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Guerra no Oriente Médio ameaça fertilizantes usados na soja

21 de Março de 2026, 13:15

A guerra no Oriente Médio provocou grandes disrupções na oferta global de nutrientes agrícolas à base de nitrogênio. Agora, uma ameaça potencialmente maior começa a surgir em outra frente importante do mercado de fertilizantes.

Desde o início do conflito, o foco tem estado na ureia, um fertilizante nitrogenado fundamental para culturas como o milho. Os preços do insumo dispararam à medida que a guerra bloqueia embarques pelo Estreito de Hormuz, levando produtores rurais a correr atrás de abastecimento. O que tem passado mais despercebido em meio ao caos é o risco para os fertilizantes fosfatados — essenciais para lavouras como a soja, uma das bases da produção mundial de alimentos.

O Oriente Médio responde por apenas cerca de um quinto do comércio global de três produtos-chave de fosfato, segundo o The Fertilizer Institute. Mas quase metade da oferta mundial de enxofre — que é transformado em ácido sulfúrico, insumo usado no processamento de fertilizantes fosfatados — vem de países do Oriente Médio vulneráveis a interrupções no Estreito de Hormuz.

Os efeitos ao longo da cadeia podem começar a se tornar “exponenciais” se o conflito durar muito mais tempo, à medida que os produtores consumirem seus estoques já existentes de enxofre e ácido sulfúrico, disse Andy Hemphill, analista do mercado de ácido sulfúrico na plataforma de preços de commodities ICIS.

Isso é uma má notícia para a oferta global de alimentos, que depende do fosfato para sustentar o crescimento de tudo, de soja a batata. O conflito já alimenta preocupações com inflação e segurança alimentar. Também representa uma nova ameaça aos agricultores americanos, que já vinham enfrentando anos de custos de produção elevados. Quase 80% do fósforo usado nos Estados Unidos é aplicado em lavouras de soja e milho, que depois são transformadas tanto em ração animal quanto em combustível.

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Fertilizantes: a estratégia da Petrobras para reduzir a dependência externa do agro. petrobras fertilizantes agro

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Mesmo antes da guerra, a oferta tanto de fosfato quanto de enxofre já estava apertada. Os preços do enxofre haviam disparado para níveis recordes, impulsionados em parte pela demanda da indústria de mineração, que usa ácido sulfúrico para extrair metais como cobre e níquel. As exportações russas foram limitadas pela guerra na Ucrânia e por uma proibição de exportações, enquanto a China reduziu os embarques de fosfato para priorizar o consumo doméstico.

A política comercial dos Estados Unidos adicionou mais pressão. Tarifas impostas em 2023 sobre o fosfato do Marrocos — ainda em vigor — e tarifas mais amplas implementadas no ano passado pelo presidente Donald Trump limitaram as importações.

“O fosfato já tinha problemas de sobra antes mesmo de a guerra começar. A guerra apenas piorou uma situação que já era ruim”, disse Josh Linville, vice-presidente da área de fertilizantes da corretora StoneX Group. “Eu diria até que ele está quase em situação pior do que a ureia e os nitrogenados hoje.”

Houve esforços para recompor estoques, especialmente de fosfato, depois que fertilizantes foram poupados de algumas tarifas no fim do ano passado, disse Veronica Nigh, economista-chefe do The Fertilizer Institute. Mas, segundo ela, o verdadeiro desafio está na oferta de enxofre. O conflito em Israel já havia elevado tanto os preços do insumo que parte da produção de fosfato acabou sendo paralisada.

Ilustração: João Brito

“O enxofre é usado em muitas coisas e, se estivermos num cenário de oferta restrita, fertilizantes podem não ser o primeiro destino desse enxofre”, disse Nigh. “Pode ser um problema mais prolongado.”

Os contratos de enxofre em Tampa — uma referência importante nos EUA, com liquidação trimestral — atingiram preço recorde no fim de janeiro, segundo dados da Bloomberg Green Markets desde 2012. Já os preços em Nova Orleans do fosfato diamônico, o fertilizante fosfatado mais usado do mundo, estão no maior nível em quase quatro meses.

Os produtores de fertilizantes tendem a ficar pressionados, já que compradores concorrentes, especialmente mineradoras, conseguem pagar mais, disse Faraz Ahmed, diretor da trading Montage Commodities, sediada nos Emirados Árabes Unidos. O impacto sobre os preços dos fertilizantes fosfatados pode aparecer já em abril, quando a Índia costuma aumentar as compras para sua produção doméstica — um movimento que pode empurrar o mercado para um “modo de pânico”, afirmou.

A situação reforça, nos Estados Unidos, os apelos por mais estabilidade nesse mercado. Os agricultores dependem de três grandes famílias de fertilizantes: nitrogenados, fosfatados e potássicos. Apenas esta última, majoritariamente abastecida pelo Canadá e aplicada junto com fosfato em lavouras de soja, está relativamente protegida do atual choque global de oferta.

Entidades do setor agrícola pressionam o governo americano a suspender as tarifas sobre fertilizantes do Marrocos, país que detém as maiores reservas mundiais de rocha fosfática. O argumento é que os preços elevados e os riscos geopolíticos já reduziram a necessidade de medidas protecionistas.

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Essas tarifas — impostas em 2021, depois que a Mosaic, da Flórida, pediu ao Departamento de Comércio uma investigação — estão atualmente em revisão. A American Farm Bureau Federation pediu a Trump a suspensão temporária dessas taxas, enquanto uma coalizão com alguns dos maiores grupos agrícolas dos EUA solicitou na semana passada que a Mosaic e a JR Simplot retirassem seu apoio à manutenção das tarifas. Em 17 de março, as empresas enviaram cartas ao Departamento de Comércio informando que pretendem participar da revisão conduzida pelo órgão.

Enquanto isso, o problema de acessibilidade já reduz a demanda. David Delaney, CEO da produtora de fosfato Itafos, afirmou esperar uma queda de cerca de 20% no uso de fosfato nos Estados Unidos nos 12 meses encerrados em junho. As restrições de oferta podem aprofundar esse recuo — especialmente se os agricultores plantarem mais soja no lugar de milho, para escapar dos altos custos dos fertilizantes nitrogenados.

“Vai continuar apertado na primavera, no verão e no outono”, disse Delaney. “Com um corte de 20%, talvez haja produto suficiente para atravessar a primavera. Mas a gente termina a temporada com os estoques completamente zerados.”

Alta do diesel já afeta exportações de soja do Brasil

16 de Março de 2026, 18:51

A alta de preços de combustível gerada pela guerra no Oriente Médio tem prejudicado os exportadores do Brasil, que depende fortemente de caminhões movidos a diesel para o transporte de produtos. 

O Brasil está no no pico das exportações de soja, seu principal produto agrícola de exportação. O incremento nos preços do diesel está elevando o custo de transporte da soja até os terminais de exportação, além de aumentar as pressões inflacionárias de forma mais ampla.

