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Mercado Livre vende Ozempic no México enquanto Brasil discute regras para venda de remédios

Após a aquisição de uma farmácia física em São Paulo no ano passado — um pré-requisito regulatório para a venda online de medicamentos —, a expansão do Mercado Livre para o setor de saúde acaba de ganhar um capítulo importante fora do Brasil.

No México, a farmacêutica Novo Nordisk abriu uma loja oficial dentro da plataforma do Mercado Livre para comercializar, mediante receita médica, medicamentos à base de semaglutida, incluindo Ozempic, Wegovy e Rybelsus.

O movimento chama atenção não apenas pelo porte dos produtos envolvidos, mas pelo desenho do negócio. O diferencial do modelo mexicano não está na venda digital de medicamentos em si — já permitida em diversos mercados —, mas no fato de o próprio laboratório operar uma vitrine oficial dentro de um marketplace. Nesse arranjo, a fabricante passa a atuar como vendedora dentro da plataforma, algo que não é permitido no Brasil.

Na prática, é a própria Novo Nordisk quem aparece como seller dos produtos e mantém a relação comercial com o consumidor dentro do ecossistema do marketplace. O Mercado Livre fornece a infraestrutura da plataforma e o suporte logístico, incluindo o Mercado Envios, enquanto a entrega dos medicamentos fica a cargo de transportadoras farmacêuticas licenciadas.

Por que o México e não o Brasil?

A diferença central está na regulação. No México, a Ley General de Salud — supervisionada pela agência sanitária COFEPRIS — autoriza a venda digital de medicamentos sujeitos a prescrição, desde que haja licença sanitária válida e com a receita verificada por um profissional farmacêutico habilitado.

Embora a norma não tenha sido desenhada especificamente para marketplaces, ela permite, na prática, a atuação direta de laboratórios em plataformas digitais, apoiados por operadores logísticos licenciados.

No Brasil, o cenário é mais restritivo. As regras da Anvisa permitem a venda online de medicamentos apenas por farmácias e drogarias devidamente licenciadas. O e-commerce funciona como extensão digital desses estabelecimentos, o que impede que marketplaces atuem como vendedores diretos. Esse modelo está em vigor desde 2009, quando a agência regulamentou o comércio eletrônico de medicamentos.

No caso de medicamentos à base de semaglutida — como Ozempic, Wegovy e Rybelsus —, as restrições são ainda mais relevantes por se tratarem de produtos sujeitos à prescrição médica. A Lei 15.354/2026 trouxe alguma flexibilização ao permitir a terceirização de etapas logísticas e de entrega, mas não alterou o núcleo da regulação. Fabricantes continuam impedidos de vender diretamente ao consumidor final, e a comercialização permanece concentrada em farmácias autorizadas.

Operação no Brasil: estágio inicial e modelo híbrido

Nesse contexto, a operação farmacêutica do Mercado Livre no Brasil ainda se mantém em estágio inicial, centrada no Meli Farma, estruturado a partir de uma farmácia licenciada em São Paulo e voltado a produtos de higiene, cuidados pessoais e medicamentos isentos de prescrição.

A estratégia da companhia não se baseia na integração vertical nem na manutenção de estoque próprio, mas sim na integração de farmácias licenciadas ao seu ecossistema de marketplace. Essa abordagem reflete o modelo de marketplace de terceiros já consolidado em outras categorias e é consistente com iniciativas semelhantes em outros mercados.

México como laboratório estratégico

A parceria entre Mercado Livre e Novo Nordisk no México funciona como um importante laboratório estratégico. Ela demonstra como a companhia pode evoluir em ambientes regulatórios mais flexíveis, testando modelos em que a plataforma deixa de ser apenas intermediária entre farmácias e consumidores para se tornar uma infraestrutura mais direta de distribuição para a indústria farmacêutica.

Nesse arranjo, o Mercado Livre se posiciona como camada tecnológica e logística que conecta fabricantes, operadores licenciados e consumidores finais, ampliando o potencial de monetização e integração com seu ecossistema.

A entrada do Mercado Livre no setor farmacêutico deve ocorrer de forma gradual no Brasil. No entanto, a combinação de movimentos regulatórios no exterior e mudanças competitivas locais sugere um potencial de transformação mais relevante no médio e longo prazo.

A parceria com a Novo Nordisk reforça a tese de que categorias como GLP-1 podem se tornar estratégicas para plataformas digitais, dada sua recorrência, alto valor e demanda estrutural crescente. Caso o ambiente regulatório evolua, o Mercado Livre estaria posicionado para capturar valor não apenas como intermediário, mas como infraestrutura central do ecossistema farmacêutico digital. Por ora, a expansão segue condicionada às regras locais, que ainda limitam de forma relevante a atuação direta da companhia nesse setor.

