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50 anos do golpe na Argentina: a ditadura que mais matou no continente foi a que teve mais condenados

Pessoas colocam cartazes em um poste em memória das vítimas da ditadura militar na Argentina. Foto: Divulgação

Por Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

Oficialmente denominada “Processo de Reorganização Nacional”, a ditadura militar que governou a Argentina entre 24 de março de 1976 e 10 de dezembro de 1983 aplicou um plano sistemático para sequestrar, torturar, roubar bebês, roubar bens, matar pessoas e desaparecer corpos até hoje procurados, vítimas de um terrorismo de Estado.

O golpe militar foi justificado pela luta contra o comunismo no contexto da guerra fria, apoiado por setores conservadores e amparado pela doutrina da Segurança Nacional ditada pelos Estados Unidos.

O plano sistemático contra opositores incluiu 814 centros clandestinos de prisão, tortura e morte, equivalentes a campos de extermínio, sendo o maior de todos a Escola de Mecânica da Armada (ESMA), hoje um museu da memória, onde entraram cerca de cinco mil pessoas e saíram em torno de 250.

Ricardo Coquet, de 73 anos, é um dos sobreviventes. Foi sequestrado em 10 de março de 1977 ao sair da famosa confeitaria Las Violetas de Buenos Aires.

“Fui me encontrar com um primo que me daria roupa e algum dinheiro. Todos os nossos camaradas estavam a ser capturados. Ao sairmos, quando caminhávamos ao carro dele, passou um caminhão com vários armados que me sequestraram. Eu tinha uma pastilha de cianureto, como muitos de nós, para o caso de sermos presos. Tomei a pastilha e avisei-lhes que não me venceriam. Além de vários golpes, deram-me injeções para evitar o efeito. Estavam preparados”, recorda Ricardo à RFI, então militante da Juventude Trabalhadora Peronista.

Ele foi levado para a ESMA, onde ficou até 3 de dezembro de 1978, quando ganhou “liberdade vigiada” após um acidente que lhe amputou quatro dedos na carpintaria do centro clandestino, onde realizava trabalhos sob regime de escravidão.

“O pior de ser um sequestrado sob tortura é a loucura de viver a cada minuto sem saber se você estará vivo no minuto seguinte. As torturas eram choque elétrico e golpes. Uma semana na solitária; outra semana de golpes. Sempre queriam que eu entregasse os demais militantes”, conta.

As vítimas denominadas pelos militares como “subversivos” eram, na sua maioria, militantes de movimentos e partidos de esquerda, estudantes universitários e sindicalistas.

“O caso argentino baseou-se no desaparecimento forçado como método modalidade mais comum, mas teve modalidades únicas como os voos da morte e o roubo sistemático de bebês”, aponta à RFI o historiador e escritor uruguaio, Aldo Marchesi, autor de “Hacer la Revolución”, sobre grupos armados durante as ditaduras dos países do Cone Sul (Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai).

Ricardo Coquet sobreviveu por quase dois anos na ESMA. Foto: Marcio Resende

Voos da Morte

A Junta Militar que governava o país era consciente que não poderia manter milhares de pessoas presas, que não poderia fuzilar e enterrar tamanha quantidade de pessoas sem que o movimento ganhasse estado público e recebesse críticas internacionais, sobretudo do Vaticano. Já havia o exemplo de fuzilamentos por parte do regime de Franco, na Espanha, e de Pinochet, no Chile. Era preciso desaparecer com os corpos e, para isso, a modalidade criada logo no primeiro ano do regime foram os “voos da morte”.

Os militares chamavam a modalidade de “traslados” porque os prisioneiros achavam que seriam transferidos para outro centro clandestino. Também eram conhecidos internamente como “voos de portas abertas”. Com a redemocratização, foram descobertos os voos nos quais aviões das Forças Armadas lançavam pessoas vivas, mas drogadas, ao rio da Prata e ao mar.

Cada voo transportava entre 25 e 30 pessoas às quais se injetava pentotal sódico, uma substância que as deixava em estado de sonolência. Eram lançadas nuas para que, uma vez decompostos os corpos e comidos por peixes, não deixassem rastros.

No entanto, vários corpos mutilados apareceram na margem uruguaia do rio da Prata, na costa atlântica do Uruguai e também em praias de localidades argentinas, sendo enterrados como desconhecidos em cemitérios locais.

As primeiras autópsias em restos humanos recuperados foram feitas pelo médico legista Roberto León Dios em 1977. Quando trabalharia sobre o terceiro cadáver, recebeu a ordem militar de interromper o estudo. Misteriosamente, o médico faleceu 40 dias depois.

As freiras francesas Alice Domond e Leonie Duquet e as Mães da Praça de Maio, Esther Ballestrino, María Eugenia Ponce e a fundadora, Azucena Villafor, foram vítimas de um voo da morte em 14 de dezembro de 1977, depois de torturadas, por indagarem sobre desaparecidos.

O ex-repressor da ESMA, Adolfo Scilingo, reconheceu ao jornalista Horacio Verbitsky, em 1995, que 4.400 pessoas foram lançadas. Os organismos de direitos humanos calculam em cinco mil.

Estupros

Com frequência, as mulheres presas eram sexualmente violentadas.

“No meu caso, não houve penetração, mas sofri abusos sexuais. Em outros casos, mulheres foram estupradas. Ficávamos todos nus. Recebia choques elétricos nas genitais e na boca. Recebi tantos golpes que perdi uma gravidez de dois meses. Se eles soubessem que eu estava grávida, não me soltariam e teriam roubado o meu bebê, como fizeram com todas. Não me roubaram o bebê, mas mataram-no com tantos golpes e choques”, descreve à RFI Betina Ehrenhaus, de 68 anos, presa na ESMA quando tinha 21 anos.