Diversas empresas de comércio de commodities agrícolas paralisaram ofertas de compra de soja no mercado local na última semana em meio a medo de uma alta acentuada nos custos de frete, segundo analistas e corretores. O diesel representa uma parcela importante do custo de comercialização de soja, e a ausência de instrumentos de hedge que protejam contra elevações bruscas pode expor os traders a prejuízos.

Algumas das maiores companhias de comercialização de soja estiveram menos ativas no mercado brasileiro recentemente, uma vez que os riscos de frete se somaram a preocupações sanitárias que atingiram exportações para a China, disse João Henrique Teodoro, consultor de mercado na Patria Agronegócios. 

Os problemas ocorrem em um período particularmente sensível para a agricultura brasileira, uma vez que o país é o principal fornecedor de soja para a China nessa época do ano. Uma guerra prolongada, e contínua volatilidade nos fretes, poderia criar gargalos logísticos, eventualmente levando importadores a buscar outros fornecedores como os Estados Unidos ou a Argentina. 

“As companhias precisam de uma forma de planejamento, e dependendo de quanto tempo isso levar, podemos ver complicações na logística,” disse Adriano Gomes, analista de mercado da AgRural. 

Agora, empresas de transporte podem começar a cobrar taxas de emergência por conta da guerra, disse Silvio Kasnodzei, presidente de um sindicato que representa transportadoras no estado do Paraná. O governo brasileiro anunciou uma redução em impostos federais pra proteger consumidores da alta do petróleo, mas as transportadoras acreditam que o movimento foi insuficiente pra aliviar a incerteza, disse Kasnodzei.

Enquanto nos Estados Unidos as barcaças tem um papel significativo no transporte de longa distância da soja para exportação, no Brasil um estudo da Universidade de São Paulo apontou que 55% da soja depende de caminhões para chegar aos portos. Volumes movimentados por estrada tiveram um crescimento em anos recentes, uma vez que investimentos em ferrovias ou hidrovias não acompanharam o ritmo de crescimento da produção agrícola. 

Ao firmarem negócios de compra pra soja no Brasil, traders que compram cargas para serem entregues nos próximos meses ficam expostos à flutuações no custo de frete, disse Rodrigo Gonçalves, diretor-executivo da empresa de soluções logísticas goFlux. Se uma empresa negociando soja para maio for confrontada com aumentos no custo de frete, aquilo que antes seria uma transação lucrativa termina se transformando em prejuízo, disse ele.

Mão com bico de combustível amarelo abastecendo carro vermelho.

Isso ocorre num momento de custos já elevados para o frete de commodities agrícolas, devido a alta demanda nessa época do ano. Os custos de transporte por caminhão chegaram a um pico por conta de chuvas que forçaram os produtores rurais a acelerarem a colheita, fazendo o setor movimentar volumes grandes em um curto período de tempo. Más condições nas estradas também levaram a prazos mais longos do que o usual em algumas rotas durante o mês de fevereiro.

Embora os preços de combustível no Brasil sejam influenciados pela política da Petrobras, os caminhoneiros viram preços se elevarem no interior do país antes mesmo de a empresa implementar um aumento oficialmente.

Nos primeiros oito dias de março, o preço do diesel vendido pelas distribuidoras a postos de combustivel subiu cerca de 8%, de acordo com o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT). O preço da Petrobras não havia sido alterado no período, mas a companhia anunciou na última sexta-feira que iria elevar o custo aos distribuidores.

Não é só Vale e Petrobras: de Grupo Ultra a SLC, investidor estrangeiro diversifica compras

16 de Março de 2026, 16:04

A guerra do Irã não interrompeu o apetite de investidores estrangeiros pela bolsa no Brasil, o que sinaliza a continuidade de uma força que sustenta o Ibovespa próximo a patamares recordes.

Nos últimos cinco pregões da B3 até dia 13, ou seja, já na segunda semana de embates no Oriente Médio entre Estados Unidos, Israel e Irã, investidores internacionais acrescentaram mais R$ 1,1 bilhão líquido (aportes menos resgates) a um volume que já alcança R$ 43 bilhões só neste ano.

Esse capital de fora tem negociado em maior volume ações de empresas de commodities e serviços públicos (utilities) nas últimas semanas. E o interesse estrangeiro já vai muito além de Petrobras e Vale, segundo aponta um levantamento do time de pesquisa em ações do Itaú BBA.

O estrangeiro passou a comprar ações de companhias como SLC Agrícola (SLCE3), uma das maiores produtoras de soja do país; Copel (CPLE3), companhia de energia do Paraná; Grupo Ultra (UGPA3), dono da rede de postos Ipiranga e com atuação relevante em logística; e Copasa (CSMG3), companhia de saneamento mineira, que está em processo de privatização.

Todos os papéis acumulam altas acima de 18% no ano até a manhã desta segunda-feira (16): a SLC sobe 23,60%; a Copel tem alta de 18,95%; o Grupo Ultra avança 25%; e a Copasa tem ganho de 19,90%.

Existe um racional sobre o interesse do investidor por tais ativos. A procura pelo setor agrícola tem a ver com o período de safra no país. A colheita da soja, por exemplo, se estende de fevereiro a maio.

E as expectativas para a safra colocam a régua da produtividade no topo. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima um volume histórico de 177,8 milhões de toneladas para a soja. Já a previsão para a safra total de grãos é a de uma colheita recorde de 353,4 milhões de toneladas.

No caso das utilities, as companhias são vistas como sendo de perfil defensivo, especialmente em um momento no qual o preço da energia está em alta diante da Guerra do Irã.

Empresas de serviços públicos têm receitas previsíveis e recorrentes no longo prazo e regulações bem definidas. Esse grupo pode se beneficiar tanto do crescimento de demanda por energia quanto pelo próprio déficit de infraestrutura de saneamento no país.

O banco de investimento do Itaú desenvolveu um indicador que leva em conta variáveis como o desempenhos dos papéis em relação ao Ibovespa, o volume diário negociado, a volatilidade e a quantidade de dias em que a ação subiu mais que o principal índice da bolsa.

Entre as dez primeiras da lista aparecem ainda empresas financeiras, uma telecom e uma construtora: Vivo (VIVT3), Caixa Seguridade (CXSE3), Banco do Brasil (BBAS3) e Tenda (TEND3).

O indicador levou em conta os resultados dos últimos dois meses. Como estrangeiros basicamente dominaram os aportes na bolsa neste ano, o levantamento pode ser visto como um reflexo dos ativos mais negociados por investidores globais no período.

Por outro lado, tanto investidores individuais quanto institucionais locais registraram resgates líquidos (resgates menos aportes) de R$ 5,8 bilhões e R$ 32 bilhões nos últimos dois meses e meio, respectivamente.

