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BC assume risco sobre inflação com postura menos cautelosa, diz Solange Srour, do UBS

O Banco Central sinalizou que poderá cortar os juros em sua próxima reunião, no fim de abril, mesmo que a Guerra do Irã ainda persista até lá. O risco, porém, é de que, embora o ciclo de queda de juros mal tenha começado, já precise ser interrompido, avaliou a diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, Solange Srour, em entrevista ao InvestNews.

Na opinião da economista, o Comitê de Política Monetária, o Copom, não deveria ter iniciado o ciclo de redução da Selic. O BC cortou a taxa básica para 14,75% ao ano na quarta-feira (18), na primeira diminuição em quase dois anos.

“Pessoalmente, acho que o BC deveria ter adiado”, disse. “Ninguém sabe se a guerra vai demorar mais duas semanas ou quatro meses.”

Mesmo se o conflito terminar em breve, já existe uma inflação “contratada” devido ao aumento dos preços do petróleo, de energia e de insumos, como fertilizantes.

“A inflação deste ano já está mais perto de 4,5%. Mas se o choque durar mais duas semanas e o preço do petróleo ficar mais perto de US$ 100 do que de US$ 80, a inflação deste ano vai ficar mais próxima de 5%, eventualmente acima disso”, disse Srour.

Em um cenário no qual o conflito se estenda muito mais tempo e o choque de oferta e de preços de energia perdure por meses, “o risco é o de o BC cortar 0,50 ponto e ter de parar”.

Além disso, Srour lembra que, mesmo com um eventual cessar-fogo ou fim do conflito, ninguém sabe a extensão dos danos à infraestrutura produtiva de petróleo e gás na região.

“Não é só ‘ligou e desligou’. Se uma instalação foi destruída ou danificada, pode levar meses até que a região consiga retomar os níveis [de produção de petróleo] de antes da guerra. Isso significa que o efeito sobre a oferta vai durar muito mais tempo.”

A diretora do UBS GWM ressalta ainda que o mercado leu o comunicado da decisão da quarta-feira (18) como mais “suave” ou “dovish“, no jargão do mercado. Isso porque o Banco Central não só cortou como evitou deixar em aberto a possibilidade de uma pausa.

Solange Srour, diretora de Macroeconomia para o Brasil do UBS Global Wealth Management
Solange Srour, diretora de Macroeconomia para o Brasil do UBS Global Wealth Management. Foto: Divulgação

“Ficou para o mercado uma mensagem de que, se tudo continuar do jeito que está, o banco continua cortando 0,25 ponto. E, se melhorar mais, pode cortar 0,50. Acho um pouco arriscada essa mensagem, se o BC pretende realmente atingir a meta de inflação no horizonte relevante.”

Segundo a economista, um dos principais riscos de uma comunicação menos cautelosa é iniciar um processo de desancoragem das expectativas de inflação. Ou seja, de os agentes de mercado passarem a embutir projeções cada vez mais elevadas para os preços no futuro.

A desacoragem, na prática, representa uma perda de confiança na capacidade de a política monetária controlar a alta dos preços, o que acaba por criar um efeito inflacionário. Nesse cenário, o BC pode reavaliar os rumos dos juros e até mesmo ter de elevar as taxas novamente.

O UBS GWM, por outro lado, ainda projeta uma probabilidade maior de os efeitos do conflito serem transitórios, o que possibilitaria ao Copom dar continuidade ao ciclo de cortes.

Nesse cenário mais positivo, o preço do petróleo voltaria a um patamar mais perto de US$ 85 o barril e a situação no Estreito de Ormuz se normalizaria até o fim de abril.

A economista do UBS mantém no cenário-base a possibilidade de a Selic terminar o ano no intervalo entre 12% e 12,5% ao ano. “Mas um ciclo de corte de três pontos [percentuais] ou menos já representa um espaço menor do que o mercado tinha começado a projetar antes da guerra.”

Dificuldades do BC no pós-guerra

As dificuldades da política monetária não vão acabar quando a guerra terminar. Para Srour, quando o peso do cenário internacional começar a diminuir, o doméstico passará a predominar.

“O ponto é que o desequilíbrio fiscal volta a se tornar o novo foco de atenção. Se houver uma sensação de que não vai haver uma inversão completa da política fiscal, se não houver uma âncora fiscal, que permita vislumbrar uma estabilização da dívida, acredito que o país terá uma crise de confiança.”

Nesse cenário, o esperado é que a curva de juros abra ainda mais, o câmbio deprecie e a aversão ao risco nos mercados volte a predominar.

“Seria o pior cenário, porque essa crise de confiança levaria a mais inflação e a uma desaceleração econômica. E o BC não teria outra alternativa a não ser subir juros novamente.”

Na visão da economista, o risco desse cenário se tornará mais presente conforme as eleições fiquem mais próximas. Para Srour, para evitar esse quadro, os candidatos com mais chances de vitória terão que sinalizar que vão endereçar a questão fiscal em seu mandato.

“É muito importante que o presidente eleito entenda que não tem muito tempo para apresentar esse ajuste. E não pode ser mais do mesmo, porque não será mais suficiente para segurar as expectativas.”

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Mercados hoje: inflação global volta ao centro das atenções com petróleo acima de US$ 100 e dados do PCE nos EUA

Bom dia!

