O Brasil está adotando medidas para aumentar o uso de etanol na gasolina em uma tentativa de conter os impactos da alta dos custos dos combustíveis, à medida que a guerra no Oriente Médio se prolonga.
O segundo maior produtor mundial de biocombustível está avançando com planos para uma nova exigência de mistura obrigatória de 32% de etanol na gasolina, segundo comunicado do Ministério de Minas e Energia nesta sexta-feira (24). O percentual atual é de 30%, e a ampla oferta de biocombustível, somada aos preços baixos, ajuda a aliviar a pressão sobre os combustíveis nos postos brasileiros.
“A medida tem potencial para reduzir a necessidade de importação de gasolina em aproximadamente 500 milhões de litros por mês”, afirmou o comunicado. “Com isso, o Brasil fortalece sua soberania energética e avança rumo à autossuficiência em gasolina, eliminando importações do combustível.”
A iniciativa faz parte de um conjunto de ações destinadas a proteger os consumidores dos impactos econômicos do conflito no Oriente Médio e ocorre enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva busca a reeleição em cerca de seis meses.
Autoridades disseram na quinta-feira que o governo também pedirá ao Congresso autorização para usar receitas extraordinárias ligadas ao petróleo para reduzir impostos sobre combustíveis como gasolina, diesel, etanol e biodiesel. Isso ocorre após uma série de cortes de tributos e subsídios para diesel, gás de cozinha e combustível de aviação, além de linhas de crédito para companhias aéreas afetadas pelos custos mais altos.
O Brasil há muito tempo usa o etanol como instrumento em choques de preços de energia, com motores movidos exclusivamente a etanol produzidos desde o fim da década de 1970 ajudando a reduzir a dependência de importações de gasolina. Mais recentemente, uma lei de biocombustíveis sob o governo Lula estabeleceu a meta de atingir uma mistura de até 35% no futuro próximo, ainda dependendo de testes técnicos.
A implementação final da nova mistura ainda depende de aprovação do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), que deve, em grande parte, seguir a recomendação do Ministério de Minas e Energia.
Os passageiros devem se preparar para mais dor de cabeça nos próximos meses, à medida que companhias aéreas do mundo todo aprofundam cancelamentos e deixam aviões no chão para tentar conter a escalada estratosférica no preço do combustível de aviação.
A holandesa KLM foi a mais recente a cortar sua malha. Na quinta (16), a companhia anunciou que vai cancelar 80 voos de ida e volta no Aeroporto de Schiphol, em Amsterdã, ao longo do próximo mês. Com isso, ela entra no mesmo time da United Airlines, da Lufthansa e da Cathay Pacific, que também já enxugaram itinerários para conter o estrago.
A capacidade global prevista para maio foi reduzida em cerca de 3 pontos percentuais, e 19 das 20 maiores empresas do setor cortaram voos, segundo dados compilados pela consultoria Cirium. A casa está revisando a projeção inicial, de crescimento de 4% a 6% no ano, e afirma que, em certos cenários, uma queda de até 3% está no radar.
“Parece extremamente provável que venham novas reduções pela frente”, escreveu Richard Evans, consultor sênior da Cirium, em relatório divulgado na quinta-feira.
Não há solução à vista no curto prazo. “Qualquer rota que a gente esteja operando no limite, talvez sem render o que gostaríamos, tende a ser reavaliada”, disse Ed Bastian, presidente da Delta Air Lines, ao anunciar um custo extra de US$ 2,5 bilhões com combustível neste trimestre. “Vai ser um teste e tanto para o setor.”
Como se não bastasse, há dúvidas sobre se vai haver combustível suficiente para todo mundo. A Agência Internacional de Energia (AIE) diz que a Europa tem “talvez seis semanas” de estoque. Ryanair, Virgin Atlantic e EasyJet só projetaram a disponibilidade do produto até meados de maio.
A União Europeia afirmou que pode ter problemas no abastecimento de querosene de aviação “em futuro próximo”. O bloco prepara um plano conjunto de ação caso a situação no Estreito de Ormuz se arraste, segundo um porta-voz ouvido na sexta-feira em Bruxelas.
