Visualização de leitura

O Brasil – e a bolsa – pode ser o maior ganhador do novo ciclo de cortes de juros nos EUA

Poucos países reagem tanto às decisões do Federal Reserve, o Banco Central dos Estados Unidos, quanto o Brasil. Quando os juros americanos caem, o dólar tende a perder força e investidores passam a buscar mercados onde há melhores opções de retorno. Nesse cenário, com a Selic ainda em 15%, o Brasil se torna um destino atrativo para parte desse capital. E, como consequência, a bolsa brasileira também ganha.

O efeito acontece em cadeia:

  • O Fed corta juros, o que diminui a atratividade dos produtos de renda fixa nos Estados Unidos.;
  • Em busca de melhores oportunidades de retorno, investidores estrangeiros trazem recursos para o Brasil e compram títulos de renda fixa, como títulos públicos, que pagam mais;
  • Com mais dólares chegando ao país, o real se valoriza e, ao mesmo tempo, melhora a percepção de risco do país no mercado;
  • A inflação sente o alívio do real mais valorizado e, com isso, o Banco Central brasileiro pode ganhar espaço para reduzir a Selic nos próximos anos;
  • Juros mais baixos no Brasil tendem a estimular consumo e investimentos, o que ajuda a impulsionar a bolsa.
  • Em 2025, o real já se valorizou cerca de 11% frente ao dólar, que hoje gira em torno de R$ 5,20. Essa força da moeda reforça o interesse de investidores em ativos locais e reduz pressões inflacionárias internas.

A experiência de outros ciclos reforça esse ponto: em períodos de queda de juros, o Ibovespa subiu em média 10% nos seis meses seguintes ao primeiro corte. Agora, o mercado projeta que a Selic siga elevada até o fim de 2025, mas comece a cair em 2026. E que termine o próximo ano em 12,25% e atinja 9,75% em 2027, segundo estimativas do Goldman Sachs.

Do lado externo, o Goldman também projeta que o Fed faça mais dois cortes em 2025 e outros dois em 2026, levando a taxa americana para algo entre 3% e 3,25% até meados de 2026. Essa trajetória define o ritmo de desvalorização do dólar e o tamanho do fluxo que pode chegar a emergentes como o Brasil.

Esse pano de fundo recoloca a bolsa brasileira no radar de grandes investidores globais. E cria oportunidades em diferentes setores. Analistas dividem essas ações brasileiras em dois blocos:

  • Cíclicas domésticas: companhias ligadas a crédito e consumo, como Localiza, Cyrela, BTG Pactual, Nubank, GPS e Smartfit.
  • Defensivas sensíveis a juros: empresas que mantêm receitas estáveis, mas aumentam margens com custo de financiamento mais baixo, como Eletrobras e Equatorial em energia, Copel e Sabesp em saneamento, Multiplan em shoppings e Rede D’Or na saúde.

Mas é bom lembrar que essa dinâmica positiva não elimina os riscos do cenário: as contas públicas brasileiras seguem pressionadas, a economia chinesa dá sinais de enfraquecimento e o ambiente geopolítico pode atrapalhar o fluxo de capital para emergentes.

Mesmo com essas incertezas, a combinação atual de Selic alta, bolsa negociada a múltiplos baixos e real mais valorizado coloca o Brasil em posição de destaque. Se a dinâmica observada em ciclos anteriores se repetir, o país pode novamente estar entre os maiores beneficiados pelo movimento de cortes de juros iniciado pelo Federal Reserve.

  •  

Muito além dos latinos: com a expansão para os EUA, Nubank também quer conquistar os americanos

Com a expansão para os EUA, a Nu Holdings vê uma oportunidade para alcançar clientes além da América Latina. “Num primeiro momento, nossos clientes iniciais serão aqueles que adotam novidades antes do grande público”, afirmou Cristina Junqueira, cofundadora e diretora de crescimento da empresa, durante o painel Women, Money & Power, em evento da Bloomberg, realizado em Londres nesta quarta-feira (1). “Nossa chegada aos Estados Unidos tem potencial para ressoar até entre o público americano, para além da comunidade latino-americana.”