Betina era uma militante peronista. Foi sequestrada em agosto de 1979 junto com o marido, Pablo Lepiscopo, de 24 anos, também peronista. Os dois tinham um táxi, fonte de trabalho do casal, roubado pelos militares. Devido à dupla nacionalidade de Betina (alemã), ela foi libertada três dias depois de sessões de tortura.

“Pablo nunca apareceu. Acreditamos que tenha sido jogado no rio num voo da morte”, lamenta Betina.

Betina Ehrenhaus sobreviveu, mas perdeu o marido e uma gravidez na ESMA. Foto: Márcio Resende

Roubo de bebês

A ditadura aplicou um plano sistemático de roubo de bebês, filhos dos torturados e mortos. Os bebês eram destinados a famílias de militares e de policiais. As Avós da Praça de Maio ainda procuram 392 netos, tendo recuperado 140 até agora, incluindo quatro no ventre das mães, mortas quando estavam grávidas.

O plano sistemático e perverso de roubo de bebês foi uma exclusividade da ditadura argentina.

Na ESMA, funcionou uma maternidade clandestina que serviu como centro de rapto de bebês das prisioneiras.

Durante os anos de 1990, após duas leis que garantiram a impunidade dos envolvidos, o roubo de bebês foi o único crime que levou uma dezena de repressores à prisão, incluindo os ex-ditadores Reynaldo Bignone e Jorge Videla, embora com mais de 70 anos de idade gozassem de prisão domiciliária.

Mães e avós da Praça de Maio
Assim como a ditadura argentina foi a mais sangrenta também gerou uma reação social como nenhuma outra na América do Sul.

Quase um ano após o golpe, em abril de 1977, mães de desaparecidos começaram a reunir-se na Praça de Maio, em frente à sede do governo e a escassos quarteirões dos prédios públicos por onde as mães percorriam em busca de respostas sobre o paradeiro dos seus filhos.

As reuniões estavam proibidas pelo estado de sítio, motivo pelo qual as mães tinham de circular. Por isso, rondavam o centro da praça, enquanto trocavam informações.

Até hoje as poucas Mães da Praça de Maio ainda vivas rodam a praça, religiosamente, às quintas-feiras, havendo completado 2.501 rondas.

Em outubro de 1977, começaram a usar um lenço na cabeça como elemento comum para se reconhecerem. Também naquele mês, algumas mães perceberam que também tinham de procurar pelos seus netos, derivando num segundo grupo, as Avós da Praça de Maio.

Os anos de 1990 foram marcados pela impunidade proporcionada por duas leis. Em 1995, os filhos que procuravam os seus pais fundaram H.I.J.O.S (acrônimo de FILHOS): Filhos e Filhas pela Identidade e pela Justiça contra o Esquecimento e contra o Silêncio, na sigla em espanhol.

O objetivo desse terceiro coletivo era promover a memória e a restituição da identidade dos filhos de desaparecidos.

Com o fim da impunidade a partir de 2005, a dinâmica priorizou o acompanhamento dos processos judiciais.

Ao tentar eliminar opositores, os militares argentinos acabaram criando um exército de parentes dispostos a continuar a luta das vítimas.

Um filho e um neto

Miguel Santucho foi levado para Roma quando completou um ano de idade, em 29 de outubro de 1976. O pai já estava na Itália. Em 13 de julho de 1976, quando Miguel tinha oito meses, a mãe dele, uma tia e uma companheira, as três militantes do Partido Revolucionário dos Trabalhadores, foram sequestradas. A mãe, Cristina Navajas, estudante de Sociologia, de 26 anos, estava grávida de dois meses. Segundo testemunhas, passou por três centros clandestinos. Foi vista pela última vez em 25 de abril de 1977 já sem o estado de gravidez.

Teria perdido o bebê ou teria parido? Miguel teria um irmão? Para reconstruir a sua história e para procurar esse eventual irmão, Miguel retornou a Buenos Aires, aos 17 anos, em 1993. Integrou o grupo HIJOS.

“Sabíamos que a minha mãe estava grávida e que tinha mantido a gravidez por vários meses. Supúnhamos que podia ter dado à luz, mas também existia a possibilidade de nunca tivesse parido. Nunca tivemos uma confirmação, mas a minha avó sempre sentiu a presença do neto”, explica Miguel à RFI.

A família acredita que Cristina tenha sido lançada num voo da morte. A avó de Miguel, Nélida Gómez de Navajas, era uma Avó da Praça de Maio que procurava pelo neto, irmão de Miguel. As cinzas de Nélida foram lançadas ao rio em 2012 como último pedido para estar junto da filha.

Em julho de 2023, Miguel atendeu uma chamada de vídeo. Era Daniel, o neto número 137 dos 140 até agora recuperados.

“Muito obrigado por continuar sempre a procurar-me e por não desistir nunca”, disse o irmão nascido no cativeiro de tortura da sua mãe. O dois choraram.

Daniel foi registrado como Daniel Enrique González. É provável que Enrique seja uma homenagem ao militar que cedeu o sobrenome González ao seu apropriador — um policial que, segundo Daniel, sequestrava pessoas para serem levadas aos centros clandestinos de tortura. Como recompensa pelos serviços prestados, o policial teria recebido um bebê. Hoje, Daniel usa os sobrenomes de sua família biológica: Santucho Navajas.

