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Entre o possível e o impossível:  violência, memória e ética em ‘Língua Interior’ (Coluna da Appoa)

Carolina Mousquer Lima (*) 

As possibilidades que encontramos de criar laços que trabalhem em favor da vida variam conforme o destino que cada país é capaz de dar aos seus traumas.

Aube é a personagem central de um livro escrito por Kamel Daoud. Vítima da guerra civil argelina, ela é também uma testemunha viva daquilo que ninguém quer ou pode lembrar. Quando ainda era uma criança, militantes islâmicos atacaram seu vilarejo e mataram toda sua família. Única sobrevivente do massacre, ela carrega uma cicatriz no pescoço e uma traqueostomia que dificulta a fala e torna sua voz quase inaudível.

O título, Língua interior, faz referência à língua fluida em que ela conversa com a filha que cresce em seu ventre. Mesmo sem exame para demonstrar, ela sabe que está grávida de uma menina. E é muito difícil para Aube, mulher solteira e não adepta ao islamismo, imaginar um lugar viável para a filha ao nascer. Também por isso, ela se prepara para abortar: O que você quer? Vir aqui e se tornar carne morta? Está ouvindo os homens lá fora, no café? O Deus deles os aconselha a lavar seus corpos depois de abraçar nossos corpos proibidos à luz do dia, porque nós somos a grande sujeira. (…) É isso que significa ser uma mulher aqui. Você quer mesmo isso?

Enquanto se prepara para essa despedida, Aube começa a descrever o mundo exterior e a contar a própria história para a sua pequena huri. Ela sente que finalmente pode conversar com alguém. E dirigir-se ao feto como sua filha, supondo ali um sujeito, é claro que complica um tanto as coisas. A ambivalência em relação à gestação vai aumentando. Abortar a filha talvez signifique silenciar a própria voz. 

A conversa entre mãe e filha vai destacando a porosidade delicada que existe entre a fala e a escrita. Nós lemos as palavras de Aube, mas, ao mesmo tempo, escutamos aquilo que se destaca do texto, a sua voz. Não estamos em um litoral de águas mansas. As 500 páginas contraem alguns poucos dias, de forma que a língua interior vai avançando com um ritmo intenso e vigoroso. Aube fala com a filha no presente, mas se desloca rapidamente entre o passado e o futuro, borrando os limites entre leitura e escrita, assim como os da cronologia. 

Há também a ligação inexorável da vida de Aube à vida do seu país. E isso está marcado pelo silenciamento. Não se pode falar sobre a guerra civil, sobre todos os massacres, mortos e desaparecidos. Mas, na sua língua interior, ela pode conversar. Então, enquanto ela fala de si para a filha, ela também fala do passado, do presente e das possibilidades ou impossibilidades de futuro da Argélia. Isso vai diluindo a separação que costumamos produzir defensivamente entre vida subjetiva e coletiva. As duas coisas são mais misturadas do que parecem. Vale lembrar Freud no texto sobre Psicologia das Massas e Análise do Eu: “A oposição entre psicologia individual e psicologia social ou das massas, que à primeira vista pode parecer muito significativa, perde boa parte de sua agudeza se a examinarmos mais detidamente”. 

Com tantas subversões do que supomos nítido, não é à toa que, ao longo da leitura, somos tomados por um sentimento de urgência. O apagamento da história coletiva que ela carrega na singularidade do seu corpo, nos coloca a todo momento na iminência do desaparecimento de Aube. Esse risco é amplificado pelo perigo permanente que enfrenta por ser mulher.

Assia Djebar, escritora franco-argelina ainda não traduzida para o português, publicou em 1995, no auge da guerra civil da Argélia, o livro Le Blanc de l’Algérie [O Branco da Argélia]. Escrita a partir do assassinato de amigos próximos, a obra fabula diálogos com os mortos em uma tentativa de dar voz aos desaparecidos. Sobre essa escrita, Djebar afirmava responder a “uma urgência de memória imediata”. 

Em 2005 a Argélia publicou a Carta para Paz e Reconciliação Nacional. O documento concedeu perdão legal aos militantes islâmicos e anistia a todos os militares. Além disso, tornou punível com prisão o uso da guerra civil, cujo nome oficial é tragédia nacional, para criticar ou prejudicar a imagem das forças de segurança ou do Estado. Para além da política explícita de esquecimento forçado, nota-se a substituição da palavra guerra por tragédia. Por uma tragédia, não há responsáveis. É preciso também  registrar que essa tentativa de criar uma unidade nacional forçada é legado de uma colonização francesa que se utilizou de todos os modos violentos para destruir a cultura argelina e romper todos os laços sociais.

Diante de uma nova cena de violência misógina, Aube decide retornar ao lugar do massacre que a deixou sem família e sem voz. Não se trata de uma vontade, mas de algo que se impõe. No caminho tortuoso de volta ao território, ela encontra outras pessoas que também compartilham histórias vividas no horror da guerra. O encontro com outras testemunhas do horror, entre outros acontecimentos, tem efeito de reposicionar Aube diante da cena traumática. Só então ela é capaz de reinterpretar um gesto da irmã, acontecido durante o massacre, como um desejo de que ela seguisse viva, permitindo-lhe, enfim, superar a vergonha de ter sobrevivido.

Da Ficção à violação

Ainda sob o efeito de uma leitura tão forte e que permite abrir tantas conversas sobre trauma, violência de estado, escritas de urgência e as violências brutais contra as mulheres, me deparo com a notícia de que o autor está sendo acusado de utilizar, sem consentimento, detalhes da intimidade de uma mulher para construir toda a história.

Outras informações pioram o quadro. Saada Arbane era paciente da esposa do autor, que é psiquiatra. Mas não só paciente. As duas tornaram-se grandes amigas, inclusive com os filhos frequentando a casa uma da outra. Ela conta que antes da publicação, o autor pediu sua permissão para escrever sua história e ela recusou categoricamente. 

