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GM avança em baterias de sódio e entra no mercado de armazenamento de energia

A General Motors está avançando no mercado de armazenamento estacionário de energia — sistemas de baterias fixas usados para guardar eletricidade e devolvê-la à rede quando há maior demanda — por meio de uma parceria com a startup Peak Energy Technologies, em um movimento para surfar tanto a alta demanda impulsionada pela inteligência artificial quanto o crescente interesse de investidores no setor.

A General Motors e a Peak Energy planejam desenvolver baterias capazes de armazenar energia na rede elétrica durante períodos de baixa demanda, informou a montadora na terça-feira em um evento em São Francisco. A GM também está adotando medidas para permitir que mais de seus veículos elétricos já vendidos possam fornecer energia de volta à rede quando conectados em casa, o que pode ajudar concessionárias a lidar com a demanda de data centers de IA.

Tanto GM quanto Ford já investiram dezenas de bilhões de dólares no desenvolvimento de veículos elétricos, mas encontraram uma adoção mais lenta do que o esperado por parte dos consumidores americanos. Agora, assim como a Ford, a GM tenta “tirar proveito do prejuízo”, migrando parte da estratégia para o crescente mercado de armazenamento de energia impulsionado por data centers de IA, que estão pressionando as redes elétricas dos EUA.

“No passado, grandes mudanças tecnológicas eram limitadas por processadores lentos ou velocidades de internet. Hoje, o verdadeiro gargalo é a energia”, disse o diretor de produtos da GM, Sterling Anderson. “Estamos desenvolvendo baterias para sistemas de armazenamento em larga escala para concessionárias e grandes consumidores, ao mesmo tempo em que usamos nossos veículos elétricos conectados para devolver energia às redes locais residenciais.”

O anúncio da GM ocorre após as ações da Ford registrarem o maior ganho mensal em 17 anos, impulsionadas por expectativas de que seu novo negócio de armazenamento de energia possa se beneficiar do boom da inteligência artificial.

A Ford está investindo cerca de US$ 2 bilhões nesse segmento, incluindo a adaptação de uma fábrica de baterias de veículos elétricos para produzir células de grande escala com tecnologia licenciada da chinesa CATL. A demanda por baterias de rede nos EUA deve dobrar até 2030, ultrapassando 100 gigawatts-hora, segundo a BloombergNEF.

O investimento da GM é menor, mas pode crescer. O braço de venture capital da montadora está adquirindo participação na Peak Energy, cujo valor não foi divulgado.

Baterias de sódio

As duas empresas vão trabalhar juntas no desenvolvimento de baterias de íon-sódio, que são mais adequadas para armazenamento estacionário do que as baterias de íon-lítio usadas em muitos veículos elétricos.

Elas descarregam mais rapidamente, fornecendo picos curtos de energia. Seu principal insumo — o sódio — é abundante e barato. Além disso, não utilizam cobalto, cuja cadeia de produção é frequentemente associada a denúncias de trabalho infantil, e apresentam menor risco de incêndio.

A Peak Energy tem três anos de existência e deve registrar US$ 10 milhões em receita neste ano, com projeção de chegar a US$ 100 milhões em 2027.

A GM e a Peak estudam produzir as baterias em uma fábrica existente da montadora ou em uma unidade conjunta. A empresa também adiou a construção de uma fábrica em Indiana, que pode ser reaproveitada para esse fim.

A GM também fechou parceria com a Redwood Materials, fundada pelo cofundador da Tesla JB Straubel, para reaproveitar baterias antigas de veículos elétricos em sistemas de armazenamento.

Além disso, a GM e sua parceira sul-coreana LG Energy Solution afirmaram que vão converter parte da produção de uma fábrica no Tennessee para fabricar sistemas de armazenamento estacionário para redes elétricas e uso comercial.

O movimento da GM reflete a tentativa das montadoras de monetizar investimentos bilionários em veículos elétricos que tiveram adoção mais lenta do que o esperado nos Estados Unidos. A empresa havia planejado capacidade para produzir até 1 milhão de EVs em 2025, mas vendeu cerca de 170 mil unidades no país no ano passado.