Por ora, o setor pode ter ganhado algum fôlego depois que o Irã afirmou, na sexta, que o estreito estava “completamente aberto” ao tráfego comercial. Na sequência, o petróleo Brent de referência chegou a cair 11%. Mas qualquer trégua ainda é frágil, já que os dois lados tentam manter poder de barganha no conflito.
Os ajustes recentes de capacidade mostram que muitas empresas entraram em modo de preservação, contando com uma piora prolongada dos negócios por causa do conflito. Mesmo que os combates terminem logo, a reconstrução da infraestrutura danificada deve levar meses ou anos.
A Lufthansa adotou medidas drásticas na última semana, enquanto uma onda de greves agravava sua crise de combustível. O grupo encerrou a unidade CityLine, tirando 27 aeronaves de operação, e enxugou a capacidade no resto da rede ao deixar no chão os widebodies mais velhos e beberrões.
“O pacote para acelerar as medidas de frota e capacidade é inevitável diante do forte aumento do preço do querosene e da instabilidade geopolítica que continua em curso”, disse Till Streichert, diretor financeiro do grupo, na quinta-feira.
A lista não para. Ainda no guarda-chuva da Lufthansa, a suíça Edelweiss suspendeu os voos para Denver e Seattle e reduziu a frequência de Las Vegas.
A Air Canada cancelou as operações de Montreal e Toronto para o aeroporto John F. Kennedy, em Nova York, mas vai continuar atendendo os outros dois hubs da cidade, Newark e La Guardia.
A Norse Atlantic, de baixo custo e com sede na Noruega, suspendeu todos os voos de e para Los Angeles. A Virgin Atlantic desistiu da rota Londres-Riad depois de apenas um ano no ar, e a British Airways encerrou o trecho até Jeddah.
Na Nigéria, companhias locais alertaram que enfrentam “ameaças existenciais” e podem suspender voos nos próximos dias, a não ser que o governo adote medidas para baixar o preço do combustível.
A australiana Qantas vai reduzir os voos para os Estados Unidos e cortar cerca de 5% da capacidade doméstica, diante de uma estimativa de conta extra de A$ 800 milhões (US$ 575 milhões) com combustível no segundo semestre do ano fiscal.
A Cathay Pacific, de Hong Kong, vai cortar 2% da frequência de voos na Ásia-Pacífico entre meados de maio e o fim de junho. Sua unidade de baixo custo, a HK Express, que já operava no prejuízo, vai fazer um recuo ainda mais forte, de 6%.
Os cortes vieram depois de a companhia impor taxas extras de combustível de até US$ 400 em passagens de ida e volta nas rotas de longa distância.
“Exploramos todos os meios à nossa disposição para manter nossos voos operando normalmente”, afirmou Lavinia Lau, diretora comercial e de relacionamento com clientes da Cathay, em comunicado de 11 de abril. “Mas essas medidas não foram suficientes para absorver a alta expressiva no custo do combustível.”
Muitas empresas europeias têm boa proteção via hedge sobre o combustível, ao menos para os próximos meses, enquanto a maioria das americanas — as maiores do mundo em capacidade — não faz esse tipo de operação e acaba engolindo as contas mais salgadas.
A United Airlines foi uma das primeiras a anunciar cortes, tirando 5% da capacidade já neste ano, com reduções que se estendem até setembro. A Delta tenta se equilibrar repassando aumentos ao consumidor e mexendo na capacidade, com recuo de cerca de 3,5%.
As companhias da China, que também não contam com hedge no combustível, estão intensificando os cancelamentos diários de voos, segundo análise da Bloomberg News sobre dados da provedora chinesa DAST. A alta nos cortes vem justamente no momento em que as empresas chinesas programam menos voos domésticos por dia, conforme dados compilados pela BloombergNEF.