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Genes podem prever quanto você vai emagrecer com Mounjaro e Ozempic

Algumas pessoas, de forma frustrante, não perdem tanto peso quanto outras ao usar medicamentos populares para emagrecimento, como Wegovy. Um novo estudo sugere que a resposta pode estar nos genes.

Pesquisadores da 23andMe, serviço de testes genéticos ao consumidor que possui um dos maiores bancos de DNA do mundo a partir de amostras de saliva, analisaram dados genéticos de 27.885 clientes que usaram medicamentos como Wegovy e Zepbound para verificar se havia genes ou variantes associados à quantidade de peso perdida ou à intensidade dos efeitos colaterais.

Os resultados, publicados online na quarta-feira pela revista Nature, mostraram que pessoas com uma variante genética comum perderam mais peso com medicamentos GLP-1 do que aquelas sem essa variante. Os pesquisadores também identificaram que certas variantes aumentam a probabilidade de efeitos colaterais como náusea e vômito.

“Isso justifica mais estudos”, disse a Dra. Noura Abul-Husn, diretora médica do instituto de pesquisa da 23andMe. “Hoje, não há praticamente nada que oriente a personalização do uso desses medicamentos ou a gestão das expectativas dos pacientes.”

A 23andMe entrou com pedido de proteção contra falência no ano passado, após enfrentar dificuldades para encontrar um modelo de negócios lucrativo. Testes genéticos preditivos podem ser uma forma de a empresa tentar recuperar sua operação.

A companhia está incorporando testes para prever a resposta a medicamentos para emagrecimento em um de seus serviços de saúde, na esperança de que esse tipo de exame se torne comum para ajudar as pessoas a entender quanto peso podem perder com esses tratamentos. Com novos medicamentos sendo aprovados nos próximos anos, esse tipo de teste pode orientar a escolha do remédio mais adequado.

Alguns médicos acreditam que testes genéticos para prever a resposta a esses medicamentos podem se tornar tão rotineiros quanto os usados em doenças como câncer de mama.

O Dr. Andres Acosta, gastroenterologista da Mayo Clinic, afirmou que essa informação é valiosa, já que muitos pacientes pagam centenas de dólares do próprio bolso pelos medicamentos.

“Podemos identificar quem realmente precisa desse medicamento caro e quem pode não responder e precisar de outra opção”, disse Acosta, cofundador da Phenomix Sciences, empresa que comercializa testes genéticos para prever respostas a tratamentos de perda de peso.

Medicamentos como Ozempic e Wegovy, da Novo Nordisk, e Mounjaro e Zepbound, da Eli Lilly, funcionam imitando hormônios intestinais como o GLP-1, reduzindo o apetite e aumentando a sensação de saciedade.

Esses medicamentos podem levar à perda de mais de 20% do peso corporal, mas nem todos os pacientes alcançam esse resultado. Médicos estimam que cerca de 10% a 15% das pessoas perdem menos de 5% do peso. Entre os efeitos colaterais conhecidos estão náusea e vômito, que também variam entre os pacientes.

Diferença genética

Condições médicas pré-existentes, idade e outros fatores explicam parte dessa variação, mas médicos já suspeitavam que diferenças genéticas também desempenhassem um papel.

Os pesquisadores da 23andMe identificaram que uma variante no gene GLP1R está associada a uma perda adicional modesta de peso com medicamentos GLP-1. Esse gene codifica os receptores de GLP-1 no organismo — alvo de medicamentos como Ozempic e Wegovy.

Pessoas com essa variante perderam até cerca de 1,5 kg a mais do que aquelas sem a mutação e também apresentaram maior probabilidade de efeitos colaterais como náusea e vômito. A perda de peso mediana no estudo foi de aproximadamente 11 kg.

Essa variante é relativamente comum, presente em cerca de 40% das pessoas de ascendência europeia e 38% das de origem do Oriente Médio, sendo menos frequente em pessoas de ascendência africana (cerca de 7%).

Outra variante, no gene GIPR, foi associada a maior probabilidade de efeitos colaterais especificamente com medicamentos como Mounjaro e Zepbound, que também atuam sobre o hormônio GIP.

Apesar dos achados, ainda há muitas incertezas sobre por que os resultados variam tanto entre os pacientes. Fatores genéticos e não genéticos explicam apenas parte dessa variação, segundo Ruth J.F. Loos, professora da Universidade de Copenhague, em comentário publicado na Nature.

Para a Dra. Marie Spreckley, pesquisadora da Universidade de Cambridge, ainda é cedo para usar testes genéticos na prática clínica para orientar o uso desses medicamentos.

“No geral, este é um passo importante para entender a variabilidade e o potencial de abordagens mais precisas no futuro”, disse. “Mas os efeitos ainda são modestos e as evidências não são suficientes para orientar decisões clínicas rotineiras com base em dados genéticos.”

Escreva para Peter Loftus em: peter.loftus@wsj.com

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