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Ibovespa sobe 12% desde a mínima de agosto: até que ponto deve se estender o rali?

9 de Setembro de 2026, 18:36

Depois da montanha-russa de agosto, que levou o Ibovespa aos 166.334 pontos em 18 de agosto, no menor fechamento desde janeiro, a bolsa brasileira vive um movimento de recuperação. Desde então, o índice registrou alta em 12 dos 15 pregões seguintes e acumula valorização de 12%, mesmo com o recuo desta quarta-feira (9).

Para você, investidor, é importante entender o que está por trás do movimento para saber o quanto ele pode se estender.

A recuperação da bolsa até aqui combinou quatro fatores: o chamado “trade eleitoral”, alimentado por pesquisas que indicam uma disputa presidencial mais acirrada no segundo turno – e a ascensão de Flávio Bolsonaro; o alívio nos juros de longo prazo; o retorno do investidor estrangeiro; e a valorização das commodities, que impulsiona ações de peso relevante no índice.

Esses pilares continuam presentes em setembro. Mas as oscilações deste início de mês reforçam um componente que deve acompanhar o mercado até as eleições de outubro: a volatilidade.

O ambiente ainda exige cautela. A percepção do mercado sobre a corrida presidencial e, principalmente, sobre seus possíveis efeitos na condução da política fiscal tende a provocar movimentos bruscos nos preços. Somam-se a isso um cenário macroeconômico mais desafiador e as incertezas externas sobre a trajetória dos juros americanos.

Ainda assim, analistas da XP Investimentos, do BTG Pactual e da Eleven Financial avaliam que, de modo geral, as ações brasileiras continuam negociadas a preços descontados em relação aos fundamentos, o que abre espaço para novas altas.

A continuidade do rali dependerá principalmente dos sinais emitidos pelos candidatos que lideram nas intenções de voto, Lula e Flávio, sobre as contas públicas: uma perspectiva mais concreta de contenção de gastos tende a reduzir a percepção de risco, favorecer a queda dos juros de longo prazo e beneficiar ativos de risco, como as ações.

Uma deterioração fiscal, por outro lado, pode pressionar novamente os ativos brasileiros.

A seguir, listamos o que deve mover os mercados nos próximos meses:

‘Trade eleitoral’ ganha tração

O principal gatilho doméstico para a recuperação das últimas semanas veio das pesquisas eleitorais. Os levantamentos têm levado os investidores a recalcular as chances dos diferentes candidatos e o que cada resultado poderia significar para a condução da economia a partir de 2027.

Na terça-feira, as pesquisas Quaest e BTG/Nexus reforçaram a percepção de uma disputa apertada. Na Quaest, Lula e Flávio Bolsonaro apareceram com 41% cada em uma simulação de segundo turno. No levantamento BTG/Nexus, Flávio teve 46%, ante 45% de Lula, também em empate dentro da margem de erro.

“O principal vetor doméstico foram as pesquisas, que mostraram empate numérico entre os candidatos mais competitivos em uma simulação de segundo turno”, afirmou Fábio Murad, consultor da Wiser Asset.

“Os resultados aumentaram a percepção de uma eleição aberta e levaram os investidores a revisarem as probabilidades atribuídas aos diferentes cenários econômicos para 2027.”

Essa revisão aparece simultaneamente na Bolsa, no dólar e nos juros futuros. Os três mercados oscilam conforme a interpretação dos investidores sobre o que cada candidato pode representar para gastos públicos, tributação, dívida e taxa de juros.

“Não se trata de uma avaliação definitiva sobre o resultado eleitoral, mas de uma mudança nas probabilidades negociadas pelo mercado”, diz Murad.

Para Pedro Galdi, analista da AGF, a influência das pesquisas sobre os preços deve continuar até a eleição. “Em anos de eleição para presidente, esse comportamento se repete. As ações de estatais acabam sendo o olho do furacão, mas as de outros segmentos da economia também reagem de forma representativa”, afirma.

Estrangeiros voltam às compras

O investidor estrangeiro também voltou a dar sustentação ao Ibovespa depois de uma saída intensa de recursos no mês anterior.

Depois de retirar R$ 23,2 bilhões da B3 até 20 de agosto, o estrangeiro retornou à ponta compradora, a tal ponto que a saída líquida de agosto diminuiu para R$ 18,1 bilhões.