Nas redes sociais, passageiros chineses lotaram as timelines com reclamações sobre cancelamentos de última hora pouco antes do feriadão de cinco dias da Golden Week (“Semana Dourada”), em maio. E, enquanto os viajantes ao redor do planeta fecham suas férias de verão e outono, muitos podem descobrir que várias rotas para destinos menos óbvios simplesmente sumiram do mapa da aviação global.
“Se o preço do querosene continuar alto por muito tempo, vai haver mais cancelamentos”, disse Dudley Shanley, analista do Goodbody.
A solução para a atual crise de restrição de oferta de combustíveis no Brasil seria um reajuste de preços pela Petrobras (PETR4), para que se abra novamente uma janela de importação e mais agentes tenham segurança de trazer o produto do exterior e remunerar suas atividades, afirmaram fontes diversas do setor de distribuição à Reuters.
“Enquanto a Petrobras não equalizar seus preços aos dos importados e mantiver a prática de não atender pedidos adicionais e suspender leilões — mesmo que estes cheguem a negociar produtos, em alguns casos, a até R$2,50 por litro acima do preço de lista — a situação tende a se agravar”, disse uma fonte do setor, na condição de anonimato.
Com sua produção, a Petrobras responde por mais de 50% do consumo de diesel no país, com aproximadamente 20% vindo das refinarias privadas e o restante da importação, realizada por uma série de players, entre grandes e pequenos — e pela própria estatal.
Por isso a importância de equiparar as cotações do país, que estão defasadas em mais de 70% em relação ao produto no exterior, para viabilizar as compras externas, e a retomada dos leilões, que incluem o produto importado pela Petrobras, disseram as fontes.
Na véspera, a agência reguladora ANP pediu que a Petrobras retome leilões de combustíveis, que foram interrompidos repentinamente no início da semana, após o sindicato Sindicom, que representa as distribuidoras nacionais Raízen, Vibra e Ipiranga, apontar riscos ao abastecimento em carta enviada à autarquia e ao governo. A associação Brasilcom, que representa mais de 40 distribuidoras regionais, também manifestou preocupação com o abastecimento, fazendo coro contra a ausência de paridade com o diesel importado.
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, justificou a jornalistas na semana passada que a parada foi para reavaliar estoques, sem dar detalhes, e a companhia ainda não indicou se as concorrências serão retomadas.
Questionada sobre o pedido da ANP, a Petrobras afirmou que analisaria o assunto, mas destacou que continua entregando ao mercado todo o volume de combustíveis produzidos em suas refinarias, que estão operando em carga máxima. A petroleira relatou também que tem ampliado e antecipado entregas às distribuidoras, fornecendo volumes cerca de 15% superiores aos montantes acordados no início do mês.
A paralisação das ofertas extras de diesel pela petroleira em leilões, que estavam sendo negociadas entre R$1,80 e R$2,00 por litro acima do preço de referência das refinarias da própria companhia, segundo entidades do setor, ocorre enquanto o governo busca meios para evitar o impacto ao consumidor, em meio a um ano importante de eleições.
O governo cortou tributos federais sobre os combustíveis e lançou um programa de subsídio ao diesel. Agora, tem feito pressão sobre os Estados, para que eles reduzam o ICMS sobre os combustíveis, enquanto tem conseguido evitar uma greve de caminhoneiros.
“Se o governo quer salvar os caminhoneiros, pode reativar o cartão do caminhoneiro, ao invés de pressionar Estados a perder ICMS, ameaçar agentes privados com tabela de preços”, disse uma outra fonte de uma distribuidora. “Tabelar fretes mais altos como estão fazendo vira preço no final… vai impactar até o diesel, a gasolina, o etanol.”
As medidas do governo, segundo fontes e especialistas, buscam endereçar impactos ao consumidor, mas não atenuam as restrições à oferta, já sentidas pelo mercado, e muito menos os riscos ao desabastecimento nacional.
Procurada para comentar as afirmações das pessoas integrantes do mercado de combustíveis, a Petrobras não comentou o assunto imediatamente.