A sexta-feira (13) começa com o mercado fazendo contas. A inflação segue como uma das principais preocupações. Todos querem entender qual será o impacto sobre os preços de diversos setores globais, se o petróleo permanecer acima de US$ 100 por mais tempo. As incertezas em torno da Guerra no Irã reforçam o dólar globalmente. Nesta sexta-feira, sai um dado visto como um dos mais importantes para o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), a poucos dias da decisão sobre juros: os números da inflação pelo PCE, a medida preferida do BC dos EUA. Por aqui, a combinação é parecida, mas com sotaque local: governo tentando amortecer o impacto da guerra sobre o diesel e evitar uma potencial greve de caminhoneiros, além, é claro, de aliviar o peso sobre a inflação.

Enquanto você dormia…

  • O humor lá fora segue cauteloso: ninguém está em pânico, mas também não parece disposto a bancar qualquer aposta sobre os rumos da Guerra no Irã e os impactos sobre a inflação. Às 7h20, os futuros das bolsas de Nova York seguem em leve alta: o S&P 500 futuro sobe +0,10% e o Nasdaq futuro avança +0,08%.
  • Na Europa, as bolsas caminham para a segunda semana seguida no vermelho. O Stoxx 600 cai -0,31%.
  • Na Ásia, o tom também foi negativo, com o petróleo acima de US$ 100, reacendendo o medo de inflação. O índice Nikkei, da bolsa de Tóquio, terminou em queda de -1,16%. O Hang Seng, de Hong Kong, recuou -0,98%.
  • O índice dólar (DXY) ultrapassa a marca dos 100 pontos, com alta de +0,48% a 100,15 pontos. O petróleo Brent segue em alta de +0,36% cotado aUS$ 100,83 o barril. Os juros da Treasury de 10 anos alcança 4,271% ao ano, mas seguem estáveis.

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Destaques do dia

  • Brasília tenta segurar o diesel enquanto o petróleo esquenta: o barril da commodity voltou a operar acima de US$ 100 nesta sexta-feira, mas passou a recuar após os EUA liberarem parte do petróleo russo de sanções tomadas na guerra contra a Ucrânia.
  • O preço do Brent segue próximo dos três dígitos acima de US$ 99 o barril. O problema é que o bloqueio do Estreito de Ormuz ainda permanece apesar do discurso de vitória do governo americano.
  • Por aqui, o governo brasileiro anunciou um pacote que incluiu zerar PIS/Cofins do diesel, criar subvenção para importadores e produtores e cobrar imposto temporário de 12% sobre exportações de petróleo e de 50% sobre exportações de diesel. A equipe econômica estima alívio de R$ 0,64 por litro nas bombas.
  • E daí? Para a bolsa local, o tema deixa Petrobras (PETR4), PRIO (PRIO3) e demais exportadoras de óleo no radar por causa do imposto, enquanto transporte e agro tendem a acompanhar de perto o efeito real do diesel mais barato na cadeia.

Giro pelo mundo

  • PCE na vitrine: o dado de inflação preferido do Fed mostra a inflação acima da meta de 2% ao ano. A leitura de fevereiro trouxe uma alta mensal de 0,4% e anual de 3,1% para o núcleo do PCE, enquanto o índice cheio veio com avanço de 0,3% no mês passado e subida de 2,8% em um ano.
  • Petróleo manda no humor: com o Brent perto de US$ 100, o mercado reduz apostas de cortes de juros diante da pressão inflacionária.

Giro pelo Brasil

  • Diesel no centro da mesa: governo zerou PIS/Cofins e anunciou subvenção para tentar segurar a alta nas bombas para o diesel. No total, a previsão é de que haverá um alívio de R$ 0,64 por litro no preço do combustível.
  • Conta do pacote: a compensação vem com imposto temporário de 12% sobre exportações de petróleo e de 50% sobre diesel.

Giro corporativo

  • Sabesp amplia posição: a companhia comprou por R$ 171,6 milhões uma fatia de 23,17% das ações ordinárias da Emae que pertenciam ao fundo Oceania, ligada ao controlador da Ambipar, Tercio Borleghi Jr, com liquidação prevista para esta sexta-feira.
  • Gol muda de altitude: a aérea anunciou cinco Airbus A330, classe executiva e expansão internacional via Galeão, mirando elevar a fatia internacional de 17% para 25% até 2029.
  • Raízen ganha fôlego: a Justiça aceitou a recuperação extrajudicial da companhia para renegociar R$ 65,1 bilhões em dívidas e suspendeu cobranças por até 180 dias.

Agenda do dia

  • 09:00: Pesquisa Mensal de Serviços de janeiro — Brasil. Ajuda a medir o pulso da atividade. (Consenso: +0,1% mês; +2,8% ano)
  • 09:30: PCE de janeiro — EUA. É a inflação que o Fed mais acompanha. A leitura de fevereiro trouxe uma alta mensal de 0,4% e anual de 3,1% para o núcleo do PCE, enquanto o índice cheio veio com avanço de 0,3% no mês passado e subida de 2,8% em um ano.
  • 09:30: PIB do 4º trimestre — EUA. Termômetro do crescimento. O PIB americano cresceu a uma taxa anualizada de 0,7% no quarto trimestre de 2025, bem abaixo das estimativas de +1,4%.
  • 09:30: Bens duráveis de janeiro — EUA. Sinal de investimento industrial. (Consenso: +1,2%)
  • 10:30: Fazenda detalha impactos do conflito no Oriente Médio — Brasil. Importa para inflação, combustíveis e fiscal.
  • 11:00: JOLTS e confiança do consumidor — EUA. Mais duas peças para o quebra-cabeça da economia americana. (Consenso: 6,7 mi e 55,0)

Ótima sexta-feira e bons negócios!

