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Guerra no Irã se amplia e já afeta vários países; veja quais

15 de Março de 2026, 14:47
O ataque israelense a Teerã em 2 de março de 2026. Foto: Divulgação

Diferente de conflitos anteriores, como a guerra entre Irã e Israel em junho de 2025 ou os combates entre Israel e Hamas, a atual Guerra no Irã extrapolou as fronteiras dos países diretamente envolvidos, se espalhando rapidamente pelo Oriente Médio.

Os combates, que entraram na terceira semana em março de 2026, começaram em 28 de fevereiro com bombardeios conjuntos dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, um ataque que resultou na morte do líder supremo iraniano Ali Khamenei. A ofensiva atingiu alvos militares e civis, incluindo uma escola com estudantes.

Em resposta, o Irã iniciou ataques retaliatórios não apenas contra Israel, mas também contra embaixadas e bases americanas localizadas em países vizinhos, além de alvos civis, como prédios que supostamente abrigariam funcionários americanos.

A intensificação das hostilidades arrastou mais países para o conflito, com o Hezbollah, do Líbano, retomando os ataques a Israel, ampliando a dimensão da guerra para o território libanês, incluindo a capital Beirute.

O Irã, que vinha sendo pressionado politicamente, havia aberto negociações com os Estados Unidos para um acordo que limitasse seu programa nuclear. No entanto, o ataque conjunto de EUA e Israel contra o Irã, em fevereiro, deflagrou uma guerra que agora afeta vários países da região, com consequências econômicas e políticas significativas.

O Irã respondeu fechando o estreito de Ormuz, uma rota estratégica para o transporte de petróleo, e iniciou ataques contra navios que tentavam sair do Golfo Pérsico. Além dos Estados Unidos e Israel, outros países estão diretamente envolvidos na guerra, como o Líbano, o Emirados Árabes Unidos, o Catar e o Bahrein.

O Líbano foi novamente arrastado para o conflito devido aos ataques do Hezbollah contra Israel, com as forças israelenses realizando bombardeios pesados nas regiões do sul e do vale do Bekaa, além de Beirute. O número de mortos no Líbano devido aos ataques israelenses já ultrapassou 700.

Os Emirados Árabes Unidos, um dos maiores aliados dos EUA na região, também foram alvo de drones suicidas iranianos, com mais de 800 ataques registrados até março de 2026. Dubai, em particular, foi atingida em alvos estratégicos, como o hotel Palm Jumeirah e o Burj al-Khalifa, o edifício mais alto do mundo.

🇦🇪🇮🇷 Uma das torres mais altas de Dubai está em chamas após ser atingida por um drone kamikaze.

O Irã está realizando com frequência missões de assassinatos seletivos contra autoridades militares e agentes de inteligência dos EUA que operam nos países do Golfo. pic.twitter.com/Ufcbh7qhld

— Análise Geopolítica (@AnaliseGeopol) March 12, 2026

O Catar, apesar de ter boas relações com o Irã, foi afetado pelos ataques iranianos. O país, que abriga a maior base aérea americana da região, teve sua produção de gás natural interrompida após a destruição de duas de suas instalações.

Além disso, a Força Aérea catari abateu dois caças iranianos em uma tentativa de se defender contra os ataques. Outros países do Golfo, como o Bahrein e Omã, também estão sendo impactados pelos ataques iranianos.

O Bahrein, aliado dos EUA e de maioria xiita, mas controlado por uma família real sunita, tem sido alvo frequente de drones iranianos, atingindo não apenas instalações militares americanas, mas também alvos civis. Omã, por outro lado, tem procurado manter sua neutralidade e atuado como mediador, mas também foi afetado, com a presença de bases americanas no país sendo atacada.

A Arábia Saudita, que mantém laços históricos com os Estados Unidos, também foi alvo de ataques iranianos, incluindo a embaixada americana e a refinaria de Ras Tanura, uma das maiores do mundo, que é essencial para a indústria petrolífera saudita.

A Jordânia, outro país da região com estreitas relações com potências orientais, tem visto seu espaço aéreo ser frequentemente violado por mísseis direcionados a Israel. No entanto, houve poucos ataques a bases americanas em seu território, se comparado aos seus vizinhos.

O Iraque, que abriga uma grande quantidade de bases americanas, tem sido um dos países mais atacados, especialmente em áreas como Bagdá e Erbil, no norte, onde há uma forte presença curda, hostil ao Irã. Outros países, embora não diretamente envolvidos, têm participado de forma marginal na guerra.

O Sri Lanka, por exemplo, viu um submarino americano afundar um navio militar iraniano, enquanto a Turquia utilizou baterias antiaéreas da Otan para derrubar mísseis iranianos. A ilha de Chipre, que abriga uma grande base militar britânica, também foi atacada por drones, com especulações de que o Hezbollah tenha sido o responsável.