Inexorável
Mas, segundo fontes do mercado, o impacto da disparada recente dos preços do petróleo no mercado externo chega ao consumidor brasileiro de qualquer forma, mesmo que atenuado por algumas medidas do governo, uma vez que o Brasil não é autossuficiente na produção de combustíveis.
Além disso, regras do mercado impedem que empresas comprem produtos no exterior e vendam com prejuízo em benefício do governo federal e da sociedade, sem serem remuneradas por isso. Até mesmo a Petrobras, uma empresa de capital misto, não pode tomar prejuízo para abastecer o mercado, pois há regras que a impedem em seu estatuto e por ter ações negociadas na Bolsa de Nova York, sob risco dos membros de sua diretoria serem acionados na Justiça.
Prova disso, segundo agentes do mercado, é que a Petrobras reduziu a oferta de diesel dentro do permitido em contratos e por preços bem abaixo da paridade de importação, e estava vendendo os volumes excedentes nos leilões, a valores mais altos.
“A pauta do governo é o preço, e o governo vai ter que entender que existe a mão do mercado internacional que ele não consegue controlar. O preço é o que o mercado internacional fala, o preço é o que a Petrobras ganha quando ela vende no leilão”, disse a fonte de uma outra distribuidora, na condição de anonimato.
“O que resolve esse problema é a Petrobras praticar a paridade de preço internacional”, acrescentou, pontuando que só assim empresas que trabalham no mercado spot no Brasil poderão voltar a trazer cargas do exterior.
Segundo as fontes, as grandes distribuidoras nacionais, que têm contratos e compromissos com rede embandeirada, têm condições e importarão volumes adicionais, garantindo o abastecimento de seus clientes, inclusive sob pena de multa, apesar de forte risco nessas operações.
“Porque, se no meio do caminho de trazer esses navios (do exterior), o Trump abraçar o aiatolá, acabar a guerra, liberar o Estreito de Ormuz e o barril voltar para US$60, a gente vai tomar um prejuízo de hedge na cabeça”, disse a pessoa.
Entretanto, os fornecedores menores, que atuam apenas quando a janela de importação está aberta, ficam sem opção para atender ao mercado, em uma situação que tem causado restrição de oferta pelo Brasil, principalmente em regiões que dependem de produto importado.
Nas usinas da Inpasa, cada tonelada de milho se transforma em combustível, ração animal e óleo industrial. Foi essa lógica que fez a companhia fundada pelo empresário José Odvar Lopes, o “Seu Zé”, se tornar a maior produtora de etanol de milho da América Latina.
Com receita próxima de R$ 23 bilhões e capacidade de produzir 6,2 bilhões de litros de etanol por ano, a empresa familiar construiu ao longo da última década uma rede de oito biorrefinarias agrícolas, com duas no Paraguai e outras seis em alguns dos principais polos do agronegócio brasileiro. Ainda estão previstas mais duas plantas, em um programa de investimentos que passa dos R$ 5 bilhões.
A lógica por trás desse crescimento é simples: no etanol de milho, o dinheiro não está apenas no combustível. Está em tudo o que sai do grão.
Mas chegada até aqui não foi óbvia.
Na década passada, falar em etanol de milho no Brasil soava como aposta de alto risco. A cana-de-açúcar dominava, o setor era consolidado e ninguém apostaria que uma empresa de origem paraguaia, que começou do zero em uma única usina no país vizinho, superaria a líder histórica Raízen – das gigantes Shell e Cosan – e se tornaria a maior produtora de etanol do Brasil.
“Nós sempre recebemos umas perguntas de instituição financeira: qual é o breakeven do negócio, em que momento vale a pena transformar o milho em etanol?”, diz Fernando Alfini, CFO da companhia, ao InvestNews. “Eu brinco que nós estamos tentando descobrir esse brinquedo faz mais de 15 anos.”
Agora, o desafio mudou de natureza. Convencer o mercado já não está na pauta. O novo desafio da Inpasa é logístico: transportar esses quase 6 bilhões de litros anuais de etanol de regiões remotas do agronegócio até os mercados consumidores.
