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Balanços do 4º tri mostram mais surpresas positivas que negativas na bolsa – pelo menos até agora

A temporada de balanços do quarto trimestre de 2025 das empresas brasileiras listadas em bolsa tem apresentado um desempenho melhor do que o esperado, ao menos até agora. Entre as companhias que já divulgaram resultados, os lucros superaram as estimativas de analistas com mais frequência do que ficaram abaixo das projeções, indicando um início de temporada relativamente positivo para o mercado.

Até o momento, 65 empresas já divulgaram seus resultados. Na próxima semana, 39 publicarão seus números, entre grandes e pequenas companhias.

Entre as que já divulgaram os dados, 32,3% superaram as estimativas de lucro, enquanto 26,2% ficaram abaixo do esperado. A maior parte (41,5%) ficou em linha com as expectativas. O levantamento é do Itaú BBA, que estabelece um índice de “beat/miss” de 1,2 vez.

O indicador compara quantas empresas superaram as estimativas de analistas (“beat”) com quantas ficaram abaixo delas (“miss”). Quando o índice fica acima de 1, significa que as surpresas positivas predominam.

Bancos e setores ligados à economia doméstica lideram resultados

Os dados setoriais mostram um desempenho relativamente forte em alguns segmentos da economia. Entre os bancos, por exemplo, cerca de 22% das instituições superaram as estimativas de lucro, enquanto a maior parte ficou próxima das projeções.

Banco do Brasil e Itaú, por exemplo, divulgaram lucros expressivos no período, reforçando o desempenho sólido do setor. E algumas instituições tiveram reação mais cautelosa do mercado, mesmo com números fortes, como foi o caso do Santander.

Empresas ligadas ao consumo mostraram resultados mais heterogêneos. Os dados indicam que cerca de um terço das empresas superou as estimativas, enquanto uma parcela semelhante ficou dentro das projeções.

Entre os destaques positivos aparece o Mercado Livre, que registrou crescimento relevante de receita, enquanto companhias como Assaí enfrentaram reação mais negativa do mercado após a divulgação dos números.

Outros nomes do setor, como Raia Drogasil, Lojas Renner e Iguatemi, divulgaram resultados mais próximos das expectativas dos analistas, refletindo um ambiente de consumo ainda desigual.

Nos setores ligados à indústria e commodities, os resultados apareceram em grande parte alinhados às previsões do mercado.

Empresas como Vale, Usiminas e Gerdau reportaram números próximos das expectativas em indicadores operacionais, enquanto companhias de capital industrial, como WEG, também apresentaram resultados dentro do intervalo projetado pelos analistas.

Esse comportamento reflete um ambiente mais estável nesses setores, em que as projeções já incorporavam fatores como preços de commodities e ritmo da atividade global.

Receita e lucro operacional superam projeções

Além do lucro líquido, outros indicadores operacionais mostram desempenho relativamente forte. Quando analisados os resultados de Ebitda – métrica que mede o lucro operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização –, cerca de 20,4% das empresas superaram as estimativas, enquanto 27,4% ficaram abaixo delas.

No caso das receitas, os números foram mais favoráveis: mais de 80% das empresas reportaram faturamento dentro ou acima das projeções, indicando que muitas companhias conseguiram manter crescimento ou estabilidade nas vendas.

Esses indicadores ajudam investidores a entender não apenas o lucro final, mas também a evolução da atividade operacional das empresas.

Entre os resultados já divulgados, a reação dos analistas também tem sido predominantemente positiva. Aproximadamente 46% das empresas receberam avaliação positiva após a divulgação dos resultados, enquanto cerca de 37% tiveram reação neutra e 17%, negativa.

Esse tipo de análise acompanha como os analistas revisam suas avaliações após os balanços, indicando se os números divulgados reforçam ou enfraquecem as perspectivas das companhias.

Sentimento do mercado perde força no final da temporada

Apesar do início relativamente positivo da temporada, o sentimento agregado do mercado apresentou leve deterioração no final do período analisado.

Um indicador que mede a percepção dos participantes de mercado nas conferências de resultados das empresas, por meio da análise de comentários de executivos e analistas, recuou para uma nota 7,3 no quarto trimestre de 2025, abaixo da nota 8 registrada entre o segundo e terceiro trimestres.

