A concorrência das plataformas chinesas deve pesar ainda mais sobre o varejo brasileiro após o governo eliminar o imposto sobre compras internacionais de baixo valor.
A medida, assinada na terça-feira (12), derruba a alíquota extra de 20% sobre remessas internacionais até US$ 50 – a chamada “taxa das blusinhas”, em vigor desde agosto de 2024. A isenção já começa a valer nesta quarta-feira (13).
O imposto havia sido implementado para reduzir a vantagem competitiva de plataformas asiáticas como Shein, Shopee e Temu, que cresceram de forma agressiva no Brasil nos últimos anos.
Em relatório, analistas do BTG Pactual afirmaram que a mudança “reabre o debate sobre a assimetria competitiva” entre empresas brasileiras e marketplaces internacionais, e afeta especialmente empresas voltadas às classes média e baixa.
Antes da criação do imposto, mais de 18 milhões de encomendas internacionais de baixo valor entravam no Brasil mensalmente.
Após a taxação, o volume teria caído para 11 milhões mensais no fim de 2024, o que trouxe alívio num momento de queda de vendas das varejistas brasileiras. Mais recentemente, porém, as remessas já haviam voltado para uma faixa entre 15 milhões e 17 milhões por mês, com as plataformas absorvendo parte dos custos para manter os preços baixos.
Mesmo com o imposto, a Shein ainda operava com preços inferiores aos das varejistas brasileiras: 6% mais barata do que a Guararapes, dona da Riachuelo; 10% abaixo da LojasRenner; e 13% abaixo da C&A.
Assimetria da ‘taxa das blusinhas’
A revogação da taxa foi recebida com críticas pelo varejo brasileiro. Em nota, o Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV) afirmou que a medida amplia a disparidade competitiva entre o produto importado e o fabricado no Brasil, que, segundo a entidade, paga hoje 92% de carga tributária.
Para o instituto, mesmo a alíquota de 20% não era suficiente para equilibrar a competição com plataformas estrangeiras. Segundo o IDV, se as compras internacionais de até US$ 50 não pagarem o imposto extra, os produtos nacionais nessa mesma faixa também deveriam ficar isentos.
“A assimetria hoje existe. E existem forças que querem que a assimetria seja ainda maior”, disse André Farber, CEO da Riachuelo, em entrevista ao InvestNews.
Varejo mais preparado
Apesar da avaliação negativa para o setor, o BTG afirma que o varejo brasileiro hoje está mais preparado para enfrentar a concorrência chinesa do que em 2023 e 2024, quando o avanço das plataformas asiáticas pegou as empresas locais de surpresa.
Segundo o relatório, varejistas brasileiras melhoraram a gestão de estoques, ficaram mais disciplinadas em promoções e remarcações, ajustaram cadeias de fornecimento e avançaram na integração entre lojas físicas e canais digitais.
O banco também avalia que a disputa deixou de ser restrita ao vestuário. A competição das plataformas internacionais já avançou para categorias como produtos de beleza, acessórios eletrônicos, decoração e artigos esportivos.
Na visão dos analistas do BTG, o principal desafio agora será manter a melhora recente nas margens e na qualidade dos estoques sem perder participação de mercado em um ambiente novamente pressionado por preços baixos vindos do exterior.
Impacto fiscal
Segundo a Receita Federal, o governo arrecadou R$ 1,8 bilhão com impostos de importação sobre compras internacionais nos quatro primeiros meses de 2026. A equipe econômica estima uma perda fiscal de R$ 1,94 bilhão neste ano com a retirada da cobrança federal.
O impacto deve subir para R$ 3,54 bilhões em 2027 e R$ 4,24 bilhões em 2028, de acordo com dados da Subsecretaria de Administração Aduaneira.
A redução vale apenas para o tributo federal. O ICMS estadual sobre compras internacionais continua sendo cobrado normalmente.
A família Pinheiro, controladora da Hapvida, voltou a aumentar sua participação na companhia de planos de saúde. Segundo comunicado divulgado na manhã desta sexta-feira (24), o grupo passou a deter 55,4% do capital social – ou 58,6% ao desconsiderar as ações em tesouraria.
