Visualização normal

Received before yesterday

Até um lavajatista pode virar herói contra o mafioso. Por Moisés Mendes

4 de Março de 2026, 22:13
Daniel Vorcaro olhando sério para a câmera
O banqueiro Daniel Vorcaro – Reprodução

Em seus melhores momentos, principalmente quando do enfrentamento da ditadura, nos anos 70, o jornalismo brasileiro produziu combatentes que viraram lendas. Quase todos da grande imprensa, alguns da chamada imprensa alternativa.

O jornalismo dos anos 70 e 80 consagrou nomes, nas mais variadas áreas, como Raimundo Pereira, Audálio Dantas, Mino Carta, Marisa Raja Gabaglia, Alberto Dines, Ricardo Kotscho, Rose Nogueira, Rosa Freire d’Aguiar, Fernando Morais, José Hamilton Ribeiro, Luiz Nassif, Tereza Cruvinel.

Há dezenas de outros, muitos em atividade. Não citarei nenhum gaúcho ou gaúcha (e são exemplares), para que não digam que estou agauchando a lista. E aí, diante de todos esses nomes, nos deparamos agora com o profissional que ganha manchete como o jornalista do momento, o colunista Lauro Jardim, do Globo.

Jardim virou capa por ter sido incluído numa lista criminosa do banqueiro Daniel Vorcaro como um dos alvos a serem alcançados. Que simulassem um assalto e quebrassem os dentes de Jardim, ordenou o mafioso.

E, se era e ainda é ‘inimigo’ de um gângster, Jardim passou a ser visto como o cara que enfrenta bandidos. O lavajatista Lauro Jardim, o colunista que ajudou a propagar boa parte dos ataques a Alexandre de Moraes, com notinhas de intrigas, agora é herói.

Print de ameaça contra Lauro Jardim
Print de ameaça contra Lauro Jardim – Reprodução

Jardim sempre usou sua coluna no Globo para exaltar Sergio Morro e a Lava-Jato, e depois, quando dos preparativos para o julgamento dos golpistas, para tentar criar fissuras dentro do Supremo.

Foram suas algumas das notas mais venenosas sobre o desconforto de ministros com os ‘exageros’ de Moraes. E esse é o cara que temos hoje como herói da livre imprensa e como exemplo de bravura, por ter produzido notinhas que irritaram as máfias do Master.

É uma situação que reflete o cenário geral do país, com bancos envolvidos com o PCC, juízes tarados ou vendendo sentenças e com a degradação do jornalismo das corporações.

Jardim trabalha numa das organizações que escondem informações sobre o fascismo (leiam o que dizem Luiz Nassif e Mario Vitor Santos). O jornal que o emprega colocou nos cantinhos a nota produzida pelo próprio Globo sobre o uso do jatinho de Vorcaro por Nikolas Ferreira. E se engaja ao esforço da grande mídia para que Flávio Bolsonaro tenha roupa nova.

Há muita gente do jornalismo de combate que poderia ser apresentada como exemplo de afronta ao poder econômico e político da direita e da extrema direita acumpliciadas com Vorcaro, as fintechs, os grileiros e os milicianos.

Numa hora dessas, quando o fascismo mostra as unhas de novo e as empresas de mídia fortalecem o protagonismo político, o herói não precisava ser Lauro Jardim, mas pelo menos não é Malu Gaspar.

O percurso da polarização (por Luiz Marques)

Por:Sul 21
4 de Março de 2026, 10:22

Luiz Marques (*)

1.

A história das ideias acompanha todos movimentos políticos e sociais. É assim que o fascismo da década de 1920 na Itália e o nazismo dos anos 1930 na Alemanha geram a noção que abrange a esfera pública e privada: Estado totalitário. O conceito alerta para a crise do liberalismo, de modo a apreender as mudanças.

Na sequência, o tático pacto de não agressão (1939-1941) da Alemanha nazista com a URSS estende o termo “totalitarismo” ao comunismo soviético, nas narrativas jornalística e acadêmica. Une os sistemas avessos à democracia, enquanto o dito “pluralismo” celebra com ufanismo o american way of life no pós-guerra. 

À medida que a luta pela liberdade opõe o capitalismo ao bloco submisso às diretrizes de Moscou, o nazifascismo é secundarizado pelas elites ocidentais. Baterias disparam fogo então contra as governanças que, na teoria ou na prática, ainda se reivindicam do marxismo. Cuba resiste a um bloqueio econômico criminoso. 

Para Russell Jacoby, em O fim da utopia: política e cultura na era da apatia, a pinça ideológica se deve aos propagandistas da ideia serem pensadores de extraordinário prestígio e força. A condição de foragidos dos polos em conflito mantém acesa a dialética entre a bipolaridade geopolítica e a identidade conceitual, de fundo. 

– Em 1944, Friedrich Hayek lança o libelo O caminho para a servidão. O futuro Prêmio Nobel de Economia vê o comunismo e o nazifascismo como “variantes do totalitarismo”. Preocupa-se com a disseminação do ideário socialista na nova pátria (nascido austríaco, torna-se cidadão britânico). O Estado previdenciário, para ele, é o prenúncio de um colapso da liberdade individual. 

– No ano seguinte, Karl Popper publica A sociedade aberta e seus inimigos, com raras alusões ao nazifascismo. Mira “o espectro que ronda a Europa: o comunismo”. Jacob Talmon, em As origens da democracia totalitária, vaticina a “colisão frontal” da democracia liberal e a democracia iliberal. Remete às Revoluções Francesa e Russa, acusando jacobinos e bolcheviques de um “messianismo político”. Sobre o genocídio na II Guerra, silêncio obsequioso.