Agora, a GM também busca ampliar o uso de tecnologia “vehicle-to-grid”, permitindo que carros elétricos devolvam energia à rede elétrica quando estacionados — embora isso exija investimentos adicionais dos consumidores em infraestrutura doméstica.

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Baterias mais baratas fomentam um boom do armazenamento de energia – no Brasil e no mundo

Uma onda de megainstalações de baterias está prestes a ser conectada à rede elétrica neste ano — do Brasil à Mongólia.

A queda dos custos e a disparada da demanda por energia vinda de data centers já tinham preparado o terreno para um crescimento rápido. A guerra no Oriente Médio ajudou a acelerar a tendência ao aumentar a procura por alternativas aos combustíveis fósseis, que ficaram mais caros, e transformou 2026 no ano em que as baterias passam a ter peso no sistema energético global.

Analistas da BloombergNEF já previam que as instalações cresceriam cerca de um terço neste ano, puxadas pela expansão na Europa, no Oriente Médio, na África e na América Latina. Esse ritmo pode ganhar ainda mais força se as interrupções no fornecimento de combustível persistirem.

Os sinais da aceleração já começam a aparecer. Uma fabricante chinesa de baterias projetou um forte aumento no lucro do primeiro trimestre à medida que a demanda global cresce. No Vietnã, uma desenvolvedora pediu autorização para substituir um projeto de geração a partir de GNL por renováveis combinadas com armazenamento.

“Chegamos a um ponto em que, toda vez que alguém avalia investir no sistema elétrico, as baterias são uma das opções mais atrativas”, disse Brent Wanner, chefe da unidade do setor elétrico na Agência Internacional de Energia (IEA). “Os sistemas de armazenamento por bateria vão continuar crescendo por um bom tempo.”

Em mercados inundados de energia solar e eólica — tecnologias que se expandiram muito desde a última crise energética, em 2022 —, os operadores de baterias conseguem comprar eletricidade quando ela está barata e revender nos momentos de pico da demanda.

O leilão no Brasil

Não é só isso. Hoje, no Brasil, o sol produz mais eletricidade do que as hidrelétricas. Elas caíram para o segundo lugar da matriz, com 32%. E a diferença só aumenta quando o relógio marca meio-dia: 44% da energia nacional vem direto dos painéis, num pico só. Só tem um problema.

Flui mais energia do que os fios de transmissão dão conta quando o sol está a pino. O ONS, Operador Nacional do Sistema Elétrico, manda desligar parte do que vem chegando – é o curtailment, no vocabulário do setor.

Energia pronta para consumo que some antes de encontrar a tomada. Somando tudo ao longo de um dia, 20% do que solar e eólica poderiam entregar viram nada.

Em potência, a perda chega a 4 GW. Dá para acender uma cidade de 12 milhões de pessoas. Para quem quer uma régua conhecida: Itaipu tem 14 GW.

Quando o sol se põe, a peça inverte. Agora falta energia. O sistema, que horas antes estava cortando geração, passa a suplicar por oferta. A saída para esse vaivém diário é quase intuitiva: guardar o que sobrou do dia para gastar à noite.

É por isso que o governo federal prepara o primeiro “leilão de reserva de potência” do país. Na prática, uma convocação a empresas dispostas a erguer “fazendas de baterias” — no termo técnico, BESSs, de Battery Energy Storage Systems.

O modelo de receita é simples. A empresa monta um parque de megabaterias de lítio. De dia, aproveita a enxurrada de geração para comprar barato – boa parte é justamente o excedente que seria cortado, então o desconto tende a ser generoso.

Depois que o sol vai embora, as baterias devolvem os elétrons à rede, num momento em que ela está implorando por oferta e pagando preço de pico. Entre uma ponta e outra, há espaço para uma margem de lucro para as empresas interessada em investir no armazenamento.