Drones suicidas iranianos também atacaram um aeroporto e áreas civis no Azerbaijão, país vizinho ao Irã e grande produtor de petróleo. Autoridades de Baku afirmam estar considerando uma retaliação.

A França e o Reino Unido, embora cautelosos em se envolver diretamente no conflito, estão monitorando a situação de perto. O Reino Unido autorizou o uso de bases aéreas britânicas pelos EUA, enquanto a França enviou um porta-aviões para a região, embora sem participação ativa em missões militares.

A III Guerra pode ter começado esta semana

4 de Março de 2026, 08:39
Nuvem de fumaça após ataque no Irã. Foto: Reprodução

Por Michael Hudson, em Outras Palavras

Na última sexta-feira, o mediador das negociações nucleares entre os EUA e o Irã em Omã, o ministro das Relações Exteriores daquele país, Badr Albusaidi, desmascarou a falsa ameaça de guerra do presidente Trump contra Teerã. Por que? Porque Washington recusou as propostas iranianas de abrir mão do que Trump alegava ser sua bomba atômica. O ministro omanita explicou no programa Face the Nation, da CBS, que a equipe iraniana de negociadores concordou em não acumular urânio enriquecido e ofereceu “verificação completa e abrangente pela AIEA”. Essa nova concessão foi um “avanço sem precedentes”, disse ele. E acrescentou: “Acredito que, se conseguirmos aproveitá-la e construir sobre essa base, um acordo estará ao nosso alcance” — “um acordo em que o Irã jamais terá material nuclear capaz de produzir uma bomba. Isso é, sem dúvida, uma grande conquista”.

Ao salientar que este avanço “passou despercebido pela grande mídia”, ele enfatizou que o apelo por “estoque zero” ia muito além do que havia sido negociado durante o governo do presidente Obama, porque “se você não pode estocar material enriquecido, não há como realmente criar uma bomba”.

O aiatolá Ali Khamenei – que já havia emitido uma fatwa contra tal ato e reiterado essa posição ano após ano – convocou os líderes xiitas e o chefe militar do Irã para discutir a ratificação do acordo de cessão do controle do urânio enriquecido, a fim de evitar uma guerra.

Mas tal atitude era precisamente o que nem os Estados Unidos nem Israel podiam aceitar. Uma resolução pacífica teria impedido o plano de longo prazo dos EUA de consolidar e instrumentalizar seu controle sobre o petróleo do Oriente Médio, seu transporte e o investimento das receitas de exportação de petróleo, e de usar Israel e a Al-Qaeda/ISIS como seus exércitos-clientes, para impedir que países produtores de petróleo independentes agissem em função de seus próprios interesses soberanos.

Aparentemente, os serviços de espionagem israelenses alertaram os militares dos EUA, sugerindo que a reunião no complexo do aiatolá oferecia uma grande oportunidade para decapitar os principais dirigentes de uma só vez. Isso seguia a recomendação do manual militar dos EUA, de que matar um líder político considerado antidemocrático por Washington libertaria os supostos anseios populares por uma mudança de regime. Essa era a esperança por trás do bombardeio à residência campestre do presidente Putin no mês passado, e estava em consonância com a recente tentativa dos EUA, por meio do programa Starlink, de mobilizar a oposição popular para uma revolução no Irã.

O ataque conjunto EUA-Israel deixa claro que não havia nada que o Irã pudesse ter cedido que impedisse a longa trajetória dos EUA de controlar o petróleo do Oriente Médio, juntamente com o uso de Israel e dos exércitos clientes do ISIS/Al-Qaeda para impedir que nações soberanas da região assumam o controle de suas reservas de petróleo. Esse controle continua sendo um pilar essencial da política externa dos EUA. É a chave para a capacidade dos EUA de prejudicar outras economias, negando-lhes o acesso à energia caso não se alinhem à política externa norte-americana. Essa insistência em bloquear o acesso mundial a fontes de energia que não estejam sob controle dos EUA é o motivo pelo qual o país atacou a Venezuela, a Síria, o Iraque, a Líbia e a Rússia.

Terrifying scenes from Tehran this evening as US-Israeli Axis seem determined to make Tehran look like Gaza. European Politicians + Media were silent about the Genocide in Gaza, they're silent again as Western Imperialism + Zionism commit War Crimes in Iran…

@FotrosResistancee pic.twitter.com/gWHbydr7EH

— Mick Wallace (@wallacemick) March 3, 2026

O ataque aos negociadores (a segunda vez que os Estados Unidos fazem isso contra o Irã) é uma perfídia que ficará marcada na história. O objetivo era impedir a tentativa de alcançar a paz, antes que os líderes iranianos pudessem refutar a falsa alegação de Trump de que se recusavam a desistir de obter sua própria bomba atômica. Seria interessante saber quantos dos assessores de Trump fizeram grandes apostas de que os preços do petróleo disparariam na abertura dos mercados na segunda-feira de manhã.

