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Crioterapia, concierge e bar de shakes: as academias que cobram até R$ 5 mil e têm fila de espera

No Brasil das academias de baixo custo lotadas, com catracas girando sem parar e guerra de preços abaixo de R$ 100, existe outro padrão de atendimento que destoa tanto que até faz parecer que se trata de outro setor.

Nessas unidades voltadas ao público de alta renda, o aluno deixa seu carro com um manobrista, é recebido por um concierge, treina com equipamentos italianos conectados a pulseiras inteligentes e, no intervalo entre uma aula de pilates e uma sessão de crioterapia, pode tomar um shake funcional, deixar a roupa na passadoria ou encontrar clientes ou colegas de negócios no lounge.

Esses são alguns dos serviços oferecidos pela Six, rede de academias premium que hoje conta com cinco unidades em Brasília e no estado de São Paulo. Entre essas cinco, apenas duas têm vagas disponíveis. “Hoje todas as nossas unidades lotam menos de seis meses após a abertura. Só temos vaga nessas duas porque são novas”, diz Eilson Studart, um dos fundadores da Six. 

As mensalidades variam entre R$ 2,5 mil e R$ 5 mil reais, dependendo da unidade. Seus fundadores projetam faturar mais de R$ 90 milhões em 2026 e têm um plano agressivo de chegar a 30 unidades e um valuation de R$ 1 bilhão em quatro anos. Mas a Six é apenas a ponta de um movimento que já vale bilhões e está redefinindo o que significa exercício e bem-estar para os endinheirados brasileiros. 

Esse é o tema do terceiro episódio da nova série especial do InvestNews, “Por Dentro do Luxo“, produzido e apresentado pela jornalista Letícia Toledo, com dez programas.

Wellness: do consumo esporádico ao estilo de vida

Durante décadas, o segmento de bem-estar premium no Brasil esteve associado principalmente a destinos especializados.

O caso mais emblemático é o Kurotel, em Gramado, referência nacional em saúde preventiva desde os anos 1980. O modelo era baseado em viagens periódicas: clientes passavam alguns dias imersos em programas de emagrecimento, reeducação alimentar e qualidade de vida. Agora, a lógica está mudando.

Em março de 2026, o grupo inaugurou o Kur Wellness, em São Paulo, em uma aposta justamente na integração do bem-estar à vida cotidiana. Em vez de hospedar clientes por alguns dias, a proposta é acompanhá-los por meses ou até anos, com programas de saúde, performance física e longevidade.

O movimento reflete uma mudança de comportamento entre consumidores de alta renda. O luxo deixou de estar associado apenas a bens materiais e passou a incorporar conceitos como prevenção de doenças, saúde mental, performance cognitiva e envelhecimento saudável.

É nesse contexto que as academias premium ocupam espaço crescente. Durante muitos anos, nomes como Bodytech, Bio Ritmo e Reebok Sports Club dominaram o segmento premium.

Mas a disputa ficou mais intensa em um movimento que começou com a Les Cinq Gym. Inaugurada em São Paulo em 2014, a empresa ficou conhecida por transformar a academia em uma experiência próxima à de um clube de luxo, com arquitetura sofisticada, iluminação cenográfica e DJs. Durante alguns anos, ela ostentou o título de academia mais cara do Brasil com mensalidades na faixa dos R$ 3.500.  

No pós-pandemia de Covid-19, com o aumento da preocupação com saúde e bem-estar e, mais recentemente, o crescimento do mercado das “canetas emagrecedoras”, como Ozempic e Mounjaro, novas empresas surgiram para disputar a demanda por academia “mais premium” e “mais cara”.

A Six surgiu nesse contexto. A ideia partiu de Eilson Studart. Arquiteto de formação, ele foi sócio da rede de restaurantes Coco Bambu por 16 anos. Depois de vender sua participação no grupo, decidiu transformar um imóvel próprio em Brasília em uma academia que o motivasse a treinar. Para criar os espaços da Six, Eilson se inspirou em hotéis luxuosos de praias.

A primeira unidade, em Brasília, foi inaugurada em 2024 com capacidade para 500 alunos e mensalidade de R$ 1,5 mil. Em poucos meses, o espaço lotou e corroborou a tese de seus fundadores de que havia espaço para abrir novas unidades com mensalidades ainda mais altas. 

