. “Ela inclusive questionou o que era um trust nas mensagens. Ela não sabia o que significava”.

Daniel Vorcaro e Martha Graeff. Foto: reprodução

Segundo o advogado, Martha chegou a buscar explicações sobre o termo e consultou um advogado nos Estados Unidos, que confirmou a inexistência de um trust em seu nome. “Ela buscou contato com um advogado nos Estados Unidos, que informou não haver nenhum trust em nome dela”, disse.

Sobre bens de luxo mencionados nas investigações, como imóveis e carros de alto valor, a defesa afirmou desconhecimento. “Ela não conhece nada disso. Eu perguntei: ‘Martha, tu mora onde?’. Ela mora de aluguel. O patrimônio que ela tem foi construído em 20 anos de trabalho nas redes sociais”.

Em nota, a defesa reforçou que “A Sra. Martha não possui imóveis, automóveis ou depósitos de valores decorrentes do relacionamento com o Sr. Daniel Vorcaro. Também não tem conhecimento sobre a existência de algum trust que lhe envolva, seja nos Estados Unidos ou em qualquer outro país”.

O advogado também criticou a divulgação de mensagens íntimas envolvendo o casal, incluindo diálogos que mencionam encontros políticos e o nome do ministro Alexandre de Moraes. “São milhares de informações que estão estruturalmente desorganizadas. (…) Existe um meio eficaz para resolver isso [citação de autoridade] e não é fazer uma publicidade, não é fazer uma mídia agressiva de relações e de intimidade. Você tem um elemento próprio para investigar em condições idôneas e não se faz.”

Em uma das mensagens, Martha reage a uma suposta videochamada com o ministro: “Morri… que vergonha, eu estava de pijama”.

Segundo a defesa, a exposição pública teve forte impacto emocional. “Houve uma degradação da esfera privada. Isso atingiu uma mulher que é mãe de uma menina de 6 anos. Ela ficou consternada pela falta de responsabilidade de quem divulgou esses dados”, afirmou Constantino.

O advogado relatou ainda que a cliente enfrenta um quadro de depressão após o escândalo. “Ela foi surpreendida com esse rombo com esse escândalo todo, tenha dúvida, não tenha dúvida (…) Esta mulher caiu em depressão.”

“Aconteceu foi num período ela ter namorado uma pessoa que se destacava no sistema financeiro (…) e que depois disso começa uma série de revelações que ela desconhecia e que ela começa a ser partícipe do público para conhecer o que está acontecendo.”

Constantino também comentou o comportamento de Vorcaro nas mensagens. “Em alguns momentos, percebe-se que ele ‘sobejava’ informações, que ele se valorizava. Isso parece um pouco comum em relação de namorados”.

Martha Graeff foi convocada para depor na CPI do Crime Organizado, mas a defesa avalia que o depoimento pode ser prejudicado caso esteja baseado em mensagens consideradas inválidas judicialmente. “Se o interesse de ouvi-la é vinculado a mensagens que foram proibidas, o depoimento fica prejudicado. Não há como fazer um movimento junto a uma prova que foi vedada”, concluiu.

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