Na semana passada, os mercados subestimaram enormemente o risco do fechamento do Golfo Pérsico. As empresas petrolíferas norte-americanas lucrarão enormemente. A China e outros importadores de petróleo sofrerão. Os especuladores financeiros americanos também lucrarão muito, pois sua produção de petróleo é doméstica. Esse fato pode até ter influenciado a decisão dos EUA de encerrar o acesso mundial ao petróleo do Oriente Médio por um período que promete ser longo.

A perturbação comercial e financeira será, de fato, tão global que creio que podemos considerar o ataque de sábado, 28 de fevereiro, como o verdadeiro estopim da Terceira Guerra Mundial. Para a maior parte do mundo, a iminente crise financeira (para não mencionar a indignação moral) definirá a próxima década de reestruturação política e econômica internacional.

🚨🇺🇸🇮🇱 BREAKING — B-52s

Zionist Forces are Genociding Tehran. pic.twitter.com/dhXJAwqWSU

— ✦✦✦ 𝙿𝚊𝚖𝚙𝚑𝚕𝚎𝚝𝚜 ✦✦✦ (@PamphletsY) March 4, 2026

Os países europeus, asiáticos e do Sul Global não conseguirão obter petróleo a não ser a preços que tornem muitas indústrias não rentáveis e muitos orçamentos familiares inacessíveis. A subida dos preços do petróleo também impossibilitará os países do Sul Global de honrar as suas dívidas em dólares para com os detentores de títulos ocidentais, os bancos e o FMI.

Os países só poderão evitar a imposição de “austeridade” interna, desvalorização cambial e inflação se reconhecerem que o ataque dos EUA (apoiado pela Grã-Bretanha e pela Arábia Saudita, com a aquiescência ambígua da Turquia) pôs fim à ordem unipolar dos EUA – e, com ela, ao sistema financeiro internacional dolarizado. Se isso não for reconhecido, a aquiescência continuará até se tornar, ao fim das contas, insustentável.

Se esta é a batalha inaugural da Terceira Guerra Mundial, ela é, em muitos aspectos, a batalha final para definir o verdadeiro propósito da Segunda Guerra Mundial. O direito internacional ruirá, devido à relutância de um número suficiente de países em proteger as normas do direito civilizado, que sustentaram os princípios da soberania nacional, livres de interferência e coerção estrangeiras, desde a Paz de Vestfália de 1648 até a Carta da ONU? E quanto às guerras que inevitavelmente serão travadas – pouparão civis e não beligerantes, ou serão como o ataque da Ucrânia à sua população de língua russa nas províncias orientais, o genocídio israelense contra os palestinos, a limpeza étnica wahabita contra populações árabes não sunitas ou as populações iraniana, cubana e de outros países, submetidos a ataque patrocinado pelos EUA?

Será possível salvar as Nações Unidas sem libertá-las e aos seus países membros do controle dos EUA? Um teste decisivo para avaliar o rumo das alianças será a adesão de cada país a uma ação que, sob o Direito internacional, busque classificar Donald Trump e seu gabinete como criminosos de guerra. É necessário algo mais do que o atual Tribunal Penal Internacional (TPI), quando se leva em conta os ataques pessoais do governo norte-americano aos juízes do TPI que condenaram Netanyahu.

Donald Trump e Benjamin Netanyahu. Foto: Leah Millis/Reuters

O que se exige é um julgamento em escala semelhante à de Nuremberg, agora contra a política militar ocidental que busca mergulhar o mundo inteiro no caos político e econômico, caso não se submeta à ordem unipolar baseada em governantes estadunidenses. Se outros países não criarem uma alternativa à ofensiva estadunidense-europeia-japonesa-wahabita, sofrerão o que o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, chamou (em seu recente discurso em Munique) de um ressurgimento da história ocidental de conquistas contra os princípios básicos do direito internacional e da equidade.

Uma alternativa exige a reestruturação das Nações Unidas, para acabar com a capacidade dos EUA de bloquear resoluções de maioria. Considerando que o secretário-Geral da ONU, António Guterres, afirmou que a organização pode falir até agosto e ter que fechar sua sede em Nova York, este é um momento oportuno para transferi-la dos Estados Unidos. Os EUA proibiram a entrada de Francesca Albanese no país em decorrência de seu relatório que descreve o genocídio israelense em Gaza. Não pode haver Estado de Direito enquanto o controle da ONU e de suas agências permanecer nas mãos dos EUA e de seus satélites europeus.

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