O movimento envolve não só ações compradas diretamente mas também posições via empréstimo de ações, derivativos e direitos sobre papéis.
No próximo dia 30, a empresa realiza assembleia de acionistas para eleger a composição do conselho de administração – e a gestora Squadra, com perto de 7% do capital, tenta emplacar três nomes.
O avanço consolida a posição da família em um momento de pressão sobre a companhia, com resultados mais fracos e crescente desconfiança do mercado.
A família tem ampliado recorrentemente sua fatia na empresa nas últimas semanas. No início de abril, os controladores já haviam elevado sua fatia para cerca de 50% do capital. Até o fim de março, esse percentual girava em torno de 40%.
Considerando apenas as ações com direito a voto, a participação atual é menor, de 47,3%, já que parte da exposição está em instrumentos financeiros que não dão poder de voto.
Entre os acionistas que comunicaram o aumento de participação estão Jorge Pinheiro Koren de Lima, atual CEO da Hapvida, além de outros membros da família e holdings ligadas ao grupo controlador.
Jorge Pinheiro está em processo de transição no comando da Hapvida: após 27 anos como CEO, ele deixará o cargo em 30 de abril e assumirá a presidência do conselho.
As mudanças acontecem em meio à tentativa de reverter a forte queda de valor da companhia nos últimos anos.
Após a fusão com a NotreDame Intermédica, em 2021, a companhia cresceu, mas não conseguiu recuperar margens e lucratividade no ritmo esperado. No 4º trimestre de 2025, o lucro líquido ajustado caiu 64,9%, para R$ 180,6 milhões.
Desde 2021, no auge, as ações da companhia cederam mais de 95%.
No início de março, a gestora Squadra, uma acionista relevante da companhia, com cerca de 7% do capital votante, enviou uma carta cobrando mudanças no conselho e na condução da empresa.
A gestora critica problemas de governança, alocação de capital e execução. E defende que a Hapvida avalie vender operações no Sul e Sudeste, em boa parte ativos herdados da NotreDame Intermédica.
Como mostrou o InvestNews, a crise financeira e de governança já afeta as operações da companhia. Médicos em São Paulo relatam que passaram a reduzir a carga horária por medo de calote – no último mês, já houve atrasos nos pagamentos.
R$ 11 mil por mês. É o quanto se paga, em média, para cursar medicina em faculdades privadas no Brasil. No ramo da educação, não existe negócio mais rentável: além do ticket médio elevado, os cursos têm baixos índices de inadimplência e de abandono dos alunos. Não à toa, o ramo cresceu rapidamente na última década, após o governo flexibilizar os critérios para abertura de novos cursos.
Mas esse segmento do ensino passa por forte turbulência desde o advento do Enamed – um exame nacional criado pelo MEC (Ministério da Educação) em 2025 para avaliar se os alunos de medicina, ao fim da graduação, saem com o conhecimento esperado.
Após a primeira edição do exame, a qualidade da educação médica no país entrou no centro do debate. Agora, representantes do setor se movimentam para convencer reguladores, investidores e futuros alunos de que essa expansão não veio às custas do rigor acadêmico.
Isso porque os resultados da prova foram considerados frustrantes: 99 instituições, ou 32% do total avaliado, obtiveram conceitos insuficientes. Na semana passada, o MEC aplicou sanções aos 57 cursos com pior desempenho – 53 deles pertencentes a faculdades privadas.
Cursos com conceito mínimo não poderão receber novos alunos no próximo semestre nem acessar o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Já nos casos considerados menos graves, as vagas para o período seguinte serão reduzidas em 25%.
As sanções atingem inclusive grandes companhias de capital aberto. Segundo um relatório de analistas do Goldman Sachs, entre as empresas que o banco acompanha, a Yduqs foi a mais afetada: 317 vagas de medicina, o equivalente a 15,4% do total que ela oferece, sofrerão algum tipo de sanção.
