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Diplomata dos EUA discute terras raras com mineradoras brasileiras em meio a negociações sobre tarifas

O encarregado de negócios dos Estados Unidos no Brasil, Gabriel Escobar, reuniu-se nesta terça-feira (28) com representantes de mineradoras durante a Exposibram, em Salvador, para tratar de projetos ligados à produção de terras raras e nióbio, segundo duas fontes com conhecimento das conversas ouvidas pela Reuters.

As discussões reforçam o avanço da diplomacia americana sobre minerais estratégicos, em um momento em que Washington e Brasília negociam a retirada das tarifas de 50% impostas pelo governo Donald Trump às exportações brasileiras.

De acordo com uma das fontes, executivos da St George Mining, que desenvolve um projeto de terras raras e nióbio em Minas Gerais, participaram do encontro com Escobar. O diplomata também se reuniu com dirigentes do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), entre eles o diretor de Assuntos Minerários, Julio Nery, que confirmou sua presença no evento.

“Ele já esteve em reunião com o Ibram três ou quatro vezes recentemente e pediu uma nova agenda com o presidente Raul Jungmann durante a Exposibram”, afirmou Nery.

A aproximação dos EUA com o setor mineral brasileiro ocorre no contexto de uma disputa global por minerais críticos, dominada pela China — que concentra cerca de 70% da produção e 100% do refino de terras raras pesadas.

O Brasil possui a segunda maior reserva mundial desses elementos, com empresas estrangeiras como Aclara, Meteoric Resources, Brazilian Rare Earths e Serra Verde entre os principais players.

O interesse americano, segundo fontes do setor, pode incluir parcerias de longo prazo para garantir o fornecimento e reduzir a dependência chinesa. Uma eventual cooperação bilateral sobre minerais estratégicos é vista como moeda de troca nas tratativas comerciais entre os dois países.

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Brasil pode se tornar o contraponto à China no mercado global de terras raras

Em 1967, um helicóptero da United States Steel, que transportava uma equipe de geólogos, fez uma descoberta acidental após pousar em uma área remota da Floresta Amazônica: um gigantesco depósito de minério de ferro que se tornaria Carajás, uma das regiões minerais mais ricas do mundo.

O cenário atual pode parecer menos com um roteiro de filme, mas uma parceria de mineração semelhante entre os Estados Unidos e o Brasil pode tomar forma novamente — desta vez em torno dos minerais essenciais que estão agitando a geopolítica moderna. 

Enquanto os governos de Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva buscam apaziguar suas ruidosas diferenças, o desenvolvimento de metais estratégicos — particularmente as terras raras — se destaca como uma área incomum de interesse compartilhado.

Domínio chinês usado como arma

A iniciativa da China de usar seu domínio na cadeia de suprimentos de terras raras como uma arma em resposta às tarifas impostas por Washington — ampliando as restrições às exportações de componentes vitais para vários setores, de semicondutores a sistemas de defesa — abriu as portas para potenciais produtores, incluindo o Brasil, a Austrália e a Índia.

Embora os EUA tenham um plano ambicioso — e nada convencional — para reconstruir sua própria indústria de mineração, Washington precisará de toda a ajuda possível se quiser desafiar o domínio quase total da China. É aí que entra o Brasil: já uma potência na mineração, geograficamente próximo aos EUA e detentor das maiores reservas de terras raras do mundo, depois da nação asiática.

Brasília tem falado sobre uma estratégia para minerais críticos há décadas, com pouco resultado. Uma aliança estratégica com os EUA, o maior investidor estrangeiro do país, poderia finalmente garantir o momentum — por meio de joint ventures, acordos de compra, financiamento ou acordos estratégicos. Além de alguns poucos esforços existentes, a questão provavelmente ganhará destaque quando o Ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, se encontrar com seu colega Marco Rubio em Washington nesta semana, preparando o cenário para o primeiro diálogo bilateral entre Trump e Lula.