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Emprego nos EUA e IPCA no Brasil: como os novos dados mexem com os seus investimentos

Dois dados divulgados nesta sexta-feira (9) ajudaram o mercado a recalibrar as expectativas para os juros e, por consequência, para todo tipo de investimento.

Nos Estados Unidos, o relatório de emprego (payroll) mostrou uma economia que perde fôlego, mas sem sinais unânimes de fraqueza. No Brasil, um IPCA mais comportado abriu espaço para apostas mais firmes em cortes da Selic. Esse ajuste apareceu primeiro na chamada curva de juros, onde o mercado precifica o custo do dinheiro no futuro.

Na bolsa de valores, tudo se negocia, inclusive o futuro da taxa básica de juros. É para isso que existem os contratos de juros futuros, que têm vários vencimentos justamente para capturar as perspectivas para a Selic em diferentes horizontes. E, se a Selic reage a dados e estimativas do mercado, com esses contratos não seria diferente – e por isso, hoje, as informações novas sobre o mercado de trabalho nos EUA e inflação por aqui pautou o desempenho desses ativos.

Primeiro, o que aconteceu. Os contratos de juros futuros com vencimento em 2028 saíram de 13,02% para 13,07%, enquanto os contratos para 2029 avançaram de 13,01% para 13,06%.

Nos vértices de médio prazo, o movimento foi de queda uma parte do dia, mas, no fechamento, o desempenho teve uma pequena mudança: os contratos para 2033 saíram de 13,5% para 13,51%, enquanto a taxa do contrato para 2035 ficou praticamente estável.

Esse cenário conta a seguinte história: a pressão para uma Selic em alta, sem cortes profundos, se mantém nos próximos meses. Ou seja: bom para ativos que acompanham o CDI (que segue a taxa básica); ruim para títulos prefixados de curto prazo do Tesouro Direto. Se você tem eles na carteira, seu saldo cai quando a expectativa de juros no horizonte próximo sobe.

Na outra ponta, a dos juros longos caindo – como aconteceu durante boa parte do dia hoje –, é bom para os títulos de prazo mais longo (caso da maior parte dos IPCA+). A expectativa de juros menores para a próxima década, ditada pelo mercado de juros futuros, tende a fazer com que eles valorizem – ainda que de forma branda, já que a queda nos juros futuros está moderada.

Agora, o que está movimentando esse mercado? Resposta: o IPCA, a inflação “oficial” do Brasil, que veio abaixo do esperado em dezembro, fechando o ano dentro da meta do Banco Central. Boa notícia: inflação controlada eleva ainda mais as apostas de um corte da Selic no primeiro semestre, como acreditam (e esperam) os investidores.

Ok. Mas isso explicou o desempenho de uma parte do mercado – o dos títulos mais longos, que estavam caindo. Por que o jogo virou e esses contratos subiram junto com os demais?

Resposta: por causa do movimento dos títulos da dívida americana de curto prazo (Treasuries), de dois anos. O dia começou com um movimento mais modesto e ganhou força na reta final do dia: a taxa saiu de 3,501% no começo da tarde e foi para 3,536%. E essa alta acompanha a tentativa dos investidores de ajustarem suas perspectivas para o futuro da taxa de juros nos EUA, ditadas pelo payroll.

Duas leituras convivem nesse momento: de um lado, a criação de postos de trabalho veio abaixo do esperado; mas, de outro, a taxa de desemprego caiu e os salários aumentaram. É por isso que os juros futuros lá fora sobem: se a atividade perdeu força, mas não tanto a ponto de esfriar a inflação, o saldo ainda é favorável a um juro maior.

Ou seja, nos EUA, a expectativa é que postura do banco central deve continuar sendo mais cautelosa, sobretudo depois de uma sequência de cortes desde setembro de 2025. A leitura geral é de que os juros serão mantidos nos atuais níveis, e não elevados, mas o espaço para cortes como se viu antes não é mais unanimidade.

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Mercados hoje: relatório de emprego nos EUA e inflação no Brasil orientam os negócios

Bom dia!
Os mercados começam o dia à espera dos dados do payroll, o relatório de emprego dos EUA que traz informações da taxa de ocupação do país, além da dinâmica de salários e horas trabalhadas. Depois de outros duas divulgações sobre o mercado de trabalho dos EUA nesta semana – o ADP e o Jolts –, investidores esperam uma menor abertura de vagas em dezembro. No Brasil, as atenções se voltam para os dados de inflação medidos pelo IPCA, com expectativa de um recuo para 4,30%, dentro da meta estabelecida.

Enquanto você dormia…

  • O viés dos mercados no exterior é levemente positivo, mas ainda em modo cautela antes do principal dado do dia nos EUA.
  • Futuros de NY: S&P 500 e Nasdaq em leve alta.
  • Europa e Ásia: bolsas europeias sobem de forma mais ampla, puxadas por ações de energia, mineração e tecnologia; na Ásia, os mercados fecharam em alta, estendendo o rali recente em Wall Street.
  • Dólar (DXY) em leve alta e petróleo sobe, mas sem movimentos bruscos, ainda resiliente às questões geopolíticas; minério de ferro oscila em queda, após máximas recentes e observando a inflação na China.