O café brasileiro está mudando de sabor. Veja o motivo

29 de Novembro de 2025, 08:45

Nos próximos anos, o café do Brasil talvez comece a ter um sabor um pouco diferente.

O Brasil é o maior produtor mundial de café arábica, uma variedade de grão de sabor mais suave. Mas, à medida que as mudanças climáticas tornam mais difícil cultivar esse tipo de café, alguns produtores estão investindo no robusta, que gera um grão mais amargo, porém capaz de suportar temperaturas mais altas e mais resistente a doenças.

As regiões tradicionais de cultivo de café no Brasil, que produzem principalmente arábica, vêm sendo afetadas por secas mais intensas e frequentes e por temperaturas mais altas. O arábica continua sendo a principal exportação de café do país, mas a produção de robusta agora cresce em ritmo mais acelerado: 81% nos últimos 10 anos, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), que acompanha a produção global de café.

Para o Brasil, o robusta oferece a oportunidade de continuar sendo o maior fornecedor de café do mundo no futuro, mesmo com o agravamento dos efeitos da mudança climática, diz Fernando Maximiliano, gerente de Inteligência de Mercado de Café da StoneX, empresa de serviços financeiros.

“Não foi necessariamente a demanda que resultou no crescimento da produção de robusta”, afirma. “Na realidade, problemas climáticos e perdas no arábica foram os principais fatores que contribuíram para estimular o aumento do robusta.”

Nos últimos três anos, a produção de café arábica no Brasil cresceu a uma taxa anual de cerca de 2% a 2,5%, enquanto a produção de robusta avançou cerca de 4,8% ao ano. Na safra deste ano, o robusta registrou alta de quase 22%, uma colheita recorde, segundo a StoneX. Isso significa que a produção de robusta se destaca pela capacidade de lidar melhor com condições climáticas mais adversas e também pela rentabilidade, dizem analistas.

Em áreas mais quentes do Brasil onde o arábica não consegue crescer, produtores de café estão encontrando formas de cultivar robusta e mitigar o impacto das temperaturas mais altas. Plantar os cafeeiros sob a sombra de árvores nativas e outras espécies é uma dessas técnicas.

“Assim ele continua produtivo, fica um pouco mais úmido, não degrada tão facilmente”, explica Jonatas Machado, diretor comercial da Café Apuí, produtora de café robusta em sistema agroflorestal na região amazônica.

Um grão diferente

O Vietnã é o maior produtor mundial de robusta, mas o Brasil está se aproximando e pode ultrapassar o país do Sudeste Asiático graças a uma cadeia de suprimentos bem estruturada, segundo analistas do Rabobank, banco especializado em agronegócio.

O robusta tem concentração maior de cafeína e um sabor mais intenso que o arábica. Mas as gerações mais jovens prestam menos atenção ao tipo de café que consomem ou ao ponto de torra, e tendem a preferir opções personalizadas, com adição de leites, cremes e xaropes, que mascaram o sabor dos grãos.

“Eles não ligam tanto para a origem, para as notas de degustação”, diz Matthew Barry, gerente global de insights para alimentos, cozinha e refeições da consultoria de mercado Euromonitor International.

Se os preços do café continuarem subindo, os consumidores podem também migrar para o robusta, que custa menos.

Grande pilha de grãos de café torrado escuro, preenchendo toda a imagem. Detalhe da textura irregular e tons variados.
Foto: Jonne Roriz/Bloomberg

Na Europa, a diferença de preços entre o robusta e o arábica provavelmente será ainda maior nos próximos anos. Uma nova lei exigirá que commodities importadas tenham certificação de que não vêm de áreas recentemente desmatadas ou degradadas, embora a data de entrada em vigor ainda não esteja clara. O café solúvel, em sua maioria feito com robusta, ficará fora dessas regras. Essa exceção pode aumentar a demanda por produtos à base de robusta, segundo o Rabobank.

A União Europeia é a maior consumidora de café solúvel, respondendo por quase 50% da receita global desse mercado, de acordo com a consultoria Grand View Research.

Embora o robusta tenda a ser mais barato que o arábica, seus preços vêm atingindo máximas históricas.

Esses preços mais altos, somados ao fato de que alguns cultivares de robusta são quase duas vezes mais produtivos que as variedades de arábica, convenceram um número crescente de produtores brasileiros a investir no plantio de robusta, afirma Alexsandro Teixeira, pesquisador de café da Embrapa.

Produtores de robusta também vêm melhorando a qualidade de seus grãos. Isso tornou a variedade mais atraente para os consumidores e ajudou a impulsionar os preços, diz ele.

Por Renata Carlos Daou

Alívio para os EUA: retirada da tarifa sobre café e carne do Brasil reduz pressão sobre alimentos

22 de Novembro de 2025, 08:57

A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de retirar uma sobretaxa de 40% sobre as importações de café e carne bovina brasileiros deve trazer algum alívio para os mercados e para consumidores americanos, que vinham sofrendo com a disparada dos preços desses itens básicos.

O Brasil é o maior fornecedor global tanto de café quanto de carne bovina, e a tarifa adicional de 40%, anunciada em julho, fez os embarques para os EUA despencarem. A queda da oferta agravou uma escalada de preços enfrentada pelos americanos em meio à maior inflação de alimentos em décadas.

A nova ordem executiva assinada por Trump na quinta-feira (20) deve reduzir essa pressão. Na semana passada, o governo já havia cortado uma tarifa separada de 10% que incidia sobre os mesmos produtos.

“Dois terços dos adultos americanos tomam café todos os dias, e cada xícara vai ficar mais barata graças à decisão do presidente Trump”, disse a National Coffee Association, que representa a indústria de café nos EUA.

Inflação

A mudança, que inclui um conjunto de commodities, reflete a necessidade de conter os preços dos alimentos, em um momento em que os americanos seguem frustrados com o custo da cesta básica e atribuem ao presidente notas cada vez piores em relação ao desempenho econômico.

O índice de confiança do consumidor caiu em novembro a um dos níveis mais baixos já registrados, com piora na percepção sobre as finanças pessoais. Os contratos futuros do café arábica caíram até 6,6% na sexta-feira (21) em Nova York, atingindo a mínima de quase dois meses, antes de reduzir parte das perdas.

Os preços haviam alcançado recorde em outubro, quando as tarifas agravaram um cenário de oferta apertada após colheitas fracas ao redor do mundo. Um índice de inflação para café torrado atingiu máxima histórica em agosto, segundo o Bureau of Labor Statistics.

“Esperamos que as exportações sejam retomadas”, disse Fernando Maximiliano, analista da StoneX. Temores de escassez no mercado americano vinham pressionando os futuros para cima, mas agora há expectativa de alívio, afirmou.

Lula e Trump em reunião
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante reunião com presidente dos EUA, Donald Trump, em Kuala Lumpur, na Malásia 26/10/2025 REUTERS/Evelyn Hockstein

A carne bovina, por sua vez, tem sido um dos pontos mais sensíveis para a administração Trump, já que os preços ao consumidor atingiram recordes em meio à retração do rebanho nos EUA.

