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Ibovespa, juros e dólar vivem sessão volátil com reajuste do Bolsa Família, mas encerram o dia com ganho

A quinta-feira (17) foi um dia de montanha-russa no mercado brasileiro. A sessão começou em clima positivo, com queda de juros, baixa do dólar e alta da bolsa, como reflexo do corte de juros pelo Banco Central na véspera.

Mas, antes mesmo de a manhã terminar, o quadro mudou completamente. O anúncio de um reajuste surpresa de 15% no valor do Bolsa Família, que pode significar um custo extra de R$ 22 bilhões para o orçamento de 2027, azedou o humor dos investidores.

Em um momento no qual a proximidade das eleições amplia os questionamentos do mercado sobre o aumento de gastos públicos, que impulsiona cada vez mais o endividamento do governo, o temor criado pelo anúncio de um aumento de 15% do benefício ganhou muito mais amplitude.

Como resultado, os juros futuros passaram a subir – o Tesouro Direto chegou a entrar em “circuit breaker“, ou seja, uma pausa forçada quando a volatilidade dispara –, o dólar voltou ao território positivo ante o real e o Ibovespa inverteu o rumo de alta.

Ibovespa se recupera

O baque, porém, foi sendo assimilado ao longo da tarde, principalmente, diante do cenário exterior positivo.

No fim do dia, o Ibovespa voltou ao território positivo e terminou em alta de 0,24% aos 185.992 pontos.

O dólar passou a cair e terminou o dia em queda de 0,24% a R$ 5,1386.

No Tesouro Direto, títulos como o IPCA+ 2040 e o Prefixado 2032 tiveram elevações significativas de taxas no início da tarde, mas terminaram no mesmo patamar da quarta-feira (16).

O Tesouro IPCA+ 2040 encerrou estável taxa de 7,31%, a mesma do dia anterior. O Tesouro Prefixado 2032 teve uma ligeira alta para 14,26%, ante 14,24% um dia antes.

Lá fora, os mercados internacionais reagiram à queda dos preços do petróleo e ao leve recuo das taxas dos títulos federais americanos.

O barril do Brent, a referência internacional, recuou 1,71% para US$ 104,02. Os juros do título de 10 anos dos EUA fecharam abaixo da marca de 5% a 4,934% ao ano.

As bolsas de Nova York subiram nesta quinta-feira, impulsionadas pelas ações de tecnologia. O S&P 500 avançou 1,14% e o Nasdaq teve ganho de 1,69%.

No pano de fundo, a decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) tomada na quarta-feira (16) de subir os juros em 0,25 ponto e sinalizar mais uma alta pela frente passou a ser avaliada pelo lado do copo meio cheio.

A elevação das taxas ajudou a tirar qualquer dúvida sobre a credibilidade do Fed. Além disso, a decisão foi tomada em um momento visto como favorável em termos de crescimento e perspectivas.

A própria avaliação do Fed indicou uma visão de que a economia americana está mais forte que o esperado e em um cenário de pleno emprego.

Uma ação de controle de preços, nesse caso, foi vista como relativamente benéfica. Isso porque, além de aliviar a pressão inflacionária, pode tirar parte do prêmio no mercado de juros relacionado à desconfiança sobre um BC mais vulnerável a ingerências políticas.

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Após reajuste ‘surpresa’ do Bolsa Família, Ibovespa reverte alta, e dólar e juros passam a subir

A volatilidade eleitoral segue a toda nesta quinta-feira (17). A bolsa abriu a sessão em alta e o dólar em queda, como reflexo da visão mais positiva sobre a continuidade do ciclo de queda de juros após o BC ter cortado a Selic ontem e deixado a porta aberta para novas reduções.

Mas o alívio durou pouco. Mais precisamente um par de horas. Até o anúncio do governo de que pretende subir em 15% os benefícios do Bolsa Família.

A preocupação com o desequilíbrio fiscal, com gastos crescente que elevam o endividamento público, têm mantido os prêmios pedidos pelos investidores para financiar o governo em patamares historicamente elevados.

As taxas no Tesouro Direto, que tinha iniciado a manhã em queda no embalo do Copom, passaram a subir. A plataforma acionou o ” circuit breaker” por volta de 11h.

O circuit breaker é uma paralisação temporária nas negociações quando os juros passam a oscilar de maneira atípica.

Após a retomada das negociações, as taxas subiram significativamente. O Tesouro Prefixado 2032, por exemplo, saiu de 14,24% na abertura para 14,34%. Em reais, houve um recuo de 0,40% nessas poucas horas.

O Tesouro IPCA+ 2050, por sua vez, saiu de inflação mais 7,24% para 7,26%. Isso significa que o saldo de reais de quem tem esse título encolheu 0,33%.

Os juros futuros também passaram a subir. O contrato de DI futuro com vencimento em janeiro de 2031 passou de 14,11% para 14,19% por volta de 11h20.

O dólar amanheceu em queda. Após o anúncio do Bolsa Família, a moeda americana virou para uma alta de 0,21%, cotada a R$ 5,16.

O Ibovespa que tinha iniciado o dia em alta, reverteu o rumo e passou a recuar 0,82% a 184.026 pontos. O principal índice da bolsa, no entanto, teve força para voltar ao território positivo, conforme os investidores passaram a colocar em perspectiva impacto fiscal da medida.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, reafirmou no fim da manhã que o novo desembolso “cabe dentro do orçamento”.

O próprio ciclo de cortes de juros do BC pode ajudar indiretamente o governo ao reduzir o custo de captação.

Bolsa Família aumenta em R$ 91

Com o reajuste, o valor mínimo do programa sobe para R$ 691 dos atuais R$ 600.

O próprio governo explicou que o benefício médio subirá cerca de R$ 100 para R$ 777.

Com isso, o impacto fiscal da decisão será de R$ 5,8 bilhões em 2026, mas vai custar aos cofres públicos mais R$ 22 bilhões ao longo de 2027.

O aumento do benefício ocorre em um momento de reação do candidato de oposição. Uma nova pesquisa eleitoral publicada nesta quinta-feira (17) mostrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o rival Flávio Bolsonaro empatados no segundo turno, com 47% dos votos.

O levantamento foi feito pela AtlasIntel para a Bloomberg News.

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Na contramão da lógica, ouro sobe com juro americano em alta – veja como investir

O comportamento do ouro quebrou, entre agosto e o início de setembro, uma escrita que sempre prevaleceu.

Em vez de o preço do metal cair quando os juros de longo prazo americanos passaram a subir rumo aos maiores níveis em 19 anos, a cotação sobe – desde o início de agosto, são 8% a US$ 4.425 a onça (31g).

Não é o natural. Com os títulos públicos americanos de 10 anos pagando quase 5%, e os de 30 anos acima de 5% (o que não se via desde 2007) , o normal é que dinheiro investido em outros ativos fluam para o porto seguro dos Treasuries.

Inclusive o ouro, que não paga juros.

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O que está acontecendo, então?

Há mais de um fator – e vamos ver adiante. Mas o grande agente que puxa a cotação do ouro são as compras dos Bancos Centrais. Foram 289 toneladas só no 2º trimestre de 2026. O volume é cinco vezes superior às 57 toneladas dos três primeiros meses do ano e 62% maior na comparação anual.

Por trás das compras está um movimento global que não é de hoje: a substituição de dólares por ouro nas reservas dos Bancos Centrais – inclusive no Brasil, que aumentou em 33% o volume de ouro em suas reservas desde 2024 – para 172 toneladas.

Substituição parcial. Só que mais do que suficiente para fazer preço . E porque substituir? Em grande parte, porque a dívida pública dos EUA é a maior desde a Segunda Guerra mundial (125% do PIB).

Quando isso acontece, aumenta o temor de que, em algum momento, o governo acabe emitindo moeda para aliviar a dívida – caso o faça, cria-se inflação. A moeda desvaloriza; e as reservas deixam de fazer sentido.

O ouro não tem esse problema. Ninguém tem o poder de “emitir” ouro. A força dele está na escassez.

Tem mais. As compras dos BCs elevam o preço. E o que acontece com ativos que sobem de preço? Investidores correm para eles. O preço sobe mais ainda.

Essas compras tinham perdido fôlego. Mas agora veio uma retomada firme, que cria um suporte para as cotações que o mercado não tinha no início do ano, reforça Mauriciano Cavalcante, especialista da corretora Ourominas.

O Goldman Sachs projeta a cotação do ouro em US$ 4,9 mil no fim de 2026 – o que daria ao metal um potencial de alta de 12% em dólar. “Ainda que sujeita a uma volatilidade maior e de mão dupla ao longo da trajetória”, acrescentam os analistas.

Vale notar que esse não é o auge do ouro. O boom mesmo foi entre 2025 e o começo deste ano, quando o ouro alcançou a máxima histórica de US$ 5,6 mil e acumulou uma valorização de 46% no ano.

Ou seja: queda de 21% desde lá. Ouro é renda variável, com todos os riscos de renda variável. Recomenda-se não ter mais de 3% da carteira investidos no metal amarelo.

A boa notícia, de qualquer forma, é que nunca foi tão simples investir em ouro.

ETFs facilitam acesso

A mais indicada é via ETFS – os fundos negociados em bolsa, que você compra e vende como se fossem ações.

No caso do ouro, há vários ETFs no Brasil que seguem o Índice Futuro de Ouro B3 (Ifgold B3).

Como acontece com quase toda commodity, o mercado futuro, com preços combinados para fechar o negócio numa data específica, é maior que o mercado à vista. Daí a existência desse índice, que acompanha os contratos futuros de ouro mais negociados na bolsa brasileira. Em agosto o Ifgold B3 apresentou um ganho de 10,11%.

Entre os ETFs que o acompanham, então o GLDI11, da Itaú Asset, e o GOLB11, do BTG Pactual, replicam o Ifgold B3.

O cardápio, de qualquer forma, varia bem. O OURO11, da XP Vista Asset, busca replicar o desempenho do ETF internacional IAU (iShares Gold Trust), indexado ao preço do ouro à vista.

Sempre vale lembrar: como a cotação do ouro é em dólar, você fica exposto ao câmbio. Uma eventual queda do dólar pode minar seu investimento, mesmo que a cotação do ouro suba.

Stablecoins de ouro

Outra possibilidade é usar stablecoins de ouro. São criptomoedas com lastro em ouro físico, que fica guardado em cofres de custodiantes terceirizados.

Cada unidade dessas stablecoins representa uma onça troy, a unidade fora do sistema métrico que o mercado adota, e que dá 31 gramas.

E as duas principais stablecoins de ouro do mercado são a PAX Gold (PAXG) e a Tether Gold (XAUT). Elas dominam 88,2% do mercado.

O ambiente clássico de negociação desses ativos são as corretoras de criptoativos (Mercado Bitcoin, Mynt, Foxbit etc.). Mas bancos tradicionais têm.

Intervenções dos EUA

De volta ao mundo macro. A escalada recente do ouro tem ainda apoio do comportamento intervencionista do Tesouro dos EUA, chefiado por Scott Bessent, o equivalente americano a Ministro da Fazenda.