Esse indicador mede o grau de otimismo ou cautela nas discussões entre empresas e investidores. Quanto mais alto o índice, mais positivo tende a ser o tom das expectativas.

Mesmo com essa queda recente, o nível atual ainda permanece acima dos mínimos registrados em 2024, sugerindo que o ambiente corporativo segue relativamente estável.

As conferências de resultados também indicam algumas tendências estratégicas entre as empresas. Segundo a análise das apresentações e chamadas com investidores, executivos têm enfatizado temas como eficiência operacional, digitalização e disciplina na alocação de capital.

Outro ponto recorrente é a preocupação com controle de custos e geração de caixa, especialmente em setores mais expostos ao ciclo econômico ou a preços de commodities.

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Como os irmãos Muffato, donos da rede do interior do Paraná, viraram o 2º maior acionista do Assaí

A entrada dos irmãos Ederson e Everton Muffato no Assaí pegou o mercado de surpresa. Mas operação já vinha preparada desde o começo deste ano, apurou o InvestNews. Naquele momento, chegou-se a discutir uma incorporação ou até mesmo um IPO reverso – uma forma da empresa do Paraná, enfim, chegar à bolsa.

O caminho escolhido, no fim das contas, foi um processo discreto e gradual de compra das ações, iniciado no primeiro trimestre deste ano, quando o papel era negociado na casa dos R$ 7. Desde então, a ação já subiu 40%: nesta quarta-feira (26), a cotação estava perto dos R$ 10.

Ederson e Everton Muffato em evento com o apresentador Galvão Bueno (Foto: Instagram Galvão Bueno)

As compras foram feitas por meio de dois fundos: um gerido pelo BTG Pactual e outro, pelo WHG. Essa estratégia permitiu que a posição fosse construída sem chamar a atenção do mercado. Agora, com os 10%, a dupla de empresários tornou-se o segundo maior acionista da rede de atacarejo. O maior acionista é a gestora Orbis (11,57%). O fundo Dynamo (5,01%) também aparece com posição relevante.

A avaliação de pessoas próximas à negociação é de que o Assaí, que em 2022 virou uma corporation, estava com as ações negociadas a preços consideravelmente baixos e que a relação entre a dívida líquida e o Ebitda ainda era elevada. Mas o negócio ainda era visto como importante e complementar ao da família Muffato. 

De acordo com uma pessoa próxima à operação, a participação relevante anunciada agora não deve necessariamente resultar na compra do controle no futuro, mas “não há um end game claro” e Ederson e Everton teriam, sim, “interesse em comprar mais ações”. 

O estatuto do Assaí mantém uma cláusula de poison pill que obriga acionistas que atingirem 25% do capital a fazer uma oferta pela companhia inteira, pagando um prêmio de 25% sobre a média do preço do papel nos últimos 120 pregões.

Varejo regional

Fundada em 1974 em Cascavel, interior do Paraná, a rede conta com 116 lojas, sendo a maioria concentrada no estado de origem e no interior de São Paulo, sob as bandeiras Super Muffato e Max Atacadista.

Em 2023, o grupo ampliou a presença na capital paulista por meio da aquisição de 16 lojas do Makro, que vêm sido convertidas em lojas do Max Atacadista.

O crescimento tem acontecido com baixo endividamento, sem que a rede comprometa suas operações e o caixa. A rede figura há alguns anos na lista dos 10 maiores faturamentos do setor: em 2025, foi a sexta colocada, com faturamento de R$ 17,4 bilhões. 

Cadeira no conselho

Embora afirmem no documento que a operação tem caráter estritamente financeiro, os irmãos se colocaram “à disposição” da administração do Assaí para colaborar com a experiência que acumulam no setor – gesto que sugere um interesse maior do que o de um investidor tradicional. 

Ainda assim, embora já detenham participação suficiente para pleitear uma cadeira no conselho, esse é um tema “não-urgente” para os irmãos, diz uma pessoa próxima à negociação.