O leilão está previsto para junho e deve abrir espaço para 2 GW em energia estocada.

A Europa também passa por curtailments. Só a Alemanha deve perder 3,7 bilhões de euros (US$ 4,4 bilhões) com corte da produção renovável neste ano. O armazenamento deve disparar pelo continente, com a capacidade projetada para crescer cerca de cinco vezes até o fim da década.

Trata-se de um fenômeno global, na verdade.

Na Mongólia, três megainstalações entraram em operação recentemente com potência combinada de 3 GW. Na Escócia, duas enormes fazendas de baterias vizinhas, no terreno de uma antiga mina de carvão, vão começar a operar ainda neste ano.

A Austrália dá uma prévia de como o boom está remodelando os sistemas de energia. Pouco depois da entrada parcial em operação, no ano passado, de um megaprojeto conhecido como Waratah Super Battery, em Nova Gales do Sul, as baterias despejaram mais eletricidade na rede principal durante o pico da noite do que as usinas a gás.

A expectativa é que o empreendimento atinja operação plena em 2026. O armazenamento também tem ajudado a adiar uma esperada escassez de gás, à medida que os campos domésticos se esgotam, o que reforça seu papel na segurança energética do país.

Um dos grandes motivos de os projetos terem ficado mais atrativos é a queda rápida dos custos. Waratah, por exemplo, custaria 20% menos para ser construída hoje do que quando as obras começaram, quatro anos atrás, segundo Nick Carter, CEO da Akaysha Energy, dona do projeto.

Excesso de baterias

No centro do boom global do armazenamento de energia está o papel da China na produção dos equipamentos. Anos de investimento em sua cadeia de veículos elétricos criaram um excedente de baterias, puxando os preços para baixo e inundando os mercados globais com equipamentos mais baratos.

O país responde hoje pela maior parte da capacidade global de fabricação, além de cerca de metade das instalações de baterias em escala de rede já existentes. Isso se deve, em parte, a uma exigência de 2021 que obrigava projetos de renováveis a incluir armazenamento de energia, regra que acabou sendo revogada.

O padrão lembra o ciclo da indústria solar depois de 2021, quando o salto da demanda disparou uma onda de investimentos que levou à oferta excessiva, à queda dos preços e, por fim, à adoção em massa, segundo a consultoria Trivium China. O que chama atenção é que a queda dos preços das baterias acontece mesmo com a alta dos custos da maioria das outras tecnologias de energia limpa.

Isso significa que a conta dos projetos está mudando rápido. Em meados de 2024, a australiana AGL Energy. começou a construir uma grande bateria em Nova Gales do Sul. Seis meses depois, aprovou outro projeto no mesmo estado com custo por megawatt-hora cerca da metade do anterior, segundo o CEO, Damien Nicks.

Demanda em disparada

Com os sistemas elétricos sob pressão em grande parte do mundo, a onda de baterias mais baratas chega num momento decisivo.

Nos EUA, a velocidade da construção é um fator importante. Data centers do Texas ao Tennessee têm recorrido à combinação de solar com baterias porque as usinas tradicionais não conseguem ser erguidas com a rapidez necessária, já que a escassez de turbinas e os gargalos na rede atrasam os prazos. Perto de Memphis, no Tennessee, a xAI, empresa de inteligência artificial de Elon Musk, instalou fileiras de baterias Megapack da Tesla Inc. em sua instalação de supercomputação Colossus, para lidar com apagões e com a disparada do consumo elétrico.

As baterias devem responder por mais de um quarto da capacidade recorde de geração que os EUA vão adicionar em 2026, segundo a Energy Information Administration (EIA).

“Muita gente ainda enxerga a história das baterias como uma tecnologia de energia limpa”, disse Jeff Monday, diretor de crescimento da fornecedora de armazenamento Fluence Energy Inc. “Vimos uma evolução — a tecnologia de baterias hoje é vista como algo que dá resiliência à rede.”

Por Keira Wright, Mark Chediak, Petra Sorge e Redação InvestNews

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