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J&F, dos Batista, se prepara para virar companhia aberta e ampliar acesso ao mercado de dívida

18 de Setembro de 2026, 19:23

A J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista, está se preparando para se tornar oficialmente uma companhia aberta no Brasil, em um movimento que pode ampliar seu acesso ao mercado brasileiro de dívida, apurou o InvestNews.

O grupo pediu à CVM (Comissão de Valores Mobiliários) registro na categoria B, que permite a negociação de títulos de dívida, como debêntures e notas comerciais, mas não de ações da companhia. O pedido foi protocolado na última segunda-feira (14) e está em análise pela autarquia.

A iniciativa ocorre depois de a J&F captar US$ 400 milhões no exterior com a emissão de bonds, em abril deste ano. O movimento acompanha uma reorganização em curso que vem transformando a antiga holding de investimentos em um conglomerado industrial com gestão financeira centralizada.

O grupo reúne negócios como Âmbar Energia, Eldorado Brasil Celulose, LHG Mining e Flora, de higiene e cosméticos, além da participação no controle da JBS.

A companhia de alimentos, listada hoje na Bolsa de Nova York, ficou fora do plano de incorporações e mantém estrutura societária e governança próprias.

Categoria B

A J&F já emite dívida no Brasil como companhia fechada. Em dezembro de 2024, por exemplo, captou R$ 1 bilhão em debêntures em uma oferta destinada exclusivamente a investidores profissionais.

O registro na categoria B pode ampliar o público das futuras captações, ao mesmo tempo que submete a empresa às exigências de divulgação de informações de uma companhia aberta.

Além de permitir a negociação de títulos de dívida, o registro, se aprovado, sujeitará a J&F às obrigações de divulgação de informações previstas pela CVM.

Entre elas estão demonstrações financeiras, informações trimestrais e o formulário de referência, documento que detalha os negócios, os riscos e a estrutura da companhia.

O acesso ao mercado de capitais é um dos objetivos declarados da reorganização anunciada pela J&F S.A. em fevereiro.

Na ocasião, a companhia apresentou a mudança de nome – antes se chamava J&F Investimentos – e um plano para incorporar negócios integralmente controlados e integrar sua gestão financeira.

O que muda?

A mudança vai além do nome. A J&F está incorporando empresas que antes controlava por meio de participações acionárias.

A Âmbar, por exemplo, passou a ser a unidade de energia da própria J&F: mantém uma equipe para tocar o negócio, mas seu presidente responde ao CEO do conglomerado.

O dinheiro também passa a ser administrado de forma conjunta. A J&F centraliza a captação de recursos e sua distribuição entre os negócios incorporados, avaliando as necessidades de cada operação.

Ao reunir diferentes fontes de receita e garantias de empresas do grupo, a J&F pode conseguir juros menores do que cada negócio obteria ao captar recursos por conta própria.

O processo também incluiu mudanças na governança, com um conselho de administração de sete integrantes, quatro deles independentes, e um conselho fiscal formado por três membros independentes.

Novos caminhos dos Batista

A reorganização também ajuda a entender a divisão dos investimentos dos Batista entre a J&F e a Globe Investimentos, o family office de Wesley e Joesley.

A entrada dos investidores que compraram os bonds reforçou o foco da J&F em negócios maduros e geradores de caixa. Outras apostas dos controladores passaram a ficar sob o guarda-chuva da Globe.

Foi por esse veículo que os irmãos fecharam o acordo para comprar a fabricante de equipamentos militares Avibras, aprovada recentemente pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica).

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A aposta nuclear dos irmãos Batista: Âmbar assume lugar da Eletrobras e herda o dilema de Angra 3

15 de Outubro de 2025, 13:24

O avanço dos irmãos Wesley e Joesley Batista no setor elétrico brasileiro ganhou um novo capítulo nesta quarta-feira (15) – um símbolo da ambição empresarial e da habilidade política dos goianos. A Âmbar Energia, do grupo J&F, agora é sócia do governo nas usinas nucleares de Angra dos Reis (RJ).  

Por R$ 535 milhões, a Âmbar tornou-se dona de 68% do capital total e de 35,% do capital votante da estatal Eletronuclear, responsável pelas usinas Angra 1, 2 e 3. As duas primeiras estão funcionando e, como destacou a Âmbar no comunicado de compra, “possuem contratos de longo prazo, o que garante receitas previsíveis”. 