O país tem recorrido cada vez mais às importações para preencher a lacuna, o que derrubou os preços do gado vivo diante da expectativa de maior entrada de produto estrangeiro. Mas os embarques brasileiros caíram fortemente após as ameaças tarifárias.

Os futuros de gado vivo chegaram a recuar até 3,4%, menor nível desde junho, antes de suavizar as perdas. Mesmo assim, o custo menor para frigoríficos e varejistas ainda não se traduziu em carne mais barata para o consumidor, já que a demanda continua elevada.

Não está claro se a remoção da tarifa será suficiente para provocar “um aumento dramático” nas importações vindas do Brasil, segundo analistas da Steiner Consulting Group. Isso porque a baixa disponibilidade de gado no próprio Brasil e a forte demanda da China — maior compradora mundial — seguem como obstáculos.

Ainda assim, o relatório aponta que um cenário de mais importações e menos exportações americanas poderia “moderar a inflação da carne bovina” nos EUA em 2026.

Para o Brasil, o efeito das tarifas foi relativamente limitado: mesmo com a queda para os EUA, o país conseguiu aumentar as exportações totais de carne bovina em 2025, compensando com vendas maiores para México, Oriente Médio e, sobretudo, China.

“Quem acabou sofrendo mais com essa tarifa foram os produtores e consumidores americanos”, disse Marcos Jank, professor sênior do Insper. A oferta apertada em outras regiões do mundo permitiu que o Brasil encontrasse mercados alternativos com relativa facilidade, completou.

Kepler Weber diz que oferta da americana A-AG para fusão prevê um pagamento de R$ 11 por ação

10 de Novembro de 2025, 09:17

A americana A-AG Holdco propôs pagar R$ 11 por ação da Kepler Weber para adquirir a fabricante brasileira de silos – foi o que a Kepler informou à CVM nesta segunda-feira (10). A A-AG é dona da marca GSI, também de silos. A compra fundiria GSI e Kepler.

O valor é 5% maior que o do fechamento da última sexta (R$ 10,48) e, de acordo com a empresa, 48,3% superior à média dos 60 dias anteriores a 16 de outubro. Essa é a data em que a Kepler concedeu exclusividade à GPT para avançar nas negociações.

A exclusividade dá à GPT o direito de negociar sem concorrentes por um período determinado. Desde a última semana de outubro, a ação da Kepler sobe 44% – por isso o prêmio em relação à média é maior do que na comparação com o último fechamento.

O preço de R$ 11 por ação avalia a Kepler em R$ 1,9 bilhão – e não é definitivo. De acordo com a empresa, trata-se de uma referência inicial. O mercado esperava mais: a ação da Kepler cai 3% nesta segunda.

A Kepler destacou que, até 90 dias após a assinatura dos documentos definitivos da venda, poderá distribuir dividendos conforme sua política atual, de até 47,5% do lucro líquido anual, sem impactar o preço sugerido pela americana.

Após esse período, e até a conclusão da operação — ou até 180 dias após a assinatura —, o valor poderá ser ajustado, reduzido pelos dividendos pagos e acrescido da variação do CDI.

Segundo o comunicado, as partes seguem em processo de avaliação detalhada da empresa e negociação dos documentos finais. A Kepler ressaltou que, até o momento, não há qualquer acordo vinculante, além do compromisso de exclusividade já firmado.

A proposta da A-AG Holdco, foi divulgada pela primeira vez em 4 de novembro, quando a Kepler confirmou o recebimento de uma oferta para uma possível fusão entre as duas empresas.

Um atalho para a liderança

De acordo com o Citi, as negociações entre a Kepler e a GSI podem dar origem a uma multinacional de armazenagem de grãos sem paralelo no Brasil. A potencial fusão é vista como “um atalho para a liderança”, ao combinar a força da Kepler — líder nacional com cerca de 35% do mercado — com a GSI, terceira colocada, que detém aproximadamente 7% de participação.

Desde que foi vendida pela AGCO ao fundo AIP, em 2024, por US$ 700 milhões (equivalente a 8,3 vezes o Ebitda), a GSI vem adotando estratégias agressivas de preço e financiamento para ampliar sua presença no Brasil, com a meta de dobrar sua fatia de mercado em cinco anos.

Na avaliação do Citi, a combinação com a Kepler criaria um grupo quase onipresente, capaz de participar de praticamente todas as negociações de silos agrícolas do país. “O anúncio reforça o interesse da GSI em se tornar líder de mercado no Brasil por meio de um processo acelerado”, escreveram os analistas André Mazini, Kiepher Kennedy e Piero Trotta.

O Brasil enfrenta um déficit estrutural de armazenagem de grãos, com capacidade estática equivalente a 70% da produção anual, ante mais de 100% nos Estados Unidos. Entre 2016 e 2024, a produção brasileira de grãos cresceu 6% ao ano, enquanto a capacidade de armazenagem avançou apenas 2,5%. Segundo a Cogo Inteligência em Agronegócio, essa relação pode cair para 55% até 2033, abrindo uma lacuna que a nova companhia estaria bem posicionada para preencher.

Hoje a Kepler negocia a um múltiplo de 6 vezes o Ebitda estimado para 2026, – abaixo dos patamares históricos do setor. Em 2017, quando a AGCO chegou a oferecer US$ 185 milhões pela empresa, o valor representava um múltiplo de 12 vezes o Ebitda — o que, em valores atuais, equivaleria a mais de R$ 3 bilhões.

Possível OPA

O Citi avalia que, por ser controlada por um fundo de private equity, a GSI tende a buscar o fechamento de capital da Kepler, o que abriria caminho para uma eventual oferta pública de aquisição (OPA) – ou seja, a saída da empresa da bolsa. Embora o banco não confirme que uma OPA esteja nos planos imediatos, considera que essa seria uma consequência natural caso a transação avance.

A base acionária pulverizada da Kepler facilitaria o processo: a Trígono Capital detém 15,3%, seguida pela família Heller, com 11,6%, enquanto quase 70% das ações estão nas mãos de investidores de mercado.

Como a soja virou protagonista na guerra comercial entre EUA e China

10 de Novembro de 2025, 06:00

Depois de anos sendo sacudido por disputas globais, o fazendeiro de Illinois Dean Buchholz achava que já tinha visto de tudo. Mas até ele se surpreendeu quando sua safra de soja acabou envolvida numa crise financeira sul-americana.

Dias depois de o governo Trump prometer um empréstimo de US$ 20 bilhões para reforçar as finanças da Argentina, sob o presidente libertário Javier Milei, a China comprou bilhões de dólares em soja argentina. O megacontrato agrícola repercutiu nos mercados internacionais, pressionando os preços da soja americana e dando impulso à moeda argentina.