Ele cresceu em uma casa que defendia a ditadura. Aos 21 anos, começou a duvidar de sua identidade. Com a mulher que o apropriou já falecida, passou a pressionar o homem que o havia registrado, mas ele sempre negava. Ironicamente, seus apropriadores o registraram como nascido em 24 de março de 1977, data que marcou o primeiro ano do golpe de Estado. Daniel passou a vida comemorando seu aniversário no mesmo dia em que a ditadura o tirou de sua mãe

Enquanto continuava a duvidar da sua origem e a pressionar pela verdade, convivia com o medo e com a culpa de denunciar o apropriador que terminaria preso. Foram necessários outros 20 anos dessa angústia, de terapia e de coragem para Daniel ir até as Avós da Praça de Maio. Três meses depois do exame de DNA, aos 46 anos de idade, Daniel encontrou a sua verdadeira família. Depois descobriu que a sua certidão de nascimento fora alterada e que nascera em 10 de janeiro de 1977.

“Eu nasci prematuro, com pouco peso, em más condições, provavelmente devido às condições do parto da minha mãe num centro clandestino, a receber torturas, a passar fome e frio. Nessas condições, fui entregue aos meus apropriadores que, cinicamente, registram-me com a data do golpe militar. Em qual Deus essa gente acreditava para fazer algo assim?”, questiona Daniel.

O apropriador foi indiciado e ficou em prisão domiciliária à espera do julgamento, mas faleceu antes de ser julgado. “Morreu dois dias depois de eu ter o meu novo documento com a minha verdadeira identidade”, ressalta.

Daniel (esquerda) e Miguel Santucho se encontraram em 2023. Foto: Márcio Resende

Polêmica com o número de vítimas

Os organismos de direitos humanos defendem que o número de desaparecidos chega a 30 mil pessoas.

Nos últimos anos, uma série de vozes críticas passaram a questionar a cifra porque nenhuma lista inclui os nomes dessas pessoas.

Em dezembro de 1983, assim que o país recuperou a Democracia, o presidente Raúl Alfonsín (1983-1989) criou a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (CONADEP). Durante nove meses, a comissão reuniu provas com os nomes das vítimas para iniciar um processo penal contra as Juntas Militares.

Surgiu uma lista com 8.961 nomes confirmados, usada por críticos para questionar o número de 30 mil desaparecidos. No entanto, a própria CONADEP esclareceu que se tratava de “uma lista inevitavelmente incompleta”, devido à intensidade dos acontecimentos, à dificuldade de acessar todos os casos e ao medo que ainda mantinha muitas pessoas em silêncio.

“Sabemos também que muitos desaparecimentos não foram denunciados porque a vítima não tem familiares, porque os seus parentes preferem manter-se em silêncio ou porque vivem em locais muito afastados dos centros urbanos. Como esta comissão verificou durante as suas visitas ao interior do país, muitos familiares dos desaparecidos disseram-nos que, nos últimos anos, não sabiam a quem recorrer”, diz o relatório “Nunca Mais” da CONADEP.

O presidente Javier Milei, considerado um negacionista da ditadura, defende um número ainda inferior.

“Não foram 30 mil desaparecidos. São 8.753”, afirmou Milei.

Em março de 1977, quando completou um ano do golpe, Anistia Internacional divulgou que as vítimas já chegavam a 15 mil.

A partir de documentos desclassificados pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos em 2006 surgiu uma terceira cifra. Os documentos de inteligência revelaram que, até meados de 1978, os militares calculavam 22 mil vítimas entre desaparecidos e mortos, quando ainda viriam mais cinco anos de ditadura.

O emblemático número de 30 mil desaparecidos começou a ser difundido durante a terceira “Marcha da Resistência” em setembro de 1983.

Luis Labraña, ex-membro do principal grupo de guerrilheiros, os Montoneros, garante ser o inventor da cifra de 30 mil desaparecidos para chamar a atenção dos organismos de direitos humanos internacionais.

No entanto, investigações acadêmicas indicam que a soma de desaparecidos, de vítimas sobreviventes dos centros clandestinos, de presos políticos e de mortos, o número final aproxima-se dos 30 mil.

“Podemos calcular em 30 mil as vítimas da última ditadura que foram presas e desaparecidas, incluindo as que foram assassinadas e as que sobreviveram. O fato de que não se possa contar nem saber com exatidão o número foi parte do plano de repressão ilegal e clandestina: ocultar os nomes, os destinos, os corpos e visar à impunidade dos responsáveis pelos crimes que nunca colaboraram com a verdade”, diz o Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS), um dos principais organismos de direitos humanos da Argentina.

De qualquer forma, seja qualquer uma dessas cifras, nenhum outro país da região fez tantas vítimas em apenas sete anos. Nos 17 anos do ex-ditador chileno, Augusto Pinochet, outro regime sanguinário, o número de mortos e desaparecidos chega a 3.065.

Referência mundial de Justiça

No mundo, a Argentina é o país que mais julgou e condenou seus próprios militares. Dentre todos, os militares argentinos foram os únicos que não obtiveram, inicialmente, uma lei de anistia. A derrota na Guerra das Malvinas, em 1982, acelerou sua saída do poder, mas sem que tivessem força política para negociar qualquer forma de proteção.

“O governo militar teria terminado do mesmo jeito, assim como 42 países no mundo democratizaram-se nos anos 1980, mas as condições teriam sido diferentes sem a guerra”, explica à RFI o historiador Rosendo Fraga, diretor do Centro de Estudos Nova Maioria.