– Hannah Arendt criminaliza os regimes soviético e nazifascista de abrigarem “ideologias totalizantes”. Isaiah Berlin identifica dois tipos de liberdade; negativa (liberdade de) e positiva (liberdade para). A negativa “deixa o indivíduo livre de controle”. A positiva “implica uma coerção e expõe o núcleo de credos nacionalistas de nossa época”. Narciso só gosta do que vê refletido no espelho.

Hoje os refrões salientam a dicotomia para elogiar o misto de democracia e de oligarquia da ilusória terceira via, que carrega nas tintas para depreciar a alternativa “sectária, messiânica e utópica” representada pelo presidente Lula; e para desqualificar o Partido dos Trabalhadores. Vide a seleta reunida por José Giusti Tavares, em Totalitarismo tardio: o caso do PT; com a foto de Lenin na famosa Estação Finlândia, de Petrogrado, na capa estilizada (sic). 

2.

Os intelectuais são reconhecidos como um grupo social em fins do século XIX. A carta de Émile Zola, “J’accuse!”, que clama por verdade e justiça no caso Dreyfus, simboliza uma certidão de nascimento da intelligentsia e o berço do engajamento em causas contemporâneas. Sua palavra passa a influir nos acontecimentos políticos, sempre para nomear o que é o bem e o que é o mal.

Ocorre que seu zelo pela verdade e a justiça é sequestrado pelo deus-mercado, no neoliberalismo. A frase de Fernando Henrique Cardoso (“Esqueçam o que escrevi”) é uma apostasia. A crítica ao Estado prefacia o empreendedorismo. A antirreligiosidade tropeça no conservadorismo teocrático. O planejamento cede às mentiras. Os fins justificam os meios no eclipse da ética e da consciência.

A certeza que resta ao centro político se confunde agora com as distopias. O lema “razão, tolerância, humanidade” dá lugar a um “conformismo, oportunismo, egoísmo”. Vulgarmente falando, não há persona mais materialista do que a convertida à globalização do empirismo. A tolerância e o respeito à soberania popular e nacional se dissolvem na demagogia que despolitiza a política.

A Folha de S. Paulo, diante da pressão sindical endossada pelo governo federal sobre a escala 6 x 1, reacende os argumentos de fachada com ideias remanescentes do período colonial-escravista. Concorda com a demanda trabalhista, mas daqui a cem anos. Falta no tabuleiro brasileiro moderno o abolicionista de priscas eras. Os apóstatas amarram a bandeira da liberdade a reboque das finanças e das big techs. Os penduricalhos são os juros cobrados por castas. 

Treinados nas caixas registradoras da mais-valia, os jornalistas (influencers) comportam-se como capitães-do-mato do capital. Como se lê em um manifesto do surrealismo, o medo de ser feliz “reduz a imaginação a um estado de escravidão”. Significa “trair em si mesmo todo senso de justiça”. Afinal, “só a imaginação é capaz de proporcionar um vislumbre do que pode vir a ser”.

Entre o utopismo e o burocratismo, a imprensa prefere burocratas acovardados em postos de mando no aparelho estatal. Ignora “o livro dos mortos do século XX”, o qual calcula que no lapso temporal cem milhões de pessoas tiveram ceifadas suas vidas.

No cenário de violência figuram as guerras mundiais, a guerra sino-japonesa, guerra civil russa, guerra civil espanhola, Estado soviético e extermínio de judeus. Sem contar as baixas no Camboja, Vietnã, Argélia, Líbia, Bósnia, Ruanda, Afeganistão, Iraque, Palestina e os tantos assassinatos na América Latina. 

As determinações administrativas incentivam a “banalização do mal” com personagens medíocres, sem uma índole demoníaca, até receber a ordem para matar inocentes. Esses obedientes autômatos suspendem o pensamento para, a posteriori, sentar à mesa com a família, orar e dormir sem nenhum remorso; feito Eichmann.

A apologia do pluralismo e da diversidade sem o desejo de ir além do presente não contempla o direito à liberdade e à felicidade. A amputação da utopia por medo do totalitarismo não é um gesto de prudência, senão uma capitulação racionalizada por quem – teórica e politicamente – não ousa olhar para o futuro com esperança e coragem. Em paralelo, a extrema direita oferece apenas o ódio.

Para Chantal Mouffé, em Por um populismo de esquerda, a crise da hegemonia neoliberal coloca frente a frente o populisme de droite, que mina estruturas republicanas para implantar o regime de exceção; e o populisme de gauche que interpela a vontade coletiva com discurso democrático para mobilizar afetos políticos em torno da igualdade e justiça social. O primeiro é autoritário e golpista. O segundo garante a democracia e suas instituições, com um governo ao lado do povo trabalhador. A escolha é nossa.

No percurso da polarização, o centrismo midiático é a rendição à barbárie. Muito pior do que nos decênios vinte e trinta, dado o armamento nuclear estocado nos porões da insensatez. Capisce

(*) Docente de Ciência Política na UFRGS; ex-Secretário de Estado da Cultura no Rio Grande do Sul

§§§

As opiniões emitidas nos artigos publicados no espaço de opinião expressam a posição de seu autor e não necessariamente representam o pensamento editorial do Sul21.

O post O percurso da polarização (por Luiz Marques) apareceu primeiro em Sul 21.

❌