A executiva se mudou de São Paulo para a Flórida para supervisionar as operações internacionais do Nubank. “Agora estou baseada em Miami, então são três horas e meia de voo da Colômbia, três horas de voo da Cidade do México e, claro, isso me posiciona bem para eventualmente supervisionar nossas operações nos EUA”, disse ela.

“O Nubank vê o mercado americano como uma enorme oportunidade”, disse Cristina Junqueira, já que alguns estados americanos têm economias maiores até que a do Brasil. Aliás, o Brasil é atualmente o maior mercado da empresa. Mas a executiva disse que o processo de licenciamento leva tempo e que o Nubank está buscando uma oportunidade de longo prazo nos EUA.

Nubank contrata

O Nubank contratou vários executivos de tecnologia nos EUA este ano. Na semana passada, nomeou Michael Rihani, ex-diretor de produtos da Coinbase Global, como seu novo diretor de criptomoedas. Em agosto, contratou Eric Young, ex-Snap, para atuar como diretor de tecnologia.

O banco é atualmente a empresa financeira de capital aberto mais valiosa da América Latina, à frente do Itaú Unibanco.

“Este é um bom passo inicial para a expansão do mercado endereçável, considerando o tamanho do mercado americano”, disse Gustavo Schroden, analista do Citigroup. “No entanto, para os investidores, a principal preocupação é a possibilidade de a administração perder o foco.”

Cristina Junqueira afirmou que o Nubank não está abrindo mão de suas oportunidades de crescimento nos mercados onde ele já tem presença, como o Brasil, que ainda é sua única operação lucrativa. “Há muito espaço para quase dobrarmos nossa receita, mesmo com a atual base de clientes amadurecendo”, disse ela.

A cofundadora do Nubank também disse que a empresa ainda não vê muito impacto da intensificação da concorrência na América Latina com rivais como Mercado Livre e Revolut. “Há mais concorrência”, disse Cristina Junqueira. “Isso é ótimo, os clientes têm mais opções, mas não estamos vendo isso impactando nosso crescimento até agora.”

  •  

Nubank pede autorização para operar nos EUA

A Nu Holdings informou que solicitou uma autorização para se tornar um banco nacional nos EUA. A fintech brasileira busca expandir seus negócios para além do mercado latino-americano.

A instituição apresentou sua solicitação à Office of the Comptroller of the Currency (OCC), de acordo com um comunicado divulgado nesta terça-feira (30). A medida contribuirá para sua evolução de uma plataforma regional para uma empresa global.

“Solicitar uma autorização nacional nos EUA nos ajuda a atender melhor nossos clientes no país e, no futuro, a nos conectar com aqueles que compartilham necessidades financeiras semelhantes e podem se beneficiar de nossos produtos e serviços”, disse o CEO do Nubank, David Velez, no comunicado.

As ações da empresa subiram com a notícia, mas apagaram os ganhos e caíram cerca de 0,4% às 14h22 em Nova York. O Nubank é atualmente a instituição financeira de capital aberto mais valiosa da América Latina, avaliada em cerca de US$ 77 bilhões.

Um estatuto bancário nacional “apoiará a capacidade do Nubank de inovar com responsabilidade e escalar com eficiência no mercado americano, oferecendo contas de depósito, cartão de crédito, empréstimos e custódia de ativos digitais”, informou o comunicado.

O Nubank obteve recentemente a aprovação do governo para uma licença que permitirá que sua unidade mexicana opere como um banco. Atualmente, a empresa também opera no Brasil e na Colômbia e acumulou 122,7 milhões de clientes até junho.

Seu negócio nos EUA será uma subsidiária integral, com um conselho que inclui ex-reguladores financeiros e executivos dos EUA e do Brasil. O presidente do conselho nos EUA será o ex-presidente do Banco Central do Brasil, Roberto Campos Neto, e também incluirá a cofundadora e diretora de crescimento do Nubank, Cristina Junqueira.

  •