A derrota na guerra teve impacto, então, nas condições particulares da transição argentina. “O julgamento de militares hoje é consequência da incapacidade dos militares de negociar a transição devido ao enfraquecimento pela guerra”, avalia Fraga.

E assim como a Argentina foi uma referência, em 1983, para os países vizinhos ainda sob ditaduras, a falta de uma anistia para os militares argentinos alertou os ditadores da região para se cuidarem.

“A forma como os militares argentinos deixaram o poder não foi necessariamente para ser imitada, mas para que os vizinhos saíssem com uma anistia na mão”, compara Rosendo Fraga.

Países como Uruguai, Paraguai e, sobretudo, Chile, tiveram esse cuidado. A lei de anistia do Brasil, de 1979, é anterior ao exemplo argentino.

A influência argentina foi decisiva para a democratização do Chile. O ex-presidente argentino Raúl Alfonsín, comprometido com grupos anti-Pinochet, teve um papel fundamental na vitória do “Não” — o voto contra a continuidade do ditador Augusto Pinochet no plebiscito de 1988.

Pouco antes de deixarem o poder, em 22 de setembro de 1983, os militares argentinos tentaram aprovar uma “Lei de Autoanistia”, chamada de “Pacificação Nacional”. No entanto, cinco dias após assumir a presidência em um governo democrático, Alfonsín anulou o decreto, declarando-o “insanamente nulo”. Essa decisão marcou o início do difícil processo de “Memória, Verdade e Justiça” na Argentina.

Em 1985, a CONADEP forneceu as bases para o julgamento dos principais responsáveis pelos crimes da ditadura argentina. Esse processo, conhecido como “Julgamento das Juntas Militares”, é considerado um marco histórico mundial.

O “Julgamento das Juntas Militares” começou em 22 de abril de 1985 e terminou em 9 de dezembro do mesmo ano. Dos nove militares de alta patente que integravam as três primeiras Juntas, cinco foram condenados:

Jorge Videla e Emilio Massera: prisão perpétua;
Roberto Viola: 17 anos de prisão;
Armando Lambruschini: 8 anos de prisão;
Orlando Agosti: 4 anos e 6 meses de prisão.
A reação dos militares, no entanto, foi imediata. Entre 1986 e 1987, uma série de levantes ameaçou a frágil democracia argentina, recém-reconquistada. Sob pressão, o Congresso aprovou duas leis que garantiram impunidade aos torturadores e criminosos da ditadura:

Lei de Obediência Devida (1986): alegava que militares de postos inferiores não poderiam ser punidos, pois estavam “apenas cumprindo ordens” — exceto em casos de estupro ou roubo de bebês.
Lei de Ponto Final (1987): determinava a interrupção imediata de todos os processos judiciais contra acusados de desaparecimentos forçados.
A impunidade se consolidou em 1990, quando o então presidente Carlos Menem (1989-1999) indultou os condenados no “Julgamento das Juntas Militares”, encerrando suas penas.

A virada começou apenas em 1998, quando o Congresso revogou as leis de Obediência Devida e Ponto Final. O processo ganhou força em 2003, quando o presidente Néstor Kirchner (2003-2007) impulsionou a anulação definitiva das leis, desta vez com apoio do Congresso. Dois anos depois, em 2005, a Corte Suprema argentina declarou as leis inconstitucionais, abrindo caminho para uma nova fase.

A Argentina iniciou, assim, a maior onda de julgamentos contra militares da História — superando até mesmo os processos de Nuremberg, que condenaram líderes nazistas. O país se tornou um marco global na luta por verdade e justiça, como destaca o historiador Aldo Marchesi: “A Argentina tornou-se uma referência mundial em matéria de verdade e de justiça. Há estudos que mostram como esse modelo foi replicado por outros países pelo mundo”.

Desde 2006, a Justiça argentina já condenou 1.202 pessoas por crimes de lesa-humanidade, em 353 sentenças. A maioria recebeu pena de prisão perpétua, reconhecendo os crimes como genocídio.

Atualmente, 539 pessoas cumprem pena, das quais 454 estão em prisão domiciliar (devido a idade avançada ou condições de saúde) e 213 foram absolvidas ao longo do processo.

Atualmente, 13 processos estão em julgamento na Argentina. Outros 60 estão próximos de serem julgados, enquanto 280 ainda estão em fase de investigação.

A Argentina se consolidou como o país que mais avançou no mundo em matéria de Justiça para crimes contra a humanidade. Esse progresso se deve a:

Quantidade de provas coletadas;
Responsáveis individualizados e identificados;
Número de julgamentos realizados;
Condenações proferidas;
Volume de testemunhos registrados.
O desafio da Justiça agora é julgar os responsáveis civis, empresários e grupos econômicos, ideólogos ou cúmplices dos militares.

Outro desafio enfrentado pelos organismos de direitos humanos é ter acesso aos arquivos do Estado, que contém informações essenciais para o avanço dos processos judiciais. Os organismos denunciam que o governo Milei bloqueou o acesso a esses arquivos, desmantelou equipes especializadas nesses arquivos e retirou o Estado como parte acusadora nos processos.

Brasileiros homenageados

Apesar dos avanços, o camainho para a justiça volta a enfrentar ameaças, desta vez vindas das novas gerações que se desconectaram do processo histórico e do atual governo do presidente Javier Milei, que defende o papel da ditadura.