Oportunidade de negócio

O presidente brasileiro poderia usar a carta das terras raras como moeda de troca para suspender as altas tarifas de 50% de Trump, anunciadas em julho, aproveitando o renovado apetite do presidente por negócios com o Brasil. Seria um acordo que ambos os lados poderiam vender como uma vitória, especialmente dadas as implicações para a segurança nacional dos EUA. Mas o líder de esquerda terá que agir com cautela: seu Partido dos Trabalhadores, nacionalista, sempre desconfiado de qualquer indício real ou imaginário de imperialismo, não tolerará nenhum arranjo exploratório semelhante ao que muitos viram no acordo anterior de Trump com a Ucrânia.

Para amenizar esses temores, Lula poderia pressionar pelo desenvolvimento da capacidade nacional de refino e produção de ímãs, uma ideia alinhada às ambições da política industrial de seu governo e que teria sido cogitada pelo governo Biden antes do retorno de Trump ao poder. Lula poderia retomá-la agora.

Para os EUA, qualquer cadeia de suprimentos adicional que desafie o domínio da China é uma vitória — mesmo que se desenvolva no exterior. Além disso, ajudaria a contrabalançar o relacionamento do Brasil com Pequim, já seu principal parceiro comercial e destino da maior parte de seus minérios e commodities.

Ao mesmo tempo, a colaboração com os EUA poderia dar ao Brasil os incentivos e a massa crítica necessários para que sua indústria de terras raras finalmente decole. Apesar de todas as suas enormes reservas e muitos projetos promissores, a produção de terras raras do Brasil permanece próxima de zero.

Vantagens ao capital estrangeiro

“Estamos atrasados ​​em um negócio que tem um conflito de grandes proporções. A China está fechando seu mercado e os EUA estão investindo forte no seu país”, disse Fernando Landgraf, especialista em minerais críticos e professor da Universidade de São Paulo. “Seria muito interessante se os EUA tenham interesse ​​em uma joint venture de refino de terras raras no Brasil, agregando mais valor aqui.”

O Brasil também oferece uma vantagem fundamental para os investidores dos EUA: apesar de sua burocracia e regulamentação rigorosa, continua sendo um destino aberto ao capital estrangeiro, inclusive em setores estratégicos.

Subsidiárias brasileiras de empresas americanas podem até se qualificar para financiamento do banco nacional do desenvolvimento, o BNDES, que atualmente analisa o apoio a 56 projetos com foco em minerais estratégicos. O sucesso da maior economia da América Latina no desenvolvimento de outros metais essenciais para a transição energética (incluindo níquel, cobre, grafite e lítio) reforça ainda mais suas credenciais.

Diplomacia mineral

E há também o nióbio: o Brasil responde por cerca de 90% da produção global, essencial para ligas de aço mais resistentes e leves, usadas em tudo, de turbinas a smartphones. Uma única empresa privada brasileira, a CBMM — controlada pela família Moreira Salles — domina a produção de nióbio após décadas de construção de uma nova cadeia de suprimentos, confirmando o enorme potencial do país nestes setores. Em 2011, um grupo chinês e um consórcio nipo-sul-coreano compraram uma participação de 15% cada um na CBMM, posicionando-se estrategicamente anos à frente de qualquer concorrente dos EUA.

É claro que a diplomacia mineral é apenas um dos vários tópicos esperados na agenda bilateral, muitos deles controversos, incluindo a situação na Venezuela, a expansão dos BRICS, a turbulência no Haiti, a postura dura de Brasília contra as big techs e o etanol.

Contudo, a oportunidade está aí. Trump e Lula não a aproveitarão por afinidade ideológica. Mas podem simplesmente aproveitá-la porque faz todo o sentido comercial e estratégico.

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China intensifica controle sobre terras raras e acende alerta na economia global

As mais recentes restrições da China às terras raras marcam um controle de exportação quase sem precedentes que pode desestabilizar a economia global. Isso dá a Pequim mais influência nas negociações comerciais e aumentaria a pressão sobre o governo Trump.

