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Stellantis se volta para marcas com foco regional para atrair consumidor ante avanço chinês

Formada a partir da fusão da Fiat Chrysler com o PSA Group, a Stellantis nasceu como um dos maiores grupos automotivos do mundo em janeiro de 2021 e a ambição de promover um portfólio com 14 marcas, como Fiat, Jeep, Peugeot, Citroën, Chrysler e Opel, em um momento de transformação da indústria, rumo a então novas tecnologias como a eletrificação e a direção autônoma.

Pouco mais de cinco anos depois, o cenário é muito distinto. Carros elétricos ainda ganham relevância, mas a sua adoção perdeu o ímpeto de outrora, especialmente diante da retirada de incentivos em diferentes mercados desenvolvidos e dos efeitos da guerra comercial de Donald Trump.

O mundo de juros perto de zero cedeu espaço para uma era de volta da inflação e de taxas mais altas, o que se traduz em aumento do custo de capital e de fornecedores e desafio à demanda de consumidores. E, de forma impactante para o setor, o avanço de empresas chinesas – notadamente a BYD mas não só ela – alterou o cenário competitivo da indústria global.

Nessa nova configuração de mercado de um dos setores mais tradicionais da economia e de encruzilhada de marcas tradicionais, a Stellantis decidiu adotar um novo plano estratégico para os próximos cinco anos para tentar retomar o apelo junto ao consumidor, que hoje conta com muitas mais alternativas do que no começo da década, ao mesmo tempo em que fortalece a rentabilidade e acelera o crescimento.

Os pilares passam por uma nova estratégia de marcas e de produtos que inclui foco regional, investimentos que devem superar € 60 bilhões – US$ 70 bilhões – em novas plataformas de veículos, motores e tecnologias que incluem IA (inteligência artificial) e parcerias com outras companhias, como as chinesas Leapmotor e Dongfeng, além da Tata e da JLR (Jaguar Land Rover).

Serão mais de 60 novos modelos e 50 atualizações, a maior parte em elétricos puros e híbridos: alguns spoilers foram dados (ou confirmados) no evento, como o novo Argo, da Fiat (nome para o Grande Panda vendido na Europa) e o Peugeot 3008 híbrido no Brasil; a volta da picape Dodge Dakota nos Estados Unidos; novos modelos da Cherokee e da Grand Cherokee, da Jeep; e um novo E-208 da Peugeot, além de lançamentos na divisão de veículos comerciais para entregas.

O equivalente a 60% do total será destinado a marcas e desenvolvimento de novos modelos, enquanto os demais 40% terão como alvo plataformas globais, tecnologias e usos comuns.

O plano foi apresentado nesta manhã de quinta-feira (21) no Investor Day realizado em sua sede em Auburn Hills, próximo a Detroit, berço da indústria automotiva americana, sob a liderança do CEO global, Antonio Filosa.

O executivo italiano, que completa um ano à frente da Stellantis em junho, sucedeu justamente um dos arquitetos da formação da holding, o português Carlos Tavares, que deixou o cargo no fim de 2024 diante da piora dos resultados operacionais e financeiros – e do esgotamento de seu receituário que priorizava a eficiência da operação em detrimento da estratégia ao consumidor.

Trata-se justamente da mudança mais evidente de abordagem explicitada no novo plano.

O desafio passa por reconquistar a confiança de investidores: desde o pico em março de 2024, as ações negociadas na Euronext Paris e na NYSE (Bolsa de Nova York) perderam cerca de 70% do valor, o que derrubou o market cap do grupo para pouco mais de US$ 21 bilhões.

Filosa, por sua vez, chegou credenciado em parte justamente pelo seu trabalho à frente da América do Sul, inicialmente na Fiat Chrysler e, depois, na Stellantis, entre 2018 e 2023, período em que alçou a Fiat à liderança no Brasil, o maior mercado dessa região. Depois ele comandou a Jeep globalmente e a operação na América do Norte.

O CEO global da Stellantis, o italiano Antonio Filosa, no Investor Day em Auburn Hills em 21 de maio de 2026: ele comandou a operação na América do Sul entre 2021 e 2023 (Foto: Divulgação)
O CEO global da Stellantis, o italiano Antonio Filosa, no Investor Day nesta quinta (21) (Foto: Divulgação)

A apresentação do plano denominado FaSTLAne 2030, em alusão ao ticker da Stellantis na NYSE, acontece no primeiro encontro dedicado a investidores e analistas em dois anos.

Depois de operarem em queda de até 6% na abertura, as ações passaram a subir no meio da tarde (15h30 de Nova York), com queda perto de 30% tanto no acumulado de 2026 como em 12 meses.