Dona de faculdades como Estácio e UniFacid, a companhia reúne seus cursos de medicina sob a marca Idomed. Em 2025, a vertical gerou um Ebitda de R$ 643 milhões, o equivalente a 34% do resultado operacional da companhia.
A Ânima também entra nessa lista. A empresa concentra a área na Inspirali, que reúne marcas como Anhembi Morumbi, São Judas e UniSul. Em 2025, a vertical respondeu por 67% do Ebitda da companhia. Agora, segundo os analistas do Goldman Sachs, cerca de 5,3% das suas vagas de medicina devem ser afetadas por sanções.
O relatório também aponta impactos para a Afya, grupo líder do setor e foco apenas em medicina, que opera 33 unidades no país e terá 5,6% das vagas afetadas; e na Cogna, que reúne seus cursos na KrotonMed, com marcas como Anhanguera e Pitágoras, e deve ter 3,4% das vagas atingidas.
O ‘day after’ do Enamed
Depois da recente divulgação dos resultados, as companhias já fazem ajustes para tentar melhorar o desempenho nas próximas edições, que acontecerão anualmente.
Uma visão recorrente no setor é a de que os resultados negativos refletem não uma falha na formação em si, mas a falta de engajamento dos alunos em um exame cujo formato ainda era desconhecido.
“O foco agora passa por envolver mais o aluno, fazer com que ele entenda a importância dessas provas”, diz Jânyo Diniz, CEO da Ser Educacional, em entrevista ao InvestNews. “Antes, eles a viam quase como uma obrigação formal para conseguir o diploma.”
A companhia oferece cursos de medicina por meio da UNINASSAU e da UNAMA, com maior presença no Norte e no Nordeste.
Entre as medidas práticas, a Ser Educacional implementou no início de 2026 um novo modelo de internato. A proposta foca nos estudantes dos últimos quatro semestres – fase em que eles deixam a sala de aula e passam a viver a rotina do hospital universitário.
O modelo cria a figura do tutor, responsável por acompanhar a trajetória dos alunos. Ele atua como uma ponte entre a prática no hospital e o conteúdo acadêmico, complementando o trabalho dos professores.
Na Cogna, liderada pelo CEO Roberto Valério, a estratégia também passa por ajustes no conteúdo e na rotina acadêmica. A companhia afirma ter ampliado os simulados e reforçado aulas de resolução de exercícios, com revisões baseadas nos erros do Enamed.
“Entre as medidas adotadas, destacam-se a revisão dos critérios de avaliação das disciplinas e dos módulos, com maior alinhamento às competências exigidas no exame”, disse a empresa em nota enviada ao InvestNews.
A Afya diz defender o Enamed como “principal e único instrumento de avaliação da qualidade da formação médica no país”, mas apresentou uma ressalva: “essa primeira versão do exame foi substancialmente prejudicada por mudanças e divulgação de regras promovidas pelo MEC somente após a aplicação da prova”, disse o grupo também em nota ao InvestNews após a publicação da reportagem.
“Neste momento, a prioridade já está direcionada para o Enamed 2026, com previsão de realização em setembro, na expectativa de que a Seres (Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior) e o INEP contemplem no novo edital os ajustes metodológicos já apresentados pelo setor.”
O grupo tem realizado simulados para o Enamed em suas unidades em todo o país. “Até a realização do Enamed 2026, estão previstos oito simulados na Afya, sendo seis obrigatórios.”
Procuradas, Ânima e Yduqs não indicaram porta-vozes para falar sobre o tema.
Ilustração: João Brito
Judicialização
Outra “estratégia” do setor tem sido recorrer à Justiça para questionar a validade dos resultados do exame nacional instituído pelo MEC.
Associações de empresas de educação privada, como a ABMES e a ANUP, lideram esse movimento, com alegações de falhas no processo – como mudanças de critérios de avaliação após a prova, supostas inconsistências nos dados e fragilidades metodológicas.