Uma sondagem do CELS (Centro de Estudos Legais e Sociais) e do observatório Pulsar, da Universidade de Buenos Aires, indica que, apesar desigualdades persistentes na democracia, a rejeição à ditadura militar continua forte na Argentina. O estudo denominado “Olhares retrospectivos sobre a ditadura argentina 50 anos depois” indica que 71% consideram que a ditadura foi “ruim” ou “muito ruim”, 63% afirmam que não houve motivos que justificassem o golpe de Estado e 70% acreditam que o Estado deve continuar a julgar os militares pelas violações aos direitos humanos.

No marco dos 50 anos do golpe de Estado, organizações sociais, movimentos de direitos humanos e partidos políticos de esquerda vão fazer uma grande manifestação em defesa da Memória, Verdade e Justiça, mas também contra o presidente Javier Milei.

Na manifestação da tarde desta terça-feira, pela primeira vez, brasileiros desaparecidos na Argentina serão homenageados. São 12 brasileiros que foram vítimas no contexto da Operação Condor – uma aliança entre ditaduras sul-americanas para perseguir opositores, mesmo que eles cruzassem fronteiras.

Entre os homenageados estará Francisco Tenório Cerqueira Júnior, o Tenorinho, pianista que acompanhava Vinicius de Moraes e Toquinho em apresentações aqui em Buenos Aires.

A lista completa dos brasileiros homenageados:

Luiz Renato do Lago Faria

Sidney Fix Marques dos Santos

Maria Regina Marcondes Pinto

Roberto Rascado Rodriguez

Francisco Soares Rodriguez

Francisco Tenório Cerqueira Júnior

Sérgio Fernando Tula Silberberg

Edmur Péricles Camargo

Joaquim Pires Cerveira

João Batista Rita

José Luis Daura Saud

Ary Cabrera Prates

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“Estamos vendo o começo do fim do regime israelense”, avalia intelectual iraniano

Nuvem de fumaça após ataque ao Irã. Foto: Reprodução

Editado por: Rodrigo Gomes

Nunca antes na história, um país conseguiu causar tantos danos a bases estadunidenses pelo mundo, nem causar tanta destruição no território que Israel ocupa ilegalmente na Palestina, quanto o Irã nos últimos 13 dias. Segundo o apresentador e ex-membro do parlamento britânico, George Galloway, algumas de suas fontes anônimas em Tel Aviv têm reportado que partes da cidade agora se assemelham a Gaza, cruelmente bombardeada pelo regime sionista.

Prestes a completar duas semanas de resistência, o Irã parece estar dando as cartas na guerra neste momento, e pode ditar os termos do fim do conflito. Nos últimos dias, segundo alguns meios ocidentais, o governo iraniano teria sido procurado duas vezes pelo enviado especial de Donald Trump, Steve Witkoff, para sondagens a respeito de possíveis negociações. Teerã teria recusado o diálogo.

Após ser duas vezes traído em meio a negociações com os EUA — em junho de 2025 e março de 2026 — o governo do Irã não vê sentido em negociar agora. Ali Larijani, presidente do Conselho Supremo de Segurança do Irã, respondendo a um post de Donald Trump, que afirmava que os EUA deveriam ganhar a guerra em breve, afirmou que “começar uma guerra é fácil, mas seu fim não se consegue com alguns tuítes. Não os deixaremos em paz até que aceitem seu erro e paguem por ele”.

Autoridades persas têm afirmado que mal começaram a empregar seus mísseis mais sofisticados, enquanto as defesas estadunidenses e israelenses já começam a dar sinais de esgotamento. Também segundo meios ocidentais, os alarmes antimísseis em Tel Aviv, por exemplo, têm soado somente segundos antes de mísseis atingirem a capital do país, em vez dos 10 minutos tradicionais.

Enquanto isso, o recém eleito líder supremo, aiatolá Mojtaba Khamenei, fez seu primeiro pronunciamento oficial ao povo iraniano e deixou clara a intenção do governo revolucionário islâmico: “de qualquer forma, obteremos reparações do inimigo. Se ele se recusar, tomaremos de seus bens o montante que considerarmos adequado; e se isso também não for possível, destruiremos seus bens na mesma proporção”.

O aiatolá também fez um alerta aos países árabes da região, clamando para que fechem as bases estadunidenses de seus territórios, ou elas continuarão a ser atacadas. A essa altura, apesar dos inúmeros bombardeios sofridos em seu território e de mais de 1.200 pessoas assassinadas, impressiona a autoconfiança das lideranças iranianas, levando a crer que possuem total controle sobre a situação e têm clareza de sua estratégia.

O mesmo não pode ser dito das lideranças em Washington, que têm emitido mensagens contraditórias nos últimos dias, ao mesmo tempo em que vazamentos na mídia estadunidense dão notícia de inúmeras mudanças de sua estratégia desde o começo da guerra.

O Brasil de Fato conversou com um dos intelectuais iranianos mais conhecidos fora de seu país, Mohammad Marandi, professor de literatura e especialista em geopolítica, da Universidade de Teerã. Ele foi um dos consultores do governo iraniano nas negociações do JCPOA (2015-2018), que tentavam regular o programa nuclear iraniano em troca do alívio das sanções contra o país da Ásia Ocidental. Marandi acredita que “o sucesso impressionante do Irã nas últimas semanas é uma grande vitória para a humanidade. E é uma ótima notícia para a maioria global, porque lhes dará poder diante do império. Isso criará uma maior autoconfiança entre as nações”.

