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O voo do colibri: inércia ou movimento? (Coluna da Appoa)

Por:Sul 21
24 de Março de 2026, 07:48

Silvia Ferreira (*) 

Como acompanhar o voo de um colibri, esse ser tão pequeno e que se movimenta com tanta intensidade para, paradoxalmente, manter-se parado? É a partir dessa imagem literária que o escritor Sandro Veronese nos conta a história de Marco Carrera, personagem protagonista de O Colibri, obra vencedora do prêmio Strega de 2020 e na qual é abordada de forma provocadora uma discussão bem atual, aquela que nos coloca ante o dilema de aderirmos ao forte empuxo social à produção, ao movimento, ou de optarmos pela potência que subjaz à capacidade de resistir a ele. 

Ao narrar a trajetória de Marco, personagem com uma história atravessada por inúmeros sofrimentos e que dedica toda uma vida “a manter a estabilidade da bolha” que o cerca, o autor nos leva por um caminho que inevitavelmente nos faz refletir acerca da questão da passividade e do deslocamento, produzindo em nós, leitores e leitoras, um desconforto e uma pergunta que nos acompanha por todo o percurso do protagonista: afinal, por que ele não age? Pergunta essa que é desdobrada no romance em dois fios narrativos que se entrelaçam: o pássaro, metáfora do paradoxo que a posição de Marco representa, e a corda, metonímia do nó que amarra sua vida desde a infância. 

O pássaro é o colibri, apelido que Marco ganhou da mãe em função da sua baixa estatura. A mãe vê nessa condição um valor de harmonia relacionado ao equilíbrio das formas naturais, à magnitude de ser pequeno. Por outro lado, tornar-se um colibri era a recompensa máxima destinada aos guerreiros astecas que se ofereciam para morrer em sacrifício.  

A corda é o objeto posto em jogo no combate que se estabelece entre Marco e sua irmã na primeira tentativa de suicídio dela; é o fio que liga imaginariamente as costas de sua filha Ádele, de quatro anos, à parede, mantendo-a em segurança; mas também é a corda que se rompe alguns anos mais tarde, causando a morte dessa mesma filha em uma escalada pelas montanhas; e, por último, é o tecido, a rede que permite a Marco cuidar sozinho da neta, filha da filha morta, quando o luto parecia intransponível.

O voo e a estabilidade. Foi ao auxílio de uma corda que Ulisses (como Àdele) recorreu quando precisou manter-se amarrado ao mastro de seu navio para não sucumbir ao canto das sereias. Mas Ulisses navegava, singrava os mares; Marco, não. Para ele, sua força, energia e coragem estão relacionadas ao poder de se manter parado. 

Em uma direção similar, o filósofo Byung-Chul Han, no livro Sociedade do cansaço apresenta uma teoria que faz uma correlação entre o surgimento de novas patologias e um ideal discursivo e social de aceleração e produção. Segundo ele, a partir do século XXI, a globalização, as vivências em rede e o neoliberalismo teriam produzido uma lógica do desempenho que exige cada vez mais esforços individuais dos cidadãos, resultando em enfermidades características desse excesso, tais como a síndrome de bornout e a depressão. Se, no século passado, período regido por uma sociedade disciplinar alicerçada no não, na negatividade, a defesa consistia em eliminar todo e qualquer elemento estrangeiro de forma a proteger-se de qualquer tipo de infecção – viral, bacteriológica ou ideológica –, atualmente a proteção consistiria em não se submeter ao imperativo da produtividade. Se, como sociedade, estamos cansados, deveríamos reduzir o ritmo de produção ou parar.

Antes do filósofo sul-coreano, nos anos 1900, no período de entreguerras, Georges Bataille já havia apontado os efeitos nocivos da aposta excessiva na produtividade, mas, adotando um entendimento diverso do negativo, propunha uma saída que não envolvia uma retração. Para esse autor, a negatividade não diz respeito apenas ao controle social, mas é elemento estruturante daquilo que nos torna humanos: de fato, foi negando a natureza animal que nos constituía que surgimos. E, avançando mais ainda no raciocínio de Bataille, se o negativo é a força motriz, ela deve ser gasta em gestos que não sirvam ao propósito de conservação, mas ao dispêndio. Para esse autor, o caminho que nos protege da servidão é aquele que mobiliza nossa capacidade de nos colocarmos em risco, e que incentiva a coragem de perder tudo aquilo que nos garantiria uma vida tranquila, para ganharmos uma outra vida mais intensamente vivida.

Autores e proposições diferentes: parar como forma de resistência ou avançar em outra direção? Entre Ulisses e Marco haveria duas coragens distintas em causa, uma de partir e outra de permanecer? Para Marco, é o amor pelo pai, pela mãe, pela irmã, pela filha e pela neta o laço que o faz abrir mão da mulher que esperou por toda uma vida, aquela que, segundo ele, seria o único desejo genuíno de sua existência. Mas seria isso mesmo? Ou seria o amor pela posição sacrificial de renunciar a si em prol do outro que o fez mover-se de forma a não avançar?

Ao final do livro, a pergunta insiste.

(*) Psicanalista, Doutora em Letras – Estudos Literários (UFSM) e membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre. E-mail: rfsilvia1@gmail.com 

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