“Foi um processo iluminado por problemas, e a ânsia de punir criou uma narrativa que está destruindo a imagem de instituições pelo país”, afirma Paulo Chanan, diretor-geral da ABMES (Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior).
Segundo a associação, as notas de corte e os critérios de avaliação só foram divulgados após a aplicação da prova. Além disso, resultados inicialmente apresentados como definitivos foram revisados em janeiro de 2026, após o Inep reconhecer inconsistências no cálculo da proficiência.
Na apresentação de resultados do quarto trimestre, a Yduqs disse que está em diálogo com o MEC sobre o exame. “Discordamos de alguns pontos da avaliação e temos tratado isso diretamente [com o MEC] e por meio das associações do setor”, disse Rossano Marques, CEO da Yduqs.
No mercado, a avaliação é a de que, embora as sanções do Enamed resultem potencialmente em perda de receita e desgaste de imagem no curto prazo, as grandes empresas do setor têm musculatura para se adaptar às exigências do MEC com mais agilidade.
“As companhias listadas competem com players menores, com menor capacidade de se adaptar às mudanças. No cenário competitivo, podem até sair favorecidas”, diz Daniel Utsch, gestor da Nero Capital, que acompanha o setor.
Além disso, os cursos de medicina seguem como um dos negócios mais atrativos do setor – por combinarem receita elevada, regular e de longo prazo.
Na média, um aluno paga perto de R$ 800 mil ao longo da formação, segundo dados do Semesp, uma entidade do setor.
E essa receita tende a ser mais previsível, dado que os cursos de medicina têm menor evasão do que a média do ensino superior. Dados do Inep mostram que, na medicina, algo como 80% dos alunos recebem o diploma. Quando se olha para todos os cursos no Brasil, o cenário é outro: menos de 40% dos estudantes chegam ao fim da graduação.
O mapa da medicina
Não faz muito tempo, faculdades de medicina eram pontos escassos no mapa do Brasil – e concentrados, quase sempre, em grandes cidades. Há duas décadas, o país tinha cerca de 100 cursos na área.
Esse cenário passou a mudar em 2013, quando nasceu o Mais Médicos, programa federal criado para enfrentar um problema conhecido: faltavam profissionais da área no país, sobretudo fora dos grandes centros. Era preciso formar mais profissionais – e distribuí-los pelo território.
O setor privado de educação entrou como uma peça-chave dessa expansão.
O Ministério da Educação passou a organizar a abertura de novos cursos por meio de editais: escolheu cidades prioritárias, definiu o número de vagas e selecionou instituições interessadas em operar nessas regiões.
O efeito foi rápido. Em cinco anos, o número de cursos havia crescido 56%, puxado principalmente por faculdades privadas com fins lucrativos.
Esse modelo, porém, entrou em xeque a partir de 2018, quando o governo suspendeu novos editais. O argumento era o de que a expansão tinha acontecido rápido demais e precisava ser revista.
Só que, na prática, o efeito foi outro: abriu-se uma nova frente, a da judicialização. Grupos educacionais passaram a recorrer à Justiça em busca de liminares para abrir cursos fora dos editais oficiais. E a expansão seguiu por outros caminhos.
Hoje, são mais de 400 cursos distribuídos pelo país.
Como resultado, o número de vagas cresceu exponencialmente: de 16,4 mil por ano em 2010 para 67,8 mil em 2024: uma alta de 313%.
Nos últimos anos, o MEC vem sinalizando que quer retomar o controle do processo, por meio de novos editais. Mas o avanço tem sido lento. O último chamamento para novos cursos foi lançado em outubro de 2023, mas não chegou a ser concluído.
Enquanto isso, o Enamed surge como uma tentativa de avaliar o que esse crescimento produziu.
“Vemos esse processo como um freio de arrumação, para identificar quem está com qualidade muito baixa, tirar esses players do mercado e obrigá-los a serem mais diligentes e melhorar os cursos”, diz Utsch, da Nero Capital.