Confira abaixo a entrevista completa:

Brasil de Fato: No segundo dia da guerra, o líder supremo aiatolá Ali Khamenei foi assassinado em um bombardeio ao complexo onde vivia e trabalhava. Autoridades iranianas afirmaram que Khamenei se recusou a esconder-se em um abrigo, insistindo em permanecer nas mesmas condições que o resto da população. O que explica essa atitude por parte do líder de uma nação em guerra? Quais são as consequências dessa perda para a revolução islâmica?

Mohammad Marandi: O aiatolá Khamenei foi assassinado logo no início deste ataque ilegal. Ele estava em seu escritório, trabalhando, e seu escritório fica bem ao lado de sua residência. Ele se recusou a sair porque disse às pessoas que muitos iranianos, devido às sanções, estão passando por dificuldades e não têm para onde ir. Enquanto eles não tiverem para onde ir, eu não vou embora. Ele acreditava que seu escritório e sua residência eram alvos principais. Que, se a guerra recomeçasse, esse seria o primeiro lugar que eles atacariam.

Mas ele se recusou a ir e sua família se recusou a deixá-lo. E assim, seu heroísmo ressoa por todo o Irã. Ele sempre foi uma figura muito popular. Era um guerreiro da justiça social. Apoiava movimentos anti-imperialistas em todo o mundo e, claro, na Palestina. Ele era altamente educado, muito culto, profundamente conhecedor de literatura e fluente em quatro idiomas. Mas esse sacrifício que fez teve um enorme impacto na sociedade iraniana e fortaleceu a resistência e a resiliência do povo iraniano. Uniu-os ainda mais do que antes.

Trump foi eleito com a promessa de “chega de guerras” — uma das plataformas do Maga (sigla em inglês de Faça a América Grande Novamente — e pesquisas de opinião pública nos EUA mostram que menos de 30% da população apoia a guerra contra o Irã. Há alguns dias, Tucker Carlson, um dos líderes do Maga e apoiador de Trump, disse que os ataques dos EUA e de Israel são “malignos e repugnantes”. Por outro lado, esta guerra está fazendo com que os preços da energia (petróleo e gás natural) disparem, o que deve aumentar a inflação nos EUA (e em grande parte do mundo) e o custo de vida da população. A popularidade de Trump já é muito baixa, e este contexto aumenta suas chances de derrota nas eleições de meio de mandato em novembro. Ele mesmo afirmou recentemente que, se perder o controle das duas Casas, poderá enfrentar um impeachment. Diante de riscos políticos tão grandes, o que explica a decisão da Casa Branca de provocar essa guerra? Como você interpreta o discurso de Trump na última segunda (9), afirmando que a missão de sua guerra está quase concluída?

Acho que a razão pela qual ele disse que a missão está quase concluída e que eles venceram a guerra, apesar do fato de que, obviamente, eles estão perdendo, os Estados Unidos estão perdendo feio nesta guerra, é porque ele está buscando uma saída. Mas o Irã não lhe dará uma saída tão facilmente. Há condições que terão que ser cumpridas. Trump assumiu, como você corretamente apontou, com uma plataforma declarando que não haveria mais guerras. Mas ele está profundamente sob a influência dos sionistas.

Agora, seja porque eles estão fazendo chantagem e têm fotos ou filmagens dele nos arquivos de Epstein, ou seja, porque ele está cercado por sionistas — seu genro é sionista, seus amigos mais próximos são sionistas, sua equipe é toda sionista — eles colocam Israel em primeiro lugar, não os Estados Unidos. Ou pode ser uma combinação de todas essas coisas. Que eles têm informações comprometedoras sobre ele, mas também que ele está cercado por essas pessoas.

Mas, de qualquer forma, a razão pela qual a guerra aconteceu, é porque é do interesse do sionismo. É do interesse da classe Epstein, não do interesse do povo americano. É contra os interesses do povo americano. É contra os interesses do mundo. O mundo está pagando um preço agora, um preço econômico, porque os sionistas querem a guerra.

Presidente dos EUA, Donald Trump — Foto: REUTERS/Nathan Howard

Nas semanas que antecederam a guerra, vários analistas políticos e militares afirmaram que a China havia enviado equipamentos sofisticados de inteligência – como o navio Oceano Um e radares capazes de detectar aeronaves furtivas. Também há rumores de que a Rússia está fazendo algo semelhante. Pequim e Moscou emitiram declarações apoiando a soberania iraniana e criticando duramente os ataques criminosos dos EUA e de Israel. Ao mesmo tempo, a China recomendou cautela na contraofensiva do Irã em países da região, por exemplo, ataques a refinarias e fábricas de petróleo e gás na Arábia Saudita e no Catar. Há também rumores de que a Rússia está se oferecendo para mediar as negociações entre Teerã e seus vizinhos, e Putin conversou por telefone com Trump na segunda (9). Você concorda com essas análises? Como você avalia os possíveis desdobramentos nas relações do Irã com dois de seus parceiros mais estratégicos?

As capacidades do Irã são principalmente autóctones. Os mísseis, os drones, as bases subterrâneas, as fábricas subterrâneas que produzem mais mísseis e drones. A tecnologia autóctone está por trás de tudo isso. Tecnologia de ponta. É um sinal do brilhantismo iraniano que tenhamos criado uma capacidade militar tão eficaz contra a superpotência mundial e a coalizão que trabalha para ela. Porque todo o Ocidente está apoiando o regime genocida sionista e o regime de Trump nesta guerra.