“Vários clientes chegavam para a gente e falavam: ‘cobre até um pouco mais, restrinja o público’”, relata Leandro Vaz, médico especialista em medicina do esporte e co-fundador da Six.  

Hoje, segundo seus fundadores, a maioria dos clientes da Six tem entre 35 e 50 anos e atua em áreas como mercado financeiro, medicina, advocacia e empreendedorismo. Ao reunir um público com interesses em comum, a academia também funciona como ambiente de relacionamento.

Em vez de incentivar que o aluno entre, treine e vá embora rapidamente, a Six desenhou seus espaços para estimular a permanência. Sofás e áreas de convivência foram distribuídos pelas unidades para incentivar encontros e conversas.

“E outra coisa em que somos muito fortes é em evento. Temos um setor dentro da academia só de eventos”, diz Studart. “Com evento, as pessoas param de fazer o exercício de forma individual, né? Fazem de forma coletiva e criam uma comunidade, e com isso o nosso churn, que mede a saída do cliente, se torna quase zero.” 

A corrida pelo cliente de alta renda 

Mas a Six está longe de ser a única empresa de olho no público de alta renda que busca o bem-estar. Além de novas marcas como Soul8 e The Beat Club, marcas que antes dominavam esse mercado estão se movendo para conquistar mais clientes.

Recentemente a Bodytech anunciou um plano de expansão para alcançar pelo menos 100 cidades até 2027 por meio de franquias. Já a Bio Ritmo, controlada pelo Grupo Smart Fit, reformulou parte de sua proposta para atrair consumidores mais sensíveis a conveniência, ambiente e serviços complementares.

O Brasil hoje já possui o segundo maior número de academias do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Apesar disso, especialistas acreditam que a penetração do setor ainda pode avançar.

Mas manter e escalar operações premium costuma ser mais difícil do que parece. Um dos principais desafios é o custo de manutenção, já que, para atrair esse público, a academia precisa oferecer equipamentos modernos e as últimas novidades do mercado de bem-estar. 

A operação depende de um nível de execução muito elevado, de uma marca forte e de uma proposta suficientemente distinta que continue justificando o preço. Muitos negócios de luxo falham exatamente no ponto em que a Six está agora: na expansão de seu modelo. Para conseguir ganhar escala sem perder o padrão elevado, os sócios da empresa ainda vão ter que suar muito.

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Do Labubu ao Pikachu: como brinquedos viraram artigos de luxo

O luxo segue fundamentado na ideia de exclusividade, mas a forma como esse conceito se expressa vem ganhando novos contornos. Hoje, além da raridade e do prestígio tradicionais, as grifes incorporam outros caminhos para criar desejo: conexões emocionais, nostalgia e referências da cultura pop. A sensação de pertencimento e a identificação afetiva tornaram-se parte dessa equação.

É nesse cenário que surgem colaborações com personagens como Labubu, Pikachu, Snoopy e Sailor Moon. Longe de substituir a exclusividade, essas parcerias a ampliam, unindo escassez de produto ao valor simbólico. O resultado são lançamentos que geram filas digitais, viralizam no TikTok e chegam a cifras expressivas em leilões — alguns bonecos Labubu já alcançaram mais de US$ 31 mil.

“Sentir profundamente está se tornando uma forma de luxo. Sentir-se bem, em vez de apenas ter uma boa aparência, é uma aspiração”, declarou à Forbes Alex Hawkins, diretor de Prospecção Estratégica do Future Laboratory, uma consultoria britânica especializada em antecipar tendências de consumo, inovação e comportamento para empresas de diversos setores.

Segundo Hawkins, “cada vez mais marcas estão integrando experiências diversificadas em seus produtos e serviços, focando na ‘ciência por trás da sensação de admiração’, aquela emoção que sentimos ao nos deparar com algo maior do que nós mesmos”.

O fenômeno Labubu e a ascensão da Pop Mart

Criado pelo artista Kasing Lung, o boneco Labubu começou como parte da série The Monsters e rapidamente se transformou em símbolo de desejo global. Por trás do hype está a chinesa Pop Mart, que viu sua receita disparar com a febre dos colecionáveis.

Em agosto de 2025, o CEO da Pop Mart, Wang Ning, afirmou à Reuters que a empresa pode alcançar 30 bilhões de yuans (cerca de R$ 22,5 bilhões) em receita ainda este ano. “A demanda internacional está crescendo mais rápido do que esperávamos e hoje os mercados fora da China já rivalizam com o nosso público doméstico”, disse o executivo.

