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Ao alcance das mãos (por Fábio Canatta) 

Por:Sul 21
22 de Fevereiro de 2026, 08:28

Fábio Canatta (*)

Acompanhar o crescimento dos meus filhos é a experiência mais incrível — e mais desafiadora — que já vivi.

Ultimamente, porém, essa alegria anda de mãos dadas com um sentimento estranho. É como se o fim estivesse ali, dobrando a esquina, pronto para me tirar aquilo que hoje parece eterno.

Andar de mãos dadas.

Hoje eles voltaram às aulas. Ernesto foi para o sexto ano. Cecília, para o segundo. Entramos na escola de mãos dadas, como sempre. Mas bastou cruzar o portão para a ansiedade acelerar os passos. Os amigos, as histórias das férias, o reencontro — tudo chamava mais alto.

Cecília, com seus sete anos, falava sem respirar, animada, inteira naquele momento. Eu observava de perto, fingindo naturalidade. De vez em quando ela corria até mim, eufórica, para contar algo ou perguntar qualquer detalhe sobre a aula que ainda nem tinha começado.

Por quanto tempo ela ainda vai me querer ali, ao alcance do braço?

Por quanto tempo meu olhar não será motivo de constrangimento?

Ernesto tem dez. Faz onze em março. Ele ainda caminha pendurado em mim. Não basta a mão: ele agarra o antebraço inteiro, procura um espaço entre meu braço e minha cintura, encosta o corpo como quem ancora o próprio mundo. Faz isso na rua, no shopping, na frente dos amigos, até na escolinha de futebol. Enquanto outros meninos já ensaiam distância, ele me puxa para perto, sem cerimônia.

Eu amo isso já com saudade.

Quando caminho com meus filhos por aí, sinto que nada pode nos acontecer. As mãozinhas dentro da minha mão são um pacto silencioso: estamos juntos, somos fortes, o mundo é uma aventura. Nos bastamos.

Mas por quanto tempo?

Talvez seja egoísmo enxergar o crescimento deles como perda. Crescer é o que eu sempre quis para eles. Independência é vitória. Autonomia é sinal de que fizemos certo.

Eu tento acreditar nisso.

Ainda assim, a ideia de vê-los atravessando a vida sozinhos — sem procurar meus dedos no escuro, sem escorar o peso do corpo no meu braço — tem algo de despedida antecipada.

Um dia, eles atravessarão o portão sem olhar para trás. E eu estarei ali, parado, talvez com a mão ainda suspensa no ar — não mais para segurá-los, mas para aplaudir a coragem de irem.

É claro, se eu tiver coragem.

(*) Jornalista, pai do Ernesto e da Cecília

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