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Não vou deixar de ser quem eu sou só porque é difícil (por Marcia Barbosa)

Marcia Barbosa (*)

Ser a única mulher na sala é um exercício de resistência e de decifração. A intimidação de mulheres que desejam crescer em espaços masculinos não é novidade. Poucas são as mulheres nas áreas de exatas e tecnológicas, e ainda menor é o percentual de mulheres no poder em qualquer área do conhecimento [1]. As que ousam adentrar esses espaços são pressionadas a manter uma postura definida por regras não escritas. Não devem ser coloridas demais, felizes demais e jamais brilhar demais. O castigo por ousar ascender na carreira é perder um pedacinho de si mesma.

Esta observação não é “mi mi mi”, é ciência.  Um estudo mostra que mulheres “perdem” a ambição em decorrência de estratégias da misoginia [2]. É o “macho palestrinha” (mansplaining), que, sem entender nada de um assunto, o explica para uma mulher especialista no tema. É o “macho rompante” (maninterrupting), que interrompe continuamente uma mulher em seu discurso, pois as ideias de um homem branco são tão relevantes que não podem esperar. E se alguma mulher reage com firmeza recebe a pecha de “histérica” (gaslighting). 

Nessa caminhada repleta de obstáculos desnecessários, muitas desistem ou escolhem outras trajetórias. Essas agressões deixam marcas. São como uma lesão antiga, que sempre dói em dias de chuva.

Como derrotar esse ecossistema misógino? Ao longo dos anos, como pesquisadora, gestora e professora, descobri uma tríade que considero o DNA de qualquer realização humana profunda: o Talento, o Trabalho e o Tesão.

O Talento é a visão do que precisa ser feito agora para criar um mundo mais sustentável e justo. É a capacidade intelectual de articular soluções onde outros veem apenas problemas, de recrutar as melhores mentes e de projetar a universidade para o futuro tecnológico e social que o Brasil exige.

O Trabalho é a coragem de executar. Sem o suor do trabalho, a visão é apenas uma alucinação.

Mas é o Tesão que move a humanidade em suas grandes descobertas. Foi essa energia que me manteve firme quando tentativas de silenciamento buscaram pautar a minha existência.

Não estou sozinha. São Marias, Joanas e Carmens, centenas de mulheres, docentes, alunas, técnicas e cidadãs, que se veem refletidas nesse enfrentamento. Os relatos que recebo são de uma semelhança estatisticamente assustadora: a interrupção de suas falas, o questionamento de sua autoridade e a tentativa constante de “domesticar” suas ambições e a crítica a seus corpos.

Ao ler cada depoimento, compreendo que minha postura como cientista e reitora não é apenas uma escolha pessoal; é um compromisso coletivo. Se eu recuar agora, se me tornar “mais palatável” para evitar o conflito, estarei validando o teto de vidro que tantas tentam romper. Esta solidariedade mostra que visão e coragem não são apenas atributos de liderança, mas ferramentas de sobrevivência política coletiva para as mulheres.

Após sobreviver a uma vida combatendo a misoginia, este não é o momento de buscar a facilidade da omissão. O “difícil” é o território onde a mudança de fato acontece. A universidade é o espaço para este debate. Sigo com a convicção de que liderar é, em última análise, manter-se fiel ao propósito, mesmo quando o entorno clama pela conformidade. Aos que esperam que eu mude para me ajustar às expectativas tradicionais, sinto dizer: meu compromisso com a construção de uma nova sociedade é maior do que qualquer conveniência do momento. Não vou deixar de ser quem eu sou só porque é difícil.

(*) Reitora da UFRGS

[1] https://rbpg.capes.gov.br/rbpg/article/view/2011

[2]https://www.yonetimkurulundakadin.org/assets/node_modules/source/pdf/bcg-dispelling.pdf

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Reitora da UFRGS destaca-se em lista da Forbes com cientistas brasileiras

A reitora da UFRGS, Marcia Barbosa, encabeça a lista de dez cientistas brasileiras publicada pela revista Forbes na última semana em celebração ao Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, transcorrido em 11 de fevereiro. Com o título “10 Brasileiras que Transformam a Ciência no Brasil e no Mundo”, a lista apresenta mulheres pesquisadoras que lideram descobertas, abrem caminho para novas gerações e fazem história em ambientes ainda marcados pela sub-representação feminina.

Com graduação, mestrado e doutorado realizados na UFRGS, a reitora é professora titular do Instituto de Física da Universidade e pesquisadora nível 1A do CNPq. Marcia Barbosa também é membro titular da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Mundial de Ciências (TWAS). Suas pesquisas abordam principalmente a água e o uso de suas anomalias para processos físicos e biológicos, aplicando nanociência para obter mais água potável. Pelo estudo das anomalias da água ganhou o prêmio Loreal-Unesco de Mulheres nas Ciências Físicas e o prêmio Claudia em Ciência, ambos em 2013. Ao longo de sua carreira, Marcia recebeu várias distinções, incluindo o reconhecimento por sua forte atuação em questões de gênero.

Sobre o destaque na publicação, a reitora disse que é “uma grande honra ser a primeira citada pela revista Forbes como pesquisadora destaque, principalmente pela visibilidade junto à população”. E acrescentou que “não foi uma conquista isolada, mas uma construção coletiva da comunidade da UFRGS e de nossas parcerias”.

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