Durante quase um ano, a Embraer teve que enfrentar tarifas de 10% sobre as aeronaves que enviou aos Estados Unidos. Agora, com a isenção instituída pela Casa Branca no fim de fevereiro, os aviões da companhia voltaram a entrar no mercado da maior economia do mundo sem encargos extras – e a fabricante brasileira já começa a calcular o que pode recuperar.
“Nós saudamos a igualdade de condições em nossa indústria. Esse resultado beneficiará nossos clientes nos Estados Unidos”, disse o CEO Francisco Gomes Neto durante a teleconferência de resultados nesta sexta-feira (6).
Em 2025, as tarifas tiveram impacto de US$ 54 milhões no resultado da Embraer. Mas a conta total é maior: isso porque parte dessas tarifas já foi paga sobre aviões e peças que ainda estão no estoque – e que só afetarão o balanço quando forem entregues aos clientes.
Levando isso em consideração, o total do efeito das tarifas chega a US$ 80 milhões.
Só no quarto trimestre, as tarifas custaram US$ 27 milhões à Embraer. Esse impacto ajudou a pressionar a rentabilidade da empresa: a margem operacional caiu de 10,6% em 2024 para 8% em 2025.
A maior parte do efeito veio da aviação executiva – que inclui os jatos Phenom, Praetor e Legacy. Nos três meses finais do ano, o custo foi de US$ 24 milhões para o segmento. Mesmo assim, a Embraer manteve a margem em 10,5%, sustentada por mais vendas e preços mais altos.
As cobranças das tarifas começaram em abril de 2025, quando o governo de Donald Trump impôs uma taxa mínima global de 10% sobre importações.
Recentemente, em 20 de fevereiro, a Suprema Corte americana derrubou essa política tarifária, que julgou ilegal da maneira como foi instituída. A Casa Branca reagiu com a criação de uma nova tarifa global temporária de 10% – mas, desta vez, isentando aeronaves, motores e peças aeroespaciais.
Cautela erecuperação em etapas
Por ora, a empresa não está fazendo planos com base no cenário mais favorável. Por segurança, o guidance financeiro para 2026 assume uma tarifa de 10% – e não zero.
“Ainda está muito nebuloso o que vai acontecer daqui para frente”, disse Antônio Garcia, CFO da Embraer.
Mesmo se a isenção de fato permanecer, o alívio não será imediato.
Como parte do estoque da Embraer ainda carrega o custo das tarifas pagas anteriormente, como citado anteriormente, a melhora nas margens deve aparecer aos poucos: cerca de dois terços do ganho deve vir em 2026, e o restante, somente em 2027, na estimativa da empresa.
No total, a Embraer vê potencial de aumento de até 1 ponto percentual na rentabilidade.
Há ainda uma outra variável em aberto: a possibilidade de recuperar parte das tarifas já pagas. A empresa diz que observa os próximos passos do setor antes de decidir se seguirá por esse caminho. “Estamos acompanhando a situação para entender o que os nossos pares vão fazer e que resultado eles vão conseguir disso, para definir o nosso movimento”, disse o CEO.
Os números de 2025
Apesar da pressão exercida pelas tarifas comerciais, a Embraer fechou 2025 com uma receita líquida de R$ 41,9 bilhões – no maior patamar da história da companhia. O número representou um crescimento de 18% em relação a 2024, sob impulso principalmente pelos negócios de Defesa & Segurança, cuja receita avançou 36%, e de Aviação Executiva, que cresceu 24%.
A carteira de pedidos firmes, que reúne os aviões já encomendados e ainda não entregues, também bateu recorde. O volume chegou a US$ 31,6 bilhões, um aumento de 20% em um ano. O principal impulso veio da Aviação Comercial, em que as encomendas avançaram 42%.
No total, a Embraer entregou 244 aeronaves em 2025, 18% a mais do que em 2024. Foram 155 jatos executivos, 78 comerciais e 11 aeronaves de defesa, incluindo três KC-390 Millennium.
De fabricantes de equipamentos a empresas de transmissão de energia, o setor elétrico se mobiliza para um leilão inédito no Brasil: o das megabaterias – no que deve ser o primeiro grande passo de uma indústria que pode atrair R$ 45 bilhões em investimentos pelos próximos quatro anos.