“Eles gostam do trabalho do Belmiro [Gomes, CEO do Assaí], o acham competente”, diz uma pessoa familiarizada com os negócios. CEO do Assaí desde 2011, Belmiro Gomes é paulista, mas cresceu em Maringá, onde entrou no setor varejista. Por anos foi diretor comercial do Atacadão, do grupo Carrefour Brasil, e começou a frequentar os eventos dos supermercadistas, quando conheceu a família Muffato. 

Segundo essa fonte, o investimento de agora não demanda que a transação seja analisada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), o que só seria preciso em caso de mais compras pelos irmãos.

No entanto, por envolver a compra de ações por um concorrente direto, a tendência natural é de que a transação seja, sim, avaliada pelo Cade. No GPA, dono do Pão de Açúcar e do Extra, a família Coelho Diniz (dona de rede de mesmo nome do leste mineiro) precisou pedir aval do conselho para seguir investindo na empresa. Após o aval, o grupo seguiu montando participação e virou a maior acionista, superando o Casino, com 24% do GPA.

Outro exemplo que ocorre neste momento é o do fundador da produtora de etanol Inpasa, José Odvar Lopes, que solicitou autorização da autarquia para seguir investindo na distribuidora de combustíveis Vibra.

O movimento dos Muffato acontece na esteira de outros episódios significativos que mostram como as redes regionais têm se sobressaído no varejo alimentar, enquanto os grupos maiores vivem momentos mais complexos. Em maio, o Carrefour fechou o capital da operação no Brasil, enquanto o GPA passou a ter um novo acionista de referência.

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Assaí corta investimentos de 2026 e lança ‘marca própria’ para driblar consumo mais fraco

O juro alto não aparece no balanço apenas na linha de despesa financeira. No Assaí, ele virou critério para redefinir o tamanho do investimento e a velocidade de crescimento da rede. A companhia decidiu reduzir o nível de investimentos de R$ 1,2 bilhão neste ano para R$ 700 milhões em 2026, enquanto tenta criar mais fontes de receita, como a criação de uma marca própria e de serviços financeiros.

O Assaí paga R$ 7 milhões de juros por dia, mas gera R$ 14 milhões de caixa diariamente, o que compensa o custo financeiro. É essa geração de caixa que tem permitido à empresa reduzir a alavancagem mesmo com a Selic em patamar elevado. Depois de atingir algo em torno de 4,3 vezes dívida líquida em relação ao Ebitda em 2022, a rede projeta encerrar 2025 perto de 2,6 vezes.

O recuo nos investimentos vem depois de um ciclo de forte expansão, impulsionado sobretudo pela compra dos hipermercados Extra, em 2021. A operação levou o Assaí a outro patamar em faturamento e exposição à alta renda, que hoje já responde por 44% dos consumidores (47% dos clientes são da classe C e 9%, da classe D). A companhia saltou de R$ 30 bilhões em vendas em 2019 para cerca de R$ 84 bilhões no último doze meses.

Com esse perfil de clientela, o Assaí tem ampliado as ferramentas digitais e parcerias de entrega. A parceria com o iFood vem ganhando relevância em parte das lojas, especialmente nas regiões de maior renda, e a companhia estuda entrar em um marketplace.

Enquanto o juro pressiona, o plano de expansão fica mais limitado, com apenas 10 lojas novas previstas para 2026. No médio prazo, o plano é ir além do modelo atacarejo tradicional. “O mundo não vai acabar em atacarejo. No futuro, com menos alavancagem e juro mais baixo, faz sentido explorar outros formatos, como super e proximidade”, admite Belmiro Gomes, CEO do Assaí.

Consumo em queda

Ainda assim, o consumo tem se mostrado cada vez mais pressionado, segundo o CEO, com endividamento elevado das famílias e uma diferença crescente de comportamento entre a alta renda e o resto da população.

“Para o volume de alimentos cair 8% em quilos, como vimos no pequeno varejo, significa que o consumidor já não está só trocando de marca. Ele está tirando produto do carrinho”, diz o CEO. Na prática, o trade down já não tem sido suficiente. Em muitos lares, a cesta encolheu.