Desde 21 de agosto, portanto, o saldo acumulado passou a ser positivo em cerca de R$ 10,4 bilhões, considerando os dados mais recentes disponíveis. No acumulado de 2026, os estrangeiros ainda mantêm uma entrada líquida de R$ 28,3 bilhões.

O fluxo externo é relevante porque aumenta a demanda pelas ações de maior peso nos índices e contribui para a valorização do real.

Contudo, não é possível afirmar que a mudança será duradoura. O fluxo pode voltar a se inverter diante de novas pesquisas, da piora das expectativas fiscais ou de uma redução do apetite internacional por países emergentes.

Bolsa segue atrativa

Os preços também ajudam a explicar por que o movimento pode não ter se esgotado.

Segundo analistas do BTG Pactual, o Ibovespa negocia a cerca de 8,2 vezes o lucro esperado para os próximos 12 meses (Petrobras e Vale incluídas). Sem as duas gigantes, o múltiplo está em 9,7 vezes, abaixo de sua média histórica, o que sinaliza o potencial de ganhos.

Para o banco, os valuations continuam atrativos, sobretudo em um cenário no qual os juros reais de longo prazo comecem a recuar.

Juros menores tornam a renda variável mais atrativa: por exemplo, reduzem a vantagem relativa da renda fixa, que atualmente oferece retornos elevados com menor risco.

Até onde pode ir o rali?

Para o time da XP, o Ibovespa pode chegar aos 200 mil pontos até o fim de 2026, o que representa um potencial de valorização de cerca de 8% frente ao patamar atual. O motivo está justamente nos preços, que os analistas da corretora veem como abaixo da média histórica.

Do lado do risco, eles apontam possibilidade de as estimativas de lucro das empresas para 2027 sofrerem uma revisão para baixo, o que poderia impactar negativamente os preços.

Por isso, mesmo com certo espaço para alta, a XP segue com uma estratégia defensiva para ações, priorizando empresas de qualidade.

No mesmo sentido, a Eleven Financial, que mantém projeção para o Ibovespa em 195 mil até o fim do ano (um potencial de alta de 5%), vê uma boa relação de risco-retorno em ações de empresas maiores, que dependem menos do ciclo econômico. Ainda assim, reforça que o ambiente até as eleições deve apresentar fortes oscilações.

Para 2027, a Eleven aponta que o Ibovespa alcançar 230 mil pontos, desde que os juros continuem caindo e os lucros das empresas mantenham o crescimento. Esse cenário depende de um ajuste nas contas públicas, que exigiria apoio tanto do próximo presidente quanto do Congresso.

A expectativa de queda mais intensa dos juros também levou o Bank of America a melhorar sua avaliação sobre a Bolsa brasileira ontem.

O banco elevou sua recomendação para as ações brasileiras de equivalente a neutra para exposição acima da média. O BofA mantinha postura neutra em relação ao Brasil desde junho.

O argumento para a revisão está nos juros. O BofA agora projeta que a Selic termine 2027 em 11,25% ao ano, versus 12,75% anteriormente. E, mais importante, bem abaixo dos cerca de 14% que, segundo o próprio banco, ainda estão embutidos nos preços de mercado.

Na avaliação dos analistas, um ciclo mais profundo de cortes dos juros pode elevar os preços das ações, mesmo diante do risco de revisões para baixo nos lucros e da incerteza eleitoral.

O que pode interromper o rali?

A recuperação recente reúne fatores que se reforçam: o estrangeiro voltou às compras, a eleição passou a ser precificada como uma disputa mais aberta, os preços dos ativos ainda estão atrativos e a alta do petróleo favoreceu a Petrobras, uma das empresas com maior peso na Bolsa.

Parte desses vetores, porém, pode mudar rapidamente.

Novas pesquisas podem alterar as probabilidades eleitorais negociadas pelo mercado. Uma piora das expectativas fiscais pode voltar a pressionar os juros.

O cenário externo também exige atenção. A recente nova alta do petróleo, por exemplo, que beneficia a Petrobras no curto prazo, pode elevar a inflação mundial, manter os juros americanos altos por mais tempo e reduzir a procura por investimentos em países emergentes. Foi o que ocorreu hoje, depois de o petróleo superar o patamar psicológico dos US$ 100 o barril e elevar preocupações sobre uma alta de juros nos EUA.