Destaques do dia

  • O payroll dos Estados Unidos está no centro das atenções hoje, com consenso projetando criação de cerca de 60 mil vagas e queda da taxa de desemprego para 4,5%. A leitura será crucial para as expectativas de juros do Federal Reserve (Fed, o banco central americano).
  • No Brasil, o IPCA de dezembro, o índice oficial de inflação, está no calendário e pode influenciar o debate doméstico sobre juros e consumo.
  • E daí? Esses dois indicadores — um externo e um doméstico — pintam o quadro macro para o futuro do juro básico. Com uma economia perdendo força e um mercado de trabalho mais fraco, a inflação tende a cair e, com isso, elevar ainda mais as apostas de corte de juros.

Giro pelo mundo

  • Payroll em foco: mercado de trabalho dos EUA segue como principal ponto de atenção antes da divulgação de amanhã, com reflexos em juros e dólar.
  • Suprema Corte dos EUA: autoridade discute a legalidade das tarifas comerciais globais do presidente americano Donald Trump.

Giro pelo Brasil

  • Inflação na pauta: o IPCA de dezembro vai ajudar a reforçar ou a esfriar a trajetória de controle da inflação em relação à meta, de 3%, com teto em 4,5% ao ano.
  • Narrativas políticas continuam ecoando no mercado, agora com o governo decidindo que os Estados e municípios deverão cobrir o rombo dos fundos de previdência do Master. A novela sobre a anulação ou não da decisão do Banco Central de liquidar a instituição segue no radar.

Giro corporativo

  • GPA anunciou a renúncia de Rafael Russowsky dos cargos de vice-presidente executivo financeiro e diretor de relações com investidores. A função será acumulada interinamente pelo novo CEO, Alexandre Santoro, em meio a planos de corte de custos e reestruturação interna.
  • Alphabet supera Apple em valor de mercado: a controladora do Google ultrapassou a Apple e virou a segunda empresa mais valiosa do mundo em capitalização, depois da Nvidia, refletindo o papel crescente da tecnologia no mercado global.
  • Política alimentar nos EUA pode beneficiar carnes brasileiras: uma nova diretriz nos Estados Unidos favorece o consumo de proteína vermelha, o que pode representar um cenário de demanda para exportadoras como JBS (JBSS3) e Marfrig (MRFG3).
  • O grupo Rio Tinto está em negociações para comprar a Glencore e criar a maior mineradora do mundo, com valor de mercado combinado superior a US$ 200 bilhões, pouco mais de um ano depois de conversas anteriores entre as duas empresas terem fracassado.

Agenda do dia

  • 9:00 – IPCA (Brasil)
  • 10:30 – Payroll (EUA)
  • 10:30 – Construção de novas casas (EUA)
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Mercados hoje: dados de emprego nos EUA e política brasileira movimentam os negócios

Bom dia!
Os mercados acordam à espera dos dados de emprego nos Estados Unidos. Relatórios de emprego e desemprego serão divulgados ainda pela manhã, com potencial de ditar o rumo dos ativos lá fora e também no Brasil, onde a agenda é marcada pelo fluxo cambial e por temas políticos. Vamos aos pontos principais para abrir o pregão.

Enquanto você dormia…

  • O mercado global operou com pouca direção clara, em compasso de espera pela agenda de dados.
  • Futuros de NY: S&P 500 e Nasdaq em leve queda.
  • Europa e Ásia: bolsas europeias próximas da estabilidade; Ásia fechou também encerrou com os índices se movendo sem direção definida antes da leva de indicadores econômicos.
  • Dólar (DXY) em leve queda; petróleo e minério de ferro estáveis.

Destaques do dia

Emprego nos EUA é o grande termômetro
O grande destaque externo do dia são os dados de emprego dos Estados Unidos. Às 10h15 sai o relatório de emprego privado da ADP de dezembro, seguido mais tarde pela pesquisa JOLTS de vagas e rotatividade.

E daí? Emprego mais forte significa inflação potencialmente mais forte, e isso tende a diminuir expectativas de cortes de juros. Nesse cenário, os investidores se afastam de ativos de risco, enquanto dados mais fracos fazem o caminho contrário.

Giro pelo mundo

  • ADP e JOLTS em foco: indicadores do mercado de trabalho americano são vistos como prévia do payroll, o mais importante relatório de emprego e desemprego, e podem balizar decisões de política monetária.
  • Fed em cena: Michelle Bowman, dirigente do Fed, participa de evento hoje à noite, com possíveis comentários a mercado.
  • PMIs e inflação ao redor: leituras recentes e posteriores de atividade e inflação ajudam a compor o quadro de crescimento global esperado.

Giro pelo Brasil

  • Fluxo cambial semanal: números aguardados hoje devem dar pista sobre fluxo de capital, que é importante para câmbio e juros.
  • Agenda política no radar: movimentos políticos em Brasília podem ganhar importância para o clima de risco no curto prazo. Entre os eventos recentes, o PT ingressou com ações judiciais contra políticos de oposição que ligaram o partido e o presidente Lula ao narcotráfico nas redes, adicionando ruído no cenário.
  • Cenário eleitoral em movimento: Marina Silva descartou disputar a Câmara, mas uma eventual candidatura ao Senado dependerá de articulações com o ministro Haddad, o que pode movimentar expectativas sobre o ambiente político.