Bessent realizou em momentos distintos em agosto duas intervenções. A primeira foi uma grande compra de ienes no mercado para evitar uma queda (ainda) maior da moeda japonesa.

O suporte foi dado para evitar que o país asiático tivesse, ele mesmo de fazer isso. Se fizesse, teria de tenha de recorrer a uma venda de reservas, ou seja, de Treasuries. Esse movimento poderia desvalorizar o dólar.

E mais recentemente, Bessent duplicou a recompra de títulos de longo prazo do Tesouro americano para US$ 4 bilhões. O movimento foi lido como uma tentativa de segurar a subida das taxas das Treasuries de 10 e 30 anos.

A perspectiva de um ciclo de intervenções constantes no mercado alimentou a demanda por ativos de proteção, como o ouro e até bitcoin e outras criptomoedas, conforme Christian Mueller-Glissmann, analista do Goldman Sachs.

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Fed, banco central americano, avalia reduzir número de reuniões anuais

Pelo menos um terço de todos os dirigentes do Federal Reserve (Fed) afirmou que consideraria realizar reuniões com menor frequência para definir as taxas de juros, o que dá a Kevin Warsh uma oportunidade inicial para implementar uma das maiores mudanças estruturais que propôs como novo presidente do banco central.

Ainda não se sabe se a ideia poderá ser adotada em breve. O comitê de política monetária do Fed ainda não discutiu os detalhes. Alguns dirigentes abertos à proposta também afirmaram que querem uma análise mais aprofundada das possíveis vantagens e desvantagens, além de avaliar se a mudança viria acompanhada de outros possíveis ajustes na estratégia de comunicação do Fed.

Beth Hammack, presidente do Fed de Cleveland, Jeffrey Schmid, de Kansas City, e Anna Paulson, da Filadélfia, estão entre um grupo de seis presidentes de unidades regionais do Fed que afirmaram recentemente estar abertos a reduzir o número de reuniões regulares do comitê que define as taxas de juros.

Na reunião de julho, Warsh sugeriu realizar seis encontros por ano para discutir e definir as taxas de juros, reservando outras duas reuniões para debater um tema econômico relevante, conforme noticiado anteriormente pela Bloomberg News.

Por lei, o banco central é obrigado a se reunir quatro vezes por ano, embora o número de encontros tenha variado ao longo das décadas. Desde 1981, os dirigentes programam oito reuniões anuais.

“O presidente observou que seis reuniões programadas por ano, realizadas aproximadamente a cada dois meses, permitiriam acumular mais informações entre os encontros do que na prática atual e dariam aos formuladores de política monetária e à equipe mais tempo para considerar questões estratégicas de política monetária”, mostraram as atas da reunião de julho.

A redução do número de reuniões representaria uma mudança significativa na forma de funcionamento do banco central dos EUA e o diferenciaria de seus principais pares no exterior. O Banco Central Europeu, o Banco da Inglaterra e o Banco do Japão se reúnem oito vezes por ano.

Não está claro se os dirigentes discutirão em detalhes a proposta de Warsh na reunião de política monetária marcada para 15 e 16 de setembro. A inflação elevada e a possibilidade de elevar os juros pela primeira vez em três anos podem dominar o próximo encontro.

Embora vários dirigentes tenham afirmado estar abertos a reduzir o número de reuniões do Fed a cada ano, alguns disseram que querem primeiro analisar as possíveis implicações da mudança.

“É ótimo reavaliar a maneira como fazemos as coisas”, disse Paulson à CNBC no mês passado. “Assim como na política monetária, também estou de mente aberta nesse aspecto. Quero entender melhor as vantagens e desvantagens de seis em comparação com oito — como tudo isso funciona.”

Implicações para as projeções

Uma mudança na frequência das reuniões provavelmente teria implicações para os materiais divulgados pelo Fed em alguns de seus encontros. Atualmente, o Fed publica as projeções econômicas e para as taxas de juros dos formuladores de política monetária quatro vezes por ano — nas reuniões de março, junho, setembro e dezembro. A adoção de seis reuniões levantaria a questão de se essas projeções continuariam a ser divulgadas e com que frequência.

A própria divulgação dessas projeções está sendo examinada por um grupo de trabalho sobre comunicação — um dos cinco grupos desse tipo, formados por especialistas externos e criados por Warsh neste ano para analisar diferentes práticas do Fed. A expectativa é que os cinco grupos apresentem recomendações ao Comitê Federal de Mercado Aberto por volta do fim deste ano.

“Acho que é saudável”, disse Austan Goolsbee, presidente do Fed de Chicago, no podcast Odd Lots, da Bloomberg, no mês passado, ao ser questionado sobre a revisão da comunicação e a possibilidade de mudanças na frequência das reuniões, das projeções econômicas e das entrevistas coletivas realizadas após os encontros. “Vamos repensar tudo isso.

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Eleições 2026: como a disputa eleitoral afeta bolsa, juros e câmbio?

As eleições 2026 podem mexer com a bolsa de valores, o dólar e os juros antes mesmo de o próximo presidente assumir. Isso acontece porque investidores negociam ativos com base em expectativas sobre inflação, juros, contas públicas, regulação e desempenho das empresas nos próximos anos.

Uma eleição pode alterar essas projeções. O resultado da disputa presidencial e a composição do Congresso ajudam a definir quais políticas econômicas terão mais chance de avançar no governo seguinte.

Quando uma pesquisa ou uma votação muda a probabilidade atribuída a esses cenários, os preços dos ativos podem reagir antes de qualquer nova política sair do papel.

Por que as eleições 2026 afetam o mercado?

O preço de uma ação reflete expectativas sobre os resultados futuros da empresa. Por isso, uma eleição pode mudar essa avaliação antes mesmo da posse, caso o mercado espere alterações em impostos, gastos públicos, regulação ou outras políticas capazes de afetar custos e lucros.

Os juros também entram nessa conta. O presidente da república não define a Selic, cuja condução cabe ao Banco Central, mas o governo influencia a política fiscal — as decisões sobre arrecadação, gastos e dívida pública — e propõe orçamento e prioridades de gastos.

Mudanças nas expectativas para dívida, inflação e contas públicas podem alterar os juros exigidos pelo mercado financeiro, isto é, o retorno cobrado por investidores para financiar governo e empresas. Isso afeta o custo de financiamento e a avaliação das companhias.

Nas estatais, a ligação pode ser mais direta. A União é controladora da Petrobras e tem influência na escolha de integrantes de seu conselho de administração. Por isso, uma troca de governo pode mudar expectativas sobre gestão, investimentos, dividendos e estratégia da companhia — fatores que também entram no preço das ações.

Como uma surpresa eleitoral mexe com o mercado?

As eleições de 2022 ajudam a mostrar como uma mudança inesperada no cenário pode mexer rapidamente com os preços dos ativos.

Luiz Inácio Lula da Silva terminou o primeiro turno com 48,43% dos votos válidos, contra 43,20% de Jair Bolsonaro. A diferença de 5,23 pontos ficou abaixo da vantagem indicada pelas principais pesquisas antes da votação.

No pregão seguinte, em 3 de outubro de 2022, o Ibovespa avançou 5,54%, enquanto o dólar caiu 4,02% e os juros futuros recuaram. Dois fatores eleitorais entre as explicações para o movimento: Bolsonaro havia obtido um resultado acima do indicado pelas principais pesquisas e o Congresso eleito ganhou uma composição mais à direita. Investidores avaliavam que esse Legislativo poderia restringir mudanças mais amplas na política econômica do governo seguinte.

O movimento citado acima não foi explicado apenas pela eleição: o ambiente externo também ajudou os ativos brasileiros naquele dia.

Como as eleições podem mexer com o dólar?

Uma eleição pode mexer com o dólar porque também altera a percepção de risco dos investidores sobre o país.

Se investidores estrangeiros aumentam a procura por ativos brasileiros, pode haver maior demanda por reais, favorecendo a valorização da moeda. Já uma redução dessas posições ou a saída de recursos pode pressionar o real para baixo.

Um exemplo apareceu depois do primeiro turno de 2022. No pregão seguinte à votação, o dólar caiu cerca de 4%, para perto de R$ 5,18, enquanto investidores reagiam ao resultado mais apertado do que indicavam as pesquisas e à nova composição do Congresso.

O câmbio também era favorecido pelo cenário externo naquele dia, mas a queda do dólar frente ao real foi muito maior do que o recuo da moeda americana no exterior.

Um estudo publicado pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) em novembro de 2025 ajuda a mostrar que esse mecanismo não fica restrito à oscilação diária das moedas.

Nos países de menor estabilidade política da amostra, os fluxos privados brutos — que incluem entradas e saídas de capital — ficaram, no trimestre eleitoral, 28,3% abaixo da média dos seis meses anteriores.

Ao analisar 261 eleições em 38 economias emergentes, incluindo o Brasil, entre 1990 e 2020, o estudo encontrou uma redução dos fluxos privados de capital no entorno das eleições.

O efeito foi maior quando a incerteza sobre a política econômica persistia após a votação e menor em países com maior estabilidade política e instituições mais fortes.

Eleições também podem adiar investimentos

O efeito das eleições não aparece apenas nas oscilações de bolsa e dólar. Diante da incerteza sobre as políticas do próximo governo, empresas e investidores também podem esperar mais clareza antes de comprometer dinheiro em decisões de longo prazo.

Foi justamente onde o FMI encontrou os resultados mais claros. O impacto eleitoral apareceu no investimento estrangeiro direto e em operações como empréstimos e financiamentos transfronteiriços, ou seja, crédito concedido entre agentes de países diferentes.

Nos países de menor estabilidade política da amostra, os fluxos privados brutos ficaram, no trimestre eleitoral, 28,3% abaixo da média dos seis meses anteriores. Isso indica como a combinação entre eleição e maior incerteza política pode pesar sobre decisões de investimento.

Por que os juros futuros também reagem?

Os juros futuros refletem expectativas sobre inflação, dívida pública, política fiscal, crescimento da economia e trajetória da Selic. Por isso, uma eleição pode mexer com esses contratos se alterar a percepção dos investidores sobre como o próximo governo pretende arrecadar, gastar e administrar as contas públicas.

O próprio Banco Central reconhece que a política fiscal pode afetar a percepção sobre a sustentabilidade da dívida e o prêmio exigido pelos investidores na curva de juros. A curva de juros mostra quanto o mercado exige de retorno para diferentes prazos. Essas taxas incorporam expectativas sobre a Selic, a inflação e o risco fiscal, entre outros fatores.

Quanto maior o risco percebido, maior pode ser o retorno exigido para emprestar dinheiro por prazos mais longos.

Um exemplo apareceu depois do primeiro turno de 2022, quando os juros futuros recuaram. Na época, parte do movimento forma relacionados ao resultado mais forte da direita no Congresso e à expectativa de que a nova composição do Legislativo pudesse limitar uma eventual expansão fiscal no governo seguinte.