Tentativa e erro
Quando a Inpasa começou a produzir etanol de milho no Paraguai, em 2008, a eficiência do processo estava longe do considerado ideal: cada tonelada de milho gerava cerca de 220 litros de etanol.
“No início, nós não tínhamos tecnologia nenhuma. Foi tentativa e erro mesmo, por falta de recurso”, recorda Alfini.
A empresa ficou uma década nessa fase, operando uma única planta, com Seu Zé determinado a dominar a tecnologia antes de buscar o ganho de escala. O esforço valeu: hoje, as usinas da companhia extraem quase 450 litros por tonelada, praticamente o dobro do ponto de partida.
A referência e o método de produção vieram dos Estados Unidos, berço do etanol de milho. Visitas a feiras e o contato com o mercado americano abriram o caminho para a aquisição da tecnologia da Katzen, empresa americana do setor. Foi só então que a eficiência começou a avançar de forma consistente.
O negócio do etanol de milho opera inteiramente entre duas correntes de commodities: a empresa compra milho a preços de mercado e vende etanol também a preços de mercado. Não controla nenhuma das duas pontas. O diferencial está na eficiência operacional e, cada vez mais, na capacidade de extrair valor de tudo o que sai do grão além do combustível.
Em 2018, com a segunda planta paraguaia em fase final, Seu Zé tomou a decisão que mudaria o tamanho e o destino da empresa: vir para o Brasil. O plano foi abrir uma usina em Sinop, no norte de Mato Grosso, o principal Estado produtor de grãos do país.
A lógica era ao mesmo tempo geográfica e produtiva. O Paraguai, apesar das vantagens tributárias, tem produção de milho equivalente à de uma única região do Mato Grosso. Construir uma terceira usina no país vizinho desequilibraria toda a cadeia local de grãos.
O Brasil, por outro lado, tinha matéria-prima em abundância e espaço para crescer – no ano-safra 2025/26, a expectativa é que o Brasil produza 131 milhões de toneladas do cereal, enquanto os paraguaios deverão colher 5,2 milhões de toneladas.
A primeira fase da planta de Sinop recebeu investimento de R$ 750 milhões e entrou em operação em agosto de 2019. A partir daí, o ritmo não parou. Vieram plantas em Nova Mutum, também em Mato Grosso, em Dourados e Sidrolândia, ambas em Mato Grosso do Sul, e em Balsas, no Maranhão.
A unidade de Sinop foi ampliada duas vezes e se tornou, por um período, a maior usina de etanol independente de matéria-prima do mundo em uma única planta – consegue processar 6 milhões de litros por dia. O dinheiro para o início de tudo veio do Paraguai.
“Sem o Paraguai a gente não teria conseguido”, admite Alfini. “O país foi a nossa escola e o nosso banco.”
Expansãoregional
O passo seguinte foi distribuir as usinas por diferentes regiões, formando uma rede de hubs industriais. Hoje a Inpasa está presente em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e no Maranhão, com novas unidades previstas em Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, e em Rio Verde, em Goiás.
A lógica da presença no Nordeste, por exemplo, é específica: a região é deficitária em etanol e tem portos próximos para a exportação de coprodutos como DDGS (sigla em inglês para distillers dried grains with solubles, ou grãos secos de destilaria com solúveis) e óleo.
“Nós decidimos diversificar geograficamente. Eu poderia construir todas as fases em Mato Grosso, mas não foi essa a escolha”, explica Alfini.
Ao todo, a empresa prevê dez unidades em operação quando as plantas de Rio Verde e Rondonópolis, em Mato Grosso, entrarem em funcionamento. Esta última receberá investimento de cerca de R$ 3,5 bilhões e terá capacidade para produzir aproximadamente 1 bilhão de litros de etanol por ano.