Em meio a uma guerra comercial entre Pequim e Washington, China e Argentina uniram forças para mostrar que o mundo pode viver sem a soja dos Estados Unidos. Alguns produtores americanos viram isso como uma traição. “A gente usou dinheiro de impostos para ajudar um país estrangeiro”, disse Buchholz, “e eles basicamente cortaram nossa garganta.”

Acordo e desconfiança

Na semana passada, o presidente Trump e o líder chinês Xi Jinping concordaram em reduzir as tensões comerciais após uma reunião na Coreia do Sul. Trump disse que cortaria tarifas sobre produtos chineses se Pequim limitasse as exportações de insumos usados na produção do opioide fentanil. Segundo o secretário do Tesouro, Scott Bessent, a China prometeu comprar 12 milhões de toneladas de soja americana nesta safra e 25 milhões de toneladas por ano nos próximos três anos.

“Nossos grandes produtores de soja, que os chineses usaram como peões políticos — isso acabou. Eles vão prosperar nos próximos anos”, disse Bessent.

Mas muitos agricultores ainda se sentem como peões. A manobra chinesa destacou os riscos de depender de uma potência capaz de abalar fortunas ao fechar a torneira do comércio.
Os termos do acordo não foram divulgados. Pelo que se sabe, a China concordou em comprar menos soja dos EUA neste ano do que no anterior. Na última década, o país importou em média 29 milhões de toneladas por ano.

“Acho que todo mundo nos usa como peões”, disse David Isermann, que cultiva cerca de 1 mil hectares (10 km²) no condado de LaSalle, em Illinois. Como muitos produtores, ele espera para ver se a China realmente cumprirá a promessa. Boa parte do interior agrícola apoia Trump, diz Isermann, mas “ele irritou os produtores de soja”.

Os preços pagos aos agricultores subiram desde o anúncio do acordo, mas, no terminal de grãos de Walsh, no nordeste de Dakota do Norte, o preço recente — abaixo de US$ 10 por bushel (medida equivalente a 27,2 kg de soja) — ainda torna a oleaginosa um negócio deficitário para a maioria.
Marvin Yoder, que cultiva mais de 2 mil hectares (20 km²) de milho e soja em Jacksonville, Illinois, dirigiu cerca de 130 quilômetros até a região de St. Louis para vender a colheita.

Foto: Adobe Stock

O porto no rio Mississippi paga cerca de 40 a 45 centavos a mais por bushel que o armazém local. Yoder diz que o acordo pode ajudar as finanças dos produtores no curto prazo, mas não resolve o problema maior: o Brasil.

“Os EUA dominaram as exportações agrícolas globais, mas o resto do mundo alcançou”, afirmou. “O Brasil cresce todo ano — tem terra barata, mão de obra barata e produtores muito competentes também.”

A incerteza do mercado chega em má hora para os produtores americanos de soja. A safra deste ano foi projetada como uma das maiores da história, deixando os agricultores com mais grãos do que destinos para vendê-los.

Os custos estão subindo e os preços, baixos. Alguns que já venderam parte da colheita enfrentam prejuízos. Trump prometeu um pacote de resgate multibilionário para manter as fazendas de pé. Mike Dahman, que cultiva cerca de 8 mil hectares (80 km²) em Winchester, Illinois, diz que a soja foi um mau negócio neste ano. Somando o custo do arrendamento e das operações, calcula que perderá cerca de US$ 100 por hectare colhido.

Dahman tem armazenado a maior parte da safra em vez de vendê-la. No mês passado, levou um caminhão de grãos recém-colhidos até um silo da Cargill em Florence, Illinois, mas foi recusado enquanto o local carregava uma barcaça. Vendeu a um armazém vizinho por um preço um pouco menor. “Se você está plantando soja, provavelmente vai perder dinheiro”, disse.

A história da China

A China, de longe o maior importador mundial de soja, ajudou a transformar a oleaginosa na segunda cultura mais plantada dos EUA. O Conselho de Exportação de Soja dos Estados Unidos abriu um escritório em Pequim em 1982 para promover o grão rico em proteína usado na engorda de suínos e aves.

Nos anos 1990, com a ascensão da classe média chinesa e o aumento do consumo de carne, a demanda por soja disparou. Em resposta, agricultores americanos converteram milhões de hectares antes dedicados ao trigo, especialmente nas Grandes Planícies.

Cerca de metade da soja americana é exportada a cada ano. O restante é processado em óleo para culinária e biocombustíveis, como o diesel, e em farelo para ração animal. Avanços tecnológicos das maiores empresas de sementes e defensivos devem elevar a produtividade nos próximos anos.
Uma cadeia logística inteira se formou em torno da soja e das exportações para a China — plantas de processamento, ferrovias e melhorias em portos da Costa Oeste. Por décadas, a oleaginosa sustentou milhares de produtores e economias rurais dependentes das vendas a Pequim.

Tudo mudou no primeiro mandato de Trump, quando ele impôs tarifas à China, desencadeando uma guerra comercial. As importações chinesas de soja americana despencaram, e o governo teve de compensar as perdas com cerca de US$ 23 bilhões em subsídios entre 2018 e 2019.

As exportações depois se recuperaram, mas a China gastou dezenas de bilhões de dólares fortalecendo a cadeia agrícola da América do Sul — especialmente no Brasil. A estatal chinesa Cofco, uma grande trader agrícola, desenvolve um grande terminal no Porto de Santos para exportar soja e milho.

O fator Brasil e a Argentina

O Brasil ultrapassou os EUA como maior exportador mundial há mais de uma década, impulsionado por investimentos e uma vasta área agrícola. No ano passado, respondeu por 70% das importações chinesas, o dobro da fatia de 15 anos atrás.

O país é criticado por desmatar para expandir a produção. Em uma conferência neste ano, o vice-secretário de Agricultura dos EUA, Stephen Vaden, chamou o desmatamento brasileiro de “prática comercial desleal” que dá vantagem aos produtores locais.

Trump voltou a elevar as tensões com a China após reassumir a presidência. O governo acreditava que Pequim precisava da soja americana, e o confronto evoluiu para uma disputa de barreiras comerciais. A China reagiu.

Em setembro, a Argentina suspendeu sua taxa de exportação de 26% sobre produtos agrícolas até atingir US$ 7 bilhões em vendas. Dias depois, vendeu praticamente todo esse volume à China, incluindo dezenas de carregamentos de soja.

Autoridades argentinas disseram que a medida visava fortalecer o peso, segundo uma publicação nas redes sociais do então porta-voz presidencial. Mas, em meio a um pacote de resgate financeiro de US$ 20 bilhões articulado pelo Tesouro americano, muitos produtores nos EUA sentiram-se traídos.

O secretário do Tesouro, Bessent, estava na 80ª Assembleia-Geral da ONU em setembro quando recebeu uma mensagem de texto da secretária de Agricultura, Brooke Rollins: “Os preços da soja estão caindo ainda mais por causa disso. Isso dá mais poder de barganha à China.”