E o mesmo vale para os representantes regionais, as ditaduras familiares árabes no Golfo Pérsico, Erdogan na Turquia, todos eles estão no campo americano. Então, acho que é bastante impressionante que o Irã tenha tanto sucesso. É extraordinário. Mas a relação do Irã com a Rússia e a China é muito boa. Eles se aproximaram ao longo dos anos. Após a Guerra dos 12 Dias, eles se aproximaram ainda mais. E, obviamente, a Rússia, a China e o Irã, nenhum de nós quer que a economia global entre em colapso.

Por isso, procuram uma saída para esta crise. O Irã nunca deixou de se preocupar. O Irã não quer esta guerra. O Irã quer que todos possam continuar com os seus negócios e quer poder continuar com os seus próprios negócios. Mas, para que isso aconteça, certas condições têm de ser cumpridas. Tem que haver reparação para todos os assassinatos e a destruição.

Os direitos e a soberania do Irã têm que ser reconhecidos. Tem de haver garantias reais de que os Estados Unidos nunca possam fazer isso de novo. Caso contrário, um cessar-fogo agora significaria, basicamente, que os americanos nos atacariam novamente, em alguns meses. Assim como vimos há oito, nove meses.

Apesar do enorme poder das forças armadas dos EUA e de Israel, muitos analistas militares afirmam que a indústria bélica dos EUA tem, atualmente, uma capacidade relativamente baixa para reabastecer seus estoques de armas a fim de enfrentar seus desafios. Por outro lado, analistas também afirmaram que, nestes primeiros dias de guerra, o Irã tem usado principalmente seus estoques de drones e mísseis antigos para desgastar as defesas do inimigo, e que está começando a usar seus mísseis mais sofisticados a partir de agora. Você concorda com essa análise? O que podemos esperar da resistência iraniana nos próximos dias?

Sim, essa análise está correta. Os iranianos têm usado primeiro todos os seus estoques antigos. E mesmo essas armas antigas têm causado danos devastadores. Elas não apenas esgotaram grande parte das defesas aéreas americanas e israelenses, mas muitas delas também conseguiram passar. E assim, gradualmente, os iranianos também estão usando tecnologias mais novas.

Eles ainda estão usando os mísseis e drones mais antigos, mas também os estão combinando com tecnologias mais novas. Mas as tecnologias mais recentes ainda não estão sendo usadas. Portanto, o Irã tem capacidade para continuar esta guerra até as eleições de meio termo nos EUA [novembro] e para além delas. Isto chocou os americanos. E o que também é importante é a fraqueza dos serviços secretos americanos e israelitas. Porque estimavam que os mísseis do Irã eram limitados. Mas agora vemos que o Irã está disparando drones e mísseis sem parar. Portanto, o Mossad e a CIA obviamente subestimaram muito.

Desde o fim da Guerra Fria (1991), os EUA se envolveram em inúmeras guerras, mas sempre com adversários militares muito mais fracos, como o Iraque (1991), a antiga Iugoslávia (1999), o Iraque (2003), o Afeganistão (2003), a Líbia (2010), a Síria (desde 2014), entre outros. O Irã parece ser o primeiro adversário capaz de responder adequadamente aos ataques dos EUA – e de Israel, simultaneamente. Independentemente do resultado final desta guerra, o Irã já alcançou feitos históricos, como atacar e praticamente destruir quase 20 bases americanas no oeste da Ásia , incluindo radares sofisticados – que custaram muitos bilhões de dólares – e infligir danos sem precedentes a Israel. Na sua opinião, quais são as possíveis consequências históricas de tais feitos iranianos? O Irã pretende expulsar os EUA da região para sempre?

Sim, o Irã quer garantir que, no futuro, os Estados Unidos não possam mais impor sua hegemonia sobre esta região e que se comportem como um país normal. O sucesso impressionante do Irã nas últimas semanas é uma grande vitória para a humanidade. E é uma ótima notícia para a maioria global, porque lhes dará poder diante do império. Isso criará uma maior autoconfiança entre as nações.

A resiliência do Irã, a resiliência do povo iraniano é única. E eles foram capazes de fazer o que todos pensavam ser impossível. Todos pensavam que o Irã entraria em colapso. Nós nunca pensamos isso. Mas fora do Irã, todos pensavam que isso seria moleza para os Estados Unidos. Portanto, o Irã está prestando um grande serviço à humanidade e esperamos que o mundo seja capaz de se libertar do jugo desse império maligno.

Durante décadas, o Irã vem implementando um plano estratégico — baseado no conceito de “economia de resistência” — para alcançar excelência tecnológica em certos setores, como energia nuclear, nanotecnologia, IA, medicina, aeroespacial e mísseis. Para começar, o país garantiu a massificação do ensino superior, que saltou de 175 mil estudantes, em 1979 (ano da revolução), para 4,8 milhões, em 2015. O Irã também se destaca hoje como um dos países que mais forma engenheiros no mundo (variando entre o 5º e o 7º lugar, dependendo do ano). É essa estratégia — que, aliás, se assemelha ao modelo chinês — que explica a resiliência do Irã nesta guerra, bem como sua capacidade de desferir um golpe contra a presença neocolonial dos EUA na região? Como essa estratégia foi debatida e desenvolvida no país? Qual foi o papel do líder supremo Ali Khamenei nessa estratégia?

O aiatolá Khamenei foi a figura-chave que promoveu a economia de resistência. Na verdade, essa expressão foi algo que ele começou a usar publicamente. E houve muita resistência em diferentes administrações a esse conceito. Se tivessem dado ouvidos a ele, estaríamos em uma posição ainda melhor hoje.