O encarecimento da commodity pressionou as bolsas americanas e levou os juros dos títulos de 10 anos do país a atingirem o maior patamar em quase três anos. Na esteira, o Ibovespa caiu 0,9%, devolvendo os ganhos de ontem e retornando aos 185.629 pontos.

Há espaço para o Ibovespa avançar nos próximos meses, mas o caminho dificilmente será linear.

“Iremos caminhar ao sabor das notícias relacionadas ao momento da disputa”, afirma Galdi.

🏢 A nova onda de prédios de escritório: veja quais FIIs você pode usar para investir nela

20 de Agosto de 2026, 15:02

O mercado de escritórios de alto padrão de São Paulo nunca esteve tão aquecido, com recorde de ocupação e aluguéis em alta. O ano deve fechar com 391 mil metros quadrados em novos empreendimentos – a maior safra em 10 anos.

Pouco mais da metade desse volume (203 mil m²) deve ser entregue agora, no segundo semestre.

No total, são 27 empreendimentos. E seis deles têm participação de fundos imobiliários (FIIs), o que significa uma potencial oportunidade.

Eles estão distribuídos em quatro: Kinea Renda Imobiliária (KNRI11), Zagros Multiestratégia (ZAGH11), Hedge Paladin Design Offices (HDOF11) e RBR Desenvolvimento Comercial I (RDCI11).

Nota: só os dois primeiros, o Kinea e o Zagros, são destinados ao público geral. Os demais são fundos com acesso restrito a investidores qualificados (com mais de R$ 1 milhão investidos) ou profissionais (mais de R$ 10 milhões).

Os FIIs de varejo com as novas lajes

Entre os fundos abertos, o caso mais relevante é o Kinea Renda Imobiliária (KNRI11), que detém 69% do Biosquare, em Pinheiros.

O edifício, com 39,2 mil m², foi entregue no primeiro semestre e já chegou ao mercado totalmente pré-locado. A Amazon ocupará do 7º ao 25º andar (todos – o resto é estacionamento).

Segundo Danilo Barbosa, sócio e head de Research do Clube FII, trata-se de um caso raro: um fundo tradicional, voltado à renda, capturando entrega nova, sem risco inicial de vacância.

Significa o seguinte: o fundo está pondo a mão num imóvel recém-construído. Isso normalmente não acontece com fundo normal, de renda. Prédio novo costuma ir para “FII de desenvolvimento”, que constrói para vender.

E prédio novo tende a ser bom negócio: aluguel mais alto, menos manutenção. O problema é encarar o vazio inicial. Nesse caso, porém, o entrave não existe. A Amazon resolveu.

O KNRI11 entrou ainda na construção do Biosquare. Com o prédio pronto, passa à fase de geração de renda com as locações. O impacto sobre o fundo, no entanto, tende a ser diluído, dado o tamanho dele. O FII tem um patrimônio líquido de R$ 4,6 bilhões e uma carteira diversificada entre lajes corporativas e galpões logísticos.

A Kinea ainda não informou quando começará a receber renda com o imóvel, mas a estimativa é que ocorra dentro de 18 meses.

Já o Zagros Multiestratégia (ZAGH11), o outro voltado ao público geral, possui 50% do Groenlândia 910, no Jardim América. O edifício, com 2,9 mil m², tem entrega prevista entre setembro e outubro deste ano.

Mas diferentemente do KNRI11, o Zagros contrói para vender, não para gerar renda de aluguel.

O patrimônio ali é de R$ 207 milhões. E Barbosa estima que o Groenlândia 910 possa gerar entre R$ 45 milhões e R$ 60 milhões, o que agregaria bastante valor ao fundo. Mas há riscos de atrasos na obra que devem ser monitorados, ele pontua. A conclusão, de qualquer forma, está avançada: 96,3% até junho.

Os fundos restritos com exposição

Agora, os fundos de acesso restrito.

O RBR Desenvolvimento Comercial I (RDCI11) detém o IPO Corporate Boutique, no Itaim, entregue em junho. O fundo também tinha 90% do LAC Corporate Boutique, no Jardim Paulista, mas esse já foi vendido, em abril.

Já o Hedge Paladin Design Offices (HDOF11), também destinado a investidores qualificados, tem em o Franca 303, no Jardim Paulista, em fase final de obra, e o Haddock 167, próximo à Avenida Paulista, com entrega esperada para dezembro.