Essas máquinas chegam para tentar equilibrar a operação do sistema elétrico, que hoje vive entre picos e quedas bruscas de oferta. Com a expansão da geração de energia solar, a rede fica sobrecarregada durante o dia – quando o sol está a pino e a demanda por eletricidade é mais baixa. Mas ainda falta energia à noite, quando o consumo sobe e o sol já não contribui.
O plano é que as megabaterias compensem em tempo real essa produção inconstante, com armazenamento de energia quando sobra e devolução da rede quando falta. A tecnologia é conhecida em inglês como BESS, de Battery Energy Storage System. E funciona assim:
A lista de interessados
Previsto para junho, o leilão ainda não tem as regras definitivas anunciadas.
Por ora, o Ministério de Minas e Energia fala em contratar 2 GW de potência – ou seja, dispor de até 2 gigawatts prontos para entrar na rede a qualquer momento. Em termos de escala, é o suficiente para abastecer uma cidade com cerca de 6 milhões de habitantes. Os cálculos de analistas e executivos do setor é que os projetos movimentem investimentos da ordem de R$ 10 bilhões.
Nas propostas discutidas até agora, fala-se que cada projeto deverá ter ao menos 30 MW de potência e ser capaz de sustentar essa entrega por até quatro horas seguidas quando for acionado.
Embora o edital ainda não tenha sido publicado, muitas empresas começaram a se organizar para a disputa.
A ISA Energia está entre as que avaliam entrar na concorrência. A empresa líder em transmissão no país, controlada pela colombiana ISA, já está familiarizada com o negócio, dado que é responsável pelo primeiro sistema de armazenamento em larga escala do país.
O equipamento é localizado em Registro, no litoral sul de São Paulo, e foi inaugurado em 2023. Ali, a unidade consegue sustentar, por até duas horas, o consumo médio equivalente ao de uma cidade com cerca de 90 mil habitantes.
A companhia diz que acompanhar o leilão é um desdobramento natural, mas apontou o entendimento de que ainda há incertezas sobre o desenho final do certame.
“Do ponto de vista técnico, faz sentido a empresa olhar”, diz Rui Chammas, CEO da ISA. “Mas será um grande desafio e vamos ter que avaliar bem, especialmente porque muita gente está dizendo que vai participar.”
Publicamente, a Engie e a Axia (ex-Eletrobras) também demonstraram interesse no leilão. Na apresentação de resultados do último trimestre, a Axia afirmou ter mais de 4 GW em projetos de armazenamento já desenhados – o dobro do que o governo sinalizou que pretende contratar.
Nas diretrizes iniciais, o governo prevê um modelo de pagamento pela disponibilidade dos projetos. Ou seja: a companhia de energia instala as baterias, mantém o sistema pronto para operar e recebe uma remuneração fixa por isso.
O cenário brasileiro e a ofensiva da WEG
Em um leilão como esse, o contrato com o governo é assinado por empresas de energia: geradoras, transmissoras e distribuidoras. Mas há outro grupo atento a cada linha do edital: as fabricantes das megabaterias.
Isso porque a definição dessa disputa pode destravar um mercado ainda incipiente no país. Hoje, o Brasil soma algo perto de 900 MWh em projetos de armazenamento já instalados ou contratados. É pouco: sustentaria a demanda elétrica nacional por apenas 40 segundos.
Enquanto isso, na China, líder absoluta na implementação dessa tecnologia, o sistema de BESS já consegue manter o consumo de todo o país por cerca de 30 minutos. Nos Estados Unidos, 20.
Não à toa, a expectativa é a de investimentos bilionários no setor nos próximos anos para que essa capacidade cresça. A Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (ABSAE) estima que o mercado brasileiro de armazenamento possa atrair até R$ 45 bilhões até 2030.
