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Espanha e Portugal ameaçam desistir da Copa de 2030 por plano da Fifa; entenda

A seleção da espanha campeã da Copa do Mundo. Foto: Divulgação

Espanha e Portugal planejam retirar a candidatura para sediar a Copa do Mundo de 2030 caso o presidente da Fifa, Gianni Infantino, leve adiante a proposta de vender parte dos direitos comerciais do torneio, informou o jornal espanhol ‘El Español’ nesta sexta-feira (31). Os dois países dividem a organização prevista com Marrocos.

A eventual saída integraria a reação da UEFA contra o projeto e significaria também abrir mão de receber partidas do Mundial. A edição de 2030 prevê jogos nos três países anfitriões e partidas inaugurais no Uruguai, na Argentina e no Paraguai, em referência ao centenário da primeira Copa.

O plano contestado prevê a venda de 20% de uma nova subsidiária encarregada de comercializar os direitos da Copa do Mundo para investidores privados. O empreendimento teria avaliação de US$ 20 bilhões, e a operação poderia render US$ 4,2 bilhões à Fifa.

A Confederação Asiática de Futebol (AFC) se juntou à UEFA e à Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe (Concacaf) na oposição ao projeto. Para a AFC, a Fifa “não consegue, de forma realista, alcançar o amplo consenso e a unidade necessários para avançar”.

A entidade asiática reúne 47 associações, a Concacaf reúne 41 e a UEFA tem 55. Juntas, as três confederações somam 143 dos 211 membros da Fifa, acima dos 106 votos necessários para aprovar a proposta.

Taça da Copa do Mundo e as bandeiras das sedes de 2030. Foto: Divulgação

A Concacaf rejeitou a iniciativa após reunião emergencial realizada na quinta-feira (30). As associações apontaram “profunda preocupação” com a ausência de revisão pelos órgãos de governança da Fifa, com o prazo curto para análise e com a falta de devido processo na discussão.

A AFC também cobrou uma revisão urgente da estrutura de governança e de tomada de decisões da entidade. A confederação africana deve discutir o tema na próxima semana, enquanto a Oceania programou uma reunião para o mês seguinte; a Conmebol ainda não divulgou posição pública.

O diretor de operações da Fifa, Kevin Lamour, criticou a condução de Infantino e classificou a proposta como “projeto de uma pessoa”. Ele afirmou que funcionários da entidade foram “enganados” pela falta de transparência e declarou que não pretende renunciar, mesmo que sua manifestação lhe custe o emprego.

No mesmo dia, Carlos Cordeiro, assessor sênior de Infantino e ex-presidente da Federação de Futebol dos Estados Unidos, pediu demissão em protesto. “É hipotecar o futuro do futebol sem qualquer justificativa convincente”, disse Cordeiro ao argumentar que a Fifa tem bilhões de dólares em reservas, não possui dívidas e registrou US$ 15 bilhões em receitas entre 2022 e 2026.

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Extrema-direita mira ciganos para ataques xenofóbicos em Portugal

André Fernandes, líder da extrema-direita portuguesa, em outdoor contra ciganos. Foto: reprodução

O partido Chega, da ultradireita de Portugal, transformou a comunidade cigana em alvo recorrente de seu discurso xenófobo, enquanto lideranças ciganas relatam aumento de ofensas em espaços públicos e na internet com a popularidade de André Ventura.

A reação apareceu no Dia Nacional da Pessoa Cigana, comemorado em 24 de junho no bairro de Padre Cruz, em Lisboa, uma região conhecida por ruas com nomes de rios portugueses e por abrigar uma das comunidades ciganas mais tradicionais da cidade, com cerca de 500 pessoas.

O DJ Jorge Syllvah foi a principal atração da celebração, com repertório que mistura música luso-flamenca, rumba e pop. Ele tem 52 mil seguidores no YouTube, número próximo da estimativa de cerca de 60 mil pessoas ciganas em Portugal. “Em Portugal não é fácil ser cigano, há muito racismo e preconceito”, disse Syllvah. “A música, uma linguagem universal, é um jeito de nos integrar à sociedade.”