Considerando apenas a segunda metade de 2026, os FIIs listados estão ligados a mais ou menos 15 mil m² dos 203 mil m² previstos para entrega –7,6% do total.

O restante dessa nova leva de escritórios está principalmente nas mãos de incorporadoras, como Cyrela (CYRE3), Lavvi (LAVV3) e EZTec (EZTC3), e de investidores institucionais e empresas de private equity, caso de HSI, Hines, Barzel e WTorre/Altre.

Um exemplo é o Éden Corporate, no Brooklin, com 18,5 mil m², segundo maior empreendimento previsto para o terceiro trimestre. O projeto é dividido entre Cyrela e Lavvi, cada uma com 45% do investimento, e a Hines com 10%.

Novas transações à vista?

Uma das maiores entregas ainda previstas para 2026 está fora dos FIIs: o Cyrela Oscar Freire, com 45,5 mil m², em Pinheiros. A Cyrela estuda vender o prédio, que tem 17 lajes pré-locadas ao Nubank, a partir de 2027. Se um FII entrar na transação, o retrato dessa safra ainda pode mudar.

Além da nova leva de prédios, a taxa de ocupação salta aos olhos. A Faria Lima está com apenas 6,3% de vacância e preço de aluguel médio em R$ 322 por m² – alta de 20% na comparação anual. Na Paulista, a vacância é menor ainda: 5,7%. Na Rebouças, quase zero.

E, para 2027, a expectativa é que a alta demanda por escritórios premium em São Paulo continue. Para a consultoria Binswanger, a vacância das lajes corporativas de alto padrão, hoje em 12%, pode cair para até 7% no ano que vem – o que renovaria a mínima histórica.

Apple processa OpenAI na Justiça por roubo de segredo comercial

10 de Julho de 2026, 18:40

A Apple processou a OpenAI por roubo de segredos comerciais, acusando a startup de inteligência artificial e seu diretor de hardware de conduzirem uma campanha coordenada para obter informações sobre produtos ainda não lançados.

A fabricante do iPhone afirmou, em ação apresentada na sexta-feira, que a OpenAI incentivou funcionários da Apple a compartilhar informações, componentes, desenhos e outros materiais relacionados a produtos em desenvolvimento como parte dos esforços da empresa de IA para criar sua própria linha de dispositivos.

Na ação, protocolada no Tribunal Distrital do Norte da Califórnia, a Apple também incluiu Tang Tan, diretor de hardware da OpenAI. Ele foi anteriormente vice-presidente de design de produtos da Apple, liderando o desenvolvimento do iPhone, do Apple Watch, dos AirPods e de diversos outros produtos da divisão de engenharia de hardware da companhia.

A disputa judicial representa uma reviravolta para duas empresas que atuaram como parceiras próximas nos últimos anos. A OpenAI, criadora do ChatGPT, forneceu tecnologia essencial para a plataforma Apple Intelligence e para a assistente digital Siri. Mas as tensões vêm aumentando ao longo do último ano, agravadas pela contratação, pela OpenAI, do ex-chefe de design da Apple Jony Ive para ajudar no desenvolvimento de dispositivos.

A OpenAI, que se prepara para realizar uma oferta pública inicial de ações (IPO) nos próximos meses, contratou um grande número de ex-funcionários da Apple. Segundo a ação, mais de 400 ex-empregados da fabricante do iPhone trabalham atualmente na OpenAI.

“Em todos os níveis, desde integrantes de sua equipe técnica até seu diretor de hardware, e em coordenação com parceiros de negócios, a OpenAI vem roubando os segredos comerciais e as informações confidenciais da Apple”, afirmou a gigante de tecnologia sediada em Cupertino, Califórnia, na ação. “Como resultado natural, o nascente negócio de hardware da OpenAI repousa sobre bases extremamente frágeis, corrompidas em sua essência pela dependência ilegal de segredos comerciais obtidos de forma indevida.”

A Apple exige que a OpenAI interrompa essas práticas e destrua qualquer material proprietário. A empresa, que pede julgamento por júri, também quer que a OpenAI reprojete os produtos que pretende lançar para que eles não incorporem nenhuma tecnologia da Apple.

A Apple afirmou que Tan incentivava funcionários a fornecer informações sobre produtos ainda não lançados durante entrevistas de emprego. A ação também cita Chang Liu, ex-engenheiro de hardware do iPhone, alegando que ele forneceu materiais confidenciais. Liu ingressou na OpenAI em janeiro.