Gigantes do agronegócio como a Cargill — maior empresa privada dos EUA — e a Archer Daniels Midland foram as responsáveis por levar a soja argentina até a China. É parte da lógica global das tradings, que lucram com operações externas mesmo enquanto os produtores americanos sofrem com a queda nas exportações.

Segundo Brian Sikes, CEO da Cargill, países como o Brasil devem ajudar a expandir a produção agrícola global para alimentar a população crescente. “Vemos a América do Sul como um investimento, com certeza”, disse. A Cargill, com sede em Minnesota, investiu cerca de US$ 1,5 bilhão no Brasil nos últimos cinco anos, incluindo em unidades de processamento de soja.

Entidades do setor agrícola americano celebraram o novo acordo com a China. “Expandir mercados e retomar as compras chinesas vai trazer previsibilidade para produtores que estão lutando para se manter”, disse Zippy Duvall, presidente da American Farm Bureau Federation. Ainda assim, analistas alertam que as tensões entre China e EUA podem voltar a piorar. “Há um sentimento cauteloso de otimismo”, disse Arlan Suderman, economista-chefe de commodities da StoneX.

“Mas também a consciência de que os dois países ainda estão longe de resolver suas diferenças.” O CEO da Archer Daniels Midland, Juan Luciano, afirmou nesta semana que os benefícios do acordo recente com a China ainda são incertos. “Precisamos de clareza sobre o acordo”, disse. “À primeira vista, parece positivo, mas ainda não vimos um documento conjunto com os detalhes.”

Entre setembro e o início de outubro, as exportações americanas — excluindo a China — subiram cerca de 45% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo Jim Sutter, diretor do Conselho de Exportação de Soja.

Tailândia, Bangladesh, Paquistão e países europeus ampliaram suas compras. No norte da África, Egito e Marrocos despontam como oportunidades de crescimento, diz Sutter. Mas nada substitui a China. As grandes compras semanais do país durante a colheita americana trazem previsibilidade; já os pedidos de outros mercados são irregulares, elevando custos de armazenagem e incerteza.

Greg Amundson, que cultiva cerca de 3 mil hectares (30 km²) no nordeste de Dakota do Norte, diz que, em um ano normal, toda a sua soja iria para a China. Neste ano, levou a produção a uma planta de esmagamento — onde os grãos são transformados em óleo e farelo para ração —, mas se diz frustrado com os preços baixos. Centavos por bushel podem determinar a diferença entre lucro e prejuízo. Sinais de dificuldade já vinham aparecendo na economia rural antes mesmo de Trump reassumir o cargo.

O excesso de milho e soja após várias safras recordes derrubou os preços. Os fertilizantes de Amundson custam cerca de US$ 100 por saco a mais que no ano passado. As sementes subiram entre 10% e 20%.
“O acordo com a China pode trazer alguma estabilidade”, disse. “Mas tem soja demais no mundo — é por isso que os preços estão tão baixos.”

China não comprou um grão sequer da nova safra de soja dos EUA — e Trump vai correr atrás do prejuízo

3 de Outubro de 2025, 14:16

Para os agricultores dos Estados Unidos, chuvas abundantes que garantem uma supersafra normalmente seriam boas notícias. Mas isso não fará diferença em 2025 se a China — maior compradora de soja do mundo — não levar um único grão.

Em meio à guerra comercial reaberta pelo governo Trump, os EUA devem perder ainda mais participação de mercado para a América do Sul, especialmente para o Brasil — talvez de forma permanente.

“Essa teoria de dor de curto prazo para ganho lá na frente não está funcionando, e não vai funcionar”, disse Ed Hodgson, agricultor de 1.500 acres no Kansas, que planta soja desde 1967.

Quando Donald Trump anunciou em abril tarifas sobre a maioria dos países — com foco em parceiros como China, México e Canadá — Hodgson viu como um “desastre” para o campo. E não acreditou na promessa de preços melhores.

Nos últimos cinco anos, a China respondeu por 52% das compras de soja dos EUA, lembrou o produtor. Em 2025, não comprou nada por causa das tarifas e da guerra comercial. “Nosso mercado de exportação à China foi dizimado e o preço despencou”, disse.

Segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), até agora a China não adquiriu soja da safra 2025/26. No mesmo período do ano passado, já havia comprado 6,8 milhões de toneladas — o que equivale a cerca de 250 milhões de bushels (a unidade padrão de negociação na Bolsa de Chicago, cada bushel equivale a 27,2 quilos de soja).

Tarifa pesa, Brasil avança

A combinação de tarifas retaliatórias de 20%, impostos de valor agregado e taxas de nação mais favorecida elevaram a carga sobre a soja americana para 34% em 2025, segundo a Associação Americana de Soja. Resultado: a soja dos EUA ficou “proibitiva” frente à oferta mais barata de Brasil e Argentina.

“É um mercado que perdemos e provavelmente nunca vamos recuperar”, resumiu Hodgson.

De fato, a mudança estrutural já dura 15 anos, com a China migrando para a soja brasileira, segundo Arlan Suderman, economista-chefe de commodities da StoneX. 

A desvalorização do real impulsionou a produção no Brasil, barateando o grão. Além disso, Pequim investiu bilhões em infraestrutura agrícola no país, para garantir abastecimento rápido e constante.

Bioenergia pode ajudar — mas não resolve

Uma saída parcial para os EUA pode vir do programa de biocombustíveis, que aumenta a demanda doméstica por óleo de soja usado em biodiesel. A produção americana de diesel renovável subiu de 1,47 bilhão de galões em 2013 para 4,29 bilhões em 2023, segundo a Associação Americana de Soja.

Ainda assim, a capacidade de processamento doméstico não chega perto de substituir o que antes ia para a China. “Não dá para simplesmente apertar o botão. Levará anos para construir a infraestrutura necessária”, disse Suderman.

Armazéns lotados e preços baixos

Sem a China, os EUA enfrentam excesso de oferta e preços em queda. No mercado futuro de Chicago, a soja para novembro foi negociada a US$ 10,13 por bushel. Mas produtores como Hodgson dizem que na prática recebem cerca de US$ 9 — bem abaixo dos US$ 14 a US$ 15 que seriam sustentáveis, sobretudo diante da alta de fertilizantes, sementes e máquinas.

“Todo mundo quer comida barata, mas isso não é porque o agricultor está ganhando dinheiro”, disse Hodgson.

Enquanto isso, Trump prometeu discutir o tema diretamente com o presidente chinês Xi Jinping nas próximas semanas e acena com um pacote de US$ 10 bilhões em ajuda aos fazendeiros, possivelmente financiado com receitas de tarifas. Até lá, os armazéns do Meio-Oeste seguem cheios de soja que ninguém parece querer.