A bailarina e professora de flamenco Claudia Pargana também se apresentou no evento. Ela dá aulas de música e dança cigana em cinco escolas da rede pública de Lisboa. “Com a arte mostramos a força da nossa criatividade, e os mais jovens tomam contato com nossa cultura desde pequenos”, afirmou.

Associações ciganas recorrem à Justiça contra o Chega

André Ventura ataca povos ciganos desde a fundação do Chega, em 2019, e costuma acusá-los de viver à custa do Estado português por meio da expressão “subsidiodependência”. Bruno Oliveira, líder da Associação Intercultural Cigana, diz que a retórica ampliou a discriminação cotidiana: “O discurso da extrema direita tirou do armário os que tinham preconceito contra os ciganos. Hoje sentimos a discriminação em lugares públicos, como restaurantes, e também na internet”.

A atriz e ativista Maria Gil, referência no movimento feminista português, contesta a ideia de privilégio em moradias populares e afirma que a comunidade sofreu deslocamento urbano. “O que ocorreu, na verdade, é que fomos expulsos do centro para a periferia das cidades”, disse. “Meus avós viviam na região central da cidade do Porto e eram integrados e respeitados no bairro. Hoje muitos de nós vivem confinados em guetos”.

A socióloga Maria Manuela Mendes, pesquisadora da Universidade de Lisboa, calcula que existam de duas a três dezenas de associações de povos ciganos em Portugal. Uma decisão judicial recente obrigou o Chega a retirar cartazes da última campanha presidencial com a foto de Ventura e a frase “os ciganos têm que cumprir a lei”. A juíza Ana Barão sustentou que “a frase foi pensada para causar um específico impacto relativamente a um grupo social”.

Claudia Pargana, bailarina e professora de flamenco
Claudia Pargana, bailarina e professora de flamenco. Foto: Reprodução

Ricardo Sá Fernandes, advogado que representou as associações ciganas no processo, disse ao Diário de Notícias que a decisão teve efeito pedagógico: “Espero que ninguém mais afixe cartazes discriminatórios e vexatórios para qualquer comunidade, como exige a defesa da dignidade de todos”. Bruno Gonçalves, presidente da associação Letras Nômadas, afirma que “nossa estratégia de luta é usar sempre as armas da democracia” e lembra que povos ciganos estão em Portugal há mais de 500 anos, com presença registrada na peça “Farsa das Ciganas”, de Gil Vicente.

Mendes coordenou em 2014 o único estudo acadêmico aprofundado sobre comunidades ciganas no país e lidera uma nova pesquisa prevista para 2027. Ela estima pelo menos 60 mil ciganos em Portugal, embora o censo nacional não inclua etnia nos questionários. Programas europeus de integração ampliaram o acesso a bolsas de estudo, e já surgem integrantes dessas comunidades com mestrado e doutorado em universidades portuguesas.

As lideranças temem que o avanço da ultradireita limite esses ganhos. Maria Gil, que já concorreu à Câmara Municipal do Porto, aponta a baixa presença institucional como obstáculo: “Temos atividade política nas organizações, mas pouca presença dentro dos partidos, à direita e à esquerda. Precisamos dessa participação porque, quando André Ventura começou a pregar o anticiganismo, ficou claro que tínhamos entrado numa guerra”.

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Super-ricos brasileiros inflacionam mercado imobiliário em Portugal

Propriedade de 240 m² em Oeiras está avaliada em 3,5 milhões de euros. Foto: Divulgação

A empresária brasileira Angela Gonçalves, 48, fez a escolha de se mudar para Portugal após morar três anos nos Estados Unidos com sua família. O clima de insegurança e a violência crescente nos EUA pesaram na decisão de viver em Cascais, uma cidade na Grande Lisboa, conhecida pelo alto poder aquisitivo de seus moradores.

Segundo informações do UOL, o impacto dessa mudança reflete a onda de investimentos estrangeiros no mercado imobiliário de Portugal, principalmente de brasileiros e americanos, que vêm comprando imóveis de luxo, aumentando a demanda e, consequentemente, os preços.

O preço do metro quadrado em Cascais, entre março de 2025 e janeiro de 2026, subiu de 6.570 euros para 7.309 euros, um aumento considerável que também reflete a especulação no mercado. Imóveis com vista para o mar podem chegar a valores exorbitantes, como o caso de uma propriedade que atingiu 28 milhões de euros.