“Ao longo de várias semanas, enquanto desenvolvia hardware para a OpenAI, o sr. Liu acessou e baixou de forma clandestina dezenas de arquivos confidenciais da Apple relacionados a hardware, incluindo um amplo volume de informações detalhadas sobre produtos ainda não lançados, apresentações de engenharia, especificações técnicas e dados proprietários de projetos”, diz a ação.

A Apple afirmou ainda que seus funcionários eram “orientados ativamente” pela OpenAI sobre como conduzir sua saída da empresa.

“A OpenAI orientou funcionários que estavam deixando a empresa a não revelar quem seria seu próximo empregador e forneceu conselhos sobre como evitar a ‘temida saída imediata’, que os removeria prontamente da empresa, em vez de conceder o período padrão de duas semanas durante o qual eles poderiam continuar tendo acesso às informações confidenciais e aos segredos comerciais da Apple”, afirma a ação.

O caso destaca a importância estratégica dos dispositivos de IA de nova geração para o Vale do Silício. Apple, OpenAI, Meta Platforms e outras empresas disputam o desenvolvimento de novos aparelhos que coloquem a inteligência artificial no centro da experiência do usuário, em preparação para um futuro pós-smartphone.

A Apple afirmou que tentou resolver a disputa com a OpenAI fora dos tribunais meses atrás, pedindo que a empresa interrompesse essas iniciativas e eliminasse qualquer material proprietário. Segundo a companhia, não houve resposta, o que levou ao ajuizamento da ação.

“Evidências significativas surgiram indicando que pessoas empregadas pela OpenAI obtiveram de forma indevida informações secretas e confidenciais da Apple relacionadas a nossas tecnologias, processos e produtos ainda não lançados”, afirmou a empresa em comunicado.

ETFs pegam carona no apetite por renda fixa e já lideram a captação da indústria de fundos no país

8 de Julho de 2026, 20:02

A preferência do investidor brasileiro por produtos tradicionais como fundos de gestão ativa passa por um momento de transição, que reflete um processo de amadurecimento e busca por categorias que tenham relação entre retorno, riscos e custos mais equilibrada.

Esse processo tem se refletido nos dados de captação da indústria de fundos de investimento.

Os ETFs, fundos passivos de índice, registraram a segunda maior captação líquida no primeiro semestre, atrás apenas dos fundos de renda fixa, segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais). Em junho, a classe assumiu a liderança, com entradas líquidas (captações menos resgates) que totalizaram R$ 5,9 bilhões.

Segundo Pedro Rudge, diretor da Anbima, a tendência é que esse tipo de fundo ganhe mais espaço no mercado brasileiro. “Quando olhamos para mercados mais desenvolvidos, a participação dos ETFs é bem maior do que no Brasil, justamente por características como custo mais baixo e acessibilidade”, disse o profissional em evento voltado à imprensa.

O movimento foi puxado pelos ETFs de renda fixa, que responderam por 88% da captação da classe em junho, ou R$ 5,2 bilhões. Esse foi o 16º mês seguido de ingressos líquidos de capital positivos para esse tipo de fundo.

No acumulado de janeiro a junho, os ETFs somaram R$ 32,5 bilhões em ingressos líquidos, mais de seis vezes o volume registrado no mesmo período do ano passado.

Só os ETFs de renda fixa acumularam captação de R$ 27,1 bilhões nos primeiros meses do ano, também concentrando a maior parte do capital aportado, contra R$ 5,3 bilhões dos ETFs de renda variável.

Desde dezembro, os fundos de índice ligados à renda fixa superam com folga a captação dos ETFs de ações.

As razões por trás do movimento

Os juros altos, com a Selic em 14,25% ao ano, explicam parte da atração pelos ETFs de renda fixa. Com o juro básico elevado, o investidor em geral tem menos incentivo para assumir risco, já que encontra retornos relevantes em alternativas mais conservadoras. Mas o avanço dos ETFs não se resume ao ciclo de juros.

As características do produto também ajudam a explicar esse crescimento: custo baixo, praticidade e eficiência tributária. Para a pessoa física, as taxas de administração costumam ficar entre 0,1% e 0,3% ao ano, bem abaixo da média do mercado. Além disso, o Imposto de Renda incide a uma alíquota fixa de 15% sobre o ganho na venda das cotas, independentemente do prazo da aplicação.