Stellantis: marcas multirregionais

“Passamos do foco global para multirregional”, disse o presidente do conselho, John Elkann, no começo da apresentação do Investor Day a uma plateia tomada de investidores, analistas de bancos e jornalistas, em referência a um dos principais pilares do novo plano.

Quatro marcas globais – Jeep, Ram, Peugeot e Fiat, além da divisão de veículos comerciais Pro One – vão receber 70% dos investimentos destinados a produtos nos próximos cinco anos, diante do que o grupo identifica como maior potencial.

Outras cinco marcas regionais foram destacadas no plano estratégico: Chrysler, Dodge, Citroën, Opel e Alfa Romeo.

E a Maserati será explorada como marca de alto luxo, com o lançamento de dois novos modelos no segmento de elétricos, acompanhando uma das tendências do segmento.

Na América do Norte, que hoje responde por cerca de 40% das receitas da Stellantis, o lançamento de novos modelos deve estender a cobertura de mercado dos atuais 60% para 90%, o que vai se traduzir em dispor de ofertas que alcancem quase a totalidade dos consumidores.

Na América do Sul, a meta passa por manter a liderança no principal mercado, o Brasil, e também na Argentina, com uma estratégia corrente que passa pela “localização” de modelos, parcerias com a chinesa Leapmotor e novos lançamentos da Fiat, da Jeep, da Ram e da Peugeot, segundo o presidente e COO (Chief Operating Officer) para a região, Herlander Zola.

Outra meta para a região é crescer 10% em receitas até 2030 e chegar a 8% a 10% de margem do resultado operacional ajustado no mesmo período.

Novos modelos de marcas como Opel, Jeep, Fiat, Chrysler e Peugeot, com diferentes focos regionais e de perfil de consumidor: portfólio da Stellantis (Foto: Divulgação)
Novos modelos de marcas como Opel, Jeep, Fiat, Chrysler e Peugeot: diferentes focos de público

“Tudo começa com produto […] nós movemos as pessoas com marcas e produtos que elas amam”, disse Filosa no evento ao destacar, a exemplo do chairman, um dos novos focos da Stellantis. Outros executivos ecoaram a mesma ênfase de priorização em produto e estratégia regional.

O foco em produto e na gestão de portfólio não atendeu, por outro lado, a expectativa de uma ala de analistas e investidores que esperavam uma redução no número de marcas da Stellantis, algo visto como um dos seus principais desafios para melhorar a eficiência de sua operação – e que o grupo apontou que espera resolver por meio de sinergias (veja mais abaixo).

China: concorrente e aliado

Não que o resultado operacional e financeiro e a alocação de capital fiquem em segundo plano, segundo o CEO global, que também destacou na apresentação a melhora das métricas ao longo do último ano: o lucro líquido ficou em € 390 milhões no primeiro trimestre, revertendo uma perda de € 371 milhões um ano antes.

O lucro operacional foi de € 688 milhões, depois de uma perda de € 316 milhões no mesmo período de 2025.

O novo plano inclui metas financeiras como alcançar fluxo de caixa positivo até 2027 e cortes de custos da ordem de € 6 bilhões ao ano (US$ 7 bilhões) até 2028.

Nesse sentido, a estratégia passa por novas plataformas globais de veículos desenhadas para tecnologias de eletrificação e de uso de IA e que sejam “escaláveis” para diferentes mercados e que, segundo se espera, vão permitir a redução dos custos de desenvolvimento: no caso da STLA One, nome de uma das plataformas, a queda é estimada em 20% versus o que é hoje adotado na Europa.

A frente de ganho de eficiência é considerada fundamental para a competitividade dos modelos da Stellantis – e de montadoras europeias, americanas e japonesas e coreanas em geral – diante de marcas chinesas, que ganham com apelo crescente em preços e também em tecnologia e design.

Outro pilar destacado inclui as citadas parcerias com as chinesas Leapmotor e Dongfeng em regiões como a Europa (para adaptação e produção) e a China: os objetivos passam por desenvolvimento de tecnologias – incluindo de eletrificação – e modelos complementares a determinados mercados, por meio de joint ventures em que a holding detém o controle com 51% do capital.

Segundo a Bloomberg, a parceria em tecnologias para carros elétricos será a mais profunda já adotada por uma montadora europeia com uma chinesa já acertada.

Outras parcerias incluem a Tata, para o mercado indiano, e a Jaguar Land Rover.

— Em atualização.