Belmiro Gomes, CEO do Assaí
Belmiro Gomes, CEO do Assaí: “Volume em queda mostra pressão de renda nas classes mais baixas”

Diante de um cenário em que crescer vendas fica mais difícil, o Assaí passa a concentrar esforços em iniciativas que aumentem o tíquete médio e a fatia de consumo dos 40 milhões de clientes que passam mensalmente pelas lojas, sem estourar a projeções de investimento. São ao menos três frentes principais: farmácias dentro das unidades, marca própria e serviços financeiros.

A primeira ainda depende de Brasília. Em conjunto com a associação do setor supermercadista (Abras), a rede defende a liberação da venda de medicamentos em supermercados, seguindo o modelo adotado por redes como Walmart, Kroger e Costco no exterior. O projeto já passou pelo Senado e tramita em regime de urgência na Câmara.

A aposta do Assaí é que, ao aproveitar a infraestrutura existente, a operação farmacêutica possa nascer com uma estrutura de custos bem mais leve que a dos concorrentes especializados. “Boa parte dos custos de uma farmácia — aluguel, segurança, limpeza, energia, IPTU — nós já temos dentro da loja. Isso nos permite entrar nesse mercado com uma estrutura de despesa bem menor”, afirma o executivo.

A ideia é capturar a compra planejada de pacientes de doenças crônicas (diabetes, hipertensão), combinando preço competitivo com a conveniência de concentrar a cesta de alimentos, higiene e saúde no mesmo endereço.

Em paralelo, a companhia quer ampliar a oferta de suplementos, vitaminas e proteínas, embalado pela mudança de hábitos e, em parte, pela onda dos medicamentos à base de GLP-1, como o Ozempic. “O movimento das canetas emagrecedoras começou na alta renda, mas já está impactando cerveja e carboidrato. O remédio é quase milagroso e vai mexer no índice de alimentos. Já está mudando o padrão de consumo de bebidas alcoólicas”, diz Gomes.

A segunda frente é a marca própria. A companhia pretende lançar, a partir do primeiro trimestre de 2026, as primeiras linhas de produtos com a marca Assaí. Hoje, a rede já vende produtos sob a marca Chef, voltada para food service — são embalagens grandes de ingredientes usados nos restaurantes, padarias e lanchonetes.

É uma resposta direta à busca dos clientes por alternativas mais baratas, sem abrir mão de margem. No mundo, a marca própria já representa 23% do varejo alimentar. No Brasil, ainda está em 2% ou 3%.

O plano do Assaí é usar a força da marca e a alta concentração geográfica da operação para encurtar esse gap. “Mais de 50% da nossa operação está em São Paulo e Rio, com logística mais concentrada e a mesma lógica tributária, o que nos permite escalar marca própria com custo menor”, explica o CEO.

O objetivo é ter produtos de marca própria cerca de 20% mais baratos que as marcas líderes, mas só entrar em categorias em que a indústria tem margem alta o suficiente para abrir espaço.

Maquininha e serviços financeiros

Além dos produtos de marca própria, o Assaí está em fase final de “divórcio” da FIC, antiga joint venture com Itaú, antiga Via e GPA, que hoje impede a companhia de oferecer soluções próprias a seus clientes. “Temos quase 1 milhão de micro e pequenos empreendedores que compram no Assaí e são pouco atendidos pelo sistema bancário”, diz o executivo.

O piloto da maquininha própria já está rodando em algumas praças. A autorização para esse produto foi obtida antes mesmo da saída definitiva da sociedade. A ideia, segundo o CEO, não é disputar apenas taxa de desconto com adquirentes tradicionais, mas usar o equipamento como porta de entrada para um relacionamento mais profundo com o cliente PJ.

A partir dos dados sobre transações, o Assaí quer entender melhor o negócio desses comerciantes e oferecer condições comerciais diferenciadas em produtos de grandes fornecedores – como refrigerantes e itens de mercearia – para quem tiver a maquininha, além de integrar, no futuro, cartões de crédito e débito da própria rede.

Essa estratégia só deve ganhar tração plena depois que o Assaí formalizar a saída da FIC e puder estruturar novas parcerias – possivelmente com mais de um player, dividindo foco entre pessoa física e jurídica. Até lá, o piloto de maquininhas e os testes de serviços financeiros funcionam como laboratório para o modelo que a rede pretende escalar a partir de 2026.

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