Na quarta-feira (9) passada, o presidente Lula sancionou uma lei que altera o modelo de financiamento da energia nuclear. A partir de 1º de janeiro de 2026, o custo mais alto da eletricidade produzida em Angra 1 e 2 será diluído entre todos os consumidores por meio de um adicional tarifário — com exceção das famílias de baixa renda. Até aqui, os custos adicionais ficavam concentrados em contratos específicos com algumas distribuidoras.

Assim, a Âmbar terá uma base de financiamento mais estável para os seus compromissos com a Eletronuclear.

Angra 3 é um canteiro de obras inacabadas há 40 anos, protagonista de um dos jogos de empurra mais duradouros e caros do setor elétrico do país. Estima-se que o Brasil já tenha gastado cerca de R$ 12 bilhões com a usina-que-nunca-termina. Para finalizar a obra seriam necessários mais R$ 23 bilhões, dois bilhões a menos do que o custo para desmontá-la, segundo projeções feitas pelo BNDES. 

Quando da privatização da Eletrobras, em 2022, ficou acordado que a empresa teria obrigação de investir na usina inacabada, uma tentativa de mitigar os riscos da privatização e de encontrar um final feliz para Angra 3.

Isso significava que a Eletrobras teria de investir R$ 2,4 bilhões comprando títulos de dívida (debêntures) emitidos pela Eletronuclear, uma obrigação que agora passa a ser da Âmbar. A empresa dos Batista assume também as garantias financeiras antes dadas pela Eletrobras em favor da estatal. É um alívio para a Eletrobras: sem a Eletronuclear, seu perfil de risco melhora e sua estrutura societária fica mais simples.

Tempos depois da privatização da Eletrobras, um novo acordo mudou o jogo: em troca de mais duas cadeiras no conselho da ex-estatal, o governo se comprometeu a encontrar um novo sócio que assumisse os compromissos da companhia na usina. Quem ficou encarregado de conduzir o processo foi o BTG Pactual.

Nos bastidores, a expectativa era de que esse novo sócio poderia ser uma estatal estrangeira – entre abril e maio, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, se encontrou com executivos da chinesa CGN e da russa Rosatom. A solução com uma empresa brasileira, no entanto, foi considerada mais adequada.

Dados financeiros do impasse de uma usina: custos de construção (gasto e falta), desistência, manutenção e energia gerada.

“O ingresso de capital privado nacional pode ampliar o horizonte de financiamento da energia nuclear no Brasil, desde que preservadas a governança pública, o compliance rigoroso e a subordinação técnica às normas”, afirma Leonam Guimarães, ex-presidente da Eletronuclear.

A saída da Eletrobras e entrada da Âmbar, conjectura Guimarães, pode “reforçar o caixa necessário à conclusão de Angra 3”.

A Eletronuclear segue formalmente sob controle da União, por meio da ENBPar, estatal criada durante a privatização para abrigar ativos estratégicos que não poderiam ser privatizados, como as operações nucleares e a participação brasileira em Itaipu.

Pessoas próximas à negociação disseram ao InvestNews que “se o governo decidir fazer [a obra para finalizar Angra 3], o projeto será avaliado” pela Âmbar. É a primeira vez que um grupo privado brasileiro passa a ter presença relevante em uma empresa do setor nuclear.

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Criada para administrar termelétricas no Centro-Oeste, a Âmbar se tornou, em poucos anos, uma das maiores geradoras privadas do país. Desde 2023, comprou dezesseis termelétricas a gás natural, duas distribuidoras (Roraima Energia e Amazonas Energia), dezesseis pequenas hidrelétricas, usinas solares e de biomassa, e até um gasoduto de 645 quilômetros entre a Bolívia e o Mato Grosso.

Para o governo, a operação pode evitar o desgaste de um novo aporte público em Angra 3 (a equipe econômica sempre foi contra) enquanto preserva o controle formal da União sobre a energia nuclear e atrai um sócio de capital nacional, com fôlego financeiro e disposição para investir em longo prazo. 

Ainda assim, o desafio é imenso. A Eletronuclear segue fragilizada e a retomada de Angra 3 depende de um novo modelo de financiamento e de decisão política. O BNDES prepara um estudo atualizado, que deve redefinir custos, cronograma e responsabilidades. Até lá, o projeto continuará parado, custando até R$ 1,2 bilhão ao ano para não gerar energia.

*Colaboraram Felipe Mendes e Rikardy Tooge

Usina nuclear em complexo industrial costeiro, com reatores, subestação e píer, cercada por floresta e montanhas.
Foto: Getty Images

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