Antes da denúncia, o livro recebeu um grande prêmio literário na França. Kamel Daoud é um famoso autor argelino, traduzido para 35 línguas. Quando jovem, militou no movimento islâmico. Aos 18 anos, abandonou a doutrina. Iniciou a carreira profissional como jornalista, cobrindo os massacres da guerra civil. Em muitos artigos e entrevistas, gerou polêmica por suas críticas contundentes ao extremismo religioso, ao patriarcado e à condição das mulheres no mundo árabe-muçulmano, chegando a ser, algumas vezes, acusado de islamofobia.

As acusações foram judicializadas. Na Argélia, tanto Saada Arbane quanto a Organização Nacional das Vítimas do Terrorismo apresentaram queixas contra o autor e a psiquiatra, que culminaram em dois mandados de captura internacional. Na França, Kamel Daoud responde a um processo civil por “violação de privacidade”.

Nas entrevistas, quando questionado sobre as mais de trinta correspondências entre a vida da personagem e da denunciante, o autor costuma remeter aos fatos históricos, às violências perpetradas pelo estado da Argélia e à inexistência de registros de memória sobre mais de duzentas mil mortes. 

As denúncias indicam que Língua interior reproduz a marca da própria violência que busca denunciar. Aparentemente, Kamel Daoud, no afã de registrar e colocar em evidência as violências sofridas pelas mulheres argelinas, tornou-se o segundo algoz de Saada Arbane. 

Ao responder ao extremismo com paixão, corre-se o risco de repetir justamente a violência que se tenta combater. Afinal, ainda que a trajetória de uma mulher reflita a história silenciada de um país, ninguém tem o direito de expô-la sem o seu consentimento. Quebrar o silêncio sobre as violências sofridas pode ser um caminho para atravessar o sofrimento e pode, também, proteger outras mulheres, mas esse ato precisa ser, acima de tudo, uma escolha soberana e livre de julgamentos. 

O que impõe uma dúvida ética sobre o ato de escrever. É provável que, ciente da gravidade das denúncias, eu não tivesse comprado nem lido a obra. Mas, diante das acusações conhecidas apenas a posteriori da leitura, o que fazer? Seria possível falar sobre o livro de forma a ampliar a força da denúncia? Seria possível fazê-lo sem reiterar a violência da exposição? O possível não passa de uma tentativa, sujeita sempre à falha e ao fracasso. Já o impossível, insiste. Nesse caso, insistiu como a impossibilidade de não escrever sobre o livro. 

Curioso registrar um dos caminhos que me levaram até Língua Interior: o estudo de uma autora argelina, que já mencionei aqui, Assia Djebar. Com mais de 15 livros publicados e uma vida de luta pela independência da Argélia e de denúncias sobre as violências da guerra civil, ela não está traduzida para o português. Quem nós traduzimos? Quem nós premiamos? Quem nós lemos? Sobre ela escrevi um capítulo chamado A escrita como acolhimento intransigente da estrangeiridade, para o livro Do Litoral ao Literário: Ensaios de Psicanálise e Literatura, que será lançado este ano. Trata-se de um livro que reúne textos de 58 mulheres. Uma possibilidade interessante, considerando o quanto a Psicanálise e a Literatura ainda são lugares, assim como tantos outros, hegemonicamente masculinos.

De todos esses cruzamentos, decorre o desejo de que cada um talvez possa se perguntar na sua língua interior: como um homem pode verdadeiramente e respeitosamente agir em favor da vida e da ampliação dos acessos e direitos das mulheres?

(*) Carolina Mousquer Lima é psicanalista, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA) 

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Embaixador da Argélia é investigado por tentativa de agressão contra motorista em Brasília

Fachada da embaixada da Argélia em Brasília. Reprodução

O embaixador da Argélia no Brasil, Abdelaziz Benali Cherif, é investigado pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) após um motorista da embaixada denunciar uma tentativa de agressão ocorrida dentro da missão diplomática. O funcionário Ulysses Souza de Araujo afirma que o diplomata partiu para cima dele durante uma discussão, sendo contido por dois colegas.

Segundo o relato do motorista divulgados pelo Metrópoles, o episódio ocorreu em 2 de fevereiro, quando ele informou ao embaixador que precisaria sair para uma consulta médica relacionada a um diagnóstico recente de câncer. Mesmo após ser avisado previamente sobre o compromisso, Cherif teria proibido a saída do funcionário.

De acordo com a ocorrência registrada, Ulysses deixou as chaves do veículo oficial na mesa do embaixador e informou que iria à consulta por se tratar de um direito trabalhista. Nesse momento, o diplomata teria se exaltado e tentado agredi-lo fisicamente, sendo contido por dois diplomatas presentes no local.

 

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O motorista, que trabalha na embaixada há 25 anos, também denunciou o caso ao Ministério Público do Trabalho (MPT), alegando ter sofrido assédio moral, advertências e suspensão após o episódio. Ele afirma que o ambiente de trabalho teria se tornado hostil e que funcionários seriam frequentemente submetidos a ameaças e humilhações.

Após a confusão, Ulysses relata que recebeu advertências por suposta falta de respeito ao embaixador e chegou a ser suspenso. Durante um período de afastamento médico de dez dias, a embaixada teria emitido novas advertências por abandono de emprego e determinado o retorno imediato ao trabalho.

A defesa do motorista entrou com pedido de rescisão indireta do contrato de trabalho, alegando faltas graves por parte da missão diplomática. Procurada pela reportagem, a Embaixada da Argélia não se manifestou até a publicação. O caso segue sob investigação da polícia e também é analisado na esfera trabalhista.

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