A eleição, portanto, não determina sozinha os juros, mas pode mudar as projeções que ajudam a formar essas taxas anos antes de uma política efetivamente entrar em vigor.

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Renda fixa e bolsa: como ficam os investimentos com os novos rumos das taxas de juros

A Superquarta das decisões sobre juros no Brasil e nos Estados Unidos deixou uma mensagem dividida para investidores tanto na renda fixa como na variável.

No Brasil, o Copom (Comitê de Política Monetária) cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano, e manteve aberta a possibilidade de novas reduções. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve, banco central americano, manteve os juros entre 3,5% e 3,75%, mas as projeções dos dirigentes voltaram a colocar no radar a chance de altas ainda em 2026.

O efeito imediato foi de pressão sobre o dólar e cautela com ativos de risco. Na quinta-feira (18), a moeda americana subiu para R$ 5,18, alta de 1,16%, enquanto a bolsa brasileira fechou em leve queda.

“A expectativa já era que o Fed mantivesse os juros. O grande ponto foi falarem em alta de juros ainda neste ano nos EUA”, disse Celson Placido, CIO da Apent, holding controladora do Clube FII e da Autem Investimentos. “Isso gera aversão ao risco e contribui para jogar o dólar para cima. Além disso, esse (menor) diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos tende a afetar o nosso mercado.”

Renda fixa segue atrativa

Na renda fixa, com a Selic em 14,25% ao ano, as taxas nominais e reais continuam elevadas.

Para médio e longo prazo, títulos IPCA+ seguem interessantes por causa das taxas em patamares historicamente elevados, mas exigem cuidado com a chamada marcação a mercado. A taxa contratada vale para quem carrega o papel até o vencimento. Se o investidor precisar vender antes, o preço do título pode oscilar e até gerar perda se os juros futuros subirem, como tem sido o caso.

“Olhando para o médio e longo prazo, o IPCA+ segue extremamente interessante. Também tem taxa prefixada curta [com vencimento no curto prazo] atrativa”, disse Placido.

Nas cotações consultadas no Tesouro Direto, o Tesouro IPCA+ com vencimento em 2032 era vendido na quinta a uma taxa de 8,41% ao ano acima da inflação, renovando sua máxima histórica.

Nos prazos mais longos, o Tesouro IPCA+ 2040 e o Tesouro IPCA+ 2050 mostraram leves recuos, mas ainda fecharam com taxas de 7,50% e 7,18% na quinta-feira. Já o Tesouro Prefixado 2032 era oferecido a 14,78% ao ano, ante 14,67% no dia anterior.

Para recursos pensados para formar reserva de emergência, caixa e capital de curto prazo, Placido afirma que os produtos pós-fixados de alta liquidez, como Tesouro Reserva, Tesouro Selic e CDBs atrelados ao CDI com liquidez diária, seguem sendo os mais indicados.

A equipe de renda fixa da XP Investimentos também identifica oportunidades na classe. Em relatório, os analistas afirmam que a combinação de carrego elevado, spreads (prêmio de risco) em ajuste e fundamentos ainda resilientes reforça a atratividade dos títulos.

“Recomendamos prazo médio de até 6 anos, principalmente nos títulos indexados à inflação, privilegiando exposição a emissores com métricas de crédito de qualidade. O cenário atual exige maior disciplina na alocação”, comentam os analistas.

Na curva de juros (que reflete as apostas para as taxas nos próximos anos), a reação tende a ser diferente por prazo. Na chamada ponta curta, em papéis de renda fixa de vencimento no curto prazo, a possibilidade de mais um corte pode favorecer a queda das taxas.

Nos contratos com vencimentos mais longos, riscos de inflação, fiscal e câmbio mantêm os prêmios elevados: se o investidor puder carregar papéis como IPCA+ até o vencimento, terá chance de contratar retornos mais elevados.

Bolsa ainda exige seletividade

Na bolsa, o corte da Selic tende a favorecer empresas mais sensíveis ao ciclo doméstico, como as de varejo, construção civil, consumo e companhias dependentes de crédito. Juros menores reduzem o custo de capital e melhoram o valor presente dos fluxos de caixa, o que se traduz em preços mais altos.

Mas o espaço para cortes, ainda que estejam no radar, é menor do que o esperado no começo do ano. O impacto para tais empresas, portanto, não deve ser muito significativo.

E o Fed com abordagem mais rigorosa limita o otimismo. Se os juros americanos subirem, ou se o mercado continuar precificando um aperto adicional, o dólar tende a ganhar força e o apetite por risco diminui. Isso pesa sobre emergentes e pode reduzir o fluxo para a bolsa brasileira.

Nesse ambiente, a seletividade continua a exercer importância. Empresas com geração de caixa, baixa alavancagem, balanços sólidos e boa previsibilidade de receitas tendem a atravessar melhor a volatilidade do que companhias muito dependentes de uma queda rápida dos juros.

A síntese é que a renda fixa continua oferecendo prêmios elevados, mas exige atenção ao prazo. A bolsa pode se beneficiar se o câmbio aliviar e a curva de juros – com as projeções da taxa ao longo dos próximos anos – cair, mas segue vulnerável ao exterior. E o dólar virou uma variável-chave a ser monitorada para entender até onde o ciclo de cortes da Selic ainda pode ir.

O que esperar do dólar e seus efeitos

Para José Faria Júnior, diretor da Wagner Investimentos, o ponto de atenção mais imediato para investidores no câmbio é o DXY, índice que mede a força do dólar frente a uma cesta de moedas fortes. Quando o índice sobe, mercados emergentes costumam sentir pressão sobre câmbio, juros futuros e fluxo estrangeiro de capital para ativos.

O DXY voltou a testar a região dos 100 pontos, considerada técnica e psicologicamente relevante para os participantes do mercado.

“Se o DXY começar a bater nos 101 pontos, isso pode levar a uma arrancada do dólar, gerar uma onda de pessimismo e fazer o real a se desvalorizar, complicando um pouco a vida do BC aqui”, disse Faria.

Isso não significa que o dólar, sozinho, determine a decisão da Selic. Mas um real mais depreciado pode piorar as expectativas de inflação, elevar os prêmios de risco da renda fixa com vencimento para o longo prazo e reduzir o espaço para uma leitura mais benigna dos ativos brasileiros.

Entenda as razões do Copom…

Apesar de reconhecer em seu comunicado junto com a decisão um cenário mais desconfortável para a inflação, o Banco Central não fechou a porta para novos cortes.

O motivo está no espaço deixado para novas reduções da Selic e no chamado alongamento do horizonte relevante da política monetária.

A partir da próxima reunião, em agosto, o Copom passa a olhar com mais peso o primeiro trimestre de 2028, e não mais o quarto trimestre de 2027. Esse deslocamento dá mais tempo para a inflação convergir à meta e ajuda a explicar o corte, mesmo em um ambiente ainda desafiador.

“No Brasil, a meta é móvel. Estamos a poucos dias do terceiro trimestre, então o Copom ganha três meses. O Relatório de Política Monetária, a ser divulgado na próxima quinta-feira (25), vai trazer as expectativas de inflação para o primeiro trimestre de 2028, que será o próximo horizonte relevante”, afirma o diretor da Wagner Investimentos.

Para ele, o BC foi mais dovish por dois motivos: deu mais peso à atividade econômica e passou a considerar que a queda das commodities pode ajudar a inflação nos próximos meses. Itens como alumínio, ureia, milho, soja e trigo já recuaram, mas ainda sem repasse completo ao consumidor.

“Provavelmente, não é um ciclo de cortes. É um ciclo de ajuste. Ele [Banco Central] deixou a porta aberta. Se tivermos uma surpresa positiva com commodities e algum repasse para preços, não me surpreenderia outro corte”, disse Faria.

… e as razões do Fed

Nos EUA, a manutenção dos juros era esperada. O que mexeu com os mercados foi a sinalização do banco central de que uma alta ainda pode ocorrer este ano.

Faria avalia que o Fed pode ter usado o discurso mais duro para conter o que apontou como excesso de otimismo do mercado, não necessariamente porque a alta seja o cenário mais provável.

“Faz sentido dar um certo susto em falar em subir agora, para o mercado não ficar muito animado”, afirma.

Para ele, se os próximos dados de inflação vierem mais brandos, a alta pode não se concretizar. A queda recente do petróleo e de outras commodities ajuda essa tese.

O dado mais observado será o CPI, índice de preços ao consumidor dos EUA. A leitura de junho será divulgada em 14 de julho. O CPI não é a medida oficial perseguida pelo Fed, que mira o índice de preços PCE, mas costuma influenciar as apostas do mercado para os juros americanos.

Ainda assim, Faria ressalta que cortes de juros nos EUA também não estão mais em discussão no curto prazo. A economia americana segue resiliente, o mercado de trabalho continua firme e a inflação permanece acima da meta há cinco anos.

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Tesouro Direto: por que IPCA+ 8% e juro nominal de quase 15% seguem nos preços do mercado

Desde o início da Guerra do Irã, no fim de fevereiro, a volatilidade virou rotina no mercado de juros, com impacto relevante sobre o investimento em renda fixa.

A má notícia é que mesmo com o anunciado fim do conflito nesta semana, o sobe-e-desce das taxas e dos preços dos títulos deve persistir diante de um conjunto de fatores domésticos e diante do “legado” inflacionário global dos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o país do Oriente Médio.

As taxas de juros na plataforma do Tesouro Direto alcançaram patamares que os investidores não viam desde a crise de confiança fiscal no fim de 2024 e no início de 2025, quando o dólar passou de R$ 6,20.

E, antes disso, os títulos públicos só haviam flertado com a marca dos 15% ao ano, no caso dos prefixados, ou apresentado retornos acima de IPCA mais 8%, uma década atrás. Foi entre 2015 e 2026, quando o país enfrentou uma das mais prolongadas crises econômicas da história.

As oscilações têm sido tão fortes que o Tesouro Direto entrou em “circuit break” em várias ocasiões ao longo desta semana. A última paralisação das negociações por causa da volatilidade exagerada ocorreu na quinta-feira (18) no início da tarde, em um momento em que o Tesouro IPCA+ 2032, por exemplo, chegou a bater seu recorde de taxa mais elevada com IPCA+ 8,51% ao ano.

Por volta de 9h30, esse papel estava sendo negociado a IPCA+ 8,44%. O Tesouro IPCA+ 2040 tinha retorno de 7,50%, enquanto o papel atrelado à inflação com vencimento em 2050 apresentava rendimento de 7,16%.

O Tesouro Prefixado 2029 chegou a 14,81% e está no maior nível desde, pelo menos, 2022. O mesmo ocorre com o Tesouro Prefixado 2032, com uma taxa nominal de 14,79% ao ano, que apresenta o retorno mais elevado desde início de 2025, desconsiderando os picos no início da semana.

Na renda fixa, quando as taxas sobem, isso significa que os preços em reais dos papéis caíram. Isso ocorre porque os títulos negociados antes do vencimento no chamado mercado secundário sofrem a chamada marcação a mercado.

Nesse caso, os preços de compra e venda vão variar conforme as condições do momento e podem apresentar grandes descontos em relação ao valor original, como no cenário atual.