Giro corporativo

  • Petrobras e Foz do Amazonas: a Petrobras anunciou a interrupção temporária da perfuração do poço Morpho, na Bacia da Foz do Amazonas, após a detecção de um vazamento de fluido em uma tubulação auxiliar. A ocorrência volta a chamar atenção para os desafios ambientais e regulatórios associados à exploração na região, vista como uma das principais apostas da estatal para ampliar sua produção no futuro.
  • Batistas e a Venezuela: o grupo J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista, tem no geólogo Ricardo Savini — CEO da Fluxus, empresa controlada pelo grupo — um nome chave na estratégia de explorar oportunidades no setor de óleo e gás da Venezuela, que detém as maiores reservas de petróleo do mundo.
  • BYD acelera planos no Brasil: a montadora chinesa negocia a estreia de seus modelos em grandes locadoras e investe na expansão de sua rede de carregadores ultra-rápidos, aprofundando sua presença no mercado brasileiro de veículos eletrificados e intensificando a concorrência local.

Agenda do dia

  • 09:15: Emprego privado (ADP, EUA) — prévia da criação de vagas no setor privado.
  • 12:00: JOLTS (EUA) — vagas e rotatividade de emprego, outro componente importante do mercado de trabalho.
  • 14:30: Fluxo cambial semanal (Brasil) — indicador de entrada e saída de capital no país, relevante para câmbio e juros

Bons negócios!

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Promissor e turbulento: as expectativas para o mercado brasileiro em 2026, segundo o BTG

O ano de 2026 deve repetir uma parte da dinâmica de 2025. Ou seja: atividade mais fraca, inflação em desaceleração e uma perspectiva de juros mais baixos no mundo e até no Brasil. O que vai mudar? A turbulência do ano eleitoral. Uma Selic em queda junto com a aproximação do pleito cria um ambiente em que oportunidades e riscos caminham lado a lado, e a cautela será a ordem do dia.

Primeiro, o cenário econômico. Para o BTG, a atividade deve perder algum fôlego: após crescer 2,2% em 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) deve avançar cerca de 1,7% em 2026. Essa desaceleração reflete os efeitos defasados de uma política monetária que permaneceu bastante restritiva por um período prolongado.

O Banco Central nem de longe indicou que haverá um corte de juros em breve, mas o BTG trabalha com a mesma perspectiva de muitos economistas: a política monetária será o principal fator positivo no início do ano porque ela levará a Selic, hoje no maior nível em quase duas décadas, a uma trajetória de queda.

A projeção do banco é de uma redução da taxa básica de juros para 12% ao final de 2026. É um nível que mantém os juros reais elevados, mas que já altera de forma significativa o ambiente para ativos domésticos. E é o que beneficia especialmente setores mais sensíveis ao custo do crédito e às taxas de longo prazo – varejo e consumo entre eles.

O lado fiscal, de novo

O problema mesmo está na agenda fiscal do governo. Se, por um lado, a queda dos juros oferece algum alívio, a política fiscal segue como o principal ponto de fragilidade do Brasil e para os mercados.

A relação entre a dívida do governo e o PIB permanece elevada, próxima de 80%, e o déficit nominal continua pressionado pelo peso das despesas com juros. Quer dizer: de um lado, o governo está gastando muito em relação à riqueza que a economia gera.

Por outro lado, o juro alto faz a dívida do governo ficar mais cara – e o juro está alto justamente para conter a inflação, que sobe quando o nível de gastos do governo é grande. Uma coisa se alimenta da outra.

Nessa frente, as coisas não caminham bem. O relatório do BTG avalia que não há disposição política para um ajuste fiscal relevante antes das eleições, o que torna improvável qualquer leitura mais consistente em 2026. A trajetória das contas públicas virou um risco estrutural, capaz de limitar a queda dos juros longos e aumentar a sensibilidade do mercado a choques políticos.

As eleições no meio do caminho

É por isso que a eleição presidencial vira o principal fator de volatilidade especialmente no segundo semestre. Nos primeiros meses de 2026, o impacto político tende a ser menor, favorecido pelo recesso do Congresso e pelo foco dos investidores no corte de juros. Com o avanço do calendário eleitoral, porém, as pesquisas passam a ter peso crescente sobre os preços dos ativos.

O presidente Lula segue competitivo, com níveis de aprovação em torno de 43%, enquanto a definição do principal nome da oposição ainda gera incertezas. A permanência de Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, na disputa é vista como um fator de risco pelo mercado, devido à sua alta rejeição.

De outro lado, a candidatura do atual governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, é interpretada como um cenário mais construtivo, por sinalizar maior previsibilidade e disciplina fiscal. À medida que as pesquisas se tornam mais apertadas, o relatório projeta aumento da volatilidade e uma postura mais defensiva por parte dos investidores.

O cenário internacional e o quão baratas estão as ações

No cenário internacional, o ambiente é menos favorável do que em 2025, mas ainda relativamente benigno. Os Estados Unidos devem manter os juros estáveis ao longo de boa parte de 2026, após uma sequência de cortes iniciados neste ano e que deu enorme amparo para os ativos brasileiros no geral – juro menor lá fora estimula a procura por ativos mais arriscados ao redor do mundo, afinal.