Outro ponto é que os ETFs de renda fixa não são impactados pelo chamado “come-cotas”, antecipação de IR que incide a cada seis meses sobre fundos tradicionais de renda fixa, como os fundos DI.

Um dos fatores que pode acelerar esse crescimento é a criação dos ETFs ativos, tema em discussão na CVM (Comissão de Valores Mobiliários), disse Rudge.

Diferentemente do ETF tradicional, que replica um índice de forma passiva, o ETF ativo permite que o gestor escolha os ativos da carteira com o objetivo de superar um benchmark, em uma gestão mais parecida com a de um fundo tradicional. Hoje, a regra brasileira só permite ETFs passivos.

A oferta também acompanhou o movimento de crescimento da demanda.

O número de ETFs disponíveis no mercado saltou de 132 fundos em junho de 2025 para 202 em junho deste ano, alta de 53%.

A base de investidores também cresceu: o número de contas passou de 1,14 milhão em junho do ano passado para 1,65 milhão em maio, o dado mais recente disponível.

Renda fixa segue como carro-chefe

Os fundos de renda fixa continuaram como o principal destino do dinheiro na indústria de fundos na primeira metade do ano. A classe de ativos captou R$ 108,4 bilhões entre janeiro e junho, o equivalente a 59% de todo o ingresso líquido da indústria, seguida pelos ETFs.

“A se manter o cenário atual, de juros altos e incertezas externas, a renda fixa deve continuar sendo o carro-chefe das captações”, disse Rudge.

Dentro da renda fixa, o destaque foram os fundos de baixa duração com crédito livre, que captaram R$ 70,3 bilhões, e os de baixa duração soberanos, com R$ 26 bilhões.

Os fundos de renda fixa duração baixa crédito livre também tiveram o melhor desempenho da classe, com rentabilidade de 6,8% no semestre, em linha com o CDI e acima da média dos fundos de renda fixa, de 5,5%.

Além da renda fixa e dos ETFs, os fundos estruturados também se destacaram no período. FIPs (Fundos de Investimento em Participações), FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) e Fiagros (Fundos de Investimento nas Cadeias Agroindustriais) somaram quase R$ 68 bilhões em captação líquida entre janeiro e junho.

Os FIPs captaram R$ 32,1 bilhões, enquanto os FIDCs receberam R$ 30,6 bilhões. Os Fiagros somaram R$ 5,1 bilhões.

A leitura da Anbima é que esses produtos seguem ganhando espaço como veículos de financiamento da economia real. Os FIPs, principal instrumento de private equity e venture capital no país, não registraram nenhum mês de captação negativa nos últimos 12 meses.

O movimento dos FIPs também tem sido sustentado pelo capital estrangeiro, que segue vendo oportunidades de investimento de longo prazo no país e respondeu por cerca de metade da captação líquida desses fundos no período, afirmou Julya Wellisch, diretora da Anbima, no mesmo evento.

Multimercados seguem na lanterna

Na outra ponta, os fundos multimercados continuam sem conseguir virar o jogo de perda de recursos. A classe teve o maior resgate líquido entre as categorias da Anbima, de R$ 9,9 bilhões no semestre, seguida por previdência e ações, com saídas de R$ 8,6 bilhões e R$ 6,5 bilhões, respectivamente.

“Os multimercados refletem a aversão a risco e a dificuldade dos fundos de se mostrarem atrativos em um ambiente em que o investidor continua encontrando boas alternativas na renda fixa”, afirmou Rudge. A rentabilidade média dos multimercados ficou em 3,8% no semestre, abaixo do CDI, de 6,8%.

Já os fundos de previdência foram impactados pelas mudanças tributárias recentes, que afetaram a atratividade do produto, explicou Rudge.

A captação líquida da indústria de fundos como um todo chegou a R$ 184,7 bilhões no primeiro semestre, mais que o dobro dos R$ 84 bilhões registrados no mesmo período de 2025.

Essa foi a segunda melhor captação para um primeiro semestre nos últimos cinco anos, atrás apenas de 2024, quando a indústria teve entradas de R$ 191,3 bilhões.

O patrimônio líquido total da indústria chegou a R$ 11,1 trilhões, alta de 10% em 12 meses, enquanto o número de contas subiu 9,5%, para 45,6 milhões.