Esse fenômeno é um reflexo de um padrão que se repete em outras regiões de Portugal, com estrangeiros impulsionando a alta do mercado de luxo. Em 2025, o investimento estrangeiro no setor imobiliário português bateu recordes, atingindo 3,9 bilhões de euros, o maior valor desde 2008.

A alta do preço do metro quadrado em Portugal superou a de toda a Europa, conforme dados da agência S&P Global. No entanto, essa valorização impacta negativamente as classes mais baixas e os locais que buscam acessar o mercado imobiliário, gerando uma crise habitacional sem precedentes.

A busca por imóveis de luxo, especialmente entre brasileiros e americanos, elevou os preços a níveis que muitos portugueses não conseguem mais acompanhar. Ayres Neto, empresário brasileiro especializado no mercado imobiliário de alto padrão, observa que, além de brasileiros, americanos também têm se deslocado para o país, atraídos por uma combinação de segurança, clima e proximidade linguística.

“Comprar imóveis em Portugal é barato. Em vez de pagar US$ 40 milhões em uma casa nos Estados Unidos, paga-se aqui 5 milhões de euros no mesmo tipo de imóvel, melhor localizado”, afirma, comparando a aquisição de uma casa em Portugal a uma similar nos Estados Unidos, onde o preço chega a ser quatro vezes maior.

Mansão em Lagos, no Algarve, disponível para compra por 27 milhões de euros. Foto: Divulgação

O mercado de luxo, no entanto, é uma realidade distante para muitos portugueses. Com a alta dos preços, pessoas como Letícia Floriano, uma assistente administrativa no Porto, enfrentam dificuldades em encontrar uma moradia acessível.

“Morar sozinha é impossível”, diz Letícia, que ganha 1.200 euros mensais e paga 450 euros de aluguel por um espaço dividido com outras três pessoas. “Pelo meu salário e idade, não consigo financiamento. Morar sozinha é impossível, o aluguel consumiria toda a minha renda” afirma ela.

O aumento da superlotação habitacional é outro reflexo direto dessa crise. Em Portugal, mais de 1,2 milhão de pessoas vivem em condições inadequadas de moradia. O conceito de “superlotação habitacional”, que é quando a quantidade de pessoas por imóvel excede o número de quartos, tem se tornado cada vez mais comum, dificultando a vida de quem não consegue pagar por uma moradia mais cara.

Essa situação se agrava em um mercado onde a oferta de imóveis de baixo custo está cada vez mais escassa. Os dados sobre o mercado de imóveis em Portugal indicam que a alta nos preços foi impulsionada por investidores estrangeiros, mas também por políticas locais que não conseguem acompanhar o ritmo das mudanças no mercado.

O preço médio do metro quadrado em Lisboa, por exemplo, superou os 5.000 euros, uma cifra que equivale a 5,4 vezes o salário mínimo do país. As estatísticas revelam uma discrepância entre as regiões do país, com Lisboa e Porto enfrentando uma elevação desproporcional, enquanto cidades no interior de Portugal continuam com valores mais baixos, mas sem atratividade para grandes investidores.

A situação gerou uma resposta do governo português, que tem implementado medidas para tentar controlar o mercado imobiliário. A Assembleia da República, equivalente ao Congresso Nacional do Brasil, está em processo de aprovação de um pacote de medidas que busca reduzir impostos e criar incentivos para a construção de imóveis destinados ao aluguel de longo prazo.

Porém, essas iniciativas ainda são consideradas insuficientes para reverter os efeitos da crise no curto prazo. O impacto dessa crise não afeta apenas os locais, mas também imigrantes e estrangeiros que, ao buscar uma oportunidade de compra ou aluguel, acabam enfrentando não apenas a alta dos preços, mas também a discriminação no acesso à moradia.

A pesquisa da Casa do Brasil de Lisboa revelou que 90,4% dos imigrantes brasileiros enfrentam preconceito no processo de locação, com abusos como o pedido de caução excessiva. Além disso, a xenofobia, especialmente contra os imigrantes brasileiros, é um fator que agrava a insegurança habitacional.

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