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A vergonhosa situação do saneamento em Porto Alegre (por Joel Henrique Ellwanger) 

Por:Sul 21
20 de Março de 2026, 10:57

Joel Henrique Ellwanger (*) 

Porto Alegre vive uma grande contradição. Enquanto seus gestores tentam promover a cidade como um polo moderno e tecnológico, um problema básico ainda não foi resolvido: o saneamento. Essa contradição está ancorada em uma visão neoliberal que acredita que novas tecnologias, empreendedores, startups e “empresas parceiras” resolverão todos os problemas da cidade, desafogando o poder público de suas responsabilidades. Porém, a vulnerabilidade da cidade a enchentes e sua vergonhosa porcentagem de esgoto tratado mostram que a Porto Alegre tecnológica se afoga em seu próprio esgoto.

O novo Ranking do Saneamento, elaborado pelo Instituto Trata Brasil e divulgado em março de 2026, mostrou que Porto Alegre trata apenas 60% de seu esgoto, sendo, junto com João Pessoa, a cidade que mais caiu posições no ranking nacional. Ocupava a 49ª posição no Ranking de 2025, passando para a 63ª posição em 2026. Conforme o Instituto, “Porto Alegre (RS) apresentou uma das maiores quedas no Ranking de 2026, com recuo de 14 posições, resultado principalmente da redução no atendimento de esgoto e do aumento nos indicadores de perdas”. E esse problema não é novo, muito menos resultado da grande enchente de 2024. Conforme dados compilados em um estudo publicado por mim e colegas da UFRGS em 2024 na revista científica Sustainability, Porto Alegre perde posições no Ranking de Saneamento do Instituto Trata Brasil desde 2017.

Infelizmente, o deficiente saneamento de Porto Alegre deve ser motivo de vergonha. Sistemas de coleta de esgoto são conhecidos desde civilizações antigas, como na Roma Antiga (Cloaca Maxima), o que demonstra que se trata de uma tecnologia bastante madura e vastamente conhecida. Apesar de a cidade ter estações com capacidade para tratar até 80% de seu esgoto, a coleta atual atende apenas 72% da população, e o índice de esgoto efetivamente tratado é de somente 60%, conforme já citado anteriormente. As altas taxas de saneamento de cidades como Curitiba, que consistentemente figura entre as melhores colocadas no ranking nacional, atestam que é possível criar uma malha de coleta de esgoto, mesmo em sistemas urbanos populosos e complexos.

Já em Porto Alegre, grande parte dos resíduos não tratados são direcionados ao Arroio Dilúvio, que os conduz até o Guaíba, o mesmo manancial de onde a cidade capta a água para distribuir em suas próprias torneiras. Apesar dessa água passar por tratamentos básicos e ser considerada potável, é no mínimo desconfortável saber que bebemos água do mesmo corpo d’água onde despejamos nosso esgoto. Sem mencionar que as tecnologias tradicionais de tratamento de água não são suficientes para remover poluentes emergentes, como resíduos de medicamentos e microplásticos. E mesmo que tivéssemos garantia de que a potabilidade da água é impecável, antes de ser tratada, a água poluída despejada no Dilúvio e no Guaíba prejudica a fauna e a flora, que têm seus habitats cada vez mais degradados pela atividade humana.

Enquanto isso, surgem com frequência na mídia local maquetes e simulações virtuais do Dilúvio e suas margens repaginadas através de parcerias “público-privadas”, com prédios e projetos paisagísticos ultramodernos. Porém, faltam explicações de como e quando o esgoto deixará de ser despejado nesse arroio, tão maltratado. A falta de saneamento não é um impeditivo para a busca de um ambiente urbano aberto à ciência e à tecnologia. Porém, não podemos ser ingênuos: Porto Alegre só será verdadeiramente moderna e desenvolvida quando resolver seu problema de saneamento.

(*) Biólogo, doutor em ciências e pesquisador em nível de pós-doutorado do Departamento de Genética da UFRGS. 

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