A regra, divulgada na quinta-feira (9) pelo Ministério do Comércio da China, é vista como uma escalada na disputa comercial entre os EUA e a China, pois ameaça a cadeia de suprimentos de semicondutores.

Os chips são a força vital da economia, alimentando telefones, computadores e data centers necessários para treinar modelos de inteligência artificial.

A regra também afetaria carros, painéis solares e equipamentos para fabricação de chips e outros produtos, limitando a capacidade de outros países de sustentar suas próprias indústrias.

A China produz cerca de 90% das terras raras do mundo.

Empresas globais que vendem produtos com certos materiais de terras raras provenientes da China representando 0,1% ou mais do valor do produto precisariam da permissão de Pequim, de acordo com a nova regra.

As empresas de tecnologia provavelmente terão extrema dificuldade em comprovar que seus chips, os equipamentos necessários para fabricá-los e outros componentes estão abaixo do limite de 0,1%, disseram especialistas do setor.

“Os minerais de terras raras e a capacidade de refiná-los são apenas a base da civilização moderna”, disse Dean Ball, que deixou seu cargo na Casa Branca como consultor de políticas de IA para se tornar membro sênior da Fundação para a Inovação Americana, um think tank.

Ele acrescentou que as regras podem causar uma recessão nos EUA se implementadas de forma agressiva, devido à importância dos gastos de capital em IA para a economia.

Os EUA e outros países estão investindo pesado em data centers, tornando a IA um motor econômico fundamental.

Terras raras: a nova guerra nuclear

A China potencialmente colocaria em vantagem na corrida da IA ​​e mudaria a ordem mundial, afirmam especialistas.

“É o equivalente econômico de uma guerra nuclear — uma intenção de destruir a indústria americana de IA”, disse Dmitri Alperovitch, cofundador do think tank Silverado Policy Accelerator. Ele chamou isso de “tática de chantagem” antes de uma possível reunião entre o presidente Trump e o líder chinês Xi Jinping na Coreia do Sul nas próximas semanas para dar continuidade às negociações comerciais e não acredita que a China implementará integralmente a regra.

As tarifas americanas estão atualmente na faixa de 30% a 50% sobre as importações chinesas — níveis superiores aos negociados com Vietnã, Japão e Indonésia.

As tarifas médias da China sobre as exportações americanas giram em torno de 33%.

Embora posicionada como retaliação às recentes ações de controle de exportação dos EUA visando empresas de tecnologia chinesas, a decisão de Pequim é um jogo de poder calculado, de acordo com pessoas familiarizadas com o processo decisório do governo chinês.

A China está tentando fortalecer sua influência sobre Trump — que considera ansioso para fechar um acordo — em uma tentativa de extrair concessões em tarifas e controles de tecnologia, disseram as pessoas.

Durante a última rodada de negociações com altos funcionários americanos em Madri, no mês passado, o principal negociador comercial da China, o vice-primeiro-ministro He Lifeng, solicitou a remoção total de tarifas e controles de exportação, informou o The Wall Street Journal. A mais recente ação sobre terras raras, disseram as pessoas, é uma tática que visa atingir esse objetivo.

A ação, observaram as fontes, faz parte de um padrão da China em responder ao que considera ações frágeis de Washington com medidas desproporcionalmente fortes.

Um punhado de terras raras
Terras raras produzidas pela Aclara (Divulgação)

Terras raras nas guerras

As novas regras também abrangem bens que podem ser usados ​​para fins militares.

Elas ampliariam as restrições anteriores sobre terras raras e produtos relacionados, que já atingiram empresas em todo o mundo.

A cadeia de suprimentos de semicondutores é vulnerável a ações como a da China porque grandes fábricas de chips exigem grandes investimentos de capital de um ecossistema de empresas que fornecem equipamentos especializados, processos técnicos complexos e embalagem final. Empresas nos EUA, Taiwan, Japão e Holanda colaboram entre si.