Dinâmica do Tesouro Direto

Se o detentor do título precisa vendê-lo agora e a taxa original é menor do que aquela pedida nas negociações no mercado secundário, na prática, vai ter aceitar um desconto sobre o preço que pagou para conseguir repassar o papel: ou seja, vender com prejuízo.

Por isso, para quem tem Tesouro Prefixado ou IPCA+ e pode manter os recursos aplicados nos próximos meses, o melhor é evitar vendê-los em um momento no qual a volatilidade é muito elevada. Quem pode carregar os ativos até o vencimento vai receber exatamente o que contratou.

A lógica muda para quem pode aplicar no longo prazo e tem maior tolerância ao sobe-e-desce das taxas e dos preços. Os retornos estão, como apontado acima, em patamares elevados e o investidor pode travar uma remuneração historicamente alta por vários anos.

Juros mais altos por mais tempo

Existem vários motivos pelos quais os juros longos têm subido. O aumento das taxas no Tesouro Direto é um reflexo da perda de referência sobre a inflação futura. Os economistas chamam esse processo de “desancoragem de expectativas”.

Na prática, a desancoragem mostra que o mercado prevê mais inflação no futuro e começa a perder a confiança de que a política monetária executada pelo Banco Central vai conseguir controlar o nível de preços que vem pela frente. Diante disso, investidores passam a reajustar as expectativas e as taxas sobem.

O mais recente boletim Focus, que mostra as projeções das instituições financeiras sobre inflação, juros, câmbio e PIB, trouxe pela 14ª vez seguida um ajuste para cima do IPCA esperado ao fim de 2026.

O mercado já enxerga uma inflação de 5,3% quando o ano terminar. É um nível bem acima da meta de inflação de 3% do BC e também significativamente superior ao teto da meta, que prevê uma tolerância de 1,5 ponto percentual além do centro da meta, portanto, até 4,5%.

O Focus mostra ainda que as casas de análise veem a inflação em 4,10% no fim de 2027, na quarta revisão seguida do IPCA. É um patamar que já se aproxima do teto da meta.

Esse cenário no qual expectativas de inflação futura apresentam uma desancoragem cada vez maior se junta a outras incertezas, como pressões crescentes de altas de preços, choques de oferta e alta demanda do consumo interno, aquecido pelas injeções de recursos em um ano eleitoral.

Diante desse conjunto de incertezas, o mercado já enxerga zero espaço para o BC continuar a cortar juros.

O consenso enxerga uma pausa ou mesmo o fim do ciclo de queda da Selic na reunião de agosto do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC. A perspectiva inclui um juro básico mais alto por mais tempo ou, eventualmente, a possibilidade de a autoridade ter de subir a taxa no fim do ano.

O próprio Copom reconheceu essas dificuldades no comunicado que acompanhou a decisão de juros na quarta-feira (17), quando cortou a Selic em 0,25 ponto percentual para 14,25% ao ano.

“O cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, e pressões no mercado de trabalho”, pontuou a autoridade.

No entanto o mesmo comunicado do Copom trouxe, na visão de boa parte do mercado, a mensagem implícita de que a atual composição da diretoria do Banco Central pode ser mais leniente com as expectativas desancoradas de inflação, o que acaba autoalimentando o processo de perda de credibilidade do mercado no cumprimento do combate do trabalho de política monetária.

Se a taxa básica permanecer em 14,25% até o início do próximo ano, o juro real, ou seja, a parcela do retorno acima da inflação, pode se manter em quase 9%, considerando a projeção do IPCA de 5,3% para o fim de 2026 do Focus.

Mesmo para 2027, as expectativas seguem desafiadoras: a pesquisa do BC mostra que o mercado vê a Selic em 12% ao ano, com um IPCA de 4,10%. Isso representa um juro real de 8%. Sim, o custo de oportunidade, ou seja, o rendimento no curto prazo da aplicação mais segura do mercado, pode continuar em IPCA+ 8% brutos ao ano.

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Porta se fechou e BC vai interromper corte da Selic em agosto, projeta Silvia Matos, da FGV

O ciclo de cortes de juros do Banco Central pode ter durado só três reuniões. Se o Comitê de Política Monetária (Copom) realmente alcançou o limite das reduções da Selic na reunião desta quarta-feira (17) terá sido o menor ciclo de diminuições desde junho de 2002, quando a autoridade fez apenas um recuo, pausou o ciclo e, depois, teve que subir a taxa básica.

A avaliação que começa a se tornar consensual no mercado é a de que a porta dos cortes se fechou mesmo com o acordo para encerrar a Guerra do Irã. Se a pausa ou, eventualmente, o próprio fim do ciclo de queda da Selic se concretizar, há um impacto significativo sobre os investimentos.

A coordenadora do boletim Macro da FGV/Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), Silvia Matos, acredita que o BC, na verdade, só tinha duas opções sobre a mesa: parar o ciclo agora ou cortar mais uma vez e interromper as quedas na próxima reunião, que foi a visão que prevaleceu.

Isso diante de um cenário que se deteriorou e que agora combina pressões crescentes de altas de preços, desancoragem acentuada das expectativas de inflação futura – ou seja, na média, boa parte do mercado já não acredita que a inflação vai ficar dentro da meta no futuro -, choques de oferta e alta demanda do consumo interno, aquecido pelas injeções de recursos em um ano eleitoral.

É um cenário que o próprio BC reconheceu no comunicado que acompanhou a decisão de juros, em que cortou a taxa básica em 0,25 ponto percentual para 14,25% ao ano.

“O cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, e pressões no mercado de trabalho”, pontuou a autoridade.

Pressão sobre a Selic

“E nem mesmo quando colocamos a perspectiva de crescimento do PIB para este ano o cenário é positivo para a política monetária. Isso porque esse avanço está apoiado em crescimento do consumo das famílias e do próprio governo, com peso maior para o setor de serviços. Ou seja, uma combinação desfavorável para a busca do equilíbrio de preços”, ressalta Silvia Matos, da FGV.

A economista avalia que o BC não tem mais espaço para cortar juros, “porque a política monetária está sendo pressionada pela política fiscal”. Para ela, o Copom vai interromper o ciclo de redução da Selic a partir de agosto.

A especialista ressalta que vários choques de oferta ainda vão ocorrer e que o nível atual dos juros no mercado, mesmo em nível elevado, não colocou no preço esses eventos.

“Nós sabemos que tem mais choque de oferta pela frente, não é só da guerra. Temos, por exemplo, os efeitos climáticos sobre alimentos e energia. E, como a economia ainda cresce, ainda tem espaço para repassar essa inflação vinda desses choques.”

Para Matos, outro fator que restringe o espaço para mais cortes vem das eleições. A coordenadora macro da FGV/Ibre diz ver os efeitos da votação em outubro ainda em seu início.

“O mercado ainda está começando a precificar as eleições e, neste ano, a corrida será especialmente competitiva”, avalia a especialista, em referência ao fato de que os gastos públicos aceleram nesses períodos.

Diante de um crescimento das despesas do governo, “o quadro fiscal vai continuar sendo uma questão importante no resto do ano, então as curvas de juros futuras vão continuar pressionadas mesmo se o cenário externo melhorar”.

O economista do ASA Leonardo Costa também enxerga a possibilidade de a decisão do BC na quarta ter representado uma pausa do ciclo de cortes. No entanto o especialista acredita que a autoridade deixou uma porta aberta para retomar as quedas – se o cenário melhorar até agosto.

Conforme Costa, “nossa projeção é de encerramento de ciclo nessa reunião, em 14,25%, contudo abriu-se uma possibilidade (grande) de o Banco Central seguir em seu ciclo de calibragem de juros, cortando novamente na reunião de agosto, esperando o desenrolar do cenário até lá”.

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O que esperar da ‘superquarta’: as mudanças previstas para o Fed e o Copom

A “superquarta“, que traz hoje as decisões de política monetária nos EUA e no Brasil, vai oficializar uma mudança de rumos dos juros lá fora e aqui. O recado vai ser claro: a inflação escalou, as expectativas sobre os preços futuros perderam a referência e as taxas de mercado começam a incorporar cenários financeiros mais duros.

Essa mudança de ambiente já se traduziu em guinadas de dois dos principais BCs globais, o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco do Japão (BoJ), que subiram os juros nas últimas semanas. Os investidores esperam que outras praias, como os EUA e o Brasil, também sigam a sinalização.

O encontro do Federal Reserve (Fed, o BC americano) desta quarta-feira (17), no entanto, traz um elemento extra para o mercado: trata-se da primeira reunião do novo presidente do Fed, Kevin Warsh. Indicado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, o novo chefe da autoridade já começa o mandato sob pressão política por uma redução de juros.

O consenso quase absoluto do mercado, no entanto, é de que o Fomc, o comitê responsável pelas decisões de juros nos EUA, vai manter as taxas inalteradas na faixa entre 3,50% e 3,75%. Mas a reunião deve formalizar a sinalização de que a perspectiva de um corte de juros em 2026 saiu da mesa.

A pergunta que fica é: como Warsh poderá conciliar as expectativas políticas com as necessidades técnicas de combate à escalada de preços ao consumidor? É bom ressaltar que a inflação nos EUA, medida pelo CPI, já alcança 4,2% em 12 meses até maio, o que tem levado o mercado a enxergar uma alta de juros já em dezembro.

Uma possibilidade é a de Warsh propor combinar a sinalização de que o Fed pretende manter os juros inalterados por mais tempo e passar a focar em uma redução expressiva do seu balanço. Isso seria deixar o “aperto quantitativo”, o nome técnico desse enxugamento do nível de ativos que a autoridade acumulou, fazer o trabalho.

Analistas esperam que Warsh defenda uma redução mais intensa do balanço de ativos, que ainda soma cerca de US$ 6,7 trilhões.

Desinflar esse portfólio funciona como um aperto das condições financeiras ao retirar dinheiro de circulação, ou, no jargão do mercado, reduzir a liquidez.

Isso ocorre porque o Fed deixa de reaplicar os recursos recebidos de títulos vencidos em novos papéis. O banco central pode até mesmo passar a vender as Treasuries de seu balanço, se optar por um movimento mais agressivo de redução.

O acúmulo de títulos do Tesouro e outros ativos no balanço do Fed ocorreu por conta do enfrentamento de grandes desequilíbrios financeiros, como na crise bancária de 2008 e durante a pandemia. Nas ocasiões, o BC americano passou a comprar títulos no mercado como forma de injetar dinheiro na economia.

Em 2022, por exemplo, o Fed detinha US$ 8,5 trilhões em papéis do Tesouro dos EUA e outros ativos. Nesse período, a autoridade iniciou um ciclo de redução cautelosa dessa carteira que durou até o fim de 2025. O BC americano conseguiu diminuir em cerca de US$ 2 trilhões o tamanho do balanço ao longo de quase quatro anos.