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Pós-fusão, grupo MBRF trabalha para aumentar a presença da marca Sadia na mesa dos argentinos

3 de Outubro de 2025, 06:00

Buenos Aires – Algumas coisas são tradicionais para os argentinos: futebol, doce de leite, empanadas, alfajor e as ‘hamburguesas’ Paty. A marca, administrada pelo grupo MBRF, virou sinônimo de hambúrgueres para os nossos vizinhos. Tanto que é comum, ao sair de uma partida de futebol, ouvir os ambulantes lançarem gritos efusivos “hay Paty, hay Paty” nos arredores dos estádios de Buenos Aires para atrair os ‘hinchas’ mais famintos.

Com a fusão entre a Marfrig e a BRF, concluída em 22 de setembro, o grupo tem como uma de suas prioridades transformar a marca Sadia em uma nova Paty para os argentinos. A BRF havia deixado de operar na Argentina em 2018, quando vendeu suas operações no país para a própria Marfrig, por US$ 54,9 milhões. Nessa ocasião, os produtos de frango da empresa diminuíram (ou até sumiram) das gôndolas dos supermercados argentinos.

Em 2020, a Marfrig retomou o contato com a BRF e decidiu importar produtos da Sadia para o país. A retomada de terreno foi paulatina, mas Gustavo Kahl, CEO da MBRF Argentina, estima que hoje a marca já ocupe a segunda posição entre os produtos de frango na Argentina.

“Começamos um trabalho de importação de produtos, voltando a dar visibilidade à marca Sadia na Argentina desde 2020. Agora, com a Marfrig tomando um controle maior sobre a BRF, podemos fazer uma nova aposta para ampliar o portfólio de produtos da marca”, diz o executivo-chefe da MBRF Argentina ao InvestNews, em uma entrevista realizada na sede administrativa da companhia, em Munro, na província de Buenos Aires.

A aposta da MBRF no frango não é por acaso. A Argentina passou por mudanças profundas na economia após a mudança de governo em 2023, quando o economista liberal libertário Javier Milei venceu as eleições presidenciais.

Em 2024, logo após a posse de Milei, o choque na economia levou ao aumento de preços da carne bovina no país, fazendo o consumo anual da proteína retroceder para a faixa de 44,8 kg por habitante no pior momento. Em um cenário de carne bovina mais cara, o frango (consumo de 48,5 kg ao fim de 2024), sobretudo, e a carne suína (17,7 kg) ganharam destaque na dieta local.

Hoje, a MBRF detém quatro unidades produtivas no país e conta com mais de 200 produtos diferentes ao todo. No caso da marca Sadia, a empresa trabalha com 15 itens diversos, mas entende que ainda há espaço relevante para crescer devido à variedade de produtos da marca.

Além dos frangos empanados (chamados pelos argentinos de Sadinesas), uma das apostas de momento é avançar com a venda de Pavita, tradicional produto festivo para as celebrações de fim de ano. Feito à base de carne de peru, no Brasil esse produto é conhecido como Fiesta pela marca Sadia.

“A nossa ideia é fazer da Sadia o mesmo que fizemos com a Paty, que é uma marca com mais de 50% de market share aqui”, reforça ele. “A Sadia tem um portfólio muito mais amplo do que as outras marcas que temos. Há desde presunto in natura ao suíno, passando por margarina e pratos prontos, como lasanhas. Também estamos trazendo matéria-prima de suíno e de frango para produzir aqui.”

A MBRF opera hoje com mais de 70 grandes fornecedores locais para a venda dos produtos da marca Sadia no país.

Kahl tem planos ousados para o grupo após a fusão. A MBRF quer ascender sua produção em 50% para os próximos três anos. Hoje, a companhia processa cerca de 8.000 toneladas mensais de produtos como hambúrgueres, salsichas, embutidos e vegetais congelados. “A ideia é que tenhamos um crescimento significativo do negócio na Argentina”, diz ele.

Parte disso passa pela ampliação da principal planta da companhia, localizada no munícipio de San Jorge. A unidade abate cerca de 1,1 mil cabeças de gado por dia, o que já é reflexo de um avanço de quase 80% em relação ao que era feito no início de 2019, quando a Marfrig tomou o controle da operação. A ideia é que o nível diário de abate passe para cerca de 1,5 mil até o fim de 2026.

Estima-se que a empresa tenha investido cerca de US$ 30 milhões para a ampliação da capacidade produtiva de San Jorge nos últimos anos. Kahl não confirma os números, mas diz que uma nova rodada de Capex para o país está em fase de estudo.

Aliança com McDonald’s

Em outubro de 2020, a Marfrig comprou a produtora de carnes Campo del Tesoro, por US$ 4,6 milhões, para se tornar a única fornecedora de hambúrgueres para o McDonald’s na Argentina — antes, a produtora dividia o fornecimento com a própria Marfrig. Hoje, o grupo MBRF fornece cerca de 15 mil toneladas do produto por ano para a rede de fast-food. A capacidade produtiva do grupo para hambúrgueres no país é de aproximadamente 60 mil toneladas por ano.

As demais unidades produtivas da companhia no país estão localizadas em Barradero, onde se fabrica as tradicionais salsichas da marca Vienissima!; e Arroyo Seco, onde se produz vegetais congelados e produtos que possam atender ao gosto de veganos e vegetarianos por meio da marca Green Life.

A empresa emprega cerca de 2 mil funcionários na Argentina e a operação no país representa pouco mais de 1% do faturamento do grupo a nível global – no segundo trimestre deste ano, a operação consolidada da MBRF apresentou receita de R$ 37,8 bilhões.

Em 2023, a Marfrig vendeu um conjunto de plantas de abate e desossa para a Minerva, por R$ 7,5 bilhões. O negócio envolveu 16 unidades e um centro de distribuição. Entre elas, estava a planta de abate de bovinos em Villa Mercedes, na Argentina.

“Essa operação deixou muito claro para o mercado o que as duas empresas querem para o futuro. A Marfrig vai focar em alimentos processados, produtos de maior valor agregado, como hambúrgueres, salsichas e pratos congelados. E a Minerva vai focar em carne in natura para exportação”, afirma Fernando Iglesias, diretor da consultoria Safras & Mercados.

Recentemente, o consumo de carne bovina no país voltou a figurar acima da faixa dos 50 kg per capita. “Em 2023 e 2024, o consumidor deixou de consumir, mas agora isso está voltando. Hoje, já estamos vendendo mais do que em 2024. Estamos nos recuperando em termos de volume e margem. Isso vai nos levar a um crescimento gradual e contínuo pelos próximos três anos”, afirma o CEO da MBRF Argentina.

O fator Milei

Por meio do lema da desburocratização, o Ministério da Agricultura de Milei tem trabalhado para fomentar as exportações do país, eliminando taxas e promovendo novos acordos comerciais, como a liberação da exportação de gado vivo – algo que não é considerado no momento pela MBRF devido à baixa produtividade.