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Lucro da Tesla cai após elevação dos custos mitigar vendas recordes de veículos elétricos

O lucro da Tesla caiu mais do que o esperado, já que o aumento acentuado dos custos reduziu um trimestre recorde de vendas de veículos.

O lucro ajustado foi de 50 centavos por ação no período, uma queda de 31% em relação ao ano anterior, informou a empresa em um comunicado nesta quarta-feira (22). Analistas esperavam uma média de 54 centavos, segundo estimativas compiladas pela Bloomberg. A receita de US$ 28,1 bilhões superou as expectativas.  

Os resultados mostram que a fabricante de veículos elétricos não está imune aos custos crescentes que afetaram a indústria automobilística do país ao longo do ano, com a reformulação radical das políticas do presidente dos EUA, Donald Trump. As despesas operacionais da Tesla dispararam 50%, para US$ 3,4 bilhões no trimestre, enquanto a empresa espera um impacto de cerca de US$ 400 milhões com as tarifas americanas. 

O CEO Elon Musk promete um futuro construído em torno da inteligência artificial, robôs humanoides e tecnologia de direção autônoma — pontos que ele destacou na teleconferência da Tesla com investidores. Os investidores aderiram amplamente à visão de Musk, impulsionando as ações da empresa em alta de 8,7% no acumulado do ano até o fechamento de quarta-feira. 

Mas há incerteza quanto ao cronograma de desenvolvimento desses negócios e aos custos associados à sua expansão. O negócio principal da Tesla, a venda de veículos, também enfrenta um escrutínio renovado, à medida que a concorrência se intensifica e os incentivos fiscais dos EUA são gradualmente eliminados. 

“Estamos entrando em um momento em que há muitas dúvidas sobre a trajetória de crescimento dos lucros de curto e médio prazo para a Tesla”, disse Garrett Nelson, analista sênior de pesquisa de ações da CFRA. 

O diretor financeiro Vaibhav Taneja reconheceu que a concorrência e as tarifas representam obstáculos para a empresa.  

As ações da Tesla caíram 4,1% às 18h05 no pregão estendido em Nova York. As ações ampliaram as quedas após Musk concluir seus comentários introdutórios na teleconferência da Tesla, sinalizando a decepção dos investidores com o fato de a empresa ter oferecido apenas detalhes limitados. 

“O mercado está percebendo que a Tesla opera como uma plataforma de IA, mas reporta como uma montadora”, disse Haris Khurshid, diretor de investimentos da Karobaar Capital. Dec Mullarkey, diretor-gerente da SLC Management, disse que “não há muito aqui para inspirar os investidores”. 

A Tesla reiterou a declaração do trimestre anterior de que é “difícil mensurar” como as mudanças nas políticas comerciais e fiscais globais impactariam seus negócios e operações. A empresa prevê que os resultados dependam do ambiente econômico mais amplo, bem como da sua velocidade em acelerar os esforços de autonomia e aumentar a produção de produtos essenciais.

Analistas pesquisados ​​pela Bloomberg esperam que a Tesla relate o segundo ano consecutivo de queda nas entregas de veículos. 

Vendas recordes

No início deste mês, a Tesla relatou vendas recordes no terceiro trimestre, com os clientes correndo para aproveitar um crédito fiscal de US$ 7.500 para compras de veículos elétricos que expirou em 30 de setembro, proporcionando um impulso temporário ao principal negócio automotivo da empresa.

Na quarta-feira, a Tesla reportou US$ 417 milhões em receita com créditos regulatórios recebidos de outras montadoras que excedem os padrões de emissões — apenas um pouco abaixo do valor do trimestre anterior. Mudanças de política sob o governo Trump reduziram a demanda por esses créditos. A Tesla afirmou que prevê um declínio nesse segmento. 

Musk espera que o negócio de robotáxis da Tesla , lançado em Austin em junho, se expanda para até 10 áreas metropolitanas até o final do ano, caso a empresa receba as aprovações necessárias. Ele também afirmou que a empresa removerá a maioria dos operadores de segurança humana dos robotáxis em Austin ainda este ano. Não está claro quantos veículos estão operando atualmente lá, após o lançamento da fabricante de veículos elétricos com cerca de dez a vinte unidades. 

A Tesla também opera um serviço de transporte compartilhado na área da Baía de São Francisco que não é totalmente autônomo e se assemelha mais ao Uber. Possui licenças de teste para Arizona e Nevada. 

O fluxo de caixa livre foi de quase US$ 4 bilhões, um aumento significativo em relação ao ano anterior e bem acima da estimativa média dos analistas de US$ 1,25 bilhão.  

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