José Odvar Lopes (segundo à esquerda sem boné), fundador da Inpasa (Divulgação)
Para garantir a conexão entre os hubs produtivos, a Inpasa vem investindo de forma crescente em logística. Em 2023, a empresa deu um primeiro passo concreto no modal ferroviário: gastou cerca de R$ 100 milhões na aquisição de 50 vagões e duas locomotivas, operados pela Rumo no corredor entre Rondonópolis e Paulínia, no interior paulista.
O movimento equivale a retirar 17 mil viagens de caminhão das estradas por ano. Mas foi só o começo. Alfini diz que a empresa pretende chegar a quase 500 vagões e 32 locomotivas. “O nosso investimento tem que ser bastante pesado para sermos competitivos”, diz o CFO.
A capacidade de armazenagem também é parte da equação. A empresa acumulou mais de 5,6 milhões de toneladas de capacidade estática nos estados onde opera, o suficiente para garantir seis meses de produção sem depender do ritmo da colheita.
É uma vantagem que a cana-de-açúcar não tem: o grão pode esperar nos silos, enquanto a cana precisa ser moída em horas após o corte, além do fato de o etanol produzido a partir do milho ser cerca de 40% mais barato.
Essa “folga” também protege a empresa de oscilações sazonais de preço. “A hora em que começa a nova colheita é o momento em que os silos estão esvaziando”, explica Alfini. “Você consegue arbitrar os melhores momentos.”
Outros produtos do milho
Além da expansão geográfica, a Inpasa investiu para que suas usinas tivessem aproveitamento máximo do grão. Para cada tonelada de milho que entra, saem etanol, DDGS e óleo vegetal. Esses produtos têm mercado e preço próprios.
O DDGS é um farelo rico em proteína utilizado na alimentação animal e uma das principais apostas de agregação de valor da Inpasa. Junto com o óleo de milho, o DDGS já representa cerca de 15% da receita da empresa, algo próximo a R$ 4 bilhões por ano, e chega a cobrir entre 35% e 40% do custo de aquisição do milho.
A empresa produz cerca de 3,3 milhões de toneladas de DDGS por ano. A Inpasa reivindica um diferencial técnico no produto: não utiliza ácido sulfúrico nem antibiótico em seu processo industrial, o que reduz o risco de contaminação e abre portas em mercados mais exigentes.
Fernando Alfini, CFO da Inpasa (Divulgação)
A empresa criou uma marca própria, a FortiPro, para o ingrediente para se diferenciar em um mercado que, segundo Alfini, aprendeu a pedir especificamente pelo produto da companhia.
A Inpasa já responde por mais de 95% das exportações brasileiras de DDGS. Em 2025, o Brasil vendeu cerca de 879 mil toneladas do produto para 25 países, com Turquia, Vietnã e Nova Zelândia entre os principais compradores.
Em 2026, a China recebeu sua primeira carga brasileira da Insapa: um navio com cerca de 62 mil toneladas. O mercado deve crescer junto com a produção nacional: estimativas do setor apontam para 7 milhões de toneladas de DDGS até a safra 2029/30, ante um consumo interno de cerca de 2,4 milhões de toneladas.
Governançae próximos passos
Paralelamente à expansão industrial, a Inpasa passa por uma transformação de governança. O fundador José Odvar Lopes tornou-se chairman (presidente do conselho) e seu filho Éder assumiu a presidência executiva.
Além da sucessão familiar, a companhia começa a estruturar um conselho consultivo. “Depois desse crescimento que nós tivemos, tornou-se mais latente a necessidade de sofisticar a governança corporativa”, diz Alfini.
O primeiro passo foi a chegada de José Olympio Pereira, ex-CEO do banco J. Safra e um dos nomes mais respeitados do mercado financeiro brasileiro. A expectativa é que mais dois nomes do mesmo peso sejam anunciados como conselheiros independentes.
O movimento sinaliza o novo momento de uma empresa que começa a se preparar para um eventual próximo passo — seja no mercado de capitais, com uma oferta pública inicial de ações (IPO), seja com emissões de dívida no exterior.