Ainda assim, a ausência de um novo aperto nas condições financeiras globais evita pressões mais severas sobre mercados emergentes. Para o Brasil, o fator determinante segue sendo doméstico: a dinâmica dos juros locais e a percepção de risco fiscal e político é o que ganhará evidência.

O outro ponto que ajuda na tendência positiva para o mercado é que, apesar da forte alta da bolsa de valores em 2025, os ativos brasileiros ainda são negociados a preços relativamente baixos, inclusive do ponto de vista do investidor estrangeiro, o grande comprador de papéis neste ano – até dezembro, foram R$ 25 bilhões destinados ao mercado secundário (ações já listadas).

Isso porque o mercado americano, apesar da perda de força recente, mostrou um movimento muito forte nos últimos anos, impulsionado pelas empresas ligadas a inteligência artificial. O espaço para altas adicionais ainda existe porque essas empresas ainda são muito lucrativas, mas esse desempenho tão forte estimula que os “gringos” busquem outras opções.

Os preços dos ativos domésticos mais baixos também valem para o investidor local. O mercado continua cauteloso com o cenário fiscal e político, é um fato. Quando o nível de desconfiança está alto entre os investidores, eles só compram ações se elas estiverem realmente baratas (ou forem avaliadas dessa forma). Ou seja, o nível de “desconto” dos papéis na bolsa é grande, deixando os preços longe do que seria o seu “valor justo”.

Caso o processo eleitoral sinalize maior compromisso com o controle das contas públicas ou algum alívio nessa frente ocorra, essa percepção tende a melhorar, abrindo espaço para uma valorização adicional dos ativos. Nesse ambiente mais favorável, o BTG projeta crescimento expressivo dos lucros das empresas em 2026, especialmente nos setores ligados ao mercado interno, como bancos, serviços básicos, varejo e construção civil.

Em termos simples, o banco acredita que há motivos suficiente para que os ativos locais sigam em alta ao longo de 2026. Mas a tese passará por um teste de fogo, balançada pelo aumento da volatilidade e pelas tentativas dos investidores de incorporar aos preços as expectativas para a agenda econômica no futuro.

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Às vésperas do Copom, taxas dos CDBs curtinhos caem. Nos de vencimento longo, elas sobem

Às vésperas da reunião do Banco Central para definir o futuro da Selic, os rendimentos dos CDBs de prazo mais curto registraram queda, enquanto os títulos de prazo maior registraram avanços nas taxas oferecidas aos investidores.

Nos produtos com prazo mais curto, a remuneração caiu. Entre os títulos com vencimento em 3 meses, a taxa média de retorno saiu de 101,75% do CDI no fim do mês passado para 101,45% agora, enquanto os títulos para seis meses estão pagando em média 100,81%, contra 101% do CDI antes.

Já nos títulos mais longos, entre 12 e 24 meses, o movimento foi inverso: nos produtos de um ano meses, a remuneração saiu de 100,30% para 100,59%; nos de 24 mess, de 99,75% para 100,23%. Os dados foram levantados pela Quantum Finance a pedido do InvestNews.

A movimentação nas taxas do CDBs acontece na mesma semana em que o BC deve decidir por manter a taxa Selic em 15% ao ano. A decisão sai na quarta-feira (10), mesmo dia em que também será divulgada a decisão do Fed, o banco central dos EUA, para os juros americanos. Lá fora, deve haver um corte de 0,25 ponto percentual na taxa.

Aqui, o que tiver de novidade provavelmente virá só do comunicado do Copom, o Comitê de Política Econômica, que decide os rumos dos juros. A expectativa é que venham mais pistas para um provável início dos cortes no início de 2026.

Se a perspectiva é de que a Selic tem espaço para cair, como acontece agora, os títulos mais curtos acabam se ajustando nessa direção. Mas essa moeda tem outro lado. Juros menos estratosféricos criam uma economia mais forte e um ambiente em que os bancos voltam a expandir suas operações de empréstimo. A demanda dos bancos por captação, consequentemente, aumenta.

Para tornar seus CDBs mais atraentes e garantir que o dinheiro entre, então, as instituições elevam as taxas. De qualquer modo, esse é um movimento de curto prazo. Não indica uma tendência duradoura.

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Se quiser cumprir a meta de inflação, BC deve segurar a Selic em 15% até março de 2026, diz Volpon

O Banco Central vive um dos seus maiores dilemas desde que parou, em junho, de subir o juro básico: quando vai começar a reduzi-lo. Mas se quiser realmente manter o compromisso com a meta de inflação, de 3%, a autoridade terá de segurar a Selic em 15% ao ano, no mínimo, até o fim do primeiro trimestre de 2026. Essa é a opinião do ex-diretor do Banco Central, Tony Volpon.

Tanto a queda da inflação quanto a convergência dela para as expectativas dos economistas ainda são “extremamente modestas e lentas”. A leitura é clara: subir juros quando a inflação está em alta é uma decisão fácil. O difícil é tomar essa decisão quando a inflação começa a cair. “Aí veremos qual é o compromisso real com a meta”, diz Volpon em entrevista ao InvestNews.