Os governos Trump e Biden ofereceram subsídios e outras políticas para auxiliar o processo, mas a capacidade doméstica, em geral, ainda é incipiente.

Alguns analistas afirmam que as novas regras aumentarão a urgência para que as grandes empresas de tecnologia invistam mais nessas áreas.

“Esta é uma vulnerabilidade real para as empresas de IA dos EUA”, disse Joseph Hoefer, diretor de IA da empresa de lobby Monument Advocacy, que representa empresas de tecnologia.

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China amplia restrições às exportações de terras raras

A China revelou novas e amplas restrições às exportações de terras raras e outros materiais críticos, enquanto Pequim tenta reforçar sua influência na guerra comercial contra os Estados Unidos antes de uma reunião decisiva entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping neste mês.

Exportadores estrangeiros de terras raras que usam até mesmo pequenas quantidades de materiais da China agora precisarão de uma licença de exportação, informou o Ministério do Comércio em comunicado nesta quinta-feira (9), alegando motivos de segurança nacional.

Certos equipamentos e tecnologias para processamento de terras raras e fabricação de ímãs também estarão sujeitos aos controles, de acordo com outro comunicado.

Controle sobre terras raras

Embora não esteja claro como Pequim planeja aplicar as regras abrangentes, a medida marca uma escalada na campanha da China para exercer controles extraterritoriais sobre as terras raras do país.

As restrições refletem o próprio regime de exportação de Washington, que proíbe empresas chinesas de acessar chips de ponta e as ferramentas para fabricá-los.

O ministério anunciou posteriormente planos para expandir os controles de exportação para uma série de novos produtos em medidas que serão aplicadas a partir de 8 de novembro.

Os itens mais afetados incluem cinco terras raras específicas: hólmio, európio, itérbio, túlio, érbio.

Há ainda certas baterias de íons de lítio, ânodos de grafite e diamantes sintéticos, bem como alguns equipamentos para fabricar esses materiais.

As medidas ocorrem no momento em que os presidentes dos EUA e da China devem se reunir em uma cúpula na Coreia do Sul para fechar um acordo comercial entre as maiores economias do mundo.

Pequim acena com um pacote de investimentos nas negociações, disseram anteriormente fontes familiarizadas com o assunto.

A China tem usado seu controle sobre terras raras — que representa cerca de 70% da oferta global — como instrumento de pressão nas negociações.

Os minerais têm uma gama de aplicações que os tornam vitais para indústrias de alta tecnologia, incluindo semicondutores e automóveis, bem como para o setor militar. Pequim também tem contido as compras de soja dos EUA nos últimos meses, em busca de fortalecer sua posição.

“Isto é para elevar as apostas e demonstrar que a China tem influência e cartas para jogar”, disse Dylan Loh, professor associado da Universidade Tecnológica de Nanyang. “Isso é feito para colocá-los na posição mais forte possível nas negociações comerciais com os EUA.”

Se aplicadas, as novas restrições podem frustrar os esforços do governo Trump — e de governos da Europa à Austrália — para se livrarem dos ímãs de Pequim construindo suas próprias cadeias de suprimentos, que ainda dependem, em grande parte, de matérias-primas e processamento chineses.

Pequim também parece ter como alvo o setor de semicondutores dos EUA com suas últimas restrições, e afirma que alguns itens de terras raras usados para pesquisas e desenvolvimento de certos chips de computador serão agora analisados caso a caso.

As exportações de terras raras para pesquisas de inteligência artificial que possam ter aplicação militar serão igualmente afetadas, informou o Ministério do Comércio.

A Nvidia não quis comentar.

A Apple não respondeu imediatamente a um pedido de comentário enviado por e-mail fora do horário comercial.

A fabricante de chips Taiwan Semiconductor Manufacturing também não respondeu imediatamente ao pedido de entrevista.

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