A perspectiva agora, com Warsh no comando, é de retomar o aperto quantitativo, mas de maneira mais assertiva. O problema é que esse assunto está longe de ser um consenso no Fed. O novo “chairman” deve ter dificuldade em seguir essa linha, se atrelar o QT à condução do combate à inflação.

Copom vive dilema diferente

O potencial reposicionamento do Fed tem ramificações sobre os mercados emergentes. Uma postura mais inclinada ao aperto monetário, mesmo sem subida de taxas, pode afetar diretamente o fluxo de capital estrangeiro para o Brasil e o rumo dos juros domésticos.

Com o Fed sinalizando juros altos por tempo prolongado, a atratividade dos títulos do Tesouro americano (Treasuries) aumenta, o que tende a desviar o fluxo de recursos globais para o mercado dos EUA.

Isso significa menos dólares ingressando no Brasil. Esse movimento, por sua vez, deve criar uma pressão de desvalorização do real. Essa dinâmica de câmbio depreciado atua como um choque de custos para a economia brasileira, porque encarece bens industriais e insumos importados.

Na prática, um dólar mais forte traz mais inflação e reduz a margem de manobra do Banco Central do Brasil para reduzir a Selic. Isso em um ambiente que já vive pressões de alta com a escalada dos preços dos combustíveis e de insumos, como fertilizantes e commodities metálicas, após a Guerra no Irã.

Mesmo diante de um cenário de forte restrição externa e pressões domésticas, o consenso para a decisão do Copom considera que o colegiado vai cortar os juros em 0,25 ponto percentual nesta quarta-feira.

A Selic deve cair para 14,25% ao ano. A partir daí é que as projeções ficam nebulosas.

O fato é que, mesmo com “gordura” para cortar, os investidores e agentes do mercado enxergam cada vez menos espaço para uma queda mais acentuada dos juros.  

Diversas casas de análise, como bancos e corretoras, têm revisado para cima o nível da Selic em 2026.. O Bank of American, por exemplo, coloca a taxa básica em 14,25% no fim do ano. Outras casas, como BNP Paribas, XP e Banco Pine veem os juros básicos em 14%.

O mais recente relatório Focus, do BC, que reúne projeções de instituições financeiras, mostrou uma alta das previsões para a Selic pela segunda semana seguida. Às vésperas da reunião do Copom, o mercado elevou a expectativa da taxa para 13,75% no fim deste ano.  

A decisão desta quarta-feira, portanto, será cuidadosamente acompanhada. Não pelo potencial corte, mas pela comunicação do BC. A sinalização será de pausa imediata no ciclo de afrouxamento ou de possibilidade de ao menos mais um corte pela frente?

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Warsh quer que o Fed fale menos — e isso pode gerar mais surpresas para os mercados

O ex-presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, costumava dizer que a política monetária é 98% conversa e apenas 2% ação. Já Kevin Warsh quer mudar essa proporção.

O novo presidente do Fed, que comandará nesta semana sua primeira reunião de política monetária, prometeu reformular a comunicação da instituição. Sem entrar em muitos detalhes, ele deu sinais de que pretende reduzir a quantidade de mensagens emitidas pelo banco central.

Durante sua audiência de confirmação no Congresso, afirmou que o Fed se esforça demais para fornecer um roteiro detalhado de seus planos futuros. Também observou que os formuladores de política monetária “falam com bastante frequência”.

No entanto, o Fed e outros bancos centrais vêm ampliando sua comunicação com mercados e sociedade ao longo das últimas décadas, e seguir na direção oposta envolve riscos, segundo observadores veteranos da instituição.

“É preciso ter cuidado ao reduzir a comunicação”, disse William English, professor da Universidade Yale e ex-secretário do comitê responsável por definir os juros nos EUA. Fazer isso de forma muito brusca “prejudicaria a eficácia da política monetária e poderia gerar mais decisões inesperadas, provocando volatilidade nos mercados financeiros”.

Os defensores de uma comunicação frequente argumentam que a transparência ajuda investidores e o público a entender melhor o que está por vir e a se preparar para isso. Isso também facilita o trabalho dos banqueiros centrais ao influenciar os custos de financiamento de longo prazo.

Warsh vê a questão de forma diferente. Para ele, os bancos centrais precisam preservar flexibilidade e evitar a percepção de que estão presos a compromissos que podem deixar de fazer sentido diante de mudanças nas condições econômicas. Em uma palestra no International Monetary Fund no ano passado, afirmou que os formuladores de política monetária podem se tornar “prisioneiros de suas próprias palavras”.

Investidores do mercado de títulos estão tentando entender como exatamente o Fed de Warsh pretende mudar sua comunicação, inclusive se o tradicional Summary of Economic Projections (SEP) poderá ser simplificado. O documento reúne projeções para crescimento econômico, desemprego, inflação e juros, além do famoso “dot plot”, gráfico que mostra onde os dirigentes do Fed acreditam que as taxas de juros estarão no futuro.

Há outras possibilidades. Para Torsten Slok, da Apollo Global Management, os comunicados do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) podem ficar significativamente mais curtos. Já Cindy Beaulieu, diretora de investimentos para a América do Norte da gestora Conning, acredita que Warsh gostaria de realizar menos coletivas de imprensa após as reuniões e até eliminar o “dot plot”.

“Isso provavelmente tornará os juros mais voláteis”, afirmou Beaulieu. Segundo ela, uma redução na transparência pode levar os mercados a reagirem exageradamente a cada novo indicador econômico, tentando antecipar os próximos passos do Fed.

O debate sobre o “forward guidance”

O SEP existe desde 2007 e reúne projeções dos 19 participantes do FOMC para crescimento, desemprego, inflação e juros. Tornou-se uma das principais ferramentas de orientação ao mercado, embora alguns economistas questionem sua utilidade, já que as projeções podem rapidamente se tornar obsoletas. Ainda no ano passado, havia propostas para ampliar as informações divulgadas no documento, e não reduzi-las.

A discussão faz parte de um debate mais amplo sobre o chamado forward guidance, estratégia adotada pelo Fed após a crise financeira de 2008. Como os juros já estavam próximos de zero e não podiam cair muito mais, uma das alternativas para estimular a economia era sinalizar que permaneceriam baixos por um período prolongado.

Alguns economistas argumentam que esse tipo de orientação só funciona em circunstâncias excepcionais, como no período pós-crise. Em sua palestra no FMI, Warsh demonstrou simpatia por essa visão.

Além das discussões teóricas, Warsh assume o comando em meio a uma disputa concreta dentro do Fed sobre que tipo de orientação deve ser dada ao mercado. Na última reunião, o comitê manteve em seu comunicado a indicação de que o próximo movimento mais provável seria um corte de juros, embora vários membros defendessem a retirada dessa mensagem.

O episódio também revela uma limitação do forward guidance: investidores nem sempre acreditam no que o Fed está dizendo.

Em março, os mercados chegaram a apostar em aumentos de juros, mesmo quando dirigentes da instituição indicavam que o movimento mais provável seria uma redução. Agora, à medida que alguns dirigentes passaram a discutir publicamente cenários de alta dos juros, os investidores também elevaram suas apostas nessa direção.

Embora o mercado possa estar errado, uma orientação mais limitada é “provavelmente positiva”, afirmou Jack McIntyre, gestor da Brandywine Global Investment Management.

Menos discursos?

Outra forma direta de comunicação do Fed é por meio de discursos públicos. Dados da própria instituição mostram que seus dirigentes falam mais frequentemente hoje do que no passado. Em 2024 e 2025, os governadores realizaram cerca de 225 discursos, aproximadamente 20% a mais do que duas décadas antes.

Pesquisas indicam que comunicação excessiva ou mal coordenada pode prejudicar a capacidade de um banco central de orientar os mercados. Ainda assim, não está claro o que Warsh poderia mudar além de incentivar os dirigentes a falarem menos.

Uma ferramenta que ele controla diretamente é a coletiva de imprensa após as reuniões de política monetária. Quando esse formato foi criado, em 2011, havia apenas quatro coletivas por ano. Hoje são oito — uma após cada decisão sobre juros.

Essas entrevistas servem para explicar os argumentos discutidos pelos formuladores de política monetária e se comunicar diretamente com investidores e cidadãos. Durante sua audiência de confirmação, Warsh não se comprometeu a manter coletivas após todas as reuniões do FOMC.

Segundo Claudia Sahm, ex-economista do Fed, o estilo de comunicação que Warsh parece defender lembra a era de Alan Greenspan, quando o então presidente da instituição adotava deliberadamente uma linguagem vaga.

“Se eu parecer excessivamente claro para vocês”, disse Greenspan certa vez aos parlamentares, “então vocês devem ter entendido errado o que eu disse”.

Mesmo durante a gestão Greenspan, porém, o Fed iniciou um processo gradual de aumento da transparência. Episódios posteriores mostraram os riscos da comunicação aberta, como o chamado “taper tantrum” de 2013, quando Bernanke desencadeou uma forte venda de títulos do Tesouro americano ao sinalizar a retirada de estímulos monetários.

Ainda assim, esses episódios foram geralmente interpretados como evidência da necessidade de uma comunicação mais cuidadosa — e não menos comunicação. Hoje, a maioria dos observadores do Fed acredita compreender melhor como o banco central reage às mudanças na economia.

Por isso, economistas e investidores não esperam mudanças radicais de imediato. Qualquer alteração significativa no sistema atual provavelmente exigirá amplo debate interno.

“Quando você muda a forma de comunicação, é muito difícil voltar atrás”, afirmou Don Kohn, ex-vice-presidente do Fed. “Por isso existe a percepção de que é preciso haver amplo consenso antes de promover uma mudança desse tipo, porque será difícil recuar caso ela se revele um erro.”

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BC assume risco sobre inflação com postura menos cautelosa, diz Solange Srour, do UBS

O Banco Central sinalizou que poderá cortar os juros em sua próxima reunião, no fim de abril, mesmo que a Guerra do Irã ainda persista até lá. O risco, porém, é de que, embora o ciclo de queda de juros mal tenha começado, já precise ser interrompido, avaliou a diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, Solange Srour, em entrevista ao InvestNews.

Na opinião da economista, o Comitê de Política Monetária, o Copom, não deveria ter iniciado o ciclo de redução da Selic. O BC cortou a taxa básica para 14,75% ao ano na quarta-feira (18), na primeira diminuição em quase dois anos.

“Pessoalmente, acho que o BC deveria ter adiado”, disse. “Ninguém sabe se a guerra vai demorar mais duas semanas ou quatro meses.”

Mesmo se o conflito terminar em breve, já existe uma inflação “contratada” devido ao aumento dos preços do petróleo, de energia e de insumos, como fertilizantes.

“A inflação deste ano já está mais perto de 4,5%. Mas se o choque durar mais duas semanas e o preço do petróleo ficar mais perto de US$ 100 do que de US$ 80, a inflação deste ano vai ficar mais próxima de 5%, eventualmente acima disso”, disse Srour.

Em um cenário no qual o conflito se estenda muito mais tempo e o choque de oferta e de preços de energia perdure por meses, “o risco é o de o BC cortar 0,50 ponto e ter de parar”.