Renda fixa e bolsa: como ficam os investimentos com os novos rumos das taxas de juros

19 de Junho de 2026, 13:10

A Superquarta das decisões sobre juros no Brasil e nos Estados Unidos deixou uma mensagem dividida para investidores tanto na renda fixa como na variável.

No Brasil, o Copom (Comitê de Política Monetária) cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano, e manteve aberta a possibilidade de novas reduções. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve, banco central americano, manteve os juros entre 3,5% e 3,75%, mas as projeções dos dirigentes voltaram a colocar no radar a chance de altas ainda em 2026.

O efeito imediato foi de pressão sobre o dólar e cautela com ativos de risco. Na quinta-feira (18), a moeda americana subiu para R$ 5,18, alta de 1,16%, enquanto a bolsa brasileira fechou em leve queda.

“A expectativa já era que o Fed mantivesse os juros. O grande ponto foi falarem em alta de juros ainda neste ano nos EUA”, disse Celson Placido, CIO da Apent, holding controladora do Clube FII e da Autem Investimentos. “Isso gera aversão ao risco e contribui para jogar o dólar para cima. Além disso, esse (menor) diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos tende a afetar o nosso mercado.”

Renda fixa segue atrativa

Na renda fixa, com a Selic em 14,25% ao ano, as taxas nominais e reais continuam elevadas.

Para médio e longo prazo, títulos IPCA+ seguem interessantes por causa das taxas em patamares historicamente elevados, mas exigem cuidado com a chamada marcação a mercado. A taxa contratada vale para quem carrega o papel até o vencimento. Se o investidor precisar vender antes, o preço do título pode oscilar e até gerar perda se os juros futuros subirem, como tem sido o caso.

“Olhando para o médio e longo prazo, o IPCA+ segue extremamente interessante. Também tem taxa prefixada curta [com vencimento no curto prazo] atrativa”, disse Placido.

Nas cotações consultadas no Tesouro Direto, o Tesouro IPCA+ com vencimento em 2032 era vendido na quinta a uma taxa de 8,41% ao ano acima da inflação, renovando sua máxima histórica.

Nos prazos mais longos, o Tesouro IPCA+ 2040 e o Tesouro IPCA+ 2050 mostraram leves recuos, mas ainda fecharam com taxas de 7,50% e 7,18% na quinta-feira. Já o Tesouro Prefixado 2032 era oferecido a 14,78% ao ano, ante 14,67% no dia anterior.

Para recursos pensados para formar reserva de emergência, caixa e capital de curto prazo, Placido afirma que os produtos pós-fixados de alta liquidez, como Tesouro Reserva, Tesouro Selic e CDBs atrelados ao CDI com liquidez diária, seguem sendo os mais indicados.

A equipe de renda fixa da XP Investimentos também identifica oportunidades na classe. Em relatório, os analistas afirmam que a combinação de carrego elevado, spreads (prêmio de risco) em ajuste e fundamentos ainda resilientes reforça a atratividade dos títulos.

“Recomendamos prazo médio de até 6 anos, principalmente nos títulos indexados à inflação, privilegiando exposição a emissores com métricas de crédito de qualidade. O cenário atual exige maior disciplina na alocação”, comentam os analistas.

Na curva de juros (que reflete as apostas para as taxas nos próximos anos), a reação tende a ser diferente por prazo. Na chamada ponta curta, em papéis de renda fixa de vencimento no curto prazo, a possibilidade de mais um corte pode favorecer a queda das taxas.

Nos contratos com vencimentos mais longos, riscos de inflação, fiscal e câmbio mantêm os prêmios elevados: se o investidor puder carregar papéis como IPCA+ até o vencimento, terá chance de contratar retornos mais elevados.

Bolsa ainda exige seletividade

Na bolsa, o corte da Selic tende a favorecer empresas mais sensíveis ao ciclo doméstico, como as de varejo, construção civil, consumo e companhias dependentes de crédito. Juros menores reduzem o custo de capital e melhoram o valor presente dos fluxos de caixa, o que se traduz em preços mais altos.

Mas o espaço para cortes, ainda que estejam no radar, é menor do que o esperado no começo do ano. O impacto para tais empresas, portanto, não deve ser muito significativo.

E o Fed com abordagem mais rigorosa limita o otimismo. Se os juros americanos subirem, ou se o mercado continuar precificando um aperto adicional, o dólar tende a ganhar força e o apetite por risco diminui. Isso pesa sobre emergentes e pode reduzir o fluxo para a bolsa brasileira.