Mas os iranianos optaram por desenvolver suas próprias capacidades, sejam elas civis ou militares, escolheram um caminho independente na política externa, escolheram um caminho de independência na agricultura, na indústria e nos campos de alta tecnologia.

E, claro, tudo isso aconteceu sob sanções de pressão máxima, múltiplas guerras e terrorismo. Vimos há apenas alguns meses como a Mossad nos Estados Unidos matou centenas de policiais e voluntários nas ruas de diferentes cidades, criou um caos em massa e destruiu tantos serviços públicos.

Eles estão constantemente tentando minar o país, criar destruição. Vimos a guerra que eles travaram há oito, nove meses. Há 47 anos, eles vêm tentando minar o Irã. No entanto, sob essas sanções de pressão máxima, sob a guerra e apesar das guerras, do terrorismo e da propaganda anti-iraniana que espalham pelo mundo através de sua poderosa mídia, o Irã sobreviveu e prosperou e hoje está humilhando os Estados Unidos no campo de batalha.

De acordo com vários meios de comunicação ocidentais e regionais, Israel impôs um regime de censura rigoroso às imagens dos danos causados pelos ataques iranianos em Tel Aviv e outras cidades israelenses, tanto para canais de televisão como para vídeos de telemóveis gravados por cidadãos comuns. Por outro lado, há rumores nas redes sociais de um elevado número de vítimas em Israel e nos EUA, incluindo militares, agentes de inteligência (CIA e Mossad) e civis. Que dados públicos o governo iraniano tem sobre as baixas inimigas neste momento? Apesar da censura, imagens recentes de um ataque sem precedentes a Tel Aviv circularam pelo mundo. Há rumores de que o irmão de Netanyahu teria morrido e que o ex-ministro e líder de extrema direita Ben-Gvir estaria gravemente ferido. O governo iraniano confirma essas informações?

O que se pode dizer é que a devastação em toda a Palestina ocupada é enorme. E o próprio fato de haver uma censura sem precedentes e de o Ocidente concordar com ela mostra que as coisas estão muito ruins. Mas também mostra que a liberdade de informação é um absurdo no Ocidente. Eles só querem liberdade de informação quando isso serve aos seus interesses.

Mas quando isso vai contra seus interesses, não só o regime israelense pode impor censura, ou censura total, como todo o Ocidente vai cooperar com ele. Portanto, acho que isso expõe ainda mais a natureza da mídia ocidental, dos governos ocidentais e das instituições ocidentais. Mas o dano causado ao regime israelense é irreversível. No futuro, ninguém vai investir em Israel porque sabem que ele sempre será vulnerável.

Acredito que estamos vendo o começo do fim do regime israelense. O mundo o odeia por causa do genocídio em Gaza, dos ataques genocidas no Líbano e das guerras intermináveis. Mas o regime também se mostrou vulnerável, extremamente vulnerável.

E o mesmo se aplica a todos os representantes americanos no Golfo Pérsico, os sauditas, os emirados, os kuwaitianos, os bahreinitas, o governo de Omã, todos eles basicamente se permitiram ser ferramentas dos Estados Unidos. Permitiram que as bases americanas fossem usadas contra o Irã. E, no futuro, nunca mais terão o status que tinham há duas semanas, antes da guerra.

A Assembleia de Especialistas anunciou esta semana (8) a eleição do novo líder supremo do Irã, o filho do aiatolá Ali Khamenei. Como é escolhida a Assembleia de Especialistas? Quais foram os critérios para a eleição do novo líder, o aiatolá Mujtaba Khamenei? Quais são as características pessoais e políticas que se destacam no novo líder? O que esperar de sua liderança?

Os membros da Assembleia de Peritos são todos juristas de alto nível. E são eleitos a cada oito anos. E decidem quem se torna líder. Podem escolher o líder e podem destituí-lo, de acordo com a Constituição. Esse é o seu papel. E supervisionam o que o líder faz. Escolheram o aiatolá Mujtab al-Khamenei, que é um académico de alto nível em seminários. É um jurista. Ensina investigadores e estudantes de alto nível há 20 anos.

Mas ele também esteve no gabinete do líder todos esses anos. Portanto, ele é altamente educado, é um acadêmico sênior, mas também está muito familiarizado com o que acontece na política externa iraniana, assuntos militares, economia e assim por diante. Ele sempre teve muito cuidado para que nenhum de seus filhos tivesse negócios. Não que ele fosse contra o setor privado, mas ele se opunha a que qualquer membro de sua família imediata tivesse qualquer envolvimento com o setor privado.

Portanto, todos os seus filhos, filhas, noras e genros, são todos acadêmicos ou professores. O aiatolá Mojtaba Khamenei também tem um estilo de vida muito simples, como seu pai. E ele está muito familiarizado com o funcionamento do Estado. Acredito que ele é um defensor, como seu pai, dos oprimidos. É por isso que o Irã tem ajudado países como Cuba, Venezuela e Nicarágua sob sanções, ou a resistência no sul da África e, claro, o povo da Palestina e outros povos oprimidos pelo império.

Portanto, em relação à política externa do Irã, em geral, estou confiante de que veremos continuidade na nossa visão de mundo política. Além disso, o aiatolá Mojtaba Khamenei, o novo líder, nunca foi uma figura pública. Ele nunca apareceu na TV. Ele nunca foi visto na TV. Nem nenhum dos filhos do aiatolá Khamenei. Então, ele era apenas um estudioso. Ele era um estudioso, mas também trabalhava e ajudava seu pai em seu escritório.

Publicado originalmente no Brasil de Fato

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