Além disso, Srour lembra que, mesmo com um eventual cessar-fogo ou fim do conflito, ninguém sabe a extensão dos danos à infraestrutura produtiva de petróleo e gás na região.

“Não é só ‘ligou e desligou’. Se uma instalação foi destruída ou danificada, pode levar meses até que a região consiga retomar os níveis [de produção de petróleo] de antes da guerra. Isso significa que o efeito sobre a oferta vai durar muito mais tempo.”

A diretora do UBS GWM ressalta ainda que o mercado leu o comunicado da decisão da quarta-feira (18) como mais “suave” ou “dovish“, no jargão do mercado. Isso porque o Banco Central não só cortou como evitou deixar em aberto a possibilidade de uma pausa.

Solange Srour, diretora de Macroeconomia para o Brasil do UBS Global Wealth Management
Solange Srour, diretora de Macroeconomia para o Brasil do UBS Global Wealth Management. Foto: Divulgação

“Ficou para o mercado uma mensagem de que, se tudo continuar do jeito que está, o banco continua cortando 0,25 ponto. E, se melhorar mais, pode cortar 0,50. Acho um pouco arriscada essa mensagem, se o BC pretende realmente atingir a meta de inflação no horizonte relevante.”

Segundo a economista, um dos principais riscos de uma comunicação menos cautelosa é iniciar um processo de desancoragem das expectativas de inflação. Ou seja, de os agentes de mercado passarem a embutir projeções cada vez mais elevadas para os preços no futuro.

A desacoragem, na prática, representa uma perda de confiança na capacidade de a política monetária controlar a alta dos preços, o que acaba por criar um efeito inflacionário. Nesse cenário, o BC pode reavaliar os rumos dos juros e até mesmo ter de elevar as taxas novamente.

O UBS GWM, por outro lado, ainda projeta uma probabilidade maior de os efeitos do conflito serem transitórios, o que possibilitaria ao Copom dar continuidade ao ciclo de cortes.

Nesse cenário mais positivo, o preço do petróleo voltaria a um patamar mais perto de US$ 85 o barril e a situação no Estreito de Ormuz se normalizaria até o fim de abril.

A economista do UBS mantém no cenário-base a possibilidade de a Selic terminar o ano no intervalo entre 12% e 12,5% ao ano. “Mas um ciclo de corte de três pontos [percentuais] ou menos já representa um espaço menor do que o mercado tinha começado a projetar antes da guerra.”

Dificuldades do BC no pós-guerra

As dificuldades da política monetária não vão acabar quando a guerra terminar. Para Srour, quando o peso do cenário internacional começar a diminuir, o doméstico passará a predominar.

“O ponto é que o desequilíbrio fiscal volta a se tornar o novo foco de atenção. Se houver uma sensação de que não vai haver uma inversão completa da política fiscal, se não houver uma âncora fiscal, que permita vislumbrar uma estabilização da dívida, acredito que o país terá uma crise de confiança.”

Nesse cenário, o esperado é que a curva de juros abra ainda mais, o câmbio deprecie e a aversão ao risco nos mercados volte a predominar.

“Seria o pior cenário, porque essa crise de confiança levaria a mais inflação e a uma desaceleração econômica. E o BC não teria outra alternativa a não ser subir juros novamente.”

Na visão da economista, o risco desse cenário se tornará mais presente conforme as eleições fiquem mais próximas. Para Srour, para evitar esse quadro, os candidatos com mais chances de vitória terão que sinalizar que vão endereçar a questão fiscal em seu mandato.

“É muito importante que o presidente eleito entenda que não tem muito tempo para apresentar esse ajuste. E não pode ser mais do mesmo, porque não será mais suficiente para segurar as expectativas.”

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Endividamento alto de Raízen e CSN reacende temor no mercado de bonds

A crise financeira da Raízen e as dúvidas sobre a capacidade da CSN de reduzir seu endividamento reacenderam o nervosismo no mercado de crédito corporativo brasileiro, provocando fuga de investidores e reabrindo o debate sobre o risco de um estresse mais amplo entre empresas altamente endividadas em um ambiente de juros no maior nível em duas décadas.

O gatilho foi a Raízen. Na segunda-feira (9), a empresa perdeu o grau de investimento após uma sequência de rebaixamentos de rating, em meio à relutância de seus controladores — Shell e Cosan — em aportar novos recursos. O mercado passou a precificar a possibilidade de uma reestruturação da dívida que atingiria diretamente os detentores de títulos.

A reação foi imediata. Investidores venderam papéis em massa, derrubando o preço de alguns bonds para cerca de 46 centavos por dólar — queda próxima de 50% em uma semana. O rendimento disparou para 18% ao ano, patamar normalmente associado a empresas em dificuldades financeiras.

O nervosismo se espalhou para a CSN. Mesmo prometendo reduzir a alavancagem por meio da venda de ativos, a siderúrgica viu seus títulos perderem cerca de 30 centavos por dólar nos últimos dias, à medida que investidores desmontaram posições antes de qualquer melhora concreta no balanço.

Para gestores globais, o choque foi a velocidade. A S&P cortou a classificação da Raízen em sete níveis de uma só vez; a Fitch, em oito.

“Nenhum outro país tem emissores cujos ratings caem tanto em um único dia”, disse Omotunde Lawal, chefe de dívida corporativa de mercados emergentes da Barings. “Isso indica que o prêmio de risco corporativo brasileiro estava mal precificado.”

O pano de fundo é o custo da dívida. Com a taxa básica em 15%, o maior nível desde 2006, empresas muito alavancadas sentem pressão crescente. Ainda assim, o estresse permanece concentrado no crédito: a bolsa brasileira segue em alta e o real se fortaleceu com a entrada de capital estrangeiro.

O mercado já havia passado por episódio semelhante no ano passado, com os casos de Ambipar e Braskem. Na época, o choque foi tratado como pontual. Agora, investidores voltam a se perguntar se os casos recentes são isolados — ou sinal de um problema mais amplo.

“O mercado de dívida corporativa está relativamente nervoso e pouco líquido”, disse Sergey Dergachev, chefe de dívida corporativa de mercados emergentes da Union Investment. “Os investidores ainda tentam entender a dimensão real do risco.”

A situação da Raízen amplia a apreensão. Desde o IPO de 2021, a empresa enfrenta custos elevados de dívida, safras mais fracas do que o esperado e investimentos que ainda não deram retorno. A ausência de apoio explícito de Shell e Cosan é vista como um sinal negativo pelo mercado.

Na segunda-feira, a S&P afirmou que a companhia pode caminhar para uma reestruturação equivalente a default. Horas depois, a Fitch realizou novo corte após a contratação de assessores financeiros — movimento que costuma anteceder renegociações.

“A Raízen destruiu valor para acionistas desde o IPO; agora os credores dividem a dor”, disse Juan Manuel Patiño, analista da Sun Capital. A velocidade da queda surpreendeu até analistas otimistas. JPMorgan e Balanz haviam elevado a recomendação dos títulos neste mês, vendo a liquidação inicial como oportunidade.

“Subestimamos a probabilidade de um cenário extremo”, disse Nicolas Giannone, da Balanz. “E definitivamente não esperávamos a velocidade do selloff.”

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Promissor e turbulento: as expectativas para o mercado brasileiro em 2026, segundo o BTG

O ano de 2026 deve repetir uma parte da dinâmica de 2025. Ou seja: atividade mais fraca, inflação em desaceleração e uma perspectiva de juros mais baixos no mundo e até no Brasil. O que vai mudar? A turbulência do ano eleitoral. Uma Selic em queda junto com a aproximação do pleito cria um ambiente em que oportunidades e riscos caminham lado a lado, e a cautela será a ordem do dia.

Primeiro, o cenário econômico. Para o BTG, a atividade deve perder algum fôlego: após crescer 2,2% em 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) deve avançar cerca de 1,7% em 2026. Essa desaceleração reflete os efeitos defasados de uma política monetária que permaneceu bastante restritiva por um período prolongado.

O Banco Central nem de longe indicou que haverá um corte de juros em breve, mas o BTG trabalha com a mesma perspectiva de muitos economistas: a política monetária será o principal fator positivo no início do ano porque ela levará a Selic, hoje no maior nível em quase duas décadas, a uma trajetória de queda.

A projeção do banco é de uma redução da taxa básica de juros para 12% ao final de 2026. É um nível que mantém os juros reais elevados, mas que já altera de forma significativa o ambiente para ativos domésticos. E é o que beneficia especialmente setores mais sensíveis ao custo do crédito e às taxas de longo prazo – varejo e consumo entre eles.

O lado fiscal, de novo

O problema mesmo está na agenda fiscal do governo. Se, por um lado, a queda dos juros oferece algum alívio, a política fiscal segue como o principal ponto de fragilidade do Brasil e para os mercados.

A relação entre a dívida do governo e o PIB permanece elevada, próxima de 80%, e o déficit nominal continua pressionado pelo peso das despesas com juros. Quer dizer: de um lado, o governo está gastando muito em relação à riqueza que a economia gera.

Por outro lado, o juro alto faz a dívida do governo ficar mais cara – e o juro está alto justamente para conter a inflação, que sobe quando o nível de gastos do governo é grande. Uma coisa se alimenta da outra.

Nessa frente, as coisas não caminham bem. O relatório do BTG avalia que não há disposição política para um ajuste fiscal relevante antes das eleições, o que torna improvável qualquer leitura mais consistente em 2026. A trajetória das contas públicas virou um risco estrutural, capaz de limitar a queda dos juros longos e aumentar a sensibilidade do mercado a choques políticos.

As eleições no meio do caminho

É por isso que a eleição presidencial vira o principal fator de volatilidade especialmente no segundo semestre. Nos primeiros meses de 2026, o impacto político tende a ser menor, favorecido pelo recesso do Congresso e pelo foco dos investidores no corte de juros. Com o avanço do calendário eleitoral, porém, as pesquisas passam a ter peso crescente sobre os preços dos ativos.

O presidente Lula segue competitivo, com níveis de aprovação em torno de 43%, enquanto a definição do principal nome da oposição ainda gera incertezas. A permanência de Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, na disputa é vista como um fator de risco pelo mercado, devido à sua alta rejeição.

De outro lado, a candidatura do atual governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, é interpretada como um cenário mais construtivo, por sinalizar maior previsibilidade e disciplina fiscal. À medida que as pesquisas se tornam mais apertadas, o relatório projeta aumento da volatilidade e uma postura mais defensiva por parte dos investidores.

O cenário internacional e o quão baratas estão as ações

No cenário internacional, o ambiente é menos favorável do que em 2025, mas ainda relativamente benigno. Os Estados Unidos devem manter os juros estáveis ao longo de boa parte de 2026, após uma sequência de cortes iniciados neste ano e que deu enorme amparo para os ativos brasileiros no geral – juro menor lá fora estimula a procura por ativos mais arriscados ao redor do mundo, afinal.

Ainda assim, a ausência de um novo aperto nas condições financeiras globais evita pressões mais severas sobre mercados emergentes. Para o Brasil, o fator determinante segue sendo doméstico: a dinâmica dos juros locais e a percepção de risco fiscal e político é o que ganhará evidência.