Em relatório publicado no ano passado, a XP avaliou que uma empresa brasileira tem porte suficiente para conquistar espaço nesse segmento: a WEG. A companhia catarinense entrou no mercado de BESS em 2019, após a aquisição da americana Northern Power Systems.
Hoje, a empresa trata essa tecnologia como uma de suas principais apostas de crescimento – e espera que o segmento gere algo como R$ 3,2 bilhões em receitas para ela nos próximos 10 anos.
Na corrida para garantir esse espaço, a WEG anunciou em fevereiro a construção de uma fábrica de BESS em Itajaí, em Santa Catarina. A inauguração está prevista para o segundo semestre de 2027.
“A WEG vem se preparando para isso [o leilão de BESS] há algum tempo”, disse André Salgueiro, diretor financeiro e de RI da companhia, na teleconferência de resultados do quarto trimestre.
A concorrência chinesa
Só que a WEG terá que disputar essa demanda com gigantes globais.
No mundo, quem lidera o ramo das megabaterias é a Tesla. Em 2024, a empresa de Elon Musk tinha 15% do mercado. Logo atrás há uma série de chinesas: Sungrow, CATL, Huawei e BYD.
No Brasil, a Huawei afirma ser a líder de mercado, com cerca de 100 MWh já em operação – ou seja, um conjunto de baterias que, juntas, conseguem armazenar 100 megawatts-hora de energia. Na prática, isso equivale a atender algo como 400 mil casas ao longo de uma hora.
Para este ano, a empresa afirma ter mais 400 MWh já contratados para instalar. Globalmente, o segmento de Digital Power, em que estão as BESS, responde por 10% da receita da Huawei.
No leilão de baterias, a empresa chinesa pretende repetir um modelo já adotado em outros projetos: ela entra com a tecnologia e o conhecimento técnico, enquanto uma empresa parceira fica responsável por estruturar o negócio – do financiamento à relação com o governo.
Segundo Roberto Valer, CTO (Chief Technology Officer) da área de Digital Power da Huawei no Brasil, já há mais de um parceiro definido para esse certame, mas os nomes seguem em sigilo.
Enquanto aguarda o edital federal, a Huawei tem buscado projetos pontuais para ganhar escala e visibilidade. É o caso do Mercado Municipal de Santo Amaro, em São Paulo: instalados no estacionamento, os gabinetes de baterias chegaram a garantir o funcionamento do espaço durante um apagão na região.
Além disso, em parceria com a Prefeitura de São Paulo e a Matrix Energia, a companhia está instalando sistemas BESS em garagens de ônibus para viabilizar a frota elétrica. Cada módulo consegue carregar até 29 ônibus. Na prática, as baterias armazenam energia ao longo do dia e liberam na hora da recarga, o que reduz a pressão sobre a rede e amplia a capacidade elétrica do local.
Por que agora?
As baterias surgem como um dos remédios para aquela que é hoje a principal dor de cabeça das empresas de geração renovável: o curtailment (corte de geração).
Quando o sistema produz energia demais, o Operador Nacional do Sistema (ONS) ordena que usinas eólicas e solares desliguem parte da produção – para evitar que o excesso desestabilize a rede.
O problema está ligado à expansão da chamada geração distribuída (GD) – os painéis solares espalhados pelos telhados no país. Como essas unidades são descentralizadas, o ONS não consegue ligá-las ou desligá-las individualmente. Então, faz o que pode: trava as grandes usinas.
Atualmente, estima-se que 20% da geração solar e eólica pronta para chegar aos fios acaba sendo “desplugada” ao longo do dia para garantir a estabilidade da rede.
Mas não é só o curtailment que torna as baterias de armazenamento atrativas agora.
Um fator relevante é o preço médio das baterias de íon-lítio, que despencou na última década. Entre 2013 e 2023, os custos da principal tecnologia por trás dos sistemas BESS recuaram cerca de 80%. Somente de 2023 para 2024, a queda foi de 40%.
A expectativa é que a tendência continue. Com ganhos de escala, estimativas indicam que o preço pode chegar a US$ 64 por kWh até 2030 — versus US$ 115 em 2024.