Com a expansão praticamente financiada com capital prórpio, a Inpasa realizou até o momento quatro emissões de debêntures incentivadas pela Lei 12.431, captando cerca de R$ 1,5 bilhão no mercado, e o CFO não descarta outras estruturas. “Gostamos de dinheiro barato”, resume Alfini.
No mercado, circulou no ano passado a informação de que a Petrobras buscaria um sócio estratégico para a produção de etanol, com a Inpasa despontando como uma das favoritas. Alfini nega qualquer negociação: “Nunca tivemos nenhuma conversa com a Petrobras.”
Sobre a Vibra Energia, cujo maior acionista individual é o próprio Seu Zé, com mais de 10% das ações da antiga BR Distribuidora, Alfini reconhece que existem sinergias óbvias entre as empresas, mas descarta qualquer discussão formal. “A Vibra é um investimento pessoal do Seu Zé e seguirá sendo tratada na Inpasa como mais um cliente”, conclui.
A petrolífera BP concordou em vender uma participação de 65% em seu negócio de lubrificantes Castrol para a empresa norte-americana de private equity Stonepeak, por cerca de US$6 bilhões.
A decisão é um passo significativo no plano de desinvestimento de US$20 bilhões da gigante do petróleo, com o objetivo de reduzir a dívida e aumentar os retornos.
O acordo, anunciado nesta quarta-feira, 24, avalia a Castrol em US$10,1 bilhões e marca a venda de ativos mais ambiciosa da companhia britânica até o momento, em seus esforços para simplificar as operações e reduzir os investimentos em energia renovável.
A BP manterá uma participação de 35% em uma nova joint venture com a Stonepeak, que poderá ser vendida após um período de bloqueio de dois anos.
As ações da BP chegaram a subir mais de 1% na quarta-feira, após o anúncio, antes de migrarem para o território negativo.
Embora o negócio avalie a Castrol em cerca de US$10 bilhões, o valor da empresa cai para cerca de US$8 bilhões após o ajuste para participações minoritárias e obrigações semelhantes a dívidas, disseram os analistas da RBC em uma nota nesta quarta-feira.
A venda, que inclui US$800 milhões para pagamentos acelerados de dividendos, ocorre depois que a BP colocou a centenária unidade de lubrificantes sob revisão no início deste ano, como parte de uma estratégia mais ampla para se concentrar em seu negócio principal de petróleo e gás.
A BP usará os recursos da venda para reduzir a dívida, disse a companhia. A petrolífera espera que o negócio seja concluído até o final de 2026.
A Vibra Energia registrou um lucro líquido de R$ 407 milhões no terceiro trimestre, contra R$ 4,2 bilhões no mesmo período de 2024 – uma queda de 90%, informou a companhia dona da rede de postos de combustíveis BR nesta quarta-feira (5).
O lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação (Ebitda, em inglês) ajustado somou R$ 1,8 bilhão entre julho e setembro, queda de 9,1% ante o mesmo período do ano passado. A receita líquida ajustada somou R$ 48,6 bilhões, uma alta de 4,6% frente igual intervalo em 2024.
Segundo a empresa, o desempenho do trimestre foi afetado principalmente por efeitos não recorrentes de recuperações tributárias, venda de imóveis e despesas operacionais extraordinárias.
A companhia reportou um volume de vendas de 9,3 milhões de metros cúbicos, queda de 1,4% em relação ao terceiro trimestre do ano anterior, enquanto a margem bruta por metro cúbico ficou em R$ 264.
A companhia informou também que as despesas operacionais ajustadas totalizaram R$ 822 milhões no intervalo de julho a setembro, aumento de 22% em relação ao mesmo período um ano antes. O valor já exclui itens não recorrentes, como recuperações tributárias de R$ 78 milhões e venda de imóveis no montante de R$ 83 milhões.
Em comunicado que acompanha o balanço, o presidente da empresa, Ernesto Pousada, afirma que as medidas de combate ao crime organizado a partir da Operação Carbono Oculto da Polícia Federal já abrangem 18 distribuidoras, ou 4% do mercado nacional.