O outro ponto que ajuda na tendência positiva para o mercado é que, apesar da forte alta da bolsa de valores em 2025, os ativos brasileiros ainda são negociados a preços relativamente baixos, inclusive do ponto de vista do investidor estrangeiro, o grande comprador de papéis neste ano – até dezembro, foram R$ 25 bilhões destinados ao mercado secundário (ações já listadas).

Isso porque o mercado americano, apesar da perda de força recente, mostrou um movimento muito forte nos últimos anos, impulsionado pelas empresas ligadas a inteligência artificial. O espaço para altas adicionais ainda existe porque essas empresas ainda são muito lucrativas, mas esse desempenho tão forte estimula que os “gringos” busquem outras opções.

Os preços dos ativos domésticos mais baixos também valem para o investidor local. O mercado continua cauteloso com o cenário fiscal e político, é um fato. Quando o nível de desconfiança está alto entre os investidores, eles só compram ações se elas estiverem realmente baratas (ou forem avaliadas dessa forma). Ou seja, o nível de “desconto” dos papéis na bolsa é grande, deixando os preços longe do que seria o seu “valor justo”.

Caso o processo eleitoral sinalize maior compromisso com o controle das contas públicas ou algum alívio nessa frente ocorra, essa percepção tende a melhorar, abrindo espaço para uma valorização adicional dos ativos. Nesse ambiente mais favorável, o BTG projeta crescimento expressivo dos lucros das empresas em 2026, especialmente nos setores ligados ao mercado interno, como bancos, serviços básicos, varejo e construção civil.

Em termos simples, o banco acredita que há motivos suficiente para que os ativos locais sigam em alta ao longo de 2026. Mas a tese passará por um teste de fogo, balançada pelo aumento da volatilidade e pelas tentativas dos investidores de incorporar aos preços as expectativas para a agenda econômica no futuro.

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BC da China muda discurso e sinaliza cautela sobre estímulos agressivos para a economia

O banco central da China reafirmou sua postura de política monetária favorável ao crescimento, ao mesmo tempo em que sinalizou cautela contínua em relação a estímulos agressivos. Isso reforçou uma mudança de foco para a garantia da estabilidade a longo prazo em detrimento de soluções imediatas.

O Banco Popular da China (PBOC, na sigla em inglês) prometeu manter os juros em níveis baixos, de acordo com comunicado divulgado na quarta-feira, após a reunião do seu comitê de política monetária do quarto trimestre. O banco reiterou o compromisso de intensificar as políticas “transcíclicas”, uma expressão que sugere que a instituição pretende olhar além da volatilidade de curto prazo e evitar estímulos excessivos que possam criar desequilíbrios estruturais.

O comunicado não mencionou uma redução nas taxas de juros nem para o índice de requerimento de reserva, ou compulsório, que determina quanto dinheiro os bancos devem manter em reservas, enquanto o PBOC prometeu usar várias ferramentas de política monetária. Isso sugere que o banco central está cauteloso em relação a grandes passos de afrouxamento, mesmo após um comunicado divulgado na sequência de uma importante conferência anual econômica, que havia incluído uma referência a essas medidas no início deste mês.

A linguagem sugere “uma preferência por uma abordagem reativa em vez de proativa em relação ao afrouxamento monetário”, disse em nota o economista do Goldman Sachs, Xinquan Chen, na quinta-feira. As mudanças na linguagem “apontam para uma abordagem mais cautelosa e flexível em relação ao afrouxamento da política monetária”, afirmou.

Essa abordagem ponderada ocorre apesar do aprofundamento da fraqueza da demanda interna, com as vendas no varejo no mês passado expandindo ao ritmo mais lento desde o colapso causado pela Covid. O investimento em ativos fixos também está a caminho de registrar seu primeiro ano de declínio em meio a dados que remontam a 1998, após uma crise agravada por uma escassez de financiamento para projetos de infraestrutura.

O comitê afirmou que irá “avaliar a força, o ritmo e o momento” da implementação da política com base na evolução das condições internas e externas. O PBOC também reiterou o compromisso de manter a estabilidade básica do yuan em um nível razoável e equilibrado para evitar riscos de movimentos excessivos.

O PBOC tem adotado uma abordagem cautelosa neste ano, frequentemente decepcionando economistas que previam cortes mais agressivos nas taxas de juros. Essa contenção reflete preocupações mais profundas do banco central em proteger as margens bancárias cada vez menores e preservar espaço de políticas para futuras desacelerações.

Embora o comunicado da reunião tenha mencionado a manutenção de liquidez “ampla”, o foco na “qualidade e eficiência” em vez do volume bruto sugere que qualquer flexibilização adicional será majoritariamente direcionada.

O PBOC provavelmente cortará o compulsório, o RRR, em 50 pontos-base no primeiro trimestre para manter ampla liquidez e garantir que os juros do governo permaneçam baixos, escreveram economistas da China Galaxy Securities em um relatório na quinta-feira.

Embora possa reduzir a taxa básica de juros em 10 a 20 pontos-base em 2026, qualquer redução só será desencadeada por um aumento da pressão econômica, como uma deterioração nas relações entre os EUA e a China ou uma piora do desemprego, acrescentaram os economistas.

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Tesouro Direto: taxas dos títulos IPCA+ recuam e voltam para perto das mínimas do semestre

O Banco Central evitou sinalizar qualquer chance de um corte da Selic já em janeiro de 2026. Mas, mesmo assim, as taxas do Tesouro Direto passaram a cair depois da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) que manteve a taxa básica em 15% ao ano na quarta-feira (10).

Nesta sexta-feira (12), os títulos atrelados à inflação, o Tesouro IPCA+, voltaram a cair. Agora estão em patamares mais próximos das mínimas vistas antes dos ruídos políticos contaminarem os mercados e fazerem os retornos desses papéis retomarem ao nível de 8% ao ano.

O Tesouro IPCA+ 2029, por exemplo, saiu de 7,98% de juro acima da inflação vista na super quarta-feira (10) da política monetária para 7,79% nesta sexta-feira (12). O Tesouro IPCA+ 2040, que chegou a 7,01% no dia do Copom, voltou para 6,87% ao ano. E o papel mais longo da plataforma Tesouro Direto, o IPCA+ 2050, está com rendimento de inflação mais 6,88% contra 7,02% visto pouco antes da decisão de juros.

As mínimas anteriores ao episódio do anúncio da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro foram alcançadas entre fim de novembro e início do mês. O Tesouro IPCA+ 2029 chegou a 7,64% ao ano em 4 de dezembro. O Tesouro IPCA+ 2040 no mesmo dia chegou a 6,82%. E o Tesouro IPCA+ 2050 foi negociado a 6,78% no mesmo dia.

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Menos política e mais visão sobre juros

Mas o que mudou de lá para cá? Em primeiro lugar, o ruído politico arrefeceu. Ainda que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, tenha reafirmado sua pré-candidatura como o escolhido do próprio pai, os investidores passaram a considerar o evento mais como uma jogada para tentar aprovar uma anistia ao ex-presidente no Congresso. Ou seja, os nomes na futura corrida presidencial ainda não estão definidos.

Mas o fator mais importante veio mesmo do cenário para juros. Ainda que o Copom tenha evitado alimentar expectativas para um corte de taxas no início do próximo ano, o mercado entendeu que o ciclo de reduções está mais perto do que nunca. Mesmo se o BC não baixar em janeiro, a visão é a de que a primeira diminuição da Selic não passa de março.

E tem mais: diante de um juro real no maior patamar em 10 anos, combinado a uma inflação que mostra estar controlada, à convergência de expectativas para o cenário vislumbrado pelo Copom no horizonte relevante – que vai até o segundo trimestre de 2027 – e sinais claros de desaceleração da atividade, os investidores veem crescentes possibilidade de a autoridade ter de acelerar o passo nos cortes.

Mercado vê cortes mais amplos

O último boletim Focus do BC, que reúne projeções para indicadores como Selic, IPCA, PIB e câmbio, mostra a mediana de estimativas do mercado para a taxa de juros no fim de 2026 em 12,25% ao ano. Isso representa uma queda de 2,75% no ano que vem. Se o Copom optar por iniciar o ciclo com um corte de 0,25 ponto percentual teria de realizar reduções de 0,50 ponto em, ao menos, metade das oito reuniões no ano.

Esse, por exemplo, é o cenário base do Citi. O economista-chefe do banco no Brasil, Leonardo Porto, enxerga o Copom cortando  0,25 ponto já a partir de janeiro e acelerando posteriormente para ajustes de 0,50 pp. Isso até que a Selic alcance 12% no fim do próximo ano.

Já existem casas, como o Itaú, que começam a ver espaço para o juro cair a 11% ao ano no fim de 2026. Nesse caso, o banco central teria de realizar cortes de 0,5 ponto percentual em todas as reuniões do ano que vem, começando já em janeiro.

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Agenda de dividendos: ainda dá tempo de aproveitar. Veja o prazo para investir nessas ações

A corrida da distribuição de dividendos e juros sobre capital próprio (JCP) já começou. Diversas empresas têm anunciado o pagamento aos acionistas antes de terminar o ano. Isso porque uma norma tributária recém-sancionada criou uma nova alíquota de IR sobre distribuição de dividendos acima de R$ 600 mil por ano, mas que passa a valer só a partir de janeiro de 2026.

Nos últimos dias, cinco gigantes da bolsa de valores, por exemplo, já anunciaram R$ 56 bilhões de distribuição de lucro para seus acionistas.

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Mas ainda dá tempo para entrar nessa distribuição? Sim, tem ainda muitos pagamentos de proventos para aproveitar em dezembro e início de janeiro de 2026.

É preciso lembrar que o preço da ação sofre um ajuste automático quando fica “ex-dividendo”, ou seja, no dia seguinte ao prazo limite para ter direito aos proventos. No início do pregão, a bolsa desconta do preço da ação o valor do dividendo por ação.

Por exemplo, se o papel estiver cotado a R$ 20 e o dividendo por ação for de R$ 1, então a cotação passará a R$ 19 no início da sessão em que o papel ficar “ex-dividendo”. O ajuste ocorre para refletir essa distribuição de parte do caixa ou das reservas de lucros aos acionistas.

De qualquer modo, para quem gosta de renda passiva, há várias oportunidades nas próximas semanas.

Veja a seguir a agenda de distribuição de dividendos e JCP já anunciados, com o valor por ação, a data limite se você quiser garantir esse quinhão do lucro da empresa e o período em que o dinheiro será depositado:

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Vendas na Black Friday sobem nos EUA: má notícia para a trajetória dos juros do Brasil

As vendas na Black Friday aumentaram 4,1% em relação ao ano passado nos EUA. O resultado supera a alta de 3,4% registrada em 2024. Bom para o consumidor americano, mas talvez nem tanto para a economia global – a começar pela nossa.

Consumo vigoroso faz de tudo, menos puxar os preços para baixo. Logo, uma Black Friday pródiga por lá joga contra a ideia de cortes mais profundos nos juros do Fed, o banco central dos EUA.