Nesse ambiente, a seletividade continua a exercer importância. Empresas com geração de caixa, baixa alavancagem, balanços sólidos e boa previsibilidade de receitas tendem a atravessar melhor a volatilidade do que companhias muito dependentes de uma queda rápida dos juros.

A síntese é que a renda fixa continua oferecendo prêmios elevados, mas exige atenção ao prazo. A bolsa pode se beneficiar se o câmbio aliviar e a curva de juros – com as projeções da taxa ao longo dos próximos anos – cair, mas segue vulnerável ao exterior. E o dólar virou uma variável-chave a ser monitorada para entender até onde o ciclo de cortes da Selic ainda pode ir.

O que esperar do dólar e seus efeitos

Para José Faria Júnior, diretor da Wagner Investimentos, o ponto de atenção mais imediato para investidores no câmbio é o DXY, índice que mede a força do dólar frente a uma cesta de moedas fortes. Quando o índice sobe, mercados emergentes costumam sentir pressão sobre câmbio, juros futuros e fluxo estrangeiro de capital para ativos.

O DXY voltou a testar a região dos 100 pontos, considerada técnica e psicologicamente relevante para os participantes do mercado.

“Se o DXY começar a bater nos 101 pontos, isso pode levar a uma arrancada do dólar, gerar uma onda de pessimismo e fazer o real a se desvalorizar, complicando um pouco a vida do BC aqui”, disse Faria.

Isso não significa que o dólar, sozinho, determine a decisão da Selic. Mas um real mais depreciado pode piorar as expectativas de inflação, elevar os prêmios de risco da renda fixa com vencimento para o longo prazo e reduzir o espaço para uma leitura mais benigna dos ativos brasileiros.

Entenda as razões do Copom…

Apesar de reconhecer em seu comunicado junto com a decisão um cenário mais desconfortável para a inflação, o Banco Central não fechou a porta para novos cortes.

O motivo está no espaço deixado para novas reduções da Selic e no chamado alongamento do horizonte relevante da política monetária.

A partir da próxima reunião, em agosto, o Copom passa a olhar com mais peso o primeiro trimestre de 2028, e não mais o quarto trimestre de 2027. Esse deslocamento dá mais tempo para a inflação convergir à meta e ajuda a explicar o corte, mesmo em um ambiente ainda desafiador.

“No Brasil, a meta é móvel. Estamos a poucos dias do terceiro trimestre, então o Copom ganha três meses. O Relatório de Política Monetária, a ser divulgado na próxima quinta-feira (25), vai trazer as expectativas de inflação para o primeiro trimestre de 2028, que será o próximo horizonte relevante”, afirma o diretor da Wagner Investimentos.

Para ele, o BC foi mais dovish por dois motivos: deu mais peso à atividade econômica e passou a considerar que a queda das commodities pode ajudar a inflação nos próximos meses. Itens como alumínio, ureia, milho, soja e trigo já recuaram, mas ainda sem repasse completo ao consumidor.

“Provavelmente, não é um ciclo de cortes. É um ciclo de ajuste. Ele [Banco Central] deixou a porta aberta. Se tivermos uma surpresa positiva com commodities e algum repasse para preços, não me surpreenderia outro corte”, disse Faria.

… e as razões do Fed

Nos EUA, a manutenção dos juros era esperada. O que mexeu com os mercados foi a sinalização do banco central de que uma alta ainda pode ocorrer este ano.

Faria avalia que o Fed pode ter usado o discurso mais duro para conter o que apontou como excesso de otimismo do mercado, não necessariamente porque a alta seja o cenário mais provável.

“Faz sentido dar um certo susto em falar em subir agora, para o mercado não ficar muito animado”, afirma.

Para ele, se os próximos dados de inflação vierem mais brandos, a alta pode não se concretizar. A queda recente do petróleo e de outras commodities ajuda essa tese.

O dado mais observado será o CPI, índice de preços ao consumidor dos EUA. A leitura de junho será divulgada em 14 de julho. O CPI não é a medida oficial perseguida pelo Fed, que mira o índice de preços PCE, mas costuma influenciar as apostas do mercado para os juros americanos.

Ainda assim, Faria ressalta que cortes de juros nos EUA também não estão mais em discussão no curto prazo. A economia americana segue resiliente, o mercado de trabalho continua firme e a inflação permanece acima da meta há cinco anos.

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