Wang explicou que a estratégia vai além da venda de bonecos em “blind box”, modelo de surpresa que cria escassez e expectativa. A empresa busca expandir sua presença global com lojas físicas, acessórios e experiências imersivas, reforçando o valor da marca e consolidando o ecossistema de Labubu.

Modelo Disney

A comparação com gigantes do entretenimento não é por acaso. Si De, diretor-executivo e co-COO da Pop Mart, afirmou, em entrevista à Reuters, que a empresa se inspirou na Disney por muito tempo. “O grande valor está em operar propriedade intelectual no longo prazo, por até 100 anos”, declarou ele.

Si De acrescentou que a empresa busca transformar Labubu em um universo completo, com conteúdo, colaborações de qualidade e novos formatos: “Não se trata apenas de lançar um personagem de sucesso imediato, mas de investir em um ecossistema de marca.”

O luxo encontra o pop

A estratégia não se limita à Pop Mart. Outras grifes vêm experimentando colaborações que unem tradição e cultura pop. A Omega, tradicional relojoaria suíça, lançou edições especiais do icônico Speedmaster em homenagem ao Snoopy, personagem associado à NASA e à corrida espacial. Os modelos esgotaram rapidamente e hoje são disputados em leilões e revendas por valores que ultrapassam várias vezes o preço original.

Seguindo a mesma tendência, a Tiffany & Co. surpreendeu ao firmar parceria com o universo Pokémon, lançando joias exclusivas inspiradas em Pikachu. A coleção, que incluiu pingentes e colares em ouro e prata, foi desenhada para aproximar a joalheria de um público mais jovem e menos formal. O movimento também refletiu a nova fase da Tiffany após a aquisição pela LVMH, que vem reposicionando a marca no cenário global.

Seis bonecos de pelúcia Labubu com rosto de monstro, orelhas de coelho e dentes, em várias cores, expostos em frente a uma caixa.
Foto: Divulgação

Nostalgia dos anos 1990

Já a Jimmy Choo apostou na nostalgia dos anos 1990 ao lançar uma coleção inspirada em Sailor Moon, o famoso anime japonês. A linha de sapatos e acessórios trouxe elementos mágicos e glamorosos, como cristais e lantejoulas, que remetem à estética da personagem. O resultado? Os produtos se esgotaram em poucos dias e hoje figuram entre as peças mais disputadas em revendas online.

“Não é só nostalgia, é encontrar onde estamos indo como marca. Para cada geração, glamour significa uma coisa distinta, mas a ideia de se sentir elevada e importante continua central no meu trabalho”, afirmou à Forbes Sandra Choi, diretora criativa da Jimmy Choo:.

No caso da Tiffany, o CEO Anthony Ledru declarou ao Financial Times: “O futuro da Tiffany é sobre autenticidade e design, mas também sobre falar a língua das novas gerações.”

Riscos

Seja com personagens licenciados ou mascotes próprios, como o Louis Bear da Louis Vuitton, o fato é que o luxo está mudando de cara. Apesar do entusiasmo, há riscos. A dependência de poucos personagens, por exemplo, pode criar vulnerabilidade para as empresas caso o interesse diminua.

O próprio Si De, da Pop Mart, reconhece o desafio. “Há dúvidas sobre a sustentabilidade da popularidade de Labubu. É por isso que precisamos construir algo que vá muito além de um único boneco”, declarou ele.

Outras colaborações

Abaixo, confira outras colaborações recentes entre marcas de luxo e personagens da cultura pop.

Longchamp x Pokémon

A marca francesa lançou uma coleção exclusiva de bolsas e acessórios com o tema Pikachu, unindo o estilo clássico da marca com o universo dos animes.

H. Moser & Cie x Azuki x The 1916 Company

Uma colaboração inovadora que resultou em uma coleção de relógios de luxo com temática de anime, incluindo NFTs ((Tokens Não Fungíveis) e gêmeos digitais para garantir a autenticidade.

Fenty Beauty x Smurfette

A marca de cosméticos de Rihanna lançou uma edição limitada inspirada na personagem dos Smurfs, combinando beleza e nostalgia.

Funko x K-Pop

A Funko lançou uma coleção de bonecos Pop! inspirados em ícones do K-pop, ampliando seu portfólio para além dos personagens tradicionais.

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