O último boletim Focus, divulgado pelo próprio BC e que reúne projeções do mercado para alguns indicadores econômicos, mostra que a mediana das estimativas para a inflação está em 4,55% para o fim do ano – acima, portanto, do teto da meta, que é de 4,50%, e bem longe do centro, de 3,0%.

Os dados mostram que as estimativas estão em processo de “ancoragem”, um jargão para quando as previsões dos economistas se aproximam do objetivo indicado pelo BC. O ritmo, porém, ainda é de conta-gotas – o que significa que não é óbvio pensar em um corte da Selic tão cedo assim e que há um nível muito grande de otimismo entre aqueles que esperam um corte em breve.

O papel do BC é levar a inflação para a meta. Ponto. Mas a parte trabalhosa desse processo é enfrentar pressões e críticas de vários setores. Esse será o momento em que se revelará o quanto Gabriel Galípolo, atual presidente da autoridade, conseguirá manter a rota da política monetária.

A tal hora da verdade já se aproxima, na leitura de Volpon. Na reunião de dezembro, possivelmente, o BC vai deixar mais clara a sua leitura para os próximos meses.

A dificuldade em determinar o ponto de virada da Selic é a política fiscal expansionista do governo, com um nível de gastos que estimula o consumo e mantém, portanto, a economia crescendo acima do potencial – ou seja, da taxa que não estimula a inflação. Se o governo gasta mais, ele aumenta seu próprio endividamento e estimula que os preços sigam em alta por meio do consumo.

É aí que, mais uma vez, volta-se ao problema básico da economia brasileira: o governo e o BC estão em direções opostas. Enquanto o primeiro busca acelerar o crescimento, o segundo precisa manter uma política monetária contracionista para compensar o impulso fiscal. “O gasto social hoje é quase o dobro do que tínhamos antes da pandemia”, diz o ex-BC.

Entre os grandes pontos de dificuldade do governo em atacar os problemas fiscais está em tentar elevar a arrecadação por meio de uma agenda de aumento de impostos ao mesmo tempo em que faz concessões, caso de medidas como a isenção de imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil, que passa a valer em 2026. E isso sem falar no potencial aumento de gastos em ano de eleição – elementos que têm tudo para continuar aquecendo o consumo.

A grande dificuldade do BC está também no fato de que a inflação de serviços, justamente pelo estímulo ao consumo, é que mais demora a responder à política monetária apertada. É mais um elemento para a conta da autoridade na hora de calibrar o espaço que existe – ou não – para pensar em um corte.

Volpon também ressaltou que a chamada taxa neutra de juros, ou seja, aquela que mantém o crescimento da economia sem estimular a inflação, não só aumentou como provavelmente já está acima do que o BC imagina.

Uma taxa neutra mais elevada tem impacto direto sobre o nível e o tempo que o BC precisa manter a Selic elevada. O risco é que, mesmo com a taxa básica em 15% ao ano, o maior nível em uma década, isso ainda não seja suficientemente contracionista quanto se acredita. “Se a política monetária estivesse tão apertada quanto dizem, o IPCA já teria caído muito mais rapidamente.”

Para tomar qualquer decisão sobre uma mudança no ciclo de juros do Brasil, então, só tem um caminho: esperar para ver como a economia vai se comportar no início do ano que vem. No comunicado da decisão de hoje, o BC acrescentou um trecho em que diz que a “inflação cheia e as medidas subjacentes apresentaram algum arrefecimento”. O tom do comunicado, porém, seguiu com o mesmo, mostrando preocupação em relação à trajetória do IPCA.

É diante de tudo isso que o BC terá a difícil escolha de abandonar a meta inflacionária ou compensar todo o cenário fiscal com juros elevados, sem espaço para cortes.

E esse debate é como repetir a história: o economista citou episódios passados, como entre 2011 e 2014, quando o BC dizia perseguir o centro da meta de 4,5%, mas mirava mesmo o topo da banda, em torno de 6,5%. A ver os próximos passos.

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Sem ‘ajuda’ do câmbio, queda da Selic depende ainda mais do cenário fiscal, diz Carlos Kawall

O câmbio deixou de ser um vento a favor do controle da inflação no Brasil e, daqui para frente, o ajuste fiscal – que o Brasil não está conseguindo cumprir – terá mais importância no trabalho do Banco Central de reduzir os juros. Essa é a opinião de Carlos Kawall, ex-secretário do Tesouro Nacional e diretor da Oriz Partners.

No acumulado do ano, o dólar acumula uma queda de 15% contra o real. A valorização da nossa moeda ajuda a conter a inflação na veia porque torna os produtos importados e os insumos fiquem mais baratos em reais, reduzindo custos – e segurando preços.

Na prática, um câmbio amigo do real faz uma parte do trabalho da Selic, que é o de frear a inflação. E deixa o BC mais propenso a reduzir os juros.

No diagnóstico de Kawall, a queda recente da inflação derivada da apreciação do real foi o que baixou as projeções do mercado para o IPCA no fim do ano, de 5% para perto de 4,5% em 12 meses. “Mas esse vento a favor se exauriu”, diz o economista.

O problema é o seguinte. O dólar caiu em grande parte por conta da expectativa de cortes nos juros dos EUA. Quanto menos juros os americanos pagam, mais o dólar tende a perder valor ante outras moedas. Os primeiros cortes vieram. O mais recente, nesta quarta (29), reduzindo a “Selic” dos EUA de 4,25% para 4%. Mas o próprio banco central americano sinalizou uma provável pausa nos cortes. Menos pressão de baixa para o dólar, portanto.