Juros americanos num patamar alto, como os 4% de agora, existem para baixar a inflação freando a atividade econômica. E se essa atividade se mostra forte, é sinal de que o remédio não está fazendo tanto efeito.

Como não há outro remédio contra a inflação, fica mais difícil reduzir a dose diante desse sintoma.

E como está a inflação? Não se sabe. O CPI (“IPCA” dos EUA) relativo a outubro, que deveria ser o mais recente, não foi apurado – uma cortesia do shutdown, a paralisação parcial do governo americano por falta de dinheiro autorizado pelo Congresso.

O CPI de setembro ficou em 3% para os últimos 12 meses – e sem sinais de convergência para a meta (de 2%), já que o índice foi subindo mês a mês desde abril, o ponto mais baixo do ano (2,4%).

O consenso do mercado aponta para mais um corte de 0,25 p.p. nos juros americanos na próxima reunião do Fomc (o Copom deles), que acontece no dia 10 de dezembro.

Mas dirigentes do banco central americano, como Beth Hammack, do Fed de Cleveland, já alertaram que vendas de fim de ano mais fortes que o esperado podem atrasar o retorno da inflação à meta, o que justificaria uma postura mais conservadora do Fomc. Em outras palavras: uma Black Friday exuberante alimenta um cenário de juros altos por mais tempo.

Juros altos nos EUA não são uma questão restrita aos EUA. Eles aumentam a remuneração dos títulos públicos americanos. Eles ficam mais atraentes. Como você precisa de dólares para comprar esses títulos, a demanda por moeda americana aumenta. E empurra o valor do dólar para cima.

Nos últimos meses, a queda do dólar foi importante para arrefecer a inflação no Brasil. O IPCA cedeu de 5,53% em abril para 4,68% em outubro. Caso a tendência arrefeça, ou se reverta, a desaceleração nos preços daqui fica comprometida. E aí quem se vê obrigado a manter os juros lá no alto é nosso Banco Central.


Foto da abertura: Getty Images

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Bancos centrais estão mudando a taxa de juros pelo mundo e tem gente ganhando dinheiro com isso

Operadores macro de Wall Street caminham para o seu melhor ano desde 2009, à medida que clientes correram para apostar em mudanças nas políticas de juros dos bancos centrais ao redor do mundo.
Bancos como o Goldman Sachs, JPMorgan e Citigroup devem gerar US$ 165 bilhões em receita com negociações de renda fixa, crédito e commodities neste ano, alta de 10% em relação a 2024, de acordo com dados da Crisil Coalition Greenwich.

Os ajustes nas taxas de juros pelos bancos centrais globais, a incerteza em torno das tarifas, as preocupações com os crescentes déficits fiscais e a inclinação acentuada da curva de yields têm impulsionado o volume de comissões para operadores de juros, em particular. No segmento de juros do G10, a receita deverá atingir o maior patamar em cinco anos, de US$ 40 bilhões.

A Coalition Greenwich prevê um ganho semelhante em 2026, quando a receita do setor é esperada para ser apenas 2% menor, atingindo US$ 162 bilhões.

“Os juros dos bancos centrais estão normalizando as taxas de política monetária e seus balanços, mas o que não se normalizou foi o enorme montante de emissões”, disse em entrevista Nikhil Choraria, chefe de negociação de produtos de juros europeus do Goldman Sachs. “A maioria destas condições veio para ficar. Não há razão para que o tipo de níveis de atividade que vimos não possa se repetir em 2026.

Há a expectativa de que operadores macro em mercados emergentes obtenham o maior ganho em pelo menos duas décadas, com US$ 35 bilhões. Operadores de crédito devem faturar US$ 26 bilhões, e os de commodities, US$ 11 bilhões.

No entanto, alguns operadores que esperam bônus exorbitantes correm o risco de se decepcionar, de acordo com Michael Karp, CEO da empresa de recrutamento Options Group.

Haverá um descompasso entre “expectativas e realidade” para operadores de juros, disse Karp. A remuneração total para o FICC [segmento de renda fixa, câmbio e commodities] neste ano provavelmente será de alta de cerca de 3% em média, segundo relatório da empresa, que prevê um aumento de 7% para juros, 5% para mercados emergentes e 4% para câmbio.

“Obviamente, haverá superestrelas que eles terão que pagar, mas não serão 10 superestrelas”, afirmou Karp. “Haverá um ou dois caras em swaps, títulos de dívida e volatilidade, e só.”

Já os pagamentos para operadores de ações devem ser 14% mais altos do que no ano passado, segundo apurou a empresa de Karp. Isso porque é esperado que as mesas de ações registrem o melhor ano em termos de receita em pelo menos duas décadas, após os clientes terem investido em massa em papéis de inteligência artificial nos últimos meses.

O negócio de juros da Nomura Holdings se beneficiou da alta das taxas de juros do Banco do Japão neste ano, mesmo quando o Federal Reserve dos EUA e o Banco Central Europeu cortaram os juros. A maior corretora do Japão agora busca ajudar clientes na Ásia a investir com mais facilidade nos mercados de juros europeus e dos EUA, além de apoiar investimentos em data centers por meio de proteção com derivativos de juros, de acordo com Moritz Westhoff, chefe do negócio de juros dos EUA do banco.

“Com todos os investimentos em infraestrutura e inteligência artificial, quanto disso poderia ser protegido contra variações de juros ao longo do tempo?”, questionou. “Tendem a ser investimentos muito grandes e que precisam ser financiados.”

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Ibovespa segura recorde, mesmo após o Fed esfriar apostas de um novo corte em dezembro

Bastou Jerome Powell levantar dúvidas sobre a continuidade dos cortes de juros em dezembro para esfriar os ânimos dos investidores no mundo todo. Mas, mesmo com essa dose pouco esperada de cautela presidente do Fed, a bolsa brasileira conseguiu forças renovar sua pontuação recorde – pela nona vez neste ano.

O Ibovespa encerrou o dia com alta de 0,74% aos 148.520 pontos, pela primeira vez na história acima dos 148 mil pontos. E fez mais: na parte da manhã, o principal índice acionário brasileiro alcançou uma nova máxima intradiária, aos 149.067,16 pontos.

O dia começou com os mercados em modo euforia. E o Fed correspondeu ao cortar os juros em 0,25 ponto percentual, como amplamente esperado. Mas durante a coletiva após a decisão de politica monetária nesta quarta-feira (29), Jerome Powell, resolveu jogar água no chope das bolsas.

O dirigente pontuou o seguinte: que há um crescente movimento dentro do banco central americano no sentido de dar um “passo atrás”. No caso, pausar os cortes já e esperar para ver.

Nos EUA, as falas desasceleraram nitidamente o otimismo.

A ferramenta FedWatch, que monitora as apostas de investidores nos rumos da política monetária americana, agora coloca as chances de um corte em dezembro em 56,4%. Antes da coletiva, o percentual chegou a tocar os 90%.

Nas bolsas de Nova York, o S&P 500 terminou o dia quase na mesma, com queda de 0,01% aos 6.890,59 pontos. O Nasdaq subiu 0,55% para 23.958,47 em meio às expectativas para os balanços de Microsoft, Alphabet e Meta nesta quarta-feira. Já o Dow Jones caiu 0,16% aos 47.632 pontos.

Outros mercados acionários emergentes, além do Brasil, também se seguraram no território positivo – numa amostra de busca por diversificação entre os investidores globais. A bolsa mexicana subiu 0,97%. A chilena, 0,99%.

Por fim, o dólar. A moeda americana fechou estável: -0,04%, a R$ 5,35. No ano, a moeda já acumula queda de 13,29%.

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O Brasil – e a bolsa – pode ser o maior ganhador do novo ciclo de cortes de juros nos EUA

Poucos países reagem tanto às decisões do Federal Reserve, o Banco Central dos Estados Unidos, quanto o Brasil. Quando os juros americanos caem, o dólar tende a perder força e investidores passam a buscar mercados onde há melhores opções de retorno. Nesse cenário, com a Selic ainda em 15%, o Brasil se torna um destino atrativo para parte desse capital. E, como consequência, a bolsa brasileira também ganha.

O efeito acontece em cadeia:

  • O Fed corta juros, o que diminui a atratividade dos produtos de renda fixa nos Estados Unidos.;
  • Em busca de melhores oportunidades de retorno, investidores estrangeiros trazem recursos para o Brasil e compram títulos de renda fixa, como títulos públicos, que pagam mais;
  • Com mais dólares chegando ao país, o real se valoriza e, ao mesmo tempo, melhora a percepção de risco do país no mercado;
  • A inflação sente o alívio do real mais valorizado e, com isso, o Banco Central brasileiro pode ganhar espaço para reduzir a Selic nos próximos anos;
  • Juros mais baixos no Brasil tendem a estimular consumo e investimentos, o que ajuda a impulsionar a bolsa.
  • Em 2025, o real já se valorizou cerca de 11% frente ao dólar, que hoje gira em torno de R$ 5,20. Essa força da moeda reforça o interesse de investidores em ativos locais e reduz pressões inflacionárias internas.

A experiência de outros ciclos reforça esse ponto: em períodos de queda de juros, o Ibovespa subiu em média 10% nos seis meses seguintes ao primeiro corte. Agora, o mercado projeta que a Selic siga elevada até o fim de 2025, mas comece a cair em 2026. E que termine o próximo ano em 12,25% e atinja 9,75% em 2027, segundo estimativas do Goldman Sachs.

Do lado externo, o Goldman também projeta que o Fed faça mais dois cortes em 2025 e outros dois em 2026, levando a taxa americana para algo entre 3% e 3,25% até meados de 2026. Essa trajetória define o ritmo de desvalorização do dólar e o tamanho do fluxo que pode chegar a emergentes como o Brasil.

Esse pano de fundo recoloca a bolsa brasileira no radar de grandes investidores globais. E cria oportunidades em diferentes setores. Analistas dividem essas ações brasileiras em dois blocos:

  • Cíclicas domésticas: companhias ligadas a crédito e consumo, como Localiza, Cyrela, BTG Pactual, Nubank, GPS e Smartfit.
  • Defensivas sensíveis a juros: empresas que mantêm receitas estáveis, mas aumentam margens com custo de financiamento mais baixo, como Eletrobras e Equatorial em energia, Copel e Sabesp em saneamento, Multiplan em shoppings e Rede D’Or na saúde.

Mas é bom lembrar que essa dinâmica positiva não elimina os riscos do cenário: as contas públicas brasileiras seguem pressionadas, a economia chinesa dá sinais de enfraquecimento e o ambiente geopolítico pode atrapalhar o fluxo de capital para emergentes.

Mesmo com essas incertezas, a combinação atual de Selic alta, bolsa negociada a múltiplos baixos e real mais valorizado coloca o Brasil em posição de destaque. Se a dinâmica observada em ciclos anteriores se repetir, o país pode novamente estar entre os maiores beneficiados pelo movimento de cortes de juros iniciado pelo Federal Reserve.

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