Juros nos EUA sobem para níveis historicamente altos: oportunidade para investir em dólar
As chances de que o próximo movimento do Fed seja uma alta de juros e não um corte, como o mercado esperava há menos de um mês, só aumentam.
Nesta quinta-feira (21), o FedWatch, ferramenta que acompanha o posicionamento de investidores sobre o rumo da política monetária do BC americano, mostra que o mercado já enxerga mais de 62% de possibilidades de uma elevação de taxas já em dezembro. Dois dias atrás, o percentual era de 56%.
E se o Fed realmente passar a sinalizar que uma alta se aproxima? Para o investidor local, há uma oportunidade clara: aumentar a fatia do portfólio na renda fixa em dólar.
Os retornos dos Treasuries, os títulos do governo americano, têm subido nas últimas semanas e voltaram a patamares historicamente elevados. Tudo por conta da preocupação com uma eventual guinada no rumo da política monetária dos EUA em meio aos sinais de que a inflação lá fora vai acelerar.
O papel com vencimento em 10 anos já alcança um “yield” de 4,6% ao ano nesta quinta-feira, no nível mais elevado desde janeiro de 2025.
A Treasury de 30 anos está com rendimento de 5,14% anuais, o maior em 19 anos.
Existe ainda um outro argumento para o investidor brasileiro passar a olhar com mais atenção a renda fixa gringa. Se o Fed realmente passar a sinalizar uma alta de juros para os últimos meses do ano, um efeito esperado é o fortalecimento do dólar.
A moeda americana voltou nesta semana ao patamar de R$ 5, justamente, por conta da subida das taxas dos títulos americanos. Isso porque um aumento de retorno nas Treasuries passa a atrair mais recursos ao mercado dos EUA, tanto pela alta dos yields quanto pela própria perspectiva de fortalecimento do dólar.
Agora vamos considerar a hipótese de a moeda americana valorizar 10% até o fim do ano e os juros das Treasuries se manterem em um patamar entre 4% e 4,5% ao ano, caso o Fed realmente decida subir as taxas.
Nesse cenário, o retorno em dólar já superaria 100% da Selic/CDI.
Diante da aceleração inflacionária global persistente, esse quadro, cada vez mais, torna-se uma possibilidade real.
O momento para o investidor também recebe ajuda do câmbio – ainda – favorável. Apesar da alta recente, a moeda americana exibe recuo de 8,91% em 2026, de janeiro a metade de maio.
Na prática, significa que a cotação do dólar se mantém positiva ao mesmo tempo que os juros lá fora sobem.
Basta a moeda americana zerar a queda do ano, por exemplo, para a parte dolarizada da carteira, praticamente, igualar o retorno da Selic e do CDI esperado pelo mercado no fim de 2026, de 13%, conforme o boletim Focus do Banco Central.
Como investir em dólar no Brasil
Quem busca investir na moeda americana encontra nos ETFs, ou seja, nos fundos de índice listados em bolsa, os principais aliados.
Aqui mesmo na B3 há diferentes produtos – de ETFs a BDRs de ETFs – que podem ser usados para as aplicações na renda fixa gringa.
O It Now S&P Tesouro Americano 10 Anos (T10R11), do Itaú, segue um índice que acompanha o desempenho de contratos futuros de títulos do Tesouro dos EUA de 10 anos.
O investidor pode ainda buscar ETFs de índices de renda variável, como o S&P 500, como opção para dolarizar parte do portfólio. Entre os mais conhecidos estão o iShares S&P 500 FIC (IVVB11), da BlackRock, e o IT Now S&P500 TRN (SPYI11), da Buena Vista.
Já os Brazilian Depositary Receipts (BDRs) são recibos que representam um ativo estrangeiro aqui no nosso mercado. Um BDR de ETF, portanto, é uma maneira de “importar” para o ambiente da B3 as cotas de fundos de índice internacionais.
A BlackRock, por exemplo, disponibiliza diversos BDRs de ETFs de renda fixa americana no Brasil. Entre eles estão o BGOV39, que segue o iShares US Treasury Bond ETF, focado em títulos do Tesouro americano com prazos variados; o BSHV39, que replica um índice de títulos do Tesouro americano de curto prazo; e o BLQD39, de títulos corporativos de empresas com grau de investimento.
E direto no exterior
O investidor brasileiro também consegue investir diretamente em ETFs internacionais por meio das contas globais, como Avenue, Wise e Nomad, entre outras.
A maioria dos ETFs de títulos públicos americanos, mesmo os de curto prazo, já rendem em torno de 4% ou mais ao ano.
O ETF VBILL, da Vanguard, que segue um índice de notas do Tesouro americano de curtíssimo prazo, por exemplo, já apresenta um retorno perto de 4% ao ano.
Existem outros ETFs de títulos curtos do Tesouro americano. Os dois com maior liquidez – facilidade de negociação – além do VBILL são o SPDR Bloomberg 1-3 Month T-Bill ETF e o iShares 0-3 Month Treasury Bond ETF. As cotas desses ETFs têm sido negociadas por preços acessíveis, entre US$ 75 e US$ 100.
Moeda forte vira proteção
A fatia dolarizada do portfólio, no entanto, tem de ser vista como um complemento aos vários tipos de ativos dentro de uma carteira diversificada. A moeda forte dentro desse conceito funciona, justamente, como uma maneira de proteger o conjunto dos investimentos em momentos de estresse.
Um cenário de alta de juros nos EUA, por exemplo, pode levar a uma reversão estrutural do fluxo de recursos estrangeiro que entrou no Brasil com força desde 2025 até meados de abril. A indefinição sobre a guerra no Irã e, portanto, sobre a duração dos choques de queda na oferta e de alta de preços do petróleo, tem levado investidores a adotar uma postura mais cautelosa.
E mais cautela significa embolsar os lucros dos investimentos mais arriscados, como aqueles realizados nos emergentes, e um reposicionamento nos chamados “portos seguros”, como o dólar.
Se o fluxo se reverter de vez, a consequência é uma queda sustentada da bolsa no curto prazo e o aumento da pressão inflacionária por meio do câmbio. Nesse ambiente, o Banco Central pode ter de pausar os cortes da Selic mais cedo.
A parcela do portfólio em dólar, por outro lado, tende a se valorizar – daí a idéia de proteger a carteira em momentos mais complicados.