Hoje, cerca de 25% da produção da MBRF na Argentina é destinada à exportação: 25 países recebem produtos da empresa feitos em terras vizinhas. Os principais mercados trabalhados pela companhia são Estados Unidos, Europa, Israel e China – sendo que o país asiático detém o maior volume das exportações, mas com produtos de menor valor agregado.

“Temos algumas prioridades para a exportação, como levar a nossa carne ao Japão. E entrar com miúdos na China”, diz Kahl. “Nós já exportamos carne, carne com osso, osso. O último passo é a exportação de miúdos. Estamos trabalhando e muito perto de firmar um acordo para miúdos, como já existe para o Uruguai.”

Um dos principais exportadores de carne bovina do mundo, a Argentina enviou mais de 576 mil toneladas ao exterior de janeiro a agosto deste ano – o volume, no entanto, demonstrou queda de 6,8% frente a igual período do ano anterior.

Proximidade com Marcos Molina

Descendente de austríacos, o engenheiro industrial Gustavo Kahl foi escolhido por Marcos Molina, presidente do conselho de administração e controlador da MBRF, da missão de tocar a empreitada na Argentina quando a Marfrig decidiu adquirir a QuickFood, em 2018.

Kahl e Molina já se conhecem de longa data. Em meados dos anos 1990, Molina viajava para países vizinhos para se reunir com fornecedores de carnes. Com os diversos encontros, veio uma grande amizade. Antes de trabalhar diretamente para a Marfrig, Kahl foi CEO da JBS para operação do Cone Sul e diretor da Cargill.

“Conheci o Marcos há muito tempo, desde antes que ele fosse reconhecido como o grande empresário que é. Eu vendia carne para ele no fim dos anos 90. Ao longo do tempo, fomos nos encontramos diversas vezes. E, bom, as idas e vindas da vida e dos negócios nos colocaram lado a lado e aqui estou há quase sete anos”, diz Kahl. “Ainda há muito para se fazer, mas com a chegada do Miguel Gularte e a liderança do Marcos, estamos colocando o foco na execução, simplificando os processos para dar agilidade e proximidade com o cliente.”

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São Martinho investe mais de R$ 1 bilhão em etanol de milho – mas sem abandonar a cana

30 de Setembro de 2025, 06:00

A São Martinho entrou na corrida do etanol de milho, mas sem a pressa das líderes Inpasa e FS. A companhia está investindo R$ 1,1 bilhão em uma planta em Goiás para capturar parte do crescimento acelerado dessa alternativa à cana, que já responde por 20% da produção nacional, mas adianta que não pretende repetir o modelo em novas unidades.

Segundo o CFO Felipe Vicchiato, a ideia não é migrar de mercado, e sim transformar o milho em uma fonte adicional de receita. “Quando estiver operando em plena capacidade, a planta deverá responder no futuro por cerca de 20% da nossa receita”, afirmou ao InvestNews.

Vicchiato, no entanto, mantém a cautela para investimentos em etanol de milho. Segundo ele, a expectativa da São Martinho é “parar somente nesta planta adicional, não fazer mais nenhum investimento do tipo”.

É que, apesar de estar em alta, o etanol de milho ainda tem um gargalo logístico que atrapalha a sua adoção. Como o principal insumo utilizado nas usinas é o cavaco de madeira triturada, normalmente de eucalipto, isso se torna um custo adicional para as unidades – no caso da cana-de-açúcar, utiliza-se seu próprio bagaço para a produção de etanol.

“O milho é uma questão resolvida. O problema é ter combustível para abastecer a caldeira. E o eucalipto tem um ciclo longo, demora uns sete anos para ‘acontecer’. Para se ter uma ideia, a gente teria que plantar aqui, a grosso modo, uns 8 mil hectares de eucaliptos para abastecer a minha primeira planta de etanol de milho, que mói 500 mil toneladas de milho”, exemplifica.

No caso da usina de milho da São Martinho, parte da biomassa virá do excedente do bagaço da cana. “Eu consigo usar essa energia que hoje eu vendo no grid para usar para tocar a minha planta de milho”, complementa o executivo.

O projeto prevê o incremento de capacidade para processar 635 mil toneladas de milho por ano, resultando na produção de 270 mil m³ de etanol, além de subprodutos como DDGS e óleo de milho. O cronograma de aportes será dividido em três fases, com a previsão de início da atuação para o segundo semestre de 2027.

Com os novos investimentos, estima-se que o etanol consiga prosperar no Norte e no Nordeste. Por motivos de competitividade, alguns estados das regiões importam o etanol de milho dos EUA em detrimento ao produzido com cana-de-açúcar no Sudeste, sobretudo em São Paulo.

“Até pouco tempo atrás, era praticamente impossível abastecer com etanol a partir de Minas Gerais sentido ao Norte. Era mais caro. Então, a gasolina costumava ser mais competitiva. Com a produção no Centro-Oeste, essa relação etanol-gasolina deve melhorar”, diz o engenheiro agrônomo Alcides Torres, diretor-fundador da Scot Consultoria.

Excesso de oferta?

Parte da aposta do setor sucroalcooleiro no milho vem do aumento da mistura de etanol na gasolina: de 27% para 30%. A medida aumenta o potencial de consumo do etanol em 1 bilhão de litros. “Se os investimentos em etanol de milho continuarem no Brasil, teremos uma possibilidade dessa mistura chegar próximo a 35% no futuro”, estima o CFO da São Martinho.

Para Adriano Pires, sócio-fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), o aumento “desordenado” da oferta, entretanto, pode ser negativo no futuro. “O governo tem que tomar muito cuidado para não repetir erros do passado no etanol, o que seria ruim para todo mundo: consumidores, produtores de cana e do etanol de milho”, diz o especialista. “O país precisa ter uma política que entenda que o etanol de milho é uma complementação do etanol de cana e que os dois precisam conviver para que se haja um equilíbrio que não se crie uma oferta demasiadamente maior que a demanda.”

Biometano e SAF

Na busca por fontes alternativas de receita, a São Martinho anunciou, em 2023, a construção de uma planta de biometano. Com investimento de R$ 250 milhões, a usina processará 100% da vinhaça gerada na unidade Santa Cruz, localizada em Américo Brasiliense (SP), para produzir cerca de 15 milhões de metros cúbicos de biometano por safra. O projeto encontra-se em fase de comissionamento.

Outro mercado em que a empresa estuda uma investida é o de combustível sustentável para aviação (SAF, na sigla em inglês). Por ora, o CFO revela que não há nada além de estudos, mas a iniciativa deve ganhar fôlego na São Martinho até o fim da década. “Do nosso lado, o desafio é estar pronto com o nosso etanol certificado para vender as plantas que forem produzir o SAF. Será um mercado a mais para o etanol”, afirma Vicchiato.

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