Sem a ajudsa do câmbio, a política doméstica passa a ditar o ritmo – especialmente o lado fiscal, que tende a ganhar destaque em ano eleitoral. “Lado fiscal” significa o governo aumentar seus gastos (em subsídios, por exemplo). Isso aumenta a atividade econômica. Em outras palavras, coloca mais moeda em circulação.

Juros combatem a inflação drenando dinheiro da economia. Se o governo faz o oposto, o Banco Central não tem como baixar a Selic – no limite, tem de aumentar. “Quem define o juro é a política fiscal”, resume o economista.

Três fatores

No cenário-base das previsões do mercado, a Selic começaria a cair em janeiro e termina o ano em 12,5%. A atividade econômica mostra sinais de desaceleração, embora de forma desigual: o setor de serviços segue resiliente, apoiado por um mercado de trabalho ainda aquecido – “o coração da inflação”, segundo Kawall —, enquanto o crédito e os investimentos já perdem fôlego. Essa diferença de ritmo explica por que o processo de desinflação ainda caminha devagar.

Os serviços resistem justamente por serem pouco sensíveis ao câmbio. Seus preços derivam de salários e consumo interno, não de importados, o que faz com que eventuais oscilações do dólar tenham baixo impacto imediato. Mesmo com uma depreciação da moeda americana, o repasse nesse segmento é limitado e demorado, mantendo um pedaço importante da inflação mais rígido.

Ainda assim, há três fatores que abrem espaço para o corte de juros. O primeiro é o juro real em nível recorde, que continua fortemente contracionista mesmo com reduções graduais da Selic.

O segundo são os efeitos defasados da política monetária, que seguem atingindo os setores mais dependentes de crédito – como bens duráveis, imobiliário e investimentos corporativos – antes de se espalhar para serviços.

E o terceiro é o arrefecimento do emprego: se a criação de vagas desacelera, isso tende a aliviar a pressão sobre salários e, por consequência, sobre os preços de serviços.

Por fim, uma visão otimista. Caso o câmbio permaneça relativamente estável, o risco de novos repasses de preços vindos de importados, combustíveis e fretes diminui. Esse cenário permite ao Banco Central iniciar o ciclo de cortes, ainda que com prudência, calibrando as reduções para combater a inflação sem reacender a demanda. Esse já é um desafio nada trivial para o BC. Mas, se a parte fiscal não ajudar, se tornará impossível.

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Debêntures incentivadas estão pagando menos que o Tesouro Direto, mas ainda valem a pena

A recente corrida por debêntures incentivadas fez o preço delas disparar no mercado. Na renda fixa, a regra é simples: se o preço sobe, as taxas de remuneração caem.

E elas caíram muito, a ponto de ficarem abaixo dos títulos do Tesouro.

Aí você se pergunta: se eu corro mais risco em um papel privado, por que aceitaria ganhar menos do que num título público, intrinsecamente mais seguro? A resposta está no imposto: a isenção cria um abismo entre papéis tributados e os isentos no resultado líquido – o único resultado que importa.

A busca pelos isentos disparou quando a Medida Provisória 1.303, que alterava as regras de IR para várias aplicações financeiras, colocou a isenção em dúvida. Para não perder o benefício, que terminaria a partir de 2026, muita gente comprou debêntures incentivadas. Com a demanda lá em cima, deu-se o fenômeno que falamos aqui: preços lá em cima, e taxas lá embaixo.

Investidores exigem uma taxa extra para comprar títulos privados. É o chamado “prêmio” na comparação com os títulos públicos. E ele ficou negativo contra as NTN-Bs (popularmente conhecidas como Tesouro IPCA+). Em setembro, o Idex-Infra, indicador criado pela gestora JGP que acompanha os prêmios das debêntures incentivadas, fechou em -0,32 ponto percentual.

Ou seja: título privado pagando menos que título público.

Mas quando você coloca a isenção de imposto na mesa, essa realidade muda. As debêntures incentivadas, criadas para financiar projetos de infraestrutura, não pagam IR sobre o rendimento. Os títulos do Tesouro pagam. A alíquota que começa em 22,5% para aplicações até 180 dias e cai para 15% nos prazos mais longos, acima de 720 dias.

Para comparar de verdade, então, é preciso levar isso em conta. Vamos aos números.

Em março de 2025, a Ecovias Raposo Castello fez uma emissão de debênture incentivada a IPCA + 8,17% ao ano, isenta de IR. Para um Tesouro IPCA+ “empatar” com essa rentabilidade líquida, ele precisaria pagar IPCA + 9,62%. Esse é o tamanho do imposto.

Essa debênture da Ecovias que escolhemos para o exemplo tem vencimento em 2029. Um Tesouro IPCA+ de mesmo prazo está pagando, hoje, IPCA + 7,86%. Ou seja, substancialmente menos em termos líquidos – os únicos que importam, não custa repetir.

Em suma: num cenário em que as debêntures incentivadas estão pagando só um pouco abaixo das NTN-Bs, como o de hoje, o fato é que elas seguem pagando um bom prêmio de risco.

Não